Coordenação editorial André Furtado, Carla Chagas e Kety Fernandes Nassar
Conselho editorial Galiana Brasil, Letícia Santos, Natalia Souza, Roberta Roque e Sidney Almeida
Edição de texto Duanne Ribeiro e Heloísa Iaconis
Produção editorial Pamela Rocha Camargo e Pedro Soares (estagiário)
Supervisão de revisão de texto Tatiane Ivo
Revisão de texto Karina Hambra, Marina Nicoli Garcia e Rachel Reis (terceirizadas)
Projeto gráfico Yoshiharu Arakaki
Produção gráfica Lilia Góes (terceirizada)
Foto da capa André Seiti
Ilustrações da capa e da contracapa Yoshiharu Arakaki
Fotos do miolo Acervo Ruth Rocha, André Seiti e Letícia Vieira
Tratamento de fotos Humberto Pimentel (terceirizad0)
Ilustrações do miolo Caco Galhardo (convidado) e Yoshiharu Arakaki
Colaboração Ana Maria Machado, Lenice Bueno, Maria Zilda da Cunha, Pedro Bandeira e Sonia Rosa
São Paulo, 2026
ilustração: Caco Galhardo
Sumário
Editorial
Em louvor de Ruth Rocha por Ana Maria Machado
Ruth Rocha e a construção de uma literatura infantil crítica, estética e emancipadora por Maria Zilda da Cunha
Ruth Rocha e a literatura das palavras vivas e acesas por Sonia Rosa
Um tipo muito especial de ocupação por Lenice Bueno
Meus confetes para Ruth Rocha por Pedro Bandeira
Ficha técnica
ilustração: Caco Galhardo
Editorial
Conhece Nicolau? Aquele que tinha uma ideia? E Marcelo, sabe dele? O menino dado a perguntas e invenções de nomes? Pois então: estas páginas carregam as essências desses dois, uma reunião de curiosidades e compreensões (que são também louvores, vivas e confetes) em torno da autora que forma um Brasil leitor. Estamos falando de Ruth Rocha, escritora cujo respeito e amor enormes por crianças e jovens, somados ao talento com nossa língua portuguesa, resultaram em mais de duas centenas de livros e um rico universo de personagens – Alvinho e o cachorro Wenceslau, Miguel e Pedro, Gabriela e Teresinha, Catapimba e Armandinho... E não esqueça de Nicolau e Marcelo.
Essa obra – tão vasta quanto diversa (da prosa à poesia, tratando de rabos presos, medos, gnomos e macacos) – é o objeto celebrado nesta publicação, parte da Ocupação Ruth Rocha (a 73ª edição do projeto), mostra aberta ao público de 9 de maio a 2 de agosto de 2026, no Itaú Cultural (IC).
Nas folhas a seguir, você encontra um ensaio assinado por Maria Zilda da Cunha, que destaca as qualidades que fazem da produção rutheana um marco da literatura brasileira infantojuvenil.
Já Lenice Bueno põe em primeiro plano as palavras da própria Ruth, construindo uma seleção de trechos que deixam explícitos os recursos utilizados por nossa homenageada (recriação de clássicos, humor e conversas com os mais novos sobre os seus sentimentos).
Por aqui, veja só, há ainda colaborações de três escritores que, assim como a “menina-biblioteca” nascida em 1931, entendem bem do ofício de bolar e elaborar narrativas para as infâncias. Sonia Rosa costura as várias Sonias – aluna, leitora, professora e artista – para dialogar com os livros e a vida da inventora do reizinho mandão. E Ana Maria Machado
e Pedro Bandeira, amigos de Ruth de longa data e de longas histórias, compartilham memórias que têm com nossa autora-guia – com direito a noites cheias de jazz e um “eu te amo” nos corredores da editora Abril – e convocam nossa atenção para o brilhantismo do estilo ruthrocheano. Sem tatibitates ou supérfluos.
E como, nas obras de Ruth, palavras, imagens e traços andam unidos, esta publicação não poderia percorrer um caminho diferente: entre os textos, você se depara com fotos de várias épocas da vida nonagenária da mestra, envolvidas pelo uso da colagem (técnica, aliás, que Dona Ruth adora!). Contamos também com os desenhos de Caco Galhardo, ilustrador que tem trabalhos notáveis com nossa escritora (A lebre e a tartaruga, de 2025, por exemplo). Caco chama uma turma boa para esta festa, cabendo a você – ou sua mãe, seu pai, sua filha, seu filho, seus colegas e quem mais quiser chegar – a tarefa de colorir esse pessoal todo. Ó: sente-se em um sentador, tome um copo de suco de vaca e comece a pintar.
No fundo, no fundo, a intenção deste pequeno almanaque é ser um material capaz de atrair crianças e adultos, convidando gerações e mais gerações a ler e reler Ruth Rocha – sorrindo, pensando e se divertindo com ela. E, antes de virar a página, lembre-se: essa experiência se estende para o on-line. Acesse o site itaucultural.org.br/ocupacao e continue conhecendo o mundo de Ruth por meio de outros conteúdos, como entrevistas em vídeo exclusivas. O que não faltam são maneiras de ficarmos pertinho daquela que nos fez (e faz) gente dos livros.
Itaú Cultural
foto: André Seiti/Itaú Cultural
ilustração: Caco Galhardo
Em louvor de Ruth Rocha
por Ana Maria Machado
Sou a primeira de nove irmãos e sempre quis ter uma irmã mais velha. Então, conheci Ruth Rocha, e meu sonho virou realidade. Esse encontro aconteceu quando eu estava noiva de Álvaro, irmão dela. Ruth virou tão minha amiga que senti que estava ganhando a irmã que me faltava. Isso foi no meio da década de 1960.
Essa cunhada que virou minha irmã foi um presente precioso que a vida me deu. E eu valorizei isso desde o primeiro momento. Tínhamos afinidade de gostos, sintonizávamos na mesma onda mental, compartíamos os mesmos valores morais. É impossível dizer como a sabedoria e o bom humor de Ruth ajudaram minha vida naqueles primeiros anos de recém-casada, em São Paulo. Em todos os âmbitos da mudança que eu estava vivendo, longe da minha família, dos meus amigos, da cidade em que sempre circulara e à qual estava habituada.
Com Ruth, aprendi preciosidades domésticas – tipo fazer flores de papel crepom para nossas casas algo hippies, costurar cortinas, bordar lençóis de bebê... Incluindo delícias na cozinha, entre as quais tenho de destacar um alucinante frango ao forno que leva 50 dentes de alho!
Com Ruth, eu me firmei para adquirir segurança nesse primeiro momento de sair do ninho familiar onde me criara, deixando o aconchego do meu Rio de Janeiro que amava, entre as amigas de sempre e a praia que era a extensão de casa. O apoio dela em minhas tomadas de decisões sozinha foi me dando segurança e me imbuindo de certa firmeza para fazer as coisas à minha moda, como eu queria,
tomando atitudes que nem sempre eram as que se esperavam de mim. Ruth me entendia e me apoiava mesmo em coisas que hoje parecem ridículas, mas que causavam uma estranheza inconcebível na conservadora São Paulo de 1956, como usar biquíni ou minissaia em plena gravidez. Ela também foi transgressora e inovadora ao seu modo, como atestam os retratos do dia de seu casamento. Seu traje solene para a cerimônia não tinha cauda longa e grinalda, como então se exigia. Ela estava lançando moda, de vestido curto e chapéu. Elegantérrima ao lado do sempre tão querido Eduardo, destinados a se transformar, futuramente, numa dupla de tios adorados pelos meus filhos Rodrigo e Pedro, ligados para sempre à prima Mariana, maravilhosa filha do casal.
O fato é que me tornei amiga inseparável de Ruth Rocha. Incorporei os amigos dela em minha nova existência paulistana. Viajávamos nos fins de semana ou nos reuníamos em intermináveis conversas num grupo animado, interessante, composto de gente inteligente e engraçada, capaz de despertar curiosidades novas e aprofundar admirações antigas, da pintura à arquitetura, dos livros aos filmes, da música e do teatro à economia e à política. E eram tempos culturalmente efervescentes no Brasil. Com ela, cantei o fino da bossa, acompanhei com curiosidade a Jovem Guarda, vibrei com o nascente Tropicalismo. E torcemos animadamente nos festivais da TV Record, que nos maravilharam com a confirmação dos meus já conhecidos Nara Leão e Paulinho da Viola, ao mesmo tempo que nos revelavam e faziam descobrir ou confirmar tantos novos talentos, como Chico Buarque, Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes.
Com Ruth, também troquei preciosas dicas de leitura. Ambas vínhamos de famílias leitoras, cercadas de livros e histórias desde crianças. Então, nós nos estimulávamos mutuamente, com palpites, comentários e sugestões, empréstimos de livros, explorações de estantes, discordâncias e descobertas. Nesse processo, ouvi de Ruth uma frase sábia que nunca me ocorrera e que aprendi para sempre: “Mas ainda não leu este? Que bom! Vai ter o prazer de descobrir...”.
Ruth e Eduardo Rocha em sua cerimônia de casamento, em São Paulo, 1956 | foto: Acervo Ruth Rocha
Nessa época, durante um tempo, ela teve uma lojinha de artesanato, a Sarandi, onde garimpei muitas caixinhas e objetos lindos que enfeitaram minha casa pelos anos afora. Além disso, trabalhávamos juntas no Colégio Rio Branco. Ela como orientadora educacional, eu como professora. No convívio, tecemos uma fraternidade, que se manteve mesmo depois que deixamos de ser cunhadas formalmente.
Para a cultura brasileira, porém, o que importa é outra coisa: na revista Recreio, descobrimo-nos escritoras.
Seguimos pela vida com as nossas carreiras paralelas, cada uma podendo ser para a outra uma crítica exigente e carinhosa. Corremos o Brasil e o exterior visitando colégios, participando de debates em universidades, tomando parte em feiras de livros. Posso atestar que ela passou brilhantemente por essa prova. Viajar junto com alguém é uma das coisas mais difíceis do mundo, mas Ruth é uma companheira perfeita! Adoramos conversar, ver vitrines, jantar e ficar de papo, cantarolar Cartola, Chico e Cole Porter, ou só passar um domingo preguiçando entre os jornais, sem muita conversa. Ruth tem esta qualidade rara: respeitar meus silêncios e não invadir meu espaço.
Hoje, na maturidade, eu sei que existe uma preciosa linguagem feminina de transmissão de sabedoria e amor à vida. E tenho consciência de que, para mim, Ruth foi um dos elos mais importantes e generosos nessa corrente, com sua ética rigorosa, sua sensibilidade apurada, seu senso de humor, sua inteligência brilhante, sua coragem, sua independência modelar, sua retidão. Prêmio Nobel de irmã mais velha!
Contudo, não posso encerrar este depoimento sem me deter com mais vagar para falar de Ruth Rocha escritora. Fomos construindo nossas carreiras paralelamente. Já foi muito contado, mas repito: em algum ponto no final de 1968, a editora Abril resolveu fazer uma revista infantil, a Recreio. Com textos corridos, não quadrinhos. E com autores que nunca tivessem escrito para crianças. A proposta consistia em evitar (segundo a editora Sonia Robatto) qualquer resquício de nhe-nhe-nhem ou tatibitate na linguagem. Selecionados por critérios não muito ortodoxos, alguns futuros autores foram
Ruth e Ana Maria Machado na livraria Capitu, em São Paulo, 1982 | foto: Acervo Ruth Rocha
convidados a experimentar um exercício nessa atividade dificílima. Entre eles, a então socióloga e orientadora educacional Ruth Rocha, o então historiador Joel Rufino dos Santos, e eu, então professora. A revista fez muito sucesso, firmou-se como um celeiro de novos autores e, em 1976, nós três publicávamos nossas obras, pela própria Abril, em livros de coleções especiais, inicialmente vendidas em bancas de jornal.
Como assinalam os especialistas, a literatura infantil só se implanta quando passa por um processo de massificação (geralmente feito nas escolas), que a torna conhecida do grande público e assegura sua chegada ao pequeno leitor e sua permanência. Monteiro Lobato, por exemplo, conquistou isso graças à sua atividade editorial fecunda e seus dotes de vendedor e marqueteiro, tomando carona nos almanaques promocionais de remédios e conseguindo multiplicar pontos de venda de livros por farmácias, armazéns e empórios do interior.
Já o chamado boom da literatura infantil brasileira foi beneficiado pela confluência de dois caminhos. O primeiro era a banca de jornal, que distribuía as revistas da Abril (e, em menor medida, da Bloch, com a efêmera Bloquinho, que não durou muito, mas era toda feita por Sonia Robatto e Ruth Rocha, que assim aprendeu a ser editora). O segundo? Os colégios, onde os professores descobriam esses novos autores e passavam a recomendá-los e adotá-los com entusiasmo, desde o seu início, quando ainda eram impressos apenas em revistas (e, por isso, vendiam tanto). É que, felizmente, ainda era o tempo do mimeógrafo, e não havia a cópia xerox. Se houvesse esse tipo de pirataria institucionalizada (incluindo a apoteose, nesse campo, que o futuro traria com os downloads gratuitos pelas redes sociais afora), com toda certeza a história da literatura infantil brasileira teria sido outra. Como não havia, quem queria ler comprava as revistas, o que levou os editores a perceber que existia um público ávido, ansioso para ter acesso àquele gênero e àqueles autores. A difusão em livro só veio mais tarde, como exigência do próprio mercado, louco para poder guardar por mais tempo suas histórias favoritas, antes consumidas apenas nos semanários.
Tudo isso já tem sido suficientemente enfatizado quando se recorda esse processo. Mas eu quero chamar a atenção para o papel específico e crucial de Ruth Rocha em toda essa evolução histórica e cultural. Coisa de que pouco se fala, geralmente. Nunca vi darem-lhe o devido crédito por essa contribuição fundamental. Assim, faço questão de registrar.
Por que Recreio entrou com tanta força nos colégios? É claro que as histórias eram boas, rigorosamente selecionadas e editadas com capricho. Mas cada página tinha também o equivalente a uma cobertura de chocolate com cereja no alto do sundae: uma tira vertical externa ao texto, formando uma coluna dele separada por um fio, que trazia atividades em torno do que era narrado. Era preciso ler as histórias para fazer os jogos e brincadeiras. E eram divertidíssimos. Além de ensinar um monte de coisas, estavam perfeitamente adequados a tudo o que os mais modernos conceitos de educação aconselhavam. E quem concebia tudo isso? Ela mesma, Ruth Rocha, orientadora pedagógica.
Daí o caminho natural na carreira dela acabou sendo o de ir trabalhar na própria editora Abril, em vez de ficar em casa inventando brincadeira e história e mandando para a revista. E como as ideias dela eram ótimas, Ruth foi sendo cada vez mais ouvida na chamada editoria de infantis nãoDisney. Até saiu de lá por um tempo, requisitada pela concorrência, para fazer a Bloquinho, da editora Bloch. Porém, pouco depois, foi chamada de volta à Abril, como assistente de redação, e, em menos de um ano, era redatora-chefe do setor. Foi mandada pela empresa para fazer um curso de editoração nos Estados Unidos, aprendeu a editar livros e voltou editora graduada e consagrada – e não apenas da revista Recreio. Virou alta executiva, chefiava 42 pessoas diretamente. Não só foi responsável pela publicação de algumas das mais bonitas coleções de livros infantis daquele tempo (como a Conte um Conto e a Beija-Flor, de 50 títulos cada uma) como esteve por trás de grande parte da época de ouro dos fascículos da Abril. Nessa segunda fase da Recreio, Ruth ampliou o escrete de craques e tratou de buscar novos autores, revelando, para a literatura infantil, Sylvia Orthof e Marina Colasanti, entre outros.
