A Caritas Socialis e vida de mulheres em situação de vulnerabilidade social
A instituição é um dos principais meios de apoio e assistência à população em situação de vulnerabilidade e exclusão social em Guarapuava, e tem se destacado pelo trabalho transformador que realiza com as atividades de apoio voltadas para comunidade feminina atendida pela entidade.
Sede de sentido da vida
Conheça a história de vida da fundadora da instituição, Hildegard Burjan.
Arte que acolhe, ensina e transforma
Instituições sociais aplicam a arte como ferramenta educativa e de transformação, como ocorre no Centro de Apoio à Família da Caritas Socialis (Caaf), em que crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade participam de oficinas semanais.
As oficinas artísticas oferecidas pelo Centro de Apoio à Família da Caritas Socialis beneficiam crianças e adolescentes, restabelecendo a autoestima e a sociabilização.
Essência Jornal
Produção acadêmica do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). Este jornal é uma produção acadêmica, vinculada às disciplinas extensionistas Jornal Laboratório, sob orientação da professora Elisa Ferreira Roseira Leonardi, e Design em Jornalismo, sob orientação do professor Lucas Monteiro Pullin. Desenvolvido com caráter educativo e sem fins lucrativos, o jornal promove a integração entre universidade e comunidade por meio da prática jornalística. As opiniões expressas nas reportagens e materiais assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a posição institucional da Unicentro.
A história da Caritas Socialis, uma instituição de cuidados, voltada para aqueles que mais precisam, desde crianças, mulheres, e idosos. A entidade pratica o serviço
Fundada em 1919, em Viena, pela Doutora Hildegard Burjan, a Caritas Socialis é uma instituição de pessoa jurídica de direito privado, de caráter social, que atua em Guarapuava desde 30 de janeiro de 1970. A entidade desenvolve projetos e programas que visam o atendimento a famílias em situação de vulnerabilidade e risco.
Após se converter ao catolicismo, Burjan se mudou em 1909, para Viena, Áustria, onde começou sua obra de caridade. Foi a primeira mulher cristã que atuou no Parlamento Austríaco, como Deputada Federal. Hildegard tinha como objetivo o fortalecimento da família e a melhoria das condições de vida das mulheres. Para dar continuidade a sua missão, fundou a Comunidade das Irmãs da Caridade Social, em 1919.
Em 1967, a convite de Dom Frederico Helmel, primeiro bispo de Guarapuava, vieram para o Brasil três irmãs. Para que as atividades desenvolvidas tivessem sustentação jurídica, em 1970, a entidade Caritas Socialis foi estabelecida no município. A primeira presidente da instituição, no Brasil, foi a assistente social irmã Maria Mair.
Em 1972, com a Legião Brasileira de Assistência, foi realizado um total de 284 cursos, entre eles, culinária, tricô, crochê, costura e confecção de acolchoados. Para atingir também a
área rural, foram preparados instrutores que se tornaram multiplicadores, ministrando cursos nas comunidades para as pessoas interessadas.
Em 1980, a Caritas Socialis, com objetivo de promover desfavelamento do bairro São Cristóvão, realizou, em parceria com a Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar), o projeto de construção de um Núcleo Habitacional no Bairro Morro Alto. Foram construídas 96 casas, onde as próprias famílias ajudaram na edificação e ao mesmo tempo, faziam cursos de pedreiro, carpinteiro, eletricista e encanador. Este projeto em mutirão foi o primeiro no Estado do Paraná e recebeu o nome de João Paulo II.
Entre 1997 e 2006, a Caritas atuou em Curitiba. O público atendido eram famílias da periferia em situação de pobreza. Reuniões foram realizadas com grupos, na comunidade, e foi criado o Projeto Mutirão, que desenvolvia cinco ações sociais, que são padaria comunitária, oficina de costura, clube de troca e economia solidária, inclusão digital e cidadania e o projeto dos catadores de papel.
