ÓRGÃO OFICIAL DA CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA FUNDADO EM 1901
Discípulas
Conferência das Mulheres Batistas estreia neste mês, no Nordeste
08 e 09
30 anos
Valtair Miranda completa três décadas de docência no Seminário do Sul
10
JBB
Assembleia da CBB nos anos 50 foi fundamental para criar uma organização da juventude
PIBBH
PIB de Belo Horizonte celebra 114 anos de história com grande culto de celebração
Notícias do Brasil Batista Notícias do Brasil Batista Notícias do Brasil Batista Notícias do Brasil Batista
EDITORIAL
Chamadas para servir ao mundo
O mês de março nos convida a refletir sobre dois marcos importantes que dialogam profundamente com a missão da Igreja: o Dia de Missões Mundiais e o Dia Internacional da Mulher. À primeira vista, podem parecer datas distintas, mas ambas nos lembram de algo essencial: Deus chama pessoas para participar da Sua obra no mundo.
A missão de Deus sempre foi realizada por homens e mulheres que disseram “sim” ao chamado. Ao longo das Escrituras e da história da Igreja, encontramos mulheres que exerceram papéis fundamentais no cuidado, no
testemunho, no ensino e na expansão do Evangelho. Mulheres que serviram com coragem, sensibilidade e dedicação, muitas vezes em contextos desafiadores.
No campo missionário, essa realidade é ainda mais evidente. Em diferentes partes do mundo, mulheres têm se levantado como missionárias, educadoras, intercessoras, líderes comunitárias e proclamadoras das Boas Novas de Cristo. Com sensibilidade e firmeza, elas têm atravessado culturas, enfrentado desafios e dedicado suas vidas ao anúncio do amor de Deus. Ao celebrarmos o Dia de Missões
Mundiais, somos lembrados de que a Grande Comissão é um chamado para toda a Igreja. Cada discípulo de Cristo tem um papel a desempenhar. E, ao mesmo tempo, ao recordarmos o Dia Internacional da Mulher, reconhecemos e valorizamos a contribuição preciosa das mulheres na construção do Reino de Deus. Entre nós, Batistas brasileiros, essa participação é visível e significativa. Nas Igrejas locais, nas organizações missionárias, nas frentes sociais e nos campos transculturais, mulheres têm sido instrumentos de Deus para alcançar vidas e transformar realidades.
Que estas datas nos levem a duas atitudes essenciais: gratidão e compromisso. Gratidão a Deus pelas mulheres que, com fé e dedicação, servem na obra missionária. E compromisso de continuar apoiando, enviando, orando e caminhando juntos na missão de levar o Evangelho a todos os povos.
Que a Igreja siga sendo um espaço onde dons são reconhecidos, vocações são encorajadas e pessoas são enviadas para cumprir o propósito de Deus no mundo.
Porque a missão continua e Deus segue chamando homens e mulheres para servi-Lo. n
O JORNAL BATISTA
Órgão oficial da Convenção Batista Brasileira. Semanário Confessional, doutrinário, inspirativo e noticioso.
Fundado em 10.01.1901
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Mais bem-aventurado é dar do que receber
Glenio Fonseca Paranaguá pastor da Primeira Igreja Batista em Londrina - PR
Paulo, ao se despedir dos presbíteros de Éfeso, deixa um testemunho que vale como bússola para a vida cristã: Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber. Atos 20.35, ARA. Ele chama isso de “bem-aventurança”, isto é, um caminho de felicidade sólida, não superficial; uma alegria que nasce do céu e toca a terra.
Por que dar é mais bem-aventurado? Porque dar nos aproxima do coração de Deus. O Pai é o Doador por
excelência: Ele não apenas concede coisas, Ele concede a si mesmo. Ele deu o Seu Filho por nós. O evangelho é a história do Deus que se entrega. Quando damos com amor, refletimos essa beleza divina. Receber é necessário e muitas vezes é graça; mas dar é participar do modo de ser do Senhor, que ama, sustenta, providencia e reparte.
Dar também é mais alegre porque quebra o poder do egoísmo. O pecado curva o coração para dentro, como se a vida se resumisse a proteger o próprio conforto. A generosidade, porém, abre janelas na alma: ela nos livra da ansiedade de reter, do medo de nos faltar, da prisão de pensar apenas em “meu”. Quando o cristão aprende a dar, descobre uma liberdade nova. Em
vez de o dinheiro dominar o coração, o coração passa a governar o dinheiro. E isso é leveza.
Além disso, a alegria de dar é maior porque transforma o sofrimento do outro em alívio concreto. Paulo fala em “socorrer os necessitados”. Dar não é só transferir recursos; é ver, enxergar o irmão, notar a dor, e agir. Há uma alegria santa em ver lágrimas diminuírem, em saber que uma mesa foi posta, uma conta foi paga, um remédio foi comprado, uma família foi sustentada. Receber alegra por um momento; dar pode gerar gratidão que ecoa por muito mais tempo — e, muitas vezes, salva uma história.
Há ainda um motivo profundamente espiritual: dar ao Reino é mais bem-aventurado porque produz frutos
eternos. O Senhor usa os recursos terrenos provisórios para realizar obras eternas. Quando contribuímos na igreja para os missionários, para a pregação e para a misericórdia responsável, estamos investindo onde o tempo não corrói. A oferta se torna culto, missão e amor em movimento. O que sai das mãos por obediência e alegria torna-se semente do Reino.
Por fim, dar é mais alegria porque nos faz confiar. O coração generoso aprende a descansar no cuidado de Deus. Assim, ele dá não por sobra, nem por pressão, mas por fé. E ao dar, experimenta a verdade: Deus é suficiente. A bem-aventurança do dar é a felicidade de quem encontrou o tesouro maior — e por isso reparte com alegria. n
Rogério Araújo (Rofa) colaborador de OJB
Muitos dizem que ao estipular uma data para homenagem a determinadas pessoas, profissões, datas santas, é porque esse foco lembrado não é tão lembrado assim, daí o motivo do destaque num dia específico.
O dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher, tendo como origem o protesto numa fábrica, em 1857, em Nova York, que buscam seus direitos trabalhistas, até então exclusivo apenas dos homens.
A data foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975 e tem como objetivo a luta de anos por igualdade de gênero e contra qualquer tipo de violência e discriminação. É uma batalha das mulheres
As mulheres merecem
ser
homenageadas
contra o machismo, a violência, o feminicídio, a discriminação e, também, contra a desigualdade salarial.
Teve uma época que a desculpa das mulheres ganharem menos que os homens é porque era considerado o “sexo frágil” que tinha de tomar conta da casa, dos filhos e, por isso, não tinha tempo de estar no mercado de trabalho. Argumentos bem antiquados que não convencem e nem tem cabimento hoje em dia.
Mulheres são empresárias, CEO de multinacionais, profissionais que se igualam ou superaram e muito aos do sexo masculino. E merecem todo esse destaque já que são excelentes em tudo que fazem, tendo uma visão que os homens não têm. Quantos esposos que tomam decisões para a própria família porque não ouvem antes sua
mulher e mãe de seus filhos?
Lorena Arcanjo disse, poeticamente, a respeito da mulher: “Sou mulher, sou anjo, sou força, sou coragem, sou luta, sou uma, sou todas, sou sim, sei que sou, sei quem sou, sei quem quero ser, sou quem quero ser sou mulher. E não é verdade? A força da mulher pode até parecer escondida, mas ela está presente em seu interior que age na hora certa para salvar uma situação que exige dela uma atitude. E Deus usando a cada uma delas.
