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Ocupação Laerte

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Expediente Conselho editorial Eduardo Saron Ana de Fátima Sousa Claudiney Ferreira Laerte Coutinho Rafael Coutinho Coordenação editorial Carlos Costa Produção editorial Lívia G. Hazarabedian Edição Roberta Dezan Revisão Polyana Lima Karina Hambra (terceirizada) Edição de arte Liane Iwahashi Projeto gráfico Megalodesign (terceirizado) Edição de imagem Rafael Coutinho Colaboraram nesta edição André Conti André Seiti Bianca Selofite Ebony Pinup Letícia Lanz Maria Clara Carneiro Maria Meskelis Paula Bertola Agradecimentos Graziela MarcGomes Leonardo Nogueira Algumas obras contidas neste catálogo não foram publicadas na íntegra.


itaú cultural

Cartunista e ilustradora, Laerte Coutinho é a homenageada da 20a edição da Ocupação. Sua produção intensa no campo do desenho e da narrativa, iniciada nos anos 1970, revela uma obra vasta, criativa e, sobretudo, crítica, bem-humorada e elegante na forma como desenvolve questões políticas, filosóficas e psicológicas de nossa sociedade. Seu trabalho é adaptado e difundido por diversas mídias e áreas de expressão e sua importância vai além do universo da arte, com ecos no movimento sindical e nas questões de gênero e preconceito. Rafael Coutinho, quadrinista, artista plástico e filho de Laerte, foi a escolha natural para a curadoria da mostra, e o cenógrafo Fred Teixeira é o responsável pela criação do espaço expositivo.

O resultado são cerca de 2 mil obras (em torno de 300 originais) e um panorama geral do labirinto que Laerte constrói. Os visitantes acessarão histórias das diversas fases de sua carreira e encontrarão no percurso personagens de sua galeria de criações, como os Piratas do Tietê, a Muchacha, os moradores de O Condomínio, Deus, Overman, Muriel (versão travestida de Hugo) e Los 3 Amigos (parceria com Angeli e Glauco). A Ocupação Laerte se desdobra na web (itaucultural.org.br/ocupacao) com informações, entrevistas e imagens de outros trabalhos da artista. Com esta Ocupação, o Itaú Cultural festeja mais de cinco anos de programa, que propicia diálogo entre a nova geração e criadores referenciais e reforça a atuação do instituto na preservação da memória da produção cultural brasileira.


Texto escrito por Laerte Coutinho em 1967.


No labirinto do Minotauro

por rafael coutinho, cura d or Designer, animador, artista plástico e quadrinista. Foi integrante do grupo Base-V. É também um dos proprietários da editora independente e comic shop Narval Comix. Esta é a quarta exposição sob sua curadoria.

Não é muito fácil resumir em um texto curatorial o que você está prestes a ver. O volume de trabalho produzido por (meu pai) Laerte reflete sua relação íntima de mais de 40 anos de vida, arte e desenho, assim como as transformações e os desdobramentos de muitos Laertes nos diferentes contextos do país. Minha visão nublada pelo envolvimento pessoal de filho dificulta ainda mais a compreensão distanciada do todo. Os trabalhos mais conhecidos pelo público são os Laertes pirata, travesti, paulista, humorista de tiras nos principais jornais do país; inteligente e bem-humorado nas entrevistas. Quem nasceu antes dos anos 1970 talvez se lembre com mais força dos Laertes da militância sindical, da revista Balão, do Laerte da Gazeta Mercantil, da revista Placar e das revistas de banca da editora Circo. Os mais atentos conhecem o Laerte roteirista de materiais para televisão, teatro e cinema. Os mais íntimos, o da música clássica, pianista, pai de três filhos; amoroso e parceiro que produziu materiais variados, cinéfilo e ávido leitor; Laerte inseguro, cheio de dúvidas sobre a profundidade e a importância de seu trabalho em formatos e intensidade variados. E o Laerte de dores e de perdas profundas, de amores, casamentos e divórcios, de conquistas pessoais e de explosões internas silenciosas, pouca gente conhece.


Há, sobretudo, desenhos, em variados formatos e acabamentos, nos quais são evidentes a desenvoltura e o prazer

Nas paredes está uma gama de temas e assuntos – ciência, cosmos, humor, sexo, história, morte, guerra e gatos. Há dias bons e ruins, fragilidade e agressão, o bom e o mau gosto, o gosto dos outros. Beethoven, Mozart, Henfil e Deus também.

