

Percepção de risco


Os gestores públicos de Lajeado e Encantado estão diante de um grande
descontroladas de áreas de risco. O programa da ONU tenta comprome-
política da resiliência.
A gestão de riscos surge quando os eventos meteorológicos chegam e com eles os prejuízos humanos e materiais. É quando os moradores de áreas alagadiças precisam sair e levar o que podem de suas casas.tência de uma atuação planejada. A construção de conjuntos habitacionais por meio de programas so-da. Quando uma família sai, outra ocupa o barraco.
Na campanha, medidas estruturais e de planejamento são levadas a cabo. Seus conceitos se baseiam na Estratégia Internacional para a Redução de Desastres (Eird). A intenção da ONU é forçar os gestores a se precaverem.
Os dez passos do plano de resiliência são claros. Avaliam a segurança de todas as escolas e postos de saúde da cidade, ocupação das áreas
populares em lugares seguros. Doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pela UFRGS,ma: a região é a que mais decretou situação de emergência nas últimas décadas. É alta a frequência de casos extremos de tempestades e cheias no Taquari. É preciso investir em previsão, novas regras urbanísticas e estratégias econômicas para o enfrenta-

mento das crises.
Falta sensoriamento remoto dos desastres, drenagem e controle de cheias. A construção de diques é muito cara e provoca a falsa sensação de segurança da cidade que vai crescer em torno deles.
No aspecto psicológico, a recapacidade de resolver problemas e superar obstáculos, resistindo estresse psicológico. Serve para otimismo e a empatia. No viés das
sistemas de adaptação na família e nos círculos sociais e culturais.
Cidades Resilientes serão consideradas aquelas que executam os dez compromissos do progra-
por 168 países, no Marco de Ação de Hyogo. Cidades devastadas por dão o alerta. Filipinas e Japão são países marcados por catástrofes. E o exemplo de recuperação e preparo em novos eventos meteorológicos deve ser seguido.
Lajeado e Encantado assumem o compromisso, mas precisamos melhorar a capacidade de enfrentamento da crise, de superação das dificuldades resultantes das
É urgente o investimento em previsão, controle das precipitados espaços de risco e realocação da população pobre. Um método de recuperação e adaptação deve ser planejado para reduzir os riscos e prejuízos materiais e humanos.
A hora da leitura
Gestão de Áreas de Risco e Desastres Ambientais - IGCE
Autor: Solange Lima Guimarães, Salvador Carpi
Junior, Manuel Godoy e Antonio Carlos Tavares.
Descrição: reúne trabalhos relacionados aos riscos ambientais, enfatizando proteção, prevenção e precaução de elementos relacionados à natureza, aos riscos e preparação para emergências e o mapeamento de áreas


Mudanças Climáticas e Resiliência de Cidades
Autores: Fátima Furtado, Luiz Priori Jr, Ednéia Alcântara
Descrição: o livro evidencia a importância do tema das mudanças meteorológicas globais para as cidades e seus habitantes. Enfoca, principalmente, a necessidade de se elevar o nível de resiliência urbana, tanto nos aspectos socioculturais como em termos de ambiente físico, natural ou construído. O principal objetivo é oferecer aos leitores uma pumudanças no clima, desastres gerados por eventos extremos e políticas públicas de gestão de cidades.
Dano Ambiental Futuro –a responsabilização civil pelo risco ambiental
Autor: Délton Winter de Carvalho
Descrição: na obra, o autor soube conduzir sua investigação ao reinterpretar o sistema da responsabilidade civil em face da crise ambiental e das novas tarefas na gestão de riscos e danos intoleráveis. O livro traz a investigação na constatação jurídica do risco ambiental e das novas necessidades preventivas do direito ambiental, principalmente do sistema de responsabilidade civil em relação ao dano ambiental futuro.
Índice



Diques não solucionam problemas das cheias.
O caderno A HORA DA TERRA é uma publicação do jornal A Hora do Vale.
Direção Editorial: Fernando Weiss
Coordenação e produção: Anderson Lopes
Arte: Gianini Oliveira

