TODOS OS MOSTRA DE ARTES
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN
GÊNEROS:
Uma celebração à vida e à poética de
E PLURALIDADES
OS GÊNEROS: MOSTRA
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN
TODOS
Uma celebração à vida e à poética de
DE ARTES E PLURALIDADES
João Silvério Trevisan na Galeria Metrópole, em São Paulo (SP), 2026 | foto: Tamara dos Santos
Expediente Coordenação editorial André Furtado, Carla Chagas e Kety Fernandes Nassar Conselho editorial Carlos Gomes, Eliza Oliver, Galiana Brasil e Regina Medeiros Produção e edição de texto Duanne Ribeiro e Heloísa Iaconis Produção editorial Pedro Soares Bueno (estagiário) Supervisão de revisão de texto Tatiane Ivo Revisão de texto Karina Hambra e Rachel Reis (terceirizadas) Projeto gráfico Lorraine Marinho Produção gráfica Lilia Góes (terceirizada) Fotografia Tamara dos Santos (terceirizada) Colaboração Jean-Paul Carraldo, Laura Castro, Leonardo Piana, Marcos Visnadi e Renata Pimentel
Sumário
EDITORIAL
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ESPELHO
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Carta ao visionário sem rumo por Jean-Paul Carraldo ENTREVISTA
Amor, sinônimo de vida, e o mistério como alvo: uma conversa com João Silvério Trevisan
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por Duanne Ribeiro e Heloísa Iaconis RECEPÇÃO
Quantos silêncios cabem em torno de uma obra?
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por Renata Pimentel FOTOGRAFIA
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MÁSCARA
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Andar pela cidade, andar por memórias Profeta
por Laura Castro AUDÁCIA
A coragem foi nosso artigo mais valioso
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por Leonardo Piana PAIXÃO
Encontros amorosos com João Silvério Trevisan
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por Marcos Visnadi AGENDA
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Editorial Muito prazer, este é o João Silvério Trevisan. Recebam as boas-vindas ao mistério. Ao longo das próximas páginas, mergulhamos na trajetória do escritor e em sua obra múltipla, marcada pela visceralidade, pelo engajamento e pela audácia estética. Seguiremos adiante extraindo camada após camada desse trabalho, sem a garantia de que possamos chegar ao núcleo (onde talvez encontrássemos nós mesmos). Esta publicação assinala a primeira Todos os gêneros: mostra de artes e pluralidades dedicada a um autor. Não é por menos: Trevisan é um dos nomes mais relevantes dos debates sobre gênero no país, tendo publicado, no campo da não ficção, Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade (1986) e Seis balas num buraco só: a crise do masculino (1998). Sua produção literária, para além de seu experimentalismo e de sua intertextualidade, de seu confronto com certa ideia de Brasil e de uma análise da memória, também traz uma perspectiva subjetiva, tantas vezes carregada de dor, da experiência homossexual do amor e de outros afetos. Dizer isso, contudo, seria dizer pouco. Trevisan foi uma das peças fundamentais para a formação do movimento homossexual no país, tendo fundado o Grupo Somos de Afirmação Homossexual e o jornal Lampião da Esquina, atuantes entre 1978 e 1981. E sua obra, para além da literatura, espalha-se pelo cinema – em que se destaca o longa-metragem Orgia ou o homem que deu cria (1971) –, pelo roteiro, pela dramaturgia, pelo jornalismo. É, ademais, uma obra em movimento: não só as gavetas do autor estão repletas de textos inéditos, mas também ele prepara um novo romance, Antropofágico amor. Trevisan consiste nessa mistura, como ele nos afirmou na preparação deste evento: “Os livros resultam desse caos: ‘Muito prazer, este é o João Silvério Trevisan’”.
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É marcante o quanto o projeto da mostra Todos os gêneros se entrelaça com o percurso temático do escritor: em 2025, o evento discutiu o tema “Qual é o peso (da falta) do amor?”; em 2020, abordou as várias masculinidades; em 2019, trouxe a questão do envelhecimento para a população LGBTQIAPN+, com a participação do autor, que nos escreveu então o conto “Obscura maravilha”; e, em 2018, explorou
vivências em torno do HIV (Trevisan foi diagnosticado em 1992). Outros pontos de contato entre ele e este programa, realizado desde 2014 – chegamos agora à 13ª edição –, podem ser levantados1, mas é suficiente ressaltar que sua presença na cultura brasileira é parte do que permite a existência de uma mostra como esta, e que os debates aqui trazidos possibilitam, por sua vez, a retomada de sua obra com outro olhar. Esse é o papel também desta publicação. O texto de abertura é de Jean-Paul Carraldo – crítico criado por Trevisan em 1985 para reagir ao silêncio sobre sua obra –, que fala a seu criador sobre os descaminhos da recepção de um escritor. Na sequência está uma entrevista com o próprio João Silvério Trevisan, feita por Duanne Ribeiro e Heloísa Iaconis, na qual o homenageado reflete sobre processo criativo, ética e política. Depois, uma série de autores discutem sua obra: Renata Pimentel trata de silêncio e resistência; Laura Castro retrata o autor-profeta; Leonardo Piana sublinha a coragem; e Marcos Visnadi enfeixa amor e literatura. Além disso, contamos com um ensaio fotográfico no qual Trevisan percorre ficções e memórias incrustadas na cidade de São Paulo; por meio de seu (re)encontro com esses locais, ouvimos suas histórias e entramos em seus livros por outras portas. Ao fim do livreto está a agenda da mostra. Os leitores também podem acompanhar o site do Itaú Cultural (itaucultural.org.br), no qual publicaremos, no decorrer do evento, conteúdo sobre as várias atividades artísticas do autor. Itaú Cultural
1. Acesse todas as publicações anteriores da Todos os gêneros em issuu.com/itaucultural.
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Espelho
ESPELHO
ENTREVISTA
RECEPÇÃO
FOTOGRAFIA
MÁSCARA
AUDÁCIA
João Silvério Trevisan, 2026 | foto: Tamara dos Santos
PAIXÃO
AGENDA
Carta ao visionário sem rumo por Jean-Paul Carraldo Meu querido João Silvério Trevisan: Faz muito tempo que não nos falamos. Se você não se lembra de mim, basta abrir seu romance Vagas notícias de Melinha Marchiotti e vai me encontrar. Não vim aqui falar da minha vida, mas da tua. De certo modo, estou falando de mim também. Nas últimas décadas, confesso não ter acompanhado tua trajetória com a atenção merecida, mas li e vi nas redes sociais muitas coisas tuas que soavam como pedidos de socorro de alguém que não foi amado por seu país. Eram tantos que tua insistência revelava desencanto. Cheguei a me perguntar se alguém estaria ouvindo tua voz, que por décadas martelava as mesmas queixas e súplicas. Não tenho certeza. Mas sobra a sensação de que você ostentava uma grande dor. Mais ainda: você parecia falar da mesma dor que motivou nosso encontro em 1985, após tua volta da Alemanha – quando praticamente se iniciava tua carreira literária, e tua presença na vida cultural desse teu país se confrontava com o silêncio, aquele que, de tão bem articulado, virava conspiração.
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Não sei sequer se você está vivo ou morto. Em qualquer dos casos, falo para a tua memória e, no limite, para os teus remanescentes. Não é preciso muito esforço para supor que, hoje, teus antigos algozes talvez estejam propondo te levantar estátuas em nome da mesma radicalidade com a qual você os incomodou quando se contrapunha a eles – inclusive porque sempre odiou estátuas e bajulação. A mesma sociedade que durante décadas tentou te suicidar depois se gruda à tua memória para tirar proveito do teu cadáver. Você já dizia isso de Antonin Artaud, que já dizia isso de Van Gogh, que já apontava para a incompetência do seu tempo. Nosso desencanto radical, como seres na História, sofre um processo de bajulação deliberada e se torna radicalidade glamourosa para fins de consumo. Depois que se apossam da nossa memória, os criadores de estátuas matam-nos outra vez quando nos alçam ao papel do Pai-Herói, cujo cadáver será devorado no banquete do conformismo disfarçado de rebelião, algo em que eles são mestres. É espantosa a covardia que envolve tal operação: a tradição rebelde se vê castrada pelo
ESPELHO
mesmo movimento que a gerou em confronto com autoritarismos do passado. Em vez de condenar às claras, agora condena-se consumindo. Frankenstein é transformado em bom-moço desse progressismo pasteurizado que se disseminou na cultura de massas, inventou a indústria cultural e passou para as redes sociais, nas quais o algoritmo camufla tua função de freio da História. Muitos anos atrás, Pasolini já apontava o novo fascismo implicado na cultura do consumismo de que estamos falando ainda agora. Sinal de que nada mudou – o que leva a crer que gerações futuras vão continuar testemunhando o mesmo mecanismo de mistificação assassina. Você reconhece esse último parágrafo? Roubei da introdução de Heliogábalo & eu, uma peça tua sobre Artaud, e o reescrevi num ímpeto de profetismo. E continuo roubando, quando você mencionou o temor de que confundissem teus possíveis “ímpetos de rebelião” com falsas provocações bem pensantes nesta época de permissividade em que a nudez não é mais castigada, mas agora serve de veículo para a promoção de calcinhas, sorvetes, máquinas de lavar e toda a tralha que a sociedade do consumo lança sobre nossas cabeças prepotentes. Então, se acaso você me ler, eu lhe faço uma pergunta obrigatória: toda essa fidelidade a si mesmo valeu a pena nos teus mais de 80 anos de vida, João? Ou, melhor ainda: você conseguiu descobrir quem é esse João? Não se chateie com minha inconsistência nem com minha insistência. Você já se colocou essa questão durante tua vida toda, na tentativa de encontrar respostas. E aqui ouso roubar mais um pouco das tuas ideias, tiradas de um artigo que comentava as encenações de tuas peças por Antonio Cadengue e George Moura, em Pernambuco – uma raridade entre as muitas peças que ficaram nas gavetas do Brasil e dos teus censores de vários tons. Foi um período em que você descobriu o Duplo de si mesmo, ao permitir que tantos duplos aflorassem em tuas criações. Você as chamou de “celebrações da ambiguidade”. Aí estava implícito um gesto de libertação, porque você se diluía em outros, que assim se tornavam parte de você. Ao colocarem em cena tua peça, esses “loucos do Recife” também te interpretavam, enquanto você interpretava Antonin Artaud. Pura orgia da criação, não é? Sim, no sentido que lhe dava Roberto Piva: “Poesia é aquilo que sobra da orgia”. Seria este o grande paradoxo poético: as diferenças possuem mais semelhanças do que nossa razão consegue admitir. Somos ao mesmo tempo uns e outros, nunca acabados. Talvez esteja aí o segredo para vencer a morte (o grande Outro), que não é apenas morte, porque
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implica a pujança da vida antes dela. Mas há pujança também após a morte, por que não? Este é o objetivo da memória: lembrar para resgatar. Em vez de se perder sendo lançada no mar do nada, tua obra talvez ajude a reflorescer aquela antiga capacidade criativa que muitos renegaram para se integrar ao coro dos contentes. Sim, sentaram-se à mesa dos vencedores e conquistaram o ouro efêmero do poder. Mas, como dizia Hilda Hilst, “o ouro do poeta é tão raro que o teu ouro não compra”. Para estes contentes de hoje, esvaiu-se a grandeza de dialogar com o futuro. Então vamos imaginar você, João. No futuro, descontentes metafísicos, patafísicos e outros tantos poderão encontrar alento em tua obra, para levar adiante o estandarte rubro-rubro da poesia. Em estado de rebelião, eles sairão pela vida afora gritando o grito de guerra dos visionários, pela voz de Roberto Piva, que já gritava pela voz de Walt Whitman, que você tantas vezes incorporou para gritar de novo: “Nós somos metralhadoras em estado de graça!”. Seja lá onde você estiver, João, seja abençoado pelo Anjo da História, e não esqueça que o futuro te aguarda.
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É o que te deseja o teu personagem Jean-Paul Carraldo.
ESPELHO ESPELHO
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Entrevista
ENTREVISTA RECEPÇÃO FOTOGRAFIA MÁSCARA AUDÁCIA
João Silvério Trevisan, 2026 | foto: Tamara dos Santos
PAIXÃO AGENDA
Amor, sinônimo de vida, e o mistério como alvo: uma conversa com João Silvério Trevisan por Duanne Ribeiro e Heloísa Iaconis Digamos que aqui se inicia um mergulho radical ao fundo do coração. A frase na abertura de Em nome do desejo (1983), primeiro romance de João Silvério Trevisan, serve bem para abrir também este diálogo com o escritor, no qual ele nos falou de como a sua literatura parte de encontros consigo e com aquilo que, dentro de cada um, é o outro. Em uma arriscada arqueologia, amor, morte e dor se revolvem, e se revelam verdades sobre passado e presente; desse processo se extrai o material literário. E isso não é tudo: será preciso, com o mesmo rigor, construir uma maneira de contar, uma estética nunca acabada – como Trevisan estipula: “Eu quero começar a minha literatura a cada obra que escrevo”. Há muitos mistérios guardados nesse poço? Sim, há. O destino dessa obra – sua recepção, em particular pela crítica – também é tema da entrevista. Trevisan sente que as inovações técnicas e as peculiaridades temáticas do seu trabalho não têm ou não tiveram ainda o merecido tratamento, o que ele expõe com a vivacidade de quem dedica a vida a um projeto. A recusa a ser reduzido à militância e a enredos menos ácidos, entre outros pontos, traz uma crítica aos nossos modos de leitura e à construção do cânone literário.
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Enfim, a conversa trata do Trevisan leitor – “O que eu vou fazer com esses amores literários que tenho, que são meus grandes amores? Vou degluti-los” – e do seu ímpeto por um outro Brasil e por uma pátria que seja acolhimento. Além disso, o autor fala do papel da experimentação em sua escrita e sua vida e do significado do amor – que, para ele, não é nem mais nem menos que um milagre.
Duanne: Você acha que jornalistas, críticos e leitores têm feito as perguntas certas sobre a sua obra?
EVEL IPSAES ENTREVISTA
Não, não, não. Não têm. Isso é uma dor indescritível. É o tema do romance que eu estou escrevendo. Chama-se Antropofágico amor, mas esse amor do título é muito amplo. Ele tem um sentido estrito, que é uma ruptura que aconteceu num determinado dia em Salvador, na Bahia, e tem um sentido mais amplo, que é o meu amor político, evidenciado no romance pelo fato de eu ter criado o movimento homossexual junto com esse cara. Eram dois amores, o amor político e o amor afetivo, físico e sexual, intrincados ali. E aí as pessoas não conseguem entender. Mas tenho que ser honesto e dizer que eu, antes de todo mundo, estou tentando até hoje entender quem sou. Outra questão nesse romance: eu estou escrevendo há dois anos, fazendo análise há dois anos para escrever, porque é muito difícil, é um mergulho muito profundo. É um mergulho dentro de mim e dentro de um mistério que eu não conheço, que é o meu mistério pessoal, que está lá e eu não... O mistério é como uma... Acho que eu falo no Devassos no paraíso... Não, no Em nome do desejo... O mistério é como uma casca de cebola. Você tira uma casca e debaixo tem outra. E não tem centro. O centro é o mistério. E aí, para continuar respondendo à sua pergunta, até hoje eu sou tentado a perguntar, apesar de a pergunta não ser respondida por mim, porque eu não consigo, eu sou tentado a perguntar sistematicamente… Pode falar palavrão, não é? Duanne: Pode. Caralho! Em que país eu estou que não consigo falar com o meu país? Você falar para as paredes, você falar para o abismo é muito doloroso. A crítica, que teria o dever de fazer a ponte entre a minha obra e o público, ou se omite – o que quer dizer que frequentemente ninguém fala dos meus livros – ou, quando fala, não entendeu absolutamente nada, porque ela não estava absolutamente interessada na minha obra. Isto aqui [mostra o seu primeiro livro, Em nome do desejo] passou em brancas nuvens. Eu cheguei ao Brasil depois de nove meses na Alemanha com uma bolsa… “Cadê meu livro? Como assim?” Não sei
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se 20 anos depois, não, acho que não, 15 anos depois, saiu um livro chamado Pornopopeia [obra de Reinaldo Moraes]. E eu me lembro de uma crítica canônica deste grande crítico de esquerda, o… Se me fue el nombre… Ele era uma referência, a maior referência depois de Antonio Candido. Me escreve meia página na Folha de S.Paulo sobre esse livro, saudando o primeiro romance brasileiro que faz o encontro entre a literatura e a pornografia. Eu falei: “Filho da puta! Filho da puta! E o meu livro, que é pornografia poética? Esse era o meu projeto!”. Eu poderia dar inúmeros exemplos! Mas me dá enjoo no estômago, porque eu estou falando disso no meu livro, estou fazendo um acerto de contas, inclusive com a crítica. Será que é suficiente para você o exemplo que eu dei ou ainda não? Duanne: É suficiente. Eu preciso deixar claro que a crítica brasileira tem muito a ver com a inexistência da minha obra para as novas gerações. Duanne: Lembro a repercussão do Pornopopeia à época. Foi saudado... Enfim, eu não vou entrar no mérito do livro, não é por aí que eu estou fazendo. Mas era, obviamente, um livro escrito por um heterossexual. E, obviamente, o outro foi escrito por uma bicha, que era eu. E aí tem sempre uma suspeita em cima. Eu era visto sempre com suspeita porque eu era “o militante”, estaria fazendo proselitismo. Um crítico disse: “O problema da obra de João Silveira Trevisan é onde termina o escritor e onde começa o militante”. Eu fiquei uma fera. E respondi no jornal. Ainda bem que o jornal resolveu publicar, e isso está num livro sobre artigos e ensaios meus, de 2002, chamado Pedaço de mim. Duanne: O erro desse crítico foi achar que tinha de haver uma divisão entre essas duas coisas? Essas coisas se misturam mesmo na sua obra? Como você vê estes dois lados, política e literatura?
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Ele fez a diferença.
Duanne: É. O erro dele foi achar que tem diferença?
EVEL IPSAES ENTREVISTA
Divisão. Por que é que eu estava sendo militante? É porque eu falo da homossexualidade como alguém que está pisando o terreno da homossexualidade, porque eu sou homossexual? Então, se eu falar de uma maneira muito próxima, é porque estou fazendo propaganda, proselitismo? Inclusive, na resposta, eu falei para ele: “Você vai acusar o Spike Lee de ser militante negro?”. Duanne: Capaz que acuse. “Você vai acusar Simone de Beauvoir porque ela é feminista e a obra dela está sob essa ótica? Então por que você vem encher meu saco? Porque o problema é seu. Porque você está vendo, projetado em mim, um demônio seu.” E foi muito profético isso. Porque, quando eu o conheci, percebi que tinha um problema ali, mal resolvido. Isso acontece muito. Também é um dos temas que estou abordando em Antropofágico amor. A quantidade de gente que joga demônios em cima de mim por causa da minha homossexualidade assumida. E que foi assumida muito cedo. Quando pouquíssima gente falava disso. Tem um monte de escritor aí que: “Eu sou homossexual, estou escrevendo sobre isso”. Está bom, está bom, você está fazendo isso hoje. Meu amigo, você não sabe o que foi, no meu primeiro livro de contos, me dizerem: “O tipo de escrita que você faz é burguesa porque você está escrevendo sobre homossexualidade. Nós não podemos publicar porque é uma obra decadente, mas a gente publica os seus contos políticos”. Uma editora comunista me falando isso. Uma das primeiras que eu contatei para publicar meu livro. Duanne: Você acha que a sua literatura e a sua militância são duas áreas separadas ou elas se sobrepõem? Elas se sobrepõem. Eu quero que elas se sobreponham. É claro. E nem por isso eu sou militante. Vão pra puta que os pariu, cara! Duanne: Eu, de minha parte, nem acho pejorativo ser militante. É uma coisa que me tira do sério, porque demorei muito tempo… “Mas onde é que na minha literatura tem a militância? Como assim?” Eu me lembro de um conto que escrevi [chamado “Sobreviventes”].
