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CADERNO BAIRROS - MAIO

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Um novo olhar sobre os bairros

AVANÇOS E DESAFIOS APÓS 2 ANOS

Depois de sofrer com impactos severos decorrentes da enchente histórica de maio de 2024, Lajeado ainda busca respostas para um desafio que permanece em aberto. Como conviver com eventos extremos cada vez mais frequentes sem

MATEUS SOUZA

Pergunta

sem resposta

É difícil afirmar, com convicção, de que estamos realmente prontos para encarar novas catástrofes climáticas.

DEPOIS DA ENCHENTE

CENÁRIO PÓS-CHEIA

RECONFIGURA CIDADE

Mais de 500 casas destruídas, 515 famílias em abrigos à época, 1.336 pessoas desalojadas e 386 laudos de imóveis condenados obrigaram o município a mudar radicalmente seu planeja-

repetir o mesmo drama vivido naquele período? Especialistas avaliam cenário em 2026, marcado por reconstrução e retomada, mas com situações ainda a serem resolvidas, sobretudo no setor habitacional e na logística.

mento. Enquanto algumas áreas deixaram de ser habitadas, outros bairros da cidade passam por uma transformação, com projetos habitacionais e novos investimentos.

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NÚCLEOS BUSCAM QUALIFICAR RESPOSTA

Defesa Civil de Lajeado estrutura grupos nos bairros suscetíveis a enchentes para melhorar reação a eventos climáticos.

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Entre a reconstrução e a prevenção

Dois anos após a enchente de maio de 2024, Lajeado já não é a mesma. E tampouco pode se dar ao luxo de voltar a ser. A tragédia deixou marcas profundas, mas também escancarou fragilidades que por muito tempo foram ignoradas ou tratadas como exceção.

Hoje, diante de um cenário climático cada vez mais instável, a cidade se vê obrigada a encarar uma realidade incômoda. Os eventos extremos não são mais imprevisíveis. São parte do chamado “novo normal”.

O debate promovido dentro do projeto “Lajeado – Um novo olhar Sobre os bairros” evidencia avanços importantes, sobretudo na capacidade de resposta da Defesa Civil e na retomada econômica. Há mais estrutura, mais informação e maior consciência de risco.

Ainda assim, permanece um impasse central. Enquanto o meio técnico aponta para a adaptação urbana como caminho inevitável, setores da comunidade e da economia cobram obras estruturais que reduzam os impactos das cheias.

Essa divergência não pode paralisar decisões. Pelo contrário, exige articulação. Planejamento, investimento e responsabilidade pública precisam caminhar juntos. Lajeado tem diante de si uma oportunidade rara: transformar a experiência traumática em um projeto consistente de futuro. Ignorar isso seria, mais uma vez, correr atrás da água. E não à frente dela.

MEMÓRIAS DE 2024

Há dois anos, Lajeado vivia os dias mais difíceis dos seus 135 anos de história. Foram momentos de terror vivido por famílias, nos mais diversos

pontos da cidade. Dos bairros mais atingidos aos menos afetados, não houve quem, de alguma forma, não foi impactado pela tragédia. A elevação do

Na área central, vias como a Júlio de Castilhos sofreram interrupções. Da prefeitura até a orla, todo o trajeto ficou submerso

Enquanto o meio técnico aponta para a adaptação urbana como caminho inevitável, setores da comunidade e da economia cobram obras estruturais que reduzam os impactos das cheias”

Águas baixaram após o ápice da enchente e revelaram cenário de destruição pela cidade, sobretudo nas áreas mais próximas ao rio

nível dos rios Taquari e Forqueta, bem como dos diversos arroios que passam pelo perímetro urbano, causaram destruição de casas, negócios e ruas.

Com a interrupção no abastecimento, houve correria em busca de água. Seja nos supermercados e outros estabelecimentos, seja em outras fontes

Sem as ligações por terra pelo Forqueta, muitas pessoas se arriscaram a fazer a travessia em barcos. Depois, vieram as passadeiras

Textos Andreia Rabaiolli, Fabiano Lautenschläger, Maira Schneider e Mateus Souza
Coordenação editorial: Felipe Neitzke e Mateus Souza
Diagramação: Lautenir Azevedo Júnior
No dia 2 de maio, enchente atingiu seu ápice em Lajeado, superando em quase quatro metros a marca de setembro de 2023
Ponte sobre o Rio Taquari ficou submersa, bloqueando o tráfego de veículos na BR-386. Estrutura resistiu à força das águas

MATEUS SOUZA

mateus@grupoahora.net.br

12 DE MAIO

2º Troféu Lajeado de Bocha Paralímpica

Local: CEM São Cristóvão

15 A 17 DE MAIO

9º Motorock

Local: Parque do Imigrante

24 DE MAIO

Feira de Adoção de Cães Adestrados

Local: Centro de Treinamento Cão Solução

Uma pergunta sem respostas Pontes em dobro

“Estamos preparados, enquanto sociedade, para novos eventos climáticos?”. Certamente todo morador do Vale do Taquari, em algum momento, se fez essa pergunta nos últimos anos. Afinal, as marcas das catástrofes climáticas de 2023 e 2024 – sobretudo a de dois anos atrás – ainda estão expostas. E esse é um questionamento complexo demais para se ter uma posição definitiva.

Vejamos: a cheia de setembro de 2023 expôs a fragilidade de todo o nosso sistema de proteção e de evacuação. Ficamos às cegas com a falta de dados e o saldo foi trágico. Nove meses depois, veio outra enchente. Esta ainda mais arrasadora. Pelo “conhecimento” adquirido no ano anterior, há quem diga que o estrago poderia ter sido muito pior.

À espera das casas

Há boas perspectivas para que as primeiras casas às famílias que perderam suas habitações nas enchentes sejam entregues no começo de 2027 em Lajeado. As obras estão bem avançadas tanto no bairro Conventos, com o Loteamento Vida Nova, quanto no Novo Horizonte, que contempla novas moradias no bairro Santo Antônio. Será o início de uma reconfiguração urbana da cidade, com o surgimento de novos núcleos habitacionais. Um movimento que já era natural devido ao crescimento exponencial de Lajeado nos últimos anos e, agora, impulsionado pelos programas federais e estaduais.

Ano passado tivemos duas pequenas enchentes em junho. A organização regional foi colocada à prova, bem como todos os avanços tecnológicos e de estrutura, e de certa forma, nos saímos bem. Mas não dá para comparar uma enchente de 23 metros com uma onde o nível do Taquari passou dos 33 metros.

Com essas reflexões, eu não consigo, em maio de 2026, afirmar se estamos realmente preparados para encarar catástrofes semelhantes à de 2024. Avanços ocorreram, sim. Isso é inegável. Temos uma capacidade de resposta melhor. Mas, com esses fenômenos ocorrendo com uma frequência cada vez maior, e em circunstâncias diversas, é difícil ter uma resposta afirmativa e definitiva.

