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Caminhando com Arte - Cultura do acesso

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Fundação Itaú | Itaú Cultural

HELISSA, Desiree.

Cultura do acesso / Desiree Helissa – São Paulo : Itaú Cultural , 2026. (Coleção Caminhando com Arte) 16 p. : il. color. ; PDF.

Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-7979-218-2

1. Mediação cultural. 2. Acessibilidade. 3. Cultura do acesso. 4. Público. 5. Arte-educação. I. Fundação Itaú. II. Itaú Cultural. III. Enciclopédia Itaú Cultural. IV. Título.

CDD 069.5

Bibliotecário Fernando Galante Silva CRB-8/10536

Capa:

Objeto tátil do programa Sextas Brasilianas, do Itaú Cultural, 2020

Foto: Agência Ophelia/Itaú Cultural

A Coleção Caminhando com Arte é resultado de uma parceria entre o programa Caminhando com Arte e a Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira . As publicações reúnem reflexões sobre conceitos, referências e práticas de mediação cultural e de educação não formal em museus, centros de memória e equipamentos culturais, oferecendo fundamentos teóricos e metodológicos para atividades educativas que promovem a diversidade de experiências, o pensamento crítico e a valorização da arte e da cultura institucional.

Boa leitura!

Cultura do acesso

apresentação do tema

Este caderno traz algumas reflexões acerca da cultura do acesso, da participação e do protagonismo de pessoas com deficiência no contexto da mediação cultural. Mais do que o emprego de determinadas estratégias de acolhimento e de ferramentas e tecnologias assistivas, o desenvolvimento de ações educativas anticapacitistas implica a adoção de práticas pautadas pela ética do cuidado, pelo diálogo e pela valorização pela contribuição de pessoas com deficiência no campo das artes e da cultura.

guia de ícones

Glossário

Perguntas ativadoras

Saiba mais

São Paulo, 2026.

Cultura do acesso e ética do cuidado

Uma prática educativa anticapacitista1em museus e centros culturais deve considerar os conceitos fundamentais da interdependência2 e da ética do cuidado3

Além disso, é essencial reconhecer a diversidade de experiências de pessoas com deficiência como um conjunto complexo de vivências que descrevem uma condição social historicamente marcada por apagamentos, violências, segregações e restrições de acesso à educação, ao mercado de trabalho, à saúde e ao lazer.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e o Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da Organização das Nações Unidas4 (ONU), definem pessoas com deficiência como:

[...] aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas.

(ONU, 2007).

glossário

1. Perspectiva crítica e política que combate o capacitismo, sistema de opressão que marginaliza pessoas com deficiência ao valorizar apenas corpos e mentes considerados “normais”, promovendo a equidade, a acessibilidade e o reconhecimento da diversidade funcional como parte legítima da condição humana.

2. Conceito que se refere à relação dinâmica entre os sujeitos, na qual o desenvolvimento individual está intrinsecamente vinculado à cooperação, ao diálogo e à construção coletiva do conhecimento.

3. Perspectiva ética e relacional que promove apoio respeitando a autonomia do sujeito e garantindo que quem recebe o cuidado, base das relações humanas, seja protagonista de suas próprias escolhas.

4. Instituição internacional fundada em 1945 com o objetivo de promover a paz, a segurança, os direitos humanos e a cooperação entre os países para o desenvolvimento sustentável e a solução de problemas globais.

Registro da ação “Vamos conversar sobre ser surdo?”, de Rimar Segala, no evento Diálogo em movimento, parte da programação do Fim de Semana em Família, do Itaú Cultural, 2018 Foto: Agência Ophelia/Itaú Cultural

glossário

5. Condições que implicam alterações no sistema neuromusculoesquelético que comprometem a mobilidade, a coordenação ou a motricidade, como paralisias, amputações ou alterações congênitas.

6. Condições caracterizadas pela redução parcial ou total da capacidade de ouvir, em diferentes graus e tipos.

7. Perda total (cegueira) ou parcial da visão.

8. Diferenças no desenvolvimento cognitivo que podem afetar habilidades adaptativas, como comunicação e autocuidado, e habilidades sociais.

9. Transtornos metais ou condições psicológicas que causam profundo sofrimento psíquico.

10. Associação de duas ou mais deficiências.

11. Discriminação ou preconceito contra pessoas com deficiência, manifestado em atitudes e práticas sociais, políticas ou culturais que valorizam corpos e mentes considerados “normativos”, em detrimento daqueles percebidos como diferentes ou incapazes.

12. Os termos def. e defiça são cunhados no contexto dos discursos pela cultura do acesso. Mais do que uma abreviação do termo “deficiente”, é uma terminologia política que demarca a compreensão da deficiência como uma identidade social e parte da diversidade humana.

“Def.” populariza-se nos anos 1990, a partir das atividades da Roda Viva Cia. de Danças e da produção de Carolina Teixeira.

