Skip to main content

AH - Agronotícias | 20 e 21 de maio de 2017

Page 1


Natural é ser saudável

O alimento orgânico conquista cada vez mais clientes. Novos hábitos alimentares tornam o mercado promissor. Desafio é aumentar a oferta e garantir a certificação para atestar a qualidade e a procedência.

Páginas 12 a 15

Especial do jornal A Hora

Editorial

Mais saúde no prato

Abusca por alimentos livres de agrotóxicos faz o mercado de orgânicos passar imune à crise enfrentada no país. Preocupadas com a qualidade da alimentação que colocam à mesa, cada vez mais famílias optam em substituir os produtos industrializados por verduras, frutas, tudo cultivado de forma natural.

Envelhecimento, altas taxas de diabetes, doenças cardíacas e obesidade colaboram para a mudança de hábitos. Entre os grandes diferenciais da agricultura orgânica, está o manejo. Existe uma busca constante pela preservação dos recursos naturais, valorização da biodiversidade e da qualidade de vida humana. Essa prática agrícola se preocupa com a saúde dos seres humanos, dos animais, das plantas e do solo.

Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registram que a presença de produtos químicos nos alimentos brasileiros cresceu 115% entre 2002 e 2012. O Brasil é o país que mais consome alimentos com agrotóxicos no

Fomos muito longe com a industrialização e tudo está no controle de poucas pessoas.

Uma planta é um arsenal de saúde. Pode servir de alimento, mas pode ter vários outros fins, até remédio.

mundo, à frente até mesmo dos Estados Unidos. 1/3 dos alimentos consumidos no país tem níveis de agrotóxicos muito acima dos aceitáveis. E 64% desses produtos são considerados perigosos. Ciente dos malefícios, a população encontra nos orgânicos uma opção segura.

E motivos não faltam para consumir. São mais saudáveis, mais nutritivos, de sabor original, restauram a biodiversidade, protegem os recursos naturais, além de diminuir a emissão de gases que aumentam a temperatura terrestre. No entanto, o setor carece de mais apoio, de um selo para certificar a origem e atestar a qualidade. Outro desafio é elevar a oferta, sem descuidar dos princípios e valores que regem a cadeia produtiva.

A segurança alimentar e nutricional é um direito humano e deve ser garantida por intermédio de práticas que promovam a saúde e a sustentabilidade.

Índice

4 Programa de Inclusão Social e Produtiva no Campo – Foco no pequeno produtor

6

Safra de pinhão é 30% maior

8 Desestímulo na lavoura de trigo

10

12

Entrevista com Carlos Joel da Silva – Novo presidente do IGL

Orgânicos conquistam pela saúde

Tenho dito

Especialistas destacam a importância do Programa de Inclusão Social e Produtiva no Campo idealizado pela Cooperativa Languiru e demais entidades ligadas ao setor leiteiro e agricultura familiar.

Lino Moura –Diretor técnico da Emater

A assistência técnica é um fator fundamental para a manutenção das atividades e melhoria da renda dos produtores. A iniciativa contribui para que tenhamos menos famílias dependentes de projetos assistenciais. A sucessão rural e a permanência no campo dependem do apoio de todos, permitindo que a agricultura siga como o carro-chefe da economia brasileira.

Osmar Redin –Assessor especial da SDR

Mais de 90% da produção de alimentos do RS vem da agricultura familiar. É importante implantar políticas públicas que atendam aos anseios dos produtores. Precisamos reconhecer a agricultura como profissão, trabalhar pelo ‘empoderamento’ do produtor, um agricultor com apropriação tecnológica, renda e qualidade de vida, reduzindo o paternalismo e valorizando o associativismo e o cooperativismo.

José Máximo Daronco – Gerente do setor de Monitoramento do Sistema Ocergs/Sescoop-RS

O programa é indispensável no cooperativismo. A produção de alimentos no Brasil passa muito pelo trabalho das cooperativas. A Languiru possibilita assistência técnica e acesso a novas tecnologias aos seus associados produtores. Investe em infraestrutura para produzir alimentos em quantidade e com qualidade.

Fundado em 1º de julho de 2002

Vale do Taquari - Lajeado - RS

Diretor-geral: Adair Weiss

Diretor de Conteúdo: Fernando Weiss

Diretor de Operações: Fabricio Almeida

Programa lançado pela Cooperativa Languiru, de Teutônia, atende 210 famílias com produtividade média de 80 a 300 litros de leite por mês.