Ruth na editora Abril, 1970 | foto: Acervo Ruth Rocha
Aí veio uma crise na empresa, Ruth teve que demitir muita gente, ficou infeliz. Foi a um congresso de escritores em Florianópolis e constatou: “Este é o meu povo”. Voltou, escreveu A menina que aprendeu a voar e pediu demissão.
Já tinha feito um bocado pelos livros infantis. Foi ser apenas escritora.
Apenas? A palavra não é adequada. Com Ruth, nada é apenas, como seus livros não são livrinhos. Com ela, nada é diminutivo, nem no estilo, nem no conteúdo.
Como escritora, Ruth Rocha publicou uma quantidade enorme de livros, foi traduzida para dezenas de línguas, vendeu milhões de exemplares. Ganhou incontáveis prêmios, entre eles o da Academia Brasileira de Letras (ABL), uma porção de Jabutis e uma preciosa indicação para o internacional Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantil, em que ela foi finalista e teria muita chance de ganhar numa rodada seguinte (no entanto, jamais foi reapresentada pelo Brasil). Foi eleita para a Academia Paulista de Letras (APL) e escolhida “Personalidade literária” pelo Prêmio Jabuti. Teve livro apadrinhado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e lançado lá na sede, em Nova York. Recebeu a ordem do mérito cultural, a antiga ordem de Santiago, cujas origens remontam ao Rei Afonso VII de Castela, a única condecoração, no Brasil e em Portugal, voltada exclusivamente para a valorização da cultura. Teve obras adaptadas para teatro, televisão, discos e CDs. Deu nome a bibliotecas escolares e clubes de leitores, estes fundados por crianças, em bairros humildes de nossas cidades. E, sobretudo, passou a ser amada pelos leitores jovens deste país, que sabem de cor e salteado seu Marcelo, marmelo, martelo, que se emocionaram na adolescência com Pra que serve? ou De repente dá certo e que se deslumbraram, ainda bem pequenos, com Nicolau tinha uma ideia ou Palavras, muitas palavras...
Mais que isso, seus leitores de todas as idades (crianças, professores e pais que leem para os filhos) aprendem com ela que é preciso viver de olhos abertos, porque nunca se sabe o que podemos encontrar pelos caminhos da vida, tão cheios de percalços a nos exigir atenção. É que há histórias de rabos presos, reizinhos mandões, reis que não
sabem de nada e idiotas sentados, cada qual no seu barril. Ou seja, por via das dúvidas, é sempre melhor não beijar sapos e não se deixar enganar, ficando de olho em promessas mirabolantes e irracionais.
Com rara dignidade e consciência profissional, Ruth Rocha teve um papel fundamental para consolidar o prestígio e garantir o respeito devido aos escritores de literatura infantil. Nunca cedeu a pressões nem chantagens emocionais paternalistas. Nunca se deixou enrolar pela sedução de elogios enganadores, que, havia anos, insistiam no vergonhoso costume de disfarçar de honorária a reles exploração do fruto do esforço alheio. Esse era um vício histórico entre nós, como já assinalava Sérgio Buarque de Holanda ao lembrar nossa aversão às virtudes econômicas e a confusão de se buscar prestígio nas letras para escapar da pecha de estar dedicado a trabalhos considerados vis. A rara firmeza de Ruth na defesa de remuneração condigna para o trabalho intelectual pode ter-lhe granjeado incompreensões e alguns desafetos, mas ela nunca cedeu um milímetro nessa área também, nem se deixou enredar por falsos argumentos sedutores.
O resultado dessa firmeza foi nítido. Tenho imenso orgulho de termos sido companheiras nessa luta difícil, mas hoje plenamente vitoriosa, a tal ponto que as novas gerações que chegam aos férteis campos da nossa literatura infantil nem imaginam que, há pouco tempo, era tudo tão diferente.
Conseguimos romper a prática tradicional de pagamentos irrisórios aos autores de livros infantis, passando a exigir os mesmos percentuais que recebem os autores de obras para adultos (também adiantamento e contrato com prazo para acabar). Processamos (e sempre ganhamos) alguns editores de livros didáticos que incluíam trechos nossos sem remuneração nem consentimento – e, muitas vezes, com profundas alterações e fora do contexto. Convencemos vários editores a deixar para trás a norma que dizia que livro infantil de texto bom se vende sozinho, nem precisa de ilustração colorida, e que a qualidade gráfica só faz diferença mesmo quando o livro é fraquinho...
Aliás, convém lembrar que, nesse aspecto da apresentação visual, como raros escritores, por sua experiência na Abril, Ruth Rocha foi uma atenta descobridora de ilustradores, incentivadora de designers e deu uma contribuição inestimável ao desenvolvimento do livro infantil de qualidade neste país. Com seu profundo conhecimento das diversas etapas da produção de um livro para crianças e do mercado específico em que o setor se movimenta, Ruth ajudou a consolidar uma característica que Ziraldo sempre fez questão de apontar como sendo um marco do mundo editorial brasileiro, responsável pela originalidade de nossa produção e pela extraordinária acolhida crítica que temos no exterior: é que fazemos livros infantis de autor, e não de encomenda (daqueles solicitados em minuciosa receita pelo editor após pesquisa mercadológica), como é a regra geral na grande maioria dos outros países. Com tudo isso, acabamos vencendo preconceitos e ajudando a derrubar as muralhas do nicho. Após um tempo, os autores brasileiros de livros para crianças passaram a ser incluídos, em pé de igualdade, em todo tipo de representação institucional de escritores, de feiras e bienais a congressos e diretorias de órgãos de classe. Esse tem sido outro aspecto importante da profissionalização, em que o Brasil vem sendo absolutamente pioneiro. E não ficou só nisso: fizemos questão de romper com uma praxe tradicional, aparentemente simpática, mas discriminatória: solicitamos que as fichas catalográficas em cada livro passassem a tratar as mulheres da mesma forma que os homens e incluíssem nossa data de nascimento. A nos situar no tempo.
Ainda dá para alguém querer pensar nela como apenas escritora? Ruth? E dá para esquecer suas temporadas como cantora de jazz na noite paulista, deliciando as plateias do Piu-Piu e do 2001 com standards dos anos 1940 e 1950? E sua participação na televisão paulista, como debatedora permanente em um programa semanal de política e cultura por muitos anos?
Mas é que, diante da escritora, cessa tudo. Porque suas histórias são inesquecíveis. Porque o humor e a linguagem inconfundível de Ruth Rocha, sempre a serviço de uma inteligência aguda e estimulante que provoca o leitor a pensar, são um presente para cada um de nós, em qualquer idade.
1. Essa análise de Marisa Lajolo aparece na matéria intitulada “Independência ou morte”, publicada na revista Pesquisa Fapesp em 2006. Disponível em: revistapesquisa.fapesp. br/independencia-ou-morte. Acesso em: 9 abr. 2026.
No entanto, apesar disso, o fato de estar tão ligada a seu tempo nunca fez de Ruth Rocha uma panfletária, nem uma autora que inventa uma história apenas para disfarçar mensagens ou palavras de ordem, vício tão comum em nossos dias e tão tradicional da literatura infantil, em sua mistura de arte com didática a serviço de maniqueísmos rasteiros. O diálogo da autora com a realidade é vivo, inteligente e sutil. Coisa de leitora requintada. E de autora que se apoia num estilo em que poesia e humor convivem à vontade.
Dessas reviravoltas operadas pelo humor na obra de Ruth, resulta um efeito que a agudeza crítica de Marisa Lajolo assinala com grande acuidade: trata-se de uma escritora que traz a realidade de seu tempo para dentro da obra e, depois de deixar o leitor sorrindo, devolve a ele essa realidade. Mas, na operação de rir do narrado, o leitor já está crítico e lúcido. Transformado pela leitura divertida¹.
Esse processo é potencializado pela impressionante economia que Ruth Rocha tem no uso da linguagem. Logo à primeira vista, parece colada na fala cotidiana, mas dela se afasta pela invenção literária, gestada por muita leitura e fecundada pelo ludismo verbal característico do linguajar popular ou do registro familiar. Com esse procedimento, Ruth chega ao sumo da linguagem narrativa, densa e tecida em várias camadas de alusões, eliminado todo o supérfluo.
Por tudo isso e muito mais (que nem dá para resumir), ela se consagra como uma das maiores escritoras do Brasil. Para qualquer idade. Sem restrições como “apenas” e sem “infantil”. E se consolida, inegavelmente, como uma de nossas maiores intelectuais, com uma contribuição à cultura brasileira que não pode ser ignorada nem esquecida – ainda que não se traduza necessariamente em cliques ou número de seguidores nas redes sociais. Merece todas as honras, sempre. E me alegro em poder me juntar a um coro variado agora, a lhe cantar louvores.
Ana Maria Machado é escritora, jornalista, professora e tradutora. Reconhecida por sua contribuição no campo da literatura para as infâncias e juventudes, compõe, em suas obras, um espaço ficcional no qual elementos míticos misturam-se com fatos sociais, políticos e culturais de seu tempo – por exemplo, o direito de escolha, a situação da mulher e os novos modelos de organização familiar. Em 2000, Ana ganhou o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infantojuvenil, e, três anos depois, passou a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL).
Ruth em 1978 | fotos: Acervo Ruth Rocha
Ruth na editora Abril, 1972 | fotos: Acervo Ruth Rocha
Ruth em sua biblioteca particular, 2026 | foto: André Seiti/Itaú Cultural
Ana Maria Machado, Ruth e Esther, sua mãe, déc. 1980 | foto: Acervo Ruth Rocha
Ruth na editora Abril, 1970 | foto: Acervo Ruth Rocha
Ruth nos anos 1950 | foto: Acervo Ruth Rocha
Ruth e Eduardo Rocha em São Paulo, 1953 | foto: Acervo Ruth Rocha
Mariana e seus pais, Ruth e Eduardo, 1989 | foto: Acervo Ruth Rocha
Ruth, Eduardo e os netos Miguel e Pedro Colzani, 2000 | foto: Acervo Ruth Rocha
ilustração: Caco Galhardo
Ruth Rocha e a construção de uma literatura infantil crítica, estética e emancipadora
por Maria Zilda da Cunha
Hoje sou eu que conto histórias. Para todas as crianças: as que gostam de contos clássicos, e também aquelas, como minha filha, que gostava de histórias do cinzeiro, da mesa, da lua. Foi a partir de uma pergunta feita por ela que eu escrevi “Romeu e Julieta”, meu primeiro conto publicado na revista Recreio. E desde então não parei mais. Deixei que a profissão de escritora me escolhesse, e fui inventando essa profissão.
(Ruth Rocha)
Um começo de conversa
A literatura infantil brasileira passou, ao longo do século XX, por transformações profundas, que refletiram mudanças sociais, políticas e culturais mais amplas. Nesse cenário, surgiram nomes que vieram a alcançar significativa relevância no âmbito da produção para crianças e jovens, tais como Ziraldo, Ana Maria Machado, Sérgio Capparelli, Luiz Puntel, Elias José, Eva Furnari, Sylvia Orthof, Wander Piroli, José Carlos Marinho, Mary e Eliardo França e Angela-Lago, para citar alguns; entre eles, tem grande destaque a figura de Ruth Rocha.
1. Essas informações podem ser encontradas no verbete “Literatura infantil e juvenil” da Enciclopédia Itaú Cultural. Disponível em: enciclopedia. itaucultural.org.br/ termos/80210-literaturainfantil-e-juvenil. Acesso em: 6 fev. 2026.
Ruth Machado Lousada Rocha nasceu em 1931, em São Paulo, capital. Consagrou-se como escritora e tradutora, com mais de 200 títulos publicados e traduzidos para 25 idiomas1. Com essa vasta e diversificada obra, ocupa a cadeira 38 da Academia Paulista de Letras (APL), tendo se tornado uma das principais referências da literatura infantil brasileira, sobretudo pela percepção acurada no diálogo com os jovens leitores, pela sofisticação temática – que se tece entre o humor e a crítica –, pelo compromisso ético com o leitor infantil e pela consistência de uma estética singular. Sua escrita assume função ora mais literária, ora mais recreativa; entretanto, reveste-se, sobretudo, de um papel formativo, crítico e, muitas vezes, contestador. Sem dúvida, trata-se de uma figura que contribuiu, de forma contundente, para a formação de uma geração de leitores consciente, participativa e autônoma.
Desde os anos 1950, Ruth Rocha já exercia diversas atividades no âmbito da educação e no setor editorial. Foi orientadora educacional, redatora e produtora de revistas infantis, como a Recreio, lançada em maio de 1969. Essa revista constituía um espaço de leitura acessível e de boa qualidade, apresentando textos que eram inteligentes, inovadores e lúdicos e que vieram a interferir qualitativamente na prática leitora.
A obra de Ruth constitui-se como uma importante chave de leitura da cultura e da sociedade brasileiras, principalmente no âmbito dos olhares para as infâncias e juventudes nos contextos da segunda metade do século XX e desta primeira metade do século XXI. Aos 95 anos de idade, a autora continua produtiva e com planos de novas publicações, seja em material impresso, seja em mídias digitais.
A inventora de Marcelo, marmelo, martelo é parte de uma geração de autores que marcaram, nas décadas de 1970 e 1980, um período em que a literatura infantil e juvenil brasileira passava por importantes transformações. Entre os anos de 1975 e 1978, ocorreu uma explosão no número de publicações destinadas ao público infantil: 189 títulos foram publicados – desse total, 50,4% eram traduções, e 46,6%, textos nacionais.
2. Marca que podemos conferir sobretudo depois da publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), no final dos anos 1990.
3. Sou testemunha desse período, em razão de ter trabalhado com seleção de obras literárias na Secretaria da Educação e ter sido designada para acompanhar a missão no Banco Mundial.
[Essa] produção maciça de obras para crianças insere-se num contexto social, político e econômico que favorece o modo de produção bastante moderno e condizente com a etapa do capitalismo que os anos 60 inauguram no Brasil (Zilberman; Lajolo, 1985, p. 125).
Se, por um lado, a expansão da produção voltada para tal público deslocou a intenção estritamente pedagógica da literatura para os diálogos que ela estabelece com as artes visuais, de outro, houve ampla multiplicação e diversidade² desse artefato, do que decorreu uma indistinção de obras informativas e paradidáticas a se confundir com literatura. Mas é fato que, no território do literário para crianças e jovens, ganhou notoriedade a inventividade que caracterizava alguns escritores e ilustradores. Essa produção incorporou-se, de forma definitiva, ao mercado editorial, passando a contar com o mecenatismo do Estado, comprador e distribuidor de grandes tiragens para compor acervos de escolas e bibliotecas de todo o Brasil³ – conjuntura na qual Ruth se afirmou com sua produção inovadora, caracterizada pelo arejamento das mensagens, pela coloquialidade da linguagem, pelo respeito à criança como leitora inteligente e inventiva e pela visão crítica da realidade brasileira.
Ruth Rocha é um marco da literatura brasileira feita para as infâncias?
Faço algumas considerações para esboçar certa explicação para essa pergunta.
