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Pessoas e Bem -estar

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Quando a dor vira rotina

Crônica e muitas vezes invisível, a dor persistente atinge até 4 em cada 10 adultos e impõe um desafio diário que vai além do tratamento medicamentoso.

EDITORIAL

A vida quando há dor

A dor é, por definição, um alerta. Mas, para milhões de brasileiros, ela deixa de cumprir esse papel e passa a ocupar um lugar fixo na rotina. A dor crônica, aquela que persiste por mais de três meses, não é exceção estatística. É a realidade cotidiana. Estudos epidemiológicos apontam que cerca de 30% a 40% da população adulta convive com algum tipo de dor persistente, índice que cresce com o envelhecimento e com o aumento das doenças crônicas.

Ainda assim, ela permanece subestimada. Não aparece em exames laboratoriais com a mesma objetividade de uma taxa alterada de colesterol. Não deixa, necessariamente, marcas visíveis. E, por isso, muitas vezes é ignorada. A dor crônica ocupa um território contraditório, já que, por vezes, é invisível para quem observa e muito concreta para quem sente. As causas são diversas. Pode estar associada a doenças reumatológicas, como fibromialgia e artrite; a sequelas de lesões; a alterações neurológicas; a quadros oncológicos; ou a condições musculoesqueléticas que acompanham o avanço da idade. Em comum, está o impacto funcional. Dor crônica não é apenas um incômodo físico: interfere no sono, reduz produtividade, limita mobilidade e afeta saúde mental. A literatura médica já descreve a associação frequente entre dor persistente, ansiedade e depressão, não como fragilidade emocional, mas como consequência de um organismo submetido a estresse contínuo.

Nos últimos anos, o entendimento sobre dor avançou. Hoje se sabe que ela não é apenas resultado direto de uma lesão tecidual, mas um fenômeno complexo, que envolve sistema nervoso central, memória, contexto emocional e fatores sociais. Isso muda a abordagem. O tratamento deixou de ser exclusivamente medicamentoso e passou a exigir estratégias combinadas: fisioterapia, atividade física adaptada, psicoterapia, técnicas de manejo do estresse, ajustes no ambiente de trabalho e, quando indicado, medicação. Conviver com a dor não significa render-se a ela. Significa, muitas vezes, reorganizar expectativas.

EXPEDIENTE

“Tratamento da obesidade vai além de comer menos”

Conforme a médica endocrinologista e metabologista, Daniela Marques Atkinson, a obesidade ainda é muito cercada de estigma e frequentemente interpretada apenas como falta de disciplina. “Hoje sabemos que se trata de uma doença crônica, com bases biológicas e metabólicas bem estabelecidas”, esclarece. Conforme a médica, quando a obesidade é reconhecida e tratada de forma adequada, é possível melhorar não apenas o peso, mas principalmente a saúde e a qualidade de vida das pessoas.

Quais são as principais causas da obesidade?

Daniela - A obesidade é uma doença multifatorial, ou seja, não existe uma única causa. Ela resulta da combinação de fatores genéticos, alterações hormonais e metabólicas, padrão alimentar, nível de atividade física, qualidade do sono, uso de algumas medicações e também do ambiente em que vivemos. Hoje sabemos que o peso corporal não depende apenas das escolhas individuais. O organismo possui mecanismos biológicos que regulam a fome, a saciedade e o gasto de energia. Algumas pessoas têm maior predisposição a ganhar peso e também maior dificuldade em manter o peso reduzido. Por isso, a obesidade não pode ser vista apenas como excesso de comida ou falta de força de vontade. Existe uma base biológica importante por trás da doença.

Quais são os principais riscos que a obesidade traz à saúde?