Objetivo é elevar a oferta e incentivar a diversificação, além de promover a permanência de jovens na atividade.

Foco no pequeno produtor

Envolto em dificuldades de mercado, que se somam à desconfiança após recorrentes casos de adulteração, o setor leiteiro tenta se recuperar. Indústria e produtores buscam alternativas e traçam estratégias para qualificar a atividade, aumentar a renda e evitar que milhares de famílias deixem a atividade.

Uma das ações voltadas para pequenos e médios produtores é idealizada pela Cooperativa Languiru em parceria com demais entidades ligadas ao setor. O Programa de Inclusão Social e Produtiva no Campo atenderá 210 famílias com produtividade média de 80 a 300 litros por mês, em 21 municípios onde a cooperativa atua.

Segundo o gerente regional da Emater de Lajeado, Marcelo Brandoli, em cada cidade, dez propriedades serão selecionadas e contarão com supervisão de extensionistas e técnicos. Eles farão coleta de indicadores técnicos, econômicos, sociais e ambientais. “Queremos evitar a exclusão de quem tem menor oferta e com a crise não conseguem reagir”, enfatiza.

Conforme dados da Languiru, no ano passado, 124 famílias deixaram a atividade. Segundo Brandoli, em algumas regiões do RS, a crise afastou cerca de dez mil produtores da cadeia produtiva. Nos vales do Taquari, Caí e Rio Pardo, mais de oito mil agricultores são responsáveis por produzir cerca de 400 milhões de litros de leite por ano. De acordo com o presidente da Languiru, Dirceu Bayer, a proposta busca dar sustentabilidade à pequena propriedade,

onde existe dificuldade de produzir volumes que compensem a captação da matéria-prima.

Segundo ele, o projeto é acima de tudo uma ação social. Quem não tiver viabilidade financeira no leite será orientado a migrar para outras atividades como produção de grãos, fruticultura, piscicultura, entre outras. “As frutas e verduras poderiam ser adquiridas pela cooperativa e revendidas nos supermercados. Hoje parte é comprada da Ceasa”, relata.

Queremos estimular o incremento na produção leiteira e a oferta de outras alternativas produtivas, como o milho. Apostamos neste caminho para promover a sustentabilidade e crescimento das pequenas propriedades.”

Eduardo Brune, 25, mora na Linha Berlim Fundos,

Dirceu Bayer

Westfália. Líder de núcleo da cooperativa, ele assume aos poucos a gerência da propriedade ao lado dos pais. É técnico em Agropecuária, formado pelo Instituto Federal de Bento Gonçalves (IFRS). Na propriedade, foram feitos investimentos para ampliar o faturamento e garantir a permanência de Brune. A produção atinge cerca de 21 mil litros ao mês, com um plantel de 30 vacas em lactação. A expectativa com o projeto é qualificar ainda mais as atividades. “Conhecimento é fundamental”, afirma.

Orientação
garantia de lucro

Marques de Souza, trabalhava como costureira em uma empresa de Arroio do Meio quando foi convidada pelo noivo Paulo Wommer para auxiliar na produção leiteira. “Nem tinha noção de como funcionava tudo”, lembra. Uma área de terras foi arrendada dos antigos patrões de Wommer. Na época, as 11 vacas em lactação rendiam apenas130 litros de leite diários e o casal quase desistiu da atividade. No entanto, a partir da visita de um técnico da Emater, começou a mudança. “Foram diversas ações, como análise de solo, acesso ao crédito e orientação técnica permanente. Tudo melhorou o planejamento e os resultados”,

Em 2015, Paola Closs, de
Casal de Marques de Souza, enfatizam a orientação técnica como fundamental para quebra de paradigmas e implantação de novas formas de gerir a atividade

ressalta o técnico em Pecuária, Diovane Cardoso.

Wommer recorda da resistência quanto às mudanças. “Quando foi embora, comentei com a Paola que nunca mais alguém viria dar pitaco aqui”, sorri.

Hoje a parceria e os investimentos em uma sala de ordenha, equipamentos como distribuidor de esterco líquido, um silo para armazenagem de ração e em ampliação de áreas de pastagens – contando com o acesso ao crédito por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), são responsáveis pela permanência na propriedade. “Quebramos paradigmas e nossa forma de trabalhar causa estranhez a muitos. Sem isso, muito provável teríamos desistido”, afirma.

