Skip to main content

Senso incomum 21 - abr/mai 2014

Page 1

s e n s o i n co m u m

Sensível

MENTE

Universitários buscam renda informal

10 o dia a dia de um tatuador Yoga como filosofia de vida

5

12

JORNAL-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO - UFU - ANO 05 - Nº 21 - ABRIL-MAIO/201 4


2OPIN IÃO

n. 21 abr/mai 201 4

IN

Editorial Revenge Porn: as vítimas são as culpadas

Giovana Matusita “Eu te amo, desculpa eu n ser a fi- ternet, sendo que, na maioria das velha perfeita, mas eu tentei. . . desculpa zes, as imagens são divulgadas por desculpa eu te amo muito” essas fo- alguém conhecido, como o ex-namorado. Esse tipo de “cyberbullying” ram as últimas palavras que Júlia Rebeca disse para sua mãe, por meio tem sido praticado frequentemente e de uma rede social, antes de cometer é chamado de “revenge porn” (pornô de revanche), porque, normalmente, suicídio. A garota, de apenas 1 7 os homens divulgam esse material anos, ficou envergonhada após ter para se vingarem das garotas que os sua privacidade violada quando seu vídeo íntimo foi compartilhado na in- deixaram ou os traíram, e assim, reternet. Um fato como este abre uma solvem se vingar expondo as exnamoradas. discussão legítima, sobre os limites Diante dessas informações, surge entre o público e o privado. Com os uma pergunta: por que quase todas meios de comunicação atuais, a dias vítimas da pornografia de revanvulgação de conteúdos na internet che são mulheres? Apesar de o monão deve ser algo superestimado e vimento feminista ter tido sucesso merece ser vigiado de perto. ao conquistar vários direitos que I nfelizmente, o caso de Júlia não é o único. Várias mulheres sofreram iguala os dois gêneros, isso ainda com a sua intimidade exposta na in- acontece, pois a sociedade continua

sendo de caráter patriarcal. Ou seja, a mulher fazendo exatamente o mesmo que um homem faz (como exemplo, a prática de sexo fora de um casamento) será rotulada com termos vulgares. Entretanto, é importante pontuar que os comentários machistas não são advindos apenas de homens. M uitas mulheres também criticam as vítimas, alegando que são culpadas por deixarem-se serem filmadas. Fazer sexo consensual não é crime. Filmar ou fotografar o ato também não é. Porém divulgar estes materiais é crime sim. Qualquer pessoa tem o direito de ter a sua imagem preservada e aqueles que violam a privacidade do outro devem ser condenados pela justiça. »

Ananda Dinato Era mais uma manhã tediosa na minha cidade natal. Oito da manhã e o “despertador natural” começa a acordar a casa inteira. É impossível dormir até mais tarde nessa casa. É cachorro latindo, mulher gritando, criança chorando. Realmente, um ótimo despertador. Me pergunto por que na cidade em que vivo não é assim. Confesso que quando estou em meu quarto, na completa solidão, quando passo um dia inteiro sem sequer ouvir minha própria voz, a saudade bate forte. Quando acordo duas da tarde, cansada da minha própria preguiça, chego a desejar esse despertador natural. Levanto e vou fazer a única coisa que me deixa alegre pela manhã. Sem nem lavar o rosto, vou até o quarto de brinquedo dos meus irmãos gêmeos. Menino e menina. Nem parece ser apenas oito da manhã. Boneca, palhaço, urso, carrinho, canetinha, livro. Um em cada canto do chão. Cachorro em cima do sofá mordendo algum brinquedo. Laura prepara seu café da manhã imaginário. Mexe na panelinha, coloca no forno. Felipe está distraído com algum desenho e nem sequer percebe minha presença. Café da manhã pronto, hora de servir. É aí que Felipe se desperta e decide ir brincar. Ele também quer cozinhar. Levanta e vai até a sua “cozinha”. Laura já olha com cara de brava. Não gosta muito de dividir. Um pega a panela, o outro também quer. Tento apaziguar, convencer a menina a dividir o brinquedo. Aí começa a confusão. Chororô pra cá, gritos pra lá. Logo vem a casa inteira tentar resolver o problema. A mãe já tira o brinquedo do menino. “Isso é dela, vai brincar com seu carrinho”. Aquela frase doeu em meus ouvidos. E ele continua chorando, chorando, chorando. Todo mundo tenta convencê-lo a brincar de carrinho, ou fazendinha, tudo! Só não toca na cozinha ou na boneca...

FOTO: Ananda Dinato

Coisa de menina

Felipe não se deixa levar. Afinal, ele já sonhou em ser cozinheiro e até bailarino. Mas tudo isso é levado na brincadeira por todo mundo. Ele não sabe o que fala. Só tem dois anos. Só tem dois anos e seu destino já está fadado ao machismo nosso de cada dia. A repressão começa desde cedo, afinal, é o papel da família educar. Imagina se ele pega gosto por isso! Como se fosse possível uma criança distinguir o que é coisa de menino e coisa de menina, se é mesmo que isso existe, e ainda por cima associar com sua sexualidade. Não culpo a mãe, tampouco o pai. Infelizmente “é assim que ter que ser”. É isso que todos nós aprendemos desde cedo. A repressão começa nos primeiros segundos de vida, quando as paredes do quartinho vão se tornando rosa bebê. No quarto, cheio de brinquedos, é possível distinguir de longe o que é de cada um. Seja os livrinhos infantis, cadernos para colorir e até as canetinhas. Rosa. Azul. Boneca. Carrinho. Levanto e volto para o meu quarto. A minha diversão matinal acabou por ali. Não importa o quanto Felipe chore. Aquilo não era para ele. E isso sempre se repete quando ele toca em algo rosa ou quer fazer as mesmas coisas que Laura. Quem mandou nascer nesse mundo onde se vê malícia até em uma simples brincadeira de criança. »

Expediente R eitor: Elmiro Santos Resende / Diretor da FA CED: Marcelo Soares Pereira da Silva / Coorden a dora do cu rs o de Jorn a lis m o: Ana Cristina Menegotto Spannenberg / Profes s ores res p on s á veis : Christiane Pitanga, Ingrid Gomes, Marcelo Marques e Mirna Tonus Editores - ch efe: Leonardo Hamawaki e Paula Nascimento / Editores de ca p a : Giovana Matusita e José Elias Mendes Neto / Editora s de p á g in a s es p ecia is : Flahana Pfeifer e Marina Colli / Editores de fotog ra fia e a rte: Felipe Flores e Rinaldo Morais/ Editores de op in iã o:

Amanda Silva, Gabriel Rodrigues / Editoria lis ta : Giovana Matusita / R evis ora s : Ingrid Gomes MTB: 41 . 336 / Dia g ra m a çã o e Fin a liza çã o: Danielle Buiatti / A tu a lida des // Editores : Anna Vitória Rocha, Francine Naves, Giovana Santos e Maysa Vilela Su b editores : Lorena Martins Ciên cia & Tecn olog ia // Editores : Leidiane Campos e Nivaldo Nascimento / Su b editores : Laís Farago, Maria Emília Duarte Cu ltu ra , es p orte e la zer // Editores : Guilherme Fragosso e Nayara Ferreira / Su b editores : José Pedro Bezerra, Lara Lacerda.


