MOZART DAS LAVADEIRAS JB foi despertado do flash back de entrevero socialista pela música profundamente linda e profundamente melancólica que, através da parede, chegava abafada a seus ouvidos, vinda do apartamento ao lado. Embalou-se por alguns segundos na névoa de notas melodiosas, plásticas e entorpecedoras, levantou-se da banqueta, deu chauzinho para as fotografias do espelho e foi à campainha da vizinha, importuná-la talvez. — É você, Jão. — Quem podia ser? — Fala. — É essa música. Lembra de quando eu era pequeno e ficava vendo minha mãe lavar roupas no tanque. — Mozart lembra sua mãe lavadeira? — É. Ela punha LPs de música clássica numa vitrola portátil para ouvir enquanto lavava roupas. Desde essa época, Mozart para mim combina com sabão em pó e alvejante. Até hoje, quando ponho a roupa na máquina de lavar, ligo o rádio em estação de música clássica para abafar o som da trepidação dela. — Mas não estou lavando roupa, estou passando. Pega café na garrafa térmica, senta em algum lugar e fica quieto, que gosto de passar roupa ouvindo Mozart.