De 1986 a 2021, a Caritas Socialis passou a coordenar a Pastoral da Criança na diocese de Guarapuava, em atividades regionais, prestando um serviço continuado de assessoria técnica, administrativa e financeira.
Através da Pastoral, o projeto esteve presente em trinta municípios. Em 2008, foi criado o Centro de Apoio à Família (Caaf) em Guarapuava, para atender famílias em situação de vulnerabilidade. Inicialmente, funcionou em salas cedidas pelo Santuário Nossa Senhora Aparecida, e em 2010, com a ajuda de benfeitores de Viena, foi construída a própria sede. No Caaf acontece o atendimento a famílias conforme os princípios institucionais que se fundamentam na proposta da espiritualidade bíblica e nas inspirações de Hildegard Burjan.
Para a irmã Valdomira, “o carisma das irmãs é a caridade social. É tornar presente o amor de Deus misericordioso. Então, a gente procura transmitir também através dos valores da entidade, da caridade social, transmitir esse amor que fundamenta na proposta do evangelho e no carisma da nossa fundadora Beata Hildegard Burjan”, explicou a religiosa, completando que, “assim, trago presente também a visão da entidade, que é o cuidado, a família, o amor, o aprendizado, o fortalecimento de vínculo, a proteção social e a dignidade. Eu vejo que, dentro dos valores, nós procuramos desenvolver a espiritualidade no espaço onde nós estamos e com os grupos que estamos”.
Valdormira Santos enquanto faz as preparações da oficina de idosos “Eu vejo que, dentro dos valores, nós procuramos desenvolver a espiritualidade no espaço onde nós estamos e com os grupos que estamos”.
Elaine Ilencio
Os rostos da solidariedade
Colaboradores e voluntários que auxiliam no acolhimento das crianças, jovens e mulheres atendidos no Centro de Apoio à Família relatam que o amor é o fundamento de seus trabalhos
A Caritas Socialis em Guarapuava, dedica-se ao atendimento de crianças, jovens e adultos em situação de vulnerabilidade social. Entre suas frentes de atuação, a mais notória é o Centro de Apoio à Família (Caaf). A instituição assiste quase quatrocentas pessoas. Para dar conta desse volume de atendimentos, a entidade possui em seu quadro organizacional, pessoas que se dedicam a esse serviço, doandose com o propósito primário e essencial de ajudar o próximo. Na instituição, esses trabalhadores atuam com os mesmos desígnios, mas são vinculados ao Caaf de forma diferenciada. Eles são colaboradores e voluntários, além das irmãs religiosas. Os voluntários assinam um termo de trabalho filantropo, que contém o dia e horário que eles irão dedicar às pessoas da instituição, enquanto os colaboradores fazem parte do quadro de funcionários e recebem remuneração pelo trabalho que fazem todos os dias na Caaf. Colaboradores e voluntários têm papel fundamental na manutenção e no funcionamento diário do Centro de Apoio à Família (Caaf). São eles que, ao lado das irmãs religiosas, colocam em prática os valores da Caritas Socialis, prestando apoio direto às pessoas atendidas e garantindo que as atividades da instituição ocorram com qualidade, acolhimento e compromisso.
Marcia Sidor, 43 anos, formada em pedagogia, atua como colaboradora no Caaf há aproximadamente nove anos. Ela trabalha como educadora social, desenvolvendo atividades na área das artes com as crianças, pré-adolescentes e adolescentes. A divisão dos grupos é feita por faixas etárias para que as atividades sejam mais eficientes e proveitosas. Marcia já atuou em várias áreas da pedagogia, mas, é a primeira vez que ela trabalha no âmbito social. Márcia relatou que gosta muito de atender crianças e adolescentes. ‘’Eu sempre tive muita
paixão em trabalhar com crianças, sempre me identifiquei muito. Foi um pouco desafiador trabalhar com adolescentes, mas, depois que eu comecei, eu me apaixonei também’’ , confirmou a pedagoga.