IN

n. 21 abr/mai 201 4

OPIN IÃO

3

O mal do século, ninguém está a salvo Lorena Martins

“Conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras capazes de perturbar a homeostase". Esta é a definição do dicionário Aurélio para aquilo que ataca quase 1 00% da população brasileira, o estresse. Apesar de todos os avanços, o século XXI também traz consigo uma bagagem de desajustes sociais, entre eles, destaca-se o estresse que, a propósito, é um estopim capaz de desencadear diversos outros problemas. Em julho de 2000, uma espaçonave russa, a estação espacial Mir, ficou sem energia, devido a uma ordem errada do comandante Vladimir Tsibliev. O médico que cuidava dos tripulantes da espaçonave deu logo o diagnóstico: estresse. E esse não é um caso comum, os noticiários diários são inundados de informações sobre pessoas que “perdem a cabeça” e cometem crimes por coisas extremamente banais, como uma briga de trânsito ou uma conta não paga no restaurante. São coisas como essas que fazem com que o estresse ganhe de problemas como a violência, corrupção e miséria, e ocupe o posto de “mal do século XXI”. O estresse é consequência de algumas adversidades que de modo crônico ou agudo nos “presenteiam” com este incômodo. A estatística acerca dessa questão é bastante complicada devido à imprecisão dos dados. Porém, pesquisas apontam que o estresse corresponde à razão de grande maioria das pessoas procurarem ajuda nos consultórios médicos. É importante ressaltar que, mais que um problema social, esta é uma preocupação de saúde pública, pois abrange pessoas de diversas faixas etárias, principalmente jovens, em idade produtiva. Além disso, essa patologia tem uma relação bem estreita com o papel que as

pessoas desempenham na sociedade, principalmente quando se trata de trabalho. O estresse pode acarretar uma série de transtornos físicos e psicológicos. Doenças como herpes, gastrite e até mesmo úlceras, bem como distúrbios hormonais, dores musculares e de cabeça, além da depressão, são provocadas pelo índice elevado de estresse. Tudo isso contribui para reforçar a opinião de alguns estudiosos e médicos, de que o estresse é um assassino silencioso. Pois, por ser tão comum, a maioria das pessoas tende a julgá-lo normal e inofensivo; aprendem a lidar com o incômodo e não procuram ajuda. Dessa forma, o problema toma proporções cada vez maiores, o que implica em consequências drásticas não só para o indivíduo, como para a sociedade em geral. Segundo o próprio criador do atual conceito de “stress” o médico canadense Hans Selye, esse é “(...) o resultado do homem criar uma civilização, que, ele, o próprio homem não mais consegue suportar". Diante de toda a correria do dia a dia e das obrigações que nos comprometemos, convenhamos, estamos todos vulneráveis a esse mal. No entanto, aceitar que temos que nos conformar com essa exaustão não é, de jeito algum, a forma mais saudável de lidar com o fato. O estresse não vai desaparecer de uma vez por todas, mas pode ser remediado, seja com doses maiores de lazer ou mesmo sessões de yoga e terapia. O que vale é a disposição para combater esse distúrbio que interfere de forma rude em nossas atividades diárias e atrapalha nosso desempenho. Mesmo se for impossível fechar os olhos para as aflições cotidianas e aderir o estilo “zen”, ao menos que a maior preocupação que tenhamos, seja a de viver de forma agradável. »

Ombudsman Patricia Amaral

A sociedade vive um momento de adaptações, quase uma crise de identidade. São tantos avanços tecnológicos, a princípio para melhorar a vida e nos permitir romper fronteiras, mas, que acabaram utilizados para aumentar nossa rotina quase

alucinante e invadir a privacidade alheia. Com isso surgem os reflexos como doenças entre elas depressão e estresse e uma nova modalidade de violência como o revenge porn. É bom ver que a nova geração de j ornalistas se preocupa com esses as-

suntos. Temas que precisam ser insistentemente discutidos inclusive no meio acadêmico onde esses males estão presentes. M udar o mundo talvez sej a pretensão demais para nós jornalistas mas provocar a reflexão é nosso dever. »


4ci ê n ci a&t e cn o lo g i a

n. 21 abr/mai 201 4

IN

Tragados por palheiros e narguilé Rinaldo de Morais

Os malefícios do cigarro comum industrializado já são familiares à maioria. É uma discussão cultural, econômica e também política. As campanhas em favor da saúde já convenceram milhares a combaterem o vício: foi observada uma queda de mais de 20% no número de usuários pelos últimos seis anos em nosso país, segundo estudo da Unifesp. Na contramão dessas escolhas de vida saudáveis, no entanto, a faixa etária mais jovem da população tem sido bastante exposta aos hábitos de fumar e outros tipos alternativos de tabagismo, como cigarro de palha e narguilés. Com quantos anos você fumou seu primeiro cigarro? No Brasil, a idade média para dar a primeira tragada é 1 3 anos. E três milhões de usuários com menos de 1 8 anos são viciados em nicotina. Pedro Magerni, estudante de música, começou com o hábito aos 1 7, devido a uma mistura de tédio com ansiedade. E reflete: “Fumar às vezes é uma desculpa pra socializar. Aliás, é uma das poucas coisas que as pessoas dão e se mostram generosas quando você pede”. Mas não é apenas o cigarro

industrializado que chama a atenção e desperta a vontade. Os narguilés, por exemplo, ganharam público há cerca de cinco anos no país. A discussão é polêmica, alguns pneumologistas afirmam que uma única sessão, de uma hora e meia de uso, equivale a fumar 1 00 cigarros. Além dos narguilés, os cigarros de palha tiveram maior procura nos últimos anos. Também conhecido por palheiro, pó ronca ou paiol, o cigarro de palha é artesanal e montado com fumo de corda picado. A diferença para o cigarro industrializado é que por não apresentar filtro, a inalação da fumaça acontece de maneira mais nociva. Para efeito de comparação, um cigarro de palha equivale a fumar três cigarros normais. E quando se trata dos palheiros, os riscos podem ser outros. O armazenamento inadequado pode contaminar o produto. Claudio Souza de Paula, médico da Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto, afirma que existe o risco da queima de subprodutos de microrganismos, como fungos e também bactérias. »