A Bíblia Sagrada em Provérbios 31.10, do rei Salomão, diz: “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas joias”. A mulher virtuosa é honrada, amada, abençoada e louvada. O marido e as crianças a adoram. Ela os ama profundamente, cria um lar perfeito, e contri-
bui para a prosperidade do patrimônio familiar. Ela trabalha muito mais do que as suas equivalentes, e as suas realizações realçam a reputação do marido e ele declara a superioridade dela a todos. E, como não homenagear, mulheres como essas?
E, desde o nascimento, convivemos com mulheres em nossa vida: mãe, avó, tia, professora, namorada, noiva, esposa, sogra, chefe e sempre tem uma mulher em nossa frente, ainda mais com o espaço ganho por elas ao longo do tempo. Mesmo que ainda existe discriminação em alguns locais, profissões, posições de chefia que independe do gênero.
Com tudo isso, há motivos de sobra para as mulheres serem homenageadas no dia 8 de março. Parabéns, sempre! n
Guardando o coração: onde começam as grandes quedas
Divisão
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4.23).
Quando vemos alguém cair moral ou espiritualmente, geralmente focamos no ato final: uma decisão errada, um pecado visível ou uma escolha precipitada. Contudo, as grandes quedas não se originam no ato público — elas começam no silêncio do coração.
A Escritura declara que do coração procedem “as fontes da vida”. Na linguagem bíblica, o coração representa o centro do ser: o lugar onde residem pensamentos, desejos, intenções e vontades. Antes que o pecado se manifeste em atitudes externas, ele é alimentado internamente. Por isso, a vigilância precisa ser estabelecida, primeiramente, dentro de nós.
Costuma-se dizer que o perigo reside no “segundo olhar”. Os olhos são portas de entrada para aquilo que alcança a alma. Quando permitimos que nosso olhar se detenha no que é impróprio, abrimos espaço para que pensamentos pecaminosos se desenvolvam e desejos carnais aflorem com força. Foi assim com Davi: antes do adultério, houve a contemplação e o cultivo do desejo; o pecado alimentado no íntimo resultou não apenas em
imoralidade, mas também em mentira e homicídio (II Samuel 11). O Senhor Jesus ensinou que aquele que olha com intenção impura já adulterou em seu coração (Mateus 5.28). O que ganha espaço na mente e se instala no coração pode transformar-se em ações devastadoras.
Ninguém tropeça de um dia para o outro. Pequenas concessões, pensamentos tolerados, desejos não confrontados e justificativas silenciosas vão, aos poucos, enfraquecendo as defesas espirituais. Quando deixamos de guardar o coração, a queda torna-se apenas uma questão de tempo. Guardar o coração não significa isolar-se do mundo, mas exercer vigilância espiritual. Significa submeter cada pensamento à Palavra de Deus, rejeitar prontamente o que desagrada ao Senhor e cultivar uma vida de oração. Somos responsáveis por alimentar nossa mente com aquilo que edifica e fortalece nossa comunhão com Deus.
Adolescentes e jovens precisam, especialmente, compreender essa verdade. Muitas escolhas que marcam negativamente o futuro começaram com curiosidades aparentemente inocentes, amizades imprudentes ou entretenimentos que entorpeceram a sensibilidade espiritual. O pecado raramente se apresenta como algo destrutivo; ele costuma se disfarçar de oportunidade, prazer ou liberdade. Jesus ensinou sobre os males que
“Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá” (Mt 12.25).
Ao ser acusado de expulsar demônios em nome de Satanás, Jesus responde com uma lógica simples: se o Diabo expulsa demônios ele está enfraquecendo a si mesmo. Aí, Jesus acrescenta: “Uma casa, dividida contra si mesma, não pode subsistir” (Mt 12.25). A lógica, de fato, é simples. Casais que vivem brigando entre si, não conseguem subsistir. Não conseguem união suficiente para construir bons relacionamentos, para construir um lar. Afinida-
provêm do interior do homem (Marcos 7.21-23). Portanto, a batalha espiritual é travada, antes de tudo, no campo interno. Um coração rendido ao Senhor, nutrido pelas Escrituras e sensível à direção do Espírito Santo, torna-se uma fortaleza contra as armadilhas que levam à ruína.
Essa vigilância é uma tarefa diária. Exige disciplina, humildade e total dependência de Deus. Não se trata de confiar na própria força, mas de reconhecer a fragilidade humana e buscar no Senhor o sustento para permanecer firme.
des nos relacionamentos humanos são construídas na base da união, na base da procura por sentimentos comuns, na base dos valores compartilhados. Se eu cultivo divisão no meu namoro, produzirei brigas no meu noivado e colherei separação no meu casamento. Porque casa dividida contra si mesma, não consegue subsistir.
Por isso, nos relacionamentos humanos, é sempre importante ficar alerta, para se descobrir as causas das divisões. Elas são profundas demais? Elas são do tipo que podem ser eliminadas? Casais que vivem em constante divisão ou não descobriram afinidades ou, o que é mais sério, não possuem afinidades. Lembremo-nos do argumento da casa dividia.
As grandes quedas começam quando o coração deixa de ser guardado. Mas as grandes vitórias também nascem ali — quando ele é entregue, purificado e preservado pela graça. O salmista ensina um princípio precioso: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119.11). Em lugar de alimentar aquilo que é mau, devemos amar, guardar e obedecer à Palavra de Deus, permitindo que ela renove nosso entendimento e santifique a nossa vida. n
Cleber Montes Moreira pastor da Igreja Batista de Vila Antunes, em Cajati - SP
Olavo Fe ijó
pastor & professor de Psicologia
Emancipação IntelectualA mulher e a instrução teológica
Senhorinha Gervásio Extraído de www.oecbb.com.br
Houve um tempo na história que a instrução teológica era destinada somente aos homens…
Na década de 1980 quando cheguei ao Seminário Teológico Batista Mineiro, mais tarde, Faculdade Batista de Minas Gerais, um dos estudantes, com ar de ironia, me perguntou se havia me ingressado no curso para encontrar marido. Respondi que não, mas que, se aparecesse alguém interessante eu não teria nenhum preconceito. E acabou aparecendo.
Muitos anos antes desse acontecimento, nos anos de 1900, mais precisamente em 1917, segundo o site sec. org.br, outra mulher brasileira passou por situação parecida ao chegar ao Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, pois, foi impedida de ingressar no Curso de Teologia, por ser mulher. Seu nome, a história registra como Josefa Silva. Tal proibição fez nascer duas escolas para a Educação Feminina na área Teológica batista brasileira, uma no Recife e outra no Rio de Janeiro. À Josefa Silva fiz uma homenagem, bem-humorada, em forma de cordel, por ocasião do Congresso dos Educadores Cristãos Batistas do Brasil ocorrido no Nordeste, em 2012, na cidade de Aracaju, que transcrevo nesse artigo:
Foi em 1917 que Josefa Silva chegou lá no Seminário do Norte e na porta se apresentou: – quero fazer Teologia. Pois para isso Deus me chamou.
O espanto foi geral: – volte para a casa sua moça que aqui não é seu lugar aqui estão os “homens” que convocados por Deus se preparam para pregar.
Mas Josefa Silva cheia de convicção do local não se arredou: – daqui não saio, daqui ninguém me tira antes que receba o preparo para a obra do Senhor.
O diretor acuado não sabia o que fazer como duvidar do chamado de alguém que em obedecer demons -
trava tanto agrado e sentia tanto prazer!?
Um Seminário pra mulheres foi ideia de bom parecer. Assim nasceu o SEC Seminário de Educadoras Cristãs foi um avanço para a época temos que reconhecer.