Gilberto Pedroso, 39 anos, é colaborador no Caaf há dez anos, como professor de educação física. As atividades desenvolvidas pelo educador são destinadas às crianças e adolescentes. Gilberto também é professor de temas diversos. Ele já foi aluno no Instituto Dom Bosco, e foi lá que o instinto social cresceu dentro do professor que, quando pequeno, também frequentava projetos sociais. Ao crescer, trabalhou por alguns anos no Centro de Referência de Assistência Social (Cras). O que levou o professor a trabalhar com o social foi poder contribuir com o crescimento das crianças e dos adolescentes. ‘’ É tentar transformar um pouco a realidade das crianças e adolescentes. Para uma realidade um pouco mais confortável, e com isso, tentar motivar eles a ser uma pessoa melhor, focar nos estudos ‘’, destacou o educador.
Silmara Maneira Pereira, 50 anos, é formada em Letras. Ela trabalha na Caaf como educadora há cinco anos e atua em outras áreas dentro da instituição há mais ou menos dez anos. A colaboradora desenvolve oficinas culinárias com as pré-adolescentes e com as mães. Silmara também coordena a oficina de informática para todas as crianças, pré-adolescentes e adultos. Antes de desempenhar essas ações específicas, ela atuava no escritório e nas atividades de contabilidade, além de ajudar a buscar as doações que a instituição recebe. Contudo, Silmara começou a trabalhar
com as irmãs da caridade social há mais de 24 anos. Ela começou atuando na Pastoral da Criança, quando o serviço ainda não era feito no Centro de Apoio à Família. As irmãs tiveram um papel muito importante para inserir a educadora dentro do trabalho social. Hoje, Silmara não se imagina trabalhando com outra coisa .‘’Eu gosto muito de lidar com eles [crianças e adolescentes]. A gente aprende muito e vê que podemos transformar de alguma forma, nas mínimas doses que a gente dá diariamente. Hoje, pode ser que não faça efeito, mas, uma hora vão lembrar daquela sementinha que a gente plantou’’, comentou
Gabriel Gonçalves, 26 anos, é o mais novo da turma dos colaboradores. Ele atua no Caaf há dois meses. É educador de música para crianças, pré-adolescentes, adolescentes e adultos. Ele ensina as teorias musicais, instrumentalização e musicalização. Gabriel trabalhava há cerca de dez anos, dando aula de música em projetos sociais da prefeitura de Guarapuava. Para ele, ‘’não há nada melhor do que a transmissão de conhecimento, sobretudo, com a população que necessita disso, que as vezes não tem formação, não tem cuidado e carinho.’’
Marlene Aparecida Maciel, 60 anos, é colaboradora há 11 anos na Caaf, é educadora social e trabalha com mulheres de todas as idades. Por conhecer as irmãs e a entidade há muitos anos e estar infeliz no trabalho, ela começou a auxiliar na cozinha da instituição, e, depois recebeu o convite para ministrar nas oficinas com as mulheres. Para ela, “isso é uma forma de demonstrar amor ao próximo. A autoestima delas chega aqui, no chão, então, você tem
Laura da Silva
que estar ali dando forças. ‘’Aos 60 anos, ela trabalha na instituição em tempo integral por achar que somente meio período não era o suficiente para concluir suas atividades.‘’ Eu vou embora com a sensação de dever cumprido, por ter ajudado. ‘’
Maria Pedroso, 60 anos, trabalha no Caaf desde novembro do ano passado. Sua função é desempenhada em meio período. Foi por meio do convite da irmã Valdomira que ela começou a trabalhar na cozinha da instituição. ‘’Eu tenho muita paixão pelo trabalho social’’, comentou Maria, explicando que esta é a primeira vez que não trabalha em tempo integral.
