Marta Temido Nota introdutória ........................................................................................................................
Agradecimentos .......................................................................................................................... XIV
Siglas, abreviaturas e acrónimos ............................................................................................... XV
Capítulo 1 – Hospitalização domiciliária: breve história, enquadramento legal e perspetiva de evolução 1
Irene Santos
1.1. Realidade internacional: emergência e breve história 2
Catarina Rodrigues; Diana Patoleia; Helena Garcia; Joana Miranda; Márcia Rodrigues
Capítulo 3 – Reabilitação no ciclo de vida em hospitalização domiciliária ............................... 57
Cidália Freitas; Filipe Monteiro; Inês de Almeida Ambrioso; Inês Felizardo Lopes; Isilda Ferreira; Marta Rosa; Pedro Ferraz Gameiro; Yahia Abuowda
Capítulo 4 – A polivalência da hospitalização domiciliária ........................................................ 95
Ana Isabel Oliveira; Maria João Guardado; Mariana Ricarti Martins; Mariana Simão de Magalhães; Nélia Oliveira; Sara Torres; Vânia Junqueira; Yahia Abuowda
Capítulo 5 – Abordagens terapêuticas multidisciplinares na hospitalização domiciliária 121
Catarina Burlamaqui Durão; Hélder Amaro; Irene Santos; Isilda Ferreira; João Correia; José Baptista; Mário Abade
Capítulo 6 – Capacitação do doente e do cuidador em hospitalização domiciliária ................. 153
Ana Simões; Jacinta Morais; Sónia Marques Malaca
Hospitalização Domiciliária
Capítulo 7 – Qualidade e segurança na hospitalização domiciliária
Guida Lopes; Nuno Simões; Ana Gil; Nuno Fernandes; Hugo Quintino
201
Capítulo 8 – Normatização dos cuidados e acreditação em hospitalização domiciliária ......... 235
Andreia Silva; Cristiana da Costa; Luisa Meco; Sónia Marques Malaca
Capítulo 9 – Perspetiva ética e jurídica de casos reais de hospitalização domiciliária ............. 263
António H. Carneiro; Ilda Veiga; Irene Santos; Marco Aurélio Constantino; Sónia Marques Malaca; Yahia Abuowda
Índice remissivo 303
Autores
Coordenadores/autores
Irene Santos
Professora Adjunta na Escola Superior de Saúde (ESS) do Instituto Politécnico de Santarém (IPSantarém) (aposentada). Coordenadora da 1.ª edição do Curso de Pós-Graduação em Hospitalização Domiciliária (primeira formação neste âmbito em Portugal). Investigadora Integrada no RISE-Health Research Network | From the Lab to the Community (RISE-Health). Licenciada em Enfermagem, com especialização em Enfermagem de Saúde Pública, pela Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Lisboa (ESEUL) e em Medicina Tradicional Chinesa, pela Universidade de Chengdu, China. Mestre em Sociologia, pela Universidade Nova de Lisboa. Doutorada em Enfermagem, pela Universidade de Lisboa.
Yahia Abuowda
Assistente Hospitalar Graduado em Medicina Interna. Coordenador da Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD) da Unidade Local de Saúde (ULS) da Lezíria, EPE. Professor da 1.ª edição do Curso de Pós-Graduação em Hospitalização Domiciliária. Licenciado e Mestre em Medicina, pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Mestre em Diabetes Mellitus e em Hospitalização Domiciliária, pela TECH Universidad. Pós-Graduado em Medicina do Trabalho e Medicina Social. Certificado em Diabetes pela Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI). Sócio fundador e tesoureiro da Sociedade Portuguesa de Hospitalização Domiciliária (SPHD).
autores
Ana Emídio
Enfermeira na UHD do Hospital Garcia de Orta da Unidade Local de Saúde Almada-Seixal, EPE.
Ana Gil
Enfermeira de Cuidados Gerais na UHD do Hospital Nossa Senhora do Rosário da ULS do Arco Ribeirinho (ULSAR), EPE.
Ana Isabel Oliveira
Assistente Hospitalar de Medicina Interna no Hospital de Vila Franca de Xira da ULS Estuário do Tejo, EPE.
Ana Simões
Farmacêutica Assistente no Hospital Garcia de Orta da ULS Alamada-Seixal, EPE.
Andreia Ambrósio
Enfermeira no Serviço de Pediatria da ULS Médio Tejo (ULSMT), EPE. Licenciada em Enfermagem, com especialização em Enfermagem de Saúde Comunitária, pela ESS/IPSantarém. Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária, pela ESS/IPSantarém.
Hospitalização Domiciliária VI
Andreia Silva
Diretora do Serviço de Gestão da Qualidade da ULS do Oeste (ULSO), EPE. Presidente da Comissão da Qualidade e Segurança do Doente e Gestora do Departamento de Especialidades Médicas, do Centro de Responsabilidade Integrado (CRI) de pneumologia e da UHD da ULSO. Licenciada em Gestão e Administração Pública, com MBA em Gestão e Engenharia da Qualidade e especialização em Administração Hospitalar.
António H. Carneiro
Assistente Hospitalar Graduado Sénior Internista e Intensivista. Coordenador Adjunto do Núcleo de Estudos de Bioética da SPMI (NE-Bio). Diretor Clínico do Hospital da Luz Arrábida. Professor Convidado da Universidade Católica Portuguesa (UCP), da Universidade Fernando Pessoa (UFP) e da Escola Superior de Saúde de Santa Maria (ESSSM).
Catarina Aquino Vieira
Enfermeira no Serviço de Pediatria da ULSMT, EPE. Licenciada em Enfermagem e Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária pela ESS/IPSantarém.
Catarina Burlamaqui Durão
Coordenadora do Telehealth Sales Program da Linde Saúde. Enfermeira Pós-Graduada em Digital Health.
Catarina Rodrigues
Enfermeira Especialista no Serviço de UHD da ULSMT, EPE. Licenciada em Enfermagem, pela ESS do Instituto Politécnico de Portalegre (IPPortalegre). Especialista e Mestre em Enfermagem Comunitária, pela ESS/IPSantarém. Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária, pela ESS/IPSantarém.