Agora, pegue essa suposta linha cronológica e a embole como um emaranhado de relações, como um novelo de lã. Esse será seu guia no labirinto. Nas paredes haverá trabalhos escolhidos entre milhares. Cada caminho leva a uma compreensão do todo. Todos juntos não levam a lugar algum, porque devolvem as mesmas reflexões, a multiplicidade de Laertes e a sua própria natureza: sempre aberto a dúvidas, avaliando tudo com cautela e evitando armadilhas morais, preconceitos e maniqueísmos no julgamento do mundo.


Nesse labirinto que é a sua obra, existe uma criatura que ronda, tal como no mito do Minotauro. Ela pode ser entendida como inquietação ou angústia, um superego solto, uma entidade sem sexo que, acuada, ataca. Alguém que vive dentro do artista ou é parte dele. Exoesqueleto que o controla e o direciona. Pode ser o próprio Laerte, criatura entre nós. Ele, meu familiar pai, um monstro.

O objetivo desta mostra nunca foi a compreensão “total” do artista, tampouco desfazer esse novelo de lã. É uma edição ambiciosa dessa produção que mostra algo de que nunca tive dúvida: Laerte é vários e haverá outros.

do artista em fazê-los, a intimidade com pincel, lápis, caneta, tinta e papel. Saltam aos olhos o vocabulário visual, o traço autoral, o estilo, e como tudo isso se manifestou cedo.


folhateen Histórias de página única publicadas no caderno Folhateen, do jornal Folha de S.Paulo, no início dos anos 2000. Quase todos os originais (em nanquim sobre papel) passaram por algum tipo de tratamento digital, foram coloridos e montados posteriormente com textos e pedaços de desenhos.


do


“Existe uma diferença entre o trabalho do artista e o do moldureiro. O do moldureiro tem que ficar bom.” O texto é de uma tira de Laerte Coutinho, de um moldureiro debruçado sobre seu trabalho. A brincadeira não ilustra o fogo cruzado sob o qual escreve o quadrinista? A tira diária, ofício de Laerte, é suposto entretenimento: sujeita às restrições da língua dos quadrinhos e da língua do humor. Deve ficar “boa”, para descansar a cabeça. As tiras em quadrinhos estão fadadas a mecanismos que podem condenar seu autor a lesão por esforço repetitivo e seu leitor a um pensamento único. Sobretudo a certo humor que pressupõe o uso de caricaturas – “humor esquemático”, diz Laerte ao mexicano Juan Navarrete, ao comentar como sua geração se propôs a deixar uma estrutura humorística fechada em “tipos” em prol de um humor que faça pensar1. Navarrete pesquisa o humor gráfico do final do século passado no Brasil, na Argentina e no México.

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Cf. Lívia Brandão em O Globo on-line de 12 de novembro de 2010: “Rio Comicon: Laerte, Angeli, Ota e os Quadrinhos Autobiográficos”.

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Laerte talvez seja um de nossos autores mais conscientes desses mecanismos de poder que nos obrigam a contar sempre as mesmas histórias – preceitos de uma ideologia que se finge inexistente, como reflete uma lagartixa de uma série de tiras suas. Essa consciência – política – sempre guiou o seu trabalho, que ela usa “para investigar o mundo”2. Por meio do jogo com as fôrmas, as formas, a narrativa,


p or m ari a clara car n ei ro Doutoranda em teoria literária, com pesquisa sobre metalinguagem em histórias em quadrinhos. Faz parte do grupo Grena (Groupe de Recherche sur le Neuvième Art), da Sorbonne.

o desenho, as palavras, coloca-se em xeque a ordem das coisas, a aparente naturalidade das coisas. Encontrei Laerte ao vivo e em corde-rosa a primeira vez no lançamento do último livro da saga completa dos Piratas do Tietê – em três volumes: roxo, marrom e verde –, no final dos anos 2000. Rosa era seu tênis: daí fiquei com mania de olhar para os seus pés pelo puro prazer estético, para citar o seu Capitão. Já nesse período, os piratas haviam desaparecido – o espaço das tiras continuava com o mesmo nome, mas sem lobos (ou lobisomens) do mar. O sumiço deixou seus leitores saudosos, não apenas dos piratas, mas do Overman, dos gatos, do Fagundes, dos moradores do condomínio.Todos substituídos por desenhos de santinhos, janelas, poemas, ninhos de mafagafos, e só sobrava o Hugo, de minissaia.