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Era [a história de] um jovenzinho de uma beleza espantosa, que prepara o seu suicídio e se mata porque não consegue entender o amor que sentia fora do parâmetro consagrado. Escrevi porque achei que era fundamental as pessoas entenderem o que é a experiência amorosa de alguém que diverge da heteronormatividade. Quando escrevi, nem tinha esse termo. Nada disso. Mas é uma história que… Eu vivi essa história. Eu era apaixonado por esse menino. Era um menino fascinante, inteligentíssimo. Pois aí vem um crítico e me acusa dizendo que eu só escrevo... E era um homossexual! Já aí você veja como é uma puta de uma loucura. Era um homossexual dizendo: “Porra, o cara só escreve sobre coisas ruins da homossexualidade. Os caras que se matam. Só dores”. Mas, meu Deus do céu! Eu saio do buraco e caio no abismo? Agora o cara vem me acusar de estar sendo preconceituoso em relação à homossexualidade, quando entra em cena o politicamente correto e você só pode falar coisas bonitinhas. Aí, é claro, eu comecei a perceber que as duas posições eram muito problemáticas e que era a minha literatura que essas pessoas não estavam compreendendo. E é claro que isso me aborrece imensamente, porque eu me dou o direito de contar histórias de homossexuais que se mataram. Eu falo de dores homossexuais muitas vezes. De novo a mistura. Eu me dou o direito de falar: homossexuais sofrem muito. Como escritor de ficção, falar disso. Como ensaísta, falar disso. E, ao mesmo tempo, falar do amor. Este livro aqui [indica mais uma vez Em nome do desejo] não é um livro que termina com um final feliz. De maneira alguma. Mas eu conheço pessoas da comunidade LGBT que acham que atualmente as obras têm que terminar todas com um final feliz, porque é isso aí. Mas em que mundo vocês estão? Isso é um mundo do faz de conta? Nós estamos sofrendo para caralho.
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Uma criança homossexual nunca mais vai se recuperar da cicatriz que colocaram nela. Porque, quando ela é criança, sabe que tem alguma coisa estranha com ela e sofre loucamente. Eu sei, não é só pela minha experiência pessoal, mas por n pessoas que eu conheço que sofreram a mesma coisa. Inclusive jovens da atualidade, que vêm me procurar para falar isso. E vêm me falar: “Eu sou HIV positivo e não falei para ninguém”. Até hoje ainda sofrem por causa de coisas que são facilmente articuláveis. Mas sofrem por quê? Porque é aquela dor que continua lá
dentro. É uma cicatriz que a qualquer momento pode virar ferida de novo. Ou seja, a sensação de que você está vivendo no exílio permanente. Você está num país que não é o seu. Não é o país do seu amor. EVEL IPSAES ENTREVISTA
Heloísa: Agora há pouco você comentou sobre a terapia, a análise, enfim, para a escrita. Na sua experiência, qual é a diferença – se é que há – entre o mergulho em si mesmo na análise e o mergulho em si mesmo na literatura? Eu não acho que há diferença. Muita gente diria: “Ah, a análise atrapalha o mergulho”. Não, absolutamente. Ela me facilita. Neste livro que estou escrevendo, Antropofágico amor, claramente isso aconteceu, porque eu fui procurar um analista para poder meter a mão nesse material de uma dor profunda. O dia em que eu abri a caixa com os meus diários e todo o material do período, eu tive uma crise de choro a sessão inteira. Nós, eu e o meu analista, criamos... Eu acho que é uma palavra que não existe, chamada “literoanálise”, porque nós estamos fazendo um escambo. Eu ensino literatura para ele e ele me analisa. Já dei rudimentos de literatura, e ele estava interessado por causa da tese dele, da qual eu acompanhei, de certo modo, justamente a parte literária, a articulação de personagem que ele colocou na tese. Na semana passada eu disse: “Eu estou travado, não sei o que está acontecendo, não consigo escrever”. Ele disse: “Mas em que ponto?”. E aí eu pensei bem: “São os meus diários”. Nós vamos começar, na análise, a ler os meus diários, porque eles são um espanto de dor, um espanto de dor! São dez cadernos escolares em que eu ia colando, inclusive, pedacinhos de papel, tudo escrito à mão. Eu não conseguia colocar para fora aquilo que estava escrevendo no momento, então ia tomando nota enquanto estava na rua. Lembro que uma vez eu parei debaixo de um viaduto para escrever num pedacinho de papel. Eu tinha uma cadernetinha sempre, que eu levava, uma mania de escritor na época, e ela cabia no bolso. Então chegamos a esse acerto para que eu pudesse, na verdade, conseguir escrever. Foi nesse contexto que eu defini que precisava chegar até o meu projeto desse romance tendo uma cortina.
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E essa cortina era a da ficção, no sentido de que eu ia tratar todos os personagens como pseudônimos, ou seja, como personagens rigorosamente baseados na minha vivência com eles. E eu sou o João. Então eu não sou eu. Nos outros dois romances autobiográficos, os dois livros de autoficção anteriores, eu era eu. Aqui eu sou o João. E isso me facilitou espantosamente. Do ponto de vista emocional, é uma diferença absurda você falar “eu” ou falar “aquele cara”, porque você tem uma intermediação já feita gratuitamente. Eu tenho que olhar para esse outro cara como um personagem. Só para dar um exemplo de como eu não acho que a análise interfere: há trechos da sessão que estão inteirinhos no livro, porque eu consegui detectar algumas coisas a meu respeito na análise e passei direto para o romance. Então tem me ajudado muito, muito, muito. Duanne: Antes desse procedimento de análise que adotou para seu último romance, você já fazia esse mergulho em si mesmo. Eu já ouvi você falando que o primeiro passo para fazer literatura é o encontro consigo mesmo, não é? Consigo mesmo, inclusive com os demônios que estão lá dentro. Duanne: Como você faz esses confrontos? Como você fez isso antes? É um acontecimento exterior que leva você a se repensar? Ou você decide: “Vou ter que tratar desse tema agora”? É por projeto ou por um abalo externo? Como é que você chega a esses confrontos consigo? Tudo isso. É tudo isso. Eu não posso definir... Cada romance teve um... Sempre foi um projeto, para mim, que minha vida e minha literatura se misturem. Não existe essa de você ir ao escritório para escrever a sua literatura. A minha intenção é que cada romance seja um reinício da minha literatura. Então eu não tenho um projeto fixo.
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Eu acabei de dizer a você… Dei como exemplo do meu relacionamento com a psicanálise o romance que estou escrevendo, o Antropofágico amor. Acho que dei a entender que foi a primeira ou a única vez. Não é verdade. Foi a primeira vez dessa maneira tão contundente, em que eu fui buscá-lo [o analista] para escrever o romance.
Esse livro eu escrevi no momento em que estava fazendo um período de análise com o mesmo analista que tinha me atendido para escrever… na época do Em nome do desejo. Não foi para escrever. Foi na época da ruptura. Ele me atendeu. Era bem mais jovem que eu. Não me cobrou um tostão. Me atendia duas vezes por semana porque o meu projeto era encontrar um jeito de me matar. Eu estava procurando remédio para me matar, por causa dessa ruptura amorosa.
EVEL IPSAES ENTREVISTA
Ganhei meu primeiro Prêmio Jabuti com um livro que eu jamais esperaria, porque ele foi publicado por uma editora minúscula. Uma grande editora recusou o livro porque não gostou. Era um péssimo romance policial. Para você ver, não é? Eu escrevi este romance chamado O livro do avesso em 1991. Ele saiu em 1992. Ele vira de ponta-cabeça e se torna O avesso do livro. Está esgotado até hoje. Nunca consegui voltar a publicar.
Então eu fui pedir socorro. Encontrei esse cara. Apareceu na minha vida por mistério. E aí, com ele, Jaime, que infelizmente já faleceu, apesar de ser mais novo que eu, fizemos um período relativamente longo, em que eu estava querendo conversar sobre a morte. Sobre o mistério da morte. Eu tenho Omolu. Não sei se você lembra. Omolu é um orixá ligado à terra, à morte. Obaluaiê. E eu tenho essa questão com a morte, de tentar me aproximar para entender. Não ter medo. É um projeto meu. Eu gostaria de ter uma morte feliz. Chegar na hora da morte e dizer: “Uau, vivi, porra! Até logo! Vivi”. Mas eu fui procurar Jaime. Eu não lembro... Ah, era o período da aids! Era isso. Eu já estava contaminado. Não, eu não tinha descoberto ainda. Eu não sabia ainda se estava infectado pelo vírus. Mas eu tinha sérias desconfianças. Então fui provavelmente movido por isso. O clima que havia no Brasil, aquele clima pesadíssimo. E à medida que eu ia escrevendo esse romance no período... Não tinha nada a ver com o que estava sendo discutido nas sessões de análise, aparentemente. Mas, quando fui fazer a introdução, queria escrever alguma coisa para dizer que eu tinha feito um mergulho muito profundo dentro de mim para escrever o livro. E, quando eu cheguei no meu Santo dos Santos, no trono, descobri que quem estava sentado lá era o outro. Quando eu reli o que tinha escrito, fiquei passado. Eu fui para Jaime: “Jaime, eu realmente fiquei louco desta vez. Olha a loucura: eu mergulho dentro de mim e encontro o outro”. E esse foi o procedimento que eu 25
estava trabalhando na análise, com relação à morte. Era exatamente a presença do outro dentro de mim. A morte é o outro, é alguma coisa totalmente alheia a mim, só que ela já está lá dentro. Eu estou explicando isso agora para vocês porque a análise, depois, me ajudou a fazer isso. Quando eu já tinha escrito o romance, fui me dar conta de que, de fato, era um livro que estava escrevendo sob o signo da morte e que não tem nada a ver com isso, aparentemente. É um poeta que é publicitário, um cara muito medíocre, inclusive na publicidade, que tem uma ruptura amorosa e está escrevendo um poema, mas não consegue terminar. Ele descobre nos jornais um grupo que assessora escritores que estão com dificuldade. Ele vai olhar o endereço e é lá nos cafundós de São Paulo. Tem que pegar ônibus, metrô e tudo para chegar até lá. E, quando ele chega, descobre que é um grupo de anarquistas que está preparando um ataque ao Theatro Municipal. Aí começa um livro policial, mas é uma brincadeira. É um romance inspirado num escritor [inglês] chamado [Gilbert Keith] Chesterton, que escrevia policiais. Ele é uma maravilha, porque é um filósofo. Ele pega o romance policial e vai inserindo coisas. Então, o que eu fiz no romance? O meu projeto era descobrir quem era eu e quem era o outro. É um romance em que, em nome da estrutura do romance policial, eu vou dialogando com uma série de autores. Eu releio trechos inteiros, de Marguerite Yourcenar, de Jean Genet. Enfim, vou relendo. O próprio James Joyce, que sempre me angustiou. O que eu vou fazer com esses amores literários que tenho, que são meus grandes amores? Vou degluti-los. Eu fui colocando minas… Sabe, lá no Estreito de Ormuz, as minas que os iranianos colocaram? Eu fui colocando minas, que eram momentos em que eu estava citando outros livros ou outros filmes. Eu estava discutindo o que é a autoria e o que é a citação. Era um livro sobre intertextualidade.
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Eu não sei se respondi à sua pergunta, mas basicamente toda essa circunvolução é para dizer que eu não tenho um projeto pronto para cada livro. E, nas minhas oficinas literárias, eu brigo com relação a isso. O projeto é fundamental, mas cada projeto tem uma abordagem diferente. Não dá para você ficar botando a literatura dentro de uma camisa de força. Eu conheço muitos escritores, inclusive excelentes, como é o caso de Clarice Lispector, que lá pelas tantas beiram a possibilidade de estarem entrando numa camisa de força. Porque Clarice tem um estilo bem claro, definido. E eu não quero [ter].
Quero realmente… Minha questão toda com a literatura é que eu quero começar a minha literatura a cada obra que escrevo.
Vixe, é um saco de gato parecido com o João Silvério Trevisan, que tem Omolu, Xangô menino e Xangô velhinho nas suas referências arquetípicas. Eu adoro Brahms, Johann Sebastian Bach, Stravinsky. Eu adoro música contemporânea, música erudita e música mexicana cafoníssima.
EVEL IPSAES ENTREVISTA
Heloísa: Você falou de vários escritores, de seus autores preferidos, de intertextualidade. A gente está falando de leitura também, de algum modo. Quero saber quem é o leitor João Silvério.
Essas coisas todas, para mim, são misturadas naturalmente. Eu misturo tudo. Eu gosto de misturar tudo. Então, como leitor, eu amo Jorge Luis Borges, mas não escrevo como Borges. Eu amo Thomas Mann, mas não escrevo como Thomas Mann. Amo Clarice Lispector, mas não escrevo… Hilda Hilst, minha querida, inclusive amiga. Eu não escrevo como Hilda, mas tudo isso me inspira profundamente. Como é que Borges me inspira? Através justamente dessas invenções que ele faz, do tipo que eu coloquei em O livro do avesso. As interlocuções que ele faz e as intertextualidades falsas, porque ele vai muito além. Ele cria autores com os quais está dialogando, só que eles não existem. Ele que criou o autor. Essa magia me deslumbra. Em cinema é muito parecido. Eu só não gosto do cinema comercial medíocre. Aliás, a mediocridade me enche o saco. Foi sempre um problema para mim, sobretudo a mediocridade dourada, ou seja, aquela pessoa que está se achando o máximo do máximo, que está falando a linguagem do seu tempo, mas não percebe que está sendo medíocre, que está usando slogans, usando clichês o tempo todo. Eu poderia dar outros detalhes. Por exemplo, Thomas Mann. Eu li três vezes Morte em Veneza. Uma vez na adolescência, outra muitos anos depois e uma recentemente – porque, no ano passado, fiz um posfácio para uma nova tradução de Morte em Veneza, [pois Mann] é o escritor com o qual eu dialogo ao escrever Ana em Veneza, já a partir do título. Mas ele comparece como personagem; a obra dele, em vários momentos eu dialogo com ela. Mas, quando li desta última vez 27
Morte em Veneza, compreendi pela primeira vez o livro, e fiquei em estado de graça. Essas misturas todas me encantam. Eu acho que tem muito a ver com o meu horror ao dogma, desde o tempo de seminário. Eu fui ensinado, no seminário, a odiar os dogmas do cristianismo. Esse é o falso mistério, é o dogma. Isso me leva a temer muito partidos políticos, temer muito religiões institucionalizadas. Eu acredito no sagrado, mas, por favor, não me peçam para definir nem Deus nem o sagrado. Como é que eu vou definir Deus? Deus é um puta mistério! Então, deixa Ele lá. E deixa Ele não só lá, deixa Ele aqui dentro de mim. Porque eu sou parte desse divino. Nós somos parte desse divino. O candomblé e as religiões afro-brasileiras entendem muito bem isso de que estou falando. Eles são baseados nesse conceito, nessa concepção. E acho que eu tenho muito a ver com isso, porque os meus problemas com a esquerda... Eu sou um cara de esquerda e tenho muito problema com os dogmas da esquerda, que eu farejo de longe. A minha homossexualidade foi um problema gravíssimo para os dogmáticos de esquerda. Eu bati de frente com esses dogmas. E o normal para alguém de esquerda é bater de frente com a direita, com aquele olhar político que adora dogmas. Por que nós, de esquerda, vamos imitar aquele olhar que adora dogmas, que adora o proselitismo, o autoritarismo, a injustiça, em nome de um idiota que, de repente, subiu ao trono nos Estados Unidos? Eu vou ter que acreditar naquele cara porque ele está lá no trono? Não, eu não acredito naquele trono. Então, acho que o meu gosto estético é muito diversificado, e eu gosto muito disso. Eu sou muito curioso. E isso nem é uma coisa sempre boa, porque eu, de repente, vejo tal autor e preciso ler. Aí vou atrás do livro, compro e ele vai para a pilha. Mas eu fico desesperado. A minha mesa é isto aqui de livro [faz um gesto representando a altura]. Mas, de qualquer modo, minha biblioteca é um dos meus grandes amores. E é por isso que estou desesperado para saber o que vou fazer da minha biblioteca. Faz anos e anos que estou tentando dar um direcionamento para doar minha biblioteca.
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Eu não sei, não consigo falar de autores… Por exemplo, Guimarães Rosa. Eu sou apaixonado por Guimarães Rosa, mas acabei não falando dele, porque ele é um entre tantos. Eu tenho um projeto de fazer uma leitura de um conto de Guimarães Rosa do meu ponto de vista. É um projeto
que nunca vai ser, entre milhares que eu tenho lá no meu acervo. Mas são essas figuras que me encantam até o ponto de eu querer trazê-las para dentro da minha própria criação.
Não tenho a menor dúvida, claro que vale a pena ser brasileiro. Quando morei nos Estados Unidos, mesmo no México, que era um país muito parecido, eu morria de saudade do Brasil. E voltei por causa da minha saudade. Eu saí fugindo de uma armadilha e, quando voltei, caí direitinho na armadilha, porque estava muito pior. Mas voltei, porque o que eu vou fazer? Em Berkeley, que era uma cidade politicamente muito avançada naquela época, todo mundo se cumprimentava na rua: “Hi!”. Mas eu sabia que a pessoa já tinha me olhado de longe e já tinha tirado uma linha toda. E aquele “hi” dela, aquela saudação, era uma coisa articulada racionalmente. E não era isso que eu conhecia no Brasil. Eu sentia saudade dos olhares do Brasil quando morei nos Estados Unidos. Eu sentia saudade. Doía de saudade. Não era uma coisa construída. Era uma maneira de ser.
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Heloísa: Quando estava respondendo, você falou sobre o país. Esta ideia do exilado e de um país no qual o seu amor não cabe. Para você, o que é o Brasil hoje? Vale a pena ser brasileiro?