As enchentes recentes, para além dos estragos causados, expuseram a nossa fragilidade logística. Somos extremamente dependentes da BR386 e da ERS-130 para nos conectarmos ao restante do Estado. Na rodovia federal, a ponte sobre o Taquari resistiu, mas na estrada estadual, ficamos quase um ano sem o trajeto principal à região alta. Hoje, a situação está normalizada, é verdade. Mas os movimentos para viabilizar mais duas pontes sobre o Rio Forqueta – uma com recursos estaduais e outra com verba da União – são necessários. Em breve, a ligação com Arroio do Meio passará de duas para quatro opções. E é preciso avançar também em novas alternativas na ligação com Estrela (e, por consequência, com a região metropolitana).

DAS RUAS

– Em Conventos, a Associação de Moradores contará com novo presidente. A eleição ocorreu na noite dessa sexta-feira, 8. Até o fechamento dessa edição, havia apenas uma chapa inscrita, liderada por Daniel Becker, empresário do ramo imobiliário e ligado ao tradicionalismo na cidade. O novo presidente substituirá Adilson Bald e comandará a entidade pelos próximos dois anos;

– Já no Planalto, o novo presidente da Associação de Moradores, Selemar Nunes, eleito em chapa única, tem como principais objetivos reorganizar

a comunidade e encaminhar demandas ao Poder Público. A entidade estava em situação irregular nos últimos anos, o que dificultava o atendimento pleno das reivindicações da população;

– Em relação às demandas em si, estão infraestrutura e serviços básicos. A comunidade cobra pavimentação de ruas, criação de creche e implantação de um posto de saúde. Outro ponto levantado é a falta de um espaço comunitário. Atualmente, atividades dependem da estrutura da escola do bairro, o que limita o uso.

Como a cidade está dois anos após a catástrofe de 2024

Especialistas, lideranças e setor produtivo divergem sobre soluções e apontam avanços na preparação diante de novos eventos extremos

Dois anos após a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, Lajeado ainda busca respostas para um desafio que permanece em aberto. Como conviver com eventos extremos cada vez mais frequentes sem repetir os impactos devastadores de maio de 2024? Esta pergunta ainda causa inquietação na comunidade.

O tema pautou o debate do projeto “Lajeado – Um novo olhar sobre os bairros”, promovido pelo Grupo A Hora, em parceria com a Imojel, que reuniu representantes da Defesa Civil, setor produtivo, comunidade e meio acadêmico.

Em pauta, os aprendizados da enchente, os avanços desde então e, principalmente, o que ainda precisa ser feito para reduzir riscos e garantir a retomada da cidade. Entre planejamento urbano, obras estruturais e sistemas de resposta, ficou evidente que não há consenso. Mas há um ponto em comum identificado nas falas. É a necessidade de agir diante de um cenário climático mais instável.

A arquiteta e urbanista da Univates, Bruna Ruthner destacou o papel do planejamento urbano como ferramenta central na reconstrução. Segundo ela, a cidade precisa ser pensada considerando a recorrência de eventos extremos,

com base em estudos técnicos que identifiquem áreas de risco.

Entre as ações, está o zoneamento que delimita regiões susce tíveis a inundações, enxurradas e movimentos de massa. Em áreas classificadas como de alto risco, a recomendação é restringir habitações e priorizar usos alternativos, como parques lineares, hortas urbanas ou espaços de convivência de permanência reduzida.

“A gente precisa pensar o território de forma mais segura, mas também respeitar a memória das pessoas que viveram nesses locais por décadas”, pontua. A proposta inclui ainda a adaptação de edificações e a revisão de legislações urbanísticas, como plano diretor e código de obras, para garantir continuidade das ações ao longo das próximas décadas.

Mudanças mais profundas

A percepção de que o planejamento precisa avançar para ações mais concretas apareceu na fala do presidente da Associação de Moradores do Centro, Euclides Rodrigues. Para ele, é necessário ir além do diagnóstico e investir em intervenções estruturais.

Entre as propostas defendidas por ele, estão o desassoreamento

Nós precisamos pensar o território de forma ordenada, organizada e mais segura também para a população”

BRUNA RUTHNER

ARQUITETA E URBANISTA

DA UNIVATES

As empresas que tiverem suscetíveis a esse tipo de evento climático, elas devem ter uma estrutura resiliente”

EDUARDO GRAVINA

PRESIDENTE DA ACIL

do rio Taquari, a revisão da operação de barragens e mudanças na legislação urbana. Também defende alternativas como a verticalização em áreas alagáveis e a adaptação das construções para convivência com as cheias.

“Nós não podemos repetir o que vinha sendo feito. Precisamos pensar o pós-enchente e adaptar a cidade a essa realidade”, afirma. A associação também trabalha em um projeto próprio de combate às enchentes, ainda em fase de elaboração, com previsão de apresentação a entidades e ao poder público.

Já o setor produtivo, fortemente impactado pelas cheias, demonstra sinais de recuperação. Segundo o presidente da Asso-

ciação Comercial e Industrial de Lajeado (Acil), Eduardo Gravina, o número de empresas no município já supera o período anterior à enchente.

Apesar disso, ele alerta para a necessidade de garantir segurança estrutural e logística. Durante a catástrofe, empresas enfrentaram dificuldades de acesso e perderam mercado por não conseguirem manter entregas. “A retomada aconteceu muito pela força dos empresários, mas ainda precisamos de mais segurança para evitar novos prejuízos”, destaca.

Entre os avanços, Gravina cita a reconstrução de acessos e defende a criação de rotas alternativas para evitar isolamento em futuros eventos. Também ressalta a necessidade de maior preparo financeiro das empresas diante da limitação de apoio público.

Tecnologia e resposta rápida

Do ponto de vista operacional, a Defesa Civil aponta avanços significativos na preparação para novos eventos. O coordenador municipal, Marcelo Maya, destaca que, após as falhas apontadas em 2024, especialmente na comunicação e no monitoramento, houve reforço na estrutura.

Entre as melhorias estão a ampliação de sensores de nível de rios, instalação de estações hidrometeorológicas, aquisição de radares e investimentos em tecnologia para garantir funcionamento mesmo em caso de queda de energia ou internet.

A estratégia também inclui

maior integração com o Corpo de Bombeiros e a criação de núcleos comunitários para ampliar a resposta da população aos alertas. “Hoje estamos mais preparados para prever, avisar e retirar as pessoas a tempo. O foco principal é preservar vidas”, afirma. Ainda assim, Maya reconhece que o principal gargalo segue sendo a ocupação urbana em áreas de risco. A solução passa pela remoção gradual de moradores dessas regiões e pela criação de alternativas habitacionais, um processo que depende de recursos e pode levar anos.