Célia Barca
Assistente Social no Serviço de Enfermaria do Isolamento e na Unidade de Cuidados Intensivos Polivalente (1, 2 e 3) da ULSAS, EPE. Membro do serviço social integrante da equipa multidisciplinar de criação da UHD da ULSAS, EPE e do Grupo de Trabalho Nacional das UHD. Licenciada em Serviço Social, pelo Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa.
Cidália Freitas
Enfermeira no Serviço de Pediatria da ULSMT, EPE. Enfermeira Especialista em Reabilitação. Mestre em Enfermagem de Reabilitação, pela ESS/IPSantarém.
Cristiana Costa
Enfermeira em funções de coordenação na UHD de Torres Vedras da ULS da Lezíria, EPE. Especialista em Enfermagem de Reabilitação, pela ESS do Instituto Politécnico de Setúbal (IPS). Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária, pela ESS/IPSantarém.
Diana Patoleia
Enfermeira na Unidade de Saúde Familiar Baía Azul da ULS Arrábida, EPE. Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária, pela ESS/IPSantarém. Mestranda em Saúde Familiar na ESS/IPS.
Estela Gaspar
Enfermeira no Serviço de Pediatria da ULSMT, EPE. Licenciada em Enfermagem e Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária, pela ESS/IPSantarém.
Filipe Monteiro
Vogal do Conselho de Gestão do CRI Polivalente da ULS do Alto Alentejo (ULSAALE), EPE. Enfermeiro Coordenador do CRI Polivalente da ULSAALE, EPE. Membro da Equipa de Coordenação Nacional de Hospitalização Domiciliária.
Edições Técnicas
Guida Lopes
Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação no Serviço de Hospitalização Domiciliária da ULSAR, EPE. Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária, pela ESS/IPSantarém, em Gestão e Inovação em Saúde, pela Escola Superior de Enfermagem A. Francisco das Misericórdias, e em Intervenção em Feridas, pela Universidade de Évora.
Hélder Amaro
Diretor Nacional de Enfermagem do HomeCare – Lusíadas Saúde.
Helena Garcia
Gestora do Serviço Integrado de Cuidados Paliativos e Encarregada de Proteção de Dados na ULSO, EPE. Professora Assistente Convidada da Pós-Graduação em Hospitalização Domiciliária da ESS/IPSantarém (2022/2023). Licenciada em Enfermagem, pela Universidade Católica do Porto, e em Administração de Unidades de Saúde, pela Universidade Autónoma de Lisboa. Mestre em Gestão de Serviços de Saúde, pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. Especialista em Administração Hospitalar pela Escola Nacional de Saúde Pública.
Hugo Quintino
Administrador Hospitalar na ULS do Alentejo Central, EPE. Diretor do Serviço de Gestão e Produção da ULS do Alentejo Central, EPE.
Ilda Veiga
Enfermeira Gestora na UHD da ULS da Lezíria, EPE.
Inês de Almeida Ambrioso
Interna de Formação Específica em Medicina Interna no Hospital de Santarém da ULS da Lezíria, EPE. Mestranda em Geriatria na Universidade de Coimbra.
Inês Felizardo Lopes
Assistente Hospitalar de Medicina Interna no Hospital de Caldas da Rainha da ULSO, EPE.
Isilda Ferreira
Professora Adjunta na ESS/IPSantarém. Responsável pela Pós-Graduação em Hospitalização Domiciliária da ESS/IPSantarém. Investigadora Colaboradora no Centro de Investigação em Qualidade de Vida e no RISE-Health. Mestre e Pós-Licenciada em Enfermagem Médico-Cirúrgica, pela ESEUC. Pós-Graduada em Gestão de Unidade de Saúde, pela ESS/IPSantarém e pela Escola Superior de Gestão e Tecnologia do IPSantarém.
Jacinta Morais
Enfermeira Especialista no Serviço de Pneumologia da ULSMT, EPE. Pós-Licenciada com especialização em Enfermagem de Reabilitação, pela Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC). Mestre em Enfermagem com especialização em Gestão de Unidades de Saúde, pelo IPPortalegre. Pós-Graduada em Supervisão Clínica, pelo IPPortalegre, e em Ventilação Não Invasiva, pela Universidade de Évora.
Joana Miranda
Enfermeira na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) Plátanos da ULSMT, EPE. Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária pela ESS/IPSantarém. Mestranda em Enfermagem Comunitária, na área de Enfermagem de Saúde Comunitária e de Saúde Pública na ESS/ /IPSantarém, conducente ao título de Enfermeira Especialista.
Hospitalização Domiciliária
João Correia
Médico Especialista em Medicina Interna e em Urgência e Emergência. Assistente Graduado de Medicina Interna. Coordenador do Grupo para Implementação de Hospitalização Domiciliária no Hospital Garcia de Orta (2015). Coordenador da UHD do Hospital Garcia de Orta (20152019). Assistente Graduado de Medicina Interna.
José Manuel Baptista
Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação na UHD da ULS Estuário do Tejo, EPE. Pós-Graduado em Gestão e Liderança dos Serviços de Saúde, pela Atlântica – Instituto Universitário, e em Hospitalização Domiciliária pela ESS/IPSantarém. Mestrando em Gestão de Serviços de Saúde no ISCTE.
Luisa Meco
Enfermeira Especialista em Reabilitação. Coordenadora da UHD da ULS da Região de Leiria, EPE. Pós-Graduada em Gestão e Administração em Saúde. Professora Assistente Convidada da ESS/IPSantarém.
Márcia Rodrigues
Enfermeira Especialista no Serviço de Consulta Externa da ULSMT, EPE. Licenciada em Enfermagem, pela ESS/IPPortalegre. Especialista e Mestre em Enfermagem Comunitária, pela ESS/ /IPSantarém. Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária, pela ESS/IPSantarém.
Marco Aurélio Constantino
Sócio e Advogado na BAS – Sociedade de Advogados, SP, RL, com foco de prática nas áreas do Direito da Saúde e das Ciências da Vida, do Direito e do Contencioso Administrativo, da Responsabilidade Médica e em Saúde, em geral, e da Proteção de Dados, entre outras. Assistente Convidado na ESS/IPS e na ESS/IPSantarém. Vice-Presidente da Comissão de Ética da ULS da Lezíria, EPE e Membro da Comissão de Ética do IPSantarém. Licenciado em Enfermagem e em Direito. Doutorando em Bioética na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Maria João Guardado
Médica Radioncologista no Grupo Joaquim Chaves Saúde. Médica de Cuidados Paliativos da Equipa Intra-Hospitalar de Suporte em Cuidados Paliativos e da Unidade de Cuidados Paliativos da ULS da Lezíria, EPE.