Por certo, no âmbito do fenômeno criador, existe uma explanação lógica que simplifica, de forma grosseira, o espírito do artista: como diz Nelly Novaes Coelho (2000), esse espírito não nasce de pura fantasia, mas germina de uma complexa interação entre a capacidade inventiva e o húmus cultural herdado, com o artista atuando em seu próprio tempo para negar ou confirmar tal espírito. Consabidamente, nossa época resulta do muito que a precedeu. Nesse liame, estão as relações que se estabelecem entre as noções de criança, de literatura e de educação. Sobre isso, mesmo rapidamente, nos importa situar Ruth Rocha a partir da ruptura que sua produção representa em
4. Exemplos são as traduções e adaptações de Contos seletos das mil e uma noites (1882), Robinson Crusoé (1882), Viagens de Gulliver (1888), as adaptações dos clássicos dos irmãos Grimm, Perrault e Andersen e a tradução de Cuore (Coração), de Edmondo de Amicis. Este último, embora receba a chancela de literatura infantil, servia, entre outras finalidades, como um recurso disponível para o desenvolvimento da prática pedagógica ou como orientação de exemplos a serem seguidos.
5. São exemplos Contos infantis (1886), de Júlia Lopes de Almeida e Adelina Lopes Vieira; Livro das crianças (1897), de Zalina Rolim; O livro da infância (1899), de Francisca Júlia; Contos pátrios (1904), de Olavo Bilac e Coelho Neto; Histórias de nossa terra (1907), de Júlia Lopes de Almeida; Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac e Manoel Bomfim; e Saudade (1919), de Tales de Andrade.
relação aos modelos anteriores a ela na literatura para crianças no Brasil, modelos esses marcados por uma pedagogia rígida ou por narrativas excessivamente didáticas.
Um arco-íris histórico pode ajudar a entender o que nos trouxe até o momento presente com Ruth. No final do século XIX, o Brasil já contava com uma elite leitora e um sistema literário consolidado, com representantes importantes, como Olavo Bilac e Machado de Assis. Com a proclamação da República (e especialmente um pouco mais tarde, nas décadas de 1920 e 1930), cresceu o entusiasmo pela educação, vista como fundamental para a modernização do país. A leitura passou a ser considerada essencial na formação de cidadãos, e escrever para crianças tornou-se uma tarefa patriótica e remunerada. Predominavam traduções e adaptações de obras estrangeiras⁴, que transmitiam valores como respeito à família, à escola e à pátria, refletindo a busca por identidade nacional. Nesse contexto, a literatura infantil tinha caráter essencialmente pedagógico e tratava a criança como um adulto em miniatura.
No período entre os séculos XIX e XX, passou a haver, com mais frequência, a publicação de obras infantis de escritores brasileiros⁵. Eram obras cujas características alinhavam-se com o forte nacionalismo; a preocupação com a língua falada no Brasil; o amor pela terra, com ênfase na vida rural; o intelectualismo (o estudo como meio de ascensão econômica); o tradicionalismo cultural (valorização de autores do passado como modelos de cultura a serem imitados); e o moralismo e a religiosidade. Além disso, concretizava-se, em tais obras, uma grande influência francesa.
No início do século XX, como sabemos, ocorreram profundas tensões e mudanças no âmbito das ciências, da política, do pensamento e das artes –velocidade e multiplicidade seriam as palavras de ordem da vida urbana e moderna. O advento da Revolução Industrial trouxe transformações aos campos da cultura e do trabalho; e as tecnologias, com suportes inovadores, imprimiram mutações no setor das comunicações, tornando inevitável o desenvolvimento de formas inéditas de acessar o
6. Manuel Bandeira, a exemplo, em “Trem de ferro”, revela a valorização da camada sonora, a cadência rítmica e o jogo com o objeto, que se arquiteta no exercício da confecção do verso. O autor também traz à baila alumbramentos, registros de festas e brincadeiras de rua inerentes à meninice no Recife (PE). Cecília Meireles, singularmente, sugere colorido à palavra, confiando a ela movimentos rítmicos. Agregam-se a eles Henriqueta Lisboa, Cassiano Ricardo, Sidónio Muralha, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana, Bartolomeu Campos de Queirós, José Paulo Paes, Elias José, Sérgio Capparelli e Manoel de Barros, entre outros. São poetas que fazem reverberar, de algum modo, as propostas modernistas, ecoando estribilhos de Mário de Andrade e Oswald de Andrade.
mundo e trazendo consigo uma nova consciência de linguagem. O horror da Primeira Guerra Mundial assomou-se a abalos também na esfera das ideias, das tecnologias, da vida humana. Anexaram-se a tais experiências as vanguardas europeias: Surrealismo, Futurismo, Cubismo, Expressionismo e Dadaísmo, entre outras. No Brasil, via-se o fim da monocultura do café, alteração na estrutura (quase feudal) aqui instalada, e também a dicotomia entre parte do litoral, de cultura burguesa, e a porção interiorana, inserida em um ambiente de maior retrocesso. Em 1912, Oswald de Andrade, fascinado pelas vanguardas europeias, asseverou que estaríamos com 50 anos de atraso em relação ao restante do mundo. Em 1913, Lasar Segall expôs obras em São Paulo e Campinas, e sua pintura, marcadamente sob o impacto da Primeira Guerra Mundial, refletia a preocupação com injustiças sociais e com o sofrimento humano. Em 1917, Anita Malfatti expôs 53 trabalhos com forte influência vanguardista, crítica, buscando romper com padrões artísticos convencionais. Sem dúvida, tais episódios se revelaram seminais para a concreção da Semana de Arte Moderna, ocorrida em fevereiro de 1922.
A propósito da literatura infantil e juvenil, anteriormente a essa manifestação, nota-se que crianças já apareciam nas paletas de Tarsila do Amaral, Segall, Vicente do Rego Monteiro e Candido Portinari. Mas foi a partir de sua assimilação do discurso da Semana de Arte Moderna que artistas da pintura, da música, do teatro e de outras manifestações artísticas desenvolveram novas possibilidades construtivas e interpretativas. No âmbito da literatura infantil e juvenil, a poesia com características modernistas conquistou esse espaço⁶. Segundo Coelho (2000), essa foi uma época que assinalou o confronto entre a tradição estético-literária oitocentista e o Modernismo de 1922.
Nesse contexto, germinou a produção de Monteiro Lobato (1882-1948), dotada de uma linguagem fluente, lúdica e inventiva. Se, por um lado, o autor paulista mostrou-se conservador em sua crítica a Anita Malfatti, por outro, ele soube conjugar elementos da renovação modernista ao publicar A menina do narizinho arrebitado (1921) e, posteriormente, a coleção O sítio do picapau amarelo (1934). Para
7. São afirmações da autora em uma curta entrevista concedida à editora FTD em maio de 2005.
Leonardo Arroyo (2011), Lobato, com seu primeiro livro, trazia as bases da verdadeira literatura infantil brasileira: apelo à imaginação, em sintonia com a cultura nacional; diálogos dinâmicos; enredo mais complexo; linguagem visual engendrando a narrativa; e graça na expressão. Eram valores temáticos e linguísticos que renovavam a literatura infantil da época, tornando-a capaz de transcender as obras que tinham intenção simplesmente didático-pedagógica. Segundo Coelho (2010), coube a Monteiro Lobato a fortuna de ser o divisor de águas entre o Brasil de ontem e o de hoje. Em suas narrativas, ele mesclava personagens e situações inventadas com outras revisitadas, de mitos, lendas, contos e romances. Conduzia o leitor ao conhecimento da tradição, mas questionava verdades estabelecidas, valores e não valores que o tempo cristalizou. A originalidade de Lobato foi marcada pelo fato de ele ter redescoberto realidades estratificadas pela memória cultural e ter-lhes dado nova vida. Na contramão de uma literatura representativa como a de sua época, ele instaurou uma arte experimentalista, que testava limites – uma arte questionadora. Operou com inovações, trabalhou com a intertextualidade e a metalinguagem como vetores estilísticos e deu voz à criança.
A veia criativa e o trabalho inovador de Lobato, inegavelmente, viriam a ressoar em obras como as de Clarice Lispector, Lygia Bojunga, Ziraldo, Ana Maria Machado – e não é difícil depreender ecos lobatianos a reverberar também na obra de Ruth Rocha. Eles imantam-se à irreverência do estilo da autora, à experiência estética proporcionada por ela – experiência essa que ganha novos contornos e é provocada por humor, ironia e convite constante ao pensamento crítico –, fluxos contínuos de uma arte questionadora, que se renovam e marcam a contemporaneidade e a coloquialidade do texto de Ruth, bem como a interessante conversa que ela estabelece com o leitor.
Ruth Rocha assume-se leitora de Lobato e coloca Narizinho como sua obra predileta, bem como assevera ter bom humor em razão da influência que sofreu de Emília, cuja alegria moldou suas primeiras personagens⁷. Assim, não fica difícil
que o leitor curioso e familiarizado com a obra multifacetada de Ruth desvele, no bojo da inquietante ebulição inventiva da autora, traços lobatianos, como a constante intertextualidade, a irreverência e a crítica, os quais foram se tornando características de sua produção. Dona de um texto inovador, que está em contínuo diálogo com seu tempo, Ruth traz uma importante interlocução com o que já se produziu no conjunto de textos literários, bem como compraz a ela a realização de diálogos internos, que lhe possibilitam sempre renovar e enriquecer sua forma de escritura.
(In)versões do padrão dos contos maravilhosos surgem em clássicos da premiada autora
Em diálogo com a estrutura de um conto maravilhoso, a obra O reizinho mandão traz um narrador que se apresenta para contar uma história que seu avô lhe contava: a história de um reizinho mandão, o qual assume o trono depois da morte de seu pai; ele mandava, gritava para todos calarem a boca, criava leis absurdas. Ao perceber que ninguém mais falava, o reizinho decide buscar ajuda. No reino vizinho, um sábio aconselha-o a procurar, em seu próprio reino, uma criança que ainda soubesse falar – ele deveria ouvir o que ela tinha a dizer. O reizinho segue o conselho, retorna a seu reino e, depois de bater de porta em porta, encontra uma menina que consegue falar: “Cala a boca já morreu! Quem manda na minha boca sou eu”. Tal qual passe de mágica, todo o reino volta a falar.
Mas e o final? O narrador da obra não sabe, tampouco seu avô. Algumas hipóteses ficam para o leitor. Nesse texto, portanto, um sábio aconselha o rei a ouvir uma criança, e, à criança, atribui-se o protagonismo de fazer calar o rei; pela palavra do povo, subverte-se o poder.
A narrativa faz alusão ao conto “A roupa nova do rei”, de Hans Christian Andersen (1805-1875). Essa obra encena uma farsa que enreda a todos – menos a uma criança. O povo, inicialmente enganado pelo rei, passa a ser cúmplice dele a partir do momento que não consegue reverter a situação e acaba tornando-se conivente com tal figura, visando manter as aparências. Artesãos, súditos, imperador, povo: todos representam papéis de falsidade. A criança, que ainda
Ruth em 1984 | foto: Acervo Ruth Rocha
não entrara no jogo social das relações enganosas, com sua voz inocente, é detonadora de sentidos críticos, publicamente desnudando o rei e tudo o que o envolve. Não é difícil perceber a sutileza do sentido satírico desse conto, que permite leituras atuais acerca de condutas individuais, sociais e políticas.
Em O reizinho mandão, há pistas muito potentes relacionadas ao momento político vivido no Brasil [vésperas da extinção do Ato Institucional nº 5 (AI-5), o qual institucionalizou a censura e perseguições políticas absolutamente arbitrárias]. Produto de tal conjuntura, a força do campo simbólico dessa obra denuncia o poder despótico e arbitrário que se instala em circunstâncias ou épocas quaisquer.
Sendo a obra um livro de literatura infantil, importa considerar como a seriedade de sua abordagem temática é esteticamente enlaçada pelo tom lúdico da narrativa, enredada nas vibrações do humor, no ritmo das frases, na seleção lexical, incluindo o uso de diminutivos e aumentativos, e na sintaxe que engendra pares de opostos e sentidos inusitados. A exemplar qualidade estilística é reforçada pela ilustração de Walter Ono (em ambas as versões que ele ilustra). Ono acentua, de forma caricatural, a figura do reizinho ora com a língua para fora, ora com a bocarra aberta, como um bobo da corte, ostentando sua coroa semelhante ao chapéu de um coringa. A imagem, distorcida pela proporção e pelo humor de seu traço, parodia a realeza. São traços de caráter mais grotesco em uma versão, e mais lúdico em outra – mas ambos os trabalhos realizados pelo ilustrador atraem o leitor e o desafiam a perscrutar os sentidos que explodem dessa carga de cores, traços, formas e imaginação para inteligir seus significados.
Ao abrirmos o livro, deparamo-nos com novidades: lemos/ouvimos versos e a voz de um cantador, um cordelista talvez:
Quando Deus enganar gente
Passarinho não voar
Quando o atrás for na frente
No dia que o mar secar
Quando prego for martelo
Quando cobra usar chinelo, Cantador vai se calar....
Conto e canto envolvem os leitores/ouvintes; o narrador é um cantador, cuja voz não vai silenciar, pois as condições para isso acontecer são todas impossíveis: “[...] No dia que o mar secar / Quando prego for martelo / Quando cobra usar chinelo”.
A interlocução com o leitor se faz amigável porque a voz narradora, desde o início da história, já se pronuncia com intimidade (“eu vou contar pra vocês”), enquanto ancora os acontecimentos na vida de quem relata: “uma história do meu avô”, para transmiti-la “como experiência àqueles que a escutam” (Benjamin apud Buck-Mors, 2002, p. 540). O narrador também coloca em jogo valores de tempos e lugares distintos – passado e presente, longe e aqui perto: “Ele dizia que essa história aconteceu há muitos e muitos anos, num lugar muito longe daqui”. Essa experiência compartilhada (entre quem ouve e quem fala) confere, ao ato de narrar, uma demonstração ética da escritura.
Na história, como já mencionado, o reizinho mandão é vencido pela voz e pelas palavras de uma menina: “Cala a boca já morreu! Quem manda na minha boca sou eu”. Dessa maneira, a obra assume sua intertextualidade com o provérbio popular e, com isso, confere mais poder simbólico à palavra – aquela que vem do povo, capaz de subverter o poder, capaz de emancipar. Outro traço de intertextualidade em O reizinho mandão está disposto nos reflexos que a obra traz da canção “Apesar de você” (1970), de Chico Buarque, também lançada no contexto da ditadura militar:
Eram canções de roda, de amor, de brincadeira... O reizinho foi ficando assustado, amedrontado, Perturbado com todo aquele barulho, com toda aquela alegria (Rocha, 1978, p. 28).
Cabe destacar que, em ambas as expressões artísticas (literária e musical), há uma cosmovisão carnavalesca que, no livro de Ruth Rocha, ganha dimensão teatral (ou circense) com a parceria do ilustrador (Ono). Ainda em relação à interlocução da obra de Ruth com o contexto brasileiro, vale lembrar que, no prefácio de Sapo vira rei vira sapo, último livro da tetralogia dos reizinhos, lê-se um comentário sobre a seguinte pergunta, que um
menino de 9 anos fez à autora: “este rei, das suas histórias, é o presidente da República?”. A resposta de Ruth foi:
“era possível, podia ser, mas que também podia ser um pai mandão, um irmão mandão, um professor mandão...”
Mas ele não desistiu:
É, mas este é o presidente da República.
E ele completou:
E você não tem medo da polícia?
Eu respondi que sim, que tenho muito medo da polícia. Mas o fato de ter medo da polícia não pode impedir que a gente fale, reclame, bote a boca no mundo.
Porque foi para isso que o escritor foi feito. Para mostrar a realidade sob um novo ângulo, para criticar o que se passa por toda parte e para não dar solução a coisa nenhuma e, sobretudo, não dar conselhos. Cada um encontre sua verdade sozinho.
O único conselho que eu me atrevo a dar é que não beijem sapos. Eles podem se transformar em reizinhos mandões... E podem ficar sossegados. As crianças entendem (Rocha, 1982, p. 2).
