Les morts reviennent! Elle est venue. Oui, je l’ai vue, je l’ai tenue, je l’ai eue, telle qu’elle était vivante autrefois, grande, blonde, grasse, les seins froids, la hanche en forme de lyre, et j’ai parcouru de mes caresses cette ligne ondulante et divine qui va de la gorge aux pieds en suivant toutes les courbes de la chair. (Maupassant, 1957: 119)90
Já o conto “Véra” de Villiers de l’Isle Adam debruça-se sobre o tema da força do amor que atravessa os limites de uma existência humana, continuando na morte. O protagonista, conde Roger d’Athol, ao perder a sua adorada esposa, cai numa espécie de luto tão profundo que se recusa a aceitar a morte definitiva. O conto abunda em traços esteticistas, em que a figura da mulher, quiçá por influência da estética pré-rafaelita, recupera a imagem da Madona, sugerindo uma íntima ligação com o cenário do solar e da paisagem bucólica. Uma atmosfera de mistério velado palpita dentro do solar do viúvo, criando-se a sugestão de a morta sair do túmulo em forma de um fantasma: Et là, devant ses yeux, faite de volonté et de souvenir, accoudée, fluide, sur l’oreiller de dentelles, sa main soutenant ses lourds cheveux noirs, sa bouche délicieusement entr’ouverte en un sourire tout emparadisé de voluptés, belle à en mourir, enfin! la comtesse Véra le regardait un peu endormie encore. (Villiers de l’Isle-Adam, 1995 : 30)
A certa altura o conde sente como se a esposa morta fizesse parte dele (“Et ils s’aperçurent, alors, qu’ils n’étaient, réellement, qu’un seul être.”, ibid.: 30), o que pode sugerir uma leitura psicanalítica (a morta como a representação da anima). No entanto, apesar de o viúvo ter consciência da impossibilidade (“Mais tu es morte!”, ibid.), o final fica profunda-
90 Curiosamente, um conto pouco conhecido de José Rodrigues Miguéis, intitulado “Enigma” (Onde a Noite se Acaba, 1946) poderia ser lido como uma paródia desta narrativa de Maupassant. Sendo inserido na Inglaterra oitocentista, trata sobre um professor universitário, racista e puritano, colecionador apaixonado de antiquidades. Um dia, este ganha um objeto extraordinário, uma caixa chinesa que é, de facto, ainda mais rara do que parece, uma vez que não se deixa abrir. A caixa, porém, deve ter ainda outras capacidades invulgares. Guardando-a em casa, o professor começa a ser “visitado” por sonhos eróticos, nunca antes experimentados. Só no fim do conto, a caixa se abre como aquela mítica de Pandora, aniquilando a vida do seu proprietário. No dia a seguir, o professor é encontrado morto, segurando na mão um punhado de cabelos louros, femininos.
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mente ambíguo. Dentro do leito, o conde encontra a chave, que atirara para dentro do túmulo da falecida. A intriga do romance Bruges-la-Morte de Georges Rodenbach é geralmente bem conhecida: um viúvo (Hugues) estabelece-se em Bruges onde, vivendo calma e silenciosamente, pode cultivar o luto pela sua mulher falecida. Neste cenário da cidade morta, cujos canais de águas estagnadas e putrefactas devolvem ao viúvo uma imagem fantasmática, ofélica da mulher, acontece porém algo inesperado: o viúvo encontra a sósia da sua mulher morta na figura de uma atriz. Ficando totalmente obstinado pela semelhança que existe entre as duas mulheres, obriga a atriz (Jane), de cabelo escuro, a pintá-lo de louro e a vestir roupa da sua mulher para poder reencarnar a falecida. 91 Como se sabe, o cabelo da morta em forma de trança, venerada como uma relíquia, 92 acaba por se tornar num instrumento assassino nas mãos de Hugues. De modo parecido ao conto de Poe, então, a primeira mulher apodera-se, pelo menos simbolicamente, da usurpadora. É natural que as novas versões do motivo da mulher morta e duplicada, surgidas nos séculos XX e XXI, sejam frequentemente atualizadas pela ironia e/ou processos paródicos, apesar de guardarem alguns traços ambíguos, decorrentes da oscilação entre o sonho e a vigília, entre o racional(ista) e o alucinatório. Relembre-se que, na literatura portuguesa do século XX, podem ser detetadas várias “variações” do