Bendita Cocaína

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Bendita cocaína1 “O que levam na carrinha?”, pergunta o guarda fronteiriço de uniforme impecável à entrada no Senegal em Rosso. Na mão esquerda folheia com displicência os nossos documentos. A direita repousa sobre a metralhadora. O semblante cerrado é a sua outra arma, numa cara negra pontuada por dois grandes olhos encarniçados. “Cocaína para as criancinhas”, responde Enrique de forma pausada. Com esta vergastada surpresa, quatro pares de olhos esbugalhados alvejam-no. Encontramos nele um ar sério, na calma de duas esferas azuis, sob os óculos e a barba ruiva. Quase de imediato, com a cabeça imóvel, olho o guarda hirto. Adivinho-lhe a mão direita tensa, tacteando a cuspidora de chumbo. Entre ambos, o duelo de olhares quedos não desarma. Naquele momento, ouvimos o inaudível: o engolir em seco, a gota fria de suor que escorre da testa, o silêncio do pestanejar ausente.

–1– 2010 © José Bragança Pinheiro (http://clipFile.weebly.com)


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