É pena que não sabemos mais sobre essa guerreira que com determinação e pelo poder de Deus abriu caminho para a instrução teológica da mulher Batista brasileira.
A situação das mulheres em relação à emancipação intelectual na área teológica, em outros países, não era diferente da situação no Brasil na época de Josefa. Nem nos países de primeiro mundo as mulheres eram aceitas nos Cursos de Teologia. Segundo Marie Theres Wacker em seu artigo “Cem anos de mulheres e Bíblia…”, na Alemanha por exemplo as Faculdades Teológicas só abriram espaço para as mulheres a partir da declaração da igualdade das mulheres e homens estabelecidos na Constituição em 1918, mesmo assim sem qualquer tipo de compromisso com o exercício de profissões eclesiais.
Se retrocedermos mais um pouco na história vamos encontrar outras mulheres enfrentando algum tipo de restrição. Segundo o site Britannica escola, Angeline e Sarah Grimké inglesas membros do grupo religioso quacre, foram impedidas de proferir seus discursos a uma plateia mista. Os homens da sua comunidade, considerados “fiéis à Bíblia”, fizeram isso tendo como base I Timóteo 2.12. Essa atitude quiriarcal em 1837 levou Sarah Grimké a entender e defender a hipótese de que a interpretação da Escritura feita por “homens” estava a serviço da submissão das “mulheres”. A partir do episódio Sarah convocou as mulheres a estudar as línguas originais da Bíblia e tomar a interpretação em suas próprias mãos.
Os questionamentos de Sarah associados a outros movimentos fez surgir em Londres, em 1840, um movimento para articular a luta pela
libertação dos escravos com a luta pela libertação das mulheres. O anseio pela igualdade era geral o que culminou na realização de um congresso na Igreja Metodista Wesleyana em Seneca Falls, nos Estados Unidos, em 19 e 20 de julho de 1848. A reunião que entrou para a história das mulheres constou em sua pauta os seguintes assuntos entre outros: a luta pela educação e voto das mulheres e independência legal da tutela de seus pais e maridos.
O fato é que desde a antiguidade a mulher não teve direito à instrução. Os motivos são variados e pela extensão do assunto não nos cabe refletir sobre eles neste artigo. Faço uma exceção apenas para o campo da Ciência com a afirmativa do biólogo Charles Darwin de que a inferioridade da mulher era baseada em princípios científicos. Angela Saini, em seu ensaio “As mentiras sexistas da Ciência”, responsabiliza Darwin de fazer parecer ciência o que era simplesmente social, divulgando que as mulheres eram limitadas intelectualmente.
Segundo Angela, em matéria no site El País, duas foram as razões consideradas básicas para afastarem as mulheres do campo da ciência. A primeira dizia que as fortes tensões mentais causadas pelos cursos superiores poderiam subtrair energia do sistema reprodutivo, deixando em risco a fertilidade delas. A segunda era a de que a presença das mulheres poderia distrair os homens.
Até mesmo na sociedade judaica as mulheres eram impedidas de receber instrução. Só os meninos eram instruídos na lei nas sinagogas e quanto à questão religiosa elas nem podiam frequentar o mesmo espaço do templo destinado aos homens.
Por todos esses motivos não é de se admirar a pouca participação da mulher no meio intelectual, tanto na cultura geral como na cultura religiosa. As que conseguiram se destacar no campo das ciências, de forma geral e das ciências teológicas, de forma
particular foram, pelo menos no início, consideradas intrusas.
Os tempos são outros. Como mulheres, precisamos estabelecer um relacionamento mais crítico em relação à ciência. Ela não é feita por seres superiores e sim por pessoas acometidas dos mesmos preconceitos que todos os outros seres humanos. Quanto ao campo da Teologia da mesma forma, os escritos que temos hoje acumulados desde os tempos dos primeiros intérpretes e comentaristas das Escrituras foram feitos por seres humanos normais e não superiores, que carregaram em sua forma de pensar os mesmos preconceitos culturais do restante da população, em relação à mulher.
O que nos cabe, como mulheres, é aproveitar os benefícios já adquiridos, pois hoje os cursos de Teologia estão abertos não só para alunas como também para professoras, e tentar promover novos avanços.
FERNANDES, Fernanda. A história da educação Feminina. MultiRio, 2019. Disponível em: <http://www.multirio. rj.gov.br/index.php/leia/reportagens-artigos/reportagens/14812-a-hist%C3%B3ria-da-educa%C3%A7%C3%A3o->feminina#:~:text=Mulheres%20 no%20ensino%20profissionalizante%20e,pap%C3%A9is%20tradicionalmente%20vinculados%20 %C3%A0s%20mulheres>. Acesso em: 05 de mai. 2021.
Nossa história. Seminário de Educação Cristã. Disponível em: <https:// www.sec.org.br/site/institucional. php>. Acesso e 05 de mai. 2021 SCHOTTROFF, Luise. Exegese Feminista: resultados de pesquisas bíblicas de mulheres. Tradução de Monika Ottermann – São Leopoldo: sinodal?EST:CEBI: São Paulo: ASTE, 2008. n
Iracy de Araújo Leite
Em Efésios capítulo 2, verso 10, nós encontramos: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.”
Não podemos seguir o caminho do Senhor sem ter certeza do seu projeto para nossa vida. O que Deus espera que eu seja?
Quando Deus nos fez, foi com propósito definido. Diz o texto que lemos: foi para boas obras. Somos criaturas dEle. São muitas as consequências advindas de uma vida sem rumo, sem objetivo, sem sobretudo consultar a vontade de Deus.
O tema dessa reflexão é o seguinte: “A mulher que Deus espera que eu seja.” Examinando as mensagens do Mestre, vejamos o que Ele nos ensina, pois nelas encontramos as respostas para este tão importante tema.
Primeiro, entendo que a mulher que Deus deseja que nós sejamos é, antes de tudo, ser uma discípula. Em Lucas capítulo 10, versos 38 a 42, encontramos que Maria preferiu o banquete espiritual ao banquete físico. E o Mestre disse: “Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada”, e sentou-se aos pés do Mestre.
Aqui está o início de tudo: sentar-se aos pés do Mestre significa ser humilde, aprender com Ele, ouvir atenciosamente a sua mensagem, estabelecer comunhão com o Mestre, definir com
A mulher que Deus deseja que eu seja
Ele nossos objetivos de vida.
Mulher com propósito é aquela que ouve os ensinamentos do Mestre e os põe em prática. Lucas registra várias mulheres que se colocaram na brecha para aprender de Cristo e servi-Lo. Quantas mulheres o acompanhavam nas suas caminhadas, ouvindo, atendendo e servindo para que nada lhe faltasse. Sejamos verdadeiras discípulas do Mestre.
Em segundo lugar, a mulher que Deus deseja que nós sejamos é aquela que anda com passos firmes e confiantes sob a orientação do Mestre. É o que encontramos em I Samuel capítulo 25, versos 23 a 38.
Que lições preciosas aprendemos com Abigail! Foi uma mulher definida e competente. Os seus servos confiavam nela. Ela era, certamente, a fortaleza da família: sábia, humilde, objetiva e firme.
Abigail tomou para si a arrogância do marido, pediu perdão como se fosse ela a pecadora, para salvar sua família da destruição. Mulher que anda nos passos do Mestre é mulher vitoriosa. A mulher sábia edifica a sua casa.
Em terceiro lugar, a mulher que Deus deseja que nós sejamos é aquela que vive plenamente o chamado de Deus para sua vida. O que pensar de Maria, mãe de Jesus? O que significa a expressão: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas 1.38).