Arte em favor do

conhecimento

FOTO: Flahana Pfeifer

Cigarro de palha ganha destaque na universidade

Priscila Diniz Como forma de estimular o aprendizado científico, o Museu Dica (Diversão com Ciência e Arte), do Instituto de Física da UFU, criou a Trilha Astronômica no Parque Municipal da Gávea, que funciona como uma grande maquete do sistema solar com escalas proporcionais ao tamanho real. Silvia Martins, coordenadora do museu, conta que a ideia surgiu a partir do edital publicado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig). “O intuito foi promover uma exposição astronômica ao ar livre, integrando o cotidiano das pessoas” explica. Em maio de 201 3, o Museu Dica concretizou este projeto em parceria com a Prefeitura de Uberlândia. As peças que compõem a trilha foram confeccionadas à mão pelo artista plástico Newton Mercaldi. “Todos os planetas foram feitos de aço, usei solda para a colagem e tinta automotiva na pintura”, descreve Mercaldi. O percurso da trilha tem aproximadamente 1 ,5 Km e o tamanho dos planetas no parque segue a escala de 1 Km por 70 milhões de Km da

dimensão original. Já a distância entre cada astro é de 1 Km por 3 bilhões, ou seja, cada Km percorrido equivale a 3 bilhões de Km em escala real. Newton ressalta que “foram usadas duas proporções na reprodução, porque uma mesma escala para tamanho e distância ocuparia um espaço maior que o parque, ou, a dimensão dos planetas deveria ser reduzida.” O passeio pela trilha traz novas noções para o processo de ensinoaprendizagem. Segundo Ivair Gonzaga, monitor do museu, os livros didáticos deixam a impressão de que os planetas possuem tamanhos e distâncias similares, sendo que a variação de tamanho e distância na escala planetária é enorme. “Para se ter uma ideia, Júpiter possui um diâmetro mais de 1 000 vezes maior que a Terra, o que seria difícil de representar em um livro”. O parque está aberto para a comunidade todos os dias, das 07h às 1 8h30. As escolas podem agendar suas visitas pelo telefone 3230-951 7, pelo email dica@infis.ufu.br, ou diretamente com o Museu Dica, bloco 3E do campus Santa Mônica. »


IN

n. 21 abr/mai 201 4

AT U ALI D AD E S

5

Andorinhas:

música como terapia

Projeto realizado por estudantes da UFU leva músicas e evangelização cristã aos pacientes do Hospital de Clínicas

Giovana Silveira Idealizado há 1 5 anos por dois estudantes da UFU, católicos e integrantes do Ministério das Universidades Renovadas, o Projeto Andorinhas traz ao Hospital de Clínicas (HC) da Universidade a alegria por meio do canto e da evangelização. O grupo realiza trabalho voluntário que consiste em visitas a diferentes alas do hospital, onde cantam músicas escolhidas pelos pacientes e familiares. Atualmente o coordenador do projeto é o doutorando em Engenharia Química, Arinan Dourado Silva. O objetivo do projeto é “Ver esse amor do Senhor Jesus agindo na vida dos pacientes, ver aqueles irmãos que estavam tristes e necessitados reavivarem a fé, reavivarem esse amor de Jesus, melhorar”, conta Silva. As músicas, as orações e as brincadeiras compartilhadas com os pacientes e família auxiliam o tratamento. A psicóloga Lívia Melo explica que essa influência na melhora dos pacientes deve-se a “psicossomática, que é o estado de espírito influenciando no estado físico”. Lívia afirma ainda que o ser humano é frágil e adoece e grupos com essa visão de alteridade podem ser instrumentos para reerguer e colaborar na esperança dos doentes.

Resultados

Os pacientes e familiares aprovam e confirmam que o Projeto traz muitos benefícios aos que estão enfrentando a vivência num hospital. Laís da Silva, paciente da clínica médica do HC que recebeu a visita do grupo Andorinhas, descreve que o projeto é importante porque “como a gente está triste, passando mal a gente se alegra mais, fica mais disposta”. A mãe de Laís, Ivanilda Silva, acrescenta que o grupo faz bem também para os familiares. “Em um momento de aflição que eu estava, o grupo veio aqui cantar e nos acalmou”.

A doação de quem desenvolve o projeto também traz benefícios emocionais para quem doa. O estudante de mestrado em Engenharia Mecânica, Glicerinho Lopes Soares, explica que: “a gente vai querendo levar algo, mas sai muito mais carregado, o que temos de retorno é muito grande”.

Diário de campo

Como participante do Projeto Andorinhas, posso afirmar que a música não é remédio somente para quem está doente, são também superdoses de força e vida para quem participa. Quando cheguei ao hospital pela primeira vez, era 1 2 de outubro, Dia das Crianças. Sendo assim, os quartos que visitaríamos naquele dia seriam os da ala pediátrica. Estava vestida de roupa colorida, tiara de estrelinhas na cabeça, nariz de palhaço e, no fundo do coração, o medo de não saber como iria encontrar as crianças e quais seriam as reações. Mas não deixei o temor visível. Chegando à ala pediátrica, enchi os balões que eu trazia comigo e junto com o grupo comecei a cantar e a dançar. Entramos então no primeiro quarto, nossas roupas eram os destaques, e aqueles olhos pesados de medicamentos iam se abrindo para melhor ver as cores, os balões e os presentes. A feição de cansaço e preocupação dos pais era invadida por um sorriso há algum tempo guardado. E assim, histórias de superação, de sofrimento, de partidas que nunca alcançaram a chegada iam sendo contadas. Cheguei ao hospital pensando que daria minha ajuda às pessoas, no entanto, mais recebi do que ajudei.

