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Caderno Bairros - agosto

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Um novo olhar sobre os bairros

AGOSTO DE 2026

MATEUS SOUZA

Onde Lajeado pretende chegar?

Um pedaço do interior em meio a urbanização

Perto dos 100 mil habitantes, município se consolida como polo regional. Mas até onde esse crescimento vai nos levar?

Embora seja uma cidade predominantemente urbana, Lajeado ainda preserva, em alguns bairros, características da vida no campo.

VERTICALIZAÇÃO

Mais prédios, novos desafios

FELIPE NEITZKE

VINI BILHAR

KARINE PINHEIRO

DESCENTRALIZAÇÃO

Novo eixo urbano redesenha a cidade Empreendimentos imobiliários, chegada de empresas e ampliação dos serviços transformam os bairros São Bento, Floresta, Jardim Botânico e Moinhos d’Água em uma nova centralidade urbana, se somando

ao momento vivido por Conventos. Crescimento reduz a dependência do Centro, mas amplia os desafios por escolas, saúde, mobilidade, acessos e infraestrutura compatível com a expansão. PÁGINAS 6 E 7

Na área central, Lajeado cresce para cima Número de apartamentos cresceu 85% em 12 anos e modifica cenário da cidade. Verticalização avança em

áreas mais seguras, próximo de regiões arborizadas e com serviços, mas pressiona mobilidade urbana e infraestrutura.

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EDITORIAL

Lajeado que cresce e que precisa planejar Lajeado mudou. E continua mudando em um ritmo que desafia antigas referências sobre onde termina e onde começa a cidade. O crescimento já não se concentra apenas no entorno do Centro. Novos loteamentos, condomínios, empresas, prédios e equipamentos públicos redesenham o mapa urbano e criam novos vetores de desenvolvimento. A expansão para regiões como São Bento, Floresta, Jardim Botânico e Moinhos d’Água é um dos exemplos mais evidentes dessa transformação. Ao mesmo tempo, áreas próximas à BR-386 ganham importância com os avanços na infraestrutura viária. Em outras partes do município, ainda sobrevivem características rurais que ajudam a preservar diferentes modos de viver dentro de um mesmo território. As mudanças também passam pela habitação. Os novos projetos destinados a famílias atingidas pelas enchentes terão impacto direto na configuração dos bairros e na demanda por transporte, escolas, saúde, comércio e outros serviços. Paralelamente, a verticalização altera a paisagem e aumenta a concentração populacional em determinados pontos. A pergunta que orienta esta edição de Lajeado – Um novo olhar sobre os bairros não é apenas para onde a cidade cresce, mas como ela deve crescer. Lajeado terá, nos próximos anos, a oportunidade de transformar expansão em desenvolvimento. Para isso, precisará conciliar ocupação do território, mobilidade, infraestrutura, preservação ambiental, qualidade de vida e acesso aos serviços públicos. Projetar a cidade para 2040 exige olhar além dos empreendimentos que surgem hoje. Exige planejamento para que o crescimento não seja apenas uma consequência da valorização de determinadas áreas, mas uma construção coletiva de uma cidade mais equilibrada, conectada e preparada para o futuro. O mapa de Lajeado está mudando. Cabe à sociedade decidir que cidade quer desenhar sobre ele.

SURGI MEN TO, MO MEN TO ATUAL E OS PRÓXIMOS ANOS

DO PASSADO AO FUTURO

Emancipada de Estrela em 1891, Lajeado se desenvolveu às margens do Rio Taquari. Regiões como a da Praça do Chafariz concentravam pequenos comércios, moradias e serviços importantes. Pouco a pouco, a cidade passou a crescer para outras áreas, fruto de um forte processo de urbanização

IMAGEM GERADA POR IA

O que esperar de Lajeado para o futuro? Pedimos ajuda para a IA, com base em todos os materiais deste caderno, para projetar uma imagem do município nos próximos anos e décadas

Hoje, município se aproxima dos 100 mil habitantes e se destaca como um dos mais verticais do RS e um dos menores territórios

EXPEDIENTE

PRODUÇÃO TEXTOS: Jhon Willian

Tedeschi, Karine Pinheiro, Maira Schneider e Mateus Souza

2 • Agosto de 2026

ARTE E DIAGRAMAÇÃO

Lautenir Azevedo Junior

COORDENAÇÃO EDITORIAL Felipe Neitzke Mateus Souza

IMPRESSÃO Grafica Uma/ junto à Zero Hora


MATEUS SOUZA mateus@grupoahora.net.br

13 A 20 DE SETEMBRO 7ª Semana Farroupilha de Lajeado Local: Parque dos Dick Entrada gratuita

“Nem parece Lajeado”

Que cidade queremos daqui 20, 30 anos?

A

edição deste mês do caderno “Lajeado - Um novo olhar sobre os Bairros” nos convida a uma importante reflexão. Por meio de importantes reportagens, somos instigados a pensar o município para o futuro. Não ficar apenas no hoje, ainda que as demandas atuais, sem dúvidas, necessitam de atenção - muitas delas de forma urgente. À beira de chegar a 100 mil habitantes, Lajeado vive um momento decisivo em sua centenária história. Consolidada

como um polo regional, também é destino para novos moradores de outras regiões, de fora do RS e até mesmo de outros países. Mas a cidade precisa estar preparada para suportar esse crescimento cada vez maior. O novo planejamento urbano, um dos focos desta publicação, aponta para a consolidação de novos núcleos de desenvolvimento. De um lado da cidade, Conventos, São Bento, Bom Pastor, Jardim Botânico, entre outros. Ao norte, São Cristóvão, Universitário e Alto do

Parque foram um trio imponente. Ao sul, Jardim do Cedro é a bola da vez. Isso sem contar os locais que receberão as moradias para famílias atingidas pelas enchentes. Para que o desenvolvimento seja ordenado, Lajeado precisa olhar para a frente. Estabelecer prioridades, projetar quais obras são necessárias e também mirar o futuro. Intervenções pensadas para as próximas gerações. Para que tenhamos uma cidade melhor para nossos filhos, netos e bisnetos.

Onde o interior respira JHON WILLIAN TEDESCHI

Uma das reportagens do caderno também traz ares de nostalgia. Para quem não sabe, ainda há atividade rural de Lajeado. O percentual é muito pequeno, quase irrisório comparado com outras cidades, mas é um respiro em meio a uma urbanização cada vez maior. Em determinados bairros, você se sente no interior. E isso é bem positivo.

Acostumamo-nos a ter deslocamentos diretos vindo da BR-386 para bairros como Conventos e Montanha, em manobras um tanto quanto perigosas. Pois bem, hoje, com a duplicação, isso mudou. Moradores agora se adaptam

à nova realidade. Andar uns quilômetros a mais faz parte da nova rotina, em nome da segurança. Há quem diga que “nem parece Lajeado”, como já ouvi de pessoas próximas. De fato, não é algo muito comum pela nossa região.

DAS RUAS A votação do projeto que autoriza o financiamento de R$ 100 milhões para execução de obras estruturantes deve ficar somente para a segunda semana de setembro. Mas o município tem pressa. E isso pode gerar novos conflitos com a oposição. Aliás, até alguns governistas querem protelar a discussão. Algumas das obras listadas no projeto são essenciais para o desenvolvimento de Lajeado. O alargamento da via principal de Conventos precisa ser concluído. A Pasqualini necessita de ampliação, bem como a Benjamin. E por aí vai.. Enquanto a futura Central de Polícia, no bairro São Cristóvão, começa a tomar forma, a antiga sede segue abandonada no Centro. Um

vergonhoso descaso do Estado, enquanto o município fica de mãos amarradas. Eu não vejo outra solução, no momento, se não a de colocar abaixo aquela edificação… A Praça da Matriz estava linda durante a 20ª Feira do Livro. É tão bom ver aquele espaço ocupado. Pena que somente uma vez por ano. É preciso pensar em políticas para que este nobre espaço da área central de Lajeado seja devolvido definitivamente às pessoas, ao convívio social. Por falar em Centro, é bom também ver espaços que haviam sido abandonados em 2024 sendo reocupados por empreendedores. Ajuda a tornar viva uma região tão importante para a formação de Lajeado.