Daniela - A obesidade está associada a um maior risco de diversas doenças, como diabetes tipo 2, pressão alta, aumento do colesterol, infarto e AVC, gordura no fígado, apneia do sono e problemas nas articulações. Também está associada a maior risco de alguns tipos de câncer, como câncer de mama, câncer de intestino e câncer de endométrio. Além disso, pode impactar a qualidade de vida, causando cansaço, dores articulares, dificuldade para realizar atividades do dia a dia e piora da qualidade do sono. Por isso,

Textos e fotos: Paulo Cardoso

hoje entendemos a obesidade como uma doença metabólica que precisa ser diagnosticada e tratada, e não apenas como uma questão estética.

Como deve ser tratado um paciente com obesidade?

Daniela - O tratamento precisa ser individualizado. A base envolve mudanças no estilo de vida, com ajustes na alimentação, aumento da atividade física e melhora da qualidade do sono. Dependendo do caso, pode ser necessário associar tratamento medicamentoso e, em situações específicas, cirurgia bariátrica. Pessoas com obesidade frequentemente se beneficiam de uma abordagem multidisciplinar, envolvendo médico, nutricionista, educador físico e, em alguns casos, psicólogo e/ ou psiquiatra.

Textos: Bibiana Faleiro

Diagramação: Lautenir Junior Coordenação: Felipe Neitzke

Projeto de lei autoriza venda de remédios em supermercados

Secretária de Saúde alerta para segurança do paciente, uma vez que o acesso estará facilitado

ACâmara dos Deputados aprovou, na segunda-feira, dia 2, o projeto de Lei que autoriza a instalação de um setor de farmácias dentro dos supermercados. Uma das exigências é ter ambiente físico delimitado, segregado e exclusivo para a atividade. O projeto de lei restringe a oferta de medicamentos em áreas abertas, comunicáveis ou sem separação funcional

completa. A proposta agora segue para sanção presidencial.

A secretária de Saúde de Lajeado, a médica Giovanna Caribé Athayde Linhares, entende que qualquer medida que trate da comercialização de medicamentos precisa ter como prioridade absoluta a segurança do paciente e o uso racional dos remédios. “Medicamento não é um produto comum de prateleira. Mesmo aqueles considerados isentos de prescrição podem causar efeitos adversos, interações medicamentosas e mascarar sintomas importantes, atrasando diagnósticos”, alerta.

Para Giovana, ampliar o acesso é algo positivo, especialmente para quem mora longe ou tem dificuldade de deslocamento. “Mas precisamos avaliar com responsabilidade se essa ampliação não pode comprometer a segurança sanitária e a qualidade da orientação ao paciente. Como gestora pública, minha preocupação é sempre equilibrar acesso com segurança. E, na saúde, a segurança precisa vir em primeiro lugar.” Giovana ainda acrescenta a importância da presença permanente de profissional farmacêutico no estabelecimento.

Categoria

Em nota, o Conselho Federal de Farmácia avaliou que o texto aprovado pela Câmara dos Deputados reduz danos, mantendo as exigências sanitárias já previstas no Senado, além de atender a pontos classificados como centrais e defendidos pela entidade. O parecer aprovado reafirma que a instalação de farmácias em supermercados somente poderá ocorrer se forem farmácias completas, com espaço físico segregado, presença obrigatória de farmacêutico responsável técnico, cumprimento integral das normas sanitárias e fiscalização sanitária.

Minha preocupação é sempre equilibrar acesso com segurança. E, na saúde, a segurança precisa vir em primeiro lugar.”

O comunicado reforça que, conforme o texto, não há autorização para venda de medicamentos em gôndolas ou caixas comuns de supermercado.

“O debate em Plenário concentrou-se na necessidade de equilibrar acesso, concorrência e proteção à saúde pública. Com a

Giovanna Caribé Linhares, secretária da Saúde de Lajeado

manutenção das exigências estruturais e da presença obrigatória do farmacêutico, o texto aprovado mantém o modelo sanitário defendido pelo conselho”, concluiu a entidade.