Participe

Todas as quintas-feiras, às 1 1 h50 no Hospital de Clínicas de Uberlândia. Av. Pará, 1 720, Umuarama. »


Mente

6

n. 21 abr/mai 201 4

IN

em c

"Barco sem porto, sem rumo

Nayara Ferreira “ N ã o d o rm i a , p a re c i a u m s o n â m b u l o . L e va n t a r d a c a m a p a ra c o m e ç a r u m n o vo d i a e ra d i fíc i l . Eu n ã o q u e ri a i r t rab a l h a r, n ã o t i n h a â n i m o . S ó q u e ri a q u e o d i a a c a b a s s e p a ra q u e e u p u d e s s e i r e m b o ra . P a ra m e fe c h a r, p a ra vo l t a r a u m a vi d a s ó m i n h a . S e n t i a m u i t a s d o re s d e c a b e ç a e n o c o rp o . M e u s n e rvo s e s t a va m à fl o r d a p e l e , q u a l q u e r p e q u en o t u m u l t o m e a b a l a va . M e s e n t i a fra c o . S e m p re c o m a p e rt o n o p e i t o , u m a c h o ra d e i ra p i o r d o q u e a d e u m p ro t a g o n i s t a d e n o ve l a m e xi c a n a - ri s o s . ” O s ve rb o s n o p a s s a d o m o s t ra m o b o m h u m o r d e G u s t a vo M o u ra , d e 2 6 a n o s . A d e p re s s ã o e s t e ve p re s e n t e e m s u a vid a p o r c i n c o m e s e s . S e m t ra t a m e n t o , o s s i n t o m a s p o d e m d u ra r s e m a n a s , m e s e s o u a n o s . S e g u n d o a O rg a n i z a ç ã o M u n d i a l d a S a ú d e (O M S ) o s t ra n s t o rn o s m e n t a i s a t i n g e m c e rc a d e 7 0 0 m i l h õ e s d e p e ss o a s , re p re s e n t a n d o 1 3 % d e t o d a s a s d o e n ç a s . A d e p re s s ã o é o t ra n s t o rn o m a i s p re s e n t e , a fe t a n d o m e t a d e d e s s a s p e ss o a s e 1 0 % d o s b ra s i l e i ro s . O t ra n s t o rn o d e p re s s i vo p o d e s e a s s o c i a r a a l t e ra ç õ e s n a s e s t ru t u ra s e fu n ç õ e s c e re b ra i s . C o m b i n a ç ã o d e fa t o re s g e n é t i c o s , p s i c o l ó g i c o s e a m b i e n t a i s e n vo l ve s u a m a n i fe st a ç ã o . O s s i n t o m a s a p a re c e m e m d i fe re n t e s fo rm a s e n íve i s . H u m o r c o n s t a n t e m e n t e t ri s t e , a n s i e d a d e o u s e n s a ç ã o d e “ va z i o ” , d e s e s p e ro , c u l p a , i m p o t ê n c i a , p e s s i m i s m o , p e rd a d e i n t e re s s e o u p ra ze r e m a t i vi d a d e s , fa d i g a , d i fi c u l d a d e d e c o n c e n t ra ç ã o e d e t o m a d a d e d e c i s õ e s , a l t e ra ç õ e s n o s o n o e a p e t i t e , p e n s a m e n t o s d e m o rt e e s u i c íd i o , s ã o a l g u n s d el es. A p a rt i r d a a n á l i s e d o n ú m e ro , d a g ra vi d a d e e d a p e rs i st ê n c i a d e s i n t o m a s , o p s i q u i a t ra Ti a g o C o u t o e xp l i c a q u e a d e p re s s ã o p o d e s e r l e ve , m o d e ra d a , g ra ve e g ra ve c o m s i nt o m a s p s i c ó t i c o s . S o b re o t ra t a m e n t o , o m é d i c o e s c l a re c e q u e i s s o d e p e n d e d o d i a g n ó s t i c o e d a g ra vi d a d e d o»s s i n t om a s . P o d e - s e p re s c re ve r p s i c o t e ra p i a s e , s e n e c e s s á ri o , a m e d i c a ç ã o . Ai n d a a s s i m , a d m i t e q u e a c o m b i n a ç ã o , t e ra p i a e m e d i c a m e n t o , é m a i s e fi c a z q u e o u s o d e a p e n a s u m d el es. P o r ve ze s é p re c i s o p a ra r, e n c o n t ra r u m p o rt o e l a n ç a r â n c o ra s . Qu e m g o s t a d e a n i m a i s p o d e re d e s c o b ri r n a e q u ot e ra p i a a a u t o c o n fi a n ç a e a s o c i a b i l i d a d e . O C e n t ro d e Eq u o t e ra p i a d e U b e rl â n d i a (C e d u ) o fe re c e a t e ra p i a c o m c ava l o s d e s d e 1 9 9 6 . S ã o a t e n d i d a s p e s s o a s c o m p ro b l e m a s m o t o re s , p s íq u i c o s e c o m p o rt a m e n t a i s , c o m i d a d e m ín i m a d e u m a n o e m e i o . As a t i vi d a d e s s ã o p a g a s , m a s à s t e rç a s e q u a rt a s - fe i ra s o s a t e n d i m e n t o s s ã o g ra t u i t o s , o fe re c i d o s p e l a O N G I n s t i t u t o M a rc o s S a h i u m . S ã o m u i t a s h i s t ó ri a s d e s u c e s s o e re s u l t a d o s p o s i t i vo s . A t e ra p e u t a o c u p a c i o n a l

I a n d a ra M e n e ze s , c o n t a q u e a l g u m a s c ri a n ç a s e a d o l e s c e nt e s c h e g a m c o m m e d o d o c a va l o e fi c a m a t é u m m ê s e m e i o s e m m o n t a r, m a s g a ra n t e q u e a s u p e ra ç ã o é g ra t i fic a n t e . “ D e re p e n t e s e ve e m l á e m c i m a , t o d o p o d e ro s o . ”

S a ú d e m e n ta l n o a m b i e n te u n i ve rs i tá ri o

N o a n o d e 2 0 1 3 , 3 6 5 e s t u d a n t e s p ro c u ra ra m o S e t o r d e At e n d i m e n t o P s i c o l ó g i c o a o E s t u d a n t e , S E AP S . E l e a t e n d e a l u n o s d a U FU c o m t ra n s t o rn o s e d i fi c u l d a d e s e m o c i o n a i s . A p s i c ó l o g a d o s e t o r, M i c h e l e Fa l c o , fo rt a l e c e a i m p o rt â n c i a d e q u e o m o m e n t o d e fo rm a ç ã o a c a d ê m i c a s e j a ri c o e p ro at i vo , m a s a n t e n t a p a ra o e xc e s s o d e a t i vi d a d e s .