E com isso eu não sou patriota. Eu odeio toda a ideia de pátria. É o meu anarquismo que entra em cena severamente. Acho que o Brasil tem coisas assustadoras. Nós temos problemas sérios, por exemplo, de aceitar situações... A gente sempre cozinha um pouquinho o galo. Digamos que é uma coisa da cultura brasileira. Mas eu não posso generalizar, porque tem outras coisas dessa mesma cultura que são muito avançadas. A própria música popular brasileira tem um diálogo importantíssimo com a vida brasileira. E sempre foi assim. O Carnaval, as críticas que o Carnaval fazia, que suas músicas faziam à política brasileira, não é? Então, eu só tenho muito problema com o conceito de patriotismo. Pátria é aquilo que me acolhe. Tanto que, em Ana em Veneza, especialmente, que é um livro sobre o exílio brasileiro… [Há] um cartaz dele em alemão com uma frase que é exatamente: “O brasileiro tem o exílio no coração” (“Der Brasilianer trägt das Exil im Herzen”). Esse exílio é uma coisa assustadora e, ao mesmo tempo, é fascinante, porque nos leva a procurar: “Qual é a minha pátria? Onde é que eu me sinto vivo? Onde é que eu me sinto enraizado?”. Não é aquele Brasil que 29
chamam de “Brasil”. Provavelmente um outro Brasil. Então é melhor a gente falar de “Brasis”. Esse Brasil que nós vivemos por quatro anos com aquela pessoa que não quero sujar minha boca pronunciando o nome, aquele Brasil eu não quero de volta. Eu não quero. Aquele Brasil eu não quero porque, inclusive, ele me exclui. E o projeto dele é me excluir. O projeto dele é excludente. Não apenas a mim, mas a comunidades inteiras. Duanne: Você citou, em uma entrevista, uma frase de Roberto Piva, que é: “Não há literatura experimental sem vida experimental”. Eu queria que me dissesse o que é, para você, uma vida experimental e como a gente pode vivê-la. Esta entrevista toda foi sobre essa vida experimental. Experimentar significa estar permanentemente em devir. E isso não é nenhum segredo. Veja, o João Silvério Trevisan de hoje certamente é o mesmo de 30 anos atrás. Mas, ao mesmo tempo, ele é completamente diferente. Vim experimentando várias coisas. Vim deixando de lado algumas coisas, e outras vim acrescentando a mim mesmo. E gosto de ter vivido isso. Tem o lado extremamente negativo, no sentido de que você corre o risco de [sentir] muita dor. Porque experimentar tem a ver com andar na beira do abismo. Se você está experimentando, é porque não sabe direito o que está ali. Eu sonho muito que estou perdido, que estou no estrangeiro e não consigo voltar para casa, não consigo sequer fazer as malas. É um sonho recorrente. No momento em que eu decidi que era adulto, comecei a ter esse sonho, que vai mudando de situações, mas o padrão se repete. Então eu acho que a pergunta que você me faz, do experimental, é menos complicada do que pode parecer ou do que estou tendo dificuldade de explicar. Mas acho que a ideia do estar permanentemente em devir é uma explicação muito próxima do que eu gostaria de dizer a respeito da vida experimental. O que não significa, por exemplo, que eu hoje… Por exemplo, 40 anos atrás eu não acreditava em casamento. Hoje sou casado com outro cara. Eu mudei e meu conceito de casamento também.
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Eu não tenho nenhum receio de dizer: “Aconteceram coisas novas e eu estou atento a essas coisas novas porque gosto de experimentar. Então estou preferindo essa solução àquela outra. Hoje, experimento esta
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outra”. E não é porque ela seja necessariamente melhor, mas é mais adequada para o período. Então, eu posso ter problemas com ela aqui, assim como eu tinha problemas quando achava que não havia nenhum tipo de relacionamento que pudesse precisar da bênção do Estado. Hoje o meu conceito de bênção do Estado é muito diferente. O casamento não tem nada a ver com a bênção do Estado. Tem a ver com direitos. Tem a ver com direitos que já são consagrados em uma sociedade democrática. Será que deu para explicar? Duanne: Acho que sim. Trata-se de manter uma abertura. Sim. Eu gosto dessa ideia. Por exemplo, eu tenho muitos amigos e amigas jovens. Porque, nas minhas oficinas, faço muitas amizades. Em geral são pessoas mais jovens. Não necessariamente. Mas eu tenho um bocado de amigos. Sou casado com um cara que é 40 anos mais novo do que eu. É tranquilo? Nem sempre. Mas, com certeza, tenho outro tipo de experiência conjugal. Estou experimentando. E me é importante esse contato com o que você chama de “estar aberto”. Porque eu sou um projeto em aberto, caramba. Qualquer um de nós é um projeto em aberto. Eu conheço gente que adora passar a vida inteira com aquela mesma definição. Não é o meu caso. Definitivamente. Heloísa: Perfeito. Pensando nessa abertura, mas agora falando especificamente da linguagem, há escritores para quem a linguagem é objeto de fascínio. Outros acham que ela é incapaz, é uma falta, e essa falta os motiva a continuar escrevendo. Como é a sua relação com a linguagem? A linguagem está sempre me faltando. Eu estou sempre atrás dela. E não é de hoje. É do ponto de vista poético, mas é também do ponto de vista, digamos, gramatical. Desde que comecei a escrever, tenho uma listinha de palavras que são difíceis, para mim, de lembrar. E que eu consulto. Claro que ela está aumentando. Isso é uma questão de linguagem. Por quê? Porque a literatura é baseada em palavras. A matéria-prima da literatura são as palavras. E as palavras são a possibilidade que nós temos de uma expressão literária perseguida sempre. Nas minhas oficinas, falo muito da capacidade expressiva de um texto. Não existe expressividade se não houver um cuidado com a linguagem. Toda expressividade depende da adequação da linguagem.
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Então, por exemplo, nas minhas oficinas, eu dou um tema, o mesmo tema para todo mundo, e algumas pessoas escrevem sobre ele de uma maneira muito padronizada. Elas contam aquilo talvez com problemas, talvez com menos problemas, do ponto de vista de estrutura, mas é basicamente uma linguagem padrão, clichê, a partir de uma expressividade clichê. E aí outra pessoa consegue uma expressividade que é muito próxima da experimental. Por quê? Eu acho que não existe possibilidade expressiva adequada se não houver um mergulho no seu interior para dialogar com aquele mistério, com aquele caldeirão que está fervendo lá, em que tem um monte de personagens que criam o João Silvério Trevisan, que criam você. E esses personagens compõem esse outro, que é o resultado de uma definição quase impossível. Estou permanentemente buscando essa expressividade a partir dessa figura que não consigo definir, que sou eu. E aí entram os demônios. Então eu digo: não existe literatura sem o contato com os seus demônios, porque é ali que estão as nossas verdades mais desconfortáveis, ingratas, difíceis. Quando você consegue uma expressividade, uma comunicação suficiente para expressar aquilo minimamente para você, aí você vai expressar para fora. Você tem esse movimento duplo da expressividade, para dentro e depois para fora. E é essa expressividade que traz toda a importância da linguagem, porque eu tenho que verbalizar uma coisa do mais fundo do meu mistério. Percebeu, então, a evolução, o movimento que se faz? E a linguagem, na literatura, está sempre no meio disso. A experimentação tem essa função, inclusive. Ela é mobilizadora, instigante, faz perguntas adequadas, coloca interrogações nos lugares certos. Heloísa: Pensando no tema que vai estruturar toda esta publicação, que é o amor: para você, o que é ser amado?
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Quando vejo uma criança chorando na rua, eu me sinto muito mal, porque a minha impressão mais profunda, o que me mobiliza ali, é a possibilidade de essa criança não estar sendo amada. É claro que é uma fantasia, ela pode estar chorando porque criança chora, mas eu me reporto à minha infância. Eu nunca quis ter filho, talvez tivesse sido uma grande covardia, porque a responsabilidade de ter uma criança é uma coisa que foge à minha capacidade.
Nós não sabemos o que é o amor. Ser pai ou ser mãe, ou seja, exercer essa profissão amorosa, ninguém foi preparado para isso, a começar pelos nossos pais. Eles nunca souberam como é ser pai ou mãe. Eu sou o mais velho, provavelmente fui o que levou na cabeça com as experimentações da minha mãe e do meu pai.
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Eu morro de medo de machucar essa criança, e tenho certeza de que posso machucar mesmo sem estar percebendo, porque é uma coisinha que está em absoluta formação e que depende absolutamente do quê? Do amor. Senão ela não vai vingar. Quer dizer, o ser humano é uma peça complicadíssima, porque é de uma fragilidade estúpida, que está baseada numa dificuldade estúpida de entender o amor.
Mas eu fui muito amado pela minha mãe. E essa foi a minha salvação, porque ela compreendeu quem era aquele molequinho tonto, tímido, mas que desenhava, escrevia, ganhava primeiro lugar na classe escrevendo, fazia bonequinhos de cera, brincava de boneca com as primas e odiava brincar de futebol! E, claro, para o meu pai isso era um crime contra ele e merecia, portanto, punição. Daí por que ele me dava surras, que eu não entendia. E a minha mãe, que levava surras também, sabia muito bem do que se tratava. Então, enquanto eu estava no seminário, ela comprava, à prestação, na única livraria da cidade, os livros ao alcance da cidade. Livros que, na época, se vendiam pela editora do momento, que era a Melhoramentos. Ela comprava livros de José de Alencar para eu ler. Porque ela sabia que... Foram as minhas primeiras leituras. Quando eu vinha nas férias, ficava lendo aqueles livros, perdidinho, supertímido. O amor é sinônimo da vida, um é sinônimo do outro. Eu não posso dizer que só a vida tem que ser sinônima de amor. Antropofágico amor termina exatamente assim. A defesa absoluta da necessidade do amor. Absoluta. Inclusive enfrentando todos os tropeços aos quais estamos sujeitos quando decidimos amar, que é um terreno minado. Porque estamos trabalhando com dois outros. Eu estou trabalhando com o outro e o outro está trabalhando com outro. Eu estou trabalhando com aquele outro meu, mas sou o outro dele, do eu dele ou dela. Já de saída, é uma troca quase impossível. Então, amar, acho um verdadeiro milagre na condição humana. É um milagre de sobrevivência.
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Recepção
RECEPÇÃO FOTOGRAFIA MÁSCARA AUDÁCIA
João Silvério Trevisan, 2026 foto: Tamara dos Santos
PAIXÃO AGENDA
Quantos silêncios cabem em torno de uma obra? por Renata Pimentel Certamente, muitos já ouviram o nome João Silvério Trevisan, escritor, pesquisador e ativista cuja trajetória se confunde com a própria história da literatura e da luta LGBTQIA+ no Brasil. Certamente, alguns já leram algumas de suas obras, há bem mais que uma dezena delas publicadas. Certamente, ele tem leitores recorrentes, que o acompanham e leram boa parte de sua obra, ou aqueles que conhecem apenas um dos seus livros e a ele se afeiçoaram. Certamente, ainda há leitores (ainda existem exemplares dessa espécie, leitoras, leitores, por aí a flanar) passeando sem conhecer Trevisan e que terão em mãos, em algum momento, uma de suas obras. Seja em São Paulo, seu estado natal (nasceu a 23 de junho de 1944, em Ribeirão Bonito); na São Paulo cidade, onde vive; ou em algum outro estado ou alguma outra cidade deste Brasil continental. Ou, ainda, algum leitor não brasileiro, nas traduções de suas obras para idiomas como inglês, alemão, espanhol, italiano, polonês e húngaro. No Recife, por exemplo, e em outras cidades do estado de Pernambuco Trevisan já esteve algumas tantas vezes. Seu romance Em nome do desejo (de 1983 e relançado recentemente, em 2024), que traz a história da relação entre dois seminaristas, Abel e Tiquinho – celebração e via-crúcis do amor oprimido pela condenação religiosa, no ambiente de um seminário (espaço no qual também viveu o autor) –, marcou uma geração de pernambucanos (entre esses estava eu) na antológica montagem dirigida por Antonio Cadengue, com a Companhia de Teatro Seraphim, nos anos 1990, no Recife. Trevisan e Cadengue trabalharam na adaptação dramatúrgica juntos, e imenso foi o afeto que os ligou até a partida do encenador, em 2018.
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Celebrar a vida de Trevisan é reconhecer não apenas a robustez de sua obra, mas também a resistência silenciosa e eloquente que marca cada linha escrita, cada gesto de militância, cada conquista diante das adversidades do mercado editorial brasileiro. Basta verificar quantas de suas obras foram publicadas, chegaram a ter as tiragens esgotadas e não mais foram recolocadas em circulação em novas edições. Foi em 1976,
com a coletânea de contos Testamento de Jônatas deixado a David, que Trevisan inaugurou uma voz literária singular, capaz de abordar temas bastante silenciados e marginalizados ainda hoje. O livro, pioneiro em tratar da homoafetividade e das nuances do desejo (assunto, obviamente, recorrente para o autor), foi um passo audacioso numa época de repressão e censura. Com sensibilidade e coragem, Trevisan abriu caminhos para narrativas que, naquela época – e ainda hoje –, não encontravam espaço de acolhida serena, precisavam estar sempre desafiando tabus e um insistente silêncio imposto pela sociedade a uma realidade dos afetos humanos tão antiga quanto a própria espécie. RECEPÇÃO
A esta altura, vale lembrar uma das facetas de Trevisan: o ativista cuja arte estará sempre engajada no mais íntimo grau de investigação do ser, sempre articulando zelo poético de linguagem com afiadas lâminas de ironia, observação, reflexão. Foi seminarista (ou seja, conhece bem os meandros da Igreja Católica e sua doutrina) e assumiu publicamente sua orientação afetiva nos anos de repressão política durante a ditadura civil-militar, em sua fase talvez mais aguda, durante a vigência do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Nessa mesma época, o escritor exercitava sua criação na linguagem audiovisual, como roteirista e diretor de um filme tão clássico e antológico quanto (mais uma estação do silêncio) pouco visto: o longa-metragem Orgia ou o homem que deu cria (1970), obviamente censurado pelo regime em vigor. A primeira exibição só aconteceria em 1995, no Festival MixBrasil (então Festival de Manifestações das Sexualidades), em São Paulo. Ainda na década de 1970, após a interdição de seu filme, Trevisan partiu para um autoexílio pelas Américas (sem glamour, uma sorte de peregrinação com a coragem dos ímpetos juvenis): circulou durante cerca de seis meses por 11 países da América Latina e, depois, passou períodos mais longos nos Estados Unidos, sobretudo na Califórnia (entre 1973 e 1974), e no México (1975). Após seu retorno ao Brasil, foi um dos fundadores tanto do grupo ativista Somos, atuando na defesa dos direitos da comunidade homossexual (como era então nomeada a parcela LGBTQIA+), quanto do jornal Lampião da Esquina, espaço de resistência e expressão dessa comunidade nos anos da ditadura civil-militar oficialmente instaurada no país (hoje seguimos com a fantasmagoria concreta da estrutura repressora: ela tem outra natureza insidiosa, manifesta-se nas brechas da ignorância confortável e nos mecanismos de alienação operados pela extrema direita). Sua atuação nesse veículo foi decisiva para ampliar o debate público, desafiar
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preconceitos e construir redes de apoio e visibilidade. O ativismo de Trevisan transcende o campo literário, consolidando o escritor como figura central na luta por direitos civis, respeito e dignidade. Entre suas obras mais emblemáticas, Devassos no paraíso (1986, com quatro edições, sendo a mais recente, de 2018, revista e ampliada por Trevisan) destaca-se como marco histórico e literário, talvez um dos poucos títulos do autor que seguem sendo acessíveis em novas impressões. O livro, resultante de extensa pesquisa, é referência fundamental para quem deseja compreender a trajetória da comunidade LGBTQIA+ brasileira, mapeando desejos e resistências desde o período colonial até os dias de hoje: pode ser considerado uma história não oficial do Brasil, que mapeia os interditos e os segredos e desvela máscaras impostas pela heteronormatividade. Outro dos seus livros (aqui peço licença para deixar escapar mais claramente o viés afetivo que me une a Trevisan, pois é uma de suas criações que mais habita o meu universo de afetos e referências e que nos conecta: eu, João Silvério e Ramires Teixeira, meu pai, que amava este livro), o romance Ana em Veneza (1994), por sua vez, revela a amplitude poética do escritor, explorando temas que costumam ser encarados como universais (como identidade, solidão e pertencimento) e consolidando-o como um dos grandes romancistas brasileiros. Sua dedicação à pesquisa histórica, em suas brechas deixadas de lado nos relatos oficiais, e também à investigação literária é notável. Trevisan não apenas narra, mas reconstrói e documenta, oferecendo ao leitor uma experiência profunda e comprometida com os fatos, porém alicerçada nas emoções e perspectivas de personagens reais obscurecidas.
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Nesse romance de largo fôlego, há um efetivo trio de personagens que conduzem e articulam a trama: a escravizada negra Ana, sua patroa, Julia da Silva Bruhns Mann (mãe dos escritores Heinrich e Thomas Mann, este último vencedor do Prêmio Nobel), e o músico brasileiro (cearense) Alberto Nepomuceno. Ambientado em Veneza, o livro constrói um mosaico de experiências e perspectivas que dialogam com temas relacionados a identidade, memória e brasilidade. Ana, uma personagem central do romance, simboliza a trajetória de tantas mulheres negras escravizadas que tiveram suas histórias apagadas ou silenciadas pela narrativa oficial. Aliás, segundo os registros factuais, Ana teria sido trazida de volta ao Brasil pelo pai de Julia; ele mesmo retornou por não se adaptar mais ao contexto europeu. Mas Trevisan
muda esse destino: ao fabular a permanência de uma mulher negra escravizada em Veneza e dar voz a Ana, reconstrói sua subjetividade e evidencia o impacto de sua presença na Europa do século XIX. Ana não é apenas uma acompanhante ou serva: ela é agente, dentro dos limites que lhe são impostos, de sua própria história, enfrentando desafios de preconceito, solidão e busca por pertencimento.