Cidades Resilientes Como a ONU quer preparar as cidades para grandes catástrofes. 4
Reprodução dos conteúdos só com autorização expressa do jornal. Tiragem: 10 mil exemplares impressor (ZH Editora Jornalística)
Diques
Em sua tese de doutorado, Guilherme Garcia de Oliveira apresentou análise da demanda hídrica no futuro, considerando projeções de mudanças meteorológicas e alterações socioeconômicas.
Doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS e professor de Engenharia Ambiental pela Univates, Oliveira ministra disciplinas nas áreas de hidrologia, climatologia e gestão ambiental.
Também atua no curso de pós-graduação em Geoprocessamento da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) e está inserido em projetos de pesquisa relacionados à modelagem, espacialização e previsão de eventos extremos hidrometeorológicos.
No 5o Workshop do Projeto de Desenvolvimento de uma Estratégia Integrada de Prevenção de Riscos Hidrológicosda Bacia Taquari-Antas, realizado em outubro na Univates, Oliveira alertou os gestores “É preciso desenvolver políticas voltadas à resiliência cidades sustentáveis.”
Lajeado e Encantando aderiram à campanha nacional Construindo Cidades Resi-

lientes: Minha Cidade Está se Preparando durante o evento e pretendem se precaver das cheias que estão por vir. “Precisamos melhorar a capacidade de enfrentamento da crise, de superação das inundações.”
De acordo com o professor, nos dois municípios, o caminho ainda é longo. “Ainda tem muito para ser feito em termos de previsão e alerta de eventos extremos, novas diretrizes urbanas para impedir construções em áreas de risco.” São necessárias es-
remoção das pessoas e recuperação das áreas atingidas.
Conforme os resultados apresentados no estudo da -
-Antas, as medidas estruturais não são as melhores opções para controle de inundações.
De acordo com Oliveira, as simulações das construções de diques e barragens não apresentaram resultados satisfatórios, considerando o custo-benefício. “Temos que investir em previsão, alerta

não seriam solução
urbanísticas.”
A busca de estratégias econômicas para o enfrentamento das crises focou na necessidade de remover de forma gradativa dos moradores das áreas de risco, iniciando pelos casos mais graves.
“Nessas áreas, o poder público deveria repensar a utilização, com a possibilidade de implantação de parques que podem servir de amortecimento das cheias.”
Para o professor, o Vale do Taquari é uma das regiões que mais decretou situação de emergência nas últimas décadas, o que indica uma frequência muito elevada de casos extremos hidrometeorológicos.
“A adesão a esse programa da ONU é interessante se a cidade realmente repensar as suas estratégias de enfrentamento dos desastres naturais, buscando soluções efetivas para reduzir os impactos e acelerar a recuperação das áreas afetadas.”
Se não forem adotadas novas estratégias, tanto na ocupação urbana quanto na modificação das diretrizes e fiscalização de ocupações irregulares, dificilmente a resiliência dos municípios será efetivamente modificada. “Trata-se de um problema muito mais de cunho econômico e político do que técnico.”
Precisamos melhorar a capacidade de enfrentamento da crise, de superação das das inundações
Guilherme Garcia de Oliveira PROFESSOR
Segundo ele, no caso do Vale do Taquari, a construção de diques está descartada em virtude de ser mais íngreme e ter o rio bem encaixado. Seria necessário um dique muito alto e extenso. O IPH/UFRGS testou e comprovou que o gasto efetivo para a construção não seria compensado, nem mesmo a longo prazo.

“Isso sem contar que o dique pode causar uma falsa sensação de segurança e fazer com que a cidade cresça próxima ao dique, e se esse falhar, as perdas são muito maiores do que não tendo o dique, visto o caso de Nova Orleans, quando o furacão Katrina mostrou que os diques não eram seguros o
Para tornar o sistema mais necessário um número maior de pluviômetros, linímetros (para registrar os níveis dos rios), de leituras de vazão e dados altimétricos mais precisos das planícies de inundação para aumentar a precisão dos mapas realizados.
O principal ponto, entretanto, é utilizar os zoneamentos de áreas suscetíveis às inundações no planejamento urbano, visando impedir construções.
No RS, todos os anos, centenas de famílias se expõem a esse fenômeno, por negligência ou falta de conhecimento dos órgãos públicos responsáveis.
“Em muitos municípios, inundação, mais pessoas acabam sendo retiradas de casa, em virtude da permissividade dos planos diretores.”