Mas o insólito é que sempre esteve em sua obra. Um de seus primeiros personagens era um Leão semihumano, nascido da vontade dessa mescla entre o cotidiano e o fantástico. Seu estilo é de linhas firmes, bem definidas e contínuas. Linhas mais finas vão detalhar cenários, com a opção pela simplicidade e pela clareza. Das referências, o Popeye, de Segar; o Ken Parker, de Milazzo e Berardi; e os trabalhos de Quino, Watterson, Crumb, Tardi, Altan, Ziraldo (e por que não o pré-surrealismo de McCay, o experimentalismo de Doré). Da primeira geração em frente à TV, narrativas e imaginários televisivos são parte essencial de sua obra. Essas duas mídias bem populares, Laerte as costura com entrelinhas. Talvez os anos 1970 representem a era dourada do quadrinho nacional. Chegam à vida adulta os que liam gibi na infância e HQ na adolescência. Tempo de O Pasquim, Balão, Oboré e o quadrinho-arma. Talvez os anos 1980 sejam a era mais antropofágica, com Los 3 Amigos & cia. reinventando tudo em um sonho coletivo de um humor anárquico. É quando muitos de seus principais personagens surgem. Hoje, em tempos pós-modernos, seus novos personagens e temas ainda dialogam com esse passado. A vizinhança, como

Se o trabalho do moldureiro é enquadrar, o do artista é deformar, transbordar, dando trabalho ao moldureiro e ainda se implicando sobre o quadro.

Diz-se que o insólito tinha mandado embora toda a lógica de Laerte, de uns anos para cá. Eu até a ouvi dizer poema em vez de discurso, em uma premiação em que ela usava meias de bolinhas amarelas.

a de O Condomínio, reaparece num thriller em preto e branco,Vizinhos. Se antes os Palhaços Mudos tinham o humor silencioso como arma, Lola, a andorinha, cantarola nonsenses. No lançamento de Muchacha, perguntei a Laerte sobre tabu no humor brasileiro; diziam não haver aqui censura equivalente a de desenhar mamilos ali ou o profeta Alá. Laerte – de meia-calça fumê – respondeu que nosso problema não seria a interdição, mas a obrigação dos dizeres que reforça uma cultura que insulta os mais fracos para dar mais força aos mais fortes e tenta fechar pessoas em ideias pré-emolduradas.


Investigando o mundo por meio dos jogos com as línguas que domina, afinando engajamento político com lirismo, Laerte cria um quadrinho literário, em que o inesperado nos convida a pensar. “Quadrinho é até aqui. Daí pra frente é poesia.”

Se o trabalho do moldureiro é enquadrar, o do artista é deformar, transbordar, dando trabalho ao moldureiro e ainda se implicando sobre o quadro – não é por acaso que Hugo precedeu Laerte sobre sandálias de salto. Os personagens deram espaço a novas formas de trabalhar, novas formas de pensar a si, o outro e esse abismo entre ambos. E, muitas vezes, há palavras necessárias e bem pontuadas a ser ditas, de João Ferrador a Muriel, em um ensejo orgânico de lutar por direitos e mudanças.


piratas do tietê O universo de Piratas do Tietê confluiu grande parte da produção do autor nos anos 1980. Foi nome de sua revista autoral e da série de tiras que publicou na Folha de S.Paulo por mais de 20 anos, e dela surgiu material de tiras de humor, histórias de página, peças de teatro e um grande número de personagens que ganharam carreira solo pelas mãos de Laerte.


histórias curtas Publicadas entre 1990 e 2010 em diversas revistas, essas histórias estão fora do contexto da editora Circo. Os originais são desenhados em nanquim sobre papel e as versões coloridas são impressões de digitalizações das histórias, coloridas por Laerte.


A era de ouro dos quadrinhos brasileiros Os anos 1980 foram um marco na produção e no crescimento do mercado de quadrinhos no Brasil, alavancado principalmente pelo sucesso dos títulos da editora Circo. Nesse período, Laerte focou toda a sua atenção nas revistas, que demandavam muita energia por causa de sua periodicidade e de sua qualidade gráfica, e o humor paulista do trio Laerte/Glauco/Angeli se tornou a principal referência do país, norteando a produção nacional do meio durante mais de uma década.