Maria não questionou diante das
possibilidades de ser censurada pelo seu povo, de ser rejeitada pelo noivo. Enfim, ela não mediu consequências de sua atitude. Porém, aceitou o desafio de cumprir sua missão, porque era um chamado divino.
Maria deixou tudo e obedeceu. Durante todo o ministério de Jesus, encontramos Maria em vários momentos, inclusive ao pé da cruz. Foi até o fim, assumindo seu chamado — algo tão difícil — mas não se recusou a cumprir.
Como estamos nós cumprindo o nosso ministério para o qual fomos chamadas? Tristes, decepcionadas? Ou felizes e gratas porque fomos escolhidas, privilegiadas para assumir uma tarefa muito complexa? É verdade: para a qual não existe manual, regulamento em que as situações difíceis tenham respostas prontas.
As nossas dificuldades, os nossos problemas, só podem ser resolvidos aos pés do Mestre. Isto nos garante segurança e paz. “Não to mandei eu? Esforça-te e tem bom ânimo; não pasmes, nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares” (Josué 1.9).
E o anjo disse a Maria: “Salve, agraciada.” Entendo que somos bem-aventuradas porque temos sido escolhidas por Deus para este ministério. Mulher bem-aventurada é aquela que aceita com alegria o chamado do Mestre.
Em quarto lugar, a mulher que Deus deseja que sejamos é aquela que so-
nha os sonhos de Deus. Ana era uma mulher estéril, mas pediu a Deus um filho não para si, mas para entregar ao serviço do Senhor. E quem foi Samuel?
Lóide e Eunice prepararam Timóteo nas Sagradas Letras.
O propósito de Ana era entregar o seu filho para servir ao Senhor. Não passou por sua cabeça qualquer resposta à sua frustração pessoal, à sua competidora, nem mesmo satisfazer o seu marido, mas acima de tudo servir ao Senhor, colocando Deus em primeiro lugar.
Lóide e Eunice, avó e mãe cristãs, vivendo em um lar misto, colocaram Deus em primeiro lugar, ensinando a Palavra do Senhor ao jovem Timóteo.
Joquebede sonhou os sonhos de Deus de libertar o Seu povo do cativeiro egípcio. Ela não sabia quem seria o seu filho, porém teve coragem de desafiar o rei perverso e lutar pela vida do seu querido bebê.
Deus acompanhava todo o processo. Joquebede teve a honra de ser mãe de Moisés, o líder que libertou o povo de Israel, o homem que falou com Deus face a face.
E quantos outros exemplos de mulheres estão registrados na Palavra de Deus — mulheres que buscaram ser o que o Senhor esperava para sua vida. Queridas colegas, aprendamos com essas mulheres lições preciosas para o nosso ministério.
Sejamos agradecidas.
Que Deus nos abençoe. Amém. n
A colheita do bem: Por que a sua Igreja precisa da RADS?
Redação de Missões Nacionais
“E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos” (Gl 6.9).
O apóstolo Paulo, ao escrever aos gálatas, conhecia bem a natureza humana. Ele sabia que o “fazer o bem” — o exercício da compaixão, o cuidado com o órfão, a viúva e o necessitado — é uma jornada que exige fôlego.
Muitas vezes, nossas Igrejas locais iniciam projetos sociais com um vigor admirável, mas, com o passar do tempo, o isolamento, a burocracia e a escassez de recursos técnicos podem gerar o cansaço mencionado no texto
bíblico. Sua Igreja já se sentiu assim? Seja forte! A boa notícia é que a promessa da colheita permanece viva e, para que não desanimemos, Deus nos deu o privilégio da cooperação. É aqui que brilha a relevância da RADS (Rede de Ação e Desenvolvimento Social Batista)
Se a sua Igreja já faz o bem, não deixe que o cansaço a pare. Junte-se à RADS. Acesse www.rads.org.br, cadastre seus projetos e descubra que, em rede, nossa capacidade de transformar vidas é multiplicada.
Quer saber mais sobre esse assunto? Leia a matéria completa de Fabiola Molulo Tavares, Gerente Executiva de Assistência Social de Missões Nacionais, na revista A Pátria para Cristo. Nessa edição, você encontrará ainda muitos outros temas, como Igreja Multiplicadora, povos não alcançados e vazios batistas, além de uma entrevista exclusiva com o Pr. Fabrício Freitas, Diretor Executivo de Missões Nacionais.
Para conferir a 290ª edição de A Pátria para Cristo, aponte a câmera do seu celular para o QR Code ao lado. Aproveite para compartilhar essas informações missionárias com a sua Igreja. Uma boa leitura a todos!
De Mantena para as salas de aula e púlpitos: a trajetória do professor Valtair Miranda
Caroline Azevedo jornalista dos seminários da CBB
Do interior de Minas Gerais, na tranquila cidade de Mantena, nasceu uma história marcada por vocação e perseverança. Ainda jovem, Valtair já demonstrava sinais de que seu caminho seria diferente. Inspirado pelo pastor que o acompanhava na Igreja local, começou a sentir, no coração, um chamado que mudaria completamente o rumo de sua vida.
Percebendo a seriedade e a sinceridade desse chamado, a Igreja da qual fazia parte decidiu apoiá-lo. Em 1992, ele foi enviado ao Seminário do Sul, onde iniciaria sua jornada acadêmica. No seminário, Valtair não apenas estudou: ele viveu intensamente aquele ambiente. Morou no alojamento da instituição e mergulhou na rotina acadêmica e espiritual. Durante os anos como aluno, destacou-se pelo compromisso e pela disposição em servir. Tornou-se monitor, dando seus primeiros passos no que, sem que muitos percebessem na época, seria uma longa e sólida carreira docente. A transição aconteceu de forma natural. Logo após sua formatura, em dezembro de 1995, Valtair foi convidado a permanecer na instituição, desta vez, não mais como estudante, mas como professor. Era o início de
Professor completou 30 anos de atuação no Seminário do Sul. PIB Fazendinha - RJ celebra
Imagem: Will Bentes
uma trajetória marcada pelo amor ao ensino e pela busca constante pelo conhecimento.
Com o passar dos anos, ele continuou avançando na vida acadêmica. Cursou novas graduações, especializações, mestrados, doutorados e até pós-doutorado, ampliando seu campo de atuação e aprofundando sua capacidade de dialogar com diferentes áreas do saber. Esse percurso o tornou um professor versátil, capaz de contribuir em diversas disciplinas e formar gerações de alunos.
Mas sua atuação nunca se limi -
tou às salas de aula. Com espírito de liderança e visão institucional, Valtair assumiu funções importantes na faculdade. Foi o primeiro coordenador do curso presencial de Teologia credenciado da instituição, atuou como gestor, assessor da direção geral e vice-diretor acadêmico.
Paralelamente à vida acadêmica, manteve viva sua vocação pastoral, dedicando-se ao pastoreio de Igrejas e ao cuidado espiritual de comunidades.
A história que começou em Mantena, entre sonhos simples e uma vocação despertada ainda na juventude,
transformou-se em uma trajetória de impacto. Entre livros, salas de aula, gabinetes administrativos e púlpitos, Valtair construiu uma vida marcada pelo ensino, pela fé e pelo serviço, uma jornada que continua inspirando alunos, colegas e Igrejas por onde passa.
Trinta anos após iniciar sua caminhada acadêmica, o professor Valtair celebra uma trajetória marcada por vocação, dedicação e amor pelo ensino. Mais do que uma data, a instituição comemora uma história de compromisso com a formação de vidas.
Ao longo dessas três décadas, Valtair tornou-se referência para gerações de alunos. Seu ensino ultrapassou as salas de aula, alcançando diferentes lugares e formando líderes, pastores e profissionais que carregam em suas trajetórias a marca de seu aprendizado.