Planejamento de longo prazo

O debate evidenciou que a reconstrução de Lajeado não passa por retomar o modelo anterior, mas por adaptar a cidade a uma nova realidade climática. Para os entrevistados, isso envolve desde decisões estruturais, como obras regionais e intervenções no território, até mudanças culturais e de comportamento,

Local de referência no apoio às famílias atingidas pela catástrofe, o Parque do Imigrante sediou o debate deste mês
Cheia de 2024 atingiu o pico na tarde
RAICA FRANZ WEISS

A ideia é que nós não fiquemos sem a informação, que nós consigamos nos antecipar e retirar as pessoas dessa área de risco antes que a água chegue.”

MARCELO MAYA

COORDENADOR DA DEFESA

CIVIL DE LAJEADO

com maior atenção aos alertas e participação comunitária. “O principal instrumento que a gente tem que garante essa continuidade de ações e projetos é o plano diretor”, pontua Bruna.

É um legado ruim, mas vamos ter que fazer alguma coisa para administrar essa questão. Estamos encorajando as pessoas a voltarem, a fazer eventos na praça.”

EUCLIDES RODRIGUES

PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DO CENTRO

A necessidade de articulação entre diferentes níveis — municipal, estadual e federal — também foi destacada, especialmente em medidas que envolvem toda a bacia hidrográfica.

Dois anos depois: avanços e desafios em Lajeado

Avanços

– Reforço na estrutura da Defesa Civil

– Ampliação do monitoramento climático

– Reconstrução de acessos logísticos

– Retomada gradual das atividades econômicas

– Crescimento no número de empresas na cidade

Desafios

– Obras estruturais de grande escala

– Definição de uso para áreas de risco

– Realocação de moradores atingidos

– Segurança para novos investimentos

– Engajamento da população em evacuações

Próximos debates

JUNHO

– Polo de empregos e diversificação: descentralização da cidade, permite surgimento de “mini centros” em bairros

JULHO

– Saúde e assistência social: setores e que dialogam diretamente com o desenvolvimento dos bairros

AGOSTO

– Planejamento urbano: para onde Lajeado cresce? Os núcleos urbanos que despontam para o futuro da cidade

Maio
Defesa Civil passa por requalificação em todo o RS. Lajeado sediará novo comando regional
do dia 2 de maio, deixando a ponte sobre o Rio Taquari submersa

Futuro dos terrenos depende de recursos

Município acelera limpeza de imóveis destruídos pela enchente de 2024, enquanto moradores tentam reconstruir a vida em regiões consideradas de risco

Qmais próximas ao Rio Taquari. Em bairros atingidos pelas chamadas zonas de arraste, imóveis destruídos, terrenos vazios e estruturas abandonadas seguem fazendo parte da paisagem enquanto o município tenta avançar no processo de demolição e preparação dessas áreas para novos usos urbanos. O trabalho ocorre principalmente em imóveis ligados ao programa Compra Assistida, do governo federal. Conforme o coordenador da Defesa Civil de Lajeado, tenente-coronel Marcelo Maya, a prioridade atual é limpar os terrenos já incorporados ao município após a saída das famílias atingidas. “Essas áreas que já estão pacificadas e passaram para o município são as que estamos priorizando fazer a demolição”, afirma.

matrícula formalizada ou ligados a antigos processos de herança e ocupação irregular.

Infelizmente uma minoria vai ser atendida pelos programas do governo. Os outros imóveis vão continuar privados e provavelmente teremos que pensar em desapropriações ou indenizações para transformar essas áreas em parques”

TENENTE-CORONEL MARCELO MAYA

COORDENADOR DA DEFESA

CIVIL DE LAJEADO

Segundo ele, mais de 30 imóveis já estão nessa situação, embora o número de famílias atendidas pelos programas

habitacionais seja maior. O principal entrave está na regularização documental de muitos terrenos, ainda sem

Apesar do avanço nas demolições, o município admite que boa parte das áreas atingidas continuará em posse privada. Isso porque muitos moradores não foram contemplados pelos programas habitacionais federais e permanecem donos dos terrenos destruídos.

A tendência, segundo Maya, é que o município precise avançar futuramente em programas de desapropriação ou indenização para consolidar projetos urbanos definitivos nas áreas mais afetadas pelas enchentes. “Infelizmente uma minoria vai ser atendida pelos programas do governo. Os outros imóveis vão continuar privados e provavelmente teremos que pensar em desapropriações ou indenizações para transformar essas áreas em parques”, afirma. Mesmo nos terrenos particulares, a prefeitura tenta ampliar acordos para realizar as demolições mediante autorização dos proprietários. Conforme a Defesa Civil, a resistência tem sido pequena, já que muitos moradores também não têm condições de reconstruir imediatamente. “A parte da limpeza tende a ser mais fácil, porque mesmo quem queira reconstruir vai precisar remover o que sobrou”, observa Maya.

Parques lineares

O futuro dessas áreas ainda depende de projetos e recursos federais. Parte dos terrenos já possui previsão de implantação de parques lineares, modelo adotado em diferentes cidades atingidas pelas enchentes no Vale do Taquari. Conforme Maya, alguns projetos já foram aprovados pela União e aguardam apenas a conclusão da limpeza das áreas e a liberação de recursos para execução. “Primeiro precisamos limpar as áreas. Depois vêm os parques lineares e a busca por recursos”, resume.

Resiliência de quem ficou

Enquanto parte das famílias deixou definitivamente as regiões mais atingidas, outros moradores decidiram permanecer e reconstruir a vida no mesmo endereço, mesmo convivendo com o trauma das enchentes.

É o caso do proprietário de uma agropecuária localizada em uma das áreas atingidas, Evandro Marin. Há 13 anos no mesmo ponto, ele relata ter enfrentado diversas enchentes no período,

mas admite que as de 2023 e 2024 mudaram completamente sua trajetória. “Quando vi tudo destruído, pensei que tinha terminado minha vida”, relembra.

Após perder estoque, estrutura e mobiliário, Evandro precisou recorrer a empréstimos e recomeçar praticamente do zero. A enchente de maio destruiu novamente o que havia sido recuperado meses antes após outra cheia.

“Não sobrou uma prateleira aqui dentro. Foi tudo novo de novo”, conta. Mesmo sem conseguir acessar benefícios públicos após a tragédia, ele decidiu permanecer no local. Hoje, afirma que o negócio voltou a crescer, impulsionado também pela mudança no modelo de trabalho e pela ampliação da clientela na região. “Hoje eu vendo mais do que antes.”

Ainda assim, o medo permanece presente sempre que a chuva aumenta. “Choveu, o coração acelera. Acho que isso vai ficar para o resto da vida.” Mesmo diante do risco, Evandro não cogita deixar o imóvel. “Agora eu fico. Derrubou, eu levanto de novo.”