Laerte surgiu no cenário transgênero do país no ápice da consagrada trajetória profissional. Artista respeitada pela criatividade, pela ética e pelo engajamento sociopolítico das tirinhas diárias, tornou-se rápida e inevitavelmente o alvo dos holofotes da mídia, desejosa de descobrir e de informar ao grande público as razões e os detalhes da mudança de gênero de uma pessoa de importância artística, cultural e sociopolítica. Foi assim que, habitualmente excluída e invisibilizada pelos canais formais de comunicação, a pessoa transgênera – como a própria condição transgênera – ganhou súbita notoriedade no Brasil. Contudo, da mesma forma que se multiplicou a publicidade em torno da nova embalagem de Laerte, vieram à tona o desconhecimento, a desinformação e o preconceito a respeito das identidades transgêneras. A maior parte da mídia não sabia classificar a nova Laerte. Jorraram definições, enquadramentos e classificações esdrúxulas e sem sentido. Tudo repleto de um discreto, porém ostensivo, repúdio machista a essa condição. Na confusa sopa conceitual em que Laerte foi mergulhada, rolaram ingredientes indigestos como “homem vestido de mulher”, “crossdresser”, “fetichista”, “gay afeminado” e “artista excêntrico”. Não faltou nem mesmo quem dissesse que ela perdera a razão. Apesar das impropriedades e desacertos em torno dessa identidade de gênero, Laerte é hoje reconhecida como um dos principais ícones do


pangêne ros

cosplayers

dragkings

genderfucker s

genderbenders

maridos femininos (África)

intersexuados

xanith (Oman)

travestis

vir gens dos Bálcã s

mahu (Polinésia)

hjira s

berdache

genderqueers

eunucos

muxes

andróginos

ladyboy (kathoey)

transexuais

crossdressers

newhalf

transformistas

mulher es masculinas

dragqueens

homens femininos

bigêneros

pós-gêneros

o guarda-chuva

transgênero


mundo transgênero no Brasil. Mas o que vem a ser transgênero? O indivíduo transgênero pode ser descrito como alguém cuja identidade de gênero apresenta algum tipo de discordância ou conflito com as normas de conduta socialmente aceitas e sancionadas para a categoria de gênero que lhe foi consignada ao nascer. O fenômeno do desvio social de gênero é conhecido como transgeneridade e é capaz de causar sérios transtornos à saúde física e mental das pessoas gênerodivergentes, cuja superação inclui a adoção de canais de expressão que lhes permitam elaborar e manifestar, pelo menos os aspectos mais conflituosos da sua transgeneridade. Em casos extremos, a eliminação do sofrimento psíquico das pessoas transgêneras poderá exigir a cirurgia de reaparelhamento genital. A transgeneridade é um fenômeno amplo, podendo apresentar uma imensa variedade de manifestações. Transgênero refere-se a todo tipo de pessoa envolvida em comportamentos e/ou atividades que transgridem as normas de conduta impostas pelo dispositivo binário de gênero. Uma lista relativamente modesta incluiria pelo menos as seguintes categorias de identidade: transexuais, travestis, crossdressers, homens femininos, mulheres masculinas, dragqueens, dragkings, transformistas (masculinos e femininos), andróginos, genderbenders, genderfuckers, intersexuados (hermafroditas), lésbicas masculinizadas, gays afeminados, homens com corpos de fêmea,

mulheres com corpos de macho e até mesmo homens e mulheres “normais” em todos os aspectos, exceto na discordância quanto às normas de gênero que lhes são impostas. O termo transgênero tanto expressa a incongruência da identidade de gênero com o sexo genital quanto tem o propósito de cobrir um amplo espectro de comportamentos considerados transgressivos, desde a curiosidade de experimentar roupas, calçados e adereços do outro gênero até a determinação de realizar mudanças físicas intensas e profundas, com uso de hormônios e cirurgias, a fim de se converter, inclusive fisicamente, em membro do sexo oposto. Diferentemente do que a ordem heteronormativa dispõe de maneira arbitrária, identidade de gênero – as identidades gênero-divergentes incluídas – não guarda nenhum tipo de relação imediata, muito menos exclusiva, com alguma orientação sexual específica. Mulheres não têm de gostar de homens nem homens têm de gostar de mulheres na hora de fazer sexo, como se estivessem fadados a isso por algum inexorável determinismo biológico. No Brasil, é feita uma confusão sistemática entre os termos sexo, gênero e orientação sexual. O termo sexo, também conhecido como sexo biológico ou genital, refere-se essencialmente à genitália que cada indivíduo traz ao nascer. Gênero diz respeito às expectativas sociais de desempenho que cada ser