Agosto de 2026 • 3


Da cidade compacta aos polos de desenvolvimento Oeste ganha espaço

Crescimento populacional, novos loteamentos, abertura de empresas e mudanças previstas no Plano Diretor redesenham a ocupação urbana e criam novos eixos de crescimento

P

or décadas, o crescimento urbano de Lajeado teve o Centro e os bairros próximos como principal referência. O mapa, porém, mudou. Conventos, São Bento, Floresta, Moinhos d’Água, Jardim do Cedro e Universitário concentram parte relevante do avanço populacional, dos loteamentos e das construções. Os dados da Secretaria de Planejamento e Mobilidade Urbana mostram dois movimentos. Na porção oeste, áreas disponíveis recebem novos lotes, moradias e empreendimentos. Em regiões consolidadas, o avanço ocorre pelo adensamento e verticalização. Conventos concentra o maior volume de licenças de construção aprovadas em 2026. O resultado é uma cidade com mais de uma centralidade. Centro, Florestal, Americano e Hidráulica formam uma área de maior densidade e verticalização. São Cristóvão e Conventos assumem características de subcentros, com comércio, serviços, moradia e empreendimentos.

O que mostram os números Entre 2010 e 2022, Conventos, Jardim do Cedro, Universitário e

Moinhos d’Água concentraram 60% do aumento populacional de Lajeado. Juntos, os quatro bairros receberam 13,3 mil moradores. O dado revela uma mudança no eixo de ocupação urbana. O avanço não ocorre de forma homogênea. Áreas antigas recebem prédios e novos empreendimentos, enquanto bairros com menor ocupação incorporam loteamentos e ampliam a malha urbana. Floresta, Moinhos d’Água, Bom Pastor, São Bento e Conventos têm destaque nas taxas de crescimento. Os dados de construção reforçam. Conventos, São Bento, Bom Pastor e Igrejinha apresentam as maiores quantidades de licenças para novas construções no período de janeiro de 2025 a junho de 2026. O movimento combina expansão horizontal e adensamento. No setor empresarial, o Centro ainda concentra a maior parcela de empresas ativas, com cerca de 17% do total. São Cristóvão aparece na sequência (10,5%), seguido por Florestal (7,5%), Conventos (6,9%), e Universitário (6,8%). A matriz econômica ajuda a explicar a distribuição. Serviços representam 62% das empresas, enquanto Comércio responde por 29% e Indústria por 9%. A predominância dos serviços também favorece a criação de atividades

O aumento populacional cria um mercado que atrai comércios de proximidade, serviços e filiais de empresas.” JAIRO VALANDRO SECRETÁRIO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

próximas das áreas residenciais. Para o secretário de Desenvolvimento Econômico, Jairo Valandro, o crescimento populacional cria condições para a formação de novos polos. “O aumento populacional cria um mercado que atrai comércios de proximidade, serviços e filiais de empresas.” O cadastro empresarial, porém, exige cautela. Parte dos negócios de serviços inicia as atividades no endereço residencial do empreendedor. Assim, o aumento de registros em bairros com expansão residencial pode refletir tanto novos negócios quanto moradores que passam a empreender no local. KARINE PINHEIRO

A concentração de novos loteamentos revela um dos principais vetores da expansão. Conventos, São Bento e Floresta concentram 53% das edificações em andamento, afirma a Secretaria de Planejamento e Mobilidade Urbana. Já a ocupação apresenta características distintas. Jardim Botânico e Moinhos d’Água têm malha urbana mais coesa. São Bento e Floresta ainda apresentam áreas com ocupação mais esparsa. A diferença interfere no tipo de crescimento e nas necessidades de infraestrutura. Conventos reúne os dois movimentos. O bairro tem áreas para expansão, recebe novos moradores e registra aumento no volume de construções. A combinação amplia a oferta de comércio e serviços e reforça a posição da região como novo polo de Lajeado. São Bento e Floresta também entram no mapa de expansão. A localização, a disponibilidade de áreas e a conexão com novos eixos viários aumentam o interesse do mercado. A chegada de novos empreendimentos tende a ampliar a procura por comércio e serviços. Jardim do Cedro aparece entre as áreas com potencial de valorização, sobretudo diante das mudanças na mobilidade previstas com a Ponte dos Vales. A nova conexão pode alterar os fluxos de veículos e pessoas e ampliar o interesse por atividades econômicas. O Universitário segue outra lógica. A proximidade com a Univates e a presença de atividades ligadas à tecnologia, inovação e saúde favorecem uma centralidade com perfil distinto do eixo residencial formado por bairros da zona oeste.

Mais moradores, mais demandas A expansão urbana não depende apenas da disponibilidade de terrenos. A chegada de moradores altera a demanda por serviços, comércio, saúde, transporte e espaços de convivência. A população também cria condições para a instalação de empresas próximas das áreas residenciais.

Centro ainda é referência na cidade, com forte vocação comercial

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Onde estão as empresas? Centro - 17% São Cristóvão - 10,5% Florestal - 7,5% Conventos - 6,9% Universitário - 6,8%

A infraestrutura também interfere na decisão sobre onde construir. Acesso às rodovias, redes de água e energia, sistema viário e oferta de equipamentos públicos pesam na escolha de compradores. O preço dos terrenos é outro fator. Segundo Valandro, os custos de locação também influenciam a escolha de endereços comerciais. Áreas com valores mais acessíveis podem atrair negócios e acelerar a formação de novos polos. A formação de polos também altera a rotina dos moradores. Quanto maior a oferta de comércio e serviços perto de casa, menor a necessidade de deslocamento até o Centro para atividades cotidianas.

Plano Diretor como guia A expansão não ocorre apenas pela ação do mercado. O Plano Diretor define onde e de que forma a cidade pode crescer. A legislação, aprovada no fim de 2020, estabele-


FELIPE NEITZKE

Uma cidade, diferentes vocações Centro

Comércio, serviços e maior concentração empresarial

São Cristóvão

Subcentro econômico e residencial

Como Lajeado está crescendo Adensamento: Centro, Florestal, Americano, Hidráulica e São Cristóvão; Expansão: Conventos, São Bento, Floresta, Moinhos d’Água e Jardim do Cedro; Novos polos: Conventos, São Cristóvão e Universitário.

Conventos

Expansão imobiliária e comércio

Universitário

Educação, tecnologia e inovação

Floresta e São Bento

Em números

Jardim do Cedro

13,3 mil novos moradores

Novos loteamentos e expansão urbana Potencial de valorização e novas conexões

Imigrante

Potencial industrial e logístico

em Conventos, Jardim do Cedro, Universitário e Moinhos d’Água entre 2010 e 2022

60% do crescimento populacional de Lajeado concentrado nesses quatro bairros

761 licenças para novas

ce diretrizes para a ocupação urbana, a distribuição de atividades e o adensamento. Entre os instrumentos estão macrozonas, áreas urbanizáveis, parâmetros de ocupação e regras para atividades. O documento busca organizar o território e orientar a relação entre moradia, emprego, comércio e serviços. Na prática, o Plano Diretor busca evitar que toda a atividade econômica permaneça concentrada na região central. A distribuição de comércio e serviços pela malha urbana aparece entre as diretrizes, com estímulo à formação de centralidades em diferentes bairros. Os dados de licenciamento indicam esse avanço. O mapa de licenças de atividades comerciais e industriais, entre 2025 e 2026, aponta a presença de empreendimentos fora da área central. Para o secretário de Planejamento e Mobilidade Urbana, Alex Schmitt, o Plano Diretor contribui para orientar o processo. A distribuição de serviços e comércio pela cidade pode reduzir deslocamentos e ampliar a autonomia dos bairros. “Quando a gente consegue aproximar moradia, comércio e serviços, também consegue reduzir a necessidade de deslocamentos”, afirma Schmitt. A legislação, contudo, não elimina os desafios. A expansão exige redes de infraestrutura compatíveis com o aumento da população. Regiões periféricas enfrentam a necessidade de ampliar redes e serviços. Áreas centrais, por outro

Quando a gente consegue aproximar moradia, comércio e serviços, também consegue reduzir a necessidade de deslocamentos para a região central.” ALEX SCHMITT SECRETÁRIO DE PLANEJAMENTO E MOBILIDADE URBANA

lado, precisam lidar com maior densidade.