Evandro Marin (d) foi um dos empreendedores que decidiu retomar atividades às margens do Rio Taquari e mantém uma fiel clientela
Agropecuária a poucos metros do Rio Taquari reabriu as portas

Novas pontes ampliam alternativas à comunidade

Projetos avançam em ritmos diferentes, enquanto região

segue dependente da travessia duplicada da BR-386 entre Lajeado e Estrela

As enchentes de 2023 e 2024 alteraram definitivamente o debate sobre mobilidade e logística no Vale do Taquari. O colapso temporário de rodovias, bloqueios em pontes e a dificuldade de deslocamento entre municípios reforçaram uma discussão antiga na região, a necessidade de ampliar as conexões sobre os rios Taquari e Forqueta.

Hoje, ao menos quatro projetos diferentes de travessias estão em debate entre Lajeado, Estrela, Cruzeiro do Sul e Arroio do Meio. Enquanto algumas propostas avançam para a fase de execução, outras seguem em tratativas técnicas e dependem de recursos estaduais, federais ou de articulações com concessionárias. Entre elas, a Ponte dos Vales, ligando Estrela e Cruzeiro do Sul, tornou-se símbolo da tentativa regional de criar uma nova alternativa logística fora da dependência direta da BR-386 e da ERS-130.

Para o presidente da Cooperativa de Transportes Vale Log, Adelar Steffler, a obra representa mais do que uma nova ligação entre municípios. “Ela vai tirar um fluxo muito grande do perímetro urbano de Estrela e Lajeado. Quem vem da Serra e segue para a Fronteira não vai mais precisar passar por dentro da cidade”, afirma.

perímetro urbano de Estrela e Lajeado.”

ADELAR STEFFLER

PRESIDENTE DA COOPERATIVA DE TRANSPORTES VALE LOG

Maior ponte estadual

Líder do movimento Ponte dos Vales e diretor da Rhodoss Implementos Rodoviários, Nilto Scapin afirma que o projeto entrou em uma fase mais concreta desde janeiro, mesmo que a população ainda não visualize grandes estruturas sendo erguidas.

Conforme ele, as etapas iniciais envolvem sondagens, testes de solo, definição das fundações e preparação logística da obra. “As sondagens já foram executadas, o projeto básico está em análise no

Ficar refém apenas da ERS-130 ou da ponte de ferro é perigoso. Há poucas semanas tivemos obras da EGR e já deu transtorno enorme.”

ALEXANDRE DE JESUS ENTREGADOR

Daer e o projeto executivo segue em andamento.” A estrutura terá cerca de 1.260 metros de extensão e será construída em concreto e aço, conectando a ERS-129 à ERS-130. Segundo Scapin, será a maior ponte rodoviária já executada pelo governo estadual no Rio Grande do Sul.

“Maio, junho, julho e agosto serão meses de muita movimentação. A obra vai atacar os dois lados ao mesmo tempo.” Outro diferencial da estrutura será a altura. Conforme Scapin, a nova travessia ficará dois metros acima do nível da enchente histórica de 2024.

Alternativas

Enquanto a Ponte dos Vales avança, outras conexões seguem em compasso de espera. Entre Lajeado e Arroio do Meio, dois projetos tentam reduzir a dependência da ERS-130 e da atual ponte sobre o Rio Forqueta. Uma das propostas prevê uma nova travessia ao lado da chamada Ponte de Ferro. O projeto já recebeu anúncio de R$ 10,5 milhões do governo federal, mas os municípios afirmam que o custo total ultrapassa R$ 25 milhões. A ligação é considerada estratégica para desafogar o trânsito da ERS-130 e criar uma alternativa de deslocamento entre os municípios.

Outro projeto envolve uma travessia menor, associada à pavimentação da rua Romeu Júlio Scherer, em Lajeado, além de melhorias em Forqueta Baixa, no lado de Arroio do Meio.

Segundo a Prefeitura de Lajeado, os dois projetos ainda seguem em tramitação e passam por ajustes técnicos.

Até o momento, não há convênio firmado nem previsão concreta para início das obras, e justamente essa dependência preocupa moradores e trabalhadores que utilizam diariamente o trecho. Entregador e morador da região, Alexandre de

executadas, o projeto básico está em análise no Daer e o projeto executivo segue em andamento.”

NILTO SCAPINI

LÍDER DO MOVIMENTO PONTE DOS VALES E DIRETOR DA RHODOSS IMPLEMENTOS RODOVIÁRIOS

de ponte estaiada na BR386 foi apresentada com objetivo de unir turismo e facilitar o trânsito na região

Jesus afirma que o sistema atual já demonstra sinais de saturação mesmo em situações normais. “Ficar refém apenas da ERS-130 ou da ponte de ferro é perigoso. Há poucas semanas tivemos obras da EGR e já deu transtorno enorme”, relata. Segundo ele, a ponte de ferro funciona hoje apenas como alternativa parcial. “Ela opera no siga e pare e não suporta grandes fluxos. Uma nova estrutura ajudaria muito, inclusive na segurança.”

Dependência da BR-386 preocupa

Mesmo com novos projetos em discussão, a principal ligação regional segue sendo a ponte da

BR-386 entre Lajeado e Estrela. Embora exista um movimento empresarial defendendo uma nova ponte paralela à BR-386, o projeto ainda não avançou institucionalmente.

A proposta prevê duas novas estruturas sobre o Rio Taquari e o Arroio Boa Vista, com quatro pistas, ciclovia e altura superior à ponte atual, buscando garantir operação mesmo em enchentes extremas.

O investimento estimado varia entre R$ 143 milhões e R$ 700 milhões, dependendo do modelo apresentado pelas entidades empresariais da região. A ideia é incluir a obra no contrato da CCR ViaSul e utilizar recursos do pedágio para execução.

Enquanto isso, o Vale do Taquari segue convivendo com uma realidade evidenciada pelas enchentes, a de que poucas conexões sustentam o deslocamento de milhares de pessoas diariamente entre cidades que cresceram de forma integrada, mas ainda dependem de estruturas consideradas insuficientes para o atual fluxo regional.

Projeto
Pavimentação e nova ponte entre Lajeado e Arroio do Meio, onde funcionou a Ponte do Exército, devem desafogar ERS-130 e a reconstruída Ponte de Ferro

Depois da água, o rumo: para onde Lajeado vai crescer

Especialistas, lideranças e setor produtivo divergem sobre soluções e apontam avanços na preparação diante de novos eventos extremos

Aenchente de maio de 2024 não levou apenas casas, móveis e lembranças. Ela levou certezas. O Rio Taquari, ao ultrapassar os 33 metros, fez Lajeado olhar para si mesma e perceber que parte da cidade estava construída onde nunca deveria ter sido erguida.

Mais de 500 casas destruídas, 515 famílias em abrigos, 1.336 pessoas desalojadas e 386 laudos de imóveis condenados obrigaram o município a enfrentar uma pergunta que hoje orienta técnicos, gestores públicos, construtoras e moradores: Para onde Lajeado pode crescer sem repetir os erros do passado? Onde a água não alcança.