O reizinho mandão recebeu inúmeros prêmios, como o selo de “Altamente recomendável para crianças”, dado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), em 1978; foi selecionado para a exposição O livro de estórias e as crianças, ocorrida em Atenas, na Grécia, em 1979; foi escolhido para representar o Brasil como candidato ao Prêmio Janusz Korczak, instituído pela Seção Polonesa do International Board on Books for Young People (Ibby) [Conselho Internacional sobre Livros para Jovens]; e também selecionado para integrar a lista de honra do Prêmio Hans Christian Andersen de 1978 (Coelho, 2006, p. 756).
Em O rei que não sabia de nada (1980), ilustrado por José Carlos Brito, temos outro exemplo de diálogo com o conto maravilhoso, também com forte alusão a “A roupa nova do rei”, de Andersen, assim como faz O reizinho mandão. Observa-se, de
maneira semelhante, o valor hierárquico da palavra da autoridade real sendo invertido pela palavra do discurso, bem como a subversão das funções dos personagens dos contos tradicionais, além de o cenário e o tempo das histórias medievais migrarem para o presente do narrar, provocando choques dos sintagmas narrativos (do passado e do presente). Com tudo do avesso, o sentido burlesco aparece já na página de abertura, com a superfície lúdica do xadrez. Além disso, mais uma vez, é colocada em jogo a distinção entre dois tempos e lugares: “Era uma vez um lugar muito longe daqui [...]”. A história prossegue sob uma voz narrativa que se coloca à disposição do leitor, visando captar seu repertório por meio de uma comunicação envolvente e direta: “Havia uma vez um rei num reino muito distante, que vivia em seu palácio com toda corte reinante [...]”. A cadência rítmica e o encadeamento de frases com estruturação simples e repetitiva indiciam, no corpo do texto, traços da oralidade (uma escritura próxima à do cordel). O uso de conectores como “aí”, “mas”, “então”, “e agora?” e “essa não!” vai modulando a fala do narrador e a atenção que ele dispensa ao leitor.
Na linha satírica, retoma-se o tema do poder. A personagem que o representa, o rei, é ludibriada por seus ministros, os quais fingem trabalhar, fazendo-se substituir por uma máquina. Esta, por falta de comando, desorganiza-se. O reino entra em crise. Tal situação, desconhecida do rei até então, revela-se quando ele visita o reino e os cenários construídos para enganá-lo caem por causa de uma bola lançada por uma menina. Situação imprevista que faz com que o rei fuja e perca a coroa, o que o torna um anônimo, desfuncionalizando sua heroicidade. Como anônimo, por meio de uma criança, o rei percebe o quanto o enganavam. A protagonista-criança transforma o reino em um parque de diversões – ali, sim, a máquina teria uma função adequada. A menina Cecília e o povo passam a ser os heróis, a decidir a vida no reino de O rei que não sabia de nada. Forma-se, por conseguinte, outro modo de representar a realidade, agora do ponto de vista do povo liderado por Cecília. Substituição de poder: das mãos do dominante para as do povo, que emerge de sua tradicional posição de dominado. Ruth em 2026 |
8. A versão de João e Maria está citada e analisada na dissertação de mestrado de Dayse Oliveira Barbosa, intitulada Grimm e Majidí: figurações da cumplicidade na infância em João e Maria e Filhos do Paraíso [Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), 2019].
Uma linguagem irreverente traz a luta de classes, fazendo surgir, de um passado lendário, uma mensagem: “E o reino foi consertando, consertando, e até hoje o povo de lá lembra desta história e trabalha contente [...]”. A parceria de Ruth com o ilustrador de O rei que não sabia de nada – o já mencionado José Carlos Brito – é fundamental para a obra, instaurando o desafio de uma leitura que se quer feita em duas linguagens. Os traços distorcidos pela proporção e pelo humor fazem reverberar uma representatividade do “popular”, parodiando a nobreza, bem como modos de ver o real, o jogo possível da realidade enganosa, o poder e o não poder.
Essa obra recebeu o primeiro prêmio no Concurso de Literatura Infanto-Juvenil do Banco Auxiliar, que tinha sede em São Paulo.
Ainda no âmbito de versões e inversões dos contos maravilhosos, mais alguns exemplos podem ser considerados.
A série Conta de Novo, publicada em 2010 pela editora Salamandra, comporta adaptações de contos de fadas como João e Maria, João e o pé de feijão, Os músicos de Bremen, O rato do campo e o rato da cidade e O patinho feio⁸. Como por diversas vezes anunciou, Ruth diz recontar histórias “de maneira simples, mas encantadora, de forma que as crianças bem pequenas possam acompanhar a narrativa”.
Já Histórias das mil e uma noites, publicado pela FTD, traz um conteúdo um pouco diferente: a obra foi comentada na edição de de 24 de setembro de 1991 do jornal O Globo, e, no artigo, o redator argumenta que, nesse livro, Ruth não se utiliza do recurso do humor, encontrado em suas narrativas ágeis e engraçadas, com as quais ela habituou os seus leitores – mas mostra sua faceta de contadora de histórias de contos tradicionais que encantaram gerações e que ainda guardam a capacidade de conquistar as crianças de hoje. Histórias das mil e uma noites reúne apenas três narrativas: “Aladim e a lâmpada maravilhosa”, “O pescador e o gênio” e “Ali-Babá e os quarenta ladrões”. E, segundo o redator, isso é suficiente para deixar no leitor
“aquele gosto de quero mais”, pois, além de as histórias serem fascinantes, o estilo de Ruth Rocha é bem adequado ao jovem. A tática de Sherazade, narradora do livro, de toda noite contar uma história constitui uma metáfora para o trabalho de Ruth, que se dispõe a criar continuamente e, dessa forma, estar sempre no coração dos leitores.
“Procurando firme” (1986) é um conto maravilhoso que contraria o estatuto das histórias ancestrais.
“Uma história que parece história de fadas, mas não é. Também parece história para criança pequena, mas não é”, como anotado no início do livro. Então do que realmente fala essa história?
Da princesa Linda Flor, que vivia num castelo, guardada por um dragão do qual seria libertada por um dos príncipes que costumam correr mundo. Ela teria de fazer tudo o que mandava a tradição: doces e bordados, acostumando-se a ficar em casa eternamente (que chato...) à espera de um marido. Linda Flor desafia o dragão, foge decidida a buscar algo que não sabia bem o que era, mas ia “procurando firme”. Com um narrador que conversa com o leitor, o conto vai colocando um embate entre os sintagmas narrativos do passado e do presente, gerando o desfazimento dos valores lendários que presidiam o mundo das princesas. Com muito humor e poeticidade, “Procurando firme” retraça, de forma inteligente e lúdica, o pensamento feminista para o jovem leitor.
Ao fim e ao cabo, essas histórias – que agradam crianças e adultos e, segundo André Jolles (1976), têm tendência para o maravilhoso – apresentam, como traço distintivo, uma forma chamada “conto” e tratam de um universo que assume a ficção como natural e verdadeira (verossímil), satisfazendo um conjunto de desejos ingênuos, de uma moral ingênua; ou seja, “as coisas nessas histórias se passam como gostaríamos que acontecessem no universo, como deveriam acontecer” (Jolles, 1976, p. 198). Ao estudar o narrador de contos de fadas, Walter Benjamin vê, nesse universo, a oportunidade de ensinar a humanidade, em especial as crianças; de ensiná-las a enfrentar as forças do mundo mítico por meio de astúcia e feitiço (Benjamin, 1985, p. 215). Vladmir Propp (2006), em seu estudo das estruturas do conto popular russo, apresenta-nos uma sequência
de funções desse tipo de obra: situação inicial, danos, provocações, superação e final feliz.
As narrativas de Ruth Rocha, por sua vez, desestabilizam fronteiras, transitando entre o terreno dos contos maravilhosos e o dos contos populares, cuja singularidade está na inscrição da performance da voz (Zumthor, 2007) e dos conselhos do narrador (Benjamin, 1985). As metamorfoses, as mudanças e os possíveis efeitos de magia em nada se relacionam com o sobrenatural – trata-se de estratégias ficcionais, estilísticas e de acurada seleção e projeção de efeitos estéticos.
Os textos de Ruth pautam-se pelo resgate da oralidade na escritura, como se a autora bebesse na fonte originária do narrar. Colocando em xeque discursos literários tradicionais, como o Modernismo o fez, ela inaugura um novo modo de escritura. Assim, uma sintonia – envolvendo o narrador, a mensagem e o receptor – engendra a comunicação de Ruth com o leitor, intercambiando experiências, num jogo de reciprocidades. A escritura rocheana, desse modo, convoca o leitor e sua voz para que se incorporem à cena.
Não mais no universo do maravilhoso, mas ainda no âmbito da intertextualidade e da recuperação de narrativas clássicas, Romeu e Julieta empresta o desafio amoroso, ou a diferença entre famílias, para que Ruth aborde a temática do racismo. Esse é um assunto tratado com cuidado em suas obras. Afirma a autora que isso adveio de sua formação como socióloga, pois, segundo ela, a sociologia nos ensina a ver a sociedade de outra maneira. Entretanto, é importante destacar a maneira singular pela qual Ruth estabelece a interlocução com a criança.
Ruth escreveu a história de Romeu e Julieta para sua filha, em resposta a uma questão que ela havia lhe trazido. Em alusão à obra de Shakespeare, mas totalmente tecida à moda rutheana, Julieta é uma borboleta amarela, de uma família de borboletas amarelas que não permite que ela brinque com borboletas de outras cores. Romeu é uma borboleta azul, de uma família de borboletas azuis que não aceita que ele brinque com borboletas de outras
cores. Mas viver só com quem é igual à gente não tem graça. Então, Ventinho, amigo de Romeu e de Julieta, faz com que os dois se encontrem longe das suas famílias. E eles saem borboleteando por aí.
Do ponto de vista estético, as obras de Ruth Rocha caracterizam-se por uma linguagem clara, precisa, que respeita a inteligência do leitor infantil sem recorrer à simplificação excessiva. Sua escrita é marcada pela oralidade, pelo ritmo ágil e por diálogos vivos, elementos que favorecem a identificação do leitor e a fluidez da leitura. Ao mesmo tempo, essa aparente simplicidade esconde uma construção textual cuidadosa, em que cada escolha lexical e estrutural contribui para a densidade do texto. Trata-se de uma estética da clareza, que não abdica da complexidade, mas a apresenta de forma acessível e envolvente.
Um dos aspectos mais notáveis da estética de Ruth é o uso do humor como estratégia narrativa e crítica. O riso, em sua obra, não é gratuito nem superficial; ele funciona como ferramenta de questionamento das normas sociais, das hierarquias de poder e das injustiças naturalizadas. Ao rir das situações absurdas apresentadas, o leitor é convidado a refletir sobre estruturas reais de poder e dominação, podendo estabelecer pontes entre a ficção e o mundo vivido. A crítica ao autoritarismo e às estruturas de poder verticalizadas é profundamente trabalhada. Escrita em grande parte no período da ditadura militar brasileira, a produção de Ruth Rocha dialoga, ainda que de forma alegórica, com o contexto político da época, como mencionado anteriormente. Narrativas que apresentam reis mandões, regras estapafúrdias e silenciamento coletivo funcionam como metáforas claras de regimes opressivos, oferecendo às crianças instrumentos simbólicos para compreender e questionar a autoridade injusta. Essa dimensão política da obra não se esgota em seu contexto histórico de produção, mantendo-se atual e relevante em diferentes momentos da vida social brasileira.
Tematicamente, a obra de Ruth é ampla e multifacetada, abordando questões fundamentais para a formação ética e cidadã das crianças. São temas recorrentes a democracia, a liberdade
Ruth em 2026 | foto: André Seiti/Itaú Cultural
de expressão, o respeito às diferenças, a justiça social, a convivência coletiva e a valorização da palavra. Temáticas que se engendram na narrativa, encarnando-se em personagens e modulando situações que evitam o tom panfletário. Em vez de oferecer respostas prontas, a autora cria espaços de indagação, suscitando interpretações e posicionamentos do leitor.
As múltiplas linguagens advindas de várias artes (literatura, ilustração, canto, teatro, circo) convivem sem hegemonias. A palavra cede a responsabilidade para a crítica em forma de humor paródico.
Em livros como Marcelo, marmelo, martelo, a autora explora a arbitrariedade dos signos linguísticos e a criatividade inerente à linguagem, convidando a criança a brincar com as palavras e a perceber a língua como um sistema vivo, em constante transformação. Essa abordagem contribui não apenas para o desenvolvimento linguístico do leitor, mas também para a compreensão de que a linguagem é instrumento de poder, de comunicação e de expressão individual. Ao permitir que seus personagens questionem as palavras e inventem novos significados, Ruth Rocha promove uma visão emancipadora da língua, rompendo com concepções normativas e autoritárias.
A construção das personagens na obra rutheana merece destaque. Seus protagonistas infantis são curiosos, questionadores e ativos, distanciando-se da imagem da criança passiva e obediente. Mesmo quando adultos ou figuras de poder ocupam o centro da narrativa, eles são frequentemente apresentados de forma caricata ou contraditória, revelando fragilidades e limitações. Essa inversão de papéis contribui para a valorização do olhar infantil e para a legitimação da criança como sujeito capaz de compreender e interpretar o mundo. Desse modo, a autora reforça uma concepção de infância pautada pelo respeito e pela escuta.
A relação entre texto verbal e ilustração é outro aspecto relevante na obra de Ruth, que sempre estabeleceu parcerias importantes com artistas visuais, compreendendo o livro infantil como uma arte híbrida. As imagens dialogam com o texto
verbal, criando contrapontos e dimensionando a experiência leitora. Essa preocupação evidencia uma visão sobre a literatura infantil que compreende o livro como espaço de fruição estética, e não apenas como suporte de conteúdo.
A importância de Ruth Rocha para a literatura brasileira feita para as infâncias se manifesta para além da esfera da escrita literária. Como editora, tradutora e defensora da leitura, a autora teve papel fundamental na consolidação de um mercado editorial voltado para a infância, comprometido com a qualidade estética e com a diversidade temática. Sua trajetória contribuiu para o reconhecimento da literatura infantil como campo legítimo de produção artística, refutando ideias que a colocavam em posição secundária em relação à literatura destinada ao público adulto.
No âmbito da crítica, pode-se afirmar que a obra de Ruth inaugura e consolida uma tradição de literatura infantil comprometida com a formação do leitor literário (infantil ou não), capaz de fruir esteticamente um texto, procurando inteligir aspectos sensíveis que dele emanam por meio de uma consciência crítica. Sua escrita respeita a infância. Não a trata sob o influxo de uma concepção lógico-evolutiva e progressista do desenvolvimento da criança, aquela do vir a ser. Mas, diríamos, sua concepção se alinha com as pegadas de Benjamin – pensador que sinalizava, na contramão da visão linear da história, a necessária visada para a forma pela qual o movimento de pensar é, na mesma medida, o arquitetamento desse pensar –, um instante em que o pensamento se imobiliza ante uma constelação saturada de tensões. Infância, nesses termos, seria o espaço no qual se produz, nas descontinuidades e diferenças, um certo saber e uma história (Agamben, 2014); um lugar em que a linguagem e o pensamento se pensam. Daí, o modo como Ruth Rocha trata de temas difíceis com delicadeza e inteligência contribui para a formação de pensadores sensíveis, autônomos, capazes de detectar estratégias perversas que se alojam nos ambientes que frequentamos.