Mariana Ricarti Martins
Enfermeira na ULS da Lezíria, EPE. Licenciada em Enfermagem, pela ESEUL. Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária e em Gestão de Feridas Complexas e Viabilidade Tecidular, pela ESS/IPSantarém. Mestranda em Enfermagem de Saúde Comunitária na Área de Enfermagem de Saúde Familiar na ESS/PSantarém.
Mariana Simão de Magalhães
Assistente Hospitalar de Medicina Interna no Hospital de Caldas da Rainha da ULSO, EPE. Mário Abade
Nutricionista Especialista em Nutrição Clínica no Serviço de Nutrição da ULS da Lezíria, EPE. Professor Assistente Convidado na ESS/IPSantarém. Membro do Conselho Regional de Santarém da ELCOS – Sociedade Portuguesa de Feridas. Doutorando em Nutrição Clínica na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto.
Marta Rosa
Professora Coordenadora na ESS/IPSantarém. Investigadora Integrada no Centro de Investigação em Qualidade de Vida. Investigadora Colaboradora do RISE-Health. Mestre em Saúde Pública, pela Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa e em Enfermagem Comunitária, pela ESS/IPSantarém. Doutorada em Ciências de Enfermagem, pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto.
Mónica Alexandre
Assistente Social na UHD e na Equipa de Gestão de Altas da ULS Gaia/Espinho, EPE. Doutoranda no Programa Interuniversitário de Serviço Social da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Membro Doutorando no Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Universidade de Coimbra.
Nélia Oliveira
Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação na UHD da ULS da Lezíria, EPE.
Nuno Gomes Fernandes
Enfermeiro Especialista em Enfermagem à Pessoa em Situação Crónica. Pós-Graduado em Hospitalização Domiciliária, pela ESS/IPSantarém.
Nuno Simões
Enfermeiro Especialista na ULSAR, EPE. Professor Convidado na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa.
Pedro Ferraz-Gameiro
Coordenador Nacional da Hospitalização Domiciliária. Diretor do CRI Polivalente da ULSAALE, EPE. Coordenador das UHD Polivalente de Elvas e Portalegre e da UHD de Reabilitação de Elvas. Assistente Hospitalar de Medicina Física e de Reabilitação.
Sara Torres
Enfermeira de Cuidados Gerais. Licenciada em Enfermagem, pela ESEUC. Pós-Graduada em Hospitalização Domiciliária, pela ESS/IPSantarém.
Sónia Marques Malaca
Enfermeira Especialista na UHD da ULS da Lezíria, EPE. Assistente Convidada da ESS/IPSantarém. Mestre em Hospitalização Domiciliária e em Saúde Comunitária, pela TECH Universidade Tecnológica. Pós-graduada em Gestão de Unidade de Saúde e em Ventilação Não Invasiva, pela Universidade de Évora.
Vânia Junqueira
Assistente Hospitalar em Medicina Interna no Hospital de Caldas da Rainha da ULSO, EPE. Coordenadora Médica da UHD do Hospital de Caldas da Rainha da ULSO, EPE.
Vítor González Ramallo
Médico Especialista em Medicina Interna. Chefe da UHD do Hospital General Universitario Gregorio Marañon, em Madrid. Professor Associado na Faculdade de Medicina da Universidade Complutense de Madrid.
Prefácio
É preciso recuar ao pós-Segunda Guerra Mundial e ao Hospital Montefiore, em Nova Iorque, para encontrar as origens do primeiro programa de hospitalização domiciliária. Cerca de trinta doentes, cuidadosamente selecionados pelos serviços clínicos e sociais do hospital, começaram a receber cuidados médicos e de enfermagem, equivalentes àqueles de que beneficiariam se continuassem internados, mas nas suas próprias casas. A estratégia visava responder à escassez de camas hospitalares, à melhoria do conforto dos doentes e à necessidade de controlo de custos. Os resultados foram, desde o início, promissores, como se pode ler numa edição de abril de 1947, do The New York Times
Nos anos subsequentes, a hospitalização domiciliária expandiu-se, primeiro aos Hospitais da França e do Reino Unido, nas décadas de 1950 e de 1970, respetivamente, depois da Alemanha, Itália e Espanha, nas décadas de 1970 e de 1980. Já quase no final do século, em 1996, reconhecendo os resultados positivos das experiências desenvolvidas, o Comité Regional da Europa da Organização Mundial de Saúde emitiu uma recomendação no sentido da expansão do que designou como “hospital em casa”, com o intuito de estimular o tratamento dos doentes junto das suas famílias e comunidades, assim melhorando a sustentabilidade da prestação bem como a integração e coordenação de cuidados.
Em Portugal, a primeira Unidade de Hospitalização Domiciliária nasceu já em 2015, no Hospital Garcia de Orta, em Almada, e, em 2018, o xxi Governo Constitucional lançou uma estratégia de implementação da hospitalização domiciliária nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que impulsionou, decisivamente, o processo, no quadro de termos de referência administrativos, financeiros e clínicos específicos.
Cerca de uma década depois destes marcos nacionais, é particularmente útil dispor de um livro como este que, começando, exatamente, por um olhar histórico sobre a hospitalização domiciliária e por um outro com uma lente focada no seu desenvolvimento futuro, se concentra ainda em dimensões técnicas deste modelo assistencial, como a comunicação na equipa de saúde, a polivalência da hospitalização domiciliária ou a capacitação do doente e do cuidador, fazendo-o através da colaboração de autores das várias profissões de saúde, maioritariamente com formação específica e experiência profissional na área.
Hoje, aquilo que sabemos sobre a hospitalização domiciliária é, incomparavelmente, mais do que o que conhecíamos quando as primeiras equipas e os primeiros hospitais aceitaram o desafio de criarem as suas unidades:
– Os conceitos foram aplicados: “modelo de assistência hospitalar praticado no domicílio do doente, durante um período limitado de tempo”; “seguimento ativo realizado em casa”; “critérios clínicos, sociais e geográficos de admissão”; “critérios de exclusão”; “equipa multidisciplinar hospitalar”;
– Os instrumentos foram aperfeiçoados: “plano individual de cuidados para cada doente em articulação com a equipa clínica hospitalar e dos cuidados de saúde primários”; “percurso do doente”; “garantia de retorno ao hospital em caso de agravamento clínico”;
As vantagens foram experimentadas: “redução de infeções nosocomiais, delirium e perda de autonomia”; “aumento da satisfação do doente”; “promoção do envolvimento dos familiares”; “otimização de recursos hospitalares”.