Um olhar sobre nosso maior patrimônio

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Embora possa operar sob a mesma identidade fiscal, terá que seguir as exigências sanitárias e técnicas

Desafio de viver com dor

Persistente por meses ou anos, a dor crônica afeta milhões de pessoas e já é reconhecida pela medicina como uma condição de saúde própria, com impactos na vida social, no trabalho e na saúde mental

Ador faz parte do sistema de alerta do corpo humano, mas, quando persiste por meses ou anos, passa a comprometer diferentes aspectos da vida. A chamada dor crônica pode interferir na mobilidade, no trabalho e até nas relações sociais. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 30% da população mundial convive com algum tipo de dor crônica. Já estudos publicados pela International Association for the Study of Pain (IASP) apontam que a dor lombar é atualmente a principal causa de incapacidade no mundo, responsável por anos vividos com limitação funcional. Levantamentos da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED) indicam que entre 35% e 40% dos brasileiros relatam algum tipo de dor persistente, tornando o problema também um desafio de saúde pública.

Na prática

Na prática clínica, a dor crônica é definida quando o sintoma ultrapassa o tempo esperado de recuperação do organismo e passa a persistir por meses. Segundo o neurocirurgião Isaac Bertuol, geralmente considerase crônica a dor que permanece por mais de três a seis meses e passa a interferir de forma direta na vida do paciente. “Ela deixa de ser apenas um sinal do corpo

e se transforma em um fator de incapacidade, que compromete o trabalho, o convívio familiar e o bem-estar”, explica. No consultório, o especialista afirma que a prevalência desses casos tem aumentado, especialmente em quadros relacionados à coluna. A dor lombar, por exemplo, está entre as principais causas de incapacidade no mundo e frequentemente leva à redução da capacidade laboral e da qualidade de vida. “Hoje, a maior parte dos pacientes que atendo procura ajuda por dor. E muitas vezes não se trata de um problema simples ou isolado”, afirma.

Isso porque a dor crônica costuma ser resultado de uma combinação de fatores físicos, emocionais e sociais. De acordo com Bertuol, o tratamento

raramente depende de um único profissional. “Não é só o neurocirurgião, nem apenas o fisioterapeuta ou o médico da dor. É um conjunto de abordagens que pode envolver reabilitação física, acompanhamento psicológico, ajustes de estilo de vida e, em alguns casos, intervenções médicas”, diz. Outro desafio é que a intensidade da dor nem sempre corresponde ao que aparece nos exames de imagem. O especialista relata que é comum encontrar pacientes com alterações discretas que sofrem intensamente, enquanto outros apresentam lesões importantes e relatam poucos sintomas. “A experiência da dor é individual”, destaca. Além disso, quando a dor se prolonga, pode ocorrer um processo

chamado sensibilização do sistema nervoso, no qual o cérebro passa a reconhecer aquele estímulo como permanente. Nesse cenário, mesmo após a melhora da lesão inicial, o desconforto pode persistir.

“O cérebro se acostuma com a dor, e isso torna o tratamento mais complexo. Por isso, é importante olhar não apenas para a estrutura do corpo, mas também para como o sistema nervoso está reagindo”, explica.

Diante dessa complexidade, o especialista defende que a cirurgia deve ser considerada apenas em situações específicas e, sempre que possível, como último recurso. “A medicina não é exata e não existe garantia absoluta de resultado. Por isso, trabalhamos com uma lógica de escalada de tratamento, começando por abordagens mais simples

A dor crônica pode afetar mobilidade, sono e atividades cotidianas, impactando diretamente a qualidade de vida

e avançando apenas quando necessário”, afirma.

Nesse percurso, o objetivo nem sempre é eliminar totalmente a dor, mas recuperar a funcionalidade e a qualidade de vida. “Quando um paciente volta a dançar, brincar com o neto ou retomar atividades que havia abandonado, mesmo que ainda exista algum desconforto, já é um ganho enorme”, conclui.