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Ali, enquanto dobrava a rede de algodão vermelho e amarelo, Ana tomou consciência, dramaticamente, de que estava prestes a embarcar, ir embora, mudar de vida, cair num lugar parecido com o vazio, total vazio onde não sabia como ia ser, como seria tratada, se haveria chance e força de recomeçar. Temia o desconhecido e o futuro totalmente incerto. Mas o que sentia na verdade ultrapassava a mera apreensão: beirava o pânico, porque era como se um monstro por tanto tempo instalado dentro dela agora se rebelasse, quase a ponto de provocar-lhe vômito – e Ana cerrava os dentes também para não vomitar (Trevisan, 1994, p. 106). Ana prepara as coisas (as poucas suas a que pode se apegar; as muitas dos filhos de seu “senhor”/proprietário) e relembra a violência primeira de estar criança no ventre de uma embarcação, um navio tumbeiro, sendo sequestrada para o Brasil, tentando ainda sugar os seios secos de sua mãe. Agora, é sequestrada novamente, no aparente “acolhimento” perverso do serviço a essa família, e enviada a novo desconhecido. Sua perspectiva revela a complexidade das relações entre Brasil e Europa, e também as camadas da diáspora africana forçada, e denuncia as marcas profundas do racismo e da exclusão social. São tantas camadas de estrangeiridade que os deslocamentos e cada personagem fazem eclodir: do Brasil babélico cheio de europeus e africanos escravizados (elementos estranhos à terra em medidas e com situações de poder e opressão muito diversos) a povos originários que se veem exotizados e esmagados também. A jovem Julia da Silva Bruhns (depois, pelo casamento, acrescenta Mann) é apresentada no romance como uma figura de transição entre dois mundos: o Brasil tropical (ela nasceu na cidade de Paraty, no
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Rio de Janeiro, onde passou a infância) e a Europa refinada. Sua origem brasileira, frequentemente minimizada nos relatos biográficos, ganha destaque na obra de Trevisan. Julia é retratada não só como patroa de Ana, mas também como mulher que experimenta o deslocamento cultural, o preconceito e a saudade. Sua influência sobre os filhos, especialmente Thomas Mann, é revisitada sob uma ótica que valoriza suas raízes brasileiras e que sugere como estas contribuíram para a sensibilidade e a imaginação dele e de seu irmão escritor. Já a personagem Alberto Nepomuceno surge no romance como um elo entre a tradição musical europeia e a inovação brasileira, ingrediente exótico para o contexto ensimesmado e autorreferente do Velho Mundo. Ao se apresentar na Europa, Nepomuceno abriu caminho para que a música erudita brasileira fosse reconhecida e valorizada, preparando o terreno para o futuro impacto de Heitor Villa-Lobos. Sua trajetória foi marcada pela busca de uma identidade musical genuinamente brasileira (por mais que a ideia de genuíno deva sempre estar sob rasura), calcada nos ritmos e nas melodias tropicais. A cidade de Veneza, com sua atmosfera particular, romantizada como uma centralidade de encontros culturais, funciona no romance como um palco no qual essas personagens podem se reinventar e dialogar. É em Veneza que Ana, Julia e Nepomuceno cruzam destinos e compartilham experiências, cada um trazendo suas marcas de territórios de origem, deslocamentos e resistência. O espaço europeu, longe de ser neutro, revela-se como lugar de tensões, mas também de possibilidades de reconhecimento e transformação.
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Ana em Veneza propõe uma reescrita da história ao recuperar personagens esquecidos ou marginalizados. Ana (ou Donana), Julia da Silva Bruhns Mann e Alberto Nepomuceno representam não só trajetórias individuais, mas também a força da diversidade brasileira, dos exílios por razões diversas, diante dos desafios do preconceito e da invisibilidade. O romance, ao situar essas figuras em Veneza, convida o leitor a refletir sobre as conexões entre Brasil e Europa, sobre o papel da memória e a importância de valorizar vozes historicamente silenciadas. Eis um trecho que se impõe, em um longo desabafo visceral de Nepomuceno, no qual a voz de Trevisan ecoa:
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– Sim, sim. O artista tem que matar. Quanto mais eu vivo, mais dou-me conta de que a arte só pode ser violentação. Quer dizer, é muito difícil, porque ela precisa abrir caminho, vencer uma oposição feroz. Veja, para que presta a arte, neste mundo onde ela viceja? Para nada. Ela está sempre sobrando, é a primeira a ser fulminada, durante as crises. Esse massacre vem sendo tão constante e tão brutal no decorrer da História, que a existência da arte só se impõe pela insistência feroz e violenta do artista. Ser artista é ter a capacidade de resistir a tudo e a todos (p. 42, grifo nosso). Palavras demasiado duras? Ou uma explosão de lucidez, repetida diversas vezes, de formas diferentes, mas complementares em todo o conjunto da obra de Trevisan? Vale frisarmos: para novas gerações, esse é mais um dos livros esgotados que não receberam novas edições. Afinal, mesmo vencedor por três vezes do Prêmio Jabuti (1993, 1995 e 1998) e do Prêmio APCA (da Associação Paulista de Críticos de Artes; 1987, 1994 e 2009), o autor segue reiniciando batalhas para ver seus livros em catálogo, para manter uma vida financeira com alguma estabilidade. Por outro lado, há as surpresas que editoras pequenas, seletas e aguerridas, como a mineira O Sexo da Palavra (do artista, pesquisador e designer Antonio Kvalo), nos trazem. Em 2024, esse selo presenteou leitores com Os sete estágios da agonia, a primeira novela escrita por Trevisan, nos anos 1970 – fruto do clima e das discussões na redação do Lampião da Esquina, um coquetel de militância e resposta poética virulenta à tradicional esquerda machista e homofóbica que naquele momento se impunha quase como voz e modelo únicos de oposição ao conservadorismo, mas que era conservadora (risos nervosos e irônicos devem ser ouvidos neste momento). O fato é que o texto permanecia inédito (como um volumoso material que ele tem produzido e guardado em seus arquivos, tema sobre o qual ainda falarei adiante), o que já revela o vigor de sua escrita e aprofunda reflexões sobre sofrimento, resistência e silêncio. Acompanha essa edição da obra um livreto com o discurso de Trevisan no recebimento do título de doutor honoris causa, em 2023, pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais, cidade da editora responsável pelas publicações.
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No discurso, o escritor declara a importância da descoberta da poesia como gênese de si mesmo – eis um gancho fundamental com o que aqui tecemos. Diz ele:
[...] abraçar a existência da Poesia implicava, por extensão, abraçar a minha vida. Ambas se encontram intrincadas. Eu não conseguiria sobreviver sem as iluminações que a Poesia me proporcionou pelo caminho (Trevisan, 2024, p. 9). E segue convocando os poetas Carlos Drummond de Andrade, Hilda Hilst e seu amigo Roberto Piva para se revelar por meio do estado de poesia produzido por esse clã no qual se vê inserido: “[...] eu acabei por integrar essa rede universal da Poesia. Ela me ensinou que poetas podem ter a mesma força dos profetas” (p. 16). Ver além olhando o agora, eis o xamanismo de Piva: confrontar a própria ignorância leva a conhecê-la; o poeta precisa fazer-se íntimo dela e, assim, elaborar mundos. Eis mais um silêncio e mais um ineditismo em Trevisan que faremos eclodir um pouco aqui: o poeta, o artesão do verbo na construção do verso – faceta na qual resta quase totalmente desconhecido. Por meio da Poesia (que ele grafa em maiúscula no discurso a que vínhamos aludindo) é que elabora o luto pela travessia de seu amigo Antonio Cadengue, por exemplo, e assim alarga, para quem permanece, as percepções do avesso da partida. Vejamos o trecho inicial do poema inédito intitulado “Metade da alma”:
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Estranhos os caminhos da dor, Antônio. Acordo de um sonho que força os canais anestesiados da alma. Estou em Veneza. Só o sonho é capaz de explicar por que sonho com a distante Veneza quando há tantos sonhos capazes de verter a dor. Sonho com o fascínio de Veneza para o qual nunca encontro palavras perfeitas. E o sonho é teu. Sonho que queria ter compartilhado Veneza contigo.
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E já não há mais tempo. O sonho de Veneza me traz à flor da alma todas as belezas que testemunhamos juntos e só poderiam ser compartilhadas entre nós dois. Talvez seja esse o cerne da dor quando falta aquela metade da alma que tornava nossos olhos visionários e decifrava nosso encantamento de estar no mundo. Agora não há mais teu eu. É como se o sentido de Veneza perdesse o foco. Recife sumiu do mapa. E se foram para sempre os anos setenta, os oitenta e noventa, ou qualquer dos anos ferventes de paixão pela poesia que vivemos juntos e não precisávamos explicar. Há agora uma dor aninhada nalgum canto como unha encravada na alma. Torna-se vaga a certeza com que compartilhávamos a revelação dos mistérios. (À memória de Antonio Edson Cadengue, 05 de agosto de 2018) Uma geografia que vai pela via onírica da voz poética que assume Trevisan e o conecta ao amigo e artista da cena Antonio (Cadengue) no sonho com a Veneza (cenário de exílio de Ana, Julia da Silva Bruhns Mann e Alberto Nepomuceno) que perde o foco e “some do mapa” com o Recife, pois são solos do afeto e da experiência partilhada – meio de nos sabermos existência e imanência – que, com a morte do amigo, configuram a evasão dos mistérios insolúveis, pois a poesia é experiência partilhada (“pela poesia que vivemos juntos / e não precisávamos explicar”), pois vai-se uma “metade da alma” e perdemos “nossos olhos visionários”. A Poesia está em suspenso, só o que resta e lateja presentificado é que “Há agora uma dor aninhada nalgum canto / como unha encravada na alma”.
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Outro poema de sua lavra, desta feita mais curto, de abril de 2023, traz novamente o tema da morte em conluio com a tarefa de cultivar a esperança, em um título mais jocoso, “Poeminha da Páscoa” (uma ironia leve na qual ecoa o substrato da cultura cristã), revelando ser essa ponta outra da trajetória humana (a perecibilidade) uma constante na poética de Trevisan (aproximando-o de outro poeta fundamental brasileiro para quem o tema da morte era recorrente, Manuel Bandeira). Deixemos ecoar os versos de Trevisan:
Quero meus mortos de volta e dançar com eles e fazer planos para a vida eterna. E um dia morrer – aí sim – em paz celebrando a esperança de ressurgir todos os dias. Apesar de sua importância, o escritor sempre reitera as dificuldades persistentes no mercado editorial brasileiro. Obras esgotadas, acesso restrito e negligência das editoras refletem uma realidade dura e injusta, que limita o alcance de sua produção e perpetua silêncios históricos. Em muitos aspectos, sua trajetória lembra a de Lima Barreto, outro gigante literário cuja obra foi, por décadas, marginalizada e subestimada. O silêncio em torno de Trevisan é não apenas editorial, mas também social: é o reflexo de um país que ainda caminha claudicando em implementar políticas eficazes de fomento à produção de arte como cadeia fundamental da economia criativa, lucrativa em diversos níveis, no sentido de gestão e existência de um tecido social urbano, humano e comunitário menos esgarçado e violento que possa desafiar a ordem vigente de opressões.
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O silêncio, tema recorrente na vida e na obra de Trevisan, não é passividade, mas resistência, renitência, mesmo por diversas vezes abusada e exausta. É a espera ativa, a escuta profunda, a recusa em ceder ao esquecimento. Em atividade no meio artístico, intelectual e militante desde os 30 anos, às vésperas de completar 82, ele segue em busca de si mesmo, do escritor perdido, apagado ou esgotado que ainda escreve dedicadamente. Por exemplo, tem engavetadas obras inteiras,
longas e diversas: seus diários dos tempos de exílio, uma série vasta de poemas (sim, uma face desconhecida do autor, mesmo a quem tenha lido tudo que ele publicou). Roteirista, cineasta, dramaturgo, escritor de diários, contista, romancista, jornalista, poeta, ativista. Em cada livro, conto ou artigo, Trevisan transforma o silêncio em matéria literária e política, desafiando-o, ressignificando-o e, por diversas vezes, expondo sua crueldade. Sua resistência se manifesta na persistência em escrever, pesquisar, publicar e lutar, mesmo diante de tantos muros.
RECEPÇÃO
Ironicamente, Trevisan sabe dos gargalos e afunilamentos editoriais e mercadológicos, e até da dificuldade de fisgar leitores numa seara tão poluída, ruidosa e pouco acolhedora como o cenário das artes, muitas vezes confundido apenas com entretenimento ou show business. Mas não há como escapar de algo que o estrutura: escrever e teimar; dar oficinas de escrita a quem deseja dedicar-se a esse ofício; entrar em aviões e carros e percorrer quilômetros para encontrar plateias, quase sempre “seletas” (a literatura não enche estádios). Em novembro de 2024, percorremos, eu e ele, de carro, 232 quilômetros, indo do Recife a Garanhuns, exatamente para mais um encontro dessa natureza: conversar com plateia espontânea que se decidiu a ir nos escutar, em uma mesa sobre literatura, sobre nossas escritas. Nesse trajeto à região agreste do estado de Pernambuco, cerca de três horas de viagem, conversamos sobre diversos assuntos, mas um tema constante é essa espécie de – como chamava Roberto Piva, poeta falecido em 2010 – Confraria do Silêncio que cercaria autores cuja obra transita por temas indigestos ao senso comum e ao status quo. Mais uma das formas de silêncio que caberiam nessas obras; afinal, quem escreve para apaziguar ânimos e locupletar a ordem geral das coisas quando se vive em uma realidade de violências, opressões, apagamentos, negacionismos? Faz coro com esse grupo a escritora Hilda Hilst, criadora de uma vasta obra, em todos os gêneros (poesia, prosa, teatro, ensaio, crônica), que muito vociferou não ser compreendida, não ver sua produção lida ou circulando devidamente. Sim, há rancor e há mágoa. Sim, há uma réstia amarga de gosto residual na peleja quixotesca de preencher milhares de páginas de elaboração, perscrutação do humano e dedicação a desautomatizar sentidos, a acordar percepções, a sustentar o céu sobre nossas cabeças, mas seguir cultuado por poucos, brigando por cada nova publicação (que, após a primeira tiragem, provavelmente se
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verá novamente desaparecida dos catálogos) e pagando as contas da vida prosaica como um “sem profissão”. Escrever é ofício, não confere direitos de trabalhador. Aliás, assim é com toda a classe artística. O reconhecimento dos prêmios, tantas vezes póstumos, de nada serve para viabilizar a vida de quem cria, fabula e reinventa imaginários, de quem aponta caminhos para dentro de quem somos, de quem “costura para dentro” – como dizia de si Clarice Lispector. Trevisan recebeu em vida, como já mencionado aqui, prêmios como o prestigiado Jabuti: seria garantia de alguma segurança econômica? Claro que não. Parece leviano ao leitor deste texto pensar sob esse aspecto? Normalmente se festejam as obras, escrevem-se ensaios que tentam explicá-las ou tecer comentários críticos elogiosos a elas, mas pouco se reflete sobre como conseguir sobreviver da atividade literária. Um dos silêncios em torno de obras extensas e diversas como a de João Silvério Trevisan e que não deixamos de lado aqui. Ao celebrar os 82 anos do escritor, celebramos um legado de coragem, rigor intelectual e compromisso com a verdade. Sua obra permanece como fonte de inspiração e reflexão, desafiando silêncios e ampliando horizontes. Que o futuro reserve mais reconhecimento, acesso e valorização a toda uma classe de trabalhadores profissionais que é a dos fazedores de arte (em todas as suas expressões e linguagens), e que seu exemplo continue a incendiar novas gerações de escritores, ativistas e leitores. Em um trecho de uma palestra intitulada “Um João e seus fantasmas”, proferida no dia de seu aniversário no ano de 2022, no encerramento do colóquio Sob o signo de João, idealizado e organizado pelo amigo e professor Fábio Camargo, da UFU, Trevisan ecoa isso que vimos aqui repetindo:
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Acredito que minha vida é uma travessia que começa na longa noite escura para, ao final dela, poder recolher as primícias dessa chama solar [referindo-se ao evento chamado Inti Raymi, prática cultural dos antigos incas], a primeira luz de um novo período. Sem dúvida, essa noite de grande escuridão me tornou frágil e inseguro. Mas talvez a essa insegurança exposta como uma veia aberta é que eu consegui criar uma obra, com
insistência. Não que tenha sido fácil, mas me permitiu tomar a decisão de priorizar a criatividade1.
RECEPÇÃO
Nesse mesmo texto, Trevisan percorre algumas de suas obras e reitera que nelas percebe a busca e a repetição do exílio como tema e forma – “[...] o exílio perpassa também a minha obra. Minha vivência do não pertencimento habita minha obra nos mais diferentes aspectos temáticos e até mesmo estilísticos” – e o desejo de pertencimento como contraface. A partir dessa relação de dialética é que invoca a experiência amorosa como das mais fascinantes e basilares na jornada humana. Ele também salienta esta relação complexa entre a subjetividade própria e a alteridade: “Para amar, a gente tem que abrir uma brecha para que o Outro entre, mas esse Outro também tem que se abrir para a gente entrar”. Pertencer implica, então, inegociavelmente, “essa troca de mútua entrega”. Seja pela raiva ou “para se vingar”, como repete meu querido amigo Marcelino Freire [também escritor migrante, que saiu de Sertânia (PE) e se radicou em São Paulo para viver da artesania da palavra], Trevisan é, acima de tudo, um referencial de resistência, um diaspórico, um exilado em si mesmo pela consciência de voz queer antes de o termo vir à tona; um autor que segue inédito para imensa parte desse país que até parece já o ter consagrado e reconhecido, mas que ainda o mantém (a ele e a uma multidão de artistas) sob muitos véus de obscurecimento. Resta ecoando repetidamente a pergunta: quantos silêncios cabem em torno de uma obra, senão aqueles que ela própria e quem a forjou souberam transformar em voz?
Renata Pimentel nasceu no Recife (PE) e é escritora, atriz, bailarina e cineasta, além de trabalhar com curadoria em artes visuais e com preparação de elenco. É graduada em letras e mestra e doutora em teoria literária pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Desde 2010, atua como professora de literatura na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). 1. A palestra foi publicada no livro Sob o signo de João, da editora O Sexo da Palavra, em 2022.
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Ensaio fotográfico
FOTOGRAFIA MÁSCARA AUDÁCIA
João Silvério Trevisan, 2026 | foto: Tamara dos Santos
PAIXÃO AGENDA
Andar pela cidade, andar por memórias As ruas de São Paulo (SP) marcam a vida e a literatura de João Silvério Trevisan. Seja como cenário para as aventuras dos seus personagens, seja como companheira do seu processo de trabalho – por meio de convívios e descobertas –, a cidade se entrelaça com a sua criação. Neste ensaio, passeamos com o escritor pelo centro paulistano, ao mesmo tempo caminhando por espaços simbólicos e pelas memórias do autor.
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João Silvério Trevisan na Galeria Metrópole, em São Paulo, 2026 | foto: Tamara dos Santos
“A Galeria Metrópole marca o meu período de chegada a São Paulo, quando saí do seminário. Era o point. Roberto Piva e o grupo dele se reuniam aqui. Havia um bar ali e, embaixo, uma boatezinha de bossa nova. Estávamos no auge, a dolce vita, um sucesso. A galeria e a Avenida São Luís eram a Via Veneto [uma das ruas mais famosas de Roma, na Itália], onde as pessoas desfilavam. A rainha Elizabeth II foi trazida para cá quando a galeria foi inaugurada, porque era a primeira galeria de São Paulo, a primeira com vários restaurantes e várias lojas, um sinônimo de metrópole. O engraçado é que isso está voltando hoje. Vocês não podem imaginar as figuras que passam por aqui. Especialmente aos fins de semana. As pessoas estão vindo para o Centro, um ciclo que é muito interessante para mim.”
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Galeria Metrópole
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João Silvério Trevisan na Galeria Metrópole, em São Paulo, 2026 | foto: Tamara dos Santos
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João Silvério Trevisan no antigo Cine Metrópole, em São Paulo, 2026 | foto: Tamara dos Santos
“Estava escrevendo Ana em Veneza. Morava na Avenida 9 de Julho, bem próximo daqui. Eu trabalhava o dia inteiro no romance. Ganhei uma bolsa para escrever, por isso conseguia me dedicar. No fim da tarde, estava exausto e precisava me desligar. Então, comia alguma coisa em casa e vinha para o Cine Metrópole. Eu entrava no filme que estivesse passando. Naquele tempo, o cinema era mais barato, impressionantemente mais barato. Entrava aqui para dar uma desligada.”