Para qualificar ainda mais os processos, o casal foi incluído pela Emater no programa de Gestão Sustentável da Agricultura

Familiar da Secretaria de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo (SDR), do Governo do Estado. “Saber gerir, incentivar o protagonismo da juventude, da mulher na propriedade, aumentar

a renda e a qualidade de vida. Isso de fato mantém os produtores na atividade", comenta. Entre as mudanças, é destacada a implantação de pastagem permanente. A ação reflete em um

aumento de 196% de produção na litragem e de 81% na produtividade, no que diz respeito a litros por animal. Hoje as 18 vacas em lactação rendem uma média diária de 385 litros de leite.

Como funcionará

O programa é voltado para associados da Languiru

O produtor deve ter produção diária entre 80 e 300 litros

As inscrições ocorrem nos escritórios da Emater de cada município

Comitê Gestor faz a seleção e observará critérios como sucessão, apoio familiar, entre outros. Cada local receberá visita dos técnicos e passará por diagnósticos

Dias de campo, elaboração de planilhas de custo, disponibilidade de mão de obra, estrutura, dificuldades no manejo, na gestão estão entre os itens avaliados por uma equipe de 44 técnicos

LEANDRO HAMESTER/COOPERATIVA LANGUIRU
Bayer destaca a necessidade de qualificar os produtores e incentivar a diversificação de culturas nas propriedades

Preço nos mercados fica entre R$ 4,80 e R$ 9,80. Semente apresenta boa qualidade e produtividade. Na safra passada, quebra chegou a 60%. É uma boa fonte de lucro para muitas famílias.

Safra de pinhão é 30% maior

Com a chegada dos dias mais frios, o pinhão entra em cena. A safra deste ano é boa, com rendimento 20 a 30% superior ao de 2016.

Conforme a Emater/RS-Ascar, a média histórica por ciclo no RS é de 900 a mil toneladas. Conforme a engenheira florestal da Emater/RS-Ascar, Adelaide Kegler Ramos, a cultura neste ano, projetada em 900 toneladas, apresenta boa qualidade e produtividade em comparação ao ciclo anterior.

Isso ocorre devido às condições meteorológicas favoráveis, com horas de frio e ausência de chuva no período de polinização. “Observa-se pinhas de bom tamanho. O peso va-

ria entre dois e três quilos, em média”, salienta. Contudo, a safra atual ainda não é considerada “cheia”. Segundo Adelaide, por ser a araucária uma planta nativa, que não recebe manejo e nem a interferência do homem, está sujeita à flutuação de produção.

Observações no campo indicam que a árvore passa por ciclos de quatro a cinco anos, alternando volumes altos e baixos de pinhão. Mas as questões ligadas à meteorologia também interferem na oferta.

A colheita da semente é manual e representa importante fonte de renda para muitas famílias, além de ser um produto tradicional e alimento característi-

co para a população na região.

A engenheira florestal sugere ao produtor investir no beneficiamento, industria-

As araucárias precisam de frio e pouca chuva nos meses de agosto e setembro.”

Adelaide Kegler Ramos, engenheira florestal

lização e conservação do produto para aumentar o lucro e oferecer no período de entressafra. “A paçoca

pode ser vendida a R$ 15 o quilo. Infelizmente temos poucas ações nesse sentido”, analisa.

Oportunidade de negócio

A comercialização é toda informal, feita pelos extrativistas em diferentes mercados locais. No entanto, a maior parte ainda é negociada por meio de intermediários, que levam o produto para centros maiores.

Os preços pagos ao produtor nesta safra variam de R$ 2,50 a R$ 5. Nas fruteiras e supermercados, atingem até R$ 9,80 o quilo. Nas estradas, o valor médio é de R$ 6.

O agricultor Leonir Watte, de Venâncio Aires, tem em torno de 20 araucárias na propriedade. Colheu apenas 20 quilos na safra passada. Com o clima considerado ideal para a planta, a projeção é uma colheita próxima de 400 quilos. “Vendo a R$ 3,50 o quilo. É um bom rendimento extra para esta época do ano”, enfatiza.

Valdemiro Mânica vende até 500 quilos por semana. Produto é comprado do Paraná
GIOVANE WEBER

Entidades projetam queda na produção gaúcha de trigo. Liquidez do grão seguirá baixa neste semestre. Redução da área neste ciclo deve chegar a 10%.

Estimativa aponta para a semeadura de 727 mil hectares no RS.

Desestímulo na lavoura de trigo

Preço baixo, custos elevados, importação e estoques altos desanimam os triticultores. Neste ano, a área dedicada à principal cultura de inverno ficará menor, apontam os primeiros levantamentos do ciclo feitos por Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e Emater. Para a Conab, o recuo será de 10% (699, 2 mil ha). Para a Emater, de 6,49% (727,7 mil ha).