tema da mulher perdida e duplicada, à laia de Maupassant ou Rodenbach. Por exemplo, no conto “Incesto” (O Princípio, 1913) de Mário de Sá-Carneiro, cuja afinidade com os contos poeanos “Ligeia” e “Eleonora” já foi detetada por Fernando Cabral Martins (1994: 183), o amor do protagonista (dramaturgo Luís de Monforte) pela sua amante (atriz Júlia) é, após a fuga desta,93 91 Também no conto “Ligeia”, E. A. Poe apresenta dois tipos femininos diferentes: enquanto Ligeia, a mulher perdida, tem cabelos e olhos pretos, a substituta Rowena é loura de olhos azuis, sendo esta polaridade, segundo H. Levin, de origem intertextual, assente no diálogo com o romance Ivanhoe de Walter Scott, onde aparecem duas mulheres, a loura Rowena e a morena Rebecca (Levin, 1976: 158). J. Gerald Kennedy, por sua vez, deteta na polaridade das mulheres os diferentes princípios românticos, referentes ao espaço germânico, místico e misterioso (Ligeia) e anglo-saxão (lady Rowena Trevanion of Tremaine) (Kennedy, 1993: 119–120). Na narrativa de Rodenbach é também estabelecida a polaridade, porém com o gosto inverso: a esposa morta e loura representa um ser angélico, puro e santificado. 92 O cabelo é cautelosamente guardado numa redoma de vidro, fazendo lembrar a caveira da mulher morta, guardada como relíquia numa redoma no conto “A Caveira” (1853) de Camilo Castelo Branco. 93 Este motivo constitui claramente uma referência irónica a Eça de Queirós: Júlia foge da mesma maneira como Maria de Monforte em Os Maias, Luís tem o mesmo apelido como a adúl-
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transferido para a sua filha, Leonor, também sinada a morrer (como no conto poeano “Morella”). Quando tal acontece, o protagonista casa com uma menina, Magda, que é de facto a sósia de Leonor.94 Evidentemente, este conto não só tematiza a morte da mulher adorada (esposa, filha) e sua duplicação, mas também se centra na questão bem mais perigosa e tabuizada, na inclinação para o incesto. Há ainda outros contos no espólio de Mário de Sá-Carneiro que contêm o motivo da duplicação da mulher morta. Convém mencionar sobretudo o conto “A Grande Sombra” (Céu em Fogo, 1915), cuja intriga evoca, distantemente, o conto “O Punhal de Rosaura” de Álvaro do Carvalhal (Contos, 1868). Em princípio, trata-se de uma história em que a amante morta (Rosaura em Carvalhal e a princesa mascarada de Sá-Carneiro) “regressa” ao protagonista noutra encarnação. Apesar da enorme divergência na estética e no modo de apreender o mundo, os dois contos coincidem na elaboração do cenário macabro, de um gótico tradicional, e na escolha da localização italiana. Em Carvalhal, a amante trágica de Everardo, de nome Rosaura, mata-se à sua frente num gesto de um amor incondicional e repelido pelo amado, sendo o seu corpo em seguida escondido no subterrâneo da casa. Antes da sua partida para a Itália, Everardo desce ao subterrâneo para ir buscar o cadáver da amante e o enterrar. Já em Veneza, durante o carnaval, encontra uma mulher de dominó escarlata que o convida à sua casa, desmascarando-se depois ante os seus olhos horrorrizados: Do fundo do peito arranca o dominó escarlata surdo gemido. Numa contracção sinistra cai sobre as espáduas o capuz, e rola no chão a máscara. Encrespavam-se-lhe os cabelos como juba de fera irritada. O corpo recurvava-se num conjunto de resoluta agilidade e de elegância escultural. E pregava em mim uns olhos baços, vidrados e carregados de magnética fixidez. A morte não se apiedou da minha sorte. Pude ver. E não me submergi nos infernos. Rosaura estava ali. Não a Rosaura, resplendente de vida e de alegrias, não a minha formosa amante. Mas lívida, petrificada, como um anjo de mausoléu. (Carvalhal, 2004: 207)
tera queirosiana, no momento em que Luís recebe a notícia da fuga da amante, está a ler “o último romance do seu amigo Eça” (Sá-Carneiro, 1991: 211). 94 Curiosamente, os nomes das personagens, Leonor e Magda, evocam, pela sua composição sonora, os nomes de Eleonora e Ermengarda do conto poeano (“Eleonora”).
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