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Jornal de Toronto #102

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Jorna Jornal de Toronto

Jesus no bolso na era da inteligência artificial

Entre cristãos, a oferta de aplicativos com IA já é uma realidade. p. 8

ELEIÇÕES 2026: Aviso aos eleitores

Os brasileiros devem estar atentos ao prazo máximo de 6 de maio para solicitar serviços eleitorais, como tirar, regularizar, corrigir, atualizar ou transferir o título de eleitor para as eleições de 2026. Após essa data, o cadastro eleitoral ficará fechado para novas solicitações e somente será reaberto após as eleições. p. 4

Pra não dizer que só falei das flores

É Primavera! E “para ter borboletas, é preciso tolerar as lagartas”. p. 3

edição # 102 | ano # 8 | março - maio 2026 | www.jornaldetoronto.ca | ISSN 2560-7855 info@jornaldetoronto.ca

The title of a famous U2 song declares "The Hands That Built America," but those same hands – marked by the calluses of labour and the dust of concrete – shaped the face of Canada just as profoundly. They are the hands of our fathers and grandfathers: hands that spoke the dialects of the Italian Mezzogiorno or

Língua portuguesa não é apenas um idioma, mas um abrigo Grupo em Toronto se reúne todo mês para ler poesia p. 4

the Atlantic cadences of the Azores. The story of the Italian and Portuguese diaspora in the "Great White North" is more than a chronicle of migration; it is an epic poem of sweat and fierce resilience that transformed colonial towns into global metropolises. p. 7

Saudade não tem idade

A saudade costuma ser tratada como simples falta, mas ela é, na verdade, permanência do vínculo; quando a presença não é mais possível. É justamente nesse espaço a morada da saudade: entre o que foi vivido e o que ainda habita dentro de nós.

Quando alguém fala de sau-

dade, raramente está falando apenas de quem ou do que perdeu, está falando também de si, de sua história afetiva e de sua capacidade, ou dificuldade, de elaborar separações. Assim, a saudade atravessa idades e histórias, como uma experiência fundamental para a própria condição humana. p. 7

Paul Couturier
Maria Mutch Paola Wortman

Editorial Cultura

O difícil em todas as nossas edições de primavera é convencer os leitores, em Março (mas também em Abril e Maio), de que chegamos na Primavera. Pois é, o Canadá fica muito ao norte, depois da curva, e o calor não chega a ser nosso companheiro quando os passarinhos começam a ficar felizes com a nova estação.

Essa edição, em parte, fala um pouco sobre essa distância entre aquilo que existe e aquilo que desejamos: a saudade de tempos idos, o calor dos Trópicos que deixamos para trás, um espaço de fé preenchido pelo celular, ou mesmo aquele “jeitinho” que pode acabar levando o processo imigratório para o beleléu. Mas, muitas vezes, ocorre o contrário: conseguimos enxergar, através do calor humano, o quanto as interações sociais, da forma mais concreta ou poética possível, pode criar novas primaveras. Do exemplo pequeno (forte e quentinho) de um grupo que se encontra para ler poesia, a exemplos grandiosos, como bairros inteiros criados pela força e paixão dos imigrantes, base do nosso Canadá.

Como eu disse, começa frio, mas vai melhorando!

Editor-chEfE: Alexandre Dias Ramos

rEvisor: Eduardo Castanhos colunistas: Cristiano de Oliveira, Gabriel Melo Viana & Rodrigo Toniol

colaboradorEs dEssa Edição: Giorgia Pietropaoli, Jananda Lima & Sergio Del Carlo Taioli

ilustradorEs: Vizetelly & Will Leite fotógrafos: Brenton Reimer & Insley Pacheco

agradEcimEntos para: Corinne Carbone agências, fontEs E parcEiros: Canva, Consulado-Geral do Brasil em Toronto, Flickr, Toronto - The City Beautiful

consElho Editorial: Alexandre Dias Ramos, Gabriel Melo Viana, Jananda Lima, Nilson Peixoto & Rosana Entler © Jornal de Toronto. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução de qualquer trecho desta edição sem a prévia autorização do jornal. O Jornal de Toronto não é responsável pelas opiniões e conteúdos dos anúncios publicados.