Iracema Jantara, 55 anos, é colaboradora no Caaf há um ano e cinco meses. Este é o primeiro projeto social em que ela participa de forma fi xa, mas já foi voluntária em albergues. Ela também vende pães aos finais de semana. Iracema atua na cozinha, preparando todas as refeições para as crianças e as famílias atendidas no Centro de Apoio à Família. ‘’O que me trouxe para os projetos sociais é gostar de ajudar as pessoas. É o que eu gosto. ‘’
Dalva Paula de Lara, 53 anos, é voluntária pelo segundo ano. Ela é formada em administração e tem uma segunda graduação em psicologia. Dalva sentiu a necessidade de ajudar as pessoas depois que se recuperou de uma fase muito ruim de sua vida, quando enfrentava depressão, síndrome do pânico e terror noturno. Ela começou a fazer artesanato como terapia e percebeu que o trabalho manual poderia ser um grande auxílio na recuperação de problemas como os vivenciados por ela. “Eu quis ensinar
outras mulheres , para que elas vejam que é possível sair do fundo do poço, que elas conseguem se recolocar na sociedade, porque eu consegui. ‘’ Dalva voluntariou-se no Caaf, ensinando mulheres de todas as idades a trabalhar com artesanato em gesso.
Ângela Leonete Vandresen, 51 anos, é irmã da Caridade Social a aproximadamente 27 anos. Ela atua há cerca de 11 anos no Caaf. Irmã Ângela, é educadora social no grupo das mulheres, mas, ajuda em outras atividades, como no grupo da terceira idade e nos trabalhos administrativos. O anseio de trabalhar em projetos sociais vem desde pequena. ‘’ Eu sempre tive esses sonhos, desde criança, e então eu tive o desejo de ser irmã e fui buscar congregações que trabalhavam no sentido social. ‘’ Hoje em dia, Irmã Ângela não se imagina trabalhando em outras coisas.
Cleidimara Barbosa, 36 anos, é irmã da Caridade Social e há três anos trabalha na organização, como educadora social do grupo das crianças. Ela faz o planejamento das atividades e coordena as outras educadoras nas oficinas e atividades gerais. Antes de trabalhar efetivamente na Caritas Socialis, atuava na Pastoral da Criança. Irmã Cleidimara é formada em pedagogia e valoriza as ações em comunidade. ‘’Aqui, nós trabalhamos sempre juntos. Sempre em equipe e em conjunto, nós não somos um só, somos uma equipe.‘’
na Secretaria do Trabalho, Emprego e Promoção Social do Estado, onde atuou por três anos. Após esse período, foi contratada como chefe adjunta, para continuar desenvolvendo os trabalhos. Hoje, exercendo a função de assistente social no Caaf, Lucinere não se vê fazendo outro trabalho em outra instituição. ‘’Atuar nessa área e ver cada dia uma realidade mais difícil me dá muito mais energia e entendimento de que eu preciso me colocar mais nos espaços onde eu estou, para que todos os direitos dessas pessoas sejam atendidas.
Valdomira dos Santos, 44 anos, tornouse irmã da Caridade Social em 2015. Ela vem desenvolvendo várias funções no Caaf há mais de nove anos. Atualmente, acompanha o grupo de mulheres atendidas na instituição, promovendo encontros focados em espiritualidade. Nessa mesma atividade, atuam também a irmã Ângela e a Marlene. Irmã Valdomira também é responsável pela administração do Centro de Apoio à Família. Antes de ser religiosa, a irmã Valdomira já se interessava por projetos sociais. Ela conheceu a comunidade das Caritas Socialis e se interessou pelos projetos que são realizados dentro da entidade. ‘’ Eu me sinto realizada, gosto muito do que eu faço. Cada dia é um aprendizado, novas experiências. Eu aprendo muito com cada um que faz parte, os voluntários, os colaboradores e as pessoas que participam dos projetos ‘’ concluiu a religiosa.