Infraestrutura define ritmo O crescimento urbano cria uma questão para o planejamento: a infraestrutura deve acompanhar a ocupação ou antecipar a demanda? Nas regiões em expansão, a ausência de equipamentos públicos pode obrigar moradores a

buscar serviços em outros bairros. Isso aumenta os deslocamentos e pressiona os corredores viários. A distância entre moradia e serviços também pode ampliar a dependência do automóvel. Nas áreas consolidadas, o desafio é diferente. A verticalização aumenta a quantidade de moradores sem ampliar o território. O equilíbrio entre os dois movimentos passa pela capacidade de antecipar investimentos. A escolha de onde levar uma nova via, escola, ou rede de saneamento também pode influenciar o ritmo de crescimento de determinada região. A infraestrutura não aparece apenas como consequência da expansão, diz Schmitt. Ela pode

funcionar como instrumento de planejamento, ao direcionar empreendimentos para áreas com melhores condições.

Espaço para crescer No bairro Imigrante, o potencial apresenta perfil diferente. A área apresenta características favoráveis à instalação de indústrias, depósitos e atividades de logística leve, reforça Valandro. A existência de áreas disponíveis não significa ocupação imediata, diz o secretário. A expansão depende de infraestrutura, regras urbanísticas, condições ambientais, acesso viário e interesse do mercado. Cada novo projeto precisa se encaixar nas condições definidas para o território. JHON WILLIAN TEDESCHI

construções em Conventos, São Bento, Bom Pastor e Igrejinha entre janeiro de 2025 e junho de 2026

53% dos loteamentos em

andamento concentrados em Conventos, São Bento e Floresta 96 licenças aprovadas em Conventos entre janeiro e maio de 2026

24,3 mil m² de área aprovada em construções em Conventos no mesmo período

As enchentes de 2023 e 2024 também acrescentaram uma variável à ocupação de novas áreas. O risco climático passou a ter maior peso na avaliação de terrenos, sobretudo em regiões próximas aos rios Taquari e Forqueta. O novo mapa de Lajeado não substitui o Centro. A região central mantém a maior concentração de empresas e atividades. O que muda é a estrutura urbana ao redor dela, com bairros que assumem novas funções e passam a reunir diferentes atividades econômicas. O desafio para os próximos 15 anos será transformar crescimento em desenvolvimento urbano. O mapa de 2040 ainda não está definido. Parte das escolhas, porém, já aparece nos loteamentos, nas construções licenciadas, na abertura de empresas e nas áreas que recebem investimentos.

São Cristóvão segue sendo importante polo, mas sofre com gargalos no trânsito

Agosto de 2026 • 5


Uma nova centralidade para suportar a circulação de hoje e a movimentação que se deve ter futuramente. Com a chegada de novos moradores, a infraestrutura pública também precisa estar preparada para suportar a demanda”, pontua.

Infraestrutura deve acompanhar

Empreendimentos imobiliários, investimentos públicos e novos serviços transformam São Bento, Floresta, Jardim Botânico e Moinhos d’Água. Expansão residencial cria demanda por comércio, saúde, educação e lazer, mas infraestrutura ainda impõe desafios

O

crescimento de Lajeado avança para além da área central. São Bento, Floresta, Jardim Botânico e Moinhos d’Água formam um eixo de expansão a oeste, com novos loteamentos, condomínios, empresas e serviços. O movimento altera o perfil de áreas antes marcadas pela moradia e cria condições para uma nova centralidade. O aumento da população amplia a procura por mercados, restaurantes, saúde, educação, lazer e comércio de proximidade. A transformação ocorre em ritmos diferentes. Floresta combina atividades industriais e comerciais. São Bento recebe loteamentos e pavilhões. Moinhos d’Água amplia a ocupação residencial, enquanto Jardim Botânico busca novos equipamentos públicos.

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Para o secretário de Desenvolvimento Econômico, Jairo Valandro, o adensamento habitacional abre espaço para novos negócios. “Esse crescimento de novas moradias cria demanda imediata por conveniência, atraindo estabelecimentos de alimentação, saúde, educação, lazer e comércio de vizinhança”, avalia. A expansão residencial funciona como um dos motores da transformação. Mais moradores formam um mercado para empresas e serviços próximos e parte das necessidades cotidianas passa a ser atendida nos próprios bairros. Valandro considera a formação importante para o crescimento urbano. “Esse modelo é um dos pilares para o crescimento ordenado, permitindo a convivência entre um centro forte e diversos espaços funcionais”, diz. Ele destaca os preços acessíveis de imóveis, procura por áreas afastadas do Centro, e a menor exposição a áreas inundáveis.

Floresta mira indústria e logística No Floresta, a proximidade com a RSC-453 e, no futuro, com a Ponte dos Vales, pela ERS-130, amplia o potencial para atividades industriais e logísticas. Conforme o presidente da Associação de Moradores, Maicon dos

Precisamos estar preparados para suportar a circulação de hoje e a movimentação que se deve ter futuramente. “ MAICON DOS SANTOS PRESIDENTE DO FLORESTA

Santos, o bairro tem cerca de 2,5 mil habitantes e mais de 250 empresas, com um setor que segue em expansão. A expansão imobiliária inclui cerca de 3 mil lotes em fase final de construção. Também há cerca de 30 pavilhões para empresas. “Isso deve impulsionar muito o número de moradores. É um bairro que pode ter até 20 mil habitantes”, projeta Santos. O crescimento empresarial, na avaliação dele, deve elevar o fluxo de veículos e pessoas. Devido a isso, ele reforça que os acessos precisam receber atenção antes do aumento da demanda. “Precisamos estar preparados

A expansão imobiliária exige mais do que ruas e redes de água e energia. Escolas, unidades de saúde, transporte coletivo, áreas de lazer e novas conexões viárias também precisam acompanhar a ocupação. No Floresta, crianças precisam buscar vagas em escolas de outros bairros, diz o presidente. O cenário é reforçado pela presidente da Associação de Moradores do bairro Jardim Botânico, Mara Markmann, que aponta limitações na estrutura pública. “Somos o bairro mais novo e ainda não temos uma oferta de serviços adequada”, destaca. A escola local não atende toda a demanda e o bairro não conta com UBS, ela pontua. O avanço da população deve ampliar a pressão por serviços básicos, avaliam os representantes. A presença de novos empreendimentos também exige planejamento para evitar que a infraestrutura fique atrás da ocupação. Entre as preocupações, estão os acessos e a mobilidade interna.

Mobilidade no centro do debate A ligação entre os bairros depende de corredores com fluxo

Hoje não há mais necessidade de ir para o Centro. Muitas coisas são possíveis de se resolver dentro do bairro ou nas proximidades.” MARA MARKMANN PRESIDENTE DO JARDIM BOTÂNICO

elevado. Segundo Schmitt, Carlos Spohr Filho e Benjamin Constant concentram parte importante dos deslocamentos entre o eixo oeste e as regiões mais densas de Lajeado. “Os principais gargalos de mobilidade são a falta de vias alternativas entre os bairros”, afirma o secretário. A ausência de novas conexões pode concentrar o trânsito nos mesmos corredores diante do avanço de condomínios e loteamentos. No Jardim Botânico, a demanda passa por alternativas às vias Benjamin Constant e Carlos Spohr Filho. A presidente cita controle de velocidade e novas ligações entre bairros como medidas para reduzir a pressão sobre os corredores. No Floresta, a Ponte dos Vales acrescenta uma nova perspectiva. A ligação deve alterar os fluxos entre rodovias e ampliar o potencial econômico da região. Devido à possibilidade de expansão, a associação de moradores também reivindica melhorias nos acessos à RSC-453 e à ERS-130, afirma o presidente.