No dia a dia

Ao longo dos anos, a dor crônica deixou de ser vista apenas como um sintoma prolongado e passou

O cérebro se acostuma com a dor, e isso torna

é importante olhar não apenas para a estrutura do corpo.”

a ser reconhecida como uma condição de saúde própria. A fisioterapeuta Bárbara Moreira explica que essa mudança acompanha uma nova definição adotada pela IASP, que passou a classificar a dor crônica como uma doença, com critérios diagnósticos e código próprio na classificação internacional de doenças.

“A pessoa pode ter episódios recorrentes ao longo de muito tempo. O importante é entender que a dor é uma experiência subjetiva e complexa, que envolve não apenas o corpo, mas também fatores psicológicos, sociais e comportamentais”, afirma.

Esse caráter subjetivo ajuda a explicar porque a intensidade da dor nem sempre corresponde aos resultados de exames. “Não existe um neurônio que detecta dor diretamente. O que temos são receptores que identificam estímulos potencialmente nocivos. Depois, essa informação é processada pelo cérebro, que interpreta ou não aquilo como dor”, explica Bárbara. Por isso, segundo ela, duas pessoas podem apresentar alterações semelhantes na coluna e vivenciar experiências diferentes.

A fisioterapeuta destaca que

a dor crônica também provoca mudanças no comportamento e na forma como o corpo se movimenta. Muitas vezes, o paciente passa a evitar determinados gestos ou atividades por medo de sentir dor, o que acaba agravando o quadro.

“Quando a dor se prolonga, pode ocorrer um processo chamado sensibilização central, em que o cérebro se torna mais alerta àquela região do corpo. Quanto mais tempo a dor persiste, mais difícil tende a ser o tratamento”, explica.

O tratamento costuma exigir uma abordagem multidimensional. No caso da fisioterapia, o trabalho envolve não apenas exercícios, mas também educação sobre dor, reeducação do movimento e mudanças de hábitos de vida. “Não tratamos apenas a dor. Tratamos a pessoa. É preciso entender o quanto essa dor limita a vida dela e o que ela deixou de fazer por causa disso”, diz.

Fatores de risco

Entre os fatores que influenciam o surgimento ou a manutenção da

dor crônica estão sedentarismo, excesso de esforço físico, tabagismo, obesidade, alterações no sono, ansiedade e depressão. “O corpo não foi feito para o extremo nem para o imobilismo. Tanto o sedentarismo quanto o excesso de atividade física podem aumentar o risco de dor”, afirma.

ANDERSON BARBOSA

“Intestino da mulher madura não está preguiçoso.Está desorganizado”

Segundo a profissional, após os 45 anos, a queda estrogênica reduz a motilidade intestinal. Resultado é distensão, evacuação irregular, sensação de peso

Se o intestino só funciona depois do café ou do chimarrão, isso não é regulação — é estímulo irritativo. Pode gerar alívio imediato, mas, com o tempo, cria dependência funcional e desorganiza a microbiota. É o que afirma a nutricionista Ana Paula Dexheimer. Segundo a profissional, após os 45 anos, a queda estrogênica reduz a motilidade intestinal.

A digestão se torna mais lenta, a composição bacteriana se altera e o trânsito intestinal desacelera. Soma-se a isso excesso de fibras cruas, pouca hidratação e estímulos diários agressivos. O resultado é distensão, evacuação irregular, sensação de peso e cansaço. Há ainda um ponto decisivo: parte do metabolismo do estrogênio acontece no intestino. Quando o trânsito está lento, pode ocorrer maior recirculação de metabólitos hormonais, impactando retenção de líquidos, oscilação de humor e dificuldade de emagrecimento.