E o país evoluiu das 10 camas iniciais, no Hospital Garcia de Orta, para as cerca de 380 no final de 2024, no SNS.
No futuro, os desafios dos sistemas de saúde permanecerão enormes e, apesar dos inúmeros benefícios já colhidos da hospitalização domiciliária, é possível e necessário progredir. Quando todos os sistemas de saúde se debatem com a necessidade de, todos os dias, encontrar novas vias para a eficiência, por força da pressão da procura, da crise da força de trabalho da saúde e da maior informação e expectativa dos cidadãos, uma parte da solução pode residir no reforço da hospitalização domiciliária. O desenvolvimento tecnológico e digital, com toda a sofisticação de equipamentos de monitorização, abriu oportunidades ainda não completamente exploradas.
O estudo e produção de evidência sobre as patologias e situações que podem ser adequadamente tratadas, neste modelo de prestação, continua em desenvolvimento. A crescente capacitação dos cidadãos para o auto-cuidado e para o apoio a familiares. A pegada ambiental dos grandes hospitais pode ser mitigada com mais recurso à tele-saúde, menos desperdício e maior circularidade, uma dimensão ainda pouco considerada.
Porém, o otimismo com que encaramos o futuro do reforço da hospitalização domiciliária não permite desprezar os riscos que também lhe podem estar associados, desde logo: a necessidade de investimento em maior formação e robustecimento das equipas envolvidas; a maior padronização dos fluxogramas e procedimentos de trabalho e acreditação das unidades; a melhor interoperabilidade e segurança das ferramentas e sistemas informáticos utilizados para registo; e, até, a maior certeza jurídica sobre o quadro legal de responsabilidade para o exercício clínico. E é por tudo isto que, este livro não é somente útil, mas também um estímulo. Um estímulo a que os profissionais de saúde das equipas de hospitalização domiciliária prossigam o trabalho de registo de práticas, relato de experiências, descrição de casos de sucesso e análise de falhas e insucessos; o trabalho de reflexão e discussão; em síntese, o trabalho de produção de conhecimento sobre o que se vai fazendo, numa lógica de “investigação-ação” e de “narrador-participante.” É este trabalho que faz da atividade assistencial mais do que uma simples repetição de atos técnicos e lhe confere todo o seu humanismo.
Marta Temido
Eurodeputada ao Parlamento Europeu (2024-2029); Administradora Hospitalar
Nota introdutória
A hospitalização domiciliária tem vindo a afirmar‑se, progressivamente, como uma resposta clínica diferenciada, segura e centrada no doente, contribuindo para a humanização dos cuidados de saúde e maior eficiência dos sistemas de saúde. Contudo, em Portugal, apesar do notável crescimento das Unidades de Hospitalização Domiciliária (UHD), nos últimos anos, o campo da investigação, formação estruturada e os recursos bibliográficos dedicados a esta área ainda são um território por explorar.
Foi neste âmbito que, em 2019, enquanto médico internista, iniciei o meu percurso na hospitalização domiciliária, e, desde 2021, tenho a honra de coordenar a UHD do Hospital Distrital de Santarém, onde trabalho. Ao longo dessa caminhada, senti a necessidade crescente de dar visibilidade ao trabalho árduo da nossa equipa e, mais ainda, de fomentar a partilha de saberes, a formação contínua e a investigação neste campo que, cada vez mais, se afirma como fundamental para o futuro dos cuidados de saúde. Foi durante o ano de 2022, aquando da comemoração do aniversário da nossa Unidade, que organizámos a primeira Conferência de Hospitalização Domiciliária, um evento de grande simbolismo, pensado para celebrar, divulgar e consolidar a prática da hospitalização fora das paredes do hospital. Foi nesse contexto que estabelecemos uma parceria fundamental com a Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Santarém, instituição que nutria interesse pelo trabalho que desenvolvíamos, e já trabalhava na criação do projeto de formação. A partilha de experiências entre profissionais de diferentes áreas e contextos, aliada à reflexão crítica e ao desenvolvimento de projetos inovadores, reforçou ainda mais a convicção de que era fundamental consolidar esse conhecimento – e torná-lo acessível a todos os que se dedicavam ou pretendiam dedicar-se à hospitalização domiciliária. Dessa aproximação nasceu uma colaboração profícua que culminou, com enorme orgulho, na criação da primeira Pós-Graduação em Hospitalização Domiciliária em Portugal, coordenada pela Professora Doutora Irene Santos, no ano letivo de 2022/2023. Assim, esta parceria deu-nos a motivação e impulsionou-nos a questionar e inovar e a consolidar o projeto, de forma que pudesse realmente fazer a diferença. Esta veio fortalecer ainda mais a nossa convicção de que o conhecimento gerado necessitava de ser compartilhado, surgindo, assim, de forma natural, a ideia de escrever este livro.
Enquanto coordenadora do Curso de Pós-graduação em Hospitalização Domiciliária, posso testemunhar, com enorme satisfação, que, tanto os estudantes desta 1ª edição da Pós-Graduação – profissionais de diversas áreas de saúde – quanto os professores envolvidos, abraçaram com entusiasmo a ideia de partilhar, em livro, os diversos assuntos amplamente discutidos em sala de aula, aquando da apresentação dos trabalhos académicos, desenvolvidos nas respetivas unidades curriculares constitutivas do curso.
A experiência de uns – os profissionais que já trabalhavam em hospitalização domiciliária – com o genuíno interesse e, em certos casos, poderíamos dizer, fascínio dos que apenas conheciam “de nome” esta área de cuidados e pretendiam preparar-se para se desenvolverem profissionalmente revelou‑se extremamente interessante, motivadora e profícua. E foi assim que
45 autores – um dos quais de nacionalidade espanhola – de diversas profissões de saúde e de formação na área lançaram “mãos à obra” para dar corpo ao livro que apresentamos.