Com área menor, diminui também a produção.

Foram 2,49 milhões de toneladas em 2016, segundo a Conab, e 2,24 milhões de toneladas, conforme a Emater. Neste ano, serão 1,63 milhão e 1,76 milhão de toneladas.

Para Carlos Bestetti, superintendente da Conab no estado, a área só não será menor porque o produtor manterá a rotação de cultura para favorecer o cultivo de soja no verão.

Conforme o presidente da Emater, Clair Kuhn,

apesar do desestímulo, o produtor está consciente da importância de manter a cobertura do solo no inverno. “As áreas que deixarão de receber o trigo devem ser ocupadas por aveia, azevém, cevada e plantas forrageiras. São culturas de custo menor de plantio e que não deixam o solo desprotegido”, diz. Se forem considerados os rendimentos obtidos nos últimos anos, a produtividade média do trigo para o estado será de 2.420 kg/ ha, projetando um total de 1,76 milhão de toneladas para a safra 2017, caso as condições meteorológicas sejam favoráveis. Essa produção seria 26,71% menor que a do ano passado, quando foram colhidas 2,24 milhões de toneladas. “Essa significativa diferença na produção é explicada pela boa produtividade obtida no ano passado (3.132 kg/ha), embora a qualidade final do produto não tenha sido proporcional à produtividade”, avalia

Kuhn.

Paulo Pires, presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro), acrescenta que o baixo preço da soja também faz com que o agricultor busque uma

compensação com o trigo. A área apontada pela Conab é a menor desde 2006, quando somou 693,3 mil hectares. “É um retrocesso. Além das dificuldades de venda, queda no preço, o governo ainda reduziu em 3,6% o preço mínimo. Está em R$ 37,26. No mercado, o valor chega a R$ 28.”

safras de inverno, entidades começam a divulgar os primeiros e divergentes números sobre o encolhimento da cultura do trigo. Apesar de concordarem com a perspectiva de redução de área, a Emater e a Conab têm projeções diferentes para a produção final.

Nosso grão registrou PH de 82 e mesmo assim foi destinado para ração.

Martin Beuren, produtor

Lamenta o fato de o produtor não ter opção para substituir o trigo. É fundamental cobrir a terra e as demais culturas alternativas ainda não têm expressão econômica. Segundo Pires, o triticultor enfrentou problemas nas últimas três safras. Em 2014 e 2015, as condições meteorológicas foram adversas. No ano passado, o clima foi favorável, a qualidade e a produtividade foram históricas, no entanto, a comercialização trouxe percalços. “O produtor está desanimado. Mesmo com cereal com PH alto, ele sofreu desvalorização”, explica.

Com a aproximação do período de plantio das

No ponto mais extremo da queda está a Conab, que, em seu oitavo levantamento sobre a safra brasileira, estima queda de 34,6%, mesmo prevendo redução de somente 10% da área. Menos pessimista, a Emater, que também divulgou sua projeção no início do mês, acredita em redução inferior a 7% na área e de cerca de 20% na produção.

Para as outras culturas de inverno, o cenário é diferente: a aveia branca (230,7 mil hectares, alta de 1,32%), canola (com 52 mil hectares, mais 5%) e cevada (51,50 mil hectares, alta de 16,5%), segundo a Emater.

Foco no exterior

A Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Irrigação (Seapi) estuda alternativas para diminuir o impacto aos produtores. Segundo o coordenador técnico da Câmara Setorial do Trigo, Altair Hommerding, o governo, junto com entidades da cadeia produtiva, tenta encontrar soluções para melhorar a logística de mercado, aumentar a capacidade de armazenamento dos grãos e diminuir despesas portuárias, para facilitar a exportação do produto.

“Queremos melhorar a qualidade do trigo colhido para atrair novos mercados. Para isso, trabalhamos na segregação das cultivares, de modo a reduzir a mistura”, explica. Conforme ele, já existe orientação aos produtores para que cultivares de tri -

Consumo brasileiro em grão

10,9 milhões de toneladas

go com propósitos diversos sejam armazenadas em diferentes lugares.

“Lotes mais homogêneos vão conferir mais qualidade aos grãos. É importante fazer a segregação também desde o plantio”, adverte.

Valorizar a qualidade

O triticultor Martin Fernando Beuren (foto), de Santa Clara do Sul , começou a semeadura nesta semana. Plantará 150

hectares, dez a menos do que no ciclo anterior. A área será mantida pelas vantagens agronômicas que refletem nas culturas de verão como a soja.