Nesse contexto, Ana Paula cita o Método ÁGAPE, que busca essa reorganização. Essa é uma abordagem que visa a transformação emocional e o desenvolvimento pessoal. Fundado por Márcio Martins, o método é baseado em princípios de amor incondicional e busca ajudar as pessoas a curar feridas emocionais, reconstruir sua identidade e despertar seu potencial criativo. A profissional ainda destaca que textos clássicos do Charaka Samhita já descreviam preparações digestivas com sementes

e especiarias para restaurar o ritmo fisiológico intestinal. “Na prática clínica, além de alinhar a alimentação, utilizo um “medica-

mento” (linguagem do Ayurveda) inspirado nessa tradição”, afirma. Por isso, sugere a receita da “Panaceia para o intestino”.

Panaceia para o intestino

Ingredientes

1 colher (sopa) de linhaça dourada

1 colher (sopa rasa) de erva-doce

2 colheres (sopa) de passas ou 3 ameixas secas 300 ml de água

Atenção: utilizar até regularizar o intestino. Uma vez normalizado, suspender o uso

Modo de preparo

Ferver tudo por 7 minutos. Coar e tomar o chá. Aproveitar o resíduo, aquecer rapidamente com uma pequena porção de manteiga ghee e armazenar em vidro. Consumir 1 colher (sopa) em jejum. A linhaça oferece mucilagem reguladora. A ervadoce reduz gases. As frutas secas estimulam suavemente o trânsito e o ghee promove lubrificação.

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Queda estrogênica reduz a motilidade intestinal

Obesidade infantil acende alerta para hábitos familiares

Especialistas destacam que sedentarismo, excesso de telas e mudanças na alimentação têm contribuído para o aumento do sobrepeso entre crianças e adolescentes

Aobesidade infantil deixou de ser um fenômeno isolado e passou a ocupar espaço crescente nas consultas médicas e nas discussões em saúde pública. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que mais de 340 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos vivem com sobrepeso ou obesidade no mundo.

No Brasil, o cenário também preocupa. Estimativas apontam cerca de 6,6 milhões de crianças de 5 a 9 anos e 10 milhões de adolescentes de 10 a 19 anos com excesso de peso. O aumento está ligado a mudanças no estilo de vida, como menor atividade física, maior tempo de tela e consumo frequente de alimentos ultraprocessados.

“Os pais raramente procuram consulta por causa da obesidade. Eles vêm por outro motivo e, durante a avaliação, percebemos que a criança está acima do peso”, explica a nutricionista Fernanda Reali. Segundo ela, além das questões

subir, brincar. Mas ela precisa de espaço e estímulo para isso”, destaca.

A especialista lembra que o exemplo dos adultos é decisivo. Se os pais mantêm hábitos sedentários ou uma alimentação pouco equilibrada, a tendência é que a criança reproduza o mesmo comportamento. “Não adianta apenas dizer que determinado alimento é saudável. A criança aprende muito mais pelo exemplo do que pela explicação”, afirma. Outro fator importante é o aumento do tempo de tela. Diversos estudos apontam uma relação direta entre sedentarismo digital e aumento da gordura corporal. Quanto maior o tempo diante de celulares, tablets ou televisão, maior o risco de ganho de peso. Além da questão estética, Fernanda ressalta que o

Segundo ele, a obesidade infantil

hábitos familiares são transmitidos influenciando alimentação e nível

Lucian destaca que o problema

rotina, definem a alimentação e incentivam ou não o movimento.”

Ele também observa que, apesar da rotina corrida, pequenas mudanças podem fazer diferença. Brincar no parque, andar de bicicleta ou jogar bola com os filhos são formas simples de estimular o movimento. O importante, segundo ele, é tornar a atividade física algo prazeroso.

ENVATO

Vivências na natureza colaboram no manejo de TDAH

ENVATO Achados e evidências

Conforme pesquisa, interações com o meio natural podem reduzir a intensidade de sintomas como hiperatividade, impulsividade e desatenção

No cenário atual em que transtornos do desenvolvimento infantojuvenil, como o Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), mobilizam famílias, escolas e profissionais de saúde, um estudo recente lança luz sobre uma abordagem complementar de tratamento que foge ao espaço tradicional da sala de aula e do consultório clínico e abre as portas para natureza.