humano deve atender tendo em vista o seu sexo genital. O gênero é uma construção social que varia intensamente de uma cultura para outra e de uma época para outra. Por definição, a nossa cultura, assim como toda a cultura ocidental, reconhece a existência de duas e apenas duas categorias de gênero: masculino e feminino ou homem e mulher. O comportamento transgênero é onipresente em toda a história da humanidade. Ele desempenhou papel importante nos rituais religiosos do antigo Oriente Médio e em outros lugares, inclusive na cultura indígena americana, em que pessoas transgêneras ocuparam (e ainda ocupam) posição de destaque como curandeiros-xamãs. Fortemente repelido em homens na sua versão judaico-cristã ocidental, foi mais facilmente aceito entre as mulheres, e a história fornece milhares de casos em que só se descobriu que certos homens eram do gênero feminino após a sua morte. Muitas dessas “mulheres vestidas de homens” se tornaram santas, como é o caso de Joana d’Arc, heroína da resistência francesa considerada herege pelas autoridades eclesiásticas da época e condenada à fogueira. O maior número de pessoas transgêneras FtM (female to male) no passado se deve ao fato dos notórios esforços das mulheres para conseguir status e liberdade numa sociedade regida por regras eminentemente masculinas, na qual a mulher não tinha direito a nada. Isso não quer dizer que não houve transgeneridade MtF (male to

female). Houve sim, e o travestismo masculino foi muitas vezes institucionalizado. Um bom exemplo é o palco, considerado não adequado a mulheres, o que contribuía para que os homens representassem papéis femininos até muito tempo depois de Shakespeare. A presença de homens travestidos de mulher nos palcos estendeu-se também à ópera. Até hoje a sociedade japonesa cultua o teatro kabuki, em que papéis femininos são representados por homens. Historicamente, têm sido registradas inúmeras culturas nas quais a diversidade de gênero é aceita de maneira absolutamente natural e as pessoas não precisam ficar confinadas a apenas duas categorias. As hjiras, recentemente elevadas oficialmente à categoria de terceiro gênero na Índia, os berdaches ou two-spirit people das tribos norte-americanas e os fa’afafine das ilhas Samoa são exemplos de sociedades nas quais o gênero não acompanha o sexo genital. Em muitas dessas culturas, outras categorias de gênero têm sido celebradas e veneradas, fazendo parte de uma ligação direta com os deuses. Diferentemente do que ocorre na cultura ocidental, pessoas que não se ajustam à categoria de gênero que lhes foi consignada ao nascer são consideradas gênero-divergentes, ou seja, transgressoras da ordem social ou transgêneras, em oposição às pessoas cisgêneras. Embora sejam dois conceitos distintos, na prática diária é quase absoluta a identidade entre sexo e gênero: todo


o mundo acha que alguém já nasce homem ou mulher, contradizendo a afirmação de Simone de Beauvoir de que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher.” Em virtude da naturalização do sexo como fonte das construções sociais relacionadas a gênero, é comum as pessoas tomarem uma coisa pela outra no seu dia a dia. Mas é sempre importante lembrar que sexo refere-se tão somente às diferenças genéticas, fisiológicas e anatômicas entre a genitália do macho e da fêmea da espécie humana, enquanto gênero é um dispositivo de controle social instituído com base em normas de conduta culturais, políticas, jurídicas etc., endereçadas específica e respectivamente a machos e fêmeas biológicos em cada sociedade e época. Em síntese, cada cultura possui suas próprias normas quanto à forma como as pessoas devem se comportar com base em seu sexo genital de nascimento. A despeito das inúmeras pesquisas na área da biologia que já provaram o contrário, nossa cultura, por exemplo, continua acreditando que a agressividade masculina deriva da genética do macho, quando, na verdade, o que se faz é treinar e incentivar os homens a ser mais agressivos que as mulheres desde a infância. Orientação sexual está relacionada ao desejo erótico-afetivo: com quem se gosta de namorar e/ou fazer sexo. Embora seja um conceito inteiramente distinto dos anteriormente descritos de sexo e gênero, na cultura ocidental a orientação sexual é tida como um atributo umbilicalmente atrelado ao genital e, naturalmente, ao gênero


sexo

orientação sexual

gênero

Genital, biológico, genético.

Físico, erótico/afetivo, emocional.

Social, política, histórica, cultural, religiosa.

natureza

x

Transgênero (gênero-divergente)

Macho, fêmea, intersexuado, nulo.

Heterossexual, homossexual, bissexual, assexual.