circulação: O Jornal de Toronto é trimestral e distribuído em Toronto e GTA.

imprEssão: Master Web contato: info@jornaldetoronto.ca

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Edição #102, ano #8, março - maio 2026

ISSN 2560-7855

Pra não dizer que só falei das flores

Ao fim da aula de kung fu do Mestre Robson pra adolescentes chatos, sempre havia o momento da meditação, e lá aprendi a frase: “Para ter borboletas, é preciso tolerar as lagartas”. Pois para que o verão entre esvoaçante pela sua janela trazendo cerveja e churrasco, você precisa primeiro deixar que o inverno rasteje com milhões de patinhas geladas por cima de você e faça um casulo no meio da sua sala. A lagartona gelada, notívaga e solitária me puxou pra dentro desse casulo, e é de lá que eu falo ao vivo com imagens exclusivas.

E por que falar de inverno na edição de primavera? Porque quando a gente prepara a edição de inverno, o inverno ainda não dói. É época de confraternização, de friozinho até gostoso pra aliviar o calorão do verão, a expectativa de passar o Natal com a família... Pra falar do inverno com propriedade, é preciso estar com dor nas costas de tanto limpar neve. Tem que ser naquele período do ano em que freio de carro é igual Plano Collor: pode

apertar o quanto for, que a situação só fica cada vez mais fora de controle.

O frio é o menor dos problemas. Pra mim, mais sofrida é a falta de luz do dia. O fato de sair de casa pra trabalhar antes do sol nascer, e voltar com ele já se escondendo. Após voltar do Brasil no meio de janeiro, eu passei uma semana vendo a sala de casa só no escuro. Uma semana com a plena consciência de que havia um Sonho de Valsa ali em algum lugar, mas que eu não conseguia ver. Ora direis, “uai Cristiano, acende a luz”! Ora vos lasqueis: e sala de estar no Canadá por acaso tem luz? Isso o Facebook não te mostra! Ele inventa que o Canadá tá contratando; que em Quebec é só chegar e você ganha o combo emprego + aula de francês + um beijo na boca; e que eles estão desesperados pra contratar o brasileiro sabidão que jura que no inverno tudo funciona debaixo da terra. Tudo isso está nas redes sociais, possibilitando que pessoas que não sabem absolutamente nada de Canadá venham discutir com a gente, mas o debate é vencido nos detalhes, damas

e cavalheiros. Portanto, guardem essa cartinha na manga pra quando o William Bonner lhes der o direito a réplica: “Candidato, pois eu tenho aqui um dossiê sobre a sua pessoa, e posso provar que no Canadá não há luz na sala!”. Aí é cinema! É Brizola chamando Maluf de “filhote da ditadura” outra vez. Pra completar a trindade do inverno, o pior sintoma: a solidão. Especialmente se você foi ao Brasil e voltou pra cá no meio do inverno: percebeu onde mora a maior diferença? Tá, faltam família, amigos, mandioca na manteiga, mas e aquela coisa que você sabe que falta mas não sabe o que é? Pois é o fenômeno de propagação de ondas sonoras conhecido no meio científico como “zoada”. No Brasil, o barulho não para. Carro buzina, moto passa, bêbado grita na rua, tem briga, tem som de barzinho, o interfone toca, “aêo caminhão do abacaxi passando na sua rua!”...

Em BH, até pouco tempo passava até o amolador de faca gritando. Daí você chega aqui e... silêncio. Se o amolador passar na sua rua, é a 80 por hora num furgão, tocando um sininho bem discreto.

Daí, ou você desiste dele, ou vai ser visto correndo atrás de um carro na rua com cinco facas na mão, como eu eventualmente fiz e não gerou resultados positivos na vizinhança. Mas enfim, o silêncio generalizado dá uma impressão de que você saiu de um ecossistema rico e vibrante e caiu num ecossistema ecossistemático.

Mas é primavera, e ela não é o Tim Maia, mas traz uma rosa para lhe dar. Que as dores do inverno se derretam como a neve que eu não dei conta de limpar, e bola pra frente.