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Cine Metrópole
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João Silvério Trevisan na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, 2026 | foto: Tamara dos Santos
Biblioteca Mário de Andrade FOTOGRAFIA
“Já fiz tantas pesquisas na Biblioteca Mário de Andrade. Ela era um ponto marcante para qualquer pessoa que vinha fazer pesquisa em São Paulo. À medida que fui me entrosando na cidade, a biblioteca foi ficando cada vez mais importante. Dei uma oficina linda sobre autobiografia para participantes com mais de 60 anos, por exemplo. Foi um sucesso. Fora isso, é um lugar icônico porque tem a marca de Mário de Andrade. Mário é uma pessoa a quem devo muito, sempre que posso louvo a memória dele. Ele comeu o pão que o diabo amassou preparando caminhos para mim e para outros. Usei os estudos dele, sobretudo aqueles nos quais ele trabalha seriamente a questão da homossexualidade, na pesquisa para Devassos no paraíso. Mário é uma referência do ponto de vista daquilo que me foi preparado duramente e a que estou dando continuidade para as futuras gerações.”
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João Silvério Trevisan na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, 2026 | foto: Tamara dos Santos
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João Silvério Trevisan no Theatro Municipal de São Paulo, 2026 | foto: Tamara dos Santos
“Quando saí do seminário, já morando em São Paulo, os meus domingos eram dias sagrados. Às 11 horas, eu vinha ao Theatro Municipal para assistir ao concerto de graça. Eu não faltava a nenhuma récita ou concerto. Era indescritível o meu encantamento. Adoro música clássica e aprendi muito sobre isso no seminário. Com o passar do tempo, o Municipal acabou se tornando uma referência cultural para a minha trajetória.”
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Theatro Municipal
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João Silvério Trevisan no Theatro Municipal de São Paulo, 2026 | foto: Tamara dos Santos
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João Silvério Trevisan na Rua Augusta, em São Paulo, 2026 | foto: Tamara dos Santos
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“A Rua Augusta é uma referência incontornável em São Paulo, uma espécie de representação do fator metropolitano em uma grande cidade. Até hoje, acho que ela é uma referência de modernidade que atravessa os tempos. Eu frequentava os cinemas daqui e uma boate pertinho da Avenida Paulista, a Boate Medieval, importante para a comunidade gay, um lugar atrevido e avançado para o período. Durante a ditadura, era o meu refúgio. Eu morava aqui embaixo com um grupo de amigos, em uma espécie de república. Todos nós homossexuais. Vínhamos para a boate para dançar, celebrar, paquerar. E a frequência aos cinemas sempre foi algo de grande importância.”
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João Silvério Trevisan na Rua Augusta, em São Paulo, 2026 | foto: Tamara dos Santos
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MÁSCARA AUDÁCIA
João Silvério Trevisan, 2026 foto: Tamara dos Santos
PAIXÃO AGENDA
Profeta por Laura Castro O ano era 2021. Pandemia. Eu escrevia uma dissertação de mestrado sobre teatro sem saber se ainda haveria teatro. Mascarada. Quase foi o título da dissertação. Uma boca mascarada personagem? Bocas que não podiam falar, boca minha, boca sapatão. Escrevi: CENA 8 Trevisan está no alto de um prédio. No urdimento do teatro ou – em caso de confinamento – filmado realmente na janela de sua casa e projetado. Trevisan: Oi. Eu sou o autor. Não dessa peça, essa não é meu lugar de fala. Eu sou a figura, a representação do autor, eu quero dizer. Aquele que fala do alto do prédio, aquele cuja vida está por um fio. Mas estou vivo. Boca (grita): Eu também estou viva!! Trevisan: Podemos os dois cair agora. Boca: Não vamos, você sabe. Trevisan: Já nos jogamos. Boca: Mas não morremos, é mentira.
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Trevisan: “É verdade: não mais dono do meu corpo, não sou mais eu como antes. Então quem é esse que sou? Eles, que são as partes
alheias do meu eu, somos um desastre, e a cidade está no limite da catástrofe”1. CENA 9 Nariz: respira com força. Respira fazendo barulho. Respira microfonado. Antes, em 2019, conheci pessoalmente João Silvério Trevisan. Estávamos os dois em uma mesa, na Academia Mineira de Letras, sobre encenações com temáticas LGBT do diretor João das Neves. Outro João. Das Neves, como apontou Trevisan na nossa discussão naquele dia, era um João que não deprimia. Eu digo, era um João cis-hétero. Outro. Outro João. Outro processo criativo, diria nosso João, o Trevisan. Nosso. Da comunidade LGBTQIAPN+. Se não fosse ele, quem seria eu ou minha boca sapatão que cisma em falar e escrever? Troços & destroços: contos. Foi esse o livro do nosso João que o outro João encenou e eu fui ler. Nele, o conto:
“Senhores do provável futuro, […]”
MÁSCARA
“A CONVENÇÃO DAS MÁSCARAS”2
Assim começa nosso João a conversar comigo3. JST: “A convenção das máscaras”, que bom que você lembrou! Outro dia eu mandei para uma amiga psicanalista, falei para ela: “Olha o que eu escrevi naquela época!”.
1. Trecho de “Corpo místico”, conto de João Silvério Trevisan publicado em Troços & destroços: contos (1997), p. 77. 2. “A convenção das máscaras” também integra Troços & destroços: contos, tendo sido originalmente escrito na cidade do Recife (PE), em maio de 1982. 3. Trechos de diálogo extraídos da entrevista concedida por João Silvério Trevisan à autora em 16 de julho de 2021. A entrevista completa consta na dissertação de mestrado Outro mundo é possível embaixo do temporal: estudo de espetáculos feministas e lésbicos sob a direção de João das Neves e a criação de uma dramaturgia inédita (2022). Disponível em: bit.ly/lauracastro_dissertacao.
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LC: Estou escrevendo muito sobre máscaras, de repente peguei “A convenção das máscaras” e estamos todos na situação do apocalipse em que todo mundo vira máscaras! JST: Laura, posso contar uma história? Pequenininha? Sabe onde apareceu esse conto para mim? Hum… Não é Santa Teresa, mas foi um morro no Rio de Janeiro, ali no Flamengo, como é que ele se chama, o morro? Hoje ele é chiquérrimo, foi tomado por estrangeiros, mas na época era uma coisa meio hippie, e eu tinha uns amigos que moravam lá, um casal de amigos, uma moça e um rapaz, que era psicólogo. E, a caminho de Salvador, quando eu fui para lá escrever meu romance, o infantojuvenil, eu fiquei em casa deles e sonhei inteirinho “A convenção das máscaras”. Nossa, eu sonhei inteirinho no Rio de Janeiro “A convenção das máscaras”. (Naquele momento eu estava em Santa Teresa. Em um morro de Santa Teresa, cercado de artistas hippies, mesmo que não visse ninguém, apenas nosso João, na tela, falando de São Paulo.) LC: Gente, eu queria justamente saber como foi que veio essa ideia! JST: Ela veio pronta, veio quase pronta, claro que eu criei todo um entorno, o título não era isso, mas eu sonhei: nós tínhamos que ir embora porque a Terra estava acabando e a única maneira de sairmos do planeta era nos tornando máscara. Agora, do ponto de vista da psicanálise, isso é uma coisa de louco. Eu acho que não é nem Freud, é Lacan. Eu não conheço tanto Lacan, né, mas mandei para essa amiga lacaniana justamente agora, esses dias, porque nesse conto acho que assumo o papel profético do escritor, entendeu? CENA 10 Boca: Acho que entendi.
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Nesse momento, como no conto, pressenti que o profeta, o Deus, me entregaria alguma coisa que me tornaria parte do futuro. E as muitas palavras lidas, chovidas, os choros e risos, os destroços e alguns troços sobre e dentro da cabeça, como tempestade, uma tempestade até o surgimento repentino de uma luz e de um espelho:
Sorri, chorei também, lembrei das máscaras que não se importam se são de tragédia ou comédia e, na condição de máscaras, seguem narrando. Na condição de viados, seguimos narrando. Obrigada, profeta.
MÁSCARA
Formada como atriz pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), bacharel em teoria do teatro e mestre em poéticas da cena pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Laura Castro é fundadora e curadora da Queerioca, primeiro centro de referência de arte e cultura LGBTQIAPN+ do Rio de Janeiro. É autora dos livros de dramaturgia Aos nossos filhos (2019), Luzia (2022) e Por que não cantando? (2025), além da dissertação Outro mundo é possível embaixo do temporal (2022). Também é roteirista, atriz e produtora do longa Aos nossos filhos (2019), dirigido por Maria de Medeiros e baseado na sua peça homônima. 73
Audácia
AUDÁCIA
João Silvério Trevisan, 2026 foto: Tamara dos Santos
PAIXÃO AGENDA
A coragem foi nosso artigo mais valioso por Leonardo Piana Em 2019, fui incumbido de entrevistar João Silvério Trevisan. O projeto era alimentar a página da associação responsável por um importante prêmio literário do qual João tinha sido finalista, em 2018, com Pai, pai. Eu já não trabalho mais para essa associação, o site deles mudou de endereço, perguntei a algumas pessoas a respeito do texto, mas ninguém o encontrou. Reviro minha caixa de e-mails em vão, embora tenha topado com muitas menções a João nas mensagens: divulgação de cursos que citam a obra dele, informações sobre sua participação em eventos literários, lançamentos de livros, outras entrevistas. Mas eu queria reler aquela, a que fiz com ele, que também era minha primeira entrevista com um escritor. Queria encontrá-la por mim: o que é que lhe perguntei na minha condição de jornalista iniciante, de leitor de sua obra, impressionado com o que tinha encontrado em Pai, pai. Queria encontrá-la principalmente por ele: quais respostas sobre o livro, a escrita e a própria vida João teria dado a um rapaz muito jovem com o celular à mão. O senhor se importa se eu gravar? Ele disse que não se importava, não. O que me resta é recorrer à memória. No sol naquela manhã fria, por exemplo, eu fumava um cigarro avulso, comprado numa banca de jornal, enquanto esperava dar o horário combinado para ir ao apartamento dele, no Centro de São Paulo. Reconstruo minha lembrança do apartamento, elegantemente antigo, como se ambas as coisas precisassem caminhar juntas: a elegância e a passagem do tempo. Havia ousadia também: nas cores, nas formas, nas palavras ágeis que ele escolhia para responder às minhas perguntas, possivelmente coisas que outros já tinham lhe indagado tantas vezes. Eu demorava mais para elaborar as questões – embora guiado por um pequeno roteiro, aprovado pela minha chefia um dia antes – do que meu entrevistado demorava para respondê-las, com firmeza, certíssimo do que dizia.
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Há uma ideia repetida da qual me lembro melhor, algo que vi sendo articulado de maneiras distintas por outros escritores depois de nossa conversa: como fazer das palavras, as mesmas de todos os dias, João
disse, as mesmas que estou usando agora para responder às suas perguntas, estas das quais me valho também para dar bom-dia ao porteiro do prédio, ele disse, como fazer desta matéria-prima literatura? Era o que lhe interessava mais: a matéria movediça com a qual ele escrevia livros – as palavras, carregadas de mistério. Era o que me interessava também, e ainda interessa: o que posso eu fazer desta matéria?, a mesma que você encontra aqui, neste momento preciso, neste texto. Ele foi gentil e sério durante nossa conversa. No fim, contra a timidez, pedi para fazer uma foto dele, com o celular mesmo, que usei para ilustrar a entrevista publicada no tal site da associação. Depois, pedi que fizéssemos uma foto juntos, com a câmera frontal, uma que eu pudesse guardar para sempre: não de entrevistado e entrevistador, mas de um grande escritor com seu leitor apaixonado. Lembro que ele sorriu para a câmera; eu também. Ambas as fotografias se perderam, sou tão descuidado. Algo daquele encontro, no entanto, permanece, percebo – e espero que, a esta altura, já tenha ficado claro: algo que pode ser mais vívido que uma fotografia, mais nítido também, mais sensível. Aquilo que se faz com as palavras, o que João me disse que buscava, e o que eu, no meu turno, também busco: a recriação da vida, com suas frestas e lacunas, algum mistério, alguma Poesia.
AUDÁCIA
João recorreu (tem recorrido) muito à memória nos seus últimos livros: Pai, pai, Meu irmão, eu mesmo e um terceiro, o qual, tem-se notícia, está escrevendo: Antropofágico amor, que vai completar o que ele batizou de a “trilogia da grande dor”. Acredito que foi a procura da memória o que me trouxe até sua obra, como alguém que deseja se posicionar bem perto para observar o tempo correndo. De início, eu queria saber o que um dos precursores do movimento LGBT+ no Brasil, João, um dos colaboradores decisivos para o pensamento em torno de sexualidade e gênero nas últimas décadas, tinha vivido: qual país ele tinha atravessado? Como esse país me dizia respeito? Quais heranças eu tinha herdado daquele tempo? Ao ler sobre sua relação com o pai (tão violenta) e o irmão (tão, tão terna), porém, encontrei mais: meu próprio compromisso de respeito àqueles que escreveram antes para que eu pudesse escrever então sobre aquilo que escrevo: do modo como desejo.
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Compromisso que reitero quando posso: “Àqueles que escreveram antes para que eu pudesse escrever neste agora” é um dos agradecimentos que fiz em meu romance de estreia. João Silvério Trevisan é um deles. E não só escreveu antes: continua escrevendo, desbravando com suas próprias palavras um território pelo qual eu também, como leitor de sua obra e escritor, posso – e vou – caminhar depois. Em grande medida, também nisto consiste nosso ofício: percorrer os caminhos de desejo abertos por outros escritores, explorar o que encontraram, regressar a nosso território para, com sorte estimulados pela coragem desses desbravadores, inspirados por eles, abrir nosso próprio caminho. O escritor vietnamita-americano Ocean Vuong1 disse, numa entrevista, que as pessoas queer, e em especial as pessoas queer que escrevem, não seguem a grade de proteção de uma estrada já definida, a rota 1 ou a rota 2: “Essa estrada nunca foi feita para elas”. “Eu preciso parar o carro, sair e escalar essa grade de proteção. Agora estou vagando, longe de tudo que conheço, longe de tudo que já tem um nome ou um sinal ou uma placa de trânsito.” É como eu me sinto escrevendo, é como me sinto lendo a obra de João. A imagem que me vem é esta: a do escritor cortando uma vegetação densa, cipós, abrindo picadas na floresta, não com facões ou terçados, mas com sua caneta, seus cadernos e diários. Não: a vegetação está se curvando diante de si enquanto caminha. Persegui João por esse caminho ao ler sua obra. E o impacto causado em meu interior não apenas se deu pelo encontro com um retrato evidente das violências vividas, inclusive dentro de casa, pelos homossexuais ao longo das últimas décadas, mas também me encheu de coragem para que eu mesmo publicasse um livro que trata também, entre outros temas, dessa violência. Um livro que procura em sua voz uma espécie de denominador comum entre as experiências ansiadas e aquelas indesejáveis para os meninos que amavam outros meninos, crescendo em cidades pequenas no interior brasileiro nos anos 1990 e 2000. E a coragem, João, como o senhor bem sabe, foi nosso artigo mais valioso. A coragem é capaz de inundar tudo – nossos textos, os textos daqueles que trilharam com a gente o mesmo caminho. Foi ela,
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1. A entrevista que cito é a que Ocean Vuong deu ao Louisiana Channel em 2022. A conversa foi traduzida e transcrita por Julia Raiz para a editora Chão da Feira (Minha vulnerabilidade é o meu poder, Caderno de Leituras, n. 188, 2026).
a coragem, que se manteve comigo quando decidi retornar à escrita, depois de uma juventude afeita aos livros e ao desejo das palavras até o dia em que as opressões de uma masculinidade dominante escantearam minha sensibilidade a uma margem feminina. E eu, adolescente, jovem demais, não queria ser definido pela feminilidade, não queria ser taxado de viado: “o viado que escreve”. Então, a escrita tomou conta de mim escondida: protegida, sim, mas minguante também. Até quase desaparecer. Quantos meninos escritores, tentados à Poesia, delicadíssimos na expressão de suas vulnerabilidades, não perderam seu desejo das palavras para as imposições de uma masculinidade como aquela?, fico me perguntando. É também isto que leio nos livros de João: a criação de literatura apesar dos reveses, sejam eles familiares, financeiros ou masculinos – a estes João não se curvou. E eu não pretendo me curvar mais também, porque já o fiz vezes o suficiente para saber que minha escrita não incorpora nada dessa dureza. Pelo contrário, ela consegue sempre, e mais e melhor, o que vem de uma delicadeza crua: da ternura. Mesmo que a delicadeza, a minha, ainda esteja em grande parte presa às sombras do masculino e, mais que isso, deslumbrada pela luz que emerge de suas frestas. Sobretudo pela luz. Mesmo que eu ainda me deixe corromper pela beleza dos homens, a beleza sendo às vezes apenas um disfarce sutil para formas variadas de violência. Sei que, para meninos como nós fomos, João e eu, a beleza ainda exerce um poder enorme. Mas vale a pena sucumbir a ela?