Além disso, a permanência de seus livros no imaginário coletivo e no espaço escolar brasileiro
evidencia a força da obra dessa autora. Lidos por diferentes gerações, seus textos mantêm vitalidade e atualidade, demonstrando que uma literatura de excelência é capaz de atravessar o tempo sem perder relevância. Essa permanência não se deve apenas à nostalgia, mas à capacidade de Ruth de tocar questões universais por meio de narrativas bem construídas, esteticamente consistentes e eticamente comprometidas.
Ao encerrar nossa prosa, vale reiterar que Ruth Rocha ocupa lugar central na história da literatura infantil brasileira. Sua obra articula humor e crítica, simplicidade e profundidade – qualidades por meio das quais a autora paulista, de forma coerente e inovadora, constrói seu projeto literário. Ler sua diversa e irreverente obra, mais do que um exercício de fruição do literário, é uma experiência formativa que reafirma o poder da palavra, na sua dimensão ética e estética, o que concede uma intelecção reflexiva e sensível a imantar nosso olhar para o mundo e para o outro.
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ZILBERMAN, Regina; LAJOLO, Marisa. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática, 1985.
ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
Maria Zilda da Cunha é professora do Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP) e da área de literatura infantil e juvenil na mesma universidade. Possui graduação em pedagogia, letras e psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), pós-graduação em psicopedagogia pelo Instituto Sedes Sapientiae, especialização em psicomotricidade pelo Instituto Superior de Psicomotricidade e Educação (Ispe/GAE), mestrado em comunicação e semiótica pela PUC/SP, doutorado em letras pela USP e pós-doutorado em estudos portugueses e lusófonos, na Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas (Elach) da Universidade do Minho, em Portugal, e em ciências, educação e humanidades pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). É líder do Grupo de Pesquisa de Produções Literárias Culturais para Crianças e Jovens (GPPLCCJ), homologado e certificado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e vinculado à USP.
Ruth com cerca de 17 anos na casa de sua família, na cidade de São Paulo, 1948 | foto: Acervo Ruth Rocha
Ruth com cerca de 15 anos, na casa de seus pais |
foto: Acervo Ruth Rocha
ilustração: Caco Galhardo
Ruth Rocha e a literatura das palavras vivas e acesas
por Sonia Rosa
Ruth Rocha é uma escritora brasileira de literatura infantil e merecedora de muitas homenagens por sua esmerada obra literária e sua contribuição para o fortalecimento das literaturas para as infâncias. Presença genuína no cenário literário-cultural brasileiro há mais de 50 anos, seu nome é reconhecido e premiado dentro e fora do país por oferecer uma literatura de enorme qualidade estética. É importante reconhecer o legado de Ruth, assim como identificar sua sensibilidade em lidar, em suas obras, com temas espinhosos e atemporais, tais como pensamento crítico, autoritarismo, liberdade de expressão, direitos humanos e democracia – pautas ousadas para quem começou sua carreira no início dos anos 1970.
Ruth tornou-se uma referência para os autores que foram chegando ao longo das últimas décadas ao mercado editorial. Ela faz parte de um grupo de escritores brasileiros que forçaram uma mudança significativa na maneira de tratar as crianças dentro das histórias. Sua literatura desconstruiu velhas maneiras de abordar a comunicação texto-leitor. Considerou, de jeito pioneiro, a recepção verdadeira da criança quando em posse de um texto literário.
Esse pensamento de Ruth e sua empatia com o mundo infantil tanto influenciaram seus escritos, como fizeram dela uma referência no mundo dos
que escrevem para as crianças. Ela inaugurou um jeito próprio de “comunicação” com seus leitores – narrativa ousada, sonora, engraçada e revolucionária. Podemos encontrar esses elementos já presentes em um de seus primeiros trabalhos literários, que virou best-seller e continua visitando escolas, lares e corações de crianças de várias gerações: o livro Marcelo, marmelo, martelo. Para ela, não era mais possível admitir que “artistas das palavras” escrevessem para um leitor passivo, um ser inerte, sem opinião sobre nada, paralisado, recebendo apaticamente as informações que o texto apresentava.
Desde essa época, nesse novo modelo relacional do livro para crianças, o leitor era implicado em uma comunicação ativa com o texto, as imagens, os infinitos sentidos das palavras (transformadas em palavras vivas e acesas). Havia interação, alinhamentos de opiniões, podendo até existir discordâncias... O resultado disso foi uma mudança de paradigma na relação dialógica entre escritor, leitor e texto no campo da produção literária direcionada para as infâncias, um avanço importante para a sociedade brasileira e para a cultura do país, em especial.
Pensando aqui com meus botões sobre a grandeza da literatura de Ruth Rocha, ocorreu-me que, no comecinho de sua carreira, ela escrevia em uma revista com o sugestivo nome de Recreio. Sua literatura formou gerações de leitores. E continua formando. Ela e alguns outros autores de sua época abriram um portal para a valorização da literatura infantojuvenil, a qual, historicamente, sempre foi entendida como um tipo de literatura menor, algo que qualquer pessoa poderia escrever, um ofício em que qualquer pessoa poderia se aventurar. Sabemos que não é assim. Escrever para crianças não é tarefa fácil: exige sensibilidade, responsabilidade, conhecimento da ambiência infantil e, claro, contato com pelo menos uma criança real, a de hoje, com suas verdades, singelezas e imperfeições. E exige também nunca deixar de considerar as subjetividades próprias de cada idade, seus gostos e sua potência para compreender qualquer assunto, desde que bem apresentado.
Hoje, a literatura infantil tem um lugar de destaque e respeito no mundo dos livros. Ela movimenta intensamente o mercado editorial. As vendas governamentais de obras de literatura infantil fazem a alegria dos editores, escritores, ilustradores e, naturalmente, de escolas públicas Brasil afora, que recebem uma quantidade expressiva de livros de qualidade, fruto de uma seleção minuciosa de competentes especialistas de leitura espalhados pelo país. Os volumes adquiridos pelos projetos de leitura dos governos brasileiros, seja federal, estadual ou municipal, contemplam a produção literária de diversos autores, bem como a de inúmeras editoras, com suas variedades de temas e riquezas de linguagens, visando à formação de leitores no ensino público. Fico contente em testemunhar essa difusão, em uma perspectiva de inclusão dessas tantas diversidades. Grande conquista.
Conto a vocês uma particularidade: Ruth Rocha fez parte de meu repertório pedagógico e literário. Quando jovem, cursando o último ano do curso de formação de professoras, tive a alegria de ter, na grade curricular, uma disciplina de literatura infantil, experiência educativa raríssima na época. Era uma oportunidade de conhecer o que havia de produção literária para as crianças naquele momento e os caminhos abertos à literatura infantil nacional e internacional até então. Estudávamos os clássicos europeus (Charles Perrault, Irmãos Grimm e Hans Christian Andersen), além da vida e obra de escritores brasileiros. As aulas eram pautadas tendo esses autores como protagonistas, a maioria deles considerados ícones e formadores da mentalidade de várias gerações, com seus erros e acertos.
Eu estava no meu último ano de Escola Normal, já íntima do conto popular, e contava histórias para meus alunos nos estágios – principalmente as que ouvia em casa, contadas pela minha mãe, e que já moravam na minha cabeça. Histórias simples, de gente simples como nós, que tinha sonhos e compartilhava momentos de relações familiares recheadas de afetos. Eram essas histórias que revelavam os jeitos de pensar e de viver o dia a dia da minha família, uma família negra e pobre igual à dos meus colegas. Contava essas histórias nos estágios que eu fazia, estágios em escolas
Ruth em 1982 |
foto: Acervo Ruth Rocha
públicas nas quais os alunos também eram majoritariamente negros. Oferecia a eles os contos abraçantes e cheios de ritmo que sempre ouvia da minha mãe e que aprendi, ainda menina, em um contexto cheio de amor.
No campo individual, escrevia, em diários, minhas impressões sobre meu redor e meu interior. Já criava poemas. Escrever diariamente era minha forma de me entender no mundo. E eu já era uma leitora voraz. Lia com fervor todo tipo de literatura, sobretudo poesia, muita, muita poesia.
Visitando o ontem com o olhar de hoje, identifico lacunas na produção literária nacional daquele momento. A começar pela ausência de referências de escritores negros e indígenas na literatura infantil. Era notório o apagamento dessas representações. Era raro encontrar algum destaque positivo de personagens que contemplassem a diversidade racial brasileira nos livros destinados às crianças, tanto em textos quanto em imagens. As obras reproduziam e reforçavam estereótipos e preconceitos raciais, territoriais e de gênero. A sociedade, de modo geral, aceitava isso de forma naturalizada e silenciosa. Esses questionamentos não eram pautas, nem dentro nem fora dos livros de literatura para o público infantil.
No entanto, refletindo sobre isso na perspectiva de agora, noto alguns caminhos para entender aquele cenário literário. Era preciso entender o silenciamento, as invisibilidades e a dureza de uma ditadura militar instalada em nosso país. E nós, majoritariamente alunas negras e periféricas, buscávamos nos entender e nos encaixar dentro daqueles enredos apresentados, sem grandes sofrimentos (mesmo reconhecendo a ausência de citação das nossas vidas reais nas histórias de autores variados que conhecíamos ali). Percebíamos que o ambiente literário do período, incluindo o da literatura infantil, apresentava-se como um espaço árido, de formação rígida dos leitores, visando a comportamentos desejáveis, obedientes, disciplinados, controlados.
Ruth Rocha, porém, fazia diferente: ela escrevia com a intencionalidade de incentivar a liberdade
de pensamento e expressão de seus leitores. Ela sabia do seu lugar e da força dos seus textos, os quais transbordam criticidade. Por sorte, nossa professora de então tinha sensibilidade e estava empenhada em nos tornar leitoras críticas, para que formássemos novos leitores em nossos espaços de convivência, dentro e fora da escola, naquele tempo e nos tempos que viriam a seguir. Incentivadora e incisiva nos propósitos, ela trazia diferentes livros para a gente conhecer, e Ruth era uma de suas escritoras preferidas. A educadora envolveu toda nossa turma com essa paixão, e, desse jeito, nós nos encantamos com a força literária de Ruth, autora que nos apresentava uma trama audaciosa para os dias nublados do final da década de 1970. Ela não duvidava de nossa inteligência para absorver as histórias, mesmos as mais complexas.
Essa professora lia os livros de Ruth Rocha para nós em voz alta, com entonação especial. Parava, mostrava as ilustrações, mastigava cada palavra. E fazia as pausas e os silêncios necessários para a partilha da narrativa. Esse ponto me deixava feliz como nunca. Desse jeito, ela ampliava nosso olhar por meio das palavras ditas e não ditas, encontradas nas entrelinhas. A professora, vez por outra, compartilhava exemplares da Recreio e nos oferecia livros da autora para que pudéssemos, em grupo, apreciar sua perspectiva política e poética. Esse foi o início da minha relação com Ruth.
Ainda jovem, escolhi ser professora, estudei para isso e, anos mais tarde, entrei no magistério público e passei a lecionar. Grande realização. Fui alfabetizadora de muitas crianças. A palavra, com sua força, dita com afeto e em vários ritmos, foi se tornando cada vez mais protagonista das minhas aulas. Meus alunos aprendiam com alegria. E eu os acompanhava toda orgulhosa. Todos os dias, pegava livros de literatura infantil na biblioteca da escola e lia as histórias para eles. Com entonação firme. Não desejava apenas ensiná-los a ler e escrever. Queria formar leitores apaixonados e autônomos. Apesar de, às vezes, as tramas serem distantes das realidades deles, os títulos abordados contribuíam para ampliar o vocabulário, conhecer o livro como objeto artístico feito a muitas mãos e provocar a criatividade e o senso crítico.
Como foi e é para mim, Ruth Rocha era uma escritora querida pelos meus alunos. Reproduzi a paixão aprendida no meu curso de formação de professora. Contava as histórias dela. Eles adoravam. As narrativas de Ruth visitavam, com frequência, minha sala de aula; eram obras de muito valor para nós, textos que geram possiblidades para ampliar o conhecimento de mundo, trazem humor no ponto certo, despertam a imaginação das turmas. Os educandos amavam os livros da autora, divertiam-se com eles e se sentiam respeitados.
Nesse ponto, acho fundamental lembrar que nenhuma produção voltada para as infâncias deve ter como objetivo primeiro “ensinar coisas”. Contudo, é sabido que livros constroem mentalidades, geram reflexões e ensinam, mesmo sem desejar. A criança é inteligente, curiosa, humanamente imperfeita e gosta de brincadeiras (inclusive, adora brincar com as palavras). Ruth Rocha escreveu sobre direitos humanos e preservação ambiental, por exemplo, com muita maestria, elaborando obras que não têm prazo de validade e reforçam seu compromisso com o fazer literário. Ela sabe que a leitura de literatura desenvolve o senso crítico e corresponde ao melhor caminho para amar a liberdade e confrontar os contextos que se colocam distantes disso. Essa é uma das premissas que mais admiro no trabalho dela.
Em meio à dinâmica de pega livro, conta história e conversa sobre o enredo contado no dia, escrevi a história do menino Nito, a primeira que inventei e publiquei. Já tinha intimidade com a palavra escrita e falada, com a feitura de poesia e diários, mas escrever história infantil foi uma aventura para lá de audaciosa. O ano era 1988.
Como Toni Morrison, famosa escritora afro-americana, decidi criar aquilo que não encontrava para ler. Em princípio, escrevi a história de Nito despreocupadamente, para agradar meus alunos e enriquecer as aulas. Eles gostaram e se identificaram com a vida ficcionalizada no texto. Ao conceber o personagem, já o idealizei como um protagonista negro. Ali, intuitivamente, sabia o que queria compartilhar em textos para crianças. Mas era, naquele momento, intuição pura, sem
fundamentação teórica. Na verdade, Nito me forçou a buscar essa base, fazendo com que eu nunca mais parasse de pesquisar. Gratidão, Nito!
O desejo de publicar e virar uma escritora veio um pouquinho depois que inventei o texto citado. Era um desejo novo, que iria me demandar bastante. Não conhecia ninguém do mundo dos livros. Não sabia como era virar uma escritora. Mas, uma vez decidida, parti para a ação formadora. Se era um novo ofício que eu almejava, além do de professora e pedagoga que já exercia, precisaria me dedicar e estudar. Fui fazendo cursos livres e conhecendo pessoas. Em 1994, participei de um curso de contação de histórias com Francisco Gregório Filho, na Casa da Leitura, a sede do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler) no Rio de Janeiro (RJ). Essa oportunidade foi um divisor de águas para mim; aprendi tanto naquelas aulas com o saudoso mestre Gregório. Em paralelo às formações, ia enviando meu texto para várias editoras; enquanto aguardava, escrevia novos textos e fazia novos cursos...
O tempo foi passando. Só em 1995 consegui, finalmente, realizar o sonho de publicar meu primeiro livro, lançado na Bienal carioca daquele ano. Minha vida mudou: a marca da escrita inaugural, cheia de personagens negros e cotidiano negro, passou a ser a marca de todas as narrativas que sigo criando – com amor, compromisso e alegria.
Escrevo, na maioria dos casos, para crianças de todas as idades. Conceituo meu trabalho como literatura negroafetiva, com marcas da oralidade que revelam meu lugar de origem. A oralidade, aliás, é um dos valores civilizatórios afro-brasileiros, como nos ensina a também saudosa educadora Azoilda Trindade, e fez parte do meu crescimento (os contos que ouvi da minha mãe). Nos meus livros, as crianças negras têm vez e voz: são amadas, vestidas, penteadas, têm família e trajetórias. Aprendi sobre a necessidade dessas representatividades na minha casa, quando pequena, e na percepção da lamentável escassez ou ausência desses personagens na ficção nacional. Estudei e continuo estudando a respeito do racismo e da resistência do povo negro. São essas
as minhas ferramentas para criar minhas tramas, fortalecendo identidades negras.