Adeus, cinco letras que choram.

Cristiano de Oliveira é mineiro, atleticano de passar mal, e um grande cronista do samba e das letras. Formado em Ciência da Computação no Brasil e pós-graduado em Marketing Management no Canadá. É colunista do Jornal de Toronto desde 2017.

Cristiano de oliveira

ELEIÇÕES 2026: Aviso aos eleitores

O Consulado-Geral do Brasil em Toronto publicou uma nova página com mais informações sobre as eleições presidenciais, a serem realizadas em 4 e 25 de outubro de 2026. A página será regularmente atualizada com orientações aos brasileiros nas províncias de Ontário, Manitoba e Nunavut.

Prazo para tirar, regularizar ou transferir o título

Os cidadãos devem ficar atentos ao prazo máximo de 6 de maio para solicitar serviços eleitorais, como tirar, regularizar, corrigir, atualizar ou transferir o título de eleitor para as eleições de 2026. Após essa data, o cadastro eleitoral ficará fechado para novas solicitações e somente será reaberto após as eleições.

Recomenda-se aos cidadãos verificar se sua situação eleitoral está regular e atualizada. Transferência de domicílio eleitoral

Nos dias das eleições, os cidadãos alistados somente poderão votar nas seções designadas pela Justiça Eleitoral, de acordo com o domicílio eleitoral cadastrado. Não é possível votar em outro local ou seção.

A fim de assegurar o direito de votar no exterior, os brasileiros residentes no Canadá que estejam com o domicílio desatualizado no cadastro eleitoral devem providenciar, com antecedência, o pedido de transferência. O prazo final de 6 de

maio também se aplica a esse caso.

Atenção ao passaporte

Durante o defeso eleitoral, após o dia 6 de maio, não será possível regularizar o título de eleitor. Os cidadãos que estejam em situação irregular poderão ter dificuldades para a renovação do passaporte até o fim das eleições, pois a comprovação de estar quite com as obrigações eleitorais é requisito obrigatório para a obtenção do passaporte brasileiro para maiores de 18 anos.

Como tirar, regularizar, atualizar, corrigir ou transferir o título de eleitor

Os serviços eleitorais são prestados diretamente pela Justiça Eleitoral, por meio do Autoatendimento Eleitoral. Todas as etapas são inteiramente digitais e gratuitas, sem a necessidade de comparecimento ao Consulado.

Datas-chave

6 de maio de 2026 (quarta-feira): Prazo máximo para tirar o título de eleitor, regularizar a situação eleitoral, corrigir ou atualizar dados ou pedir a transferência de domicílio eleitoral

4 de outubro de 2026 (domingo): Primeiro turno

25 de outubro de 2026 (domingo): Segundo turno (se houver)

Língua portuguesa não é apenas um

idioma, mas um abrigo Grupo em Toronto se reúne

Desde dezembro de 2025, uma vez por mês, um grupo de brasileiros tem se reunido em Toronto para algo simples e raro: parar, escutar e dizer poesia em voz alta. O sarau é organizado por mim, Jananda Lima, junto com Edwin Isensee e Leticia Stello. A proposta é direta: qualquer pessoa pode trazer poemas autorais ou não, ler um texto curto, compartilhar uma letra de música, ou simplesmente chegar para ouvir.

Essa abertura tem sido a chave. Não existe exigência de “saber recitar”, nem uma ideia de performance perfeita. O que existe é um espaço de presença, cuidado e coragem cotidiana, num ritmo que contrasta com a pressa de quem

vive em uma grande cidade como Toronto.

O sarau tem acontecido graças à generosidade de Ulysses de Paula e Joy Brandt, do Lá em Casa, que cederam o espaço para que essa roda pudesse existir. O resultado tem sido um lugar de encontro onde a língua portuguesa não é apenas um idioma, mas um abrigo. Como disse Celina Bernardes: “Eu acho que está sendo um momento para compartilhar e construir vínculos. É esse resgate do que nos une como brasileiros nesse contexto de imigração. Está se criando um espaço de acolhimento e de troca boa”.