Cisgênero (gênero-conforme)

Homem e mulher ou masculino e feminino.

categorias


atribuído em razão da genitália. Em outras palavras, quem nasce macho, ou seja, com um pênis, é naturalmente classificado como homem e tem de ter atração erótico-afetiva por mulher. Quem nasce fêmea, isto é, com uma vagina, é naturalmente classificada como mulher e tem de ter atração erótico-afetiva por homem. Nenhuma outra possibilidade de combinação entre sexo, gênero e orientação sexual é plenamente aceita e legitimada, ainda que seja tolerada no mundo atual. Heteronormatividade é, portanto, um dispositivo totalitário e hegemônico resultante da aplicação das normas binárias de conduta de gênero existentes em nossa sociedade. Assim, podemos descrever sexo como aquilo que a pessoa traz entre as pernas, gênero como aquilo que traz entre as orelhas e orientação sexual como quem ela gosta de ter entre os braços. Quem transgride o dispositivo binário de gênero se torna obviamente gênero-divergente, sociodesviante. Por isso, a pessoa transgressora da conduta oficialmente estabelecida para o gênero em que foi classificada ao nascer se torna uma degenerada, palavra que significa literalmente “quem perdeu o gênero”. São muitas, imediatas e muito pesadas as sanções à pessoa cujo comportamento se desvia dos padrões oficiais. De maneira sutil ou ostensiva, ela passa a ser sistematicamente excluída do convívio com pessoas ditas normais, ou seja, as pessoas generadas (leia-se: obedientes, perfeitamente enquadradas e submissas ao dispositivo de gênero). Dependendo de como a sociedade

enxerga a natureza da sua transgressão, ela pode até passar a ser tratada como pervertida e depravada ou doente mental. Para transgressores de gênero, tudo que a sociedade reserva é o estigma, a marginalização, a exclusão, o limbo social. Quantas pessoas transgêneras são privadas de praticar os ofícios para os quais se prepararam a vida toda? Esta não pode mais estar engajada na força militar porque “se operou”. Este não pode exercer o trabalho de psicólogo porque o Conselho não lhe permite a modificação do nome de registro. E quant@s transgêneros não chegam a ter ofício porque são obrigad@s a deixar a escola para não ser massacrad@s por colegas transfóbicos em atos deploráveis de bullying, que acabam ficando por isso mesmo, uma vez que jamais são apurados pela direção da escola? Paralelamente a esses sofrimentos expostos, há uma infinidade de pessoas transgêneras que vivem trancadas em seus armários, totalmente invisibilizadas, em estado de permanente angústia e sofrimento psíquico. Sentem-se totalmente impotentes para aliviar suas tensões existenciais expressando livremente suas identidades transgêneras. Podemos dizer que são vítimas do medo que sentem de se transformar, elas próprias, nos personagens sofridos das histórias semelhantes que lhes foram narradas. O ganho de visibilidade com dignidade é uma conquista coletiva do mundo transgênero, que começa com cada um@ e termina com tod@s.


Infante-púberejuvenil Imagens de trabalhos realizados pelo artista, aproximadamente entre 1954 e 1962, em São Paulo, além de fotos da infância e da adolescência de Laerte. As obras apresentam técnicas variadas, como pastel, lápis de cor, grafite e o que aparecesse, em suportes igualmente variados.


Personagens Os personagens conduziram grande parte da produção de humor de Laerte até 2005, quando deixou de focar seu trabalho nessa vertente que o caracterizava até então. Aqui estão algumas amostras dessa produção desde o fim dos anos 1970, com obras publicadas em jornais, revistas e sites de todo o país.


por and ré conti Jornalista, tradutor e editor. Trabalha na editora Companhia das Letras com literatura brasileira e quadrinhos.

Alguns anos atrás, Laerte topou ilustrar o livro infantil de um amigo meu. Quando encontrei esse amigo, perguntei como estava andando o livro. Com aquele olhar comovente dos mamíferos, ele me disse: “Ontem Laerte quis saber o que eu estava achando dos desenhos. Laerte. Ele perguntou o que eu estava achando dos desenhos. Eu”. Entendo demais a sensação. Como editor, você se acostuma a conviver profissionalmente com autores que admira ou que tiveram importância na sua vida. É algo que faz parte do trabalho e, com o tempo, você também aprende a exercer certo sangue frio na hora de editar esses autores. Não estou sendo cínico e dizendo que é fácil estabelecer toda a distância do mundo, mas é perfeitamente possível se portar de forma civilizada e, sobretudo, não deixar algum tipo de reverência pela obra interferir na discussão sobre o livro. Assim eu pensava. Assim eu penso. Agora tente fazer o mesmo com Laerte. Tente travar um almoço de trabalho, discutir questões pontuais. Tente fazer sugestões. Tente responder friamente quando for questionado: o que você está achando?