Apesar da frustração com o preço da safra anterior, Beuren acredita

em um cenário positivo. “Depende muito da oferta e procura. Se houver perdas em outros países como a Argentina, podemos obter bons preços”, analisa.

Como principal desafio, cita a necessidade de valorizar e pagar um valor justo quando o grão é de boa qualidade. “Nosso grão registrou PH de 82 e mesmo assim foi destinado para ração. Vendemos a saca por R$ 25. É injusto desperdiçar o que produzimos e depois importar um trigo de menor qualidade para fazer farinha”, opina.

O trigo é a principal cultura de inverno. Beuren destaca que o retorno proporcionado pela aveia e canola é muito baixo, além da falta de tecnologias para aprimorar a colheita e a ausência de mercado consumidor na região.

Carlos Joel da Silva assume o comando do Instituto Gaúcho do Leite (IGL). Meta da nova diretoria é retomar o diálogo com indústrias e Estado na busca de soluções para a cadeia produtiva.

“Queremos reunificar o setor lácteo”

Abalado desde a interrupção do convênio para repasse de recursos do Fundoleite, o Instituto Gaúcho do Leite (IGL) busca novo fôlego, capaz de fazer a entidade existir novamente, tornar-se relevante ao setor e a quem o integra. Gilberto Piccinini, da Cooperativa de Suinocultores de Encantado (Cosuel), deixa o cargo.

Carlos Joel da Silva, presidente da Fetag, assume o comando. O objetivo é retomar o diálogo com indústrias e Estado, além de buscar a reunificação do setor desestruturado pelas sucessivas operações do Ministério Público.

O IGL foi criado em 2013 para realizar ações com a finalidade de aumentar a

em que o secretário da diretoria, Marcelo Roesler, foi preso. Com isso, os projetos que seriam executados foram suspensos.

A Hora – Quais as mudanças que precisam ser implantadas para o instituto retomar as

deiro papel, o que faremos e como podemos representar quem atua na atividade, seja produtor, empresário ou consumidor. Não queremos sombrear as entidades já existentes e sim auxiliar na busca de soluções.

Quais serão os princi-

pais desafios?

Silva – Unir as entidades para, juntos, desenvolver a cadeia. O segundo passo é tirar os fraudadores e assim terminar com as operações do MP. Manter quem realmente está comprometido na busca da qualificação, oferecer um produto cada vez mais saudável ao consumidor e assim conquistar novos mercados. Vamos nos reunir com o governo federal para definir regras quanto à importação de lácteos de países do Mercosul.

Como evitar a exclusão dos pequenos produtores e manter os jovens na atividade?

Silva – Focar a assistência técnica. Firmar parcerias com

a Emater, sindicatos, secretarias da Agricultura, cooperativas e indústrias. Levar conhecimento ao campo, garantir acesso à tecnologia, genética, qualificar o manejo, as pastagens, a sanidade, entre outros. Somente assim conseguiremos tornar viável a atividade e elevar a oferta de matéria-prima. Não teremos como manter as famílias na atividade com baixa litragem e sem infraestrutura precária. Com renda, será mais fácil manter ou até viabilizar o retorno dos jovens às propriedades.

Considerações finais

Silva – Temos que pensar no bem comum de todos. Deixar de lado as indiferenças e nos unir.

Com orientação técnica garantida e vendas em alta, agricultores buscam certificar cultivos. Segmento cresce devido às mudanças nos hábitos alimentares e à busca por produtos sem agrotóxicos. Desafio é elevar oferta e ter maior espaço nas gôndolas dos mercados.

Orgânicos conquistam pela saúde

Desde 2008, o Brasil ocupa a incômoda liderança no ranking mundial de uso de agrotóxicos. De acordo com a Anvisa, nos últimos dez anos, a utilização mundial desse tipo de substância aumentou 93%. No Brasil, o salto foi ainda maior –190%. São mais de 130 mil toneladas de defensivos agrícolas utilizados no país todos os anos. Mas, felizmente, o uso exagerado de agrotóxicos não é unanimidade. Existem excelentes iniciativas de cultivo orgânico que merecem ser compartilhadas – como a do casal de agricultores Hilário, 67, e Clair Eckert, 65, de Cruzeiro do Sul. Há mais de 45 anos, iniciaram a produção de hortigranjeiros de forma 100% orgânica. São os pioneiros em investir no segmento no Vale do Taquari.

Tudo começou na década de 70, quando Eckert participou de um curso técnico em Bom Princípio. Na época, administravam um mercado em Lajeado, no entanto, a produção de alimentos era a verdadeira vocação do casal. “Produzir, consumir, confiar, preservar, garantir a procedência e a saúde nossa e de quem compra. Nunca aplicamos agrotóxicos na lavoura”, orgulha-se Clair. No dia a dia, eles sentem a diferença na qualidade de vida. “Você entra na lavoura e sabe que não tem contaminação. Pode apanhar uma laranja ou co-

lher uma cenoura e comer ali mesmo. Será um produto saudável, sem veneno”, afirma.

A produção ocupa três hectares. São mais de 20 espécies. Tempero verde, alface, espinafre, couve, radicci, agrião, rúcula, cenoura, alho, rabanete, aipim, pimentão, brócolis, cebola, morango, entre outras.

O casal tem quatro filhos. Três migraram para a cidade. Maichel, 25, é o caçula e segue os passos dos pais. Auxilia no preparo dos canteiros, na formulação de receitas para conter pragas, no plantio,

Produzir orgânicos é uma questão de perfil e de compromisso com a qualidade de vida de todos.

na colheita e entrega nas fruteiras e restaurantes, a maioria localizada em Lajeado. Parte é vendida direto na propriedade.

O adubo utilizado é esterco de bovinos e suínos, além de composto orgânico. Clair lembra que na época em que iniciaram o cultivo eram pobres e nem tinham condições de comprar adubos. Recolhiam o esterco de gado do antigo campo de futebol do Clube 25 de Julho, localizado nas terras recebidas de herança dos sogros. Amparada por técnicos da Emater, a família avança com segurança e incentiva

outras a explorar a atividade. “Precisamos mudar o conceito de produzir, pensar na diversidade e na preservação dos recursos. Garantir um futuro melhor às novas gerações”, enfatiza Clair.

Controle à base de defensivos naturais

O alto risco de perdas na produção é uma das justificativas para que muitas famílias ainda utilizem venenos no controle dos cultivos. Conforme Hilário, no modelo orgânico, é preciso prevenir os possíveis ataques ou doen-

Maichel, Clair e o marido Hilário – garantia de procedência e produtos cultivados sem agrotóxicos conquistam cada vez mais consumidores
MÁRCIO STEINER

ças, pois, se uma praga resolver se impregnar na plantação, muitas vezes se perde tudo, como é o caso da plantação de pimentão neste ciclo. “Aqui eliminamos as plantas, removemos a terra, adubamos e plantamos outra cultura”, explica.

Para evitar prejuízos, recomenda a rotação de culturas. “A diversidade de plantas ajuda a minimizar os problemas”, afirma. O controle é feito com uso de defensivos naturais, entre eles, o extrato pirolenhoso.

A construção de estufas protege os cultivos das intempéries meteorológicas e de fungos mais resistentes. As ervas daninhas são retiradas de forma manual. Clair acredita que o consumo crescerá cada vez mais. “Os consumidores estão mais conscientes sobre a importância de consumir um produto saudável”, finaliza.

Diversidade garante equilíbrio

Em 1966, a área de terras dos pais de Rosane Sprandel, Erno e Lorena Dörr, de Lajeado, estava degradada pela erosão a ponto de nem inço brotar. Sem recursos para recuperá-la com adubos químicos, a saída foi espalhar terra e folhas. Desde a infância, Rosane ajudava os pais na produção de alimentos. Na adolescência, chegou a buscar emprego na cidade. Em 1991 voltou para a propriedade para cuidar dos pais e da filha. Começou a produzir alimentos para a subsistência.

Com auxílio da Emater, qualificou a produção leiteira e ampliou o cultivo de orgânicos com destaque para a produção de hortaliças e frutas. O

pomar com mais de cem mudas foi instalado faz dois anos com recursos obtidos do Feaper – R$ 4 mil. As primeiras frutas serão colhidas no ano que vem.

Para manter o cultivo sem agrotóxicos, aposta na diversidade. Os hortigranjeiros dividem espaço com flores e chás como boldo, citronela e menta, que ajuda a manter as pragas e doenças longe da lavoura. Outro método utilizado foi a plantação de crotalárias. A planta tem raízes grossas que provocam sulcos profundos na terra e auxiliam a adubação. E nada de venenos. “Existe comida para todos que aqui habitam. Não é preciso aplicar agrotóxicos. Essa harmonia mantém o ambiente equilibrado naturalmente”, diz.