Para muita gente, a experiência vai além do evento em si. Andrea

Moraes descreve o sarau como um reencontro consigo e com a comunidade: “Uma vez por mês sinto que posso ser eu mesma, aquele eu que gosto de ser, que ainda tem criatividade, sem me sentir julgada. A vida aqui é muito difícil. A gente tem segurança, mas não tem o sol, não tem o calor humano. Eu estou num momento que não quero mais correr e aí procuro o que é importante pra mim; e achar esse espaço aqui é como se eu tivesse ganhado na loteria”. E talvez um dos impactos mais bonitos seja o efeito prático disso, como Andrea também relata: “Eu não escrevia uma poesia havia trinta anos. Esse ‘portal’ está se abrindo de novo para mim por conta dessa experiência”. Isabella de Carvalho reforça essa dimensão afetiva e coletiva: “É um momento de grande conexão entre as pessoas que migraram. Um lugar onde a gente consegue achar pontos em comum, trocar ideias e afetos, expor vulnerabilidades e reflexões”. Ela destaca também a importância da língua: “Eu acho muito importante ser em português, porque às vezes não temos a oportunidade de falar sobre subjetividade na nossa língua. Isso permite que a gente se expresse com mais verdade, com mais espontaneidade”. Nilson Peixoto resume de um jeito direto o que muita gente sente antes de chegar: “No meu caminho, dirigindo, eu penso: poxa, que gostoso que vai ser. Aquela alegria, bem tranquila”.

Talvez seja isso: uma alegria tranquila que aquece. Um encontro mensal para lembrar, juntos, que a palavra também é casa.

Jananda lima é professora da OCAD University e pesquisadora de design decolonial
Grupo de poesia reunido no espaço Lá em Casa, em Toronto.

Imigração

O preço de uma mentirinha: arruinar seu processo de imigração no Canadá

Abrir o Instagram ou qualquer outra rede social hoje em dia é quase garantia de encontrar alguém vendendo solução milagrosa para imigração. Prometem caminhos fáceis, atalhos, estratégias “secretas”, como se o sistema fosse algo simples de driblar. Criam sonhos que muitas vezes não existem e passam a ideia de que é esperto buscar jeitinho quando se trata de regularizar seu status no Canadá.

Ao mesmo tempo, não é incomum ouvir relatos de pessoas que foram vítimas de fraude enquanto tentavam organizar sua situação imigratória. Isso acontece com mais frequência do que deveria. E nem sempre a fraude vem com cara de golpe óbvio. Existem pessoas que se passam por profissionais licenciados: usam termos técnicos, colocam “consultor” na bio, dizem ter anos

de experiência, cobram valores altos e prometem resultados garantidos. Em alguns casos, simplesmente não submetem a aplicação, mesmo após o pagamento. Em outros casos, mentem nas respostas, alteram informações, inserem documentos forjados, na maioria das vezes sem a anuência do cliente. E quem sofre as consequências não é quem preencheu ou deu a orientação errada. É o cliente. Mas o problema não se resume a esses que fingem ser profissionais, que estão por todo lado. Há também muita, mas muita mesmo, gente que simplesmente fala do que não sabe, ou do que acha que sabe. Pessoas que tiveram um processo aprovado e passam a se sentir especialistas. Gente dando orientação complexa em grupo de WhatsApp ou de Facebook, interpretando lei de imigração como se fosse opinião pessoal, gente dando dica de imigração nas redes como se estivesse ensinando a preparar uma sobremesa. Imigra-

ção não é “achismo”. Cada caso tem detalhes, histórico e riscos específicos.

O que muita gente não entende é que, pela lei de imigração canadense, a responsabilidade pelas informações enviadas é sempre do aplicante. Não importa se foi um “consultor”, um amigo, alguém do Instagram, um “coach” ou alguém da família que lhe orientou ou que preencheu a papelada. Se houver informação falsa, omissão relevante ou documento fraudulento, quem responde é quem assinou e enviou. A justificativa de que “eu confiei em alguém” normalmente não afasta uma acusação de misrepresentation

E as consequências podem ser extremamente graves: perda de status, recusa, inadmissibilidade por anos, deportação e até implicações criminais, em certos casos. Uma mentira pequena pode se transformar em algo catastrófico quando descoberta. E, na Imigração, inconsistências quase sempre aparecem em algum momento.