E há ainda minha paixão pela escola, esse espaço que admiro tanto. Na verdade, sempre desconfiei que a escola deveria ser fascinante, cheia de gente, onde se aprendem, todos os dias, coisas diferentes. Apenas aos 7 anos, entretanto, ingressei na escola. Até chegar esse momento, chorava ao implorar, para minha mãe, que ela me deixasse acompanhar meus irmãos que já frequentavam aquele ambiente maravilhoso. Quando chegou minha vez, minha imaginação foi a mil. De aluna a professora, percorri estradas simples e complexas nos colégios por onde passei. Essas experiências foram se misturando, avolumando meu amor antigo pela palavra falada, contada e cantada dentro de casa. E, nesse entrelaçamento, surgiu meu fascínio pela escrita em prosa e poesia.
Conto minha jornada para dizer que Ruth Rocha e eu somos autoras de gerações distintas, mas com algumas conexões interessantes. Experimentamos a doce alegria de termos pessoas da família que nos contavam histórias com afeto e enchiam nossas cabeças com ideias. Temos consciência de que o amor é revolucionário e usufruímos desse sentimento em nossos textos. Trabalhamos em escolas, e essas realizações profissionais nos enriqueceram como pessoas e escritoras, vivências que nos ajudaram a desenvolver empatia com a vida dos alunos diante das histórias que eles mesmos nos traziam. Admiramos o acontecer expressivo das crianças, no qual a liberdade é a maior beleza, além de suas inteligências. Elas, as crianças, têm muito as nos dizer e ensinar. Vivam as crianças! Viva a literatura infantojuvenil!
Viva Ruth Rocha!
Sonia Rosa é escritora, professora, orientadora educacional e contadora de histórias. Formada em pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), possui mestrado em relações étnico-raciais pelo Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet/RJ). Alguns de seus livros receberam o selo de “Altamente recomendável para crianças” pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).
À direita, Ruth; com ela, sua irmã Rilda e a amiga Carmen, 1942 | foto: Acervo Ruth Rocha
ilustração: Caco Galhardo
Um tipo muito especial de ocupação
por Lenice Bueno
O que poderia significar uma “ocupação” associada ao nome de Ruth Rocha? No caso da escritora, a palavra “ocupação” adquire um caráter afetivo, como reflexo do que ela própria afirma em um de seus poemas: “Toda criança do mundo mora em meu coração”.
Associado à obra de Ruth Rocha, o termo ganha o sentido de acolhimento, de se aproximar de mansinho, aconchegar-se e deixar-se ficar nas histórias e nos poemas que ela cria. Mais ou menos o que Monteiro Lobato, de quem Ruth foi grande leitora em criança, pensou quando disse que era preciso escrever “livros onde nossas crianças possam morar”.
De que maneiras as histórias escritas pela autora conseguem conquistar espaço no coração das crianças e, ao mesmo tempo, oferecer-lhes espaços em que elas possam e desejem estar? De maneiras diversas, mas sempre encantadoras.
O encanto começou em sua primeira história, publicada na revista Recreio de número 10, em 1970, “Romeu e Julieta”. Ruth partiu do célebre e trágico romance de dois jovens que se amam, mas não conseguem ficar juntos, para criar uma “paródia do bem”: uma narrativa em que duas crianças borboletas não podem ser amigas porque possuem cores diferentes. Romeu é azul, Julieta, amarela, numa terra em que as cores não se misturam. Ela inventou uma história muito
simples, mas cheia de sabedoria, cujo final, ao contrário da tragédia shakespeareana, é feliz: o que resulta é uma alegre mistura de cores e um sentimento de confraternização:
Se todas as borboletas do mundo Pudessem se dar as mãos, Fariam uma grande roda, Uma grande roda em volta do mundo. (Romeu e Julieta)
Ela afirma ter escrito o conto “Romeu e Julieta” a partir de narrativas que contava para Mariana, sua filha, que “não gostava de histórias clássicas –queria a história do cinzeiro, da mesa, da Lua. E eu inventava”. O tema do racismo partiu de perguntas feitas pela menina.
Ruth defende os direitos das crianças, entre os quais inclui o de crescerem com esperança. Por isso, ao escrever esse primeiro conto, criou uma regra para si própria, que seguiu fielmente nos muitos que vieram depois: “Uma história sempre acaba em um momento feliz”. Será que isso quer dizer que o que ela escreve é do tipo água com açúcar, como se dizia antigamente? Quem já leu seus livros sabe que não. E convido vocês a relerem comigo alguns trechos, para provar por quê. Afinal, já que estamos falando de uma Ocupação em homenagem a uma escritora, nada mais indicado que ocupar este espaço com trechos dos livros que ela escreveu nestes 50 anos de carreira.
Em primeiro lugar, Ruth sabe criar cenas que se desenham diante de nossos olhos como num filme, transportando-nos para o cenário que apresenta:
Quando abro a janela da frente e vejo a fileira de árvores que percorrem todo o meu quarteirão e continuam no quarteirão seguinte, no seguinte e no seguinte... quando vejo a passagem das estações, o tempo das folhas verdinhas, o tempo das flores, o tempo em que as folhas caem, os pássaros, as abelhas, os insetos, sinto-me feliz por ter feito o que fiz.
(Rubens, o semeador)
Ela também sabe conversar com os leitores como se estivesse falando bem de pertinho:
Mas você não sabe o que aconteceu lá nos canteiros… Dona Margarida falou com a borboleta amarela. Contou que Julieta tinha saído com Romeu e Ventinho.
E a borboleta amarela criou coragem e foi falar com a borboleta azul.
As duas se juntaram, chamaram os maridos e foram falar com o senhor Vento e dona Ventania.
(Romeu e Julieta)
Algumas cenas que ela cria são líricas, poéticas:
Lúcia começou a olhar pela janela e as nuvens passavam, tão brancas, e o céu era tão azul, e em algum lugar do mundo as ondas do mar batiam na praia e levantavam espuma, e no parque tinha roda-gigante e montanha-russa.
E na esquina tinha o pipoqueiro e o homem que vendia algodão-doce e tinha um gordo que vinha pela rua assobiando uma música tão bonita e Lúcia se distraiu e soltou os pés da carteira e começou a subir, a subir...
(A menina que aprendeu a voar)
Outras, nem tanto:
— Verdade? Eles dizem a verdade? Pois eu não gosto desta tal de verdade! Prendam a verdade! Prendam todas as verdades! Percorram o reino! Vasculhem as cidades! Corram pelas ruas, entrem pelas casas! Espiem embaixo das camas! Remexam nas gavetas! E prendam todas as verdades! Quero todas muito bem presas no sótão real! Todas, todinhas! Embrulhadas, amarradas, presas no sótão real!
(Sapo vira rei vira sapo)
Ruth também sabe explicar as coisas de um jeito que todo mundo consegue entender:
— Meio ambiente é o lugar onde a gente vive, seja o planeta, seja a casa, seja o quintal.
(Quem vai salvar a vida?)
Ruth em 1978 | foto: Acervo Ruth Rocha
Ou:
Todos os homens são iguais e portanto têm o direito de viver num ambiente saudável. Todos têm o dever de proteger e respeitar o meio ambiente e a vida em todas as suas formas.
Os recursos da Terra, o ar a água e o solo, a flora e a fauna devem ser protegidos, para o nosso próprio bem e para o bem das criaturas que ainda vão viver no futuro.
Devemos, por isso, estudar cuidadosamente o que vamos fazer para proteger nosso planeta. (Azul e lindo: planeta Terra, nossa casa)
Ela sabe explicar bem mesmo quando fala de coisas nada bonitas:
— Ora – disse o Lauro – rabo preso é quando uma pessoa fez uma coisa malfeita e a outra pessoa sabe. Quer um exemplo? Você um dia, na escola, vê um colega seu roubar a caneta de seu amigo. Você fica com o rabo dele preso. No dia que ele ameaçar de contar que você colou na prova, você ameaça ele de contar que ele roubou a caneta, quer dizer, você puxa ele pelo rabo... Aí nunca mais ele pode fazer nada contra você. E você também fica de rabo preso, que você não pode nunca mais contar nada dele. Daí por diante toda falcatrua que um fizer o outro defende... (Uma história de rabos presos)
Sabe também dizer umas verdades. Aliás, Ruth sabe fazer isso muito bem:
Precisa ver que reizinho chato que ele ficou!
Mandão, teimoso, implicante, xereta! Ele era tão xereta, tão mandão, que queria mandar em tudo o que acontecia no reino. Quando eu digo tudo, era tudo mesmo!
A diversão do reizinho era fazer leis e mais leis. E as leis que ele fazia eram as mais absurdas do mundo.
Olhem só esta lei:
“Fica terminantemente proibido cortar a unha do dedão do pé direito em noite de lua cheia!” Agora, por que é que o reizinho queria mandar no dedão das pessoas, isso ninguém jamais vai saber.
Outra lei que ele fez: “É proibido dormir de gorro na primeira quarta-feira do mês.”
Agora, por que é que ele inventou essas tolices, isso ninguém sabia.
Eu tenho a impressão de que era mesmo mania de mandar em tudo.
(O reizinho mandão)
Por isso, Ruth sabe olhar criticamente para os adultos...
O senhor caracol ainda quis fazer um discurso: — Minhas senhoras e meus senhores. Como é para o bem geral
E para a felicidade nacional, Em meu nome e em nome
De todo mundo interessado, Como diria o conselheiro Furtado, Quero deixar consignado Que está tudo errado... Mas, como o caracol era muito enrolado, ninguém prestava atenção no coitado.
(A primavera da lagarta)
Sabe mostrar que os adultos também podem agir errado:
— Gente grande não entende nada de nada, mesmo!
(Marcelo, marmelo, martelo)
Ou:
A professora também já estava na lição do “Não Pode”.
— Não pode escrever no caderno com a caneta vermelha. Esta é só pros títulos. E não pode sentar de lado que é pra não atrapalhar os vizinhos. E não pode olhar pro lado, nem pra trás, e nem dar risadinhas, nem pode ficar mostrando figurinhas, esta porcaria de álbum, exploração de multinacional, vamos acabar com isso, e vamos acabar com essas conversas de programa de TV, é por isso que o Brasil não vai pra frente, crianças, não verão nenhum país como esse.
(A menina que aprendeu a voar)
Por isso, em suas histórias, nem sempre é errado a criança ser malcriada:
— Olhe aqui, minha filha! Eu sou o rei, sabia? Trate de dizer alguma coisa já, já! A menininha não disse nada, mas o papagaio, ouvindo a voz antiga do reizinho, arrepiou-se todo e gritou:
— Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca! Quando o papagaio disse isso, precisava ver a cara da menininha. Ela ficou vermelhinha também, arregalou uns olhos muito brilhantes e gritou, com toda a força:
— Cala a boca já morreu! Quem manda na minha boca sou eu!
(O reizinho mandão)
E Ruth sabe que cada um tem o direito de defender seu jeito de ser:
— Eu uso as cores que eu gosto, E com isso faço bem.
Eu gosto dos bons conselhos, Mas faço o que me convém.
Quem não agrada a si mesmo, Não pode agradar ninguém…
(Bom dia, todas as cores!)
Porque ela também sabe que as crianças têm seus direitos e que eles precisam ser respeitados:
Nos cartazes estava escrito:
DEIXEM NOSSO
PARQUE EM PAZ!
QUEREMOS NOSSO
PARQUE DE VOLTA!
NÃO PRECISAMOS DE MAIS MERCADOS. PRECISAMOS DE MAIS PARQUES.
(Davi ataca outra vez)
Sabe que as crianças não são nada bobas e às vezes entendem as coisas melhor que muitos adultos:
O papel que as crianças têm no mundo é o de educar os pais. E é assim que elas vão salvar a vida!!!
(Quem vai salvar a vida?)
Mas, quando é preciso, ela também sabe dar lições –sempre de um jeito muito especial:
— Olha aqui, mocinho. Esse negócio de ser rei não é assim, não! Não é só ir mandando pra cá, ir mandando pra lá. Tem que ter juízo, sabedoria. As coisas que um rei faz fazem acontecer outras coisas. Veja só o seu caso: mandou que mandou! Inventou uma porção de leis bobocas. Mandou todo mundo calar a boca, calar a boca, calar a boca! Decerto, com medo de que todo mundo dissesse que você estava fazendo bobagens. Pois todo mundo calou! Não era isso o que você queria?
(O reizinho mandão)
E sabe ensinar a gente a perceber como o ser humano pode agir de forma absurda:
E como é que eles se entendem?
E quem foi que disse que eles se entendem? Quer dizer, tem uns que entendem os outros, mas não é todo mundo, não. [...]
Algumas pessoas de um lugar brigam com as pessoas de outro lugar e eles chamam isso de guerra e então eles jogam uns nos outros umas coisas que destroem tudo o que eles passam um tempão fazendo. E até destroem eles mesmos. É muito difícil explicar esta tal de guerra porque eu também não entendi. Não sei direito pra que é que serve esta tal de guerra. Acho que é pra gastar as tais coisas que eles jogam uns nos outros e que eles fabricam em grandes quantidades e que fazem as cidades ficarem cada vez mais fedorentas.
(Este admirável mundo louco)
Mas ela sabe também do quanto cada pessoa é capaz quando quer mesmo mudar as coisas:
Chegou o dia da princesa sair para correr mundo. Ela não quis levar muita bagagem, para não ficar pesada. Saiu de madrugada, bem cedinho. Passou pela porta da frente e lá se foi a princesa, correndo, passando rasteira, jogando pedras. Quando chegou perto do dragão deu três pulos, que ela tinha aprendido no balé, chegou perto do muro, deu um salto com vara, passou por cima
da muralha, empurrou para a margem do fosso uma canoa que estava perto, remou com força e foi sair do outro lado. Pulou na margem, acenou para as pessoas que estavam olhando do castelo e se foi pelo mundo, procurando não sei o quê, mas procurando firme!
(Procurando firme)
Ruth nunca engana seus leitores:
De vez em quando eu escrevo umas histórias que eu invento e digo que foi meu avô que me contou. Eu faço isso porque as pessoas gostam muito dessas histórias antigas, que folclore hoje em dia é a última moda.
(... Que eu vou pra Angola...)
Mas inventa tão bem que a gente nem sabe dizer mais o que é verdade e o que não é:
Mas essa história, no duro, no duro que foi o meu avô que me contou.
Você vai lendo e vai imaginando meu avô, um velhinho careca, baixinho e muito divertido. Ele contava as histórias fazendo as vozes dos personagens, cantando em algumas partes e dançando nas outras…
(...Que eu vou pra Angola...)
Por fim, ela sabe entender os sentimentos das crianças:
Nas noites de calor a gente sentava na calçada e ficava conversando. E então a gente sentia o cheiro do jasmineiro da casa do alemão. Às vezes a gente pegava o binóculo do meu tio e ficava espiando o céu. Tinha sempre alguém que via direitinho São Jorge no seu cavalo matando o dragão na Lua. E os outros caçoavam, que não tinha dragão nenhum na Lua, era só olhar num telescópio para ver. Mas depois, quando quase todos já tinham ido embora, alguns de nós voltavam e espiavam de novo, porque no fundo, no fundo, a gente gostava mais de pensar que São Jorge estava lá, matando eternamente seu dragão, do que pensar que a Lua era uma grande bola de pedra, sem graça nenhuma… (Quando eu comecei a crescer)
Ruth também reconhece que nem sempre as crianças são boazinhas:
A conversa dos meninos era quase sempre sobre cachorros, e como ia ser bom se a dona Violeta morresse e não chateasse mais com essa história de não deixar ninguém ter bicho no apartamento.