Com o apoio da Editora LIDEL, formámos uma equipa de autores de excelência, composta por nós, coordenadores – Professora Doutora Irene Santos e Doutor Yahia Abuowda – e autores de reconhecida experiência na área. O resultado é esta obra pioneira, o primeiro livro sobre hospitalização domiciliária a ser publicado em Portugal, que aborda de maneira abrangente os principais aspetos clínicos, organizacionais e formativos deste modelo de cuidados. A formação que iniciámos, neste âmbito, através do Curso de Pós-graduação, constituiu a inspiração e o estímulo para a escrita deste livro que, por sua vez, acreditamos, dará um contributo relevante para novos ciclos de formação, de formatos diversos, que venham a realizar-se no nosso país. É desta interligação entre teoria e prática – sobretudo uma prática refletida – que o conhecimento avança, sustentando novas áreas de prática clínica.
Tratando-se de uma primeira incursão ao tema, é necessariamente incompleto nas respostas às muitas e complexas questões que a hospitalização domiciliária suscita, revelando, porém, ousadia, no olhar, nas propostas, e em novas questões que coloca, apostando numa tipologia e setting de cuidados que, cremos, constituirá uma parte importante dos cuidados de saúde do futuro.
Mais do que uma simples compilação de saberes, este livro é um marco para todos os profissionais de saúde que, como nós, acreditam na capacidade de oferecer cuidados de excelência, com qualidade, segurança e humanidade – no conforto do domicílio. Que esta obra possa servir de inspiração, apoio e guia para todos aqueles que, com o mesmo espírito de dedicação, se empenhem na construção de um futuro melhor para os cuidados de saúde.
Irene Santos e Yahia Abuowda (Coordenadores)
Agradecimentos
A escrita de um livro é um trabalho coletivo, que vai muito além do seu autor ou autores. Se considerado apenas este critério, os seus 45 autores legitimariam, certamente, um profundo reconhecimento dos coordenadores – também eles autores – pelo empenho, pela ousadia, pelo trabalho árduo que uma obra pioneira, como esta, certamente, representou para cada um.
Um agradecimento institucional ao Hospital Distrital de Santarém e à Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Santarém (ESS/IPSantarém), por, conjugando a prática clínica e a formação, terem proporcionado o terreno adequado ao desenvolvimento do livro.
Ao Doutor Delfim Rodrigues – que, infelizmente, já não está entre nós – pelo desafio colocado à ESS/IPSantarém para a formação nesta área, bem como pelo acompanhamento da mesma, na fase de conceção.
Ao grupo de trabalho inicial que, enquanto Professora, tive a honra de coordenar, nomeadamente as Professoras Marta Rosa e Isilda Ferreira, bem como a Enfermeira Sónia Marques Malaca, pelo espírito construtivo com que aceitaram o desafio de co‑construir o plano de estudos da Pós-Graduação em Hospitalização Domiciliária, pela discussão aberta, pelas sinergias criadas entre o saber ensinar e o saber fazer. Neste âmbito, um reconhecimento especial à Professora Isilda Ferreira, por aceitar continuar o meu trabalho de coordenação da Pós-Graduação, numa fase em que circunstâncias diversas conduziram à minha passagem de testemunho, e pela assessoria ao trabalho de coordenação do livro.
À LIDEL, pelo acolhimento deste projeto e pelo acompanhamento paciente, afável e sapiente que sempre demonstrou.
Assumindo, em conjunto, a equipa coordenadora – Professora Doutora Irene e Doutor Yahia – os agradecimentos de carácter mais institucional, anteriormente expressos, não podíamos deixar de agradecer, individualmente, às nossas famílias.
Ao meu marido, Tony, e às minhas filhas, Sónia e Patrícia, pelo incentivo e apoio constantes, numa fase especialmente conturbada da minha vida, que exigiu uma motivação maior para concretizar este projeto em que, desde o início, acreditei.
À minha esposa, Yasmin, e aos meus filhos, Waleed e Kenan, igualmente pelo apoio e incentivo constantes, num percurso longo e, por vezes, de alguma ausência. Um obrigado especial à minha esposa, pela colaboração empenhada e criativa na conceção da capa do livro.
2 Comunicação na equipa de saúde
Catarina Rodrigues; Diana Patoleia; Helena Garcia; Joana Miranda; Márcia Rodrigues
COMUNICAÇÃO INTERPROFISSIONAL EM HOSPITALIZAÇÃO DOMICILIÁRIA
Fazendo uma retrospeção desde os nossos antepassados pré-históricos até à atualidade, constatamos que a comunicação está fortemente associada à evolução da espécie humana, com o seu início em memórias do Homo Erectus, que emitia mensagens por via de pinturas rupestres, seguindo-se as eras “símbolos e sinais”, “sala e linguagem”, “escrita”, até à mais recente era “digital”.
A comunicação é o pilar do processo de socialização, tendo sido sujeita a constantes adaptações no decorrer da evolução da espécie humana, o que lhe confere uma enorme complexidade. Este é o processo no qual um sujeito emite uma mensagem para um recetor por meio de um canal. A mensagem enviada pelo emissor é assimilada e descodificada pelo recetor, podendo ser ou não interpretada na sua forma original, dada a possibilidade da existência de barreiras ou ruído. É, assim, fundamental o feedback, que permite a validação da informação entre recetor e emissor, tal como a resposta imediata por parte do emissor.
Quando refletimos sobre o tema da comunicação, comummente enfatizamos apenas a comunicação verbal. No entanto, a comunicação é mais complexa do que aparenta ser aos nossos olhos, sendo talvez esse o motivo pelo qual tendencialmente a desvalorizamos. A comunicação assenta em dois tipos comunicacionais – verbal e não verbal – que interagem entre si durante todo o processo comunicacional.
Segundo Pepper e Denning (2023), a comunicação verbal é a expressão oral da linguagem – um conjunto de palavras cujo significado, embora partilhado, pode variar mesmo entre membros do mesmo grupo. Para Brito (2011), as palavras poderão constituir-se como barreiras na comunicação quando os mesmos emissores e recetores não compartilham exatamente o mesmo significado de cada palavra, que é influenciado pelo sistema social e cultural de cada um. Uma comunicação entre duas pessoas ou grupos de pessoas com repertórios diferentes dificilmente ou nunca consegue ter sucesso, uma vez que o sentido real da mensagem chegará sempre com ruído.