Com sua postura calma, serena e humilde, o professor continua inspirando estudantes, seja presencialmente ou por meio das aulas no formato EaD, ampliando ainda mais o alcance de sua missão.
Parabéns, professor Valtair Miranda, por 30 anos de dedicação a esta casa.
Uma trajetória que honra a instituição e transforma vidas.
Deus continue abençoando sua vida! n
novos batismos em meio a processo de revitalização
Igreja vive novo tempo após retomada pastoral e crescimento da membresia.
Primeira
No domingo, 15 de fevereiro, a Primeira Igreja Batista em Fazendinha -
em Fazendinha - RJ está em processo de revitalização desde agosto de 2025
RJ realizou o batismo das irmãs Mariah e Lucimary, em um culto marcado por alegria e gratidão a Deus.
A Igreja está em processo de revitalização desde agosto de 2025, quando o pastor Jônatas Viana assumiu a liderança interina. Desde então, a congregação tem experimentado um novo tempo de comunhão, fortalecimento espiritual e aprendizado da Palavra de Deus.
A comunidade segue avançando, para a glória do Senhor. n
Após mais de dois anos sem liderança pastoral, a realidade atual contrasta com o cenário vivido até agosto de 2025, quando a Igreja contava com apenas três membros. Hoje, a PIB Fazendinha celebra os frutos de um trabalho pautado na fé, perseverança e compromisso com a missão.
Jônatas Viana pastor, ministro da Família na Primeira Igreja Batista em Araruama - RJ e pastor interino na Primeira Igreja Batista em Fazendinha.- RJ
Valtair Miranda tem uma trajetória que honra a instituição e transforma vidas
Igreja Batista
Redação da Junta de Missões Mundiais
O 2º domingo de março é o Dia de Oração por Missões Mundiais, data instituída pela Convenção Batista Brasileira para que igrejas se unam em intercessão pela obra missionária. Neste período, também celebramos o Dia Internacional da Mulher.
A proximidade das datas nos lembra de uma realidade: missões também têm rosto feminino. Ao parabenizar as mulheres, reconhecemos aquelas que ensinam, discipulam, oram, lideram e servem em diferentes contextos ao redor do mundo.
Hoje, a Junta de Missões Mundiais conta com 2.510 missionários atuando em 97 países. Em muitos desses lugares, mulheres estão na linha de frente, desenvolvendo projetos que anunciam o Evangelho e promovem cuidado, educação e restauração de vidas.
Um desses projetos é o PEPE –Programa de Educação Pré-Escolar, iniciativa socioeducativa que atende crianças de 4 a 6 anos, oferecendo educação, cuidado e ensino de valores cristãos. Na Mongólia, o início do PEPE já tem produzido histórias de transformação, como a de Ana.
Quando a coordenadora do programa apresentou o PEPE em sua igreja, ela se voluntariou para receber o treinamento de missionária educadora, mesmo com muito medo de não conseguir. Na infância, Ana sofreu um acidente com dióxido de carbono que deixou sequelas em sua perna e em um de seus braços, dificultando sua locomoção.
Após alguns meses de treinamento, ela assumiu uma turma e começou a ensinar as crianças com dedicação e amor. O impacto foi rápido: as crianças passaram a aprender de forma significativa e os pais começaram a agradecer pelo trabalho realizado. Alguns até pediram que ela abrisse atividades também para crianças mais velhas.
Hoje, Ana se sente feliz por servir como missionária educadora, impactando crianças, famílias e sua comunidade através do PEPE.
Histórias como essa também se repetem em outros lugares do mundo. No Peru, o PEPE também foi instrumento de transformação na vida de Gabriela Sandoval Muñoz.
Ela estava enfrentando problemas familiares e sem saber como lidar com as dificuldades do filho na escola. Em processo de divórcio, ela decidiu dar aula em casa para seu filho Gabriel; até que conheceu o projeto de Missões Mundiais através de uma missionária educadora.
Seu filho Gabriel passou a estudar no PEPE e, ao receber cuidado, atenção e ensino cristão, começou a apresentar mudanças significati -
Elas pelo Mundo
vas. Ao ver o amor dedicado ao filho, Gabriela também foi alcançada pelo Evangelho e decidiu entregar sua vida a Jesus.
Com o tempo, Deus restaurou sua família. Hoje, Gabriela e seu esposo servem ao Senhor no ministério pastoral, seus filhos participam da igreja e ela continua envolvida com o PEPE, reconhecendo o programa como uma ferramenta de Deus para transformar crianças e restaurar famílias.
Em outra região do mundo, através do Projeto Vítimas de Tráfico no Oriente Médio, missionárias atuam levando apoio espiritual e assistência a mulheres vítimas do tráfico humano. Entre o apoio prestado às vítimas, temos a história da Zoe, de Uganda.
Órfã desde criança, cresceu em meio à pobreza e aos maus-tratos de sua tia. Ela é mãe de dois filhos, um menino, fruto de um abuso, e uma menina que sofre com crises de asma.
Determinada a dar uma vida melhor às crianças, Zoe deixou seu país e viajou para o Oriente Médio em busca de trabalho. Como tantas outras mulheres de países da África e do Sudeste Asiático, acreditava que encontraria dignidade e sustento para a família como doméstica no Oriente Médio. Mas a realidade foi cruel. Foi explo-
rada, não recebeu salário, perdeu o contato com os filhos e, por fim, foi acusada injustamente de roubo e acabou presa, sem sequer ser levada a julgamento.
Na prisão, Zoe disse: “Minha história de vida é muito triste, mas eu sou forte. Deus me dá forças e me ajuda a seguir em frente”. Nossa missionária chorou ao ouvir seu relato.
O ambiente onde Zoe está presa é marcado por injustiça e descaso. Muitas mulheres estrangeiras, principalmente vindas da África e da Ásia, que estão lá foram recrutadas por agências, com a promessa de trabalho digno, mas acabaram caindo nas mãos de patrões abusivos. Elas perderam a liberdade, a dignidade e até o direito de se comunicar com suas famílias. Quando tentam fugir, são acusadas falsamente de crimes que não cometeram e levadas à prisão, em um país em que elas não têm família ou amigos para as visitarem e sequer sabem falar o idioma local. Essa realidade revela a profundidade da opressão espiritual que enfrentamos.
Histórias como a de Zoe lembram que muitas mulheres ainda vivem em contextos de extrema vulnerabilidade. Por isso, a presença missionária se torna um sinal de
cuidado, esperança e anúncio do amor de Cristo.
Histórias como as de Ana e Gabriela, nos mostram que quando há uma mão estendida e oportunidade, as mulheres podem se erguer e cumprir sua parte na Grande Comissão.
Diante dessas realidades, o convite neste mês é claro: ORE.
Ore pelas missionárias e voluntárias que servem em diferentes países. Ore pelas mulheres atendidas pelos projetos, para que encontrem cuidado, dignidade e nova vida em Cristo. Ore também para que mais pessoas se envolvam com a missão, sustentando a obra através da intercessão.
Neste segundo domingo de março, às igrejas batistas são convidadas a dedicar um tempo especial de oração e levantar a oferta do Dia de Missões Mundiais. É também uma oportunidade de lembrar das milhares de mulheres espalhadas que esperam para ouvir do evangelho.
Ao celebrarmos o Dia Internacional da Mulher e o Dia de Oração por Missões Mundiais reconhecemos e agradecemos a Deus pela vida das mulheres que servem na missão e que oram. E rogamos para que a Igreja brasileira continue sustentando, em oração, a obra missionária. n
Mulheres Batistas Fluminenses promovem imersão para fortalecer liderança no Estado
Encontro reuniu mais de 100 presidentes e coordenadoras associacionais na PIB de Niterói - RJ.
