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Jornal de Fato

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2 OPINIÃO

sábado, 2 de setembro de 2023

ESPAÇO JORNALISTA MARTINS DE VASCONCELOS

Organização: clauder arcanjo

REDESCOBERTA Lilia Souza

é escritora, presidente da Academia Paranaense da Poesia, e autora da obra Estórias de Trevol do Nada, dentre outras liliasouza@uol.com.b

Próximas as parcas terras das famílias. Desde a meninice, por vezes se viam. Igreja, feste-

jos do lugar. Pouco se falavam. Mais os olhos se encontravam. Ele, perto dos trinta, com lonjuras das farras, bons modos, trabalhador, já adquirira seu rancho, onde, para si e alguma venda, criava e plantava, garantindo o sustento. Ela, perto dos vinte, de beleza discreta, tímida e arredia, de pouca conversa. Preparada em todo tipo de prendas de casa e serviços na roça. Os pais nutriam antiga e sólida amizade. As famílias faziam gosto na união. Com incentivo dos mais velhos, o arranjo para casamento. Festa simples, na alegria da família e amigos e hesitante contentamento dos noivos.

Sobre a carroça, ele a levou de branco, para o rancho. Ela receosa, entre submissa e esquiva, mais apreensiva do que feliz. Por alguns dias, ensimesmados enlevos, aflitos folguedos. Poucos arroubos. Pouco à vontade. Depois, esmorecimento, casmurros afastamentos. Ele se acomodava de um lado da cama. Ela do outro. Nem se tocavam. Primeiras semanas, falta de casa, saudades dos seus. Pesadelos. Acordava assombrada. Cuidadosa, encostava-se nele. Uma pedra. Retornava a seu canto, encolhida até novamente adormecer. Cedo se levantavam para a lida. Ele cuidava dos poucos

di­re­ção ge­ral: Cé­sar San­tos diretor de redação: César Santos Ge­ren­te AD­MI­NIS­TRA­TI­VA: Ân­ge­la Ka­ri­na DEP. DE ASSINATURAS: Alvanir Carlos

animais, encarregava-se da plantação e colheita. Dia ou outro, conseguia um peixe no riachinho que cortava o rancho. Por vezes saía para vender a produção e comprar o que mais precisassem. Ela nas tarefas domésticas, cuidados com as flores e com as galinhas. Sentia-se menina a sair pelo terreiro à procura dos ovos. Em alguns dias, ajudava-o na lida com a terra. A mesa era simples, porém farta; preparo com esmero, do que ali mesmo se produzia. Era dura e comprida a rotina diária. Não reclamavam. À noite, exaustos, cedo se deitavam. De um lado e outro da cama. Anos se passaram. Viviam em paz. Amena, respeitosa e taci-

turna relação. Após um dia cinzento, na noite fria, de quarto minguante, perdera o sono. Olhava para o teto, ensimesmada. Ele se moveu na cama, rolou para o lado oposto. A mão dele tocou a dela. Despertou. Tocou-lhe a coxa. Brasas reacenderam. Labaredas subiram. Redescobriram-se, noite adentro. Como nunca fora nas semanas primeiras. Madrugou lua cheia, céu estrelado. Antes que amanhecesse, o sol iluminou todo o rancho. Verdejou a roça recémplantada. As onze-horas desabrocharam às seis. O galo cantou o dia todo. Os dois corriam pelo terreiro, em risadas e brincadeiras. Bem-te-vis e sabiás faziam-lhes coro sem cessar...

Um produto da Santos Editora de Jornais Ltda.. Fundado em 28 de agosto de 2000, por César Santos e Carlos Santos.

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FI­LIA­DO À


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