Numa perspetiva mais detalhada, Phaneuf (2005) defende que a comunicação humana resulta das componentes funcionais do ser humano na sua dimensão relacional integrando as sensações, as emoções e os processos cognitivos.
Embora a comunicação não verbal possa fazer uso dos idiomas (por exemplo, numa carta escrita), esta também envolve o corpo com as suas qualidades fisiológicas, físicas e gestuais (Pepper e Denning, 2023). As sensações e as emoções são expressas por sinais corporais que apoiam, completam ou contradizem as palavras, correspondendo à comunicação não verbal. A cognição dá ainda acesso à linguagem, através da qual as mensagens se transmitem por palavras, tratando-se então de comunicação verbal (Pepper e Denning, 2023).
Ambas as formas de comunicação apresentam especificidades, sendo a comunicação não verbal definida como uma forma de expressão que complementa a comunicação verbal através da expressão facial, dos gestos, da postura corporal e da proxémica, reforçando ou substituindo as palavras (Phaneuf, 2005).
Quadro 2.2 – Transmissão de informação ao doente na transição de cuidados em HD.
Situação
Enfermeiro Bruno: Os doentes que são internados em casa são doentes que, do ponto de vista clínico, estão estáveis e não requerem uma vigilância tão apertada, caso contrário não poderiam ir para casa. Assim sendo, ao aceitar ir para casa, a dona Custódia será acompanhada pela equipa de enfermagem, que irá lá todos os dias de manhã, e pela médica, que a verá três vezes por semana. Levaremos toda a medicação para 24 horas e, se for necessário colher sangue para análises, colhemos e trazemos a amostra para o hospital. A senhora não precisa de se deslocar. Estaremos contactáveis pelo número de telefone, no folheto, 24 horas por dia, a qualquer hora. Sempre que precise de alguma coisa ou tenha alguma dúvida pode ligar para este número. Se for necessário, a equipa desloca‑se até sua casa, a qualquer hora do dia ou da noite. Enquanto estiver internada em HD, quando ligar para este número, será sempre um enfermeiro a atender, tal como quando toca à sua campainha no hospital, ou como se fosse o seu próprio 112. Durante os períodos da manhã e da tarde estará sempre um enfermeiro presente no hospital. Se for durante a noite, nós estamos de prevenção e, em caso de necessidade deslocamo‑nos a sua casa. Passamos no hospital apenas para vir buscar o carro e em menos de 30 minutos chegamos, porque a senhora também não mora muito longe. Entendeu?
Senhora Custódia: Entendi sim, senhor Enfermeiro. Mas explique também à minha filha, estou desejosa para ir para casa.
Segundo Rego (2013), citado por Garcia (2017), o feedback permite compreender se a mensagem enviada ao recetor é percecionada e, por conseguinte, melhorar a comunicação e aumentar a confiança no emissor da mesma, que, como se verifica na situação apresentada anteriormente, é fundamental para a compreensão e recetividade da pessoa à proposta que lhe é apresentada. Mantendo o registo de exemplificação com base em situações clínicas hipotéticas, o Quadro 2.3 apresenta outro caso, que demonstra a importância de uma comunicação clara com o doente a família, com recurso à apresentação do erro comunicacional e à respetiva correção.
Quadro 2.3 – Erros comunicacionais: ausência de feedback e esclarecimento.
Situação Familiar do senhor Joaquim: Boa tarde, doutor António, diga‑me, por favor, como está o paizinho?
Doutor António: É a filha do senhor da posição 3 do corredor? O seu pai está estável, apresenta uma descompensação cardíaca e derrame pleural à direita.
Familiar: Derrame pleural? Isso é grave? Será que vai morrer?
Doutor: (revira o olhar): Significa que o coração do seu pai já não funciona corretamente e que acumulou líquido no pulmão.
Familiar: E como vão retirar o líquido, doutor?
Doutor: Com medicação própria e, provavelmente, poderá ser internado em casa.
Familiar: Internado em casa? Mas o meu pai está mal, não é possível!
Doutor: Se existirem critérios poderá ser possível, mas logo a equipa falará consigo.
Erro comunicacional
Verifica‑se que o doutor António tem dificuldades na transmissão de informação à filha do senhor Joaquim, não fornecendo a informação necessária relativamente ao internamento em HD, tendo uma abordagem pouco compreensível e uma relação do tipo parental, que é unilateral e focada na transmissão de informações médicas, sendo ineficaz na sua comunicação (Matos, 2024)
Assim, foi comunicado à familiar que o senhor Joaquim provavelmente seria internado em HD, mas não foi explicado o que é a HD, nem foi apresentado plano terapêutico. Este é um exemplo de comunicação unilateral. No que diz respeito a este processo de admissão, em termos de comunicação, podemos notar‑lhe bastantes deficiências na medida em que a dinâmica comunicacional é perdida devido à unilateralidade e à impossibilidade de feedback, sendo assim prejudicial para o senhor Joaquim e para a sua família
Correção O doutor António deveria ter explicado à familiar o funcionamento da UHD de uma forma mais clara, utilizando linguagem mais simples, e informá‑la acerca do plano terapêutico. Só depois desta informação, é que deveria questioná‑la sobre se aceitariam esse regime de internamento
No caso do senhor Joaquim, previamente internado em Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI) e admitido em HD no contexto de urgência, verifica‑se o modo como um processo
DOR LEVE
Analgésicos não opióides com ou sem adjuvantes
Paracetamol, AINE (ex: ibuprofeno, naproxeno), Adjuvantes: antidepressivos, anticonvulsivantes
DOR MODERADA
Analgésicos opióides fracos + analgésicos não opióides com ou sem adjuvantes
Codeína, Tramadol, Associados a paracetamol ou AINE
DOR INTENSA A FORTE
Analgésicos opióides fortes + analgésicos não opióides com ou sem adjuvantes
Analgésicos opióides fortes + analgésicos não opióides + adjuvantes
DOR REFRATÁRIA AO TRATAMENTO
Procedimentos intervencionistas com ou sem adjuvantes
Intervenções avançadas
Bloqueios nervosos, infiltrações, bombas de infusão, radioterapia paliativa, neurocirurgia, suporte psicológico e espiritual
Figura 5.1 Escada Analgésica da OMS: abordagem original e modificada. Adaptado de OMS (1986), Yang, et al. (2020), StatPearls (2023), Winnipeg Regional Health Authority (WRHA) (n.d.), John Hopkins Medicine (n.d.), Pergolizzi & Raffa (2014).