(Alvinho, o edifício City of Taubaté e o cachorro Wenceslau)
— Eu não me chamo, não, os outros é que me chamam Gabriela.
Gabriela serelepe:
— Menina, para onde vai essa rua?
— A rua não vai, não, a gente é que vai nela.
Gabriela na escola:
— Gabriela, quem foi que descobriu o Brasil?
— Ah, professora, isso é fácil, eu só queria saber quem foi que cobriu.
(Teresinha e Gabriela)
Ruth sabe escrever histórias sobre o verdadeiro significado da amizade:
A festa do Beto era no velho terreno baldio. E Beto foi. E, quando chegou, sentiu que era uma verdadeira festa de Natal!
O terreno estava limpo. Todos os seus amigos estavam lá: seu Alexandre, seu Bertoldo, seu Júlio, dona Neném, os meninos… Havia luzes; estava tudo enfeitado.
E, no centro do terreno, estava a sua árvore. Grande, brilhante, exatamente como ele tinha sonhado. Cheia de luzes, de bolas coloridas, de guirlandas prateadas. A sua árvore, o seu pinheiro, com os galhos compridos, pesados de presentes.
(A árvore do Beto)
E até dar conselhos para a gente, de um jeitinho muito especial, ela sabe:
— Escute só mais uma coisinha. A gente não pode
desanimar quando as coisas estão difíceis. Se você prestar atenção nas histórias, você vai ver que todas as princesas precisaram de coragem, de paciência e de esperteza para conseguir sair dos seus problemas… (A Cinderela das bonecas)
Marisa Lajolo, em um texto em que analisa a obra de Ruth Rocha, afirma que o segredo de sua constante atualidade está em conseguir manter um diálogo vivo com seu tempo, “com tudo o que já se produziu, na longa cadeia de escritores e textos cujo conjunto configura uma literatura”. Mais que isso: valendo-se do humor, da ironia e de um trabalho cuidadoso com a linguagem, segundo Marisa, Ruth dialoga, sem se impor, com as expectativas de seus leitores, criando surpresas a todo momento. Por exemplo, quando diz as coisas de um jeito que muitos adultos pensam que criança não consegue entender:
Não parece história que a mãe da gente inventa pra gente ajudar a tal da ecologia?
(O menino que quase morreu afogado no lixo)
E veja só este caso:
Mas o cúmulo, mesmo, foi no dia em que um tal de Generalino Caradura chegou cedo no Palácio do Governo, e foi dizendo que o presidente tinha telefonado pra ele, e tinha pedido que ele ficasse na presidência por uns tempos, que ele estava muito gripado e que Brasília era muito longe, o trânsito estava impossível e coisa e tal...
E depois que ele entrou no palácio, quem diz que ele saía?
Mas nunca mais!
Ele inventava que agora não podia, porque estava resolvendo umas coisas importantes, que agora não podia, porque ia receber uma visita de fora, que agora não podia por isso, por aquilo, por aquiloutro.
Esse cara ficou no palácio durante anos, e só saiu quando soube que tinha um cara na casa dele morando com a mulher dele, gastando o dinheiro dele, e, o pior, usando o carro dele, que era feito sob encomenda nas oficinas especializadas.
(Uns pelos outros)
Deu para entender? Deu para morar um pouquinho na “ocupação” que a obra de Ruth Rocha propõe a cada um de seus leitores?
Mas você deve estar se perguntando de onde veio tanta inspiração. Então é preciso voltar um pouco no tempo para explicar.
“A literatura infantil nunca mais foi a mesma...”
Ruth em 2026 |
Essa frase, de autoria do jornalista Dau Bastos, resume bem o que aconteceu no mundo das publicações para crianças há mais de 50 anos, quando Ruth Rocha começou a trabalhar na Recreio, uma revista publicada pela poderosa editora Abril.
Sob o comando de Victor Civita, a Abril já havia inovado o mercado com a publicação de obras de referência, que eram vendidas em fascículos nas bancas, e com o lançamento de revistas semanais de atualidades políticas e sociais, como em 1966, com a Realidade, e em 1968, com a Veja, que existe até hoje.
Tendo se transformado, entre os anos de 1960 e 1970, na maior editora de jornais e revistas de toda a América Latina, a Abril era também responsável por várias publicações femininas, entre as quais se destacava a revista Cláudia, nas bancas desde 1961. Nela, uma educadora de nome Ruth Rocha escrevia artigos destinados a orientar as mães. Para as crianças, havia apenas os quadrinhos de Walt Disney e de outras empresas norte-americanas e nacionais.
Sentindo que faltava alguma publicação especificamente destinada aos pequenos, a Abril lançou, no mês de maio de 1969, a partir de um projeto desenvolvido pela jornalista Sonia Robatto, o número 1 da Recreio, publicação que iria revolucionar não apenas a ideia de escrever para crianças como também a própria imagem de criança que se tinha no Brasil.
Em torno da Recreio, Sonia reuniu um grupo de jovens jornalistas, escritores e ilustradores; eles passaram a publicar histórias e brincadeiras que contrariavam o bom comportamento típico das publicações infantis do período.
A revista tinha apenas 16 páginas, nas quais os leitores encontravam incontáveis novidades. Colorida, trazia em cada número uma pequena história distribuída pela parte central das folhas, rodeada por brincadeiras de escrever, desenhar, recortar, colorir e colar. Em tempos de TV em preto e branco e a anos-luz de distância da internet, a Recreio trazia maquetes de papel para as crianças recortarem e montarem. Era apresentada nas propagandas como “a revista-brinquedo”, “uma revista para ler e brincar” e, não por acaso, seu lema era: “Leia e pinte, recorte e brinque”. Rompendo com a sacralidade associada aos livros e à leitura, existia para ser rabiscada, colorida, recortada, picada... E aguardada com ansiedade, pois toda semana chegava um novo número, sempre cheio de diversões, às bancas de jornal. O preço era baratinho: 1 cruzeiro, a moeda da época. Logo as vendas atingiram a cifra de 250 mil exemplares semanais.
A pesquisadora Maria Lucia Machens, que estudou a história da revista e escreveu um livro sobre o assunto, informa que Sonia Robatto definiu o objetivo da Recreio como o “de ser uma revista infantil de caráter brasileiro, oferecendo textos com uma linguagem coloquial”. Dessa forma, “a linguagem escrita deveria aproximar-se cada vez mais da linguagem oral” (Machens, 2009). Além disso, os personagens das histórias, crianças ou animais antropomorfizados, eram colocados diante de situações que destoavam do que ocorria normalmente nos livros infantis, e as soluções a que cada escritora ou escritor chegavam estavam longe de ser corriqueiras.
Considerando que a revista “deveria ter algum cunho pedagógico, mas de forma tênue” (Machens, 2009), a primeira pessoa que Sonia convidou para assessorá-la foi Ruth Rocha, como colaboradora na criação das atividades pedagógicas. Logo em seguida, Ruth começou a escrever histórias e, quando Sonia deixou a Abril, tornou-se editora da Recreio.
Para manter vivos os objetivos da revista, Sonia (e, depois, Ruth) selecionava pessoalmente todas as pessoas que poderiam dela participar e as histórias que seriam publicadas.
É preciso lembrar que, nos anos 1970, o Brasil vivia dias difíceis, em plena ditadura militar, quando vigorava uma forte censura ao trabalho dos artistas. Dessa forma, os colaboradores que se reuniram em torno da Recreio vinham do mercado de publicações para adultos, no qual eram impedidos de trabalhar livremente. Assim, em sua maioria, eram novatos na arte de criar para crianças, mas foi dessa forma que muitos deles começaram uma nova carreira, acabando por se definir profissionalmente por esse caminho – além de trazerem ideias novas e mais libertárias sobre educação e crianças.
Os nomes dos que participaram dessa empreitada, especialmente na fase inicial (entre 1969 e 1970), nos dão uma pista do conteúdo das histórias que escreviam e continuaram escrevendo. Afora Ruth Rocha, alguns dos demais autores eram: Ana Maria Machado, jornalista exilada do Brasil por um período; os também jornalistas Marina Colasanti e Carlos Lombardi; Flávio de Souza e Sylvia Orthof, escritores de teatro; e Joel Rufino dos Santos, escritor, historiador, militante contra a ditadura e da causa antirracista, exilado de 1964 a 1966 e preso pela ditadura militar entre 1972 e 1974.
Motivadas pelo anseio por liberdade e democracia que as unia, essas pessoas publicaram histórias que se concentravam em temáticas como a aceitação das diferenças individuais; a resistência ao autoritarismo e defesa dos direitos democráticos; questões de identidade pessoal das crianças; o direito delas de ter suas próprias opiniões e emoções; a situação da mulher; e a divisão dos papéis sociais por gênero. Destacaram-se também assuntos como a valorização da cultura popular brasileira; a história do povo negro e de sua cultura – características das contribuições de Joel Rufino dos Santos e de algumas histórias de Ana Maria Machado –; e a literatura oral, lindamente tematizada em histórias também de Rufino e Machado e de Ruth Rocha.
Dessa forma, os principais objetivos da revista eram estimular um espírito de liberdade, de tolerância e de troca de ideias, promovendo o diálogo entre pessoas diferentes e fortalecendo
a democracia. As escritoras e os escritores envolvidos criaram uma nova literatura para crianças que levou adiante esse espírito, trazendo-o até os dias de hoje. Não apenas isso: com o impulso dado pela Recreio, outras pessoas passaram a escrever para crianças, no mesmo espírito, como Lygia Bojunga, João Carlos Marinho, Ziraldo, Edy Lima, Sylvia Orthof, já mencionada, e até Chico Buarque de Holanda.
Ruth Rocha e a Recreio
Ruth Rocha publicou 28 histórias nos seis anos em que escreveu para a Recreio. A primeira, “Romeu e Julieta”, como vimos, saiu na revista de número 10. Entretanto, apesar de se tratar de uma narrativa libertária, ela foi literalmente escrita sob coerção. A revista era semanal, então Sonia precisava que os autores de fato produzissem histórias. Diante da insegurança de Ruth em relação à sua capacidade de escrever para crianças, Sonia, durante um fim de semana em que ela e Ruth estavam juntas num sítio, a pôs “de castigo” num quarto, deixando-a sair só depois que tivesse uma história pronta. A história saiu e se transformou num dos grandes sucessos de Ruth, um sucesso que vem atravessando gerações, publicado em vários formatos diferentes.
Depois da publicação na Recreio, as histórias de Ruth foram sair em forma de livro apenas em 1976, em uma sequência de publicações, ainda pela editora Abril: Palavras, muitas palavras...; Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias; Nicolau tinha uma ideia; Romeu e Julieta e outras histórias; e Pedrinho pintor. Com elas, Ruth entrava definitivamente na carreira de escritora que, aos poucos, seria dominante em sua vida.
Nos anos que se seguiram, as histórias de Ruth passaram a ser publicadas em outros diversos livros e em coleções. E foram muitas: histórias de bichos, histórias com crianças ou adolescentes como protagonistas, histórias engajadas politicamente, histórias que defendiam o meio ambiente, recontos da literatura popular e da cultura universal, almanaques e até livros informativos e didáticos.
Todos eles lhe renderam vários prêmios, porém o prêmio maior, para ela, é o carinho incondicional que o público (as crianças, seus pais, avós e professores) lhe dedica. Em cinco décadas de carreira, os livros de Ruth Rocha construíram não apenas um mundo, mas muitos mundos em que todas as crianças podem morar, confirmando o que ela própria diz em um dos seus poemas: “ Toda criança do mundo mora no meu coração”.
Agora, para manter o clima, vou terminar à maneira de Ruth Rocha:
E assim aconteceu o que acabei de contar. Se gostaram, muito bem! Se não gostaram, azar! (Bom dia, todas as cores!)
Obras consultadas
Os trechos reproduzidos foram retirados das obras de Ruth Rocha indicadas entre parênteses ao final de cada citação.
As informações da revista Recreio e referências a ela, bem como à obra e às palavras de Ruth Rocha, foram retiradas dos seguintes livros:
BASTOS, Dau (org.). Ana & Ruth: 25 anos de literatura. Rio de Janeiro: Salamandra, 1995.
MACHENS, Maria Lucia. Ruptura e subversão na literatura para crianças. São Paulo: Global, 2009.
Lenice Bueno é especialista em formação de alfabetizadores pelo Instituto Superior de Educação Vera Cruz; mestra pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP), título obtido com a dissertação Odette de Barros Mott: renovação e conservadorismo na literatura infantojuvenil brasileira; e doutoranda em literatura brasileira pela mesma instituição. Foi editora de literatura infantil na Ática e gerente editorial da Salamandra, empresas nas quais editou obras de escritores como Ruth Rocha, Ana Maria Machado, José Paulo Paes e Adriana Falcão. Na Salamandra, foi responsável pela criação e edição da Biblioteca Ruth Rocha, que reúne a obra completa da escritora. Lecionou no curso de pós-graduação lato sensu em literatura para crianças e jovens do Instituto Superior de Educação Vera Cruz. Atua como tradutora e consultora editorial na área de livros para as infâncias e juventudes.
Ruth, com aproximadamente 2 anos, e a irmã Rilda, com cerca de 5 anos, 1934 | foto: Acervo Ruth Rocha
Ruth, por volta de 5 anos, e a irmã Rilda, com cerca de 7 anos, 1936 | foto: Acervo Ruth Rocha
ilustração: Caco Galhardo
Meus confetes para Ruth Rocha
por Pedro Bandeira
No começo da década de 1970, eu e Ruth Rocha trabalhávamos na mesma empresa, a editora Abril, mas não nos conhecíamos. Verdade que eu sempre levava as revistas Recreio para meus filhos, cheias de contos dela e de outros craques, mas ainda não me preocupava em saber quem eram os escritores-craques das histórias que aquela ótima revista infantil trazia.
Em razão do meu cargo, eu recebia gratuitamente tudo o que a Abril publicava. Certa vez, no bolo de revistas oferecidas, que incluía publicações diversas, como Capricho, Quatro Rodas, Veja, Manequim, Pato Donald e Cláudia, vieram quatro livros coloridos, quadradinhos, e eu os folheei, uma vez que não era comum a Abril publicar livros avulsos. Como eram livros infantis e eu escrevia, como freelancer, histórias curtas para diversas revistinhas infantis e juvenis, fui xeretar os tais livrinhos.
Que surpresa! Fiquei de boca aberta com a primeira grande lição que Ruth deu para este autor de literatura infantojuvenil que começava: ao escrever para a criança, ela não usava aqueles ridículos tatibitates que muita gente acha adequados quando se fala com crianças pequenas ou para elas se escreve. Ela facilitava a leitura, fugindo ao máximo de adjetivos e escolhendo substantivos adjetivados! Língua portuguesa pura, clara, simples, em ordem direta, sem frescuras.
Essa lição eu venho usando ao longo dos meus quase 50 anos como escritor de literatura infantojuvenil: num livro em que ela fala das letras, Palavras, muitas palavras..., esse truque ficava patente.
Ninguém precisa dizer que um delegado é severo, pois é isso que se espera dos delegados; você não precisa dizer que a bruxa da Branca de Neve é malvada, porque fazer maldade é a função das bruxas das historinhas. Mas ela ia mais longe. Na letra “D”, ela diz que essa letra serve para “DADO, MAS TAMBÉM PRA DELEGADO” (note-se que a frase depois de “dado” é uma redondilha maior, a duração do hausto natural da respiração, outro truque de Ruth). O conteúdo literário dessa comparação parece simples, mas não é. A criança que lê essa frase, ou a ouve, logo percebe que uma letra pode servir desde para denominar um brinquedo até para mostrar algo bastante distante como a severidade de um delegado. Brilhante?