A partir do momento em que o município se apropria desses espaços, conseguimos garantir que permaneçam desocupados”

O movimento é claro no setor da construção civil. Em 2025, Lajeado aprovou 1.483 alvarás de construção, somando 411 mil metros quadrados, o maior número da série histórica iniciada em 2018, superando inclusive 2024.

Os bairros que lideram essa nova expansão não estão à beira do rio. Conventos aparece na frente, seguido por Moinhos, São Cristóvão e Florestal, regiões fora da mancha histórica de inundação.

Ao mesmo tempo, bairros como São Bento e Bairro das Nações passam a concentrar projetos habitacionais destinados, principalmente, às famílias

atingidas pela enchente, como os 71 apartamentos do Condomínio Residencial São Bento e dezenas de casas em execução por programas estaduais e federais.

A cidade, que historicamente cresceu acompanhando o rio, agora cresce na direção oposta.

Onde não se mora mais

Um levantamento da Secretaria de Planejamento identificou 431.941 metros quadrados de lotes em áreas de risco, incluindo zonas de inundação e, principalmente, zonas de arraste, onde a força da água

Entre as obras estruturantes previstas

Continuidade da duplicação da Avenida Benjamin Constant (Montanha) Alargamento da Pedro Theobaldo Breitenbach (Conventos) Pavimentação de vias ainda não asfaltadas Estudos para novas pontes de ligação com Arroio do Meio

Moradias já entregues

189 unidades via Compra Assistida (Governo Federal) 6 casas entregues pela ONG Voluntier Emergency Relief

Em andamento

56 casas pela Defesa Civil da União; 30 casas pelo programa A Casa é Sua (Governo do RS); 124 casas no loteamento Novo Horizonte; 102 casas no Vida Nova; 10 casas pelo projeto Uma Casa por Dia; 71 apartamentos no Condomínio Residencial São Bento.

Univates, Augusto Alves.

Nova lógica

A prefeita Gláucia

Schumacher resume a mudança de mentalidade. “A ideia é que, no futuro, as zonas de arraste se transformem em espaços de uso coletivo, como parques de lazer e áreas esportivas, garantindo a não ocupação por moradores.”

O município já começou a agir. Cerca de 190 famílias já foram reassentadas pelo programa Compra Assistida. Aproximadamente 100 famílias ainda recebem aluguel social. Terrenos onde havia casas condenadas começam a ser incorporados ao patrimônio público para impedir reocupações.

Quatro áreas já passaram por limpeza e interdição. Outras devem passar pelo mesmo processo com recursos de R$ 5 milhões do Governo do Estado, destinados à remoção de entulhos e demolições.

A prefeitura prepara um projeto de lei para permitir a limpeza e demolição também em áreas privadas com laudo estrutural condenatório.

“A partir do momento em

Residências

que o município se apropria desses espaços, conseguimos garantir que permaneçam desocupados”, reforça a prefeita.

O crescimento em áreas altas exige outra preocupação,

carrega estruturas inteiras. Essas áreas estão nos bairros: Imigrante, Planalto, Campestre, Universitário, Carneiros, Hidráulica, Centro, Conservas e Morro 25.

Paralelamente, um estudo técnico conduzido pela Univates está elaborando o novo mapa oficial de zoneamento de risco, que deve embasar mudanças no Plano Diretor ainda neste ano. Hoje, a regra permite construções a partir da cota de 27 metros. O debate técnico aponta que essa margem pode subir.

“Critérios técnicos indicam que a cota de construção precisa ser revista para um patamar mais elevado, possivelmente próximo de 30 metros. Zonas de arraste devem ser definitivamente proibidas para moradia”, explica o professor de arquitetura da

Bairro Santo Antônio foi contemplado com 56 casas do Residencial Novo Horizonte. Ao
destruídas em bairros como o Conservas
Inscrições para programa habitacional gerou grande procura de famílias
GABRIEL SANTOS

Conservas não poderão ser ocupadas novamente. Famílias são realocadas para outras partes da cidade

a infraestrutura. “Estamos atentos à necessidade de novos equipamentos de saúde e educação. O crescimento precisa vir acompanhado de atendimento adequado à população”

Recorrência subestimada

Para o professor Augusto Alves, a tragédia revelou um erro histórico. “Áreas que moradores antigos evitavam por medo das

Estão em andamento

56 casas pela Defesa Civil da União (loteamento concluído e etapa de aquisição dos terrenos em andamento para início das obras); 30 casas pelo programa A Casa é Sua, do Governo do RS (obras em andamento, com 10 unidades em execução); 124 casas no loteamento Novo Horizonte (com 50,58% de avanço físico, em andamento, com previsão de entrega em janeiro de 2027); 102 casas no Vida Nova (com 64,47% de avanço físico, em andamento, com previsão de entrega em janeiro de 2027); 10 casas pelo projeto Uma Casa por Dia, Ágil + Ministério Público (com 64,47% de avanço físico, em andamento, com previsão de entrega em janeiro de 2027);

cheias foram loteadas, legalizadas e transformadas em bairros.

A enchente mostrou que a recorrência de eventos extremos foi subestimada.” Ele alerta para outro risco, o de realocar famílias carentes para locais distantes e sem infraestrutura.

“Resolver o problema da enchente criando isolamento urbano é trocar um problema por outro. Terrenos mais bem localizados, mesmo mais caros, são o caminho mais inteligente.”

O que se desenha é um duplo movimento: adensamento e

Os novos empreendimentos são planejados em áreas seguras, seguindo critérios técnicos”

ELIANA HEBERLE SECRETÁRIA DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL

71 apartamentos no Condomínio Residencial São Bento (construção de 71 apartamentos no Bairro São Bento).

A secretária de Desenvolvimento Social, Eliana Heberle, destaca que a reconstrução habitacional já ocorre fora das áreas vulneráveis. Há projetos habitacionais que contemplam pelo menos oito bairros da cidade. As áreas escolhidas ficam em partes altas, sem risco de inundações Além disso, mais de 360 famílias de outras cidades optaram por comprar imóveis em Lajeado via Compra Assistida. “Os novos empreendimentos são planejados

Resolver o problema da enchente criando isolamento urbano é trocar um problema por outro”

AUGUSTO ALVES

PROFESSOR DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVATES

verticalização em áreas altas já consolidadas e expansão da malha urbana nas bordas seguras da cidade Enquanto isso, áreas centrais degradadas e atingidas pela

enchente, como a região conhecida como “cantão do sapo”, seguem com imóveis abandonados e exigem atenção do poder público.

todo, serão erguidas 124 moradias por meio deste projeto
No bairro São Bento, novo residencial terá 71 apartamentos espalhados por
LAURA MALLMANN/DIVULGAÇÃO

O recomeço longe das áreas de risco

Após perderem suas casas e terem imóveis condenados, moradores buscam novos lares por meio de programas habitacionais, em uma reconstrução marcada por perdas, fé e resiliência

Para muitas famílias, mudar de casa nunca foi um plano, mas uma imposição da água. As enchentes que marcaram a história recente do município transformaram bairros em áreas de risco permanente e obrigaram moradores a repensar o próprio conceito de lar.