Municípios aderem à Cidades Resilientes
Éna tempestade, no alagamento e nas catástrofes naturais que a inexistência de uma gestão de riscos aparece. Trânsito lento e confuso, quedas no fornecimento de energia e telefonia são alguns
Perigo maior corre a população pobre, que mora em áreas de risco. Em situações extremas, a falta de um planejamento aumenta os prejuízos dos desastres naturais. As cheias do Rio Taquari Lajeado e Encantado aderirem ao regime de antecipação e redução de danos proposto pela ONU.
A campanha nacional Construindo Cidades Resilientes: Minha Cidade Está se Preparando Cidades Resilientes foi a saída para se precaver e aprender com as mudanças repentinas. Consiste em incentivar gestores públicos a adotar dez passos para dirimir os impactos das catástrofes naturais. Cinco deles foram traçados no Marco de Ação de Hyogo – evento realizado em 2005 que reuniu 168 países, incluindo o Brasil. As cidades-modelos ganharão destaque, facilitando Os conceitos se baseiam na Estratégia Internacional para a Redução de Desastres

(Eird), das Nações Unidas. No Brasil, a campanha já atraiu 450 municípios. Ampliar a resiliência de uma cidade passa necessariamente por cidadãos mais preparados para enfrentar eventos extremos.
De acordo com o professor da Univates, Guilherme Garcia de Oliveira, o Vale do Taquari é uma das regiões que mais decretou situação de emergência nas últimas décadas.
“É preciso um número maior de pluviômetros, linímetros, para registrar os níveis dos rios, e leituras de
vazão e dados altimétricos mais precisos das planícies de inundação.”
A falta de alertas para eventos extremos e de planejamento para impedir construções em áreas perigosas é questão prioritária.
No 5o Workshop do Projeto de Desenvolvimento de uma Estratégia Integrada de Prevenção de Riscos Hidrológicos da Bacia Taquari-Antas, realizado em outubro na Univates,
no Controle de Inundações, Gestão de Risco e Estratégia Integrada para Prevenção elucidaram a resiliência.
A
vida na área de risco
O amontoado de casebres feitos de retalhos de madeiras e compensados revela o drama das famílias pobres que dividem entre si o pouco espaço entre o arroio e a rodovia. Na área onde moram, às margens da RS-130, falta água encanada, energia elétrica, acessibilidade.
Trata-se de um ambiente insalubre, sem banheiros, nem dignidade. As famílias tiram o sustento da reciclagem, enquanto
lixo espalhado por todos os lados.
O papeleiro Sigmar Dienstmann, 53, mora no local faz 13 anos. Depois que seu barraco pegou fogo, no início de outubro, passou a morar de favor com o vizinho.
Desde o incidente, está sem energia elétrica. Os pedidos de religação à companhia elétrica foram negados. A área onde mora está na faixa de domínio do Daer. Mesmo assim, Sigmar não quer sair dali para viver em um conjunto habitacional.
Ele teme pela vida drogas. No casebre, consegue ter mais controle sobre ele. Os corredores estreitos que separam os barracos são tomados por lixo, animais, insetos e esgoto a céu aberto. Por meio deles, é possível chegar às últimas casas. É lá onde mora Geneci Salete da Silva, 43, uma das contempladas com um apartamento no Jardim do Cedro pelo Minha Casa Minha Vida. Ela teme que os netos sejam atropelados, morando à beira de uma rodovia de tráfego intenso.
Silva Barros, 19, é outra sorteada. As duas famílias somam sete pessoas, entre elas, duas crianças de 2 e 3 anos respectivamente. “É ruim quando chove e faz frio. Sempre entra água dentro de casa”, conta dona Geneci. A espera pelo apartamento já dura mais de ano. Enquanto não se concretiza, a família segue às margens da rodovia e da sociedade.

Resiliência das cidades passa obrigatoriamente pela redução da pobreza
ANDERSON LOPES
A resiliência é a capacidade de adaptação a mudança repentina. É comum associar o termo às grandes catástrofes. As dez medidas propostas pela ONU preveem a diminuição da pobreza, o surgimento de oportunidades comerciais e a garantia e equilíbrio dos ecossistemas. O objetivo é -
rem mudanças profundas no desenvolvimento e planeja-
mento de suas cidades. O secretário de Desenvolvimento de Encantado, Rober-
anos as frequentes inundações no bairro Navegantes motivaram a construção do bairro Nova Morada. Seria
Os moradores, alguns vivennão quiseram se mudar. A distância do rio, do tra-
oferecidos no centro pesaram. Alguns dias por ano fora de casa compensava. De acordo com a secretária de Planejamento de Lajea-dade consiste em impedir novas construções em áreas impróprias.
pedir novas ocupações dessas áreas de risco.
Eles não querem sair dali porque são acostumados a sair de casa por alguns perto do centro.
Roberto Pretto
Em situações extremas, o despreparo é arrebatador. Experiências vindas das Filipinas, Japão ou EUA são utilizadas como diagnósticos. Como Lajeado e Encantado inórgãos públicos e privados, comunidade, cooperativas etais devem ter uma postura
ca da região atingida, a área inundável e o padrão de ocupação do solo precisam estar de evacuação. Especialistas alertam: na Bacia do Rio Taquari-Antas,
para surgirem as primeiras inundações na cidade.