FOTOS: MATEUS SOUZA

Um novo eixo no mapa de Lajeado São Bento, Floresta, Jardim Botânico e Moinhos d’Água projetam ligações com as principais vias de conexão: – RSC-453 – ERS-130 – Benjamin Constant – Carlos Spohr Filho – Ponte dos Vales

Quatro bairros, diferentes vocações São Bento concentra parte do avanço imobiliário do eixo oeste. Novos loteamentos ampliam a área ocupada e criam demanda por comércio e serviços. A presença de pavilhões empresariais acrescenta uma frente econômica ao bairro. Moinhos d’Água também registra avanço da ocupação residencial. A chegada de moradores amplia o mercado para serviços de proximidade e reforça a necessidade de conexões com outras áreas. O bairro também aparece entre os pontos com maior volume de obras aprovadas.

A transformação representa uma nova etapa da ocupação urbana de Lajeado. O crescimento deixa de ter apenas caráter residencial e incorpora comércio, serviços, indústria e equipamentos públicos. A formação de subcentros distribui atividades pela cidade e pode reduzir a dependência da área central. Ao mesmo tempo, cria novas demandas por infraestrutura. O desafio está em conectar as áreas, ampliar os serviços públicos e garantir estrutura compatível com o crescimento.

A transformação do eixo ANTES

Predomínio residencial e menor oferta de serviços

EXPANSÃO IMOBILIÁRIA

Novos loteamentos e condomínios ampliam a população

CHEGADA DE EMPRESAS

Comércio, serviços e pavilhões passam a ocupar áreas dos bairros

PONTE DOS VALES

FELIPE NEITZKE

Futura conexão pode alterar fluxos e ampliar o potencial econômico do Floresta e áreas próximas

PRÓXIMA ETAPA

Ampliação de infraestrutura, equipamentos públicos e alternativas de mobilidade

Menos dependência do Centro

PARA ONDE CRESCER? Bairros como o Floresta têm grande procura por investidores. Além de estar próximo de rodovias como a RSC-453 e a ERS-130, região conta com empresas e indústrias fortes e que geram um bom número de empregos. Mas ainda possuem áreas disponíveis para a construção de casas, sobrados e até prédios menores.

A formação de comércio e serviços de proximidade já altera a rotina em parte do eixo oeste. No Jardim Botânico, a oferta local permite resolver algumas demandas sem deslocamento até a região central. “Hoje não há mais necessidade de ir para o Centro. Muitas coisas são possíveis de se resolver dentro do bairro ou nas proximidades”, afirma Mara. A tendência acompanha o aumento da população. Para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, novas centralidades podem fortalecer o comércio de bairro e distribuir atividades pelo território. A mudança reduz deslocamentos e cria oportunidades para empresas.


Iniciativas habitacionais modificam A partir das enchentes entre 2023 e 2024, o poder público acelera o processo de retirada de famílias das áreas alagáveis do município. Moradores ainda aguardam pelas mudanças, enquanto construções avançam pelos bairros

D

urante décadas, o crescimento de Lajeado acompanhou a ocupação das áreas próximas ao Rio Taquari e aos arroios que cortam o município. As grandes enchentes de 2023 e, principalmente, de maio de 2024 colocaram esse modelo em xeque. Agora, mais de dois anos depois da maior tragédia, a cidade começa a passar por uma transformação que vai além da reconstrução das casas destruídas: alguns lugares deixam de ser destinados à moradia enquanto outros passam a receber novos conjuntos habitacionais e famílias que precisaram mudar de endereço. A mudança pode ser percebida nos dois extremos do mapa urbano. De um lado, áreas atingidas pelas cheias passam por demolições, interdições e planejamento para evitar novas ocupações. De outro, bairros situados em cotas mais altas concentram empreendimentos habitacionais, novos loteamentos e uma parcela crescente da expansão imobiliária. A necessidade de redirecionar parte da população devido a esse risco revela um desafio recorrente: como manter as comunidades seguras, enquanto se ofertam condições de estrutura para que elas possam seguir a rotina da forma mais normal possível. Por outro lado, evitar que pessoas voltem à áreas de arraste é fundamental para que novas mobilizações não ocorram. Os projetos desenvolvidos pelo poder público e pela sociedade civil oportunizam novas moradias, mas este processo ainda está em andamento. Enquanto as primeiras famílias se organizam para as mudanças, há uma corrida para viabilizar o entorno, para que os serviços 8 • Julho de 2026

básicos estejam disponíveis a estas pessoas. São cerca de 400 casas, divididas em sete programas, a serem entregues em 10 bairros: Conservas, Conventos, Das Nações, Floresta, Igrejinha, Jardim do Cedro, Morro 25, Planalto, Santo Antônio e São Bento. Entre as iniciativas, o Minha Casa Minha Vida (MCMV) reúne quase 300 das residências. Esses projetos trazem um olhar novo para os próximos anos de Lajeado. A cidade segue em um crescimento acelerado, mas passa a olhar também para o movimento interno de moradores que buscam novos lares depois de perderem todos os seus bens.

Novo desenho A redefinição do mapa urbano e demográfico de Lajeado ganha um novo capítulo com a implementação do Plano de Desocupação e Resiliência Climática, apresentado à comunidade em agosto. A iniciativa da administração municipal projeta a transferência gradual de famílias que residem em áreas sujeitas a inundações, além da proibição de novas construções nesses locais. Com previsão de execução até dezembro de 2029, a medida

visa interromper o ciclo recorrente de remoções emergenciais para abrigos públicos e destinar os espaços desocupados à criação de áreas verdes e expansão de parques. O cronograma prevê a demolição inicial de 24 imóveis situa-

Residencial Novo Horizonte, no bairro Santo Antônio, receberá 56 casas destinadas à atingidos pelas enchentes

dos entre as cotas 19 e 20 até o fim deste ano. Contudo, a gestão aponta que o principal desafio reside em assegurar a inclusão de todas as famílias cadastradas e garantir o apoio da comunidade no endurecimento da fiscalização territorial.

Mudança no perfil O planejamento municipal reflete uma mudança significativa no perfil populacional das zonas vulneráveis da cidade,


desenho de Lajeado

Os números da transformação 393

ARQUIVO A HORA

impulsionada pelas sucessivas cheias registradas desde 2023. Levantamentos locais indicam expressiva rotatividade nessas áreas: na enchente de julho de 2026, por exemplo, cerca de 70% dos desabrigados não residiam na região durante a catástrofe de maio de 2024. A presença de imigrantes também se destaca na nova configuração social da cidade, representando 36% das famílias que necessitaram de acolhimento no Parque do Imigrante no evento climático mais recente. Destaque às pessoas vindas da Venezuela e Haiti, que somam 144 núcleos familiares. Há também outras nacionalidades presentes no cotidiano de Lajeado.

Primeiras mudanças

Projetos do Governo Federal fazem parte das iniciativas para realocar população

DIVULGAÇÃO

No bairro Floresta fica um dos novos núcleos habitacionais, que está mais próximo de receber os primeiros moradores. Faltam detalhes burocráticos para que 10 famílias possam ocupar as casas que fazem parte do projeto Uma Casa por Dia. Todas viviam na rua Francisco Oscar Karnal, no Centro de Lajeado, no chamado Cantão. Boa parte das residências na região foram condenadas pela Defesa Civil e fazem parte do planejamento de desocupação das áreas de risco. A Agência de Desenvolvimento e Inovação Local (Agil), junto com o Ministério Público (MP), organizou uma parceria, onde o município cedeu a área, e as entidades construíram as casas. “Isso mostra a maturidade do sistema de inovação de Lajeado, que trabalhou para construir soluções para a comunidade”, avalia o diretor-executivo da Agil, Tiago Guerra. Cristiane dos Santos, 53 anos, nasceu na Francisco Oscar Karnal e celebra o fato de poder fazer a mudança junto com os vizinhos. “Meus pais sempre moraram lá, minha vida foi muito sofrida”, conta. Ela faz parte do programa de aluguel social e vai receber a nova moradia assim que a questão burocrática for encaminhada.