Regiões como Centro, Conservas, Morro 25 e até áreas valorizadas como Hidráulica, Moinhos e Carneiros passaram a conviver com a ameaça constante das cheias. No auge da inundação, em 2 de maio de 2024, a prefeitura chegou a manter dez espaços de acolhimento, abrigando mais de

1,3 mil pessoas que deixaram para trás móveis, memórias e a segurança de suas casas.

Com o passar dos dias, as famílias foram retornando gradualmente, algumas para residências ainda em condições de uso, outras para casas de parentes e amigos, e muitas encaminhadas ao programa de aluguel social do município. Desde 2023, a política pública já soma investimento de R$ 12,8 milhões. No pico da demanda, em setembro de 2024, cerca de 900 famílias foram atendidas. Hoje, aproximadamente 100 ainda dependem do benefício.

O desafio, no entanto, não

Peguei a chave numa sexta-feira.

No sábado, já estava morando. Nunca pensei que um dia teria uma casa assim”

CLARICE PEREIRA LOPES

57 ANOS, DONA DO LAR

Acolhimento

Espaços disponibilizados: 10 abrigos

Total de famílias: 515

Total de pessoas nos abrigos: 1.336

Aluguel Social: 100

Investimento: R$ 12,8 milhões

Clarice deixou o “Cantão” e agora reside em uma casa na parte mais alta do Morro 25

Um novo lar

Para centenas de famílias, a enchente de 2024 levou mais do que bens materiais. Levou a certeza de que não seria mais possível permanecer onde sempre viveram.

Foi o caso de Clarice Pereira Lopes, 57 anos. Desde os 15,

morava em uma área alagável conhecida como “Cantão”, na região central. Ao longo de quatro décadas, enfrentou diversas enchentes. Em 2024, depois de passar dois meses abrigada no ginásio do Parque do Imigrante, voltou para casa, apenas para descobrir que o imóvel havia sido condenado pela Defesa Civil.

A partir daí, iniciou uma nova busca. Há cerca de dois meses, mudou-se com o esposo e o filho para uma casa no bairro Morro 25, conquistada por meio do programa Compra Assistida, do governo federal.

“Eu pedia a Deus que me ajudasse a conseguir um novo lar. Não queria morrer antes de deixar uma casa para meu filho, que precisa de cuidados especiais”, conta, emocionada.

Quando soube que tinha direito ao benefício, não perdeu tempo. “Peguei a chave numa sexta-feira. No sábado, já estava morando. Entrei aqui feliz, realizada.”

Hoje, Clarice ainda enfrenta limitações físicas. Após uma queda, fraturou a bacia e aguarda cirurgia para voltar a andar normalmente. Enquanto isso, dedica-se ao cuidado do filho. A nova casa, com dois quartos, sala, cozinha e área externa, representa mais do que conforto, simboliza segurança.

“Me sinto emocionada de morar aqui. É um lugar calmo, a vizinhança é boa. Até hoje, não acredito que consegui. Sofri muito. Tive depressão. Nunca pensei que um dia teria uma casa assim.”

A história de Clarice se repete em dezenas de lares espalhados pela cidade. São famílias que perderam quase tudo, mas encontraram, na reconstrução, a chance de recomeçar, desta vez, longe da água e mais perto da tranquilidade que sempre buscaram.

era apenas oferecer um teto provisório, mas evitar que essas pessoas voltassem a viver em áreas suscetíveis a novas tragédias. Enquanto a água baixava, crescia a procura por alternativas definitivas de moradia. A última família deixou o abrigo do Parque do Imigrante três meses após a maior tragédia climática do Vale do Taquari. Com imóveis condenados pela Defesa Civil, muitas famílias passaram a buscar auxílio nos programas habitacionais e em iniciativas construídas por meio de parcerias entre poder público, iniciativa privada e organizações sociais.

FELIPE NEITZKE
Bairros como Conventos estão entre os locais para onde famílias se mudaram

Núcleos comunitários buscam melhorar resposta às enchentes

Estratégia aposta em lideranças locais para validar alertas e ampliar adesão das comunidades em situações de risco

As enchentes que atingiram o Vale do Taquari em 2023 e 2024 mudaram a forma como a Defesa Civil de Lajeado trabalha a prevenção e a retirada de moradores em áreas de risco. Depois das dificuldades enfrentadas durante os resgates, o município aposta agora na criação de núcleos comunitários de proteção e defesa civil para aproximar os alertas das comunidades.

Segundo o coordenador da Defesa Civil de Lajeado, tenentecoronel Marcelo Maya, um dos principais problemas enfrentados durante as cheias foi a dificuldade de convencer parte da população a deixar as residências antes da chegada da água.

“Os alertas não eram suficientemente precisos para convencer as pessoas. Muitas pagaram para ver. Quando começaram a pedir ajuda, já eram muitos municípios e muitas pessoas ao mesmo tempo”, afirma.

Maya lembra que, até então, o Corpo de Bombeiros conseguia atender situações mais isoladas. O cenário mudou nas enchentes de setembro de 2023, quando diversas cidades registraram ocorrências simultaneamente. “O

sistema não deu conta de resgatar todo mundo a tempo. Foi por isso que tivemos tantas mortes”, diz.

Informação mais precisa

De acordo com Maya, a Defesa Civil Estadual passou por uma reestruturação após as enchentes. O Estado adquiriu radares meteorológicos e ampliou o monitoramento específico para regiões como o Vale do Taquari. “Antes se trabalhava com previsões muito amplas. Hoje os instrumentos conseguem olhar especificamente para a região. Quanto menor a área analisada, mais precisa é a previsão”, explica.

Segundo ele, a melhora já pôde ser percebida nos eventos climáticos registrados em 2024. Maya cita como exemplo os alertas emitidos para Lajeado, que indicavam possibilidade de o Rio Taquari atingir a cota de 23 metros. “A diferença de um metro, para nós, praticamente não muda a operação. O importante é que as pessoas passaram a acreditar mais no alerta e saíram antes.”

A principal aposta da Defesa Civil está na atuação das lideranças comunitárias.

Os núcleos comunitários são formados por moradores dos bairros, agentes de saúde, representantes de associações e voluntários treinados para auxiliar na comunicação com os moradores.

A ideia é que essas lideranças ajudem a validar os alertas emitidos pela Defesa Civil junto à população.

Além de orientar moradores, os grupos também auxiliam na identificação de pessoas com maior necessidade de apoio, como idosos, cadeirantes e famílias em situação de vulnerabilidade. Os núcleos estão previstos

no plano de contingência do município e recebem treinamentos voltados à prevenção, preparação e resposta em situações de emergência.