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São temas que emergem da leitura da obra dele e, suponho que em alguma medida, daquilo que também eu tenho escrito. Essa violência, esse fascínio... Percebo, contudo, que minha visão está embaçada pelo lirismo comovido das experiências de desejo e medo que meus personagens vivenciam. João, não: revela-se um escritor consciente de seus demônios interiores, dos demônios dos outros, aqueles que habitam o coração dos homens. Em Pai, pai, João refletiu, entre outras violências, sobre o nicho ao qual vários leitores destinaram sua produção, o nicho do “escritor de viados”. “Causa espanto que se dê à minha sexualidade tão extraordinária relevância até o ponto de suplantar o interesse por minha literatura”, escreve ele. E é a esse nicho que muitos estão prontos para relegar tantos de nós, viados que não por acaso escrevem. As pessoas ainda se esquecem (ou querem, tentam se esquecer) que a vastidão da
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experiência humana, e suas profundezas, alcança também a experiência daqueles que lutam por seu direito de amar. E, quando digo lutam, eu poderia dizer escrevem, pois não há literatura sem política, e, se um escreve tentando se esquivar desta, sinto-lhe informar, não vai alcançar aquela. Mesmo em mim, que me deslumbro com a experiência estética das palavras, que me deixo facilmente levar, comovido diante da Poesia, mesmo em mim, quando escrevo, a política das relações humanas se infiltra, e eu deixo que se infiltre. Também isto aprendi com a leitura da obra de João, também nisto estou empenhado em trabalhar em meus escritos: fazer colidir a vida coletiva – política – com a vida íntima de meus personagens, deliberadamente. Como se assim pudéssemos apreender o retrato de um país de relance enquanto escrevemos nossos romances. Estou dizendo isso, afinal de contas, porque escrever sobre o amor entre dois homens é escrever sobre o amor de uma espécie. Porque, quando escrevo dor e melancolia, quando escrevo o futuro de nosso planeta, liberdade, meninos, quando me alimento, agradecido, de referências de vida e mundo nos livros, escreve e se alimenta comigo um menino nascido em Andradas, em Minas Gerais, no começo dos anos 1990, quando o futuro ainda hesitava em se tornar o que é, quando nossas preocupações eram outras, com a reciclagem de garrafas PET, por exemplo, e com o tempo de decomposição dos chicletes grudados no asfalto (uma brevíssima eternidade). Quando me sento para escrever, escreve comigo o jovem que fez de suas primeiras experiências com drogas noites infinitas, adentrando a madrugada com os amigos em ruínas de casas em construção nos bairros periféricos de uma cidade do interior. Escreve o filho, o aluno da Universidade de São Paulo (USP), o servidor público e sua voracidade leitora, suas paixões. E escreve o viado, é claro, assim como quando João o faz. Li há pouco um romance do escritor colombiano Fernando Molano2. Numa conversa entre dois personagens, pensando sobre a ideia de um filme, um deles diz: “Pensava em como seria se fosse uma história entre dois garotos: se ele se apaixonasse por um garoto”. E o outro responde: “Penso nisso às vezes. Seria legal… Óbvio que o Leonardo diz que não seria bom; porque todo mundo pensaria que é… tipo uma história de viados. E não uma história de amor”. Faz doer meu coração que as pessoas leiam nossas histórias de amor como “histórias de
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2. Um beijo de Dick (Pinard, 2026, tradução de be rgb).
viados”. E nós sabemos que é passada a hora de encontrar, por trás de nossas palavras, não somente o viado, mas também o viado apaixonado, vulnerável e, com sorte, cheio de coragem. Para não ser suprimido a outro nicho foi que João protegeu a informação de que vive com o HIV quando tomou conhecimento da infecção pelo vírus, nos anos 1990. Quando a soropositividade era encarada, como sabemos, como uma sentença de morte. Mais de três décadas depois, a revelação pública veio na literatura, em Meu irmão, eu mesmo. Numa época em que o estigma do desejo associado à doença era a regra, talvez a lição de coragem possível fosse mesmo a defesa do espaço que João já tinha conquistado – de escritor e intelectual – para não apenas habitá-lo, mas viver nele. Com dignidade. E com coragem, também, João escreveu sua própria carta ao pai, aberta aos leitores, um livro que tensiona e afrouxa o laço entre pai e filho – “um acerto de contas”, como o autor mesmo chamou. A minha leitura, porém, vai por um caminho algo distinto: Pai, pai é um livro de reconciliação, não só com a memória do pai, mas também com sua própria memória de filho daquele homem. Para restaurar em linguagem essa relação, João precisou percorrer parte de sua própria história. E enxergamos, não expressamente, mas nas entrelinhas de seu relato, a busca por alguma justiça para fazer a releitura do pai e do filho. Justiça à própria memória: para pintar o retrato do homem alcoólatra e violento, o retrato de um tempo e de si mesmo.
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E dessa busca por uma justiça da memória parece emergir outro elemento: a saudade. Não uma saudade destinada ao pai, em específico, mas uma saudade daquilo que o circunda – daquilo que o pai de João não chegou a se tornar. “Aos setenta anos, vou me tornando um ser da saudade.” Acredito que não apenas aos que envelhecem é destinada essa transmutação: a saudade é o carma dos escritores. Nós, quando escrevemos, vamos nos tornando a saudade de uma vida anterior – ou, tantas vezes, de uma vida ainda não vivida. Como João mesmo escreveu: “É como se o passado gozasse de uma amplidão irrestrita”. E acrescento ainda, em minha vez, que essa amplidão invade tudo, avançando também em direção ao futuro. Por isto escrevemos: sentimos falta daquilo que ainda pode – ou vai – acontecer. Pode parecer uma ideia um tanto abrupta se construída desta forma: as palavras evocam imagens das quais elas sentem falta. E isso fica claro também nos escritos mais recentes de João: os acontecimentos, as pessoas, os anos vividos,
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tudo isso adquire a forma da saudade, “dejeto da memória”. Também seu repertório intelectual e poético, vastíssimo, revelado não só na articulação de ideias, mas pelas inúmeras citações contidas em Pai, pai e em Meu irmão, eu mesmo a escritores, poetas, cineastas, filósofos – essa gente que tanto o encanta, João a reveste de saudade. Em sua literatura, no entanto, tudo o que é revestido João vai despindo, as camadas esgotam-se, uma a uma, numa tentativa de chegar à alma misteriosa da palavra. E a nós, leitores, tanto nos encanta ver a alma assim, nua. Tão raro é o que se pode fazer com esta matéria que, como eu disse no início, tanto nos interessa. No que me diz respeito, estou encantado com o mistério. E eu até poderia escrever agora sobre o mundo no qual João começou a escrever, com menos direitos para as pessoas LGBT+, e eu poderia dizer de seu papel nessa conquista de direitos. Eu poderia escrever, por exemplo, sobre a fundação do Somos e do Lampião da Esquina, sobre a importância da publicação de Devassos no paraíso ou de Seis balas num buraco só, sobre sua enorme contribuição para o pensamento e a história da luta em defesa das pessoas LGBT+ no Brasil. Eu poderia repetir o que já disse, o que outros vão dizer: que sou grato a João por isso. E eu sou, mas estou tão encantado com o mistério que ele cultiva (na literatura e na vida, ambas fundidas na pessoa do escritor João Silvério Trevisan) que me atenho a esta outra dimensão: a do mistério. Sei que outros vão escrever sobre tudo isso, e que o próprio João é exímio no registro de sua própria história, que por si só lhe delega uma importância que não caberia nestas linhas breves.
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O mundo no qual João começou a escrever: o mundo de direitos escassos, de perseguições políticas também, de censura; um mundo que eu presenciei na leitura de seus escritos. Quero dizer que o mundo está melhor para gente como nós. Que a violência contra pessoas LGBT+ diminuiu, que hoje somos mais livres para amar e escrever (ambas as coisas tão intimamente relacionadas) o que quisermos. Mas a violência respira. Cedo, muitos meninos como eu fui, e João também, aprendem que a violência é uma linguagem, e toda linguagem, viva, encontra seus mecanismos sutis de adaptação a novos cenários, novos dias: também a violência se adaptou. A masculinidade reinventou seus métodos de opressão, de tentar calar os nossos desejos. É com eles que me preocupo também: com os opressores – da vida, do mistério.
Não consigo, João, me esquivar do tema da violência masculina, e de como mesmo aqueles que estão conscientes de seus danos são condicionados a reproduzi-la. Exige muito de mim imbuir a masculinidade de delicadeza, deformá-la até que vire outra coisa. Inventar uma linguagem para falar dessa zona cinzenta entre a violência e a ternura, a zona de uma superfície de vidro, que precisa ser quebrada – e já enxergo as rachaduras. Para acertar as contas do homem que sou, do desejo que tenho, com minha feminilidade: escrevo como li em seus livros – inventando um homem com minha linguagem.
Olho para meus livros, que são aqueles que eu pude escrever, e encontro mais hesitações do que certezas, mais dúvidas e silêncios emergindo entre as palavras, no vão aberto por elas. Fico me perguntando se um dia o tempo também vai dar à minha escrita mais firmeza e contenção – o que encontro nos livros mais recentes de João. Se um dia, em vez de me espraiar pelas frases, preocupadíssimo com sua construção, vou conseguir afirmar o que as coisas são e não são, se o tempo vai conceder à minha literatura a objetividade que tem concedido ao projeto mais recente dele.
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O mundo no qual João começou a escrever: o mundo da epidemia de aids, que deixou cicatrizes tão profundas, especialmente nos homens gays, que é possível que muitas delas, embora disfarçadas de cicatrizes, sejam ainda feridas abertas, causadas pelo preconceito, pelo medo, pela culpa – também esses sentimentos já me invadiram. Quando criança, nos anos 1990, eu ouvia os adultos falarem de aids (nunca diziam HIV) pelos cantos, era um tabu, uma vergonha. E esses sussurros deles cresceram comigo, acompanharam-me na adolescência, em minhas experiências de desejo, e também na rejeição dessas experiências. Ainda vou escrever a respeito da sombra que foi a ideia do HIV, e no que a sombra se transformou. Alguns lugares ficaram tão escuros que mal podemos enxergar. Algumas palavras acumularam mofo. Ainda não falamos o bastante desse assunto – não acho que a literatura brasileira tenha se ocupado o suficiente dessa sombra restante no tempo em que vivemos. Mas João se ocupou. Em Meu irmão, eu mesmo, ele dá outros contornos à experiência do vírus: o homem gay condenado à morte ao lado do irmão, hétero, que vai morrer antes, por consequência brutal de um câncer. Há tanto o que dizer, e há quem insinue que todas as nossas histórias já foram contadas, João. Equivocam-se.
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Enquanto escrevia este texto, tive a oportunidade de recuperar, com uma espécie de máquina do tempo virtual, minha entrevista com João. A sugestão de um conhecido quando eu disse que havia a chance de revisitar o texto perdido, resultado dessa nossa conversa, foi não fazê-lo. Você pode incluir no texto que optou por não reler as palavras dele, foi o que me sugeriu. Minha opção pela reconstrução pela via da memória é o que há de mais próximo ao percurso do escritor, embora João, como se sabe, conte com outros instrumentos para sua empreitada pessoal: anotações e diários, seus próprios livros, que também viraram registro de uma época, de seu pensamento. De todo modo, prefiro imaginar como terá sido nossa conversa. Quanto às fotografias, a dele sozinho, que acompanhava o texto, foi mesmo perdida; a selfie, entretanto, eu a reencontrei no dia em que entreguei este texto. Data de 8 de julho de 2019, e, como me lembrava, estamos mesmo sorrindo: “Encontro com o gigante João Silvério Trevisan”, escrevi numa rede social. Um dia também quero ser culto e elegante como João, fico pensando. Se o mundo e a morte deixarem, ainda quero escrever muitos livros, como João. E, como ele, quero poder dizer que lutei – pelos nossos, por mim, pela literatura em que acredito: uma literatura que não confunda de propósito uma história de amor com uma “história de viados”. Quero poder dizer, por fim, que fui corajoso durante a luta. A coragem, quando a tenho, faço questão de deixá-la exposta. Como um prêmio. E, depois, carregá-la para cima e para baixo, escrever com ela, partilhá-la, se possível. Ganhei um pouco da sua também, embora talvez o senhor, João, não saiba disso. Então, digo: fui encorajado por João Silvério Trevisan. A escrever. A ir me tornando eu mesmo. Eu vou, preciso viver.
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Leonardo Piana nasceu em Andradas (MG), em 1992. É escritor e servidor público. Seu romance de estreia, Sismógrafo (2022), recebeu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, foi finalista dos prêmios Jabuti, São Paulo de Literatura e Mix Literário e teve os direitos vendidos para o cinema. Seu segundo romance, Tarde no planeta (2025), também venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte. É autor, ainda, do livro de poemas Escalar cansa (2025), ganhador do Prêmio Sesc.
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João Silvério Trevisan, 2026 foto: Tamara dos Santos
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Encontros amorosos com João Silvério Trevisan por Marcos Visnadi “Da lama, polido pelo fogo” (Giuseppe Ungaretti via Haroldo de Campos, em O caderno do velho) 1. Poucas experiências são tão universais quanto a da bicha interiorana. Não porque todo mundo no planeta possa se identificar com ela, mas porque em cada província do universo tem pelo menos uma bicha solitária, sobrevivendo entre atrevida e amedrontada nas tripas da sociedade, procurando uma saída e sonhando com o amor. Solitária, mas multitudinária. Vistas de longe, de uma órbita povoada de fugitivas, todas essas bichas formam uma constelação escassa e informe, que nem naquele poema de Ungaretti: estrelas sozinhas e, entre elas, a noite encarcerada. Mas de repente elas se movem – que nem vaga-lumes – e, sabe-se lá por quais desatenções do destino, se encontram. Então acontece uma espécie de acasalamento – meio sujo, estéril, luminoso.
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Uma dessas bichas está agora subindo as escadas de um prédio oitocentista numa cidade do interior do estado de São Paulo, onde o século XXI acabou de chegar como se fosse só mais uma segunda-feira. Precisa deixar a mochila no guarda-volumes. No aperto entre as estantes, o assoalho de madeira range denunciando cada movimento dos pés. As mãos, que alívio, têm mais liberdade na discrição, e as unhas de esmalte preto vão descobrindo as lombadas de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. A bichinha debuta sua alfabetização maricona. Os dedos ansiosos agarram porcos com asas, meninos marroquinos, diários de Andy Warhol. Uma das bibliotecárias olha condenando, a outra olha com afeto, e ambas carimbam a ficha e escrevem na carteirinha a data de devolução. Em casa, no silêncio raro de uma cadeira de canto, enquanto a família comunga na igreja, a bicha passeia pelas páginas e pelas partes melequentas do corpo para encontrar sua própria comunhão de monja pagã. Era quase internet. E
foi assim, clicando em links de fichas de empréstimos e orelhas de livros, que encontrei pela primeira vez João Silvério Trevisan. O título do livro era desses que você nunca mais esquece, talvez por ser uma gayzinha nutrida no cristianismo que nem ganso para o foie gras: Devassos no paraíso (1986). É como ela se sente, ou amaria se sentir, explodindo de hormônios e fantasmas de devassidão, mas tendo que esconder tudo no escuro e no sonho do dia em que vou sair para bem longe daqui, ir para a cidade grande (Paraíso é um bairro da capital!), morrer para o mundo e poder viver para mim. (Disso deve vir muito da ideação suicida: afinal, se a minha vida é impossível, que pelo menos eu morra do meu jeito.) 2. Trevisan comeu o pão que o diabo amassou para escrever e publicar sua obra, atormentada constantemente pela falta de dinheiro e pela homofobia editorial, entre outros quitutes satânicos. Escrever, por si só, não é bolinho: esses dias ouvi de um professor que a escrita é uma atividade sempre arriscada à frustração, porque, de um lado dela, fica a vida inteira, imensa e inexprimível; do outro lado, fica a língua toda, de potências infinitas e escapadiças; na convergência das duas, fica a pessoa que escreve e que, no pouco tempo que tem, quer sintetizar tudo rabiscando meia dúzia de palavras. (Isso sou eu me lembrando do Roberto Zular falando de Deleuze para falar de Ana Cristina Cesar. Não se fie em mim.) “Escrever é uma maneira peculiar de ser louco”, pontuou Trevisan em Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de 1981, mas publicado apenas em 1984, depois de várias recusas de editores. Mais para a frente, no mesmo romance (que encena a escrita de um romance), o autor (sabe-se lá qual deles) reflete sobre seu trabalho:
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Aliás, recuso pedir que as pessoas me leiam como se entrassem num matadouro. Folheio alguns livros. O que explica que certas obras menores tenham obtido tanto reconhecimento, enquanto outras foram injustamente esquecidas? Só posso atribuir isso a circunstâncias fortuitas mas também inevitáveis, que têm a ver mais com o acaso do que propriamente com
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a criação. Já que não sou exatamente um sujeito de sorte, esse fator escapa do meu alcance. Então, como permanecer imperturbável ante o risco de, não sendo escolhido pela sorte, merecer o descaso do meu tempo? A vida não é justa; a literatura, menos ainda; do mercado editorial melhor nem falar; já o tempo… quem está contando? Enquanto eu folheava os livros de Trevisan na adolescência, quando li uma entrevista dele para a G Magazine, parecia que ele tinha a vida dos meus sonhos, que eu imaginava assim: um homem bonito, bigodudo, inteligente, respeitado, cheio de amantes, morando sozinho em São Paulo (o que queria dizer que ele tinha muito dinheiro, o bastante para essa vida de luxos poucos, mas que eu só poderia adivinhar). Quando li os autobiográficos Pai, pai (2017) e Meu irmão, eu mesmo (2023), percebi o quanto a nossa vida era complicada e cheia de perrengues (a minha como a dele), e nisso talvez meus sonhos tenham se tornado realidade (ai de mim). Olho com desconsolo a minha conta bancária, os meus diplomas, os meus amantes. Ponho “Ouro de tolo”, do Raul Seixas, para tocar. Tem disso, mas não é bem isso. Lembro-me da minha mãe dizendo: “Quem vê as pinga que eu tomo não vê os tombo que eu levo”. Tenho 41 anos e um bigode ralo. Em Meu irmão, eu mesmo, Trevisan publica uma entrada de diário de abril de 1996, quando ele tinha 51 anos:
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Afinal, esse é o meu problema na vida: não poder sequer pagar o aluguel de um apartamento vagabundo. Por quê? Falta o reconhecimento concreto que não recebo deste país de merda, o descaso com minha obra, que não interessa nem à crítica nem à universidade nem aos jornais e menos ainda ao público, o silêncio do meu telefone durante meses à espera de convites de trabalho que não chegam, pessoas que sabem do meu talento e não se lembram de mim quando têm projetos em parceria, ausências e descasos que me tornam um eterno mendicante de migalhas, sem nunca saber como vou pagar as contas no próximo mês.
O reconhecimento público e a subsistência são agonias perenes e companheiras na vida do escritor brasileiro, e Trevisan faz questão de inserir esses problemas na sua obra desde o seu trabalho de cineasta. No curta Contestação (1969), montagem rápida de cenas de protesto e repressão, o letreiro inicial (“filme de autoria anônima”) serve para esconder o realizador da perseguição clandestina do Estado, mas também para inseri-lo na multidão de anônimos revoltosos que ocupam as ruas do mundo todo contra os poderes instituídos. Já no fim de Orgia ou o homem que deu cria (1970), uma voz em off (também anônima, também do autor) emana da tela escura e, no lugar dos créditos finais, conta as circunstâncias de rodagem do filme, o tipo de negativo utilizado, as datas e condições da filmagem, como os atores e a equipe fizeram para se alimentar, quanto cada coisa custou. Os dois minutos de discurso terminam assim:
Acaba de ser apresentado mais um produto cinematográfico fabricado no parque industrial do Brasil, país situado na costa atlântica da América Latina. Data do término: dezembro de 1970. Custo aproximado: 60 mil cruzeiros. Para bons entendedores meia palavra basta. Eis um fruto legítimo.