Isso mostra a maturidade do sistema de inovação de Lajeado, que trabalhou para construir soluções para a comunidade” TIAGO GUERRA DIRETOR EXECUTIVO DA AGIL

A mudança em quatro movimentos

1. Retirar

Famílias deixam áreas sujeitas a inundação ou arraste.

2. Reassentar

Parte dos moradores recebe novas casas ou apartamentos.

3. Desocupar

Imóveis condenados são demolidos e os terrenos podem passar a usos ambientais e comunitários.

4. Expandir

Novos empreendimentos e investimentos imobiliários avançam em áreas consideradas mais seguras. KARINE PINHEIRO

Moradias projetadas para famílias atingidas pelas enchentes, considerando diferentes programas e estágios.

335 Imóveis condenados pelas enchentes em áreas de arraste que, segundo atualização da Defesa Civil em junho, poderiam ser incluídos em ações de demolição.

431.941 m² Área de lotes identificados em zonas de risco.

1.483 Alvarás de construção aprovados em Lajeado em 2025.

411 mil m² Área correspondente aos alvarás de construção aprovados em 2025.

2029 Ano previsto para a conclusão da retirada de moradores das áreas entre as cotas 23 e 24, segundo o cronograma apresentado pelo município em agosto de 2026.

Famílias conheceram as novas residências do bairro Floresta durante uma das enchentes no mês de julho


BR-386 impulsiona desenvolvimento, mas cria novos desafios Duplicação amplia capacidade logística e atrai atividades econômicas, enquanto redução de pontos de travessia exige planejamento para conectar bairros separados pela rodovia

A

BR-386 exerce influência sobre o crescimento de Lajeado desde a implantação da rodovia, entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970. A abertura do eixo viário deslocou parte da expansão urbana para áreas próximas à estrada e contribuiu para o desenvolvimento de bairros como Americano, São Cristóvão, Alto do Parque, Hidráulica, Santo André e Montanha. A duplicação do trecho entre Marques de Souza e Lajeado acrescentou 20,3 quilômetros de novas pistas ao corredor, entre os quilômetros 325,5 e 345,8. A obra recebeu cerca de R$ 446 milhões em investimentos, segundo a concessionária, e incluiu 13 quilômetros de vias marginais, seis pontes, quatro passarelas, novos dispositivos de acesso e estruturas de segurança. Apesar da dimensão da intervenção, a Prefeitura de Lajeado ainda não identifica

Eixo de atração econômica

O acesso para o bairro Montanha, está confuso e com falta de sinalização. Temos um acúmulo de agua na pista lateral em frente a entrada da Tritec. Calçadas mal feitas e sem acabamentos” ASTOR FELL DIRETOR DA TRITEC

mudança relevante na implantação de loteamentos diretamente associada à duplicação. Para o secretário de Planejamento, Urbanismo e Mobilidade, Alex Schmitt, o principal efeito, até o momento, está na logística. “A duplicação colabora com a fluidez da rodovia, privilegiando muito a logística, o que deve refletir em maior desenvolvimento da cidade como um todo, principalmente com relação à atração de novas empresas”, afirma.

O professor de Arquitetura e Urbanismo da Univates, Augusto Alves, considera a infraestrutura rodoviária um dos fatores que favorecem a atividade econômica de Lajeado. Segundo ele, a conexão mais eficiente com Porto Alegre e outras regiões reduz obstáculos logísticos e amplia a atratividade do município para as empresas. “Isso é um fator de atração de empresas e de pessoas mesmo. Facilita total, a mobilidade, a logística, ela é absolutamente essencial para os negócios.” Alves destaca que a proximidade com uma rodovia de grande circulação também influencia a localização de atividades produtivas. Como Lajeado possui território limitado e grande parte das áreas disponíveis já está ocupada, a expansão desse tipo de atividade pode alcançar municípios vizinhos. A relação entre rodovia e crescimento urbano, contudo, antecede a duplicação. Conforme o professor, a BR-386 funcionou como um dos eixos que direcionaram a expansão de Lajeado ao longo das últimas décadas. “Depois dos bairros como, Alto do Parque, Hidráulica e os outros, Santo André, e o crescimento do Montanha, tudo foi crescendo ao redor, no entorno da BR.”

Menos travessias O aumento da capacidade da rodovia trouxe, ao mesmo tempo, alterações para a circulação local. A duplicação reduziu os acessos diretos e concentrou os deslocamentos em viadutos, rótulas e passarelas. Para Schmitt, o principal desafio é ampliar as possibilidades de transposição da rodovia. “O principal desafio relativo à duplicação é melhorar a transposição da rodovia, que conta com menos ponto de

travessia, concentrando os fluxos nos viadutos e rótulas.” O empresário e morador Dag Arnoldo Cremer também aponta esse efeito. Segundo ele, a cidade ficou mais dividida pela nova configuração da estrada, com poucos pontos de retorno no trecho urbano. “Trouxe benefícios, mas também desafios uma vez que a cidade foi dividida pela duplicação e existem poucos pontos de retorno principalmente nos cinco quilômetros de Lajeado,

GABRIEL SANTOS

A expansão urbana precisa aproveitar a infraestrutura disponível sem perder a conexão entre as diferentes partes do município” AUGUSTO ALVES PROFESSOR DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVATES

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FOTOS: FELIPE NEITZKE

Duplicação da rodovia modificou cenários, como no acesso ao bairro Conventos, que agora conta com passarela

impactando o trânsito de pedestres que dificilmente conseguem atravessar a estrada.” Cremer afirma ainda que possui uma propriedade às margens da rodovia e aguarda há dois anos uma solução para o acesso ao imóvel. Também cita problemas após a conclusão de parte das obras, como pontos de acúmulo de água e falhas na iluminação.

Rodovia como barreira urbana Para Augusto Alves, a relação entre a BR-386 e a cidade envolve uma contradição. Ao mesmo tempo que a rodovia favorece a mobilidade regional e a atividade econômica, ela cria uma barreira física dentro do território urbano. “Ela acaba se tornando também uma espécie de barreira na cidade, que ela corta a cidade ao meio, então isso também gera gargalos, gera dificuldades de transposição.” Na avaliação do professor, o planejamento urbano precisa considerar as duas funções da estrada: eixo de conexão regional e elemento que interfere na circulação entre bairros. “Tem que se planejar nesse sentido. Como é que tu vai fazer o crescimento sempre

Trouxe benefícios, mas também desafios uma vez que a cidade foi dividida pela duplicação e existem poucos pontos de retorno, principalmente nos cinco quilômetros de Lajeado, impactando o trânsito de pedestres que dificilmente conseguem atravessar a rodovia”

considerando que ali tem um eixo indutor, mas também uma barreira urbana.”