Avenida Décio Costa é atingida por cheias sazonalmente
ANDERSON LOPES

Prevenção às catástrofes
Após quatro dias de debates e uma sessão de negociações de mais de 30 horas, os 187 países que compareceram à Terceira Conferência Mundial da ONU para a Redução de Riscos de Desastres, realizada em março deste ano no Japão, assinaram um termo de compromisso.
A cidade japonesa de Sendai testemunhou a adoção da Declaração de Sendai e o Marco para a Redução de Riscos de Desastres 2015-2030. A intenção é reduzir mortes e deslocamentos causados por desastres naturais. Ficou clara a necessidade de uma série de ações para antecipar, planejar e reduzir o risco, protegendo as comunidades
e países de forma mais efetiva. Ampliar a resiliência é uma medida que passa pelas dez propostas da ONU – cinco delas dessa conferência.
A chefe do Escritório de Redução do Risco de Desastres, departamento das Nações Unidas, Margareta Wahlström, assegurou que nos próximos 15 anos serão necessários comprometimento, liderança política e diminuição do número de pessoas afetadas e perdas em relação ao PIB global. Para Margareta, nos países membros, é imprescindível o cumprimento do acordo, o que depende do incansável esforço para tornar o mundo mais seguro às gerações futuras.
Ampliar a resiliência é uma medida que passa pelas dez propostas da ONU

Vale do Taquari é a região que mais registrou situações de emergência
ANDERSON LOPES

Exemplos de experientes
As posturas das cidades devem ser inspiradas em exemplos como o de Albay, nas Filipinas – país asiático que registrou mais mortes devido a eventos dessa natureza. O supertufão Haiyan matou pelo menos seis mil pessoas e causou um prejuízo de US$ 13 bilhões na economia.
Hoje as agências da ONU elogiam a preparação do governo das Filipinas para lidar com o tufão Koppu e mais de 55 mil pessoas que foram evacuadas de regiões vulneráveis. Alertas emitidos com antecedência contribuíram
para redução da mortalidade da população afetada pelo ciclone tropical.
Albay tem visto uma onda de investimentos, mesmo depois dos tufões e das erupções vulcânicas. A adaptação às mudanças meteorológicas e a redução de riscos permitiram o desenvolvimento mesmo em meio aos desastres.
O Índice de Risco Climático Global, da organização Germanwatch, que neste ano chega à décima edição, avaliou 182 países em quatro indicadores: número de mortes, total de óbitos a cada
grupo de cem mil pessoas, perdas do poder de compra e prejuízo ao PIB.
A Índia, por exemplo, registrou 7.437 mortes após a passagem do tufão Phailin, enquanto que Argentina enfrentou enchentes recordes em abril de 2013, além de forte estiagem no mesmo ano.
No Brasil, estados como Rio Grande do Sul, Alagoas, Goiás, Minas Gerais, Pernambuco, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e São Paulo organizaram a semana de atividades voltadas à conscientização.
Dez passos para uma cidade resiliente:
1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10.
Estabelecer alianças entre comunidades e sociedade civil. Incentivar segmentos sociais para compreender seu papel na construção de cidades mais seguras com vistas à redução de riscos e preparação para situações de desastres.
Elaborar documentos de orientação para redução do risco de desastres e oferecer incentivos aos moradores de áreas de risco: famílias de baixa renda, comunidades, comércio e setor público.
Manter informação atualizada sobre as ameaças. Avaliar riscos e utilizar como base os planos de desenvolvimento urbano. Garantir aos cidadãos acesso à informação e aos planos de resiliência.
Investir em infraestrutura para redução de risco, com enfoque estrutural. Obras de drenagens para evitar inundações e facilitar a adaptação às mudanças.
Avaliar a segurança de todas as escolas e postos de saúde e modernizá-los, se necessário.
Aplicar regulamentos sobre construção e princípios para planejamento do uso e ocupação do baixa renda.
Investir na criação de programas educativos e detres, tanto nas escolas como nas comunidades.
Proteger ecossistemas e zonas naturais para atenuar alagamentos, inundações e outras ameaças às quais a cidade seja vulnerável.
Instalar sistemas de alerta e aplicar gestão de emergências realizando, com regularidade, simulados com a participação de todos os habitantes.
Depois de qualquer desastre, atender as necessidades dos sobreviventes e concentrar esforços de reconstrução e meios de sustento dos atingidos.

ANDERSON LOPES
A campanha da ONU antecipa os problemas antes que aconteçam, amparando populações pobres