Izilda Portela presidente das Mulheres Batistas Fluminenses
A Organização Mulheres Batistas Fluminenses realizou, no último sábado, 28 de fevereiro, uma Imersão voltada às presidentes e coordenadoras Associacionais do Estado do Rio de Janeiro. O encontro aconteceu nas dependências da Primeira Igreja Batista de Niterói - RJ e reuniu mais de 100 líderes comprometidas em crescer, aprender e servir com ainda mais excelência.
O evento foi marcado por momentos de ensino, alinhamento, inspiração e fortalecimento de visão. As participantes refletiram sobre o chamado ministerial, a responsabilidade da liderança e o impacto de um serviço exercido com propósito,
caráter e dedicação.
A programação contou com ministrações da professora Cássia Dias, do pastor Erik Mendonça e de Raquel Zarnotti, diretora-executiva das Mulheres Batistas do Brasil, que compartilharam conteúdos voltados ao desenvolvimento e à multiplicação de líderes.
Segundo a liderança da organiza ção, investir em liderança é investir no futuro da Igreja. A proposta é que o aprendizado adquirido durante a Imer são se torne base para a formação de novas líderes, fortalecendo ainda mais o trabalho das igrejas em todo o Estado.
“Seguimos avançando, preparando nossa liderança para trabalhar com
promisso e paixão”, destacou Izilda Portela. n
Igreja Batista dos Mares, em Salvador - BA, marca capítulo decisivo na história
da JBB
Assembleia de 1958, em Salvador - BA, pavimentou o caminho para a criação da Junta de Mocidade dez anos depois.
Gerência de Comunicação da Convenção Batista Brasileira
A história da Juventude Batista Brasileira ganhou um de seus capítu los mais significativos em janeiro de 1958, durante a Assembleia da Con venção Batista Brasileira realizada na Igreja Batista dos Mares, em Salvador - BA. O encontro colocou a juventude no centro das discussões denomina cionais e desencadeou um processo que culminaria, uma década depois, na criação da Junta de Mocidade. Desde 1922, a Juventude Batista Brasileira estava sob a responsabilidade da Junta de Escolas Dominicais e Mocidade. No entanto, a partir da década de 1940, especialmente após a criação do Congresso Nacional da Mocidade, cresceu entre líderes e jovens o desejo de instituir uma junta específica para tratar exclusivamente dos assuntos da juventude.
Batista. Argumentos favoráveis e contrários à criação de uma Junta de Mocidade passaram a ocupar espaço nas reflexões da denominação, gerando grande expectativa para a Assembleia de 1958.
Ao longo dos anos, o debate alternou momentos de maior intensidade e períodos de arrefecimento. Em 1957, porém, a discussão ganhou força. Líderes influentes da denominação se posicionaram publicamente, seja em eventos, seja em artigos publicados nos veículos oficiais, como O Jornal
Quando os mensageiros chegaram a Salvador, muitos temas estavam na pauta. Ainda assim, nenhum despertava tanta atenção quanto a possível criação da nova junta. As deliberações foram intensas, mas não se alcançou maioria absoluta para aprovar a proposta. Havia o entendimento de que uma decisão sem ampla maioria poderia fragilizar a legitimidade do novo órgão e gerar questionamentos futuros. Diante do impasse, o presidente
da Assembleia naquele ano, o pastor Rubens Lopes, tomou uma iniciativa decisiva: deixou a mesa diretora, dirigiu-se ao plenário e apresentou uma proposta substitutiva. Em vez de criar imediatamente a Junta de Mocidade, sugeriu ampliar a participação de jovens na Junta de Escolas Dominicais. A medida não atendia integralmente ao pleito inicial, mas representava um avanço significativo e um caminho de conciliação.
Comissões foram formadas, relatórios apresentados e a proposta alternativa aprovada. Ficou estabelecido que o tema seria retomado de forma definitiva dois anos depois, em 1960. Entretanto, os desafios enfrentados
pela denominação no início da década acabaram adiando a decisão final. Somente em 1968 a Junta de Mocidade seria oficialmente criada. Ainda assim, o ponto de partida formal desse processo ocorreu na Assembleia de 1958, na Igreja Batista dos Mares. O entendimento construído naquele encontro ficou conhecido como “Acordo de Mares”, um marco de pacificação que permitiu amadurecer o debate e conduzir a denominação a uma solução consensual anos depois.
Assim, a Igreja Batista dos Mares não é apenas um templo histórico em Salvador, mas o cenário de um momento decisivo para a organização do trabalho com a juventude batista no Brasil. Um episódio que demonstra como diálogo, prudência e busca por unidade podem moldar os rumos de uma geração inteira.
Assista o vídeo em que o pastor Vinícius Vargas, conselheiro emérito da JBB, conta essa história:
Evento foi marcado por momentos de ensino, alinhamento, inspiração e fortalecimento de visão
Assembleia da CBB em 1958, em Salvador - BA
Fachada da IB dos Mares
NOTÍCIAS DO BRASIL BATISTA
PIB de Belo Horizonte - MG celebra 114 anos com
culto solene e mensagem de fé e esperança à cidade
Culto foi marcado por gratidão, memória e renovação de compromisso com a missão cristã na capital mineira.
Renata
Gomes,
comunicação da PIBBH
A Primeira Igreja Batista de Belo Horizonte (PIBBH) celebrou, no dia 1º de março seus 114 anos de organização com um culto especial marcado por gratidão, memória e renovação de compromisso com a missão cristã na capital mineira. A celebração foi dirigida pelo pastor Ruan Noce, que conduziu a Igreja em um momento de reflexão sobre a fidelidade de Deus ao longo de mais de um século de história.
A programação contou com a participação da Orquestra e do Coro da Igreja, sob a condução do Maestro César Timóteo, que enriqueceram o culto com hinos e canções que marcaram diferentes gerações. Um dos momentos mais significativos foi a entrega de medalhas aos membros com mais de 30 anos de pertencimento à PIB BH. As homenagens foram realizadas pelos Embaixadores e Mensageiras do Rei, reconhecendo a dedicação e o testemunho daqueles que contribuíram para a consolidação da igreja ao longo das décadas.
O culto também registrou a presença de diversas autoridades civis e eclesiásticas, que foram citadas nominalmente e receberam um momento especial de oração. Entre os presentes estavam Matheus Simões, vice-governador de Minas Gerais; Álvaro Damião, prefeito de Belo Horizonte; Valseni
Momento de louvor contou com a participação de Nelson
Programação contou com a participação da Orquestra e do Coro da PIBBH
Culto também registrou a presença de diversas autoridades civis e Eclesiásticas
Braga, CEO da Rede Batista de Educação; Pr. Ramon Márcio de Oliveira, diretor adjunto da Convenção Batista Mineira; Neusa Resende, diretora executiva da União Feminina Missionária Batista Mineira; além dos deputados Lincoln Portela e Ale Portela. A igreja dedicou um tempo específico de oração pelas autoridades, reafirmando seu compromisso bíblico de interceder
pelos que exercem liderança pública.
O momento de louvor contou com a participação do cantor e compositor Nelson Bomilcar, que conduziu a congregação em adoração, fortalecendo o ambiente de celebração e entrega.