Acessos e marginais A concessionária ViaSul afirma que a localização de viadutos, retornos e acessos segue o contrato de concessão e estudos que consideraram volume de tráfego, segurança, conectividade entre comunidades e necessidades de deslocamento. Segundo a empresa, as vias marginais têm a função de separar o trânsito local do fluxo de longa distância. A estrutura permite o acesso a bairros, empresas e comércios sem ampliar os conflitos com a pista principal. No trecho entre Marques de Souza e Lajeado, foram implantados 13 quilômetros de marginais, quatro passarelas e seis novas pontes. A concessionária também afirma que novos viadutos foram construídos para conectar áreas que antes não possuíam ligação direta. “A ViaSul informa que as obras concluídas entre Marques de Souza e Lajeado fazem parte de um conjunto de intervenções voltadas à segurança, fluidez e logística regional.” Empresas instaladas às

PRF está instalada provisoriamente em imóvel no bairro Imigrante

DAG ARNOLDO CREMER EMPRESÁRIO E MORADOR DA BR-386

margens da BR-386 relatam efeitos distintos da obra. O diretor da Tritec, Astor Fell, avalia que os ganhos superam as perdas, principalmente pela melhoria na mobilidade, segurança e agilidade dos deslocamentos. Ele, porém, cita dificuldades durante a execução e problemas que ainda persistem. “Agora depois de concluídas as obras, temos um acúmulo de água na pista lateral em frente a entrada da Tritec. Calçadas mal feitas e sem acabamentos. O acesso para o bairro Montanha, está confuso e com falta de sinalização.” A empresa também enfrentou dificuldades de acesso durante a construção de uma estrutura elevada

urbana décadas antes. Agora, a nova configuração amplia a capacidade de circulação e pode reforçar a atratividade econômica do eixo. Ao mesmo tempo, a redução dos acessos diretos impõe uma nova questão ao planejamento: como permitir que a cidade cresça junto à rodovia sem transformar o eixo de desenvolvimento em uma barreira entre bairros. Para o professor Augusto Alves, esse equilíbrio será determinante para os próximos anos. “A expansão urbana precisa aproveitar a infraestrutura disponível sem perder a conexão entre as diferentes partes do município”. observa.

próxima ao empreendimento, segundo Fell. A ViaSul afirma que a execução em áreas urbanizadas exigiu etapas de trabalho, desvios, sinalização e adequações temporárias para manter a circulação. A concessionária sustenta que as intervenções foram planejadas para preservar, sempre que possível, os acessos locais e reduzir impactos sobre moradores e empresas.

Crescimento para além da rodovia O efeito da BR-386 sobre Lajeado não se resume à obra de duplicação. A rodovia já havia alterado a direção da expansão

Agosto de 2026 • 11


Prédios redesenham cidade e ampliam desafios de infraestrutura ARQUIVO A HORA

Número de apartamentos cresceu 85% em 12 anos. Avanço concentra novos empreendimentos em bairros com maior oferta de serviços e fora das áreas sujeitas a alagamentos

infraestrutura que surgem para dar conta desse adensamento residencial e comercial. O bairro, cada vez mais, é visado para viver e trabalhar. O metro quadrado mais valorizado na construção civil está no bairro Americano.”

Aumento no fluxo

A

paisagem de Lajeado mudou de forma acelerada na última década. O avanço de edifícios residenciais e comerciais alterou bairros tradicionais, ampliou a concentração populacional e elevou a demanda por mobilidade, infraestrutura e serviços. O movimento acompanha a valorização do solo e a menor disponibilidade de áreas para expansão horizontal. Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de apartamentos passou de 6,1 mil, em 2010, para 11,4 mil em 2022. O crescimento de 85% fez com que esse tipo de moradia representasse cerca de 30% dos domicílios do município. Lajeado tinha mais de 44 mil domicílios no último levantamento, 62% acima do registrado em 2010. Segundo a administração municipal, Lajeado possui cerca de 830 edifícios distribuídos pelos bairros. A região central concentra mais de 200 deles. Para a economista Cíntia Agostini, doutora em Desenvolvimento Regional, a verticalização acompanha o crescimento dos centros urbanos e pode ser uma alternativa para Lajeado diante da área territorial limitada e da densidade populacional. “O avanço dos prédios precisa ser acompanhado por investimentos em infraestrutura, como energia, água, saneamento e mobilidade, além de serviços e equipamentos públicos. O crescimento ordenado depende do equilíbrio entre a expansão imobiliária e a capacidade do município de atender à população.” Em Lajeado, as enchentes recentes influenciaram o mercado imobiliário. Conforme o diretor da Imobiliária Arruda & Munhoz, Marco Aurélio Munhoz, o Keko, a redução da oferta de áreas fora das regiões de risco contribuiu para a valorização dos terrenos e estimulou novos empreendimentos verticais.

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“A área urbana de Lajeado diminuiu drasticamente após as enchentes, fazendo com que bairros longe de áreas alagáveis tivessem seus valores supervalorizados pela oferta escassa”, afirma. O Universitário, Carneiros e São Cristóvão estão entre as regiões com maior procura. “Hoje, em todos os bairros que não têm problemas com alagamento há grande procura”, explica. Munhoz também aponta a expansão de empreendimentos em bairros como Conventos, São Bento e Floresta, que oferecem alternativas para diferentes faixas de compradores.

No bairro Universitário, moradores projetam impactos sobre o trânsito com a chegada de novos condomínios. A presidente da Associação de Moradores, Mara Crestani Goergen, cita a rua Pedro Petri e a avenida Alberto Pasqualini como pontos que devem receber maior circulação, com reflexos no acesso à ERS-130. “Eu acredito que o fluxo vai triplicar”, afirma. Mara também prevê que com a chegada de novos empreendimentos aumente a demanda por comércio e serviços. Apesar dos possíveis impactos, avalia que o crescimento pode trazer benefícios se houver planejamento. “Tudo isso vai ter que ser planejado. A expansão de edifícios, assim, não se limita à mudança no perfil das moradias. O avanço da verticalização coloca em discussão a capacidade do município de adaptar ruas, redes de infraestrutura, serviços e espaços públicos, a partir do aumento da concentração de moradores.”

exige medidas para melhorar a circulação. “A mobilidade é o principal desafio, que vem sendo trabalhado com a otimização do sistema viário. A ampliação da malha viária encontra limitações justamente nos bairros onde há maior concentração de edifícios, o que exige outras medidas para melhorar a circulação.” No bairro Americano, a verticalização acompanha a expansão do comércio e da gastronomia. Para o presidente da Associação de Moradores, Adair Ruppenthal, o processo contribui para a valorização imobiliária e deve avançar

nos próximos anos. “O bairro Americano passa pela transformação comercial, e a verticalização torna a valorização acima da média uma constante na história da cidade”, avalia. O adensamento também fortaleceu a oferta de restaurantes e estabelecimentos de entretenimento. “Grande parte das opções gastronômicas se concentra aqui, e a vida noturna da cidade é no bairro Americano.” Ruppenthal aponta, porém, a necessidade de investimentos para acompanhar o crescimento. “O maior desafio são as obras de

O avanço dos prédios precisa ser acompanhado por investimentos como energia, água, saneamento e mobilidade, além de serviços e equipamentos públicos”

O bairro Americano passa pela transformação comercial, e a verticalização torna a valorização acima da média uma constante na história da cidade”

O avanço da verticalização coloca em discussão a capacidade do município de adaptar ruas, redes de infraestrutura, serviços e espaços públicos”

CÍNTIA AGOSTINI DOUTORA EM DESENVOLVIMENTO REGIONAL

ADAIR RUPPENTHAL PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DO AMERICANO

MARA CRESTANI GOERGEN PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DO UNIVERSITÁRIO

Concentração e mobilidade O secretário de Planejamento, Urbanismo e Mobilidade, Alex Schmitt, afirma que a verticalização ocorre principalmente em regiões com maior oferta de comércio e serviços. São Cristóvão concentra o maior número de novos empreendimentos, seguido por Universitário, Centro, Americano e Florestal. “O Plano Diretor de 2020 adotou a estratégia de descentralização. Os bairros com maior desenvolvimento em termos de verticalização refletem a melhor estrutura de disponibilidade de comércio e serviços”, explica. Para Schmitt, o aumento da concentração de moradores


Rotina na propriedade da família Verruck remonta à fase de predominância rural no município

Onde o clima de interior se confunde com a metrópole Com um cenário urbano predominante, Lajeado ainda preserva locais com ares de colônia. Bairros que possuem pequenos recortes de propriedades rurais dividem espaço com o crescimento constante da cidade