Compreender que as deficiências (sejam elas físicas5 , auditivas6 , visuais7 , intelectuais8 , psicossociais9 ou múltiplas10) não se restringem a patologias, mas constituem um conjunto diverso de experiências sociais, nos permite refletir criticamente sobre as iniquidades e hierarquizações de acesso. O capacitismo11 normaliza a falta de acesso, produzindo a falsa impressão de que este constitui um privilégio e não um direito. Assim, a percepção de que pessoas com deficiência são exceções ou excepcionalidades leva instituições culturais a buscarem soluções rápidas e pontuais, negligenciando sistematicamente demandas de comunidades def 12 e expondo-as à fadiga do acesso13. Por outro lado, uma política institucional orientada pela cultura do acesso14 baseará suas práticas em uma concepção mais ampla de democracia e autonomia para todos os públicos, incluindo os def.

Segundo a professora, teórica feminista e ativista antirracista15 estadunidense bell hooks (1952-2021), não há educação sem amorosidade. Como princípio ético, portanto, é fundamental que se busquem as garantias sociais para o direito à liberdade e o bem viver para todas as pessoas. Assim, ações educativas em museus e centros culturais devem criar condições favoráveis para o engajamento de diversos públicos na produção de sentidos. Mais do que garantir a entrada física, a permanência ou a disponibilização de informações, devem promover contextos favoráveis a experiências críticas e sensíveis. Nesse sentido, a mediação cultural deve assumir uma dimensão social, incentivando o desenvolvimento de abordagens que valorizem encontros entre diferentes modos de fruir, dialogar e interpretar obras de arte e bens culturais. A experiência poética fomentada em suas ações educativas deve articular dimensões estéticas e políticas capazes de sustentar ações transformadoras orientadas pelo cuidado, pela escuta e pelo compromisso com a autonomia dos sujeitos envolvidos.

Construir um futuro def. implica realizar ações sensíveis que promovam um desvio de padrões predefinidos. No campo da mediação cultural, isso significa desenvolver práticas educativas amorosas e desobedientes, que tramam encontros. Mas, para que esses encontros sejam efetivos, é necessário engajar-se em algumas ações, como:

• identificar e romper barreiras;

• ampliar a oferta de estratégias, tecnologias e ferramentas assistivas;

• reconhecer e valorizar as contribuições def. na história da arte e cultura;

• sobretudo, investir na participação de pessoas def. na concepção e construção de dinâmicas educativas de forma dialógica.

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13. Termo definido pela pesquisadora e ativista Annika Konrad, refere-se ao esgotamento físico, emocional e cognitivo vivenciado por pessoas com deficiência diante da necessidade constante de reivindicar, justificar e negociar direitos básicos de acessibilidade em contextos cotidianos marcados por barreiras sistêmicas e capacitistas.

14. Perspectiva sociopolítica que promove a inclusão plena de pessoas com deficiência, fundamentada na eliminação de barreiras – físicas, comunicacionais e atitudinais – e na construção de ambientes acessíveis e equitativos como direito e não como concessão.

15. Antirracismo é a prática ou conjunto de ações voltadas para o combate do racismo, promovendo a igualdade racial e a justiça social de forma ativa e sistemática.

Identificando e superando barreiras

O Estatuto da Pessoa com Deficiência define como barreiras quaisquer entraves, obstáculos, atitudes ou comportamentos que causem limitações ou impeçam o acesso pleno à participação social, fruição, liberdade de expressão, de movimento, de acesso à informação, segurança, cultura, esporte e lazer. Essas barreiras são classificadas como: urbanísticas16 , arquitetônicas17 , nos transportes18 , nas comunicações e de informação19 , atitudinais20 e tecnológicas21

As barreiras contra pessoas com deficiência foram historicamente construídas, passando por fases de exclusão, segregação, integração e “inclusão”, até chegarmos, atualmente, à luta por acesso.

Conheça o Estatuto da Pessoa com Deficiência ou Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), marco legal que estabelece os direitos e garantias das pessoas com deficiência, promovendo a inclusão social, a cidadania e a igualdade de oportunidades, com base nos princípios da dignidade humana, do respeito à diferença e da não discriminação.

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16. Obstáculos físicos presentes no ambiente urbano, como calçadas irregulares, ausência de rampas, sinalização inadequada ou falta de piso podotátil, que dificultam ou impedem a livre circulação, o acesso e a permanência de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida nos espaços públicos e privados de uso coletivo.

17. Obstáculos físicos existentes nas edificações, públicas ou privadas, que limitam ou impedem o acesso, a circulação e o uso autônomo e seguro por pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, como escadas sem alternativa de rampas ou elevadores, portas estreitas, ausência de corrimãos e banheiros não adaptados.

18. Impedimentos físicos, operacionais ou comunicacionais presentes nos sistemas de mobilidade urbana e interurbana que dificultam ou inviabilizam o acesso, a utilização e a segurança das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, como a ausência de veículos adaptados, plataformas de embarque inadequadas, falta de sinalização acessível e treinamento insuficiente de profissionais para o atendimento inclusivo.

19. Obstáculos que dificultam ou impedem o acesso de pessoas com deficiência a conteúdos e meios de comunicação, sejam eles visuais, sonoros ou escritos, incluindo a ausência de recursos como interpretação em língua brasileira de sinais (Libras), legendas, audiodescrição, leitura fácil, tecnologias assistivas ou formatos acessíveis, comprometendo o direito à informação, à expressão e à participação plena na sociedade.

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20. Comportamