Skip to main content

AH - Agronotícias | 29 de outubro de 2016

Page 1


Especial do jornal A Hora

OUTUBRO | 2016

Circulação mensal

PORCO ORGÂNICO

Criados sem estresse

Produção livre de rações com resíduos químicos e tratamentos com antibióticos, o porco orgânico começa a ganhar espaço nas granjas. Os animais ficam soltos em piquetes e se alimentam de pasto verde, frutas e verduras. Além da melhora na qualidade da carne, sistema prioriza o bem-estar animal . Páginas 8 e 9

GIOVANE WEBER

Editorial

Tecnologia aprimora gestão

Vistas como revoluções inovadoras e tecnológicas, as startups ganham lugar no agronegócio e crescem de forma expressiva. Com a disseminação da banda larga móvel no interior do país e o apoio de instituições de ensino, uma nova geração de jovens empreendedores começa a aplicar soluções modernas no campo, utilizando smartphones e tablets.

São softwares que ajudam a aumentar a confiabilidade e a acelerar os processos, ao controlar estoques, rastrear produtos nas fazendas e ajudar na produtividade.

Criam soluções inteligentes para gerar eficácia e melhoria dos processos internos, assertividade no controle da produção e agilidade na comercialização, além de evitar desperdício de recursos naturais com o gerenciamento da irrigação no plantio, por meio de dispositivos que monitoram o volume de água.

Começaram no momento em que as gerações mais antigas estão se aposentando e administradores mais jovens assumem os empreendimentos rurais, ávidos por mais tecnologia. O papel no bolso da calça, caneta atrás da orelha e bloco de anotações têm sido cada vez menos vistos. Aos poucos são substituídos por softwares e aplicativos, instalados no computador, celular ou tablet.

Se no lado de fora da porteira o gargalo de infraestrutura dificulta o escoamento da produção agrícola e aumenta os custos, dentro dos limites do cercado, o agricultor já tem condições de gerenciar e ampliar a produção.

Equipamentos de TI permitem monitorar as plantações com eficiência e precisão. Dispensam o uso de lápis e planilha na hora de calcular a safra, monitorar o plantio e racionalizar a aplicação de fertilizantes e defensivos.

Cabe ao pequeno, médio e grande produtor se adequar aos novos sistemas de gestão informatizada e integrá-los à tecnologia já agregada ao maquinário e aos insumos, com vistas a otimizar a tomada de decisões em tempo real.

Frente ao cenário adverso, os agricultores devem estar preparados para cobrir a oferta da concorrência e atender um mercado consumidor que se mantém aquecido.

Para tal, é necessário atualizar o campo com tecnologias que permitam ao agronegócio continuar alavancando o crescimento da frágil economia brasileira.

Boa leitura!

Fundado em 1º de julho de 2002

Vale do Taquari - Lajeado - RS

Diretor-geral: Adair Weiss

Diretor de Conte˙do: Fernando Weiss

Diretor de OperaÁıes: Fabricio Almeida

4 Rentabilidade preocupa triticultores

6

Produtores criam roteiro turístico orgânico

8

Onde os porcos grunhem felizes

10

Startups – Eficiência na palma da mão

14

Entrevista com a agrometeorologista Bernadete Radin

Tenho dito

A seguir, a opinião sintetizada sobre este caderno dos integrantes do grupo de discussão, que participam a cada mês da elaboração das principais pautas e temas abordados.

A tecnologia está disponível. Basta aceitar e buscar. Esse mecanismo de controle é fundamental para a gestão de qualquer negócio, portanto, inclui o agricultor que tem uma propriedade cujo resultado depende da gestão. Mas tudo isso tem limitações. Os fatores extremos onde o teto da empresa do agricultor é o céu podem interferir e alterar qualquer resultado, ou mesmo de autarquias sobre o produtor que neste momento podemos exemplificar no setor leite. Isso deve motivar uma gestão criteriosa para superar dificuldades. O investimento, por exemplo, deve ser consequência de uma ação estudada e planejada para favorecer a viabilidade onde a tecnologia se alia cada vez mais.

A tecn co de viab

O termo startup remete ao conceito de inovação e organização na gestão do empreendimento. Poucas propriedades adotam sistemas de gestão por desconhecerem a importância dessas ferramentas para o desempenho rentável de seus sistemas de produção. É preciso conhecer para tomar boas decisões gerenciais e aumentar o lucro da propriedade. A Emater/RS-Ascar desenvolve o Programa Estadual de Gestão Sustentável da Agricultura Familiar que deverá, em quatro anos, orientar 40 mil famílias e implantar 20 mil planos de gestão, preparando essas propriedades para novas opções de investimento e renda com responsabilidade ambiental e social.

Carlos Augusto Lagemann – Gerente regional-adjunto da Emater Regional de Lajeado

Para co cial do

Para implantar a tecnologia na propriedade, o produtor precisa mudar alguns conceitos: ter conhecimentos básicos de informática e aceitar a participação dos filhos na administração. Com mais agilidade e entendimento sobre as novidades tecnológicas, o jovem terá condições de auxiliar na melhora da gestão. Ao aceitar dividir a gerência, terá mais produtividade e renda, além da sucessão. É importante que a propriedade utilize toda tecnologia disponível para ser aplicada no seu sistema produtivo e administrativo. Mas também é importante que tenhamos, de parte dos órgãos oficiais e empresas, programas e planejamento no sistema produtivo para que o produtor tenha garantia da comercialização dos produtos com preços compatíveis

Gilberto Moacir da Silva – Médico-veterinário

DIRE« O EDITORIAL

Fernando Weiss

PRODU« O Giovane Weber

COORDENA« O Giovane Weber

Tiragem desta edição: 10.000 exemplares. Disponível para verificação junto ao impressor (ZH Editora Jornalística) ARTE Gianini Oliveira e Fábio Costa

Lauro Baum – Diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lajeado

Valores estão abaixo do preço mínimo. Triticultores temem que a desvalorização do grão aumente durante a colheita. Entre os motivos, estão a ampla oferta mundial e a previsão de colheita farta na América Latina.

Rentabilidade preocupa triticultores

Foram duas safras prejudicadas pelas intempéries. Com 30% da área em fase de colheita, as lavouras registram produtividade entre 40 e 70 sacas, dependendo da região. A qualidade é boa, no entanto, a frustração fica por conta do valor recebido pela saca de 60 quilos – R$ 36 abaixo do preço mínimo, que é de R$ 38,65.

Entre os motivos, estão a ampla oferta mundial e a previsão de colheita farta na América Latina. Esse cenário fez o preço recuar 17,6% nos últimos dois meses. Dados do levantamento diário feito pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo (USP) apontam que o valor médio caiu de R$ 844,29 a tonelada no início de agosto para R$ 695,13 no fim de setembro. A pesquisa leva em conta os valores informados por produtores e cerealistas de Passo Fundo, Ijuí, Santa Rosa e Santa Maria, principais regiões produtoras do estado.

A importação também ajuda a desestimular quem novamente apostou no grão neste ciclo. De janeiro a agosto de 2016, foram importadas 221,85 mil toneladas de trigo de Argentina, Paraguai e Uruguai – quase oito mil toneladas a mais do que no mesmo período de 2015.

Segundo o presidente do Sindicato da Indústria de Trigo no Rio Grande do Sul (Sinditrigo-RS), Andreas Elter, o grão colhido é de excelente qualidade e a quantidade será suficiente para atender a demanda dos moinhos locais – 1,4 milhão de toneladas. “Importamos da Argentina para atender à exigência do mercado em qualidade.”

Na região de Passo Fundo, os preços registraram queda de 20% em 30 dias. De R$ 45 caíram para R$ 36, aponta relatório da Emater. O chefe

do escritório de Passo Fundo, Alessandro Davesac, aponta altos estoques nos moinhos e a tendência de nova queda no mês de novembro quando a safra estiver no auge. “Uma saída é estocar, mas muitos precisam vender para quitar as dívidas.”

Os altos estoques mundiais, estimados em 236 milhões de toneladas, e a boa colheita da Argentina, que deve aumentar de 11 milhões de toneladas no ciclo passado para 14,4 milhões de toneladas neste ano, inibem ainda mais o otimismo do triticultor gaúcho. O avanço da colheita do Paraná, estimada em 3,3 milhões de toneladas, também influencia na queda dos preços. Enquanto uma parte está pronta para ser colhida, outras áreas entram na fase de floração, formação de espiga e enchimento de grão, considerado um dos momentos mais críticos para a lavoura. “As chuvas favorecem o surgimento

Uma saÌda È estocar, mas muitos precisam vender para quitar as dÌvidas.î

Alessandro Davesac, técnico da Emater

de doenças como a ferrugem da folha e a giberela. Importante monitorar a cultura e aplicar na dose certa os fungicidas”, recomenda.

A projeção da Emater é de que o RS colha 2,4 milhões de toneladas, chegando a uma produtividade média de três mil quilos por hectare — o dobro da média das últimas duas safras.

Cereal estocado

Antônio Welter, de Cruzeiro do Sul, semeou 25 hectares. Apesar da chuva em excesso registrada há uma semana, que também trouxe prejuízos nas duas safras anteriores, aposta em bons resultados. “Colheremos um grão de excelente qualidade. Com mais frio e menos umidade, a planta se desenvolveu bem. Não podemos descuidar dos tratos culturais.”

Estima colher até 50 sacas

Apesar da chuva em excesso, produtores da região estimam colher até 50 sacas por hectare nas lavouras cultivadas no Vale do Taquari
GIOVANE WEBER

por hectare. Com o preço em queda, o grão será novamente estocado na cooperativa local onde é sócio, a exemplo do ciclo anterior. “Assim consigo vender quando o cereal está mais valorizado e escasso no mercado.”

Mesmo com resultados ruins nas safras anteriores, a área foi mantida na propriedade de Fernando Jung, em Santa Clara do Sul. Foram semeados 300 hectares. A meta é colher em média 45 sacas por hectare. A chuva em excesso trouxe preocupação. “Tentamos colher, mas antes da chuvarada o grão estava apenas 70% maduro.”

Para Jung, o trigo vai além do retorno financeiro. A cobertura deixada pelo cereal gera impacto positivo para a cultura da soja, ensina.

Darci Ari Decker, de Estrela, arrendou três hectares para o vizinho semear o grão. Ganha 15% do lucro líquido.

Com a lavoura em bom desenvolvimento, estima uma colheita de até 170 sacas neste ciclo. “A qualidade da semente, ajuste certo da plantadeira, adubação e aplicação certa dos fungicidas, tudo influencia no resultado final.”

Situação preocupa

Os produtores ligados a cooperativas também estão apreensivos. Segundo o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS), Paulo Pires, existe um bom potencial para o trigo e a expectativa é de um excedente entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de toneladas.

Ressalta que o estado tem uma característica única em termos de Brasil ao ser autossuficiente em trigo, enquanto o país consome o dobro do que produz e precisa importar, explica.

Pires destaca que, apesar de o trigo ser uma cultura tão importante, com boa produtividade e qualidade, segundo atestam as áreas técnicas das cooperativas, já existe mesmo antes de começar a safra uma dificuldade de vender o produto. “O que nos resta é brigar por um mercado competitivo, com excedentes, principalmente da Argentina”, comenta.

O governo federal tem R$ 150 milhões para destinar a medidas de intervenção no mercado de trigo, preferencialmente por meio de Prêmio Equalizador

Pago ao Produtor (Pepro) e Prêmio para Escoamento de Produto (PEP). O valor é suficiente para escoar aproximadamente 1 milhão de toneladas, no entanto considerado insuficiente para representantes do setor.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) manifestou interesse das indústrias de aves e suínos em comprar trigo para abastecer as criações. “Precisamos ter agilidade nas decisões para garantir bons preços ao produtor na hora da venda”, finaliza.

Mais produtividade

A Fecoagro e a Embrapa Trigo, de Passo Fundo, desenvolvem um projeto com o objetivo de aumentar a produtividade e reduzir os custos de produção. De acordo com o agrônomo e pesquisador, João Pires, é possível reduzir o investimento em custeio sem afetar o potencial produtivo usando menos fertilizantes, agrotóxicos e sementes — itens que chegam a representar mais de 60% do custo de produção. Nas áreas experimentais, a projeção é de colher até quatro toneladas por hectare.

FonteEmater

Sebrae e grupo de agricultores de Garibaldi criam destino para visitar espaços que cultivam e revendem produtos sem agrotóxicos. Esse será o primeiro roteiro turístico nessa modalidade no país. Projeto é baseado no crescimento e potencial desse nicho de mercado.

Produtores criam roteiro turístico orgânico

Jorge Luis Mariani, residente na Linha Marcílio Dias, em Garibaldi, integra o primeiro roteiro turístico rural formado por dez propriedades certificadas com culturas orgânicas. O projeto foi lançado há uma semana. Segundo ele, a ideia surgiu há dois anos e foi apresentada à Secretaria de Turismo do município e ao Sebrae-RS.

Durante esse período, foram realizados cursos para qualificar os agricultores e ensinar maneiras de apresentar o novo roteiro aos turistas. De acordo com Mariani, o projeto nasceu da identificação do potencial dos orgânicos e oferecerá experiências relacionadas à origem dos alimentos, sustentabilidade e alimentação saudável, gastronomia e turismo rural. “Unimos dez propriedades e restaurantes para valorizar o cultivo orgânico e oportunizar aos empreendedores uma nova fonte de lucro, receber turistas interessados em conhecer e consumir esses produtos plantados em agrotóxicos.”

O visitante percorrerá um trajeto de 30 quilômetros para conhecer detalhes do cultivo, aproveitar a gastronomia típica à base de produtos orgânicos, fazer trilhas, comprar produtos coloniais e até se hospedar em pousadas. “Se quiser, pode até ajudar a trabalhar, ele vira um produtor de orgânicos por algumas horas e aprende os benefícios de consumir um alimento sem venenos.”

A família Mariani começou a receber turistas na propriedade em 1998. O antigo casarão foi transformado em museu. Contam-se histórias da família que se dedicou a videiras centenárias e à produção orgânica. É possível fazer um passeio de trator e colher frutas e temperos. “Na época, meus vizinhos me

chamavam de louco quando levava gente para passar de carroça”, recorda Mariani.

Na agroindústria de sucos, vinhos e espumantes orgânicos, industrializa mais de 90 mil litros por safra. Por ano, recebe mais de mil turistas de todo país para conhecer a forma de trabalho, ajudar na poda das parreiras, colheita e beneficiamento.

“Quem tem a oportunidade de olhar como é feito todo processo passa a consumir”, garante. Mariani destaca a necessidade de boa infraestrutura, sinalização, um centro de informações ao turista que funcione diariamente, guias qualificados, agricultores profissionalizados, panfletos, divulgação eficiente sobre os atrativos, custos e atrações. “Nunca se pode dizer eu faço turismo. Isso é um trabalho coletivo, conjunto. Precisamos impressionar o visitante. Manter a simplicidade, sem fugir das origens, do dia dia da lida no campo e seus afazeres.”

O que visitar na Via Orgânica

A família também integra o roteiro turístico Estrada do Sabor, iniciado em 2001.

Potencial fantástico

Conforme a secretária de Turismo, Ivane Fávero, o visitante poderá encontrar belas paisagens, resgate de antigas formas de cultivo aprimoradas pelas novas tecnologias, contato direto com a simplicidade e a experiência de quem produz e prepara o alimento.

Todas as propriedades que se interessaram têm produtos e propriedade certificados. Para os turistas, será uma oportunidade de conhecer, comprar, comer e se hospedar, contribuindo com a produção agroecológica e com um mundo mais sustentável.

– Arte da Vinha: produção de vinhos naturais e visitação em cave de porão.

– Cooperativa Vinícola Garibaldi: produção orgânica de suco de uva e vinho do cultivo agroecológico de 70 famílias associadas.

– Econatura: destaque para os vinagres de vinho tinto, balsâmico e balsâmico envelhecido e óleo de semente de uva.

– Família Boroto: espumante orgânico e produção de chocolates artesanais.

– Família Mariani: visita a videiras centenárias e a um antigo casarão.

– Morro São Francisco: café colonial ao ar livre, trilhas e passeio nas videiras.

– Sabor Ecológico: loja especializada em produtos naturais e orgânicos.

– Sítio Crescer: hostel em construção sustentável, com local para eventos e sitiotur entre cascatas.

– Sítio do Celo: plantas nativas e frutas exóticas e criação de ovelhas.

– Valle Rústico: restaurante com conceitos de enogastronomia e ecogastronomia.

Observação – As visitas precisam ser agendadas. Mais informações pelo (54) 3462-8235.

Família Mariani mostra as videiras centenárias e modelo de produção em passeio de trator

Produtor aposta na criação de porco orgânico. Com alimentação diferenciada, carne tem melhor sabor e textura. Animais levam cerca de seis meses para o abate. Quilo é vendido a R$ 15. Atividade carece de orientação técnica e tem poucos adeptos.

Onde os porcos grunhem felizes

Após o sucesso comercial das frutas, verduras e legumes orgânicos, a nova aposta dos agricultores é a produção de carnes livres de resíduos químicos, como a suína. Com um mercado potencial amplo, a carne de porco orgânico pode render aos suinocultores até 30% a mais do que a produzida pelo sistema tradicional.

O agricultor Mauro Gilberto Soares, 54, mantém a tradição do pai Dalmiro. Iniciada faz mais de quatro décadas, a criação de porco orgânico (ou macau como é conhecido na região) tornou-se uma excelente alternativa de renda para a família residente em São Miguel, Cruzeiro do Sul

Ele e a mulher Vilce, 53, mantêm um plantel de 50 animais na área de um hectare, dividida em piquetes Soltos, os suínos aproveitam a sombra, a água fresca e as frutas do local.Quase não ficam doentes e são extremamente dóceis. “Adoram carinho. Vivem tranquilos, sem estresse ou qualquer tipo de incomodação”, conta Soares.

Da raça moro, têm pelagem grisalha e são parecidos com um javali. As 12 fêmeas da propriedade fazem os ninhos no mato ou no galpão-maternidade. Os filhotes são amamentados por 60 dias antes de serem vendidos. Cada exemplar custa em média R$ 150. Por ano, são criados 220 animais, média de 18 por matriz.

O

consumidor tem papel fundamental neste processo. A

cada

dia est· mais consciente em relaÁ„o ao que consome, atento aos mÈtodos de produÁ„o e, por isso, mais exigente.

“A gestação dura três meses, três semanas e três dias. Após uma semana, a porca fica no cio e novamente entra no período de prenhez”, conta Soares. Há dois anos, o sistema foi certificado pela Embrapa. As nascentes, a mata, tudo está preservado. Além de serem criados soltos e sem uso de antibióticos, os porcos são alimentados com produtos de origem orgânica –pasto verde, aipim, batata-doce e cana-de-açúcar, tudo produzido na propriedade, sem uso de agrotóxicos. O complemento é feito com ração, média de um quilo por animal ao dia. No sistema, Soares conseguiu “aposentar” o alicate usado para aparar os dentes após os primeiros dias de vida. “Aqui eles não se mordem, pois vivem calmos.” A injeção de ferro também foi dispensada. O contato com a terra e o sol evita esse tipo de trato, explica.

A produção é encarada como um desafio, pois a maioria dos produtores mantém os animais em fundo de quintal. Como esse modelo não é aprovado pelas integradoras, quase todos os que persistiam nele desistiram, lamenta Soares. Entre os diferenciais da atividade, está o bem-estar dos animais e a qualidade da carne produzida. “Saudável, macia, boa textura e de excelente sabor”, resume.

Para o abate, o ciclo dura seis meses. Neste período, o animal chega a pesar 120 quilos. A carne é vendida apenas para familiares. Soares fala da necessidade de construir um abatedouro municipal para legalizar o abate, obter o selo de certificação e comercializar a carne de mais produtos. “É uma promessa de vários políticos. Incentivaria outros produtores a iniciar a criação, identifica a procedência e valoriza o produto.”

No mercado, o quilo da carne de porco orgânico está cotado entre R$ 12 e R$ 15. A convencional alcança R$ 8. Há muitos desafios a superar, segundo Soares. Dentre eles, a alimentação à base de insumos orgânicos, que num país com enorme pro-

De acordo com o produtor Soares, a criação em piquetes proporciona bem-estar aos animais, que dificilmente adoecem
GIOVANE WEBER

dução de grãos geneticamente modificados é uma tarefa difícil. “Tratar as doenças somente com medicamentos homeopáticos e fitoterápicos, para muitos, é visto como inviável.”

“Existe demanda, falta oferta”

Conforme Elsio Figueiredo, pesquisador no sistema de produção animal da Embrapa de Concórdia (SC), esse é o cenário da produção de carne orgânica no país. Para ele, o sistema aumenta o bem-estar dos animais, pois são criados soltos e alimentados com produtos cultivados sem uso de agrotóxicos. “Temos uma carne muito saudável, no entanto, o sistema precisa ser incentivado. Hoje só temos criações de fundo de quintal.”

Figueiredo diz que a maioria dos produtores desistiu pela falta de orientação técnica, disponibilidade de alimento e pelo sistema de integração, que não permite qualquer outro tipo de criação na propriedade.

Cita a boa valorização dos produtos. O quilo da carne por

Curiosidades

– A cada gestação, uma fêma tem cerca de nove filhotes.

– O reprodutor é mantido por quatro anos na granja, com peso controlado, média de 200 quilos para evitar que machuque a fêmea.

– Seis meses é o tempo de engorda – alcança 120 quilos.

– Cada leitão é vendido por R$ 150.

– O quilo da carne varia entre R$ 12 e R$ 15.

– Animais são criados soltos, em piquetes

– Alimentação é à base de ração, aipim, batata-doce e cana-de-açúcar.

Carne orgânica

A carne orgânica é produzida sem qualquer tipo de produto químico, fertilizante, agrotóxico ou adubo. É mais leve e saudável. O animal é abatido precocemente, então, não dá tempo de acumular muita gordura, o que torna a textura mais macia e dá sabor diferenciado.

exemplo chega a ser vendido por R$ 20. “A oferta é muito restrita.” Como o processo de certificação é muito burocrático e demorado, sugere fazer a criação por etapas. “Primeiro se instala a área, depois o controle de doenças, a alimentação e, após completar todos os requi-

sitos, dentro de uma linha verde e sustentável, se busque uma entidade para certificar a propriedade.”

Enquanto no país a atividade ainda engatinha, na Europa, a oferta aumenta a cada dia. As pessoas estão conscientes da importância de consumir um

alimento com origem, livre de venenos, que respeita a natureza e prioriza o bem-estar, finaliza.

Agricultura natural

A Korin Agricultura Natural, de São Paulo, fundada em 1994, é pioneira na produção de orgânicos no país. Em todo processo, desde o campo ao beneficiamento, busca o equilíbrio entre preservação, uso dos recursos naturais, bem-estar animal e saúde humana. Conforme Edson Shiguemoto, diretor comercial da Korin Agropecuária, os produtos da empresa estão presentes em mais de 1,4 mil pontos nos 23 estados. A companhia segue os preceitos da agricultura natural, fundada pelo espiritualista e filósofo japonês Mokiti Okada. “Nosso método privilegia a força do solo, cuja qualidade é fator primordial para a obtenção de boas colheitas. Um produto sustentável é aquele que se origina de uma cadeia que preserva o ambiente, é livre de insumos químicos e valoriza o trabalho e a saúde de todos os envolvidos.”

Com novas ferramentas, empresas de tecnologia apostam no agronegócio e buscam espaço. Setor está entre os dez que mais atraem investidores no país, segundo pesquisa. Conheça alguns negócios que estão dando certo.

Eficiência na palma da mão

Apesar das incertezas políticas e econômicas, a quantidade de startups registrou um índice de crescimento superior a 18% entre março e dezembro de 2015, conforme apontou pesquisa da Associação Brasileira de Startups (ABstartups).

Por ano, movimentam R$ 2 bilhões. Conforme dados da Fundacity, plataforma especializada em aplicações de capital, entre janeiro e junho de 2015, as startups brasileiras recebe-

ram mais de R$ 170 milhões de investimentos. O agronegócio, biotecnologia e tecnologias verdes estão entre as dez que mais atraem os investidores. Nos últimos cinco anos, as startups ligadas ao agro registram crescimento de 70%.

No país, estão cadastradas 4.180 empresas. O RS tem 212 e ocupa a quarta colocação no ranking nacional. Atuam no agronegócio 23 entidades. O coordenador do Comitê Agrotech da Associação Brasileira de Startups (ABStartups),

Alexandre Bio Veiga, aponta a diversidade como diferencial das empresas que atuam no agronegócio. “Atuam desde a intermediação de negócios entre produtor e consumidor, ao desenvolvimento de tecnologias adaptadas para serem usadas no campo ou na indústria.”

A maioria dos investidores, 44%, tem até 25 anos. Empresários de 31 a 40 anos representam 36%. Segundo o consultor André Ghignatti, as startups do agronegócio são dominadas por jovens com

formação técnica. “Muitos são filhos de fazendeiros e trazem consigo o conhecimento da área. Os que nasceram na cidade firmam parcerias com agrônomos e profissionais do setor para se consolidarem”. Para ele, o agronegócio é pouco explorado, apesar do vasto campo de atuação. A realidade mudou um pouco nos últimos três anos, quando muitos perceberam as oportunidades existentes na área. “As soluções importadas tornam-se caras e pouco se adaptam à

CAPA
GIOVANE WEBER
Dieckel avalia dados do rebanho e os custos na tela do tablet. Controle rigoroso fez produtividade aumentar em 12 litros por vaca

nossa necessidade. Identificamos nossos problemas e buscamos as soluções”, aponta.

Foco no manejo e produtividade

A Control Milk, criada em 2012 em Teutônia, ajuda o produtor a melhorar a gestão e qualidade do leite. Pelo aplicativo, é possível acompanhar o desempenho zootécnico e financeiro da atividade.

Com mais de 480 clientes em vários estados do país (RS, SC, PR, MG, PE, SP), a Control Milk pretende aprimorar a gestão, a produtividade e o controle de custos na propriedade. Dionatan Hamester e o sócio, engenheiro agrônomo Vilson Roque Mayer, com mais de 17 anos de experiência na área, destacam a necessidade de o produtor aliar o trabalho à tecnologia para melhorar a eficiência. “Ter um bom gerenciamento significa produtividade e lucratividade maior”, avalia Dionatan, estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

Com as ferramentas do sistema, o produtor tem acesso a relatórios que avaliam diversas informações. O software faz a gestão zootécnica, indica a data apropriada para fazer a inseminação, as vacinas, quando a novilha entra em cio, os custos com alimentos e a depreciação da infraestrutura.

Hamester garante que essa organização gera ganhos financeiros e ajuda na tomada de decisões. Para as cooperativas, fica mais fácil cruzar dados e, então, constatar quais cooperados têm mais qualidade e que regiões produzem mais e melhor. “Auxilia a identificar mais rápido os problemas e as soluções. É tudo instantâneo.”

Como o sinal de internet nem sempre é bom no meio rural, os dados podem ser coletados off-line. Nesse caso, o produtor reúne os dados no local onde estiver e, quando obtém sinal de internet, pode lança-los na rede para o técnico analisar e apontar as devidas correções a serem adotadas para melhorar o desempenho.

“Criamos uma solução”

Hamester atribui o sucesso do sistema ao fato de auxiliar o produtor a melhorar o processo de gestão, um dos principais gargalos do setor.

Com informações exatas de todo rebanho e acompanhamento técnico, ficou mais fácil a tomada correta das decisões no dia a dia da atividade, destaca.

O aplicativo foi criado tendo por base a realidade da propriedade. “A tecnologia

nos coloca em contato direto, possibilita termos um controle absoluto de tudo o que é feito com o rebanho, desde a pastagem, reprodução, doenças, alimentação, ordenha ou alojamento. No mesmo instante que detectamos o problema, sugerimos possíveis soluções ao produtor.”

Para ter acesso ao aplicativo, o produtor paga uma anuidade, com direito a todo suporte técnico e atualizações.

O lucro est· nos detalhes. Saber como est· o rebanho È fundamental para conseguirmos ter o m·ximo de eficiÍncia e cada vez mais reduzir custos.

Dionatan Hamester, sócio da Control Milk

Menos custos e mais lucro

Diego Dieckel, 23, de Linha Camela, em Teutônia, é a terceira geração da família a se dedicar à produção leiteira. Para ele, o segredo para abrir novos mercados é investir em novas tecnologias, buscar conhecimento e profissionalizar todos os elos da cadeia. “Sanidade, genética, bem-estar, tudo influencia na melhora da matéria-prima.”

Desde 1972, quando o avô Sildo, 67, comprou uma área de 18 hectares e começou a produzir 50 litros de leite por dia com quatro vacas, a propriedade passou por uma transformação. Diego é técnico agropecuário e cursa Gestão no Agronegócio.

O conhecimento, apoio técnico e novas tecnologias mudaram a forma de produzir e gerir o negócio. “A nossa propriedade é uma empresa e precisa dar lucro.” Ele aderiu ao sistema Control Milk em 2012. Todos os dados sobre o comportamento do rebanho de 54 vacas e os custos foram armazenados no computador. Segundo Dieckel, esse controle rigoroso dá segurança na hora de planejar novos investimentos e mais eficiência. “Detectamos os erros e conseguimos corrigir.”

Além da produção leiteira, as criações de suínos (350 animais por lote) e de aves (12 mil frangos por lote) estão em constante monitoramento.

Startups em números

No Brasil são 4.180 empresas

ñ 23 são cadastradas em agronegócio

ñ 14 são cadastradas em meio ambiente

Ranking

•São Paulo 1.295 (31% )

•Minas Gerais 363 (9%)

•Rio de Janeiro 339 (8%)

•Rio Grande do Sul 212 (5%)

•Paraná 189 (5%)

Fonte:Associação BrasileiradeStartups

Inicie sua startup

1

Imagine o produto que você gostaria de oferecer. Pesquise sobre o mercado de atuação, converse com pessoas próximas e procure potenciais clientes para saber se sua empresa pode funcionar.

2

Após consolidar a ideia, busque se aliar a especialistas na área de tecnologia ou administração. Cabeças diferentes conseguem desenvolver grandes produtos juntas.

3

Desenvolva um protótipo com seu time e coloque seu produto à disposição do mercado, mesmo que ainda não ofereça todas as funções imaginadas por você. O aperfeiçoamento vem aos poucos.

4

Equipe formada e protótipo funcionando? Conquiste clientes, identifique problemas e corrija falhas no seu produto. Esse é o melhor caminho para crescer com segurança.

CAPA

Silo verde para armazenar grãos

Neto de pequenos agricultores, o tecnólogo em Equipamentos Petroquímicos, Manolo Machado, criou o Silo Verde, produzido a partir da reciclagem de garrafas PET, apresentado na Expointer. O projeto é desenvolvido no polo tecnológico da Unisinos, em São Leopoldo. Dividida em placas, a instalação dos silos é simples e rápida, pois as peças se encaixam.

Além de menor impacto ambiental, cria uma alternativa mais barata de armazenar grãos em pequenas propriedades (produtores de aves, suínos e leite) e melhora a qualidade de vida dos produtores. “Não precisam mais passar o dia inteiro carregando sacas”, afirma Machado, estudante de Processos Gerenciais e Engenharia Mecânica.

Em cinco anos, a meta é exportar a tecnologia para outros países. Os silos têm capacidade para armazenar de 8 metros cúbicos a 16 metros cúbicos. As estruturas tradicionais costumam ter capacidade mínima de 20 metros cúbicos.

O silo feito com garrafas PET oferece a mesma proteção que um tradicional, mas por um preço bem mais acessível. No caso das estruturas menores (capacidade de até 16 metros quadrados), a nova versão seja de 10% a 30% mais barata. Quando se fala em silos maiores (380m³), o custo pode até ser 60% menor.

Dependendo do modelo, são usadas de 2 mil a 6 mil garrafas na construção do silo. Empreendedores destacam cuidado com o ambiente

Economia de R$ 15 bilhões

Na última safra, a colheita ultrapassou 200 milhões de toneladas. No entanto, a capacidade estática de armazenamento é de apenas 160 milhões de toneladas. Machado calcula um desperdício de R$ 15 bilhões por ano devido a esse deficit. “Sem ter onde armazenar, vendem pelo preço oferecido e perdem dinheiro.”

comerciais e fabricantes de ração.

Dependendo do modelo, são usadas de duas mil a seis mil garrafas na construção do silo. Cada uma levaria cerca de 400 anos para se decompor. A matéria-prima utilizada será comprada de cooperativas que atuam na reciclagem do produto.

Usamos entre 2 mil e 6 mil garrafas por silo, dependendo do modelo. A durabilidade È de 150 anos

Manolo Machado, tecnólogo em Equipamentos Petroquímicos

Como os silos tradicionais são muito caros, pequenos produtores guardam grãos e ração animal em sacas. O produto fica exposto à ação de fungos, roedores, pássaros e insetos. Num primeiro momento, foram produzidos 20 protótipos, em fase de testes em propriedades do estado. Serão estabelecidos acordos com representantes

Durante a feira, também houve recolhimento. A garrafa PET (polímero) é um isolante térmico, não aquece nem esfria tanto como um metal. “Isso diminui muito a condensação de umidade do silo, que é um problema, tem efeito protetor. A durabilidade é de 150 anos”, explica. A meta é lançar em 2017 um novo modelo, com capacidade de dez toneladas.

Brabov é um aplicativo para web e dispositivos móveis voltado ao controle da produção pecuária. Desenvolvida por Rodrigo Castilhos de Almeida de São Gabriel e os sócios Matheus Zeuch e Álvaro Raminelli, de São Leopoldo, a ferramenta permite acompanhar o ganho de peso dos animais, controlar vacinas, des-

pesas e reproduções, além de acessar a ficha dos animais de qualquer lugar, mesmo no campo sem acesso à internet. Com quase cinco mil usuários cadastrados, o Brabov deve ganhar versões em espanhol e inglês. “Temos usuários em países como Argentina, Chile, Costa Rica, Uruguai, Paraguai e México.

No Brasil, apenas 3% dos produtores utilizam algum sistema de gerenciamento. Os outros 97% seguem usando cadernos ou, no máximo, planilhas do Excel”, afirma Zeuch. São oferecidos dois tipos de serviço, o gratuito e o premium. Na versão grátis, estão disponíveis apenas recursos básicos, mas suficientes para “sair dos cadernos”, com uma limitação para trabalhar com até 50 animais. De acordo com Zeuch, essa é a quantidade de cabeças em 80% das propriedades brasileiras. Os valores cobrados variam entre R$ 9,90 e R$ 99,90, com possibilidade de cadastrar rebanhos entre cem e 1,5 mil cabeças.

Rebanho mapeado na tela

Aplicativo gerencia lavoura de arroz

Cinco jovens cientistas da computação criaram com ajuda do agrônomo Valmir Gaedke Menezes, funcionário do Irga durante 35 anos, a Aegro, presente em nove propriedades gaúchas, localizadas na Fronteira-Oeste. Todos os usuários são produtores de arroz, mas a ideia é ampliar a ação para outros tipos de grãos. Segundo o sócio Pedro Martins Dusso, o foco é melhorar os processos produtivos, financeiros e comerciais, com ênfase nas estratégias de manejo agrícola. O aplicativo, que pode ser usado no celular ou no tablet, indica, por exemplo, qual o melhor momento para a semeadura e quais os defensivos e fertilizantes que devem ser aplicados. “Queremos aprimorar a

gestão de todo processo. Ao plantar, o produtor pode acessar a cotação da Bolsa de Chicago, ver os índices produzidos em países vizinhos e a previsão do tempo. Isso reflete em mais produção e menos perdas.”

A contratação se dá por meio do sistema de assinatura, com pagamentos mensais, que inclui a ferramenta e o suporte técnico. Com o produto, o cliente diminuiu o tempo de planejamento da safra. “Antes demorava até 20 dias. Nosso sistema ajuda a reduzir este tempo para três.” A Aegro foi criada em 2014 com investimento de R$ 50 mil. Além de Dusso, os outros sócios são Leonardo Damiani, Paulo Vitor Silvestrin, Thomas Rodrigues, Francisco de Borja e Valmir Menezes.

Dificuldade de conexão

A dificuldade de ter acesso à internet na zona rural é apontada como um dos obstáculos à criação de novas empresas, apesar do momento ser considerado propício para investir em inovação na agricultura. “Verificamos uma troca gerencial no campo e a nova geração está muito mais apegada em tecnologia”, acredita Bruno Peroni, diretor da Associação Gaúcha de Startups e sócio da Semente Negócios, de Porto Alegre, que atua na qualificação de empreendedores.

Peroni diz que as startups surgem da necessidade do produtor aprimorar o controle sobre todos os processos da propriedade. Por isso, segundo ele, é essencial oferecer ao produtor ferramentas de ação para captura, leitura e análise de informações. “O futuro da agricultura são dados. Há várias oportunidades nesta cadeia em formação.”

… preciso conhecer ao m·ximo onde est· ëpisandoí. Fazer um estudo de mercado, vivenciar a realidade do campo e identificar as dificuldades dos produtores s„o essenciais para o nosso sucesso.

Bruno Peroni, diretor da Associação Gaúcha de Startups

“Tecnologia é aliada da gestão”

Segundo a coordenadora estadual do Programa de TI e Startups do Sebrae/RS, Débora Chagas, ao criar uma startup, é preciso ter como meta resolver um problema real. Cita que a tecnologia é uma grande aliada para aprimorar a gestão e ter o controle total de todas as etapas produtivas.

Quem cria precisa ter conhecimento da área em que pretende atuar?

Débora Chagas – Não adianta só levar tecnologia. Precisa ter conhecimento e estar amparado por uma equipe complementar. O aconselhado é ter o mínimo de noção da área em que pretende atuar, caso contrário, corre o risco de ficar refém apenas da parte técnica de desenvolvimento da solução.

A dificuldade de conexão limita a criação de novas startups no meio rural?

Débora – Acredito que não. Hoje a maioria dos sistemas criados vem com a funcionalidade off-line. O produtor pode incluir as informações ou dados quando está na lavoura e carregar elas quando obter o sinal de internet. Temos muita deficiência, mas ela é compensada por aplicativos que funcionam off-line.

Quais as áreas que apresentam oportunidades para os empreendedores?

Débora – O agronegócio é um setor que vai demandar cada vez mais tecnologia e cresce muito. A área de saúde ainda tem muito para ser explorada, principalmente por hospitais e empresas e o varejo como num todo. A tecnologia está cada vez mais presente e segue uma tendência. Ajuda a revolucionar a gestão, de todas as áreas, como no meio rural, auxiliar a definir a melhor hora de plantar, colher e gerenciar todas as etapas.

Como o Sebrae atua na qualificação?

Como o Sebra Débora – P –endedores o Sebrae i senvolver Gaúchas rante cinc rece supor panhamen 72 start difere vemo insc tu

Para auxiliar os empreendedores a gerenciar o negócio, o Sebrae instituiu o Programa Desenvolver e Fortalecer as Startups Gaúchas – Startup-RS Digital. Durante cinco meses, o projeto oferece suporte, consultoria e acompanhamento. Ao todo, atendemos 72 startups voltadas aos mais diferentes segmentos. Promovemos ações no interior e as inscrições para a quinta turma iniciam em dezembro. Mais informações pelo sebrae-rs.com.br/ startups

Aplicativo da Aegro ajuda produtor de arroz gerenciar todos as etapas produtivas da lavoura
DIVULGAÇÃO SEBRAE

Pesquisadora, engenheira agrônoma e doutora em Agrometeorologia, Bernadete Radin destaca os impactos das mudanças climáticas e as alternativas para evitar prejuízos. Cobra mais investimentos do governo para qualificar os centros de pesquisa.

ENTREVISTA

“O cuidado com o solo é primordial”

Aprevisão de aumento da temperatura mínima nas próximas décadas exige que o produtor esteja atento e preparado para produzir em qualquer circunstância.

Até o momento, não é possível mensurar o quanto as mudanças climáticas afetarão a agricultura no RS, mas já há estudos que projetam como será possível fazer frente às adversidades que estão por vir. A agrometeorologista, pesquisadora e engenheira agrônoma

O histórico indica que as três piores quebras na safra de milho e duas de soja foram verificadas em anos neutros. Quais as recomendações a serem seguidas pelo produtor a fim de evitar prejuízos?

estiagem, se perde parte e não tudo. Trabalhe com cultivares de diferentes ciclos. Cada ciclo tem opções de cultivares precoces, normais e tardias.

O cuidado com o solo ajuda a reduzir os impactos das mudanças climáticas?

da Fepagro, Bernadete Radin, traz um panorama para este ciclo e quais as alternativas para enfrentar possíveis mudanças no futuro.

Bernardete Radin – O ideal é seguir o zoneamento agrícola. Plantar nas épocas indicadas como sendo de menor risco climático. Fazer o escalonamento de semeadura. Isso faz com que você tenha períodos de colheita e estágios da cultura em diferentes datas. Cada cultura tem um período mais

mil hectares e cinco milhões de hectares para cada cultura respectivamente. Logo temos a maioria da lavoura descoberta no período de pousio, descanso da terra. Isso é ruim. A chuva que incide sobre o solo desprotegido provoca uma desestruturação. O ideal é ter alguma matéria verde sobre a terra para melhor acondicionar a cultura do ciclo seguinte. Pela nossa pesquisa, analisamos os impactos de uma lavoura coberta e outra descoberta ao longo dos anos.

sensível à deficiência hídrica e é S você plantar

esse período é na floração. Se em diferentes épocas, a sua

diferentes épocas.

propriedade terá culturas em floração em diferentes

Se ocorrer uma

Bernadete – No estado, nosso solo está muito compactado. A água que cai sobre a terra, invés de infiltrar, escorre sobre a superfície, não penetra. O solo está malestruturado. Em casos de erosão, chuvas torrenciais, a água leva os nutrientes, a cama da de terra mais superficial e fértil. Provoca o assoreamento dos rios e consequentemente enchentes. Melhorar a estrutura do solo faz com que, invés de escorrer, a água penetre mais e seja liberada conforme a necessidade das plantas. Em períodos curtos de deficiência hídrica, cinco a sete dias, o solo com boa estrutura aguenta e faz com que a raiz consiga buscar água. Em solo malestruturado, vai ter menos água e a raiz fraca, sofre e teremos perdas.

Qual a importância da cobertura verde?

Bernadete – Desenvolvemos um projeto com outras instituições onde buscamos implantar as premissas do plantio direto e a rotação de culturas. O solo precisa ter um bom aporte de matéria verde e inclusive voltamos a orientar o produtor a praticar o terraceamento – formação de terraços – nas lavouras. Isso reduz a velocidade da água sobre o solo, aumenta a infiltração, já que 90% da área cultivada no RS é sem irrigação. No entanto, muitos plantam apenas trigo no inverno e soja no verão. São 800

Até dezembro a previsão é de escassez de chuvas. Quais os motivos que justificam essa previsão e como será o verão? Bernadete – Modelos internacionais indicam a probabilidade de 60% de termos um ano neutro, quando o regime de chuvas é menor. Analisamos 50 anos de dados meteorológicos e 42 anos de produção e descobrimos que em anos neutros, comparado com o La Nina, quando as chuvas são mais irregulares, as precipitações são menores nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro chove menos e isso é bem preocupante. A cultura do milho tem seu período crítico justamente na primeira quinzena do ano e, caso registremos um deficit hídrico neste momento, as perdas serão grandes. A soja tem seu período crítico em fevereiro e março. O cereal tem mais plasticidade. Se a planta tiver menos grãos, tendem a ser maiores, assim como as vagens. A cultura do milho é mais prejudicada do que a da soja.

O aumento da temperatura e o regime de chuvas menor pode prejudicar os resultados

na lavoura?

Bernadete – Esse é um assunto divergente entre os pesquisadores. Os impactos das mudanças climáticas, temperatura e regime de chuvas são maiores no Hemisfério Norte do que no Sul. No Brasil, se diferencia em cada estado. Aqui a tendência é de aumentar o volume de chuvas e na Região Nordeste, por exemplo, será mais reduzido. Quanto ao comportamento da temperaturas, temos pesquisas e resultados divergentes. Alguns apontam para um aumento da mínima e outros não. Tudo depende do período e de qual fenômeno climático, La Lina e El Nino, estava em atuação, e em que foi feito o estudo. Fiz uma análise da última safra e, comparando com o histórico, ela ficou acima da média. A elevação da temperatura aumenta a liberação de CO2, da fotossíntese e consequentemente da produtividade. Permitiria ampliar o cultivo de culturas afetadas pelas geadas, como é o caso da cana-de-açúcar. Prejudicaria frutíferas de clima temperado e sua floração, que necessitam de muitas horas de frio, Por exemplo, as macieiras (600 ho-

Precisamos acompanhar as mudanÁas, entender como elas interferem no ciclo produtivo e na vida da sociedade, nos adaptar e buscar alternativas para manter a produÁ„o

ras de frio ao ano). Com menos floração, menos frutos. Precisamos sempre adotar práticas conservacionistas e preservar o ambiente, independente das mudanças climáticas. Se houver alterações, pesquisadores, agricultores e sociedade em geral terá que se adaptar a essa nova realidade, pois ela não ocorre de forma brusca.

Uma planta tolerante ao calor passa dez anos em fase experimental, com investimento de 1 milhão de dólares ao ano. Falta apoio governamental?

Bernadete – Falta muito apoio. Leva-se muitos anos, cerca de oito, para lançar uma nova cultivar em que se possa afirmar que ela é tolerante à seca ou demais alterações do clima. No estado, as estiagens são cíclicas, voltam a ocorrer entre um certo intervalo de tempo. Dos governos que passaram nenhum deu apoio à pesquisa. Todo mundo quer saúde, educação e segurança. Alguém defende a pesquisa? Ninguém quer saber. Nós pesquisadores estamos preocupados, pois inclusive o governo estadual quer extinguir a instituição. No geral, os políticos não enxergam essa

área como uma coisa necessária. Eles olham para a agricultura, o avanço da produtividade e acham maravilhoso. Acham que isso surgiu do nada, foi um milagre, alguém estalou os dedos e aumentou-se a produtividade. Mas devemos isso às novas tecnologias e pesquisas geradas pelos pesquisadores, adotadas pelos agricultores.

Considerações finais

Bernadete – Nossa pesquisa no estado está abandonada. A Embrapa é reconhecida porque tem dinheiro, sabe se vender, tem um bom marketing. A gente não sabe fazer isso. Carecemos de estrutura, de melhores condições de trabalho e até temos nossos salários parcelados. Morremos devagar. Temos centros, pesquisas e profissionais atuando em todo estado. Sabemos das necessidades e dos potenciais do agronegócio, mas não ganhamos a devida importância. Enfim, precisamos acompanhar as mudanças, entender como elas interferem no ciclo produtivo e na vida da sociedade, nos adaptar e buscar alternativas para manter a produção.

Entrevistafeitaportelefone

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
AH - Agronotícias | 29 de outubro de 2016 by Jornal A Hora - Issuu