Brilhante, sim, pois essa observação infantil serve para todas as próximas fases de alfabetização e de letramento, para aprender que as palavras, como as letras, servem para denominar até opostos (mais tarde, por exemplo, a compreensão de que “denúncia” e “delação” denominam o mesmo gesto, mas são palavras moralmente opostas). Assim, sem perceber, a criança absorve que precisa conhecer muitas palavras, para ter material para pensar, para ter ideias! Para não falar dos outros três livrinhos do conjunto, depois de tantos anos lendo Ruth Rocha, eu misturo tudo, acho que um era sobre números, outros talvez tenham sido A primavera da lagarta, ou Romeu e Julieta, ou Bom dia, todas as cores!, mas isso não importa, porque mergulhei e nunca “desmergulhei” da literatura dessa mestra. (Desculpe, Ruth, por usar suas lições de neologismos... Que tal misturarmos o açúcar no café com um “mexedorzinho”? Ou pousarmos nossa cabeça num “cabeceiro”?)
Tudo brilhante mesmo! Pois foi isso que achei naquela ocasião e perguntei a uma colega quem poderia ser aquela escritora tão surpreendente chamada Ruth Rocha, e ela respondeu que não só era minha colega de editora Abril, como a sala dela ficava no mesmo corredor onde eu trabalhava, distante pouco mais de dez salas da minha.
Fui para lá apressado e, ao abrir a porta da sua sala e pela primeira vez ver o seu rosto, eu a assustei, pois a primeira frase minha que ela ouviu foi “eu te amo!”.
E, ao longo da minha profissão, continuei amando a literatura ruthrocheana, com ela aprendendo e me maravilhando. E quem não?
Há tantos aspectos na genialidade dessa autora que nem sei se já percebi todos, mas os que eu já percebi são de arrasar. Ruth escreve pensando no leitor, na idade dele, no entorno dele, nas relações que ele possa ter, em suas dificuldades, em seus sonhos, tudo sempre centrado na idade do pequeno leitor. E como ela o conhece! Ela aproveita para ensinar coisas a seus leitores? Nunca! Ela apresenta letras e números para crianças pequenas, mas sua primeira intenção não é dar aulas de números ou de letras, mas fazer isso com a letra maiúscula de Literatura! Aliás, acima já ressaltei esse aspecto. Conheço autores que parecem escrever para maravilhar adultos que poderão, desse modo, adotar seu livro para seus alunos (e os alunos detestarão), ou para conquistar os adultos que são escolhidos como jurados de prêmios literários (e vários desses escritores conseguem ganhar diplomas, medalhas e estatuetas, prêmios que a criançada teria negado, se porventura alguma delas pudesse ser jurada de premiações...).
Quando criança e jovem, devorei toda a literatura de que pude lançar mão, desde Lobato até os juvenis, como Robert Louis Stevenson, Edgar Rice Burroughs, Maurice Leblanc, Alexandre Dumas, Sir Walter Scott, Mark Twain e tantos outros (logo os policiais, todos que pude), mas minha maior lição para me tornar um escritor foi de Ruth: a adequação etária comentada acima. Já sabendo disso ao me iniciar como escritor, como eu não estudara pedagogia nem psicologia, mas ciências sociais, história etc., tive de mergulhar na leitura de quem rebuscava, destrinchava e autopsiava o que é o desenvolver do ser humano, desde o nascimento até o final da adolescência. Aí toquei a estudar Nelly Novaes Coelho, Bruno Bettelheim e até as grandes contemporâneas, como Marisa Lajolo e Regina Zilberman. Logo depois, com o advento do Google, foi-me possível acessar sites de psicologia e ficar sabendo de novidades a esses respeitos. Até hoje bisbilhoto isso. Cada nova ideia que surge!
Há adultos que, ao dirigir-se a uma criança pequena, como eu disse, falam tatibitate; quando se dirigem a um menino de 13 anos, perguntam “qual o time que tu torce?” ou “qual é a tua banda predileta?”; mas, quando encontram uma autoridade, como o embaixador da Transilvânia, por exemplo, logo começam as “excelências” e a procura por palavras empoladas, lá engavetadas em seu vocabulário passivo. Mas os ruthrocheanos procuram conhecer o ser humano em cada etapa de seu desenvolvimento, sabendo que um ser humano, até os 3 anos, só conhece mamãe, papai, vovó e os coleguinhas com quem brinca e briga, se já estiver na escolinha ou na creche; sabendo que, até os 7 anos, seu conhecimento e interesse só vai talvez até o edifício ou a casa em que vive, não tendo ideia do que seja bairro, cidade e muito menos mundo; sabendo que, antes dos 12 anos, esses seres perambulam pela fantasia, como a Narizinho do Lobato, que ainda nem sequer reconhecem ironias e, portanto, mal entendem piadas; logo depois, porém, quando ultrapassam a menarca e a primeira polução, essas gentinhas já entram no que denominamos adolescência e esta mesma tem diferentes etapas que não vale a pena desenterrar num texto para revelar minha admiração por essa grande brasileira, Ruth Rocha.
Quero lembrar que eu e muitos veteranos da literatura infantojuvenil desenvolvemos nossos trabalhos durante a ditadura militar; tínhamos 20 anos quando ela nos esmagou e passávamos dos 40 quando ela afinal foi embora. Assim, jornalistas como eu fui antes de tornar-me somente escritor conhecem o peso da bota da censura. Nossa Ruth, porém, meteu o pé na jaca: logo de cara, para mostrar às crianças, desde cedo, o que é autoritarismo e o que é liberdade, o que é ditadura e o que é democracia, publicou O reizinho mandão E a censura? Como na certa eram esbirros que não liam, que mal pensavam, que só sabiam tolher-nos e calar-nos, devem ter deixado de lado a literatura infantojuvenil, especialmente a infantil; porque, no juvenil, se sabe de autores como Luiz Puntel, que teve problemas com Meninos sem pátria, e Ana Maria Machado também, mas esses, por sorte, não foram tão arrochados como o teatro, o jornalismo crítico, que deu cadeia para gênios como Ziraldo e
Millôr Fernandes, e os jornais diários, que tinham de substituir matérias proibidas com trechos de Os lusíadas, receitas de bolos e até falsas matérias sobre uma perna cabeluda que assombrava a população do Recife, como acabamos de saber pelo belo filme O agente secreto (2025).
E o caso da longa Guerra Fria, que assustou o mundo durante décadas, deixando-nos de fôlego sustido com a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, que na certa seria a última e o fim da humanidade? Como debochar daquele absurdo? Que tal Dois idiotas sentados cada qual no seu barril..., hein? Só que, em vez de os idiotas sentados serem Lyndon B. Johnson e Kruschev, agora são Trump e Putin! Os livros de Ruth atravessam décadas e servem de crítica, diversão e apoio aos filhos e até aos netos dos que se deliciaram com seus escritos na infância.
E a crítica espetacular dessa nossa autora quando a ditadura mandou tapar com placas todo o entorno do trajeto de um importante dirigente estrangeiro em visita ao Rio de Janeiro, para que seus olhos não fossem “feridos” pela visão de nossas comunidades, que na época chamavam-se favela? Ruth usa novamente a técnica de um reizinho de fábula e publica o imortal O rei que não sabia de nada. E todo mundo ficou sabendo que o rei podia fingir não enxergar nossa pobreza, e que se podia tentar ocultar a incompetência e os crimes – como os da ditadura da época.
Ruth faz tudo: usou exemplarmente a criatividade infantil durante a aquisição da linguagem em Marcelo, marmelo, martelo, quando as crianças inventam palavras de acordo com seu uso e sua utilidade. Você mesmo, que agora talvez esteja lendo estas linhas, fez isso no seu tempo, não fez?
Ruth escreve, às vezes, para mostrar as dificuldades das próprias crianças ao serem demasiadamente “cuidadas” pelos pais e submetidas, além da escola, a aulas de dança, de música, de esportes e da línguas estrangeiras. Agora, até o mandarim anda quase superando o ensino da língua inglesa! E Ruth mostra o quanto estamos roubando do tempo de nossas crianças,
para impedi-las de serem crianças, de terem tempo livre para si mesmas, para brincarem, para pensarem, para criarem, para ajudarem a si mesmas em seu próprio desenvolvimento.
Ah, como escarafunchar cada uma de suas mais de 150 obras espetaculares?
Finalizando, já disse acima que O reizinho mandão desmascarou e ainda desmascara o cala-a-boca, a ditadura, o mandonismo, a censura. E eu, agora, devo confessar: será que o enorme sucesso de meu livro A droga da obediência não é por ele ser a versão juvenil de O reizinho mandão?
Obrigado, Ruth Rocha, por ter ajudado tanto nosso Brasil a crescer e a formar novas gerações de olhos mais abertos; sou mais agradecido ainda pelas aulas que deu a tantos, e especialmente a mim. Por favor, professora, não me dê nota baixa no boletim...
Seu admirador e amigo,
Pedro Bandeira.
Pedro Bandeira é escritor e jornalista. Sua obra literária, voltada para o público infantojuvenil, adapta-se a diferentes faixas etárias e fases de letramento, contribuindo para a formação de leitores. Entre seus títulos mais conhecidos está a série Os Karas, destinada a adolescentes.
Ruth lendo para Mariana, Denise, Ana Beatriz e Dora Lorch, 1969 | foto: Acervo Ruth Rocha
ilustração: Caco Galhardo
Ficha técnica
OCUPAÇÃO RUTH ROCHA
Concepção e realização Itaú Cultural
Curadoria, projeto expográfico e projeto de acessibilidade Equipe Itaú Cultural
FUNDAÇÃO ITAÚ
Presidência do Conselho Curador
Alfredo Setubal
Presidência da Fundação
Eduardo Saron
COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL E ESTRATÉGICA
Gerência Ana de Fátima Sousa
Coordenação de estratégias digitais e gestão de marca Renato Corch
Edição de fotografia André Seiti e Letícia Vieira
Redes sociais Jullyanna Salles e Maria Eduarda Alves da Silva (estagiária)
Coordenação de comunicação institucional
Alan Albuquerque
Comunicação institucional William Nunes
Coordenação de eventos institucionais
Simoni Barbiellini
Eventos Aline dos Santos (estagiária) e Gabriela Oliveira Morais de Araujo
ITAÚ CULTURAL
Superintendência
Jader Rosa
CURADORIAS E PROGRAMAÇÃO ARTÍSTICA
Gerência Galiana Brasil
Coordenação de programação artística
Natalia Souza
Coordenação de curadorias Carlos Gomes
Pesquisa e produção executiva Letícia Santos, Roberta Roque e Sidney Almeida
CRIAÇÃO E PLATAFORMAS
Gerência André Furtado
Coordenação de criação Carla Chagas
Coordenação de produção Kety Fernandes Nassar
Produção editorial Pamela Rocha Camargo e Pedro Soares (estagiário)
Edição e produção de conteúdo Duanne Ribeiro, Gabriel Lopes (estagiário) e Heloísa Iaconis
Projeto gráfico, comunicação visual e ilustração
Yoshiharu Arakaki
Produção gráfica Lilia Góes (terceirizada)
Tratamento de fotos Humberto Pimentel (terceirizado)
Supervisão de revisão de texto Tatiane Ivo
Revisão de texto Karina Hambra, Marina Nicoli Garcia e Rachel Reis (terceirizadas)
Produção audiovisual Julia Sottili e Julya Lopes (estagiária)
Concepção de arte e produção de objetos Julia Sottili
Adereços Jessica Gois (terceirizada), Julia Sottili e Marcel Boaretto (terceirizado)
Captação de áudio Ana Paula Fiorotto e Raquel Vieira (terceirizada)
Captação de imagem Algazarra (terceirizada) e Karina Fogaça
Edição e finalização de áudio Ana Paula Fiorotto
Edição de imagem Algazarra (terceirizada)
Motion design Heb Freitas (terceirizado)
Interpretação em Libras Ponte Acessibilidade (terceirizada)
Transcrição, revisão e sincronização de legendas Little Brown Mouse (terceirizada)
MEDIAÇÃO CULTURAL
Gerência Tayná Menezes
Coordenação educativa Mayra Oi Saito
Equipe Ana Beatriz Carvalho, Bianca Martino, Edinho dos Santos, Edson Bismark, Gabriela de Oliveira Cordeiro (estagiária), Gleice Kely, Julia Fernandes dos Santos, Júlia Mussalam, Matheus Maia, Mônica Abreu Silva, Rafael Rodrigues, Siri Macedo, Vitor Narumi e Zurumu Guajajara (estagiária)
Coordenação de atendimento Zélia Peixoto
Equipe Amanda Rocha, Beatriz Machado (estagiária), Fefa Ferreira, Jhonathans Soares dos Santos (jovem
aprendiz), Matheus Paz, May Pardinho, Victor Soriano e Vinícius Magnun (até abril de 2026)
INFORMAÇÃO E DIFUSÃO DIGITAL
Gerência Tânia Rodrigues
Coordenação de documentação Felipe Albert Silva Lima
Equipe Fernando Galante e Talita Yokoyama
INFRAESTRUTURA E PRODUÇÃO
Gerência Gilberto Labor
Coordenação de produção de exposições Érica Pedrosa
Produção Iago Germano, Paloma Cassari, Rodrigo Auba (estagiário), Sarah Moreira (estagiária), Savi Albuquerque e Wanderley Bispo
CONSULTORIA JURÍDICA
Gerência Julia Baptista Rosas
Coordenação Daniel Lourenço
Advogados responsáveis Carlos Eduardo do Nascimento
Garcia e Mariana Alves dos Santos
AGRADECIMENTOS
Alexandre Machado, Ana Maria Machado, Caco Galhardo, Companhia das Letrinhas, Denise Lorch, Dora Lorch, editora Salamandra, Gilberto Colzani, Global Editora, Lenice Bueno, Maria Zilda da Cunha, Mariana Rocha, Miguel Rocha Colzani, Pedro Bandeira, Pedro Rocha Colzani, Rilda Lorch, Simone Galiano, Sonia Rosa e Verônica Costa
O Itaú Cultural (IC) e a curadoria agradecem a todos os fotógrafos que cederam imagens e a todos os artistas, sucessores e colecionadores que autorizaram a exibição de suas obras e as emprestaram para a exposição.
Foram realizados todos os esforços para encontrar os detentores dos direitos autorais incidentes sobre as imagens/obras aqui expostas e publicadas, além das pessoas fotografadas. Caso alguém se reconheça ou identifique algum registro de sua autoria, solicitamos que entre em contato pelo e-mail atendimento@itaucultural.org.br.
O IC integra a Fundação Itaú. Saiba mais em fundacaoitau.org.br.
Ruth com 1 ano de idade, 1932 |
foto: Acervo Ruth Rocha
Dados internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Fundação Itaú | Itaú Cultural
Ocupação Ruth Rocha / organizado por Itaú Cultural ; vários autores. - São Paulo : Itaú Cultural, 2026.
PDF ; 92 p.
ISBN: 978-85-7979-232-8
1. Rocha, Ruth, 1931- Crítica e interpretação. 2. Literatura infantojuvenil brasileira. 3. Escritores brasileirosBiografia. 4. Promoção da leitura. 5. Infâncias. I. Instituto Itaú Cultural. II. Fundação Itaú. III. Título..
CDD 028.5
Bibliotecário Fernando Galante Silva CRB-8/10536
Ocupação Ruth Rocha
9 de maio a 2 de agosto de 2026 terça a sábado, das 11h às 20h domingo e feriado, das 11h às 19h livre para todos os públicos