O

desenvolvimento exponencial dos últimos anos consolida o município como uma potência nas áreas da indústria e serviços. Conforme dados divulgados pelo governo municipal, cerca de 97% do território da cidade é considerado urbano, o que sufoca a zona rural, outrora grande força econômica e social. Por outro lado, existem localidades que evidenciam a diferença entre a urbanização crescente e a preservação de um ambiente mais tradicional. Mesmo assim, ainda resistem pequenos núcleos onde a chamada “vida no campo” se mantém e compartilha espaço com o crescimento de Lajeado. De forma oficial, apenas a região do Alto Conventos é caracterizada como zona rural, mas em bairros como Carneiros, Igrejinha e São Bento

“São poucas áreas, que se confundem com outros municípios, como no bairro São Bento. Mas ainda temos em alguns locais essa vibe de interior, vacas no pasto, galinhas, etc.”, menciona Valandro. Em paralelo a isso, existe produção agrícola consolidada em zona urbana com atividade rural comprovada. Um fator que fez Lajeado perder área de interior, foram as emancipações dos últimos 40 anos. Desde então, sete municípios se desmembraram, todos eles com maior característica rural: Boqueirão do Leão, Progresso, Santa Clara do Sul, Sério, Marques de Souza, Forquetinha e Canudos do Vale.

Somado a isso, a expansão da infraestrutura faz com que regiões mais afastadas do Centro da cidade ganhem um aspecto urbano mais destacado. Na contramão desta tendência, está a família Verruck, do bairro Carneiros. O principal responsável por tocar as atividades na propriedade é Sigmar Henrique, de 57 anos, nascido e criado no local. Os desafios de manter o ritmo produtivo e impedir que o trabalho pare geram um misto de sentimentos no agricultor. Enquanto há resiliência para se manter na ativa, o contraponto está no saudosismo dos momentos mais propícios à produção agrícola. A rotina simples não permite maiores descansos, com uma escala de trabalho praticamente sem folgas. Hoje, as atividades estão voltadas à produção leiteira, mas nem sempre foi assim. “O pai trabalhava antigamente com suínos, mas depois foi mudando para o leite”, lembra Verruck. Outra área com a característica rural é de Matheus Schneider, que atua junto com os pais no bairro Imigrante, em um modelo de sucessão familiar. A rotina também está voltada à produção leiteira, onde em julho teve mais de 38 mil litros de leite comercializados. FOTOS: JHON WILLIAN TEDESCHI

também existem propriedades rurais, onde os colonos mantêm atividades no setor primário. Em boa parte, são famílias que dão sequência ao trabalho historicamente desenvolvido por pais e avós. O secretário de Desenvolvimento, Inovação e Agricultura do município, Jairo Valandro, cita que o Plano Diretor define as diretrizes do zoneamento e regiões como Alto Conventos não podem ser loteadas. “Temos muitas áreas encravadas em zona urbana que mantêm características agrícolas e se equiparam a uma zona rural, consideradas áreas rurais em zoneamento urbano”, explica. Quanto ao bairro Carneiros, o gestor menciona que devido às enchentes, o local se tornou uma Zona Especial. Próximo aos limites do

município, com as vizinhas Santa Clara do Sul e Forquetinha, também são encontrados lugares com essas condições.

Trabalho diário está focado na produção leiteira nas áreas dos bairros Carneiros e Imigrante

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Como Lajeado será

em 2040?

Adensamento das áreas consolidadas e expansão devem redesenhar a cidade. Mobilidade, infraestrutura, habitação e adaptação climática entram no centro das decisões sobre o próximo ciclo de crescimento

C

omo será Lajeado daqui a 15 anos? A resposta depende de decisões que precisam ocorrer antes de 2040. Os dados atuais indicam dois movimentos: maior ocupação de áreas urbanizadas e avanço para novas regiões, sobretudo no oeste, onde se concentra parte dos loteamentos aprovados. Os números mostram uma cidade que deve avançar em mais de uma frente, com maior densidade nas regiões consolidadas e expansão para áreas ainda pouco ocupadas. O cenário, porém, não depende apenas da oferta de terrenos. As enchentes alteraram os critérios. Mobilidade, drenagem, saneamento, habitação, equipamentos e segurança climática passaram a fazer parte da equação.

Bairros do futuro O mapa projetado para 2040 aponta mais de um bairro como protagonista. A tendência indicada é de uma cidade policêntrica, com diferentes áreas de concentração de comércio, serviços, moradia e empregos. O Centro deve manter a posição econômica, seguido por

São Cristóvão e Conventos. A expansão, contudo, pode alterar a importância dessas áreas. O Plano Diretor, atualizado em 2020 prevê centralidades em Olarias, Jardim do Cedro, Moinhos d’Água, Bom Pastor e São Bento. A proposta distribui atividades pelo território e reduz a dependência do Centro para serviços e comércio. A limitação territorial de Lajeado também deve favorecer a verticalização e o aproveitamento de áreas urbanizadas. Em vez de uma expansão horizontal, o município tende a combinar novos loteamentos com maior ocupação de regiões que já contam com infraestrutura. Para o secretário de Planejamento e Mobilidade Urbana, Alex Schmitt, o crescimento deve ocorrer por meio de dois movimentos. “A gente tem verticalização e adensamento das regiões que estão urbanizadas, além da ocupação de novas áreas, sobretudo a oeste.” O secretário de Desenvolvimento Econômico, Jairo Valandro, também aponta a região de influência da Ponte dos Vales como área com potencial para o próximo ciclo de crescimento. Floresta e Jardim do Cedro aparecem entre os pontos de interesse, assim como o entorno

A gente precisa fazer com que as novas áreas tenham conexão com a malha existente. Não adianta criar um loteamento sem pensar na via que vai ligar aquele espaço ao restante da cidade.” ALEX SCHMITT SECRETÁRIO DE PLANEJAMENTO E MOBILIDADE URBANA

do novo aeroporto, em Cruzeiro do Sul, com possibilidade de atração de atividades de logística.

Conventos já está em expansão e projeção é de ainda mais crescimento nos próximos anos

Mobilidade no limite Em contrapartida, o avanço da ocupação urbana deve pressionar o sistema viário. Para Schmitt, a expansão exige novas conexões entre lotes, abertura de vias e ampliação da malha viária. O objetivo é formar uma rede com diferentes alternativas de deslocamento. “O que a gente precisa é fazer com que as novas áreas tenham coFILIPE FALEIRO

nexão com a malha existente. Não adianta criar um loteamento sem pensar na via que vai ligar aquele espaço ao restante da cidade”, afirma Schmitt. Em relação a isso, ele destaca a expansão de bairros limítrofes com outras cidades. O município também prepara o Plano Municipal de Mobilidade. A Política deve ser encaminhada à câmara em 2027. Regiões distantes dos principais equipamentos públicos podem exigir mais investimentos e aumentar a dependência do automóvel.

Clima muda o mapa As enchentes dos últimos anos introduziram uma variável que não aparecia com a mesma força nas projeções anteriores. A legislação urbanística restringe a ocupação de áreas abaixo da cota de 27 metros, mas os eventos extremos mostraram que o risco não depende apenas da altura da água. A enchente de 2024 chegou a 33,67 metros e atingiu setores antes considerados seguros. Estudos também identificaram áreas sujeitas a correnteza e arraste, com capacidade para provocar danos mesmo fora das regiões tra-

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dicionais de inundação. Por isso, o município pretende atualizar o zoneamento a partir de estudos hidrodinâmicos dos rios Taquari e Forqueta e de levantamentos sobre áreas de risco. O objetivo é estabelecer critérios precisos para definir onde a ocupação pode ocorrer. “O planejamento precisa considerar o risco real de cada área. Não basta olhar apenas para a cota. Precisamos entender a dinâmica, a correnteza e o impacto de cada evento”, afirma Schmitt. A estratégia apresentada pela pasta inclui a retirada de moradias em áreas de maior vulnerabilidade, a criação de parques lineares e a destinação de terrenos desocupados para usos públicos.