Fraude não é só o golpe clássico, é também a cultura do atalho, da meia-verdade, da história adaptada para “encaixar melhor”. Isso pode destruir planos de vida.

Por isso é tão importante entender quem está orientando

você. Um advogado, um paralegal licenciado ou um consultor regulamentado estão sujeitos a regras claras, códigos de conduta e fiscalização; existe responsabilidade profissional e existe órgão regulador. Isso não significa perfeição, mas significa que há limites, deveres éticos e consequências disciplinares.

Em imigração, improviso e desinformação custam caro. Confiar seu futuro a alguém que vende ilusão ou que fala com base em "achismo" pode sair muito mais caro do que qualquer honorário profissional legítimo. O sistema não é feito para ser burlado. Aquela “mentirinha marota”, aquele atalho ou jeitinho para tentar enganar o sistema, pode destruir anos de esforços e sonhos.

Gabriel melo viana
Gabriel Melo Viana é advogado em Ontário e mestre em Direito pela York University e pela Universidade de São Paulo. Possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV e experiência em docência no Ensino Superior.

The hands that built Canada

A heritage of stone and heart

The title of a famous U2 song declares "The Hands That Built America," but those same hands –marked by the calluses of labour and the dust of concrete – shaped the face of Canada just as profoundly. They are the hands of our fathers and grandfathers: hands that spoke the dialects of the Italian Mezzogiorno or the Atlantic cadences of the Azores. The story of the Italian and Portuguese diaspora in the "Great White North" is more than a chronicle of migration; it is an epic poem of sweat and fierce resilience that transformed colonial towns into global metropolises.

The foundation: building a nation

While history often celebrates politicians, Canada’s physical reality was forged on construction sites. From the excavations of the Toronto subway to the glass skyscrapers that pierce the skyline, the Latin contribution is everywhere. These men did not merely "perform" a job; they brought an aesthetic of stone and marble, transforming Northern functionalism into something harmonious. Today, walking along College Street or St. Clair Avenue West, I find myself observing the precision of

a stone wall or the meticulous care of a garden, thinking that there, among the bricks, lies the invisible signature of a man who arrived with a suitcase tied with string. This progress came at a cost: tragedies like Hogg’s Hollow in 1960 remind us that beneath the asphalt beats the heart of a community that fought for its dignity. Culture as compass and shield

In a world that pushes toward assimilation, maintaining one’s roots is an act of resistance. For the immigrant, tradition serves as a moral compass: the Sunday ritual or the sound of one's mother tongue serves as a reminder that they are not just a "workforce." I recall the magical contrast between the piercing Ontario frost outside and the thick aromas filling the home: the scent of simmering tomato sauce or salt cod and freshly baked bread – small pieces of the Mediterranean and Portugal defying the winter. This is where the Canadian "Cultural Mosaic" reveals its strength: unlike the melting pot, it allows every community to preserve its original colour. Without the vibrancy of Little Italy or Little Portugal (along Dundas Street West), Canada would be a greyer, more uniform nation.

A living legacy

This heritage is not a relic of the past, but a living force acting on multiple levels. It manifests first as an invisible bridge between eras: without the precious thread of passed-down stories, a chasm would open between those who, in 1953, disembarked from the MS Saturnia with eyes full of hope, and the new generations born into the digital age. Preserving this memory becomes a necessary act of navigation; only by knowing with certainty where we come from can we chart the course toward our future.

Yet, the story of this journey is not only about identity; it is also the chronicle of an extraordinary collective ascent. Our history reshaped the country’s social

architecture through neighbourhood clubs and parishes which, far from being mere places of leisure, were true workshops of solidarity. Within those circles, mutual aid systems were born, allowing thousands of families to rise from precariousness and climb the social ladder, forging the middle class that today stands as the nation’s backbone. It is from this very solidarity that a new grammar of communal living flourished – a Latin imprint that gave Canada the concept of the piazza as a beating heart and the sanctity of collective ritual. This innate humanity taught a progress-driven society that modernity need not sacrifice the warmth of a conversation or the beauty of a pause, proving that

a nation’s development is more profound when it does not forget the value of the encounter.