E aí eu falei, com plena consciência de que o estava constrangendo de forma irremediável. Abri a boca para comentar um detalhe na capa do livro que estávamos bolando e saiu assim: não há, nos quadrinhos, nas artes plásticas e, no fim do dia, em qualquer arte narrativa, alguém que esteja fazendo algo próximo ao que você faz. Não há artista tão difícil de definir, uma obra que tenha feito tanto em tão pouco espaço. Uma capacidade natural, que de fora aparece como sem esforço, de mudar os próprios rumos, de abandonar qualquer fórmula de sucesso em prol de uma irrevogável vontade de fazer o que bem entende.

Para ser sincero, estou achando o seguinte: você é o Laerte e eu não sou. Nós dois viveremos muito bem e teremos uma excelente relação profissional se os mesmos limites que se aplicam normalmente ao trabalho se aplicarem a essa conversa.

não há, nos quadrinhos [...] em qualquer arte narrativa, alguém que esteja fazendo algo próximo ao que você faz.


Há artistas que se agarram a uma ideia boa durante toda a vida – pense em personagens como Garfield e Hagar –, ideias que Laerte tinha semanalmente e não hesitou em descartar. Há artistas que, compreensivelmente, se dão por satisfeitos quando operam uma revolução no meio em que trabalham – pense no que o próprio Laerte estava fazendo com os Piratas do Tietê nos anos 1980. É relativamente fácil para um artista fixar sua obra no auge e transformar esse auge na planície que vai explorar a vida inteira. Laerte é um artista sem auge. Não parece estar procurando planície alguma. Recusa o humor com a mesma facilidade que rimos de suas piadas. Recusa a metafísica com a mesma displicência com que nos força a decifrar seus enigmas existenciais. É, na mesma medida, arredio, doce, acessível, hermético, óbvio e obscuro; perpetuamente um passo adiante de si, como se estivesse tentando alcançar algo que ele mesmo teima em adiar.


Talvez eu não tenha dito isso tudo a ele. Talvez nem devesse. Talvez fosse mais fácil praticar o distanciamento técnico, afetivo; separar o que acho e sinto em relação a essa obra da prática concreta e objetiva do trabalho. Talvez algum dia isso tenha

sido possível. Lévi-Strauss falava de uma beleza que existe para além da sociedade, “na contemplação de um mineral mais bonito do que todas as nossas obras; no perfume, mais precioso do que os nossos livros, aspirado na corola de um lírio; ou no piscar de olhos cheio de paciência, de serenidade e de perdão recíproco, que um entendimento involuntário permite por vezes trocar com um gato”. A obra do Laerte me permite, todos os dias, esse entendimento involuntário. Ela está além da minha compreensão, mas me encara com paciência, serenidade e perdão recíproco. O mínimo que posso fazer é mandar o trabalho para o diabo. São curtos os nossos intervalos. É breve o nosso lazer. É bom contemplar adiante da necessidade objetiva um lugar sem planícies.

Uma tira de três ou quatro quadros que poderia se perder em meio ao ruído parece organizar o ruído, organizar a página [...] e cooptar o ambiente.

O crítico Rodrigo Naves certa vez definiu arte usando uma imagem que encontrou na correspondência entre Van Gogh e seu irmão Theo. A imagem falava de vento e moinhos; o artista como o moinho que pega algo que está no vento e gira em arte. O artista, portanto, como uma espécie de resistência física ao meio, resistência que vira matéria. Sempre me pareceu a definição mais próxima que se pode chegar para algo tão fugidio quanto a arte. Sempre me pareceu suficiente. O que dizer do artista cujo trabalho parece não oferecer resistência ao meio? Cujo trabalho se mistura ao meio, pertence a ele, é o meio. Não é um superlativo vazio, é algo que vejo de forma concreta no traço, nas cores, no que é dito e não é dito em suas histórias. Histórias que, digase, são impressas em papel-jornal, ladeadas por horóscopos, palavrascruzadas, sudoku. E mesmo assim não há resistência. Uma tira de três ou quatro quadros que poderia se perder em meio ao ruído parece organizar o ruído, organizar a página, extrapolar os limites das calhas e cooptar o ambiente. No limite, essa operação se estende ao infinito: uma obra que não converte vento em arte, mas que redefine o vento pela arte. As hélices fixas, o moinho girando anti-horário em torno e para além de si.


A perda, a ruptura E o experimentalismo : 2005 em diante Em 2005, Laerte perdeu seu filho Diogo em um acidente de carro. O período marca uma ruptura clara na carreira da artista, que depois de um mês sem produzir retoma o desenho por outra óptica, mais abrangente e experimental. Seu trabalho retoma procedimentos de sua época de estudante, carregado de um traço sessentista, lisérgico. O conteúdo migra para reflexões filosóficas e jogos de linguagem, e Laerte cria o blog O Manual do Minotauro, no qual publica até hoje.