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Orgia ou o homem que deu cria é uma alegoria tropicalista na qual, passando por estradas de terra e casebres no meio do mato, vai se juntando uma espécie de micareta de Brancaleone formada por arquétipos capengas (um parricida em fuga, um intelectual suicida, uma bicha vestida de Carmen Miranda, prostitutas felizes, um cangaceiro grávido). Assim como nas canções que Celso Favaretto analisa em Tropicália, alegoria, alegria, dá para dizer que, no filme de Trevisan, “há uma operação que oferece ao ouvinte uma imagem alienada do Brasil e, simultaneamente, um espetáculo de suas indeterminações, chegadas intactas ao presente”, o que acaba “presentificando despudoradamente o que se ocultara”. O procedimento de colagem e paródia causa na gente o reconhecimento estranho – meio melancólico, meio eufórico – de um país estilhaçado, muito diferente da imagem de nação única que o patriotismo fascista gosta de declarar. Esse estilhaçamento acontece também quando o diretor quebra a quarta parede (por assim dizer) e coloca os boletos na mesa, desarmando
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a própria alegoria cinematográfica num relatório contábil. Imagino que o discurso final do filme tenha sido uma das muitas coisas que escandalizaram e enojaram os censores que o proibiram de ser lançado, porque aí ocorre um desnudamento a mais, que expõe as vergonhas do custo de vida nacional. Não como ficção, mas como estrutura econômica, e em plena época de propaganda do “milagre brasileiro”. A censura de Orgia ou o homem que deu cria levou Trevisan ao exílio e cortou na raiz seu trabalho de cineasta. Carlos Reichenbach dizia que ela também marcou o fim da Boca do Lixo como lugar de criação experimental do Cinema Marginal, restringindo-a a ser, a partir de então, apenas polo produtor de filmes comerciais. Tereza Trautman, que viveu algo parecido com o maravilhoso Os homens que eu tive (1973), disse numa entrevista ao Pasquim, em 1983, que lhe sugeriram mudar a personagem principal, uma mulher sexualmente livre: se ela fosse solteira, de preferência prostituta, o filme não seria censurado. Mas Pity, interpretada por Darlene Glória, era casada (em relação aberta, depois em trisal e daí por diante), e isso foi considerado um “atentado à moral e à família” e à “imagem da mulher brasileira”. As ilusões morais e econômicas, assim como o controle dos corpos baseado num esquema rígido de binarismo de gênero e heterossexualidade compulsória, ditavam quais obras podiam circular e, portanto, quais artistas podiam seguir trabalhando. Tanto Trautman quanto Trevisan se recusaram a realizar cortes em seus trabalhos, ainda que isso inviabilizasse qualquer chance que os filmes tivessem de se pagar. Sem circulação comercial, as dívidas de Orgia ou o homem que deu cria causaram muito transtorno a Trevisan, e duvido que hoje, quando o filme é reconhecido internacionalmente pelo valor artístico e histórico, o retorno financeiro para o diretor seja condizente com os elogios ao trabalho.
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No diário de 1996 incluído em Meu irmão, eu mesmo, a revolta vem quando o prefeito de Ribeirão Bonito (SP), cidade natal do autor, quer homenageá-lo nomeando um centro cultural. Trevisan vê nisso um golpe eleitoreiro à sua custa: “Não preciso ser profeta para prever como será humilhante encontrar, daqui a um ano ou pouco mais, as letras do meu nome despencando da fachada do tal centro cultural cheio de ratos e baratas, por nunca ter sido usado passadas as eleições”. Entre aceitar ou não a homenagem, ele optou pelo segundo caminho, ratificado pelo conselho do irmão, que achava que, “se ela [a homenagem] vai contra
os meus valores até o ponto de me violentar, como é o caso, simplesmente não devo aceitar” – além de que “não devo nenhuma explicação a ninguém”. Às vezes a gente só quer bater palma, mas há um cinismo inerente às homenagens que nem sempre passa batido pela pessoa homenageada. Alfred Hitchcock, quando ganhou o único Oscar de sua carreira, no final da vida, pelo conjunto da obra, mal chegou ao microfone; inclinou o corpo para a frente, esticou o pescoço e disse apenas: “Thank you”. Rita Lee, homenageada num festival de música com um troféu e uma apresentação de slides, subiu ao palco para agradecer com o braço enfaixado e disse que era muito legal receber prêmio, mas que preferia dinheiro, inclusive porque estava com a patinha quebrada e o veterinário era muito caro. Hilda Hilst, também velha, quando lhe perguntaram por que não iria à Feira do Livro de Paris, para a qual tinha sido convidada, respondeu apenas: “Paris era bom quando eu fodia”. E, quando foi homenageada com a chave da cidade pela Câmara dos Vereadores de Campinas (SP), mandou o presidente da Câmara enfiar a chave naquele lugar: “De que me serve uma chave que não abre nada? E a minha dívida de IPTU?”. João Silvério Trevisan: “Quando falo [para o irmão] de minha intenção em escrever para o prefeito de Ribeirão Bonito e dizer não, ele concorda. Escreva, me diz. É o que vou fazer”. Em uma live de quarentena, o escritor comentou, brincando, o quanto as pessoas deveriam estar cansadas de vê-lo em lives de quarentena. Têm sido anos agitados na divulgação de livros novos e das reedições, e ele também é muito procurado por seu status, pelo reconhecimento público que tem experimentado – pelo qual é grato, mas que também o incomoda. Transcrevo um trecho da sua fala:
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Me preocupa o fato de estar sendo tratado como um mestre e, muito frequentemente, um mito. Eu já mencionei em outras falas uma mensagem carinhosa que alguém me mandou, dizendo: “Trevisan, você é uma lenda viva”. Eu fiquei muito assustado, porque… eu sou vivo! E lenda não costuma ser viva. Por mais que você queira dar vida à lenda, ela já está sendo tornada alguma coisa que precisa ser enterrada logo [risos]. Então, eu ainda tenho um restinho de vida, que eu considero com muita alegria, esse restinho,
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e acho que Devassos no paraíso é um livro escrito para ser continuado. 3. Em 2014, entrevistei Trevisan para a Revista Geni. Fomos (Gui Mohallem, Pedro “Pepa” Silva e eu) bem recebidos por ele e por um cachorro grande no apartamento no Centro de São Paulo. Tinha um cachorro? Quase certeza que sim. Talvez fosse a Nina, que aparece num dos (para mim) momentos mais memoráveis de Pai, pai – passeando com ela numa praça, Trevisan é abordado por um homem bêbado que grita para ele: “Papai, papai!”. Em outro capítulo, na mesma situação, é uma travesti bêbada que diz: “Oi, papai, está cada vez mais parecido com seu cachorro”. Uma vez, assistindo a uma palestra dele em algum lugar, alguém do meu lado comentou: “É um velho bonito”. Quando a gente é novinha, qualquer ruga ou pentelho grisalho basta para identificar um “velho”. À medida que a gente envelhece, a categoria vai se estreitando, ficando mais específica, nós a empurramos para longe. Alguns marcadores ainda parecem inquestionáveis: os cabelos brancos, por exemplo. Sou especialmente atento a essas questões porque desde menina estudo a velhice, fiz mestrado no tema, então me repreendo quando me pego caindo em algum lugar-comum. Talvez por isso, o que mais me chamou atenção naquele encontro com Trevisan em 2014 foi: a força desse homem. Não como quem pensa “Nossa, ele é forte para a idade dele”, mas como quem pensa “Deus me livre de brigar com essa bicha, ela me tritura – na palavra ou na porrada”. Tenho meus próprios fantasmas paternos e pode ser que isso tenha entrado na conta. Meu pai também era um homem bonito e bigodudo, rosto e sobrenome italianos. E era bravo. Deus não me livrou de brigar com ele. Agora, bem mais velho e órfão há muito tempo, eu convivi o bastante com essa sombra para não ficar tão assombrado o tempo todo. E, além disso, o que me chama atenção em Trevisan já não classifico como braveza. Antes, eu diria: apaixonado (no que – acho – ele difere muito do meu pai).
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O relacionamento ruim com a macheza bruta do pai abusivo é parte integrante da experiência universal da bicha interiorana, que nasce
desse homem como castigo divino ou retorno do recalcado. Do “Peru de Natal”, de Mário de Andrade, ao Água do céu – pássaro, de Ney Matogrosso, machos indignados se perguntam: como é que um fero mamífero pode gerar uma ave plumada? Em 1998, Trevisan dedicou um livro inteiro a uma pergunta ainda mais fundamental: como podem esses feros mamíferos continuar gerando a si mesmos? O ensaio “Seis balas num buraco só: a crise do masculino” faz uma análise identitária ampla, multidisciplinar e profunda do homem, investigando os tiros que saem pela culatra dessa performance de gênero. O ensaio surgiu como desdobramento das pesquisas de Devassos no paraíso, mas também de uma sensibilidade que está desde sempre presente no trabalho de Trevisan. No curta Contestação, a maior parte das pessoas que aparecem nos recortes de filmagens – líderes políticos, policiais, manifestantes – são homens envolvidos em situações públicas de violência física. Em Orgia ou o homem que deu cria, o estopim da ação é o filho matando o pai. E seu primeiro livro publicado, Testamento de Jônatas deixado a David (1976), abre com dois contos em que a descoberta da homossexualidade de personagens masculinos causa rupturas drásticas nas subjetividades narradas: em “Cruel revelação”, um jovem de 19 anos tem um chilique violento ao saber que o irmão mais velho é viado; em “O amigo do meu tio”, o amor secreto de dois homens é visto com melancolia pelo sobrinho de um deles.
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Nesse contexto, a “homossexualidade” não é uma categoria médico-legal ou uma experiência de vida, mas “uma dessas metáforas de emasculação”, como lemos em “Seis balas num buraco só”. Na segunda edição do livro, revista e ampliada, publicada em 2021, o pânico da castração, que muitas vezes se desdobra em homofobia, ganha uma fonte fértil de estudos na figura de Jair Bolsonaro, protagonista do que Trevisan chama de “ideologia falocrática” do conservadorismo brasileiro. O autor cita, por exemplo, a disparidade de reações de Bolsonaro, como presidente, a dois dados tristes da saúde pública: consternado quando falou que “nós temos por ano mil amputações de pênis por falta de água e sabão”; debochado quando o país ultrapassou, em dois meses, 5 mil mortes causadas por covid-19: “Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”. O escritor analisa:
Ostentando a grosseria como uma qualidade de macho, Jair Bolsonaro reafirmava recorrentemente 95
seu posto de poder. Num típico comportamento priápico, recorria à sua autoridade através de manifestações obsessivas de autoafirmação: “Eu sou o presidente, pô, quem manda sou eu”, “Eu que fui eleito”, “Eu nomeio, todos têm de ser afinados comigo”, “Quem manda sou eu. Ou vou ser um presidente banana?”. Tanta insistência denunciava, na verdade, a exata dimensão do seu despreparo e insegurança no posto ocupado. No terreno da linguagem, parece mais fácil enxergar os artifícios da “inflação fálica” – talvez porque (como diz Georges Bataille em A literatura e o mal) a literatura seja inorgânica: escrita, a palavra “pau” não tem pênis, não tem pele, glande ou corpo cavernoso, não é dura nem mole, sua única anatomia são as três letras arbitrárias que a formam (e que, com dois toques de teclado ou uma rasura insistente, fazem que ela se transforme em “pai”). Atento desde sempre aos recursos da linguagem e do gênero, Trevisan, agora eu vejo, performa publicamente uma masculinidade de corda bamba. Insisto no bigode. E vejo também os trajes, de uma elegância quase sempre discreta, mas no limite entre o sóbrio e o flamboyant. A voz grossa e imponente fica fina sem desafinar. Ele fala gesticulando com os braços e as expressões do rosto, numa recusa à postura taciturna. E é bravo, mas com um brilho molhado nos olhos. Que nem quando contou pra gente, na Revista Geni, da vez em que o grêmio do curso de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP) chamou o pessoal do Lampião da Esquina, nos anos 1970, para um debate sobre homossexualidade. O teaser em vídeo da entrevista foi retirado deste trecho, que a gente intitulou “Trevisan sobe na cadeira”:
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Quando nós chegamos, saía gente pelas janelas, estava abarrotado! Começamos a falar e de repente começaram a pipocar essas mesmas críticas: “O homossexualismo é um vício burguês, é decadência burguesa, e vocês estão querendo dividir o movimento operário!”. E foi então que eu vi um cara que conhecia muito bem, pois ele tinha participado do grupo anterior ao Somos, que eu tentei criar e foi
um desastre, porque ninguém tinha o mínimo de autoestima para continuar no grupo. Esse cara, de vez em quando, ia me procurar, quando eu morava numa comunidade em Pinheiros [bairro de São Paulo], que não era só de bichas. Ia me procurar apavorado porque tinha trepado com um homem na noite anterior e estava com crise de dor de cabeça – ele tinha crises de enxaqueca a cada vez que trepava com um homem. Essa pessoa estava lá dizendo: “Vocês não têm o direito de dividir o proletariado!”. Eu falei: “O quê? Eu vou carregar esses viados nas costas?”. Eu me levantei e subi na cadeira. Eu estava enfurecido quando vi aquilo e disse: “Olha aqui! Eu não vim aqui para falar em nome de lésbicas e gays, eu vim aqui porque estou tentando criar um movimento, e não sou dono dele! Se aqui nesta plateia, que eu sei que está cheia de lésbicas e gays, alguém quiser falar, por favor se manifestem!”. Ah, foi uma maravilha! Começou aquele pau, aquelas bichas dizendo: “Aqui na USP está cheio de gente machista, de gente que odeia homossexual! Homofóbicos! Lá na ECA, eu tenho professor que não deixa tese…”. E daí começou a pipocar tudo… 4.
PAIXÃO
O artista e o militante são uma pessoa só. Isso não é muito verdade, e os textos do escritor dão uma ideia da multidão que, habitando cada uma de nós, pode extrapolar nossa intimidade e se materializar em personas diferentes. Vira-se do avesso o que antes (antes?) era a vida dupla da bicha enrustida, que se desdobrava em dois tempos na esperança de ter dois corpos: o do pai de família e o da maricona; um da casa e do trabalho, outro do beco e do banheiro. Na sua própria experiência trilhada sob o nome público, parece que Trevisan também usa essas tecnologias viadas de fragmentação, mas sem nenhum enrustimento. Multiplica-se expondo cada uma de suas facetas, e todas elas são bichas.
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Em Pai, pai, ele escreve: “Na minha longa experiência de vida, comprovei inúmeras vezes como o enrustimento corrói o caráter humano”. No Brasil, ele diz, há uma “cultura do enrustimento”, o próprio país é enrustido, e talvez isso tenha condicionado a recepção do escritor, que se tornou muito difícil de ler para quem precisava defini-lo. Afinal, trata-se de cineasta, militante ou jornalista? Escritor, mas de quê? De contos, mas eróticos? De romances, mas históricos? De ensaios não acadêmicos? E cadê a literatura? A esse respeito, o pesquisador Arthur Araújo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), resgatou dois artigos: uma crítica a Troços & destroços, publicada no jornal Zero Hora em 1997, que acusava o livro de “confessionalismo homossexual”; e a resposta de Trevisan, publicada no mesmo veículo, em que o autor afirma:
Frequentemente, ao abordar meus livros, os críticos tendem a esquecer a obra, privilegiando a parte biográfica. Acho injusto com minha literatura, pois se esquecem de que sou escritor de ficção e não biógrafo de mim mesmo. Pior ainda: o que certo tipo de crítica toma como sendo minha vida acaba se reduzindo à minha sexualidade. Faz-se aquela velha questão, que muita gente acha que é nova: por que só se vê identitarismo nos discursos de pessoas que desviam daquela que pretende ser a identidade universal? Ou, nas palavras de Trevisan: “Como o crítico tem certeza de que eu, discípulo confesso e tradutor entusiasta de Jorge Luis Borges, não estou usando a ficção para criar espelhos ilusórios de mim mesmo?”.
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Já em Vagas notícias de Melinha Marchiotti, o escritor mistura romance e diário, confundindo as fronteiras e expandindo a abrangência do texto, tornando-o quase inclassificável. Em O livro do avesso (1992), ficção e realidade duelam, autor e personagem trocam de lugar para viver um o avesso do outro. Assim como o destroçamento, avessar é um procedimento constante na obra de Trevisan, seja no desnudamento dos bastidores da criação, seja nas reviravoltas textuais que inutilizam nossas referências de leitura. Como um espelho ilusório.
Arthur Araújo diz (e eu concordo, parafraseando) que o melhor jeito de ler Trevisan não é buscando o rótulo adequado, mas percebendo como os rótulos se movimentam na sua obra. A proposta vale para os gêneros literários, mas também, suponho, para outras questões de gênero, pois mesmo a homossexualidade, nele, não é o que se espera. Voltando a Pai, pai: o último parágrafo do capítulo “Exílio e enrustimento” começa reclamando “do estigma de ‘militante guei’, que tem me perseguido nos mais diversos momentos da vida profissional”. Em seguida, o incômodo com as acusações de “fazer militância” se transforma em uma recusa ao rótulo de “escritor de viados”, o qual significaria que seus livros só interessam a um nicho, e não à totalidade da literatura brasileira. “Essa acusação é de longe a mais injusta, pois basta um esforço mínimo para comprovar que meu compromisso criativo sempre foi antes de tudo com a Poesia.” Sem negar a “literatura brasileira”, a maiúscula “Poesia” remete a algo muito maior do que qualquer nicho, seja ele geográfico, sexual ou identitário. “Poesia” é, ela sim, universal – embora não sirva à militância, por exemplo, que se ocupa de questões práticas e cotidianas, muito mundanas. E então Trevisan arremata o parágrafo virando do avesso tanto a Poesia quanto a militância e a viadagem, para encontrar o ponto de convergência das três dimensões concorrentes: “O que esses moralismos doentios não levam em conta, por pura mediocridade, é que minha luta pelos direitos homossexuais no Brasil nunca foi um passatempo. Eu luto com a consciência de que está em jogo algo para mim sagrado: meu direito de amar”.
PAIXÃO
O amor, enfim, é o que faz Trevisan subir na cadeira e gritar para que outras pessoas falem, é o que ele evoca para formular personagens reais e fictícios. Ousar dizer o nome do amor é necessariamente encontrar novas palavras, pois o que “o amor” tem de universal raramente capta as nuances e contradições do amor que se vive particularmente. O amor é sempre um outro amor e, quando ele é maldito, aí é que se fazem necessárias as palavras ao avesso. “Eros, o arruaceiro”, lemos em Vagas notícias de Melinha Marchiotti. Nesse livro, ainda antes da aids, mas já no contagioso universo da viadagem (“os alegres rapazes, acusados já pelo CRM de espalharem germens de VD desde o ano 911 DC”), o narrador e seu namorado, Pepo, brigam porque um pegou ou passou sífilis para o outro.
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A briga se metamorfoseia em tesão, e segue-se uma cena de sexo daquelas que só se podem ver na deep web ou no apartamento mais insuspeito do quarteirão:
– Anda, me dá teu suco de sífilis. – Me dá tua sífilis também. – Você me deixou louco. Te botei minha sífilis como marca. Seu rosto tinha feridas, o braço estava enfaixado. A dor, essa era antes a de descascar até o miolo, tempo apenas de desabar na cama e dizer palavrões de paixão. – Anda, me dá sífilis. E Pepo sugava, querendo treponemas. Tendo em mente o trauma geracional da epidemia de aids e o trauma físico de qualquer infecção sexualmente transmissível (IST) dolorida, as palavras são absurdas: jamais vamos ler “me dá sífilis” em cartões de Dia dos Namorados, pois o amor impresso neles fica muito aquém. Neles não cabe o nome obsceno da bactéria causadora da sífilis, em que Trevisan encontra a unidade mínima da trepada – o treponema. Tampouco cabe o destroçamento urgente experimentado pelo casal do conto “Latin lovers” (1972):
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Foram para dentro de uma igreja, onde havia adoração perpétua. E treparam ao lado do órgão de tubos. Enquanto Elle lambia os tubos com a língua em sangue, Êli tirou algumas notas profundas. E, esticando o rosto, ainda conseguiam se beijar. Êli retirou as calças de Elle, num puxão, de modo que a rasgou. E, enquanto tocava órgão, pegou uma tarimba ali perto e enfiou-a no cu de Elle e Elle gritou e não sabia mais o que era, se dor ou prazer. Então, com os olhos esbugalhados por causa da varinha no cu, Elle retirou um tubo e obrigou o pau de Êli a entrar no tubo, sangrando. No meio do sangue do cu e do pau, ambos gritaram porque o prazer veio mais uma vez. Mas tiveram que enfiar rapidamente os restos de suas roupas quando viram que um padre se aproximava.