Lucineri Vandresen, 50 anos, é a assistente social há 13 anos e atende as famílias, jovens e adolescentes que chegam à entidade. Desde que começou o estágio, na época da graduação, despertou para a inclinação de executar trabalhos sociais. O início de sua carreira foi
Joice Tesserolli,40 anos, é voluntária na Caaf desde fevereiro deste ano. Ela conheceu o projeto no ano passado, durante uma visita das irmãs ao Clã das Cicatrizes, que é uma iniciativa voltada ao enfrentamento do câncer de mama, realizada no Céu das Artes. As religiosas foram até o local para visitar uma mostra de fotografia, feita pela própria Joice e pela outra artista Dani Leela , organizada pelo Clã das Cicatrizes. Elas se interessaram tanto pela exposição, que pediram que fosse
exibida também no Caaf. A partir dali, Joice conheceu também o trabalho realizado no Centro de Apoio à Família e decidiu tornar-se voluntária. Hoje, na instituição, ensina bordado para as mulheres, com a proposição dessa atividade como forma de expressão e valorização pessoal, mostrando que todas são artistas.“Eu falo que sou privilegiada por poder ser voluntária, por participar e compartilhar esses momentos. É um enorme crescimento pessoal e profissional. Todo mundo está ali para somar no meio daquelas mulheres, eu tenho aprendido muito.”
Isabelle Maneira Vaz,18 anos, é voluntária no Caaf há sete meses e auxilia a instituição nas atividades que apresentam maior necessidade. Sua aproximação com a entidade começou por meio da família, que há tempos realiza doações para a instituição. Foi a partir desse contato, que Isabelle passou a conhecer melhor o trabalho desenvolvido e decidiu se envolver mais ativamente. A entidade é o primeiro espaço em que ela atua como voluntária, marcando o início de sua trajetória em projetos sociais. “Eu acho o projeto muito interessante, principalmente pela forma como eles ajudam as crianças, os adolescentes e suas famílias”, destacou a voluntária.
Elisabeth Mogalski, 57 anos, é voluntária no Caaf há três meses. Ela integra a Comissão Sócio Transformadora, que é uma ação que representa a Pastoral Carcerária, e trata da assistência a pessoas privadas de liberdade e suas famílias, defendendo um sistema mais justo. Foi por meio dessa atuação que conheceu os projetos do Centro de Apoio à Família. A convite da irmã Valdomira, passou a oferecer oficinas de dança circular para o grupo de mulheres, uma vez por semana. A atividade promove benefícios físicos, mentais e emocionais, além de fortalecer o vínculo entre as participantes. “Trabalhamos a vida toda em busca de dinheiro, o que é necessário. Mas, agora, quero doar um pouco do meu tempo como forma de retribuição por tudo que recebi ao longo desses anos”, pontuou a instrutora de dança.
Rossana Machado, 48 anos, atuou como voluntária na Caaf por três anos, durante o período da pandemia. Recentemente, retornou à instituição como professora de dança para o grupo de mulheres, atendendo a um pedido de uma das irmãs religiosas, já que as participantes demonstraram grande entusiasmo pelas aulas. Com sensibilidade e dedicação, Rossana promove encontros marcados por movimento, expressão e afeto. “É uma troca muito legal. Compartilhamos mensagens de carinho, de amizade e de energia. É muito especial’’, destacou Rossana.
Helena Opuchkevitch Ida, 75 anos, é voluntária no Caaf há apenas três meses e atua nas oficinas de artesanato da entidade. O convite para integrar a equipe de voluntários veio da irmã Cleidimara, e, encantada com o trabalho realizado pela instituição, Helena aceitou fazer parte das oficinas e atualmente vê nas atividades uma forma de partilha e propósito. “É uma maneira que encontrei de repassar um pouco do meu conhecimento para mais pessoas. É uma experiência de trabalho, fé e amor.”