A heritage in motion

The hands that built Canada did not stop at mixing concrete; they wove a tapestry of values. To honour the diaspora is to recognize that our current prosperity is the fruit of ancient courage. We are not merely the children of those who left; we are the living fruit of every brick laid and every silent sacrifice made. Keeping one's culture alive today is the only way to do justice to that journey: a way to remember that those walls are not just barriers, but pulsing testimonies of human dignity.

Saudade não tem idade

serGio del Carlo taioli é psicólogo e coapresentador do podcast “Conversa Fora”

A saudade costuma ser tratada como simples falta, mas ela é, na verdade, permanência do vínculo; quando a presença não é mais possível. É justamente nesse espaço a morada da saudade: entre o que foi vivido e o que ainda habita dentro de nós.

Quando alguém fala de saudade, raramente está falando apenas de quem ou do que perdeu, está falando também de si, de sua história afetiva e de sua capacidade, ou dificuldade, de elaborar separações. Assim, a saudade atravessa idades e histórias, como uma experiência fundamental para a própria condição humana. A literatura brasileira sempre soube que a saudade não é apenas memória, mas identidade em movimento. Por exemplo, Machado de Assis traz, em Dom Casmurro, a saudade como ciúmes e idealização. Bentinho, movido por uma mistura de amor e ressentimento por Capitu, cria uma saudade carregada de desconfiança, desejo, controle e orgulho ferido, que nitidamente se traduz numa releitura obsessiva da perda.

Saindo da literatura para algo mais pessoal, a saudade também revela o lúdico, a condensação onírica, o relacionamento dos nossos sentimentos mais banais, como por exemplo uma música que volta sozinha à cabeça, uma

peça de roupa muito antiga vestida por um desconhecido no metrô, muitas vezes relembrando momentos e experiências vividas, ouvidas ou assistidas.

Na década de 1970, mais preci-

samente entre 1978 e 1979, houve um programa de televisão intitulado “Saudade não tem idade”. Era um espetáculo musical muito assistido naquela época. O programa era apresentado por Ney

Latorraca e reunia músicas com performances relacionadas com o gênero ou o estilo musical escolhido para aquele episódio. A frase “saudade não tem idade” ficou, até hoje, no imaginário das pessoas de qualquer idade, mesmo daquelas que nunca tiveram nenhum contato com o programa; contudo, permaneceu viva como a afirmação e legitimação de um sentimento. Ou seja, a frase se tornou uma autorização emocional, uma forma simples e afetiva de dizer que todo veículo deixa marcas, em qualquer fase da vida. A saudade, portanto, não é um afeto menor nem um simples resíduo do que passou. Ela é um modo de permanência, uma forma singular de continuidade psíquica quando o encontro já não é possível no plano da realidade. Ao lembrar, reinterpretar e sentir, o sujeito reafirma seus vínculos e, ao mesmo tempo, se reinscreve na própria história. Por isso, a saudade não envelhece. Aqui cabe ainda um exemplo muito comum entre nós: quando uma pessoa querida e amada morre jovem, ela nunca en-

velhece em nossas memórias; se mantém viva dentro de nós com a última idade que teve. Mas os desdobramentos dessa imagem não se esgotam nem se fixam apenas no passado: ela se atualiza, se desloca e se transforma, acompanhando o movimento dos nossos cotidianos. Reconhecê-la como experiência humana fundamental é também reconhecer que somos feitos não apenas do que vivemos, mas daquilo que continua a nos habitar.

Por fim, entre o romance de Machado e o palco da televisão, como também na morte que narrei, a saudade revela sua dupla face: pode ser cárcere da memória para sempre ou ponte entre tempos, histórias e idades. E talvez seja nesse intervalo, entre o apego que paralisa e a lembrança que acolhe, que se joga a possibilidade de transformar a saudade não em prisão, mas em algo fluido, vívido, capaz de transformar-se em pertencimento com sua própria narrativa. Narrativa essa que nos traz ao mesmo tempo lucidez e fantasia e, por que não, a loucura.