Comunidade organizada

Morador do bairro Morro 25, Bruno Mateus de Jesus enxerga que a criação do núcleo no bairro é um avanço significativo. Para ele, a presença de moradores conhecidos no processo ajuda a comunidade a reagir mais rapidamente. “A informação chega mais rápido e por pessoas conhecidas. Isso faz com que os moradores levem mais a sério e ajam antes”, afirma. Segundo Bruno, se os núcleos já existissem durante as enchentes de 2023 e 2024, muitas famílias poderiam ter deixado as casas com antecedência. “Talvez muita gente tivesse evitado prejuízos e situações de perigo.”

Outro ponto que o morador destaca é a confiança, “se a informação vem de uma pessoa que tem boa circulação na comunidade, é mais fácil as pessoas se mobilizarem.” Esse ponto é um dos alicerces dos núcleos para a defesa civil, a proximidade com o bairro e a fácil mobilização em casos críticos.

Mobilização ainda é desafio

Apesar do avanço na estruturação dos grupos, Maya admite que a mobilização da

A informação chega mais rápido e por pessoas conhecidas. Isso faz com que os moradores levem mais a sério e ajam antes.”

BRUNO MATEUS DE JESUSE

MORADOR DO MORRO 25

população ainda é um obstáculo. Em algumas reuniões promovidas pela Defesa Civil, o número de participantes ficou abaixo da expectativa. “Tivemos encontros em que esperávamos mais de 60 pessoas e apareceram dez. As pessoas ainda não estão sensibilizadas para esse tipo de preparação”, afirma. Atualmente, os bairros Campestre e Centro estão entre os mais organizados dentro da proposta dos núcleos comunitários. Segundo Maya, o Campestre foi um dos casos em que os próprios moradores procuraram a Defesa Civil para iniciar a estruturação.

Reuniões servem para alertar dos perigos e também indicar pessoas que conheçam o bairro para liderar resposta
Morro 25 foi bastante atingido na cheia de 2024. Escola ficou quase um ano fechada
ARQUIVO A HORA

Empresas reabrem, ampliam e conquistam novos perfis de clientes

Dois anos após a enchente, Lajeado vê novos polos de comércio surgirem nos bairros. O Centro, uma das áreas mais atingidas, passa a atrair investidores que compram imóveis com foco em locação.

Acapacidade de readequar negócios se tornou uma habilidade entre empreendedores de Lajeado no pós-enchente.

Passado o susto inicial, sentido principalmente em maio e junho de 2024, donos de empresas entenderam que parar não era uma opção. Para continuar, reestruturaram operações, migraram para outras áreas e ajustaram estratégias.

Bairros com grande concentração de moradores passaram a atrair empreendedores. Com isso, a economia se espalha para áreas mais distantes da região central. O Centro ainda concentra serviços e comércio, mas outros locais ganham força como espaços de consumo, circulação e novos investimentos.

Dados da prefeitura mostram que, antes da enchente, Lajeado tinha 2.725

Esses dados indicam um crescimento na abertura de novos negócios, sem evidência de retração pela enchente”

Surge um movimento interessante de investidores, que enxergam imóveis da área central como oportunidade.”

estabelecimentos ativos nas áreas atingidas. O número reúne microempreendedores individuais, empresas e autônomos.

Mesmo depois da cheia, o empreendedorismo não retraiu. Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Agricultura, Jairo Valandro, a abertura de empresas cresceu 14,25% em 2024. O avanço foi ainda maior entre os MEIs, com alta de 28,71%.

“Esses dados indicam um crescimento significativo na

abertura de novos negócios, sem evidência de retração causada pela enchente”, afirma. O movimento, no entanto, mudou de endereço. Conforme Valandro, os bairros mais procurados hoje pelos empreendedores são Conventos e Jardim do Cedro, que crescem acima da média municipal.

Outros bairros também registram avanço constante na abertura de negócios, como São Cristóvão, Florestal, Universitário, Moinhos, Montanha, Americano e Olarias

Júlio de Castilhos permanece como um “shopping a céu aberto” e referência em comércio e serviços na área central de Lajeado

Imobiliária ganha força com novos clientes

Depois de duas enchentes, a imobiliária Arruda & Munhoz transferiu os negócios do Centro para o São Cristóvão e ampliou a carteira de clientes. A empresa manteve clientes antigos e se aproximou de novos perfis, ligados à dinâmica do bairro. “A mudança foi positiva”, afirma o proprietário, Marco Aurélio Rozas Munhoz.

Ele acredita que a crise acelerou mudanças que talvez levassem anos. “Jamais pensaríamos, antes da enchente, em sair do Centro da cidade”, explica.

A mudança de endereço não foi o único ajuste. O negócio cresceu nos últimos dois anos com apoio de uma estratégia que exigiu mobilização da equipe. A empresa conseguiu passar pelo período mais crítico e manter o atendimento aos clientes mesmo depois de ter o imóvel central submerso.

Com a ida para o bairro, a

imobiliária se reorganizou rapidamente, reviu estratégias comerciais, intensificou o atendimento online e ampliou as visitas virtuais para manter os clientes interessados. O São Cristóvão foi escolhido por estar em expansão. “O negócio não apenas se recuperou, mas evoluiu em termos de posicionamento e estratégia”, salienta o empresário.

Bairros que atraem empresas

Conventos

Jardim do Cedro

São Cristóvão

Florestal

Universitário

Investidores compram lojas no Centro para locar

Sobre o Centro, Munhoz observa que os imóveis localizados nas cotas mais atingidas desvalorizaram inicialmente. Ao mesmo tempo, surgiu outro movimento:

investidores passaram a enxergar imóveis vulneráveis como oportunidade. Com a redução dos valores, muitos compram com foco em locação.

A locação tem dinâmica diferente da compra. O inquilino, em geral, trabalha com visão de curto e médio prazo. Isso faz com que esses imóveis ainda tenham procura, desde que estejam dentro de um valor adequado de mercado.

“Ou seja, o que para um perfil de cliente pode ser uma limitação, para outro se torna uma estratégia de negócio”, explica Munhoz. Para ele, o impacto emocional da enchente ainda existe, especialmente entre quem viveu a situação de forma direta. Porém, o mercado imobiliário de Lajeado está mais atento. Os negócios acontecem, o que indica movimento de retomada. “Porém, é inegável que o comportamento do comprador mudou. Ele está mais criterioso em relação à localização do imóvel.”

Agropecuária amplia loja no Centro e aumenta clientela em 50%

Quando a água invadiu a agropecuária de Adriano José Fachini, na Avenida Benjamin Constant, na cota 32, ele se viu em apuros. Trabalhou rápido para salvar rações e produtos

para pets, mas os prejuízos foram inevitáveis. “Tivemos grandes perdas”, conta. Em vez de sair do local, Fachini alugou a loja ao lado e ampliou o estoque. Também decidiu abrir atendimento de banho e tosa e fazer parceria com um veterinário. Assim, transformou o negócio em uma operação com três frentes: produtos, higiene e saúde animal. A estratégia rendeu. A agropecuária passou a atender 50% mais clientes. “Temos hoje um movimento maior do que tínhamos antes da enchente.