A pesquisa “Crianças com TDAH em Contato com a Natureza: transformações possíveis”, conduzida pela dra. Mônica Maria Siqueira Damasceno (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará – IFCE, campus Juazeiro do Norte), dra. Jane Márcia Mazzarino (Universidade do Vale do Taquari – Univates) e dra. Aida Figueiredo (Universidade de Aveiro, Portugal),

explorou, de forma sistemática, o impacto de vivências em ambientes naturais sobre os sintomas do TDAH em crianças.

A investigação qualitativa, realizada em contexto educacional, revela que interações com o meio natural podem reduzir a intensidade de sintomas como hiperatividade, impulsividade e desatenção em crianças diagnosticadas com TDAH, abrindo espaço para reflexões sobre práticas pedagógicas e terapêuticas complementares.

Levantamento de dados

O estudo teve como foco o município do Crato, no estado do Ceará, região Nordeste do Brasil, onde as vivências foram realizadas com crianças, de sete a

12 anos, matriculadas em escolas públicas da rede municipal e com diagnóstico médico de TDAH. Crato é uma cidade marcada pela proximidade com a Chapada do Araripe, um ambiente natural de grande biodiversidade e pluralidade de ecossistemas, o que oferece um cenário ideal para experiências de contato direto com a natureza.

O procedimento de intervenção envolveu ciclos de atividades realizadas em ambientes naturais, explorando suas características para promover experiências sensoriais, motoras e cognitivas. Esses encontros com o meio ambiente incluíram caminhadas ecológicas, exploração da fauna e flora locais, atividades de observação e interação livre com elementos naturais, sempre com a supervisão de pesquisadores e com o consentimento dos responsáveis legais.

Um dos achados da pesquisa foi a constatação de que, embora os subtipos de TDAH continuassem presentes após as vivências no ambiente natural, ou seja, o diagnóstico em si não desapareceu, os sintomas manifestaram-se com menor intensidade nos participantes expostos às atividades na natureza. Isso significa que comportamentos associados à impulsividade, desatenção e agitação, ainda perceptíveis, tornaram-se menos intrusivos, proporcionando indicadores de que a natureza pode atuar como um elemento restaurador e modulador de aspectos do comportamento infantil relacionados ao TDAH. O resultado ecoa achados de outras pesquisas internacionais, que sugerem que exposição a ambientes naturais pode influenciar positivamente nos aspectos cognitivos e emocionais em crianças de forma geral. Esses efeitos, ainda que não se apresentem como soluções únicas ou definitivas para o TDAH, apontam para uma direção

promissora de complementaridade entre educação, saúde e ambiente.

Repensar

No plano social, a pesquisa apresenta implicações. Se atividades estruturadas em ambientes naturais podem, de fato, auxiliar na redução da intensidade de sintomas do TDAH, a perspectiva aponta para a necessidade de repensar o currículo escolar e práticas pedagógicas, sobretudo no que tange à criação de espaços verdes nos ambientes educacionais e à incorporação de atividades externas como parte integrante do processo de ensino-aprendizagem.

Contextualização

A discussão sobre contato com a natureza e desenvolvimento infantil não se restringe ao universo do TDAH. Pesquisas em psicologia ambiental têm explorado amplamente como a interação com ambientes naturais favorece processos de restauração cognitiva, redução do estresse e estímulo a comportamentos pró-sociais. Embora o TDAH seja um transtorno neurobiológico com causas multifatoriais, o que inclui genética e fatores ambientais internos e externos, evidências crescentes apontam para a necessidade de olhar para além dos modelos estritamente medicinais, incorporando práticas que envolvem experiências físicas, sensoriais e de socialização em contextos naturais.

Atividades estruturadas em ambientes naturais podem auxiliar na redução da intensidade de sintomas do TDAH

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