Infraestrutura antes Para representantes da construção civil e do setor imobiliário, a tendência de crescimento aparece de forma clara. A posição de polo regional e a proximidade com outros centros econômicos ajudam a sustentar a procura por imóveis e novos empreendimentos. O sócio-diretor da Imobiliária Arruda e Munhoz, Marco Antônio Rozas Munhoz, projeta maior presença de edifícios e verticalização. Para ele, a transformação exige uma relação direta entre novos empreendimentos e capacidade de atendimento da infraestrutura. “Em uma área onde morava uma família, com um edifício, moram


FELIPE NEITZKE

ENTREVISTA LUIZ EGON RICHTER • mestre em Desenvolvimento Regional

Onde Lajeado pode crescer? – Adensamento: Centro, São Cristóvão, Universitário e áreas consolidadas; – Expansão: Conventos, São Bento, Floresta, Moinhos d’Água, Jardim Botânico e Jardim do Cedro; – Centralidades previstas: Olarias, Jardim do Cedro, Moinhos d’Água, Bom Pastor e São Bento

Do presente a 2040 2020: Plano Diretor

estabelece novas centralidades

2023: enchentes alteram a

percepção sobre áreas de risco

2024: cheia atinge 33,67 metros 30 famílias. Junto com isso, deve ter uma infraestrutura adequada”, aponta Munhoz. O empresário atribui parte do potencial à proximidade com polos econômicos da Serra e da Região Metropolitana. Também cita a oferta de serviços, trabalho, saúde e educação como fatores de atração de moradores. “Enquanto tiver os carros-chefes da economia, isso vai trazer muita gente. Vêm muitas pessoas qualificadas de fora. Sem contar que é uma cidade segura, com universidade, hospital de qualidade e ensino excelente”, acrescenta. Para Munhoz, as próximas décadas também devem trazer mudanças para o Centro. O empresário avalia que a região precisa de uma nova organização para manter relevância diante do avanço de outros bairros. Entre as áreas com potencial de crescimento, cita Universitário, Conventos, Moinhos d’Água e Jardim Botânico. A gerente da Imojel Construtora e Urbanizadora, Amanda Pohl, também identifica espaço para expansão em diferentes regiões, mas ressalta que grande parte dos bairros já conta com ocupação residencial e equipamentos urbanos. A vulnerabilidade climática também interfere nas projeções do setor. Áreas com maior segurança diante das enchentes podem ganhar demanda por imóveis, enquanto regiões de risco tendem a enfrentar mais restrições. “Nem é preciso dizer que auto-

maticamente as pessoas se realocam em locais que não possuem potencialidade para esse risco, ou seja, os bairros mais altos. Por sorte, esses mesmos bairros localizados em cotas mais altas também possuem potencial de expansão urbana”, conclui Amanda.

Papel do Plano Diretor O documento define áreas de ocupação e orienta a distribuição de atividades. As novas projeções, porém, exigem atualização diante das mudanças registradas nos últimos anos. Para o município, o próximo passo será integrar as regras aos novos mapas de risco e aos estudos de mobilidade. A revisão também precisa considerar o equilíbrio entre crescimento econômico, infraestrutura, preservação ambiental e segurança, avalia Schmitt. A resposta passa pela integração entre Plano Diretor, Plano de Mobilidade, política habitacional e planejamento ambiental. A falta de articulação entre essas áreas pode gerar novos pontos de congestionamento, déficit de serviços e ocupações incompatíveis com o risco climático.

Cidade descentralizada A verticalização tende a ganhar espaço nas áreas consolidadas, enquanto novas centralidades podem reduzir a concentração de

2025 – 2026: avanço de loteamentos e licenças

2027: previsão de envio do Plano Municipal de Mobilidade à Câmara

2040: horizonte

das projeções urbanas

comércio e serviços no Centro. O comércio também pode ampliar a presença nos bairros, com redes de conveniência e serviços próximos das áreas residenciais. A mobilidade, o transporte e as soluções baseadas na natureza também devem ganhar espaço no planejamento. Parques lineares, áreas verdes e espaços de convivência assumem funções de lazer, drenagem e proteção. O resultado depende da capacidade de antecipar problemas. Lajeado ainda tem áreas para crescer, mas as enchentes mostram que nem todo espaço disponível representa espaço adequado para ocupação. Em 2040, o mapa urbano contará com prédios, novos bairros, diferentes centralidades e rede viária com novas conexões. As decisões tomadas na próxima década devem definir não apenas onde Lajeado cresce, mas a qualidade desse crescimento.

“Se planejarmos agora e tivermos esses cuidados, Lajeado chegará a 2040 como uma cidade que oferece uma excelente qualidade de vida dentro de seus limites territoriais.” Como você percebe o crescimento de Lajeado no período de 2010 a 2025? Lajeado, em sua origem, surgiu de forma desordenada, crescendo conforme a demanda por moradias. Ruas foram traçadas e lotes vendidos a partir de áreas rurais maiores, como ocorreu no bairro Moinhos. Embora tenha havido pontos estratégicos no passado, como a largura da Júlio de Castilhos, o crescimento recente se deu para bairros como Conventos, Carneiros e São Cristóvão. O São Cristóvão, inclusive, está se tornando um “novo centro” na região da Avenida Piraí. Atualmente, percebo que estamos esgotando o território. Restam poucos espaços como o São Bento e o fim de Conventos, antes de atingirmos os limites rurais formais. A população saltou de cerca de 75 mil em 2010 para quase 100 mil hoje. Você acredita que essa tendência de crescimento acelerado e verticalização continuará até 2040? Tenho dúvidas sobre um novo “salto” demográfico. O crescimento depende da economia e da capacidade da cidade de oferecer sustentabilidade e empregos. Além disso, o crescimento populacional está diminuindo. As pessoas têm menos filhos e Lajeado se destaca nacionalmente como uma cidade onde se encontra qualidade para envelhecer. Muitos jovens se formam e buscam oportunidades em capitais ou no exterior. Portanto, a tendência parece ser de um crescimento mais lento e focado na ocupação dos espaços restantes. Um ponto sensível nas recentes enchentes foi o impacto sobre imigrantes e populações que ocupam áreas marginais. Como integrar esse público no crescimento da cidade? É uma questão de política pública. O acesso à casa própria e aos serviços depende do Estado propiciar condições, não apenas “dar”. Frequentemente, essas populações acabam ocupando espaços que foram desvalorizados pelas cheias. Houve uma

desvalorização patrimonial bárbara com as enchentes recentes. O ideal seria que o município tivesse recursos para desapropriar áreas alagáveis e transformálas em parques, garantindo que as pessoas não morem ou trabalhem em locais de risco. Como Lajeado deve repensar o modelo urbano para ser mais resiliente? O modelo de cidade que temos até agora se esgotou e não serve mais. Precisamos repensar a cidade de forma macro, holística e equilibrada. Isso envolve aceitar a resiliência: em certos locais, a água vai subir, mas a estrutura deve permitir que ela desça com o mínimo de danos e custos. Precisamos de uma discussão democrática para rever a legislação urbanística. Se a lei permite algo que gerará problemas no futuro, ela deve ser alterada. Temos uma responsabilidade social com as futuras gerações. O que é prioritário para que a expansão em bairros como São Bento e Conventos seja bemsucedida? Planejamento estratégico. Não se trata apenas de abrir loteamentos, mas de pensar na contrapartida de infraestrutura: transporte público, energia, escolas e postos de saúde. Além disso, precisamos equilibrar a verticalização com espaços verdes, como o Parque do Engenho. Quem mora em apartamento carece de áreas de lazer, e isso é fundamental para a qualidade de vida. Se planejarmos agora e tivermos esses cuidados, Lajeado chegará a 2040 como uma cidade que oferece uma excelente qualidade de vida dentro dos limites territoriais.

O crescimento depende da economia e da capacidade da cidade de oferecer sustentabilidade.”

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