Com ampla variedade e muita dedicação, a renda está garantida durante os 12 meses. Se uma safra não vinga, a outra pode surpreender de maneira positiva, como foi o caso do moranguinho.

A estufa foi construída por incentivo de uma amiga feirante. Foram cultivadas duas mil mudas. Tudo foi vendido na propriedade ao preço de R$ 12 o quilo.

“Nem consegui fornecer para ela. Por ser natural, ele tem um gosto diferente. Quem experimenta, sempre volta para comprar”, observa.

Rosane e o marido Nestor fazem parte de um grupo de agricultores que busca a certificação para atestar a qualidade e a procedência dos produtos, com orientação da Emater.

Biodiversidade na propriedade de Rosane ajuda a controlar ataque de pragas

Relação de confiança

Conforme o assistente técnico regional em Manejo de Recursos Naturais da Emater/RS-Ascar, Marcos Schäfer, a produção de alimentos orgânicos traz consigo valores que ultrapassam o simples ato de produzir mais.

Na agricultura orgânica, a qualidade e a diversidade são princípios fundamentais, resume. Nela se insere também o respeito à cultura e aos saberes locais, a preocupação com a preservação da biodiversidade, priorizando os mercados consumidores locais e, principalmente, não utilizando agrotóxicos e produtos químicos solúveis e não contém Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) ou transgênicos.

Segundo Schäfer, o consumidor tem mudado seus hábitos, optando por uma alimentação mais saudável. “E nada melhor para conquistar mais mercados do que uma relação de confiança, em que possamos falar com orgulho daquilo que produzimos.”

A adoção de cultivos mais limpos contribui não apenas para a nossa saúde e de quem consome, mas também para que haja um maior equilíbrio ambiental, observa. Ressalta a importância de manter no solo uma diversidade de plantas para garantir a recuperação, melhorar a produtividade e minimizar o ataque de pragas. Aconselha fazer a adubação com estercos, pó de rocha, fertilizantes minerais, calcário, compostos orgânicos ou biofertilizantes. A cobertura pode ser feita com aveia, nabo forrageiro, crotalária, entre outras.

Para quem pretende iniciar o cultivo, recomenda buscar auxílio técnico. “Isso dá segurança. Ajuda a mostrar os caminhos e minimiza as perdas”, comenta. Cita que os produtores usam a ferramenta de mensagem WhatsApp para esclarecer dúvidas e fazer a venda dos produtos. “O aplicativo auxilia no dia a dia da lavoura de forma imediata, sem custos”, afirma.

Para Lange, busca por alimentos saudáveis faz consumo crescer

Reconhecimento da qualidade

Não dá para pensar somente no retorno financeiro. É preciso se conscientizar dos valores sociais, da preservação das águas e de uma alimentação mais saudável.

Marcos Schäfer, engenheiro agrônomo

Mais espaço no supermercado

A maior parte da produção é vendida direto nas propriedades pelo sistema colha e pague, em feiras, fruteiras ou supermercados. No entanto, Schäfer entende que é preciso destacar ainda mais os benefícios e separar os produtos orgânicos dos convencionais nas gôndolas dos supermercados. “O consumidor

ainda carece de conhecimento e essa confiança é reforçada quando ele consegue interagir, identificar a diferença entre os dois ou ver na prática o processo de produção”, explica. Quanto ao preço maior, destaca que muitas vezes é uma estratégia dos intermediários para aumentar os lucros.

Seis famílias de produtores –Três de Lajeado, duas de Cruzeiro do Sul e uma de Forquetinha – se articulam, desde o início do ano, para a formação de uma Organização de Controle Social (OCS), que receberá o nome de Orgânicos do Vale. De acordo com a engenheira agrônoma da Emater/RS-Ascar, Andréia Binz Tonin, o objetivo é estimular os agricultores para a produção de alimentos orgânicos, certificando-os e dando visibilidade a seus cultivos.

“Será uma forma de atestar e dar confiabilidade àquilo que o público compra”, ressalta. Para garantir o reconhecimento da sociedade, produzir de forma natural, permitir a visita de consumidores e órgãos fiscalizadores, as famílias recebem acompanhamento direto de técnicos e agrônomos da Emater. Os agricultores estarão comercializando produtos livres de agroquímicos, mas sem um selo que lhe ateste a condição de orgânico.