A OUSADIA DE ADRIANO

- Se manteve no Centro,cota 32

- Alugou a loja ao lado e ampliou o atendimento

- Inseriu serviço de banho e tosa

- Agregou atendimento veterinário

- Viu a clientela aumentar em 50% dois anos após a loja ter sido inundada

Em vez de

Batalhamos e conquistamos”, afirma Fachini.

O empresário investe de olho na nova realidade das enchentes e dos eventos climáticos extremos. Sabe que, diante de um alerta máximo, a resposta precisa ser rápida e eficaz. Está cauteloso, mas não parou. “Com o crescimento da loja, conseguimos reverter o prejuízo.”

sair do local, Fachini alugou a loja ao lado e ampliou o estoque.

Enchentes que marcaram a história

Em 2024, cheia foi a maior dos 135 anos do município. Mas há outras que também estão na memória das pessoas

Nos 135 anos de história, Lajeado enfrentou diversas enchentes ao longo do tempo. Muitas delas de pouco impacto. Mas outras são lembradas pelos estragos que causaram, como a de maio de 2024. Esta se tornou a maior. O rio alcançou os 33,35 metros em Lajeado no dia 2 de maio, superando a marca histórica de 1941, de 29,92 metros. Em 2018, a engenheira ambiental e professora da Univates, Sofia Moraes, elaborou um estudo que analisava as enchentes nos últimos 36 anos. Se o Taquari seguisse o mesmo comportamento, a probabilidade de ocorrer uma cheia que superasse os 30 metros era de 0,01%. Isso vai ao encontro do imaginário popular de que uma enchente maior a de 1941 jamais aconteceria.

Além disso, um estudo recente aponta que a tradicional metragem de 29,92 metros estaria incorreta e que, na verdade, em 1941, o rio Taquari teria chegado somente aos 28,87 metros. De acordo com o estudo, as três maiores cheias da história da região teriam acontecido num período de nove meses, entre setembro de 2023 e maio de 2024.

1941

Ninguém acreditava que a enchente de 1941 poderia ser superada. Em Lajeado, relatos citam que a água do rio Taquari teria chegado até a rua Borges de Medeiros, quase no Colégio Madre Bárbara. Neste ano, o rio alcançou quase dois metros dentro da escola e avançou duas quadras além. Naquela época, com pouca habitação, os danos não foram tão severos. A destruição teve uma proporção bem menor, já que Lajeado era ainda um pequeno núcleo urbano. Em 1941, choveu no Rio Grande do Sul por 20 dias seguidos entre abril e

1873

Pesquisas citam que uma grandiosa enchente avançou sobre a região em 1873. Até o início deste mês, esta inundação era uma das maiores que se tinha registro. O historiador Wolfgang Collischonn considera possível que, em 1873, o fundador de Lajeado, Antônio Fialho de Vargas, tenha anotado os pontos até onde a enchente chegou.

Talvez, Fialho tivesse levado em consideração essas marcas ao doar os terrenos para a praça, a igreja e o cemitério da cidade. Já que, nas cheias de 1941 e de setembro de 2023, as águas não alcançaram esses locais.

A grande enchente de 1873 também pode ter motivado a criação da Paróquia Santo Inácio de Loyola, em 1881.

As constantes cheias impediam que os padres, residentes em Estrela, viessem atender a pequena vila de Lajeado. Assim, uma igreja própria foi construída ainda no século XIX. Além disso, foi essa inundação que incentivou a construção da Casa do Morro de Cruzeiro do Sul. Em 1873, a casa da família Azambuja, próxima ao rio, foi destruída pela força das águas. Assim, o Coronel Primórdio Centeno Xavier de Azambuja ergueu uma nova estrutura no alto do morro, longe do rio.

maio. Não somente a bacia TaquariAntas transbordou, como em Porto Alegre, o Guaíba também inundou a cidade, chegando aos 4,7 metros. Em 2024, a água subiu até os 5,25 metros na capital gaúcha, com imagens que correram o mundo.

O Jornal O Taquaryense de 10 de maio de 1941 trouxe a percepção da época: “Os habitantes desta cidade assistiram, com a atual cheia do Rio Taquari, um espetáculo doloroso que jamais se apagará da memória dos que tiveram a ventura ou desventura de assisti-lo.”

MAIORES ENCHENTES

REGISTRADAS

1ª - 2 de maio de 2024 –33,35m*

2ª - Maio de 1941 – 29,92m**

3ª - Setembro de 2023 – 29,62m***

4ª - Novembro de 2023 –28,94m

5ª - Abril de 1956 – 28,86m

6ª - 13 de maio de 2024 -27,78m

7ª - Janeiro de 1946 – 27,40m

8ª - Julho de 2020 – 27,39m

9ª - Setembro de 1954 –27,35m

10ª - Outubro de 2001 –26,95m

11ª - Julho de 2011 – 26,85m

12ª - Outubro de 2008 – 26,65m

* Medição conforme dados do Governo de Lajeado.

** Medição clássica, porém um novo estudo aponta que a medição correta seria de 28,87 metros, classifi cando a cheia de 1941 em 4º lugar.

*** Medição conforme dados do Governo de Estrela.

Demais dados são do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da engenheira ambiental Sofia Moraes.

2023

Em setembro do ano passado, o rio Taquari chegou aos 29,62 metros, ainda 30 cm abaixo da cota máxima da cheia de 1941. Entretanto, um estudo recente publicado por historiadores e especialistas na área, como Sofia Moraes, Walter Collischonn, Franco Turco Buffon e Rafael Rodrigo Eckhardt, ratifica a informação. O documento “Revisão e consolidação da série histórica dos níveis das cheias do rio Taquari em Lajeado de 1939 a 2023”, mostra que houve um erro na estimativa da posição da régua que existia na época para a mediação do rio. De

acordo com os especialistas, caso a cheia de 1941 ocorresse hoje, ela mediria 28,87 metros na régua atual. É isso que se observa no Colégio Evangélico Alberto Torres (Ceat) de Lajeado. Nos anos 1960, a escola ampliou sua estrutura e levou em consideração o alcance das águas de 1941. “Diziam que nenhuma enchente superaria aquela. A laje mais baixa do prédio respeitou o nível máximo que a água chegou, de 29,92m”, contou o professor Ladair Rahmeier, que acompanhou a construção na época. Em setembro, no entanto, a cheia superou em quase 80 centímetros a altura do prédio do Ceat.

ERS 130: UM SÍMBOLO DE RECONSTRUÇÃO

Quando o nível do Forqueta começou a baixar, ainda na quinta-feira, uma das principais marcas daquela tragédia foi revelada: a queda da ponte da ERS-130, na ligação com Arroio do Meio

de um ano

foi reconstruída pela EGR e entregue para uso da comunidade em abril de 2025. Foi construída em uma cota mais elevada à marca alcançada pelo rio

Menos
depois, travessia

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