Essa p p o r u n i ve p s i q u i a t ra medi ci na M e n t a l (L O alun d a Li g a, L i dei a de q o u p e ri g o en te. Sab en te, q u e i n t e g ra l . ”

Elo entre o homem e o animal é importante cúmplice na promoção da saúde mental


IN

n. 21 abr/mai 201 4

FOTO: José Pedro Bezerra

crise

7

Exercícios físicos au xiliam na saúde mental dos pacientes

Humanização da loucura

o e sem vela"

José Pedro Bezerra

re o c u p a ç ã o c o m a s a ú d e m e n t a l é c o m p a rt i l h a d a rs i t á ri o s . S o b o ri e n t a ç ã o d o p ro fe s s o r e m é d i c o a Lu i z C a rl o s O l i ve i ra J ú n i o r, 2 1 e s t u d a n t e s d e e p s i c o l o g i a c o m p õ e a L i g a Ac a d ê m i c a d e S a ú d e L I S AM ) . o d o 6 º p e río d o d e m e d i c i n a e c o o rd e n a d o r g e ra l Lu c a s S i c i n a t o , j u l g a e s s e n c i a l d e s m i s t i fi c a r a q u e o p a c i e n t e p s i q u i á t ri c o e p s i c o l ó g i c o é a n o rm a l o s o . “A L i g a n o s e n s i n a a c o n h e c e r o n o s s o p a c ib e r q u e e l e n ã o é s ó u m fíg a d o o u u m c o ra ç ã o d oe l e é u m s e r h u m a n o q u e p re c i s a d o c u i d a d o FOTO: Nayara Ferreira

»

Ao imaginar um hospital psiquiátrico, a mente já remete a um lugar que pareça uma prisão. Os pacientes não podem sair daquele local até estarem “curados”. Sobram doses altas de remédios e falta conversa com os internos. Porém, uma luta existe no Brasil desde o começo dos anos 2000 para que esse tipo de pensamento não exista mais. A Reforma Psiquiátrica é um tema em debate no País que deseja modificar a forma como é tratado o sujeito que está em sofrimento mental. Foram criados Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que acompanham os pacientes, e o sistema implantado em hospitais psiquiátricos foram evoluindo. Exemplos dessa evolução são os projetos que acontecem na Enfermaria de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU). Um desses projetos, realizado por alunos da Educação Física, consiste em ir até o hospital e fazer atividades físicas com os pacientes. Hernane Vilela é um desses estudantes e diz que é uma grande satisfação ir até à enfermaria. “É uma pena que, muitas vezes, vários pacientes não participem das atividades, pois estão muito medicados”, disse o estudante. Ele ainda salienta que participar do projeto é importante não só para a

graduação, como também para a vida pessoal. “Vivencio muitas coisas no hospital e isso me faz quebrar todos os paradigmas impostos pelo senso comum”, concluiu. Segundo a assistente social Maria Aparecida de Araújo, os pacientes ficam, em média, 30 dias no hospital. “Projetos como esses são importantes, pois o tratamento não deve se reduzir a medicamentos. É importante avaliar a saúde física”, afirmou. Outro projeto realizado na enfermaria vem da Psicologia, que propõe aos pacientes que eles escrevam cartas para quem quiserem. As cartas podem ser entregues caso seja possível. O projeto é desenvolvido pelas estudantes Janaína Carrijo e Natália Freitas. Nas cartas, os pacientes encontram uma forma

Diário de Campo

terapêutica em que podem ter o direito de dizer o que sentem, suas angústias e sentimentos. “Além de manter o vínculo social com quem está do lado de fora, que pode ser cortado”, disse Natália Freitas. Com relação ao uso de medicamentos, que pode atrapalhar a participação dos pacientes na oficina, a estudante diz que a reforma trouxe mudanças, mas ainda é preciso transformações. “Acredito que seja importante para o tratamento, mas percebo que o remédio se torna, muitas vezes, o principal elemento das internações, se esquecendo da história e de quem vem a ser o próprio sujeito que está em sofrimento mental. Projetos como o das cartas podem ajudar a mudar isso”, finalizou a estudante de psicologia. »

Chegar a um lugar e se deparar com grades prendendo pessoas não é legal. Os pacientes estavam ansiosos para dar a hora de participar das oficinas externas e se sentirem mais livres. Já eu sentia um tipo de medo. Ao sair de lá, reparei que olhei os pacientes com estranhamento. E isso não foi bom. Comecei a lembrar de detalhes mais bonitos do que a minha falta de tato. Por que ao invés de reparar nas atitudes deles, eu não reparei num senhor que fitava o papel onde escreveria a carta, por um longo tempo, pensando no que dizer? Ou na paciente que disse que não escreveria carta, pois ninguém se lembrava dela? Ou no modo como o estudante de Educação Física lidava com os pacientes, brincando com eles? Por que ainda há estranhamento? Por que ainda esbarro em questões do senso comum? Por que a sociedade é desumana com aqueles que estão em sofrimento mental? Ainda precisamos melhorar. »


8 AT U ALI D AD E S

n. 21 abr/mai 201 4

IN

Finanças

E quando a grana está curta?

Insuficiência das atividades oferecidas pela universidade leva os estudantes a trabalhar fora de suas áreas de estudo

Foi através de um pedaço de madeira jogado pela UFU que O Doutor em Economia, Fábio Terra, explica que, para não o estudante de Engenharia Ambiental, Caio Nakane, deu o pricomprometer o curso dos discentes, o ideal seria que a nemeiro passo em direção à sua fonte de renda extra fabricando cessidade de renda extra fosse abastecida por recursos da shapes de skate – parte em que os skatistas se apóiam. Tenprópria universidade, como bolsas de pesquisa ou estágios tado a reciclar aquilo que supostamente seria lixo, ele, após remunerados. Sendo estas atividades, muitas vezes, inalcanpesquisas e experimentalismos, se dedicou ao hobby que viria çáveis ou insuficientes em termos de renda, os alunos acabam a se transformar na Vida Nova, sua marca. “Até hoje nunca tilevados à economia informal. “O problema deste tipo de comrei muito lucro pra mim, é uma empresa e o dinheiro precisa plementação de renda é que o estudante não se resguarda leser reinvestido, mas está crescendo”, conta. galmente em nenhum termo: previdenciário, trabalhista, Intercalando a produção com os estudos e vendendo para tributário. Ele simplesmente não aciona nenhum dispositivo amigos, dois anos após sua criação, Nakane enxerga futuro legal que o protege”, esclarece Terra. com a pretensão de aliar a marca à sua formação acadêmica. A ausência de capital para investimento fez com que ele aban- Choque de agenda donasse – por ora – a fabricação de shapes sustentáveis, Outro obstáculo que impede os estudantes de atuarem em mas, em seu trabalho de conclusão, o estudante pesquisa o suas áreas é a impossibilidade de conciliar o horário das aulas laminado de bambu e pretende utilizá-lo como matéria prima. com um emprego formal. “As empresas só contratam em períoMas nem todos encontram a possibilidade de conciliar as do comercial, nós do curso integral não temos chance alguma”, atividades extras à sua área de estudo. É o caso da aluna de lamenta Lineker Moraes, do curso de Ciências Contábeis. » Filosofia, Ana Marina Linhares, que produz e vende barras de cereal artesanais no campus Santa Mônica. Ana relata que a necessidade de complementar a renda para se manter no curso a fez procurar por um produto diferente do habitual. Tendo começado com sanduíches vegetarianos, ela mesma criou a receita das barras de cereal que, hoje, são o sucesso do “Jambolão”. Em comparação com um emprego formal, Ana não tem dúvidas de que prefere comercializar suas barrinhas. Para ela, nesse tipo de emprego, o salário não compensa o excesso de trabalho. “A média que ganhava trabalhando no shopping era de 25 reais por dia. Sem fazer muito esforço, eu vendo 25 barrinhas, a um real cada, em menos de três horas aqui na UFU”, Da madeira crua à arte final: Caio Nakane produz shapes de skates declara.