Sede de sentido da vida
Hildegard Burjan e sua missão social, que iniciou na Áustria e se alastrou para além mar
Houve um tempo em que a Europa tremia, não apenas sob o peso das guerras e crises políticas, mas também sob o silêncio amargo da fome, da desigualdade e do desprezo pelos pequenos. Nesse mundo em desmoronamento, nasceu uma mulher que se recusaria a aceitar que a compaixão fosse um luxo. Seu nome era Hildegard Burjan, ela nasceu em 1883, e sua história começou como tantas outras: numa casa comum, em meio a livros e preces silenciosas que ainda não haviam sido pronunciadas. Filha de uma família judia não praticante, nascida na fronteira onde Alemanha e Polônia quase se confundem, na cidade de Görlitz,
Hildegard foi moldada por duas forças: o pensamento e a dor.
Desde muito cedo, Hildegard parecia ter uma relação secreta com o invisível. Aos três anos, cercava-se de almofadas, bonecas e outros objetos como quem traça, com delicadeza infantil, o contorno de um palco imaginário. Ali, no centro da roda silenciosa, a menina se erguia como uma pequena oradora, contando histórias que vinham de lugar nenhum, discursando para uma plateia muda que só ela via.
Era como se algo nela já conhecesse o poder da palavra antes mesmo de conhecer o mundo.
O inusitado é que ela jamais
estivera em teatros, igrejas ou assembleias.
Ninguém havia lhe mostrado os rituais da eloquência, e, no entanto, ela os recriava com uma espontaneidade sagrada, como se tivesse nascido com a alma virada para fora. Foi por volta dos seis anos que demonstrou sua inclinação para crer no transcendente, de forma mais visível. Da janela de seu quarto, avistou um grupo de mulheres vestidas de silêncio, rezando no jardim de um mosteiro vizinho.
Os gestos suaves, os murmúrios compassados e a calma que parecia vinda de outra esfera tocaram-na com uma beleza que doía.
— Quem são elas? – perguntou.
que testemunhou o chamado e a missão da fundadora da Carita
A mãe, talvez distraída, respondeu com simplicidade:
— São monjas. Estão rezando para o Deus delas.
A pequena Hildegard olhou mais um pouco e, com um suspiro de deslumbramento, sussurrou:
— Se essas mulheres tão bonitas estão rezando para Deus, então Deus deve ser bonito. E como deve ser bonito quando se pode rezar a Deus!
Ali revelou-se o seu chamado. Não um chamado clerical, institucional, mas uma fome de transcendência que a acompanharia para sempre.
Uma espiritualidade que brotava do espanto diante da beleza, do desejo de participar daquilo que dava sentido aos gestos serenos das monjas.
Essa criança sensível, que desde tão nova compreendia que havia algo maior do que as ações humanas, cresceu para se tornar uma das mais expressivas mulheres em vários âmbitos, como o humanitário, político e religioso. A mesma menina, que improvisava sermões entre bonecas, um dia discursaria no Parlamento austríaco. A que desejou rezar com as monjas mais tarde fundaria uma congregação que reza servindo — de mãos mergulhadas na realidade, mas os olhos sempre voltados ao sagrado. Na juventude, Hildegard caminhava como quem procura algo que ainda não tem nome. Era intensa e pensativa. Era dessas almas que não se satisfazem com respostas prontas e nem
com a vida, tal como ela é entregue. Tinha sede de sentido. E essa sede a consumia nas madrugadas silenciosas, quando sussurrava ao vazio — ou talvez ao infinito:
— “Deus, se tu existes, manifesta-te a mim.”
Em 1908, ela estudava Filosofia, mas a razão, sozinha, não lhe bastava. Alguns de seus mestres, que andavam às portas do catolicismo, despertaram nela uma curiosidade mais funda, não apenas por ideias, mas por um sentido encarnado, vivo. Lia a doutrina católica com seriedade, admirava sua estrutura lógica e sua beleza espiritual. Mas, como ela mesma diria mais tarde, a fé ainda não a havia visitado.
