Aqui ao lado

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Aqui ao lado

Aqui ao lado Para nos afastarmos, nem sempre precisamos de ir para longe. Saber esperar A lua nova não traz grande luz na pista de areia que percorro entre o pinhal. Depois de algumas horas a tentar adormecer na nossa tenda dupla, desisti de esperar pelo fim da animação vizinha. Com os timbales e pandeiretas em fundo, levanto-me e dirijo-me para a praia. As chaminés da arriba fóssil da Praia da Galé crescem como ninhos gigantes de térmitas. A fraca luz da noite não me permite recrear as tonalidades que nos deixaram boquiabertos no final do dia. As chapadas de sol laranja transportaram-nos para outro local, impossível de ser nesta Terra, assegurávamos. Rapidamente, a desilusão nocturna é substituída pela nova descoberta pessoal. Colunas fantasmagóricas erguem-se, alinhadas como sentinelas ao longo da arriba. Os contornos ténues e diluídos acrescentam-lhes agora uma nova dimensão. Uma diferença de horas bastou para que o conhecido seja na realidade um estranho. E bastou saber esperar.

–1– 2010 © José Bragança Pinheiro (http://clipfile.weebly.com)


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