Medicação para o indivíduo
A terapêutica analgésica deve ser sempre ajustada às características físicas, psicológicas, sociais e espirituais de cada doente, uma vez que cada ser é único e singular.
Utilização de adjuvantes
Os fármacos adjuvantes são fármacos não analgésicos, mas que, pela sua ação, vão potenciar a eficácia dos analgésicos. Estes irão auxiliar no controlo de alguma sintomatologia associada à dor, como a ansiedade, a depressão, a insónia e as contraturas musculares, de modo a potenciar o bem-estar geral do doente.
Atenção aos detalhes
Quem prescreve e administra a terapêutica analgésica deve ter a atenção de facultar instruções precisas, tanto ao utente, como aos cuidadores, nomeadamente acerca de nomes dos medicamentos, indicações de utilização e quando utilizar, dosagem, intervalo entre tomas e efeitos adversos mais comuns. Com estas instruções, visa-se garantir uma informação adequada e precisa, de maneira a serem evitadas complicações decorrentes, por exemplo, da toma excessiva de analgésicos num curto período de tempo.
Intervenções no Controlo da dor
Intervenções não farmacológicas
As intervenções não farmacológicas na gestão da dor são as que não envolvem o uso de medicamentos e fazem parte das intervenções autónomas de enfermagem (Ordem dos Enfermeiros [OE], 2008). A técnica não farmacológica mais eficaz para cada pessoa deve obedecer a vários requisitos de adequação à mesma, nomeadamente: a idade, o nível de desenvolvimento, o nível de literacia geral e de literacia em saúde, a história clínica e experiências anteriores de controlo da dor, o grau e a intensidade atuais da dor e/ou dor antecipada.
Capacitação do doente e do cuidador em hospitalização domiciliária 173
Tabela 6.1 – Abordagem passo a passo para identificar problemas relacionados com medicação.
Possível hipótese
O que preocupa o doente?
Objetivos
Quais são os medicamentos essenciais?
Necessidade
Eficácia
Segurança
Custos
Foco no doente
O doente toma medicamentos desnecessários?
Os objetivos terapêuticos estão a ser atingidos?
O doente apresenta ou tem risco de apresentar efeitos adversos?
A terapêutica é custo‑efetiva?
• O doente quer e tem ca pacidade para administrar o medicamento conforme prescrito?
• O doente compreende qual o objetivo da revisão tera pêutica?
• O doente compreende porque tem de fazer a me dicação?
Possível solução
Rever diagnósticos e identificar objetivos terapêuticos tendo em conta a compreensão dos objetivos da medicação, a gestão dos problemas de saúde existentes e a prevenção de problemas de saúde futuros
Identificar os medicamentos que não devem ser suspensos sem aconselhamento médico (medicamentos que têm função essencial de reposição, por exemplo, a tiroxina, e medicamentos que previnem rápido declínio sintomático, por exemplo, antiparkinsónicos)
Identificar e rever a necessidade terapêutica, especialmente a medicação temporária, com doses de manutenção superiores ao usual, com benefício limitado para a indicação terapêutica e com benefício limitado no doente em causa
Identificar a necessidade de adicionar ou intensificar a medicação para atingir os objetivos terapêuticos: controlar os sintomas, atingir os alvos bioquímicos/clínicos e prevenir progressão/exacerbação da doença
Identificar os riscos de segurança do doente confirmando interações farmacológicas, robustez dos mecanismos de monitorização dos fármacos de alto risco, risco de sobredosagem acidental
Identificar os custos desnecessários com fármacos, considerando outras alternativas mais custo‑efetivas
• Assegurar que as alterações terapêuticas estão adaptadas às preferências do doente (formulação acessível ao doente, horário conveniente)
• Discutir com o doente os objetivos da terapêutica e as prioridades do tratamento
• Decidir com o doente quais os medicamentos com magnitude do efeito suficiente para continuar ou descontinuar terapêutica
• Informar outros profissionais de saúde sobre alterações de tera pêutica durante a transição de cuidados de saúde
Adaptado de PSA Guidelines (Pharmaceutical Society of Australia, 2020).
A evidência demonstra que a exposição dos doentes idosos a medicamentos potencialmente inapropriados está associada ao aumento de hospitalizações e admissões nas urgências hospitalares, de danos, de fracos resultados em saúde e, eventualmente, de morte (Pharmaceutical Society of Australia, 2020).
A desprescrição é uma parte importante no processo de gestão e revisão da medicação, constituindo um processo sistemático de identificação ou descontinuação de medicamentos quando existe potencial dano nos objetivos dos cuidados ao doente (Pharmaceutical Society of Australia, 2020).
elaboração de um plano de gestão de mediCação
Os achados do processo de revisão de medicação devem ser discutidos com os médicos prescritores, elaboradas as recomendações e sugeridas estratégias de medicamentos alternativos, se aplicável. O plano deve ser documentado no processo clínico do doente.
Perceber o problema a nível internacional
A evidência científica demonstra que o tema da transição e da continuidade de cuidados tem vindo a ganhar relevo aos níveis nacional e internacional, nomeadamente com a proliferação de literatura referente a melhorias na transferência clínica. Os problemas na transição de cuidados encontram-se documentados, como a falta de planeamento de alta, a comunicação imprecisa, pouco clara ou ausente sobre o estado geral de saúde do cidadão, nomeadamente do plano individual de intervenção, exames complementares de diagnóstico e o não envolvimento do cidadão e da família no processo.
Além disso, os problemas de transição de cuidados podem contribuir para a ocorrência de tratamentos ineficazes ou errados, eventos adversos, atrasos no diagnóstico, erros de medicação, entre outros (Christiansen et al., 2015; Waring et al., 2016). Uma transição eficaz pode contribuir para diminuir a ocorrência de erros e prevenir os reinternamentos (Gilmore-Bykovskyi et al., 2016; Norlyk et al., 2020).
Pandya e colaboradores (2019) concluíram que a utilização de uma transferência padronizada melhorou a comunicação entre enfermeiros.