Foi então que o destino, ou a
A grandiosidade
Sociais
Lucas Scotini
Providência, tomou outra forma: a doença. O corpo, até então obediente, agora se tornava território de fragilidade e incerteza. Aos 25 anos, já formada e recém-casada com o engenheiro Alexandre Burjan, precisou ser internada por tempo indeterminado num hospital católico. As cirurgias eram muitas, o prognóstico, sombrio. Mas foi ali, entre gases, dores e orações sussurradas ao lado, que a luz se fez.
Não foi um livro sobre filosofia que lhe deu fé. Foi um testemunho vivo: o das irmãs da Congregação de São Carlos Borromeu. Elas não pregavam com palavras, mas com gestos. Com mãos que cuidavam sem exigir nada em troca, com sorrisos que atravessavam a dor alheia, com a serenidade de quem serve por amor, e não por dever.
Hildegard, entre espantos e lágrimas, disse a si mesma: — “Isto que as irmãs fazem, um ser humano, apoiado só nas suas próprias forças, é incapaz de realizar.”
Foi então que a fé chegou como aurora depois da noite escura. Não como
teoria, mas como revelação. Ela se convenceu de Deus, não apenas como conceito, mas como presença. E foi então que veio o milagre.
No Domingo de Páscoa, quando o mundo cristão celebra a ressurreição de Cristo, Hildegard, contrariando todos os diagnósticos, despertou curada. Os médicos não entenderam. A ciência, por um instante, ficou em silêncio. Mas Hildegard compreendeu: — “Esta segunda e nova vida deve pertencer unicamente a Deus.”
Ali morreu a jovem burguesa que buscava sentido, e nasceu a mulher consagrada à caridade. Pediu o Batismo. E como quem acaba de descobrir o coração batendo pela primeira vez, declarou: — “Quero doar-me, consumir minha vida no amor aos irmãos.”
Hildegard, ao se recuperar de uma doença que parecia sentença, não voltou à vida como antes. Voltou renascida. A dor lhe deu uma nova pele, e o catolicismo foi seu novo lar, mas não uma casa de muros, e sim de
portas escancaradas.
Ela não quis cruzes de ouro, nem púlpitos decorados. Preferiu o trabalho de formiga, entre operárias, viúvas, mães abandonadas, famílias esquecidas. Foi às fábricas, aos cortiços, às cozinhas silenciosas, onde as mulheres viviam de cansaço e esperança. Ali ouviu, anotou e agiu. Era como se sua espiritualidade não coubesse em orações, mas precisasse de ações concretas, suor e pão dividido. E então, em 1919, como quem planta uma semente no inverno confiando na primavera, fundou a Caritas Socialis. Uma comunidade religiosa sem luxo, feita para cuidar daqueles que o mundo ignorava: moças grávidas sem lar, idosos empurrados à margem, crianças em risco. Sua fé era dinâmica, enraizada no Evangelho vivido, não apenas pregado. E sua política não era de palanques, mas de presença, tanto que se tornou uma das primeiras mulheres a atuar no parlamento austríaco, lutando por jornadas humanas e salários justos.
A fundadora Hildegard Burjan ao centro, e suas primeiras colaboradoras da Caritas Socialis na Áustria
A Caritas Socialis e vida de mulheres em situação de vulnerabilidade social
A instituição é um dos principais meios de apoio e assistência à população em situação de vulnerabilidade e exclusão social em Guarapuava, e tem se destacado pelo trabalho transformador que realiza com as atividades de apoio voltadas para comunidade feminina atendida pela entidade.