Para Leandro Lange (foto), um

dos primeiros agricultores de Lajeado a investir em produtos orgânicos, a consolidação da OCS será uma forma de dar uma visibilidade “diferenciada” para seus produtos, que são comercializados na propriedade – no bairro Conventos – ou na Feira Municipal. “Esse é um nicho de mercado que tem crescido junto com a ideia da importância de investir em uma alimentação saudável”, garante.

Tenho a certeza de que o consumidor não se importa de pagar um pouco mais por um produto, se ele souber que ele é limpo, que beneficia o meio ambiente e faz bem à saúde.

Mudança nos hábitos

Para conhecer o consumidor de produtos orgânicos no RS, seis universidades uniram forças para realizar uma pesquisa (Barômetro dos Orgânicos) que ouviu 2.732 pessoas em 80 municípios.

Marlon Dalmoro, professor do Programa de Pós-Graduação em Sistemas Ambientais Sustentáveis da Univates, e Wagner Junior Ladeira, do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), são coordenadores do projeto.

Dados apontam que mais de 40% dos gaúchos passaram a incluir esse itens nas compras. E mais de 75% afirmam que são compradores frequentes, o que evidencia que o consumo está disseminado entre a população.

Outra constatação é a de que vegetais, hortaliças e frutas são os produtos mais comprados (veja detalhes

da pesquisa ao lado). “São itens de fácil acesso e o consumidor enxerga neles o típico produto orgânico”, complementa Dalmoro. Entre os desafios, está a melhoria dos canais de distribuição. Segundo os professores, os consumidores buscam uma alimentação mais saudável, descobrem locais que comercializam alimentos orgânicos, estando inclusive dispostos a ir a lugares alternativos para adquiri-los.

Conforme Dalmoro, as pessoas buscam esses alimentos pelo desejo individual de melhoria da qualidade de vida e longevidade sua ou de seus familiares, especialmente filhos. “A partir do momento que elas entendem que o alimento ajuda a ter uma vida mais saudável, enxergam no orgânico uma alternativa acessível e passam a consumir”, explica.

Barômetro dos orgânicos

Produtos mais consumidos

e hortaliças

e

Principais pontos de venda

•Mercados, supermercados e hipermercados – 65,3%

•Feira do produtor – 57,9%

•Direto na propriedade – 37,9%

•Lojas especializadas – 31,5%

Principais causas para começar e manter o consumo

São cerca de 750 mil hectares de cultivo no país. Em torno de 15 mil produtores atuam no segmento. A produção orgânica é registrada em 22,5% dos municípios brasileiros. De acordo com o diretor da Associação de Agricultura Orgânica, José Estefano Bassit, assim que o país tiver uma melhor distribuição de renda, os níveis de crescimento chegarão a patamares espetaculares. Para este ano, projeta um aumento de 20% nas vendas. Considera a área cultivada pequena em comparação com outros países. Cita que a Dinamarca está no caminho para se tornar 100% orgânica. Na Alemanha, o cultivo chega a 25% e na América do Norte em torno de 10%. O

Brasil tem apenas 1,5%. “Existe um potencial gigantesco a ser explorado”, afirma.

A Associação Gaúcha de Supermercados (Agas) confirma o crescimento do consumo. A estimativa é de que um em cada dez consumidores já busca comprar orgânicos no estado. Conforme o presidente da rede de Lojas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lajeado, Lauro Baum (foto), a procura por orgânicos é uma tendência.

Entre as dificuldades, relata a oferta regular dos produtos durante todos os meses. “A falta de tecnologias e consequente maior trabalho manual reduzem a escala de produção e elevam o custo. O consumidor consciente

opta por produtos saudáveis”, afirma.

Enfatiza a necessidade de melhorar o espaço nos mercados e destacar ao público os benefícios. Cobra dos órgãos oficiais mais atenção para tornar o processo de certificações menos burocrático e acessível. “Tendo garantia de procedência, construímos uma relação de credibilidade com o cliente e abrimos caminho para o mercado crescer”, observa.

• Motivos de saúde – 68,8%

• Evitar produtos com pesticidas e fertilizantes químicos – 54,3%

• Alimentação sem corantes e conservantes – 52%

• Qualidade superior – 36,5%

• Cuidar da natureza – 34,8%

• Pelo sabor – 32,5%

• 930 produtores

• 89 feiras ativas

• 10% aumento no faturamento

• No Vale do Taquari, existem 300 famílias em fase de transição

Fonte

– Emater, Barômetro dos Orgânicos e Ufrgs

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
AH - Agronotícias | 20 e 21 de maio de 2017 by Jornal A Hora - Issuu