Perceber o problema a nível local
Cada organização de saúde, comunidade ou serviço de saúde possui características, recursos, necessidades e desafios próprios que nem sempre se enquadram nas soluções globais ou em recomendações generalizadas. Uma abordagem verdadeiramente eficaz, na gestão de projetos de melhoria contínua na prestação de cuidados exige adaptar práticas e estratégias à cultura organizacional, à disponibilidade de recursos e às prioridades da população envolvida. Assim, ao considerar o contexto local, as intervenções tornam-se mais pertinentes e sustentáveis, prevendo resultados mais consistentes e ajustados às reais necessidades de quem utiliza e presta cuidados de saúde naquele contexto em específico.
Na Figura 7.1 é apresentada a descrição do processo atual, visando a definição do “as is”.
Planear a alta clínica da HD (durante internamento)
Elaborar nota de alta (no dia da alta clínica)
Entregar a nota de alta ao doente (médica e de enfermagem)
Requer continuidade de cuidados
Enviar nota de alta (médica e de enfermagem) para CSP por e-mail
Entregar a nota de alta (médica e de enfermagem) ao doente
Formular os objetIvos InICIaIs
Para este projeto foi delineado como objetivo geral promover a melhoria contínua da comunicação eficaz na transição de cuidados entre a HD e os CSP até ao final do biénio 2023/2024. O objetivo foi construído utilizando a metodologia SMART. Considera-se que este é específico na medida em que pretende implementar taxas de conformidade relevantes na transição de cuidados. É mensurável, ou seja, é passível de ser avaliado através da norma de auditoria ao procedimento geral; é alcançável, porque permite aplicar a referida norma; é relevante, porque
SIM NÃO
Figura 7.1 “as is”: descrição do processo.
• Providenciou/Organizou uma rede de apoio para o fornecimento da sua alimentação pessoal e compras, e para cuidar dos animais.
Contactada a família, houve a garantia de que esta residia em casa contígua à do doente, que mantinha excelente relação familiar e pessoal com ele, e demonstrou total disponibilidade para os cuidados necessários, mantendo também a manutenção da alimentação e limpeza dos estábulos dos animais. Asseguraram que, conforme solicitado pelo doente, já tinham retirado todas as bebidas alcoólicas da residência.
Na discussão intraequipa são várias as questões contra a opção de internamento em HD, nomeadamente:
• Ser uma pessoa que vive sozinha, numa quinta, rodeado de animais dos quais gosta de cuidar;
• Tem o hábito de frequentar diariamente e por períodos prolongados o café da localidade;
• Os antecedentes de hábitos alcoólicos marcados.
Na apreciação também tivemos em consideração as razões para a aceitação em HD, salientando‑se:
• A vontade do doente;
• O visível sofrimento e ansiedade do doente por estar longe dos seus animais;
• A postura serena e assertiva mantida durante toda a interação, nunca apresentando qualquer reação de agressividade e prometendo várias vezes que seria cumpridor das regras do internamento em HD;
• A diminuição do risco de IACS;
• A vigilância e colaboração da família;
• A existência de rede de suporte forte, assente em relação de confiança mútua entre o doente e a família.
Surge à equipa hospitalar uma série de questões relativas aos próximos passos a tomar e a avaliação do que será melhor para o doente, que se prendem com a existência de risco de o doente abandonar o internamento sem concluir o ciclo de antibioterapia.
Os autores estão perante uma pessoa consciente, orientada, em sofrimento emocional, aparentemente motivada para cumprir as regras estabelecidas, explicadas e compreendidas para internamento em HD. Parece ter uma rede de suporte na envolvente do domicílio. Porque não acreditar que esta pessoa, com a motivação que apresenta, com o suporte da equipa dos autores, bem como dos familiares, pode ser admitido e cumprir o restante tratamento de forma tranquila e satisfeito?
Os autores acreditam que era possível criar uma relação baseada na confiança mútua e no respeito.
Assim, e após voltar a explicar ao doente as condições, deveres e direitos, e o doente assumir de forma veemente o seu cumprimento sob pena de voltar ao internamento convencional, procedeu-se ao seu internamento no domicílio.
O internamento decorreu sem qualquer intercorrência, com total cumprimento do doente ao estabelecido aquando do internamento.
Análise do caso
O que diz a Ética
Há duas noções distintas a ter em consideração nesta situação:
• Ter hábitos alcoólicos;
HOSPITALIZACAO DOMICILIÁRIA
A hospitalização domiciliária, enquanto alternativa ao internamento convencional em contexto hospitalar, é uma prática de implementação recente em Portugal, com cobertura universal nos hospitais públicos do país. Nesta obra, dá-se resposta às muitas interrogações dos profissionais no terreno, suscitando e suportando uma construção teórica, do âmbito da academia, complementada também com aplicações práticas, constituindo sinergias na procura das melhores soluções.
Partindo de um enquadramento conceptual, que demonstra a evolução desta prática, são abordados temas essenciais com vista à qualificação das equipas de saúde e ao aumento da aplicação deste modelo de cuidados: critérios de inclusão/exclusão do doente, normas de qualidade e segurança, práticas para a capacitação do doente e do seu cuidador, entre outros temas de interesse. Este livro, contempla, ainda, a análise de casos clínicos à luz da Ética e do Direito
Esta obra assume-se como um guia pioneiro na área, destinado não só a profissionais de saúde e estudantes de medicina, mas também outros agentes, como gestores hospitalares e assistentes sociais
Irene Santos
Professora Adjunta da Escola Superior de Saúde (ESS) do Instituto Politécnico de Santarém (IPS/Santarém) (aposentada). Foi Coordenadora da 1.ª Edição do Curso de Pós-graduação em Hospitalização Domiciliária. Investigadora Integrada no RISE-Health. Licenciada em Enfermagem, com especialização em Enfermagem de Saúde Pública, pela Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Lisboa (ESEUL) e em Medicina Tradicional Chinesa, pela Universidade de Chengdu, China. Mestre em Sociologia, pela Universidade Nova de Lisboa. Doutorada em Enfermagem, pela Universidade de Lisboa.
Yahia Abuowda
Assistente Hospitalar Graduado em Medicina Interna. Coordenador da Unidade de Hospitalização Domiciliária da Unidade Local de Saúde (ULS) da Lezíria. Foi professor da 1.ª Edição do Curso de Pós-graduação em Hospitalização Domiciliária. Membro da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. Sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Hospitalização Domiciliária (SPHD), Licenciado e Mestre em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Mestre em Hospitalização Domiciliária, pela TECH Universidad.