As séries que originaram livros As tiras em formato quadrado deram a Laerte um novo espaço narrativo pouco explorado até então. Laertevisão é a reunião da série, publicada originalmente na Folha de S.Paulo, em que a autora revisita sua infância e juventude assistindo a programas de TV dos anos 1950 e 1960. Muchacha, também publicada de forma seriada pelo mesmo jornal, é uma multitrama complexa, com vários personagens, nos bastidores de filmagem de uma fictícia série de TV no Brasil dos anos 1950, o Capitão Tigre.


Visitação sábado 20 setembro a domingo 2 novembro 2014 terça a sexta das 9h às 20h [permanência até as 20h30] sábado, domingo e feriado das 11h às 20h piso térreo 14 saiba mais sobre esta e outras edições da Ocupação em itaucultural.org.br/ocupação

Programação Encontros com professores O projeto propõe ações de formação periódicas pensadas para promover discussões e diálogos entre o Itaú Cultural e profissionais e/ou estudantes de educação. O encontro de outubro traz a cartunista Laerte para uma discussão sobre sua produção, seus processos criativos e suas posições políticas, com o tema O que nos diz a obra de Laerte?.

Batalha de quadrinhos Neste evento o público é convidado a participar de uma disputa em que cada participante desafiará o outro através de desenhos elaborados a partir de temas que serão sorteados durante o jogo. sábado 25 outubro às 18h piso térreo 10 vagas

sábado 18 outubro às 9h

[inscrições com 30 min. de antecedência por ordem de chegada]

[duração aproximada 210 minutos]

sala vermelha 44 vagas [informações e inscrições pelo telefone (11) 2168 1876, a partir do dia 30 de setembro. De terça a sexta, das 9h às 20h]

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OCUPAÇÃO LAERTE Curadoria Rafael Coutinho Assistência de curadoria Carolina Guaycuru Expografia Fred Teixeira Assistência de expografia Gabriel Garcia Pesquisa Solange Santos Itaú Cultural Presidente Milú Villela Diretor-superintendente Eduardo Saron Superintendente administrativo Sergio M. Miyazaki Núcleo de Audiovisual e Literatura Gerência Claudiney Ferreira Coordenação Kety Fernandes Produção executiva Ricardo Tayra e Paula Bertola Edição de vídeos Karina Fogaça Núcleo de Comunicação e Relacionamento Gerência Ana de Fátima Sousa Produção editorial Lívia G. Hazarabedian Coordenação de texto Carlos Costa Edição de texto Roberta Dezan Edição do site Duanne Ribeiro Revisão de texto Polyana Lima e Rachel Reis (terceirizada) Coordenação de design Jader Rosa

Comunicação visual Liane Iwahashi Richner Allan Yoshiharu Arakaki Núcleo de Produção de Eventos Gerência Henrique Soares Coordenação Edvaldo Inácio Silva e Vinicius Ramos Produção Ana Francisca Salles Barros, Erica Pedrosa, Fernanda Carnaúba dos Santos e Wanderley Bispo Núcleo de Educação e Relacionamento Gerência Valéria Toloi Coordenação do atendimento educativo Samara Ferreira Educadores Ana Figueiredo (estagiária), Bianca Selofite, Claudia Malaco, Débora Fernandes, Fernanda Kunis (estagiária), Guilherme Ferreira, Isabela Quattrer (estagiária), Josiane Cavalcanti, Maria Meskelis, Paula Pedroso, Raphael Giannini, Samantha Nascimento (estagiária), Sylvia Sato e Thiago Borazanian Coordenação do atendimento ao público Tatiana Prado Supervisão Nathalie Bonome e Silvio Santis Agradecimentos Angeli, Attiliano Corrêa, Beatriz Veniss, Claudia Priscilla, Dani Baptista e Gualberto Costa (revista Balão), Heinar Maracy, Hemeroteca (Biblioteca Mario de Andrade), Hugo Abud (Gibiteca Henfil Centro Cultural São Paulo), Ipojucã Vilas Boas, Marcelo Alencar, Paulinho Caruso, Pedro Marques, Sérgio Gomes (Oboré) e Toninho Mendes


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entrada franca /itaucultural itaucultural.org.br fone 11 2168 1777 atendimento @itaucultural.org.br avenida paulista 149 são paulo sp 01311 000 [estação brigadeiro do metrô] Alvará de Funcionamento de Local de Reunião - Processo: 2012.0.267.202 - Lotação: 742 pessoas Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) - Número 121335 - Vencimento: 01/09/2017


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