Prá tica d e Cy berbu l ly in g n a U n iversid a d e Nayane Dominique e Alzira Riquieri

O cyberbu l l yi n g , bu l l l yi n g vi rtu al , ocorre q u an d o u m i n d i víd u o ou u m g ru po u ti l i za d a i n tern et e red es soci ai s para ag red i r com i m ag en s, com en tári os d epreci ati vos, ou até m esm o am eaças à ou tra pessoa. As ag ressões tem o obj eti vo d e i n ti m id ar, ri d i cu l ari zar e h u m i l h ar o ou tro q u e g eral m en te n ão tem a possi bi l id ad e d e se d efen d er. F. V. L foi víti m a d e cyberbu l l yi n g d en tro d o m ei o acad êm i co e con ta q u e d escobri u através d as red es soci ai s – Twi tter e Facebook – q u e era ri d i cu l ari zad a. N o i n íci o os estud an tes q u e a ag red i am n ão ci tavam seu n om e, m as el a percebi a q u e as críti cas eram d i reci on ad as. As ag ressões vi ven ci ad as se i n i ci aram

l og o q u an d o a estu d an te i n g ressou n a u n i versi d ad e. El a, q u e está n o 4º períod o, acred i ta q u e as “pi ad i n h as” fei tas sobre su a person al i d ad e e vid a pessoal con ti n u am . A u n i versi tári a con ta q u e pen sou em l evar o probl em a ao col eg i ad o d o cu rso e à rei tori a d a i n sti tu i ção, m as tem e q u e este fato a d esg aste ai n d a m ai s. “Si n to q u e o am bi en te acad êm i co, i n cl u si ve os professores, são bem fech ad os em rel ação ao assu n to e al g u n s d i zem q u e essas ofen sas são 'bri n cad ei ri n h as i n ofen si vas'”. De acord o com a ad vog ad a e vice presi d en te d a OAB/U berl ân d i a, Ân g el a Botel h o, “em bora n ão estej a ti pi fi cad o com o cri m e n o Cód i g o

Pen al o bu l l yi n g é ato i l íci to, su j eitan d o o ofen sor às pen al i d ad es d a l ei - d esd e q u e com provad o d an o m oral , m ateri al ou cível sofri d o pel a víti m a”. Al ém d i sso, Botel h o ressalta q u e “é i m portan te en ten d er q u e n ão exi ste an on i m ato n a i n tern et. É possível rastrear o I P d o com pu tad or e q u ebrar si g i l o d as com u n i cações”. Ân g el a escl arece q u e as pen as para q u em com ete este ti po d e crim e vari am en tre a prestação d e servi ços e o pag am en to d e i n d en izações e m u l tas. “H á ai n d a a respon sabi l i d ad e d a i n sti tu i ção en vol vi d a, q u e pod erá respon d er sol i d ari am en te, n os l i m i tes d a l ei ”, pon tu a a ad vog ad a. »

FOTO: Renato Pinheiro

José Elias Mendes


IN

n. 21 abr/mai 201 4

cu lt u rae s p o rt e laz e r

9

Cultura independente em Uberlândia Gabriela Guimarães

O Coletivo Pássaro Preto atua em Uberlândia desde 201 1 , ganizando para isso”. realizando atualmente eventos culturais. O projeto nasceu no O Pássaro Preto não é o único coletivo cultural na cidade. bairro Luizote, onde amigos se reuniram com o objetivo de foHá anos o “boom” de coletivos fez de Uberlândia palco para mentar a produção alternativa na cidade, principalmente na passagem de diversos artistas. Em 201 3, o Festival Goma, reperiferia. alizado pela Casa Verde em parceria com o Fora do Eixo, trouCleber Couto, estudante de História na UFU, é um dos funxe para a cidade artistas notáveis como Criolo e deu espaço a dadores do Pássaro Preto e afirma que o sucesso das produbandas independentes da cidade como a Muñoz. ções independentes se dá pelo próprio público O início da produção alternativa em Uberlândia ocordiferenciado. Para garantir o público, o coletivo reu em meados de 2007, por meio da injá programou os festivais desse ano a fluência vinda de Cuiabá, onde o partir da realização de quatro evenColetivo Fora do Eixo nasceu e tos: Chinelada, Cover Atack, Selva ganhou força. Gabriel Tino, de Concreto e Era de Ferro. estudante de Artes Visuais, Coletivos de produção alacompanhou o crescimenternativa são importantes to da cultura alternativa nas cidades, pois através em Uberlândia, e afirma deles, os artistas locais que não é fácil produzir. podem divulgar seu trabaTino considera que a cilho. Sobre a importância do dade esteja em transição coletivo na cidade e a ajuda e que por isso os trabaque é dada aos artistas lolhos acabam se dissolcais, Cleber conta: “Poucos se vendo. Porém, ressalta a interessam em criar espaços importância dos coletivos: “É para que isso seja evidenciado. possível fazer produção sozinho, Acredito que em um futuro não tão dismas no coletivo são muitas pessoas FOTO: Ananda Dinato tante poderemos ter uma importância reletrabalhando com a mesma finalidade, facivante nesse aspecto de litando a comunicação entre Banda Muñoz foi uma das atrações do Festival Goma 201 3 produção e estamos nos oro artista e o público”. »

UFU forma músicos de sucesso Francine Naves

O bl oco 3M possu i u m am bi en te d i feren te d os d em ai s. O préd i o d o I n stitu to d e Artes ch am a a aten ção pel a arq u i tetu ra e ar cu l tu ral . A cad a sal a ou ve-se o som d e estud an tes en sai an d o u m a peça ou prati can d o i n stru m en tos. A facu l d ad e d e m ú si ca tem form ad o m u si ci stas d e su cesso d esd e 1 9 50. N o en tan to, estes al u n os ai n d a sofrem com precon cei to por parte d a soci ed ad e q u e n ão com preen d e o esforço i ntel ectu al e práti co q u e o cu rso exi g e.