Fugiram deixando o padre desmaiado – não sabiam se de susto ou de tesão, porque o pau do padre parecia duro por baixo da batina. O amor é sagrado; como tal, é confuso e certeiro. Assim como em cenas mais amenas dos livros de Trevisan, a suruba de sangue, fezes e doenças vive num mundo móvel, em que não faz sentido falar de “real” ou “ficção”. No caso específico da fantasia erótica, esse mundo fica ainda mais longe, fermentando dentro da gente como no escuro de uma batina de padre. 5. Em 2014, quando perguntamos quais eram seus projetos atuais, Trevisan respondeu o que me parece ser sua resposta padrão em qualquer época: “Estou fazendo trocentas coisas ao mesmo tempo”. Tinha terminado um livro de poemas, outro de contos, artigos, ideias para o cinema, projetos de romances, “tenho pastas e pastas…”. Quem lê seus livros, vê seus filmes, vai às suas palestras ou assiste às muitas lives de que ele participa tem uma ideia da inquietude e da voracidade que compõem esse personagem. Nos textos literários, isso se materializa em formas que não cabem nelas mesmas, em formulações que buscam completude ao mesmo tempo que se espalham para direções imprevistas. A resposta continuava: “Estou também elaborando testamento”. A preocupação era com os livros: “A minha biblioteca, por exemplo, vai pra minha cidade, Ribeirão Bonito”. E a entrevista termina: “Aliás, ontem me ocorreu: meu exílio é hoje. Talvez eu pertença ao futuro”.
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Outro dos traços universais da bicha interiorana é o legado. Mesmo as quaquazinhas mais avoadas, as malditas mais péssimas, as tímidas mais discretas, as que morrem cedo demais, as que ficam em casa até o fim cuidando da mãezinha entrevada – todas elas deixam um rastro que a próxima criança viada vai enxergar naquele escuro e perseguir. A gente está sozinha, é a estrela mais isolada do universo, e de repente vê uma transeunte rebolando na rua vazia, visita a tia-avó de voz grossa que escolheu morrer solteira, ouve falar do tio de um amigo que morreu de aids em São Paulo e pronto: a constelação está montada. Agora só precisa se mover: entrar na biblioteca pública torcendo para não ter
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ninguém conhecido lá, ranger com cuidado o assoalho e sentir nas lombadas das estantes, tipo dark room, aquele que te chama. Da minha parte, sou muito grato ao “escritor de viados” que minhas mãos alcançaram e que me convocou a falar. E ontem, hoje, amanhã: acho que o tempo dele é sempre.
Referências ARAÚJO, Arthur. Autobiografia, autoficção e testemunho: artifícios na construção do romance autobiográfico Pai, pai (2017), de João Silvério Trevisan. In: BIRMAN, Daniela et al. (org.). Literatura brasileira contemporânea: aproximações e divergências. Campinas: Unicamp; Publicações IEL, 2022. CONTESTAÇÃO (1969), 14 min, de João Silvério Trevisan. [S. l.: s. n.], 2021. 1 vídeo (14 min). Publicado por João Silvério Trevisan. Disponível em: youtube.com/watch?v=u49yR8m13oU&t=394s. Acesso em: 23 abr. 2026. “DEVASSOS no paraíso”: 35 anos depois – uma aula com João Silvério Trevisan. [S. l.: s. n.], 2021. 1 vídeo (65 min). Publicado pelo canal Companhia das Letras. Disponível em: youtube.com/ watch?v=AP_0io6g3bY. Acesso em: 23 abr. 2026. FAVARETTO, Celso. Tropicália, alegoria, alegria. 4. ed. Cotia: Ateliê, 2007.
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MICHELETTI, João Pedro. Entrevista com João Silvério Trevisan: Boca do Lixo, Cinema Novo, Cinema Marginal. Revista Laika, v. 1, n. 1, jun. 2012.
MOHALLEM, Gui; SILVA, Pedro “Pepa”; VISNADI, Marcos. Ação direta. Revista Geni, n. 15, set. 2014. Disponível em: revistageni.org/09/ acao-direta. Acesso em: 23 abr. 2026. ORGIA ou o homem que deu cria, de João Silvério Trevisan (filme completo, 1971). [S. l.: s. n.], 2024. 1 vídeo (95 min). Publicado por João Silvério Trevisan. Disponível em: youtube.com/ watch?v=uDmGsL13ScQ&t=5554s. Acesso em: 23 abr. 2026. TEREZA TRAUTMAN. Pasquim, Rio de Janeiro, ano XV, n. 746, 13-19 out. 1983. TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000. (Coleção Contraluz). TREVISAN, João Silvério. Latin lovers. In: MORAES, Eliane Robert (org.). Antologia do conto erótico brasileiro. Lisboa: Tinta-da-China, 2024. TREVISAN, João Silvério. Meu irmão, eu mesmo. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2023. TREVISAN, João Silvério. Pai, pai. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2017. TREVISAN, João Silvério. Seis balas num buraco só: a crise do masculino. 2. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1976. TREVISAN, João Silvério. Testamento de Jônatas deixado a David. São Paulo: Brasiliense, 1976. TREVISAN, João Silvério. Troços & destroços. Rio de Janeiro: Record, 1997. (Coleção Contraluz). PAIXÃO
TREVISAN, João Silvério. Vagas notícias de Melinha Marchiotti. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2022. UNGARETTI, Giuseppe. Ungaretti: daquela estrela à outra. Organização de Lucia Wattaghin. Tradução de Haroldo de Campos e Aurora F. Bernardini. Cotia: Ateliê, 2003.
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Marcos Visnadi é doutor em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Estudioso da obra de Hilda Hilst, também pesquisa o erotismo literário, as representações artísticas da velhice e as relações entre literatura e história no Brasil no século XX. Escritor publicado em diversas revistas e antologias, é autor dos livros de poesia Se ficar muito difícil (2021) e A salsicha de Satanás (2026).
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Agenda
AGENDA
Todos os gêneros Programação 28 JUL | TERÇA 20h ABERTURA Escrevo para ser amado: Trevisan e suas
trajetórias | p. 109
29 JUL | QUARTA 18h OFICINA Viagem a Veneza (encontro 1) | p. 110 20h TEATRO Dionísia do agreste – uma tragicomédia greco-baiana |
p. 110
30 JUL | QUINTA 15h TEATRO Los objetos de mi memoria | p. 111 18h OFICINA Viagem a Veneza (encontro 2) | p. 110 20h TEATRO Metendo a boca | p. 111 23h DANÇA DARKRUIM | p. 112
31 JUL | SEXTA 15h TEATRO Los objetos de mi memoria | p. 111 18h OFICINA Viagem a Veneza (encontro 3) | p. 110 20h CINEMA Ferro’s Bar (2022) e Velcro (2025) | p. 113 23h DANÇA DARKRUIM | p. 112
1 AGO | SÁBADO 16h OFICINA Viagem a Veneza (encontro 4) | p. 110 20h MÚSICA Cida Moreira – Me acalmo danando: a música
de Angela Ro Ro | p. 114
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2 AGO | DOMINGO 16h OFICINA Viagem a Veneza (encontro 5) | p. 110 18h MÚSICA Cida Moreira – Canções e poesia | p. 114
Abertura 28 DE JULHO DE 2026 | TERÇA | 20H
Escrevo para ser amado: Trevisan e suas trajetórias com João Silvério Trevisan e Renata Pimentel Texto por João Silvério Trevisan: Eu nunca tive dúvida de que venho perseguindo o amor em toda a minha trajetória. Igualmente, não temo confessar em público (como faço agora) que amar é componente intrínseco da minha vocação literária. Não, não escrevo para agradar – caso possam entender assim. Seria uma quimera ridícula querer agradar a todo mundo indistintamente. Faz parte dessa confissão constatar que o exercício da minha literatura, tão amoroso, começa por um desesperado apelo a mim mesmo para aprender a me amar. Não, não se trata de autoajuda, mas de exercício de sobrevivência. Quando escrevo, costumo meter o dedo em muitas feridas. É um risco. Para tanto, preciso de alguma garantia que começa justamente nos alicerces do meu eu, quero dizer, este projeto de Eu em constante devir. Isso faz parte do amor que devo a mim mesmo, tão incondicional quanto periclitante. Antes de tudo, minha escrita procura compreender melhor a mim mesmo, com minhas incompletudes, insatisfações, inseguranças. Ao escrever, ocorre um diálogo obrigatório comigo mesmo, nas mais diversas e fortuitas circunstâncias, desde personagens que crio e as estórias narradas até o estilo adotado e as escolhas expressivas. Mergulhar em mim significa que escrever me ajuda a compreender o mundo. E esse aprendizado passa, inevitavelmente, pelo viés amoroso, porque implica criar pontes, lançar inquietações e permitir interlocução com quem me lê. Esse era um gesto vital, especialmente no período da ditadura militar, em que não havia espaço para dissidências. Minha solidão gritava pela necessidade do amor. Desde então, me parece natural que a literatura tenha a função de denunciar o exílio. Para mim, isso implica, ainda hoje, uma genuína proposta amorosa. [duração aproximada: 120 minutos] Teatro (piso térreo) – 224 lugares AGENDA 109
Entrada gratuita. Reserve seu ingresso pela Inti no dia 28 de julho, a partir das 12h. Para mais informações sobre reserva de ingressos para eventos presenciais no IC, acesse itaucultural.org.br.
Oficina 29 DE JULHO A 2 DE AGOSTO DE 2026 QUARTA, QUINTA E SEXTA | 18H SÁBADO E DOMINGO | 16H
Viagem a Veneza – narrativa de João Silvério Trevisan em seu processo de criação do romance Ana em Veneza com João Silvério Trevisan
O autor compartilha com os participantes desses encontros o seu processo de criação do romance Ana em Veneza e, ao mesmo tempo, orienta o público em exercícios de elaboração literária. [duração aproximada de cada encontro: 90 minutos] Auditório (piso 3) Inscrições gratuitas – 60 vagas Inscrições a partir das 11h de 7 de julho, em itaucultural.org.br. Os resultados serão divulgados no mesmo site, no dia 17 de julho.
Teatro 29 DE JULHO DE 2026 | QUARTA | 20H
Dionísia do Agreste – uma tragicomédia greco-baiana (Bahia, Brasil) com As Rainhas do Centro
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Este espetáculo teatral do coletivo drag baiano As Rainhas do Centro é a primeira dramaturgia inédita do grupo. Livremente inspirada nas obras Tieta do agreste (1977), de Jorge Amado, e As bacantes (405 a.C.), de Eurípedes, a peça retrata o retorno triunfal da deusa Dionísia a sua cidade natal, Tebas do Agreste, de onde havia sido expulsa anos atrás. Metade humana, metade divina, ela usa seus poderes e a força das bacantes para consumar sua vingança. A montagem é construída como uma opereta queer carnavalizada, misturando mitos que ajudaram a fundar tanto a sociedade grega como a baiana.
[duração aproximada: 120 minutos] Teatro (piso térreo) – 224 lugares Entrada gratuita. Reserve seu ingresso pela Inti a partir das 12h do dia 28 de julho. Para mais informações sobre reserva de ingressos para eventos presenciais no IC, acesse itaucultural.org.br.
30 E 31 DE JULHO DE 2026 | QUINTA E SEXTA | 15H
Los objetos de mi memoria (Santiago, Chile)
com Omar Morán e a ONG Eternamente Sou
Los objetos de mi memoria [Os objetos de minha memória] é uma performance baseada em um dispositivo cênico efêmero, por meio do qual o público, enquanto desfruta de um lanche, percorre um museu de objetos. Com a plateia são compartilhados testemunhos sobre esses itens – “tesouros anônimos” de pessoas comuns, os quais dão conta de um processo coletivo a partir de pertences individuais. A ação é uma parceria com a ONG Eternamente Sou, trazendo a comunidade LGBTQIAPN+ da terceira idade como público central. Juntos, Omar Morán, responsável pelo espetáculo, e a ONG criam um espaço de escuta, celebração e visibilidade. [duração aproximada: 60 minutos] Espaço Criativo (piso 9) – 50 lugares Entrada gratuita. Distribuição de ingressos: uma hora antes do início do evento.
30 DE JULHO DE 2026 | QUINTA | 20H
Metendo a boca (Ceará, Brasil)
com Ricardo Tabosa
AGENDA 111
Em Metendo a boca, um homem conta sobre o momento em que perdeu a fala, ainda na infância, ao descobrir que seu “jeitinho” incomodava
muita gente. A partir dessa lembrança, ele inicia uma jornada visceral de resgate em busca da própria voz. Um caminho cheio de desvios, confrontando questões de identidade e sexualidade: o que é ser um homem hoje? Entre silêncios e desabafos, a arte do lip sync convoca uma multidão de vozes que se embaralham entre si. A boca torna-se um lugar de disputa, no qual a linguagem aparece fragmentada, instável, atravessada por tensões entre o que se diz, o que se cala e o que escapa. Inspirado na trajetória do próprio ator Ricardo Tabosa, o espetáculo investe na sobreposição entre memória e invenção, abordando, com humor e sensibilidade, as discussões urgentes sobre silenciamentos impostos às vivências LGBTQIAPN+ e a crise da linguagem no mundo contemporâneo. [duração aproximada: 60 minutos] Teatro (piso térreo) – 224 lugares Entrada gratuita. Reserve seu ingresso pela Inti a partir das 12h do dia 28 de julho. Para mais informações sobre reserva de ingressos para eventos presenciais no IC, acesse itaucultural.org.br.
Dança 30 E 31 DE JULHO DE 2026 | QUINTA E SEXTA | 23H
DARKRUIM (Rio Grande do Norte, Brasil) com João Paulo Lima
Em um mundo no qual a norma dita os padrões de beleza e aceitação, corpos que desafiam essa normatividade são frequentemente marginalizados e excluídos. É nesse cenário que surge DARKRUIM, um solo de dança envolvente e provocador, concebido e interpretado por João Paulo Lima. A obra nos convida a uma imersão sensível nas experiências de um corpo com deficiência em sua busca por espaços de pertencimento e aceitação, revelando as nuances das descobertas corporais e sexuais num contexto de capacitismo e hegemonia.
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[duração aproximada: 60 minutos] Espaço Criativo (piso 9) – 50 lugares Entrada gratuita. Distribuição de ingressos: uma hora antes do início do evento.
Cinema 31 DE JULHO DE 2026 | SEXTA | 20H
Exibição dos curtas Ferro’s Bar e Velcro com Aline Assis, Renata Pimentel e Rita Quadros mediação Mayara Santana Com base em documentos históricos e entrevistas com lésbicas que viveram e lutaram nas décadas de 1970 e 1980 durante a ditadura militar, Ferro’s Bar (2022) conduz o público para um episódio central na formação do movimento lésbico brasileiro: o levante do Ferro’s Bar, conhecido também como o “Stonewall brasileiro”. O filme mostra como as lésbicas se tornaram sujeitos políticos por meio da luta contra a censura, a repressão e a violência. O filme Velcro (2025) apresenta Day (Juliana Linhares), uma compositora e cantora cujo sonho é viver de sua arte. Ela herda um estabelecimento comercial de sua tia Das Dores, mulher forte que deixou o interior do Rio Grande do Norte e fez a vida sozinha em Recife (PE). Day não hesita em transformar o restaurante em um bar, onde poderá, enfim, colocar a música como protagonista. Com a ajuda de sua melhor amiga, Marina (Karina Buhr), e de várias profissionais mulheres, nasce um bar que vira o point musical e da cena artística no centro da capital pernambucana. Apesar das dificuldades financeiras e das agruras de ser uma mulher empreendendo num mundo misógino e machista, a inauguração do estabelecimento, nomeado Velcro, traz sucesso, surpresas e parcerias, como o encontro com Josy (Larissa Lisboa), que também tenta conciliar a vida trabalhando para sustentar a si, sua mãe e o desejo de trabalhar com música. [duração aproximada: 120 minutos] Teatro (piso térreo) – 224 lugares Entrada gratuita Reserve seu ingresso pela Inti a partir das 12h do dia 28 de julho. Para mais informações sobre reserva de ingressos para eventos presenciais no IC, acesse itaucultural.org.br.
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Música 1º DE AGOSTO DE 2026 | SÁBADO | 20H
Me acalmo danando: a música de Angela Ro Ro
com Cida Moreira
Cida Moreira tem interpretado as canções de Angela Ro Ro (1949-2025) durante toda a sua trajetória. Neste show, essas duas artistas se unem na esfera da alma, ambas habituadas a canções feitas com a lâmina afiada que corta pulsos e corações. [duração aproximada: 80 minutos] Teatro (piso térreo) – 224 lugares Entrada gratuita. Reserve seu ingresso pela Inti a partir das 12h do dia 28 de julho. Para mais informações sobre reserva de ingressos para eventos presenciais no IC, acesse itaucultural.org.br.
2 DE AGOSTO DE 2026 | DOMINGO | 18H
Canções e poesia com Cida Moreira
Um repertório heterogêneo de canções magníficas, um presente e um desafio para uma intérprete que tem como escolha a poesia em toda a sua magnitude. Uma artista da palavra musicada em um show de piano, voz e emoções. [duração aproximada: 80 minutos] Teatro (piso térreo) – 224 lugares Entrada gratuita.
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Reserve seu ingresso pela Inti a partir das 12h do dia 28 de julho. Para mais informações sobre reserva de ingressos para eventos presenciais no IC, acesse itaucultural.org.br.
João Silvério Trevisan na Galeria Metrópole, em São Paulo, 2026 | foto: Tamara dos Santos
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Fundação Itaú | Itaú Cultural Todos os gêneros : mostra de artes e pluralidades : uma celebração à vida e à poética de João Silvério Trevisan [recurso eletrônico] / organizado por Itaú Cultural. – São Paulo : Itaú Cultural, 2026. 120 p. : PDF. ISBN 978-85-7979-241-0 1. Trevisan, João Silvério. 2. Literatura brasileira. 3. Cultura LGBTQIAPN+. 4. Cinema brasileiro. 5. Dramaturgia. I. Itaú Cultural. II. Fundação Itaú. III. Título. CDD 700.92 Bibliotecário Fernando Galante Silva CRB-8/10536
Todos os gêneros: mostra de artes e pluralidades Uma celebração à vida e à poética de João Silvério Trevisan terça 28 de julho a domingo 2 de agosto de 2026 Verifique a classificação indicativa no nosso site. Entrada gratuita. Itaú Cultural Avenida Paulista, 149, São Paulo/SP [estação Brigadeiro do metrô] @itaucultural