Você poderá ouvir o "Conversa Fora" no Spotify, Apple Podcasts ou em sua plataforma de podcast favorita, e seguir a página do programa no Instagram: @conversaforapod

GiorGia PietroPaoli is a professor, writer and human rights activist
Busy and friendly Little Italy on College Street West, in downtown Toronto.
toronto - the city beautiful flickr photos
Foto de Machado de Assis aos 25 anos, 1864. insley pacheco

Tecnologia

Jesus no bolso na era da inteligência artificial

rodriGo toniol

Na cidade de Lucerna, na Suíça, os visitantes da Capela de São Paulo encontraram um confessor diferente. No lugar de um padre, quem os recebia era uma tela com inteligência artificial, capaz de ouvir e aconselhar quem se sentasse diante dela. O caso suíço é pitoresco, mas não é isolado. Ferramentas de IA já circulam com naturalidade no universo religioso.

Entre cristãos, a oferta de aplicativos com IA já é ampla. O Text With Jesus se apresenta como um chatbot para conversar com Jesus e

outras figuras bíblicas, prometendo diálogos “pessoais” guiados pelas Escrituras e informando, de modo explícito, o uso de IA generativa. O Bible Chat segue trilha parecida: combina plano de estudo e diário espiritual com um módulo de “Bible AI”, no qual o usuário faz perguntas e recebe respostas em conversa, como catequese, devocional e consulta rápida no mesmo ambiente. No catolicismo, o Magisterium AI se define como um “answer engine” que responde com citações do magistério, da Bíblia e dos padres da Igreja. Há equivalentes em outros univer-

sos religiosos, como o Ask Buddha e o Gotama AI, que simulam conversas com o Buda e traduzem ensinamentos budistas para uma linguagem cotidiana. Por mais que o uso desses aplicativos possa despertar críticas doutrinárias por parte de alguns religiosos, todos eles foram criados como forma de amplificar os ensinamentos de cada uma das religiões e difundir doutrinas. Ou seja, para seus criadores, os apps ope-

ram como se fossem uma catequese personalizada ou um devocional portátil. O ponto não é que esses aplicativos dispensem a missa, o culto ou o templo. Eles podem até reforçar a rotina religiosa. A novidade é outra: a IA instala um mediador que opera fora das cenas clássicas do religioso que pastoreia o seu rebanho. Quem passa a responder às questões não é mais esse pastor, mas um mediador virtual, customi-

zado, que adapta a linguagem ao usuário e responde com base em interações anteriores.

Ainda é cedo para prever os efeitos dessa mudança sobre a forma de viver a religião. O que se pode afirmar é que, historicamente, transformações nos meios de difusão da palavra religiosa produziram efeitos concretos. Cultos e sermões transmitidos por rádio e televisão, por exemplo, foram centrais para a explosão do número de evangélicos ao longo do século XX.

Mais decisivo do que o precedente do século XX é o caso da Reforma Protestante. A partir de 1517, sua expansão ocorreu, em grande medida, graças à invenção da prensa de Gutenberg, que permitiu reproduzir sermões, panfletos e tradu-

ções bíblicas em escala inédita. A tecnologia não criou a disputa teológica, mas alterou sua velocidade, seu alcance e seu público. No fundo, o que está em jogo não é apenas aumentar a capacidade de difusão da palavra, como no rádio e na TV, nem apenas reorganizar a autoridade sobre a interpretação, como na Reforma. A IA junta as duas coisas: amplia a escala e personaliza a doutrina. É como se cada fiel passasse a carregar um confessor no bolso, disponível a qualquer hora. Sem capela, sem fila, sem Suíça: basta abrir o app. Claro que vale lembrar o óbvio, que esse modelo que pode transformar a forma de relação com o sagrado tem donos, acionistas e interesses corporativos.

Rodrigo Toniol é antropólogo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É membro da Academia Brasileira de Ciências e colunista da Folha de São Paulo. Recentemente, foi professor visitante na Universidade de Leipzig, na Alemanha.

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