A mensagem bíblica foi ministrada pelo pastor Ruan Noce, que destacou o significado espiritual da data e a responsabilidade da Igreja diante das pró-
Embaixadores e Mensageiras do Rei entregaram medalhas aos membros com mais de 30 anos de pertencimento à PIBBH
ximas gerações. Em seu depoimento sobre a celebração, o pastor afirmou: “Há 114 anos, Deus planta fidelidade no coração de Belo Horizonte. Como pastor da Primeira Igreja Batista de Belo Horizonte, eu não enxergo essa data apenas como um marco histórico, mas como uma mensagem viva para a nossa cidade. Cento e quatorze anos nos ensinam algo que esta geração precisa reaprender: permanecer é um ato de fé. Atravessamos crises, guerras, instabilidades econômicas, mudanças culturais profundas e pandemias. Vimos ciclos começarem e terminarem. E continuamos avançando. Isso é esperança.”
O Pastor ainda reforçou o convite para que novos membros façam parte dessa trajetória de fé: “Se você deseja fazer parte de uma igreja que honra o passado, vive o presente com intensidade e olha para o futuro com fé; se deseja caminhar em uma comunidade que permanece na visão, mesmo quando a resposta demora; se deseja construir algo que ultrapasse a sua própria geração, venha caminhar conosco.
A Primeira Igreja Batista de Belo Horizonte não é apenas uma igreja de 114 anos. É uma família espiritual em movimento.”
A celebração dos 114 anos reafirma o papel histórico da PIB BH como referência espiritual na cidade, mantendo viva sua missão de proclamar o evangelho, servir à sociedade e formar discípulos comprometidos com Cristo e com o bem comum. n
Fotos: Equipe de Fotografia da PIBBH
Bomilcar
Pr. Ruan Noce e autoridades presentes na celebração PIBBH recebeu homenagens durante o culto
Nelson Bomilcar
Afirmações de fé
Pr. Oswaldo Luiz Gomes Jacob
“Mas tu, Senhor, és um Deus compassivo e benigno, paciente e grande em misericórdia e verdade” (Sl 86.15).
Na sua oração, o rei Davi fez com muita convicção algumas afirmações de fé reconhecendo cinco atributos morais de Deus: compaixão, benignidade, paciência, misericórdia e verdade. O rei tinha uma fé robusta no Deus que intervém na História. No meio do sofrimento e da perseguição, Davi faz essas afirmações tendo como base a Revelação do próprio Deus. Davi tinha intimidade com Deus e é conhecido como “homem segundo o coração de Deus” (1 Samuel 13.14). O contexto aqui é a rejeição de Saul como rei e a ascensão de Davi segundo a vontade de Deus. Vejamos esses cinco atributos morais de Deus como afirmações de fé de Davi.
Primeiro, ele reconhece Deus como compassivo. A compaixão de Deus por nós é patente nas Escrituras. O Deus Trino é compassivo. Depois de ser confrontado pelo profeta Natã no seu pecado, o rei Davi inicia a sua confissão apelando para a compaixão de Deus, ao dizer: “Ó Deus, compadece-te de mim, segundo teu amor...” (Salmos 51.1). O amor de Deus é a base da Sua compaixão. Num mundo de ódio e sem compaixão, devemos olhar para a compaixão do nosso Deus. Como Seus filhos, devemos sempre agir compassivamente. Em todo o Seu ministério, o Senhor Jesus agiu com compaixão.
Segundo, Deus é benigno. Ele expressa a Sua bondade de geração em geração. No seu cântico, Davi afirma: “O Senhor é justo em todos os seus caminhos e benigno ou bondoso em todas as suas obras” (145.17). O profeta Naum faz uma confissão de fé ao declarar que “o Senhor é bom, uma fortaleza no dia da angústia e conhece os que nele confiam” (1.7). O Salmo 118 é um louvor pela eterna benignidade ou bondade de Deus. A eterna benignidade de Deus nos ensina que devemos ser uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-nos uns aos outros como Deus nos perdoou em Cristo Jesus (Efésios 4.32).
Terceiro, Deus é paciente. A paciência de Deus é um traço muito visível de Sua natureza. Temos um Pai paciente que nos sustenta com a Sua graça. A paciência de Deus não é uma transigência com os nossos erros, mas uma oportunidade para mudarmos de vida, buscarmos viver no centro de Sua vontade. O nosso Deus é o Deus de paciência e consolação (Romanos 15.5). Tiago nos recomenda a termos a paciência de Jó (Tiago 5.11). A paciência de Deus conosco deve nos levar à paciência nas tribulações e em nossos relacionamentos. A nossa caminhada com Deus, muitas vezes, é marcada pela dor e pelo sofrimento. Tiago nos ordena a termos paciência até à vinda do Senhor (Tiago 5.7). A paciência de Deus é expressão do Seu amor. Como afirma MIllard Erikson “a paciência de Deus não se limitou a seu relacionamento com Israel. Pedro che-
ga a afirmar que o dilúvio foi retardado o quanto possível para dar oportunidade de salvação para os que, por fim, foram destruídos (1 Pedro 3.20). Ao falar do dia vindouro de grande destruição, Pedro também afirma que a segunda vinda custa chegar por causa da clemência de Deus. Ele não deseja ‘que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3.9).
Quarto, Deus é misericordioso. Aqui, Davi declara que Deus é grande em misericórdia. Jeremias nos ensina que “as misericórdias do Senhor são a causa de não servos consumidos e elas não têm fim e são novas a cada manhã” (Lamentações 3.22). Davi reconhece a grande misericórdia de Deus quando foi confrontado em seu pecado de adultério (Salmos 51.1).
Na Sua misericórdia, Deus inclina o Seu coração para nos alcançar em nossa miséria. No Novo Testamento, Deus revela a Sua misericórdia na Pessoa e Obra de Cristo Jesus. Paulo, no seu belíssimo testemunho de gratidão no meio das tribulações, declara: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também sejamos capazes de consolar os que passam por alguma tribulação, por meio da consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus” (2 Coríntios 1.3-4).
Quinto, Deus é verdade. Os falsos deuses se levantam, mas podemos
confiar no Deus verdadeiro. O nosso Pai ama a verdade porque ela é a expressão do Seu ser. O Senhor trata conosco em verdade. Esta verdade pode ser traduzida por coerência no que Ele é, ensina e faz. O Seu testemunho é sempre verdadeiro. Num mundo que está no maligno (1 João 5.19), o pai da mentira, devemos viver na qualidade de filhos do Deus verdadeiro, que mostra sempre a verdade de Sua revelação. Deus, o Filho, afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14.6). Paulo nos ensina acerca do Deus que não pode mentir (Tito 1.2). A mentira é contra a própria natureza de Deus.
Todos os dias, como Davi, devemos reconhecer esses atributos morais de Deus. Celebrar a grandeza de Deus em Se fazer conhecido, em Se revelar na Criação, na consciência do homem, nas Escrituras e em Jesus Cristo. Os atributos naturais e morais de Deus, revelados nas Escrituras, devem ser matéria de exame diário em nossas devocionais, adorando a Deus em Espírito e em verdade, como Jesus ensinou (João 4.24). Em nossas orações e em nossas meditações das Escrituras devemos enfatizar o Ser de Deus, a Sua Trindade. Os atributos de Deus certamente provocarão em nossos corações quebrantados e contritos ou arrependidos (Salmos 51.17). Que nossas afirmações de fé, à semelhança de Davi, sejam manifestas em atitudes e atos que certamente glorificarão a Deus. n
OBSERVATÓRIO
Liderando sem liderar! É possível?
Lourenço Stelio Rega
Peter Drucker, o grande mestre da liderança, uma vez afirmou algo como “Há líderes que são contratados por suas habilidades técnicas, mas acabam sendo demitidos pelos seus comportamentos”. Isso tem sido constatado internacionalmente inclusive no “nível C” da alta gestão de grandes organizações e tem sido comum em muitos tipos de organizações até mesmo religiosas.