Orquestra

O cen ári o cu l tu ral u berl an d en se n ão oferece orq u estra m u n i ci pal ou g ran d es festi vai s, com o em São Pau l o e Ri o G rand e d o Su l . N o en tan to, Ed er Bel ch i or, prod u tor execu ti vo d o “U d i Cel l o

En sem bl e” acred i ta q u e o espaço está crescen d o com a con stru ção d e n ovos am bi en tes cu l tu rai s. H á ci n co an os, o g ru po d e oi to estu d an tes e vi ol oncel i stas i n d epen d en tes tem se apresen tad o pel o Brasi l e festi vai s i n tern aci on ai s. M esm o d esvi n cul ad o d a U FU , u n i versi tári os d a ban d a tem a com preen são d os professores q u an d o precisam se au sen tar d evi d o à apresen tações. Pri n ci palm en te se ti ver u m a boa con d u ta d u ran te as au l as, con ta G abri el G on çal ves, i n teg ran te d o “U d i Cel l o”. Ou tro fator posi ti vo é a g rad e cu rri cu l ar d o cu rso. “Vari am os a oferta d e d i sci pl i n as d e m od o q u e o al u n o d esen h e su a m atrícu l a con form e a n ecessid ad e”, afi rm a a coord en ad ora Ci n ti a M orato. El a d estaca o i n centi vo d a u n i versi d ad e com

al u n os q u e q u ei ram seg u i r a carrei ra perform áti ca, com o fi n an ci am en to d e passag en s para con cu rsos e festi vai s. A cad ei ra d e “Práti ca d e Con j u n to” é berço d e d i versos g ru pos com o Qu arteto d e Cord as e o G ru po d e Fl au ta Doce, q u e fazem apresen tações pel a ci d ad e.

Preconceito

A carrei ra n o setor cu l tu ral é vi sta pel o sen so com u m com o cam po em q u e n ão h á prod u ção cien tífi ca ou estabi l i d ad e econ ôm i ca, por i sso, al un os d o cu rso d e m ú si ca sofrem com precon cei to. “Para m u i tos, m ú si ca n ão é si n ôn i m o d e profi ssão”, d esabafa Bel ch i or. M as h á opções para q u em se form a em m ú si ca. “Com a obri g atori ed ad e d o en si n o m u si cal em escol as reg ul ares, tem os n ovas perspecti vas d e em preg o”. »


10 cu lt u rae s p o rt e laz e r

n. 21 abr/mai 201 4

IN

FOTO: Paula Nascimento ARTE: Free Tattoo Designs

P ara alé m d o d e s e n h o Cores, sombras, máquinas com um barulho peculiar. Tatuagem é prática cotidiana, principalmente para o artista que está por trás dela.

Paula Nascimento

Uberlândia é casa de tatuadores premiados internacionalmente. Entre os mais jovens, tatuagem é quase rotina e é difícil achar alguém que não tenha pelo menos uma, mesmo que seja pequena. E é ali, na rua Duque de Caxias, que se localiza o estúdio de famosos tatuadores do Brasil. Cheio de referências a diversas religiões, cores e muitos desenhos em suas paredes, o Harajuku Tattoo Studio é também local de trabalho de iniciantes na arte de tatuar. São jovens, em sua maioria, e amigos – tanto que durante as sessões é comum ouvir risadas entre eles. O dono do estúdio estava em Londres, participando de um concurso. Nas mesas, duas clientes – uma fazia uma hamsá, um talismã árabe e a outra flores e borboletas. Martin e Hudson, também tatuadores, desenhavam. Rafael tatuava a si mesmo num cantinho, Douglas era o responsável pela hamsá e Caio Honda, meu entrevistado, fazia as flores. Honda sempre quis ser

tatuador. Só que seus pais queriam que ele fizesse faculdade e essas coisas. Ele até chegou a fazer, fez Química Industrial durante dois anos, mas não via seu futuro ali, “eu só ficava desenhando durante as aulas”, afirma. Nem por isso ele deixou de correr atrás do que queria, foi ao Harajuku para aprender, mas no dia o estúdio estava lotado e não rolou. Mais tarde, um amigo de Honda tatuou um desenho seu no braço em outro estúdio, o Mazer – Zagaia Tattoo. Zagaia, grande tatuador, gostou do desenho e perguntou quem tinha feito – foi assim que começou: Zagaia então o ensinou sobre as máquinas, as agulhas e tudo mais. Honda chegou a transferir-se para Artes Visuais, mas logo no início, Japa, o dono do Harajuku, o convidou para trabalhar ali, e ele pensou: “Se eu quero viver de arte, por que não a tatuagem?”. Segundo ele, é maravilhoso trabalhar no estúdio, “você tem contato direto com a arte, cada um aqui tem seu estilo, desde oriental a old school, então

acaba que cada um se completa. A troca de experiências que é o mais bacana”, justifica. Para o tatuador, o preconceito contra a profissão existe, principalmente por conta dos mais velhos, apesar disso, ele pretende trabalhar com tatuagem pelo resto da vida. Questionado se pensa em abrir seu próprio estúdio, Honda diz que isso ainda não está nos planos dele. “Pra abrir um estúdio você tem que ter a capacidade de tatuar o que vier. E eu só acho que vou adquirir isso daqui muito tempo mesmo”. Na verdade, Honda diz que nem chega a ser um trabalho. Ele gosta de desenhar e, “o massa da tatuagem é que ela não é um quadro que você pinta e põe na sala, e só vai ver quem for na sua casa. É uma pessoa. Então ela vai se relacionar com várias outras pessoas, e todas essas pessoas vão ver aquilo, vão ver aquele momento que significou algo. E tipo, é pra sempre, é a única coisa que é pra sempre: família e tatuagem”, completa. »


IN

n. 21 abr/mai 201 4

11

cu lt u rae s p o rt e laz e r

Resenhas

De documentário nói$ tá bem Maysa Vilela

podem levar se um dia tiverem muito dinheiro como os próprios MC’s. Morar em mansões, andar de carrão, ir às melhores baladas e viver rodeado de mulheres. Vida que poucos conseguem atingir mesmo com anos de trabalho, o que pode motivar os jovens a partirem para meios ilícitos que os façam conquistar com rapidez a ostentação que tanto desejam, ou até mesmo a se frustrarem com suas próprias realidades. Porém, o documentário ao ser produzido pela mesma produtora dos clipes mais bem sucedidos de funk ostentação ganha por ser o primeiro filme a contar a história do movimento com alta qualidade, e por representar um importante material na luta contra o preconceito que o funk enfrenta no país. »