Maria Eduarda Cordeiro
O Centro de Apoio e Acolhimento à Família (Caaf) desenvolve atividades na Caritas Socialis voltadas para mulheres de diferentes idades em situação de vulnerabilidade, com foco na importância da arte, da cultura e da socialização como forma de transformação social.
mulheres, o artesanato em gesso que acontece toda segunda-feira de manhã tem sido um ponto de encontro para a cura e empoderamento de muitas participantes.
Entre elas, está Andréa Aparecida Jordão, 44 anos. Ela encontrou na Caritas Socialis um espaço seguro e
para as dificuldades diárias enfrentadas por sua bipolaridade.
O trabalho com o artesanato em gesso, que é realizado semanalmente, é uma das opções de atividades oferecidas pela instituição para ajudar mulheres a desenvolver novas habilidades cognitivas e motoras, promovendo
As atividades incluem artesanato em gesso, bordado, culinária e dança, promovendo criatividade, autonomia e geração de renda. A instituição também realiza oficinas para mulheres da terceira idade, com ações que estimulam o bem-estar físico e emocional, além de favorecer a convivência. O Caaf também desenvolve projetos que fortalecem o empoderamento feminino e oferecem oportunidades de reconstrução de vidas com dignidade, como o projeto Saberes e Sabores. Muitas mulheres se encontram sem amparo social e familiar, e acabam recebendo ajuda das irmãs e dos voluntários por meio das atividades, apoio psicológico e alimentação. Dentre as dez atividades promovidas para as
acolhedor para lidar com sua condição de bipolaridade, que demorou dez anos para ser diagnosticada. Andréa contou que antes de participar das atividades da instituição, sentia-se emocionalmente desgastada, por ter que sair de casa e conviver com outras pessoas, e que tinha dificuldade em lutar contra a vontade de se isolar. “Eu evitava ao máximo ter que sair de casa, mas, aqui na instituição, sinto paz e acolhimento. Por meio das atividades, das amizades que fiz e do apoio psicológico que é oferecido, eu me sinto mais ativa e animada”, relatou Andréa. Hoje, as atividades de artesanato, para ela, não são apenas um passatempo, mas também uma ferramenta de enfrentamento e uma válvula de escape
também a importância da criatividade. As participantes são incentivadas a criar peças de artesanato, que, depois, podem ser comercializadas, gerando uma fonte de renda e, consequentemente, contribuindo para a autonomia financeira dessas mulheres e de suas famílias.
Nilsa Odete de Lima, 56 anos ,que participa das atividades há 14 anos, encontrou assim uma maneira de recomeçar. Ela aprendeu a bordar chinelos, fazer crochê e criar peças de gesso. Com o tempo, viu nessas práticas artesanais uma oportunidade de gerar uma fonte de renda própria. “Sempre aprendemos muitas coisas nas atividades da associação. A gente se sente mais capaz. Trabalhamos bastante
Foto: Maria
Eduarda
Cordeiro
A maior parte das atividades oferecidas pela Caritas Socialis é direcionada ao atendimento de mulheres em situação de vulnerabilidade social
Andréa Aparecida Jordão: “aqui na instituição, sinto paz e acolhimento”
o nosso psicológico e a criatividade. Isso traz uma melhora na minha vida pessoal e familiar“, compartilhou Nilsa. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 25,9 por cento da população feminina no Brasil vive em
situação de vulnerabilidade social, sendo que grande parte dessas mulheres enfrenta dificuldades relacionadas ao desemprego, à baixa escolaridade e à violência doméstica. Nesse cenário, atividades como as oferecidas no Caaf têm um papel crucial, não apenas como
uma ferramenta de inclusão social, mas como uma forma de romper ciclos de pobreza e dependência.
A Caritas Socialis oferece ações educativas e produtivas, em um ambiente de acolhimento, onde as mulheres encontram apoio emocional
Foto: Maria Eduarda Cordeiro
Nilsa Odete de Lima sobre suas participações nas atividades do Caaf: “isso traz uma melhora na minha vida pessoal e familiar”