Em 2018, a Page Personnel, consultoria global de recrutamento para cargos de nível técnico e suporte à gestão, realizou um estudo que levou em conta respostas de 1.400 executivos de recursos humanos e constatou que nove em cada dez são contratados pelo perfil técnico e demitidos pelo comportamental.
Veja que nessa constatação de Drucker temos dois tipos de habilidades – técnicas e comportamentais – e no campo da gestão, inclusive
estratégica, tem sido um tema bem atual. No semestre passado fui chamado para explicar isso para líderes e dirigentes diversos de instituições de ensino teológico em um encontro que ocorreu na Cidade de Guatemala e outro na cidade de Assunção, por uma organização internacional chamada MESA Global.
Com o tempo ficaram conhecidas como (1) HARD SKILLS, as habilidades técnicas; e, SOFT SKILLS, as habilidades pessoais e interpessoais, que alguns chamam de comportamentais.
Em termos gerais, as hard skills são um conceito mais antigo e tradicional e engloba habilidades técnicas e mensuráveis, que podem ser adquiridas por meio de educação formal, treinamento ou experiência prática. Vamos lembrar que a palavra hard (“duro” no inglês) sugere habilidades concretas, objetivas e fáceis de serem avaliadas.
Por sua vez, o conceito sobre as soft skills surgiu no exército norte-a-
mericano, entre 1960 e 1970, quando se notou que o sucesso de um soldado ou oficial não dependia apenas de suas habilidades técnicas (hard skills), como operar um equipamento ou atirar, mas que as habilidades interpessoais e comportamentais (capacidade de liderar, trabalhar em equipe, se comunicar de forma eficaz, ter empatia), eram cruciais para o bom desempenho. Assim, o termo soft (“macio”, “leve” em inglês) foi usado para contrastar com a natureza dura e técnica das hard skills
A expressão soft skills foi popularizada pelo professor de psicologia Eric Frazer, que definiu essas habilidades como habilidades comportamentais relacionadas à maneira como o profissional lida com os outros e consigo mesmo em diferentes situações. E hoje é valorizado o equilíbrio entre as duas, pois enquanto as hard skills qualificam alguém para uma vaga, as soft skills a ajudam a ter sucesso na função e a crescer na carreira.
Ainda que estas compreensões sejam, de certa forma, até recentes, especialmente as soft skills, é bem interessante ver que também estejam presentes desde a origem da humanidade. E nesse ponto é possível pelo menos apresentar alguns destaques que podemos fazer a partir da teologia:
1. Desde a origem da humanidade temos detalhes que podemos chamar “matriz da criação” como “construtos” formativos da natureza humana, isto é, descrições de sua especificação e funcionamento, e um dos detalhes dessa matriz é a habilidade relacional, portanto, soft skill. Note que os seis dias da criação terminavam sempre com o feedback divino “foi tarde e manhã e Deus viu que tudo era bom”. Na terceira parte da narração da criação temos a descrição da formação da humanidade e Deus afirmou que “não era bom que o ser humano vivesse só”. Isso inaugura o modelo de vivência e decisões colegiadas requerendo habilidades comunicacionais e relacionais
nobres. No final dessa parte da narração o texto no livro de Gênesis ainda menciona que “o homem deixará seu lar e se unirá à mulher”, demonstrando foco na afeição, interação, acolhimento, pertencimento. Posso arriscar que depois da rebelião humana contra o Criador há uma mudança no modelo de vida (“à mulher Deus disse: ‘o teu desejo será para teu marido e ele te dominará’”), surgindo, então, o modelo hierárquico em que o eixo ficou nas relações temperamentais do poder, não mais relacionamento comunicacional, e das habilidades técnicas para poder sobreviver, sem o acesso à “árvore da vida” e da estabilidade do Jardim.
2. No campo da missiologia há uma expressão chamada de “mandato cultural”, que prefiro chamar mais apropriadamente de “delegação empoderada” do Criador à humanidade que está descrita no livro de Gênesis 1.26ss, indicando que deveriam se reproduzir e assumir o papel cocriador de gerir a natureza criada. Aí temos habilidades de descoberta ao cuidar
do jardim (da criação), envolvendo a técnica, a ciência (hard), mas a delegação foi dada aos dois (homem e mulher), o que exigiria soft skills para juntos, cumprirem essa mesma delegação. Depois da rebelião, a gestão cocriadora e sábia a humanidade passa a agredir a criação e traz até hoje herança prejudicial ao ambiente em que temos como nosso lar.
3. Do Congresso Mundial ocorrido em Lausanne (Suiça) em 1974 aprendemos o conceito de integralidade para a compreensão do Evangelho e da vida com vários avanços e implicações do ponto de vista cosmológicos, antropológicos e soteriológicos. O eixo desses avanços se fixa na compreensão integral do ser humano, de modo a superar diversas compreensões reducionistas que com o tempo foi se fixando apenas em parte de sua natureza, tal como a inteligência e conhecimento (o famoso QI?) em que o foco era no verbo SABER, depois em sua performance de produtividade na linha de montagem, com o verbo
FAZER/PRODUZIR. Depois veio o momento da Inteligência Emocional (o famoso QE) e o verbo SENTIR. Depois veio o momento da alteridade com a contínua descoberta do outro, com o verbo CONVIVER. Mais recentemente busca-se a qualificação de caráter, da história de vida da pessoa e o verbo é SER. No primeiro verbo é possível adicionar o senso de liberdade na busca da verdade ficando SABER/REFLETIR. No fundo, ainda que estes verbos não tenham sido tratados originalmente em Lausanne, seguindo o ideal da integralidade é possível unir todos eles indicando que o ser humano só pode ser compreendido de forma integral. Assim a equação fica: SABER/REFLETIR + FAZER + CONVIVER + SENTIR + SER = ser integral (hard e soft). 4. No ensino de Jesus ainda temos a menção do mais elevado padrão representado pelos dois grandes mandamentos que, no fundo, apontam para três níveis de relacionamentos cimentados nas soft skills:
• Amar a Deus com a vida integral (Lausanne I);
• Amar-se a si mesmo: autoconhecimento, autoimagem equilibrada (Romanos 12.3);
• Amar o próximo, a partir de si mesmo: retorno ao Éden antes da rebelião (não é bom viver só – Gênesis 2.18).
Assim um líder pode ser competente tecnicamente (hard skill) e eficiente nos resultados, mas deficiente nos relacionamentos e engajamento dos colaboradores (soft skill) e estará apenas realizando um trabalho bem-feito, como um profissional nas entregas, mas não pela visão de equilíbrio entre hard e soft skills
Então é possível alguém ser líder sem liderar? Se considerarmos que um líder ideal, isto é, integral, completo, é aquele que possui habilidades hard e soft, poderíamos dizer que é impossível. Pode ser alguém que faz entregas, apresenta performance de produtividade, mas se não tem a habilidade de lidar com pessoas, engajá-las, encantá-las no cumprimento da missão organizacional, é apenas um chefe, o quanto muito um gerente, mas não um líder.
Se você é líder, como lida com os relacionamentos, como lida com seus liderados, são apenas operadores do sistema? São agentes produtivos apenas? Você os trata com dignidade, busca abrir espaço para diálogo com escuta atenta, busca ensiná-los, tem paciência com eles, os trata com carinho? Vamos lembrar do ensino do apóstolo Paulo, que retrata bem softs skills: A palavra de vocês seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibam como responder a cada um (Cl 4.5,6). n