ILUSTRAÇÃO: Daniel Domingos - Studio Domingos P@pel Digit@al

O documentário “Funk Ostentação – O Filme”, lançado em novembro de 201 2, tem a direção de Konrad, criador da produtora de clipes de alguns dos MC’s mais conhecidos do funk paulista, Kondzilla. Com quase 40 minutos de duração e ótima produção, o documentário narra a história do movimento através de entrevistas com importantes nomes do funk ostentação, como a dupla Back Di & Bio G3, de “Bonde da Juju” e o MC Boy do Charmes, de “Megane”. Numa mescla de entrevistas e trechos de clipes regados à Chandon, o filme retrata a trajetória do estilo musical que surgiu na baixada paulista e que tem conquistado fãs pelo Brasil. As letras das músicas evidenciam o “poder” proporcionado pelo dinheiro, que os próprios representantes do movimento dizem ser o responsável pela mudança de vida que eles tiveram ao saírem da vida humilde que tinham por meio do funk. O que merece ser mostrado por meio da ostentação. O documentário traz ainda a participação de MC’s de sucesso como o MC Guimê, que chega a fazer seis shows em uma noite. Autor de músicas que emplacam com rapidez assustadora trazendo milhões de visualizações aos seus clipes, Guimê dá continuidade ao movimento da ostentação com letras carregadas das melhores marcas de carro, correntes de ouro, bebidas caras e muitas notas de cem. “Funk Ostentação – O Filme” representa o funk paulista já consolidado no Brasil com maestria, convidando as pessoas a entenderem o movimento desde o seu surgimento, assim como os anseios e motivações que levam esses artistas a se manifestarem através da ostentação. Pois, todos eles um dia sonharam em chegar longe, ter dinheiro para usar roupas de marca, comprar carros caros, e poderem mostrar essa realidade de ser “patrão” e não empregado. O filme traz como mensagem a vida perfeita que os jovens

Crianças de um Brasil sem época Amanda Silva

O Romance de Jorge Amado, “Capitães da Areia” foi escrito em 1 937 e se tornou um dos mais famosos do autor. O livro se inicia com reportagens explicando sobre os pequenos marginais e é divido em três partes que acompanham as andanças dos meninos pelas ruas da Bahia e conta sobre as suas perdas, amizades, repressão, romance, crimes, medo, diversão, aventuras, dificuldades e decisões. Um retrato do Brasil antigo, mas que se mistura ao novo, tornando a história atual e despertando simpatia mesmo tantos anos após o lançamento. Os meninos de rua, ultrapassando 1 00 crianças, moram num trapiche abandonado e comentem crimes para sobreviver. Liderados por Pedro Bala e seus escudeiros mais próximos, como Professor, Gato, Volta-Seca, Sem Pernas, João Grande, Pirulito e Boa Vida, os marginais que assustam a cidade seguem fugindo do reformatório, prezando pela sua liberdade e descobrindo a vida como qualquer jovem, com a diferença que contam somente com o suporte de três adultos: um padre, uma mãe-de-santo e um estivador. Apesar de cometerem crimes e serem procuradas, as crianças não são de todo mal. São jovens que se viram como podem, apoiando uns aos outros e lutando para sobreviver em meio às injustiças. O leitor se simpatiza pelo companheirismo que os une, a liderança de um jovem respeitado prati-

camente como um pai e o aparecimento de uma menina, Dora, a única mulher do grupo e posterior mãe desses meninos. Apesar de serem jovens com características e vidas de adultos, sua inocência de criança aparece em determinados momentos. A alegria desses meninos no velho carrossel iluminado fazem se sentir especiais, sensibilizam o leitor e ajudam a compreendê-los melhor. São crianças deixadas de lado, que tiveram de aprender a se virar, se juntaram apesar das suas diferenças e se mantiveram unidos. Meninos de rua que encontraram seu caminho, mesmo quando tudo parecida perdido. Alguns seguindo destinos já traçados, outros fazendo escolhas adultas por si só. Um livro, que mais de 50 anos após sua escrita e mesmo já tendo sido queimado em praça pública, vale a pena ser lido. A história da sociedade e a presença dos problemas sociais, como também o crescimento de milhares de menores pelo país. Uma luta para sobreviver e se encontrar. “Capitães da Areia” faz pensar politicamente, socialmente e interiormente. Não se trata de marginais de rua retratados como inocentes, pois seus crimes estão expostos. São heróis ambíguos, como na vida real. Um romance sobre o Brasil e seus filhos. »


12 E X P RE S S Ã O &arT E

n. 21 abr/mai 201 4

IN

FOTO: Flahana Pfeifer

Fi lo so fi a d o au t o co n t ro le at é em d i as d e cao s Flahana Pfeifer

Faltava pouco para as seis horas da tarde quando cheguei ao endereço marcado para a entrevista. Meu encontro era com a professora de yoga Tainah Marques, que as seis em ponto chegou ao local. Cumprimentamos-nos e então subimos três ou quatro lances de escada até chegarmos à sala onde acontecem as aulas. Em frente à porta de entrada, havia uma espécie de altar em uma mistura de cores com o predomínio do verde das plantas. Assim que entramos, Tainah me pediu que retirasse os sapatos. Enquanto desamarrava o tênis, ela ia preparando o ambiente com uma música de confortar os ouvidos e um incenso de cheiro agradável. Sentamos-nos em um tapete e iniciamos a entrevista. Eu estava ali para saber um pouco mais sobre o yoga, a prática indiana que tanto li nos últimos meses. Expliquei minha curiosidade para Tainah que logo abriu um sorriso e disse: “Na sala de aula a gente vem só para compartilhar alguns ensinamentos, trocar energia e treinar um pouco o corpo com as asanas, que são as posturas psicofísicas. O yoga a gente pratica quando saímos daqui. É uma filosofia e um modo de vida em uma interação de corpo, mente e espírito”. A professora então me contou que pratica o yoga a menos de três anos, mas que foi algo transformador em sua vida. Após estresse no trabalho, decidiu fazer um curso de dois anos em que aprofundou os seus estudos na filosofia indiana e que hoje transmite para outras pessoas. “Eu levo para os meus alunos a não violência, a preocupação com a alimentação e o fazer aquilo que nos faz bem. Você começa a se respeitar. O yoga mexe muito com a gente”. No fim da entrevista, perguntei a Tainah sobre seu projeto “Dia de Parque com Yoga”, que é gratuito, acontece nas manhãs de sábado no Parque do Sabiá e conta com músicas, atividades lúdicas e piquenique. “Eu não imaginava que ia ter tanta gente. É um projeto que eu não ganho nada, a não ser todos os benefícios para mim, essa gratidão de ter tudo, que é bem legal”, descreve a professora com semblante de satisfação. Desliguei o gravador e continuamos um papo sobre força de vontade e mães enquanto Tainah despregava algo do mural da sala para me entregar. Saí de lá com dois papéis que explicam um pouco da filosofia do yoga e com uma paz de espírito gigante. »


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Senso incomum 21 - abr/mai 2014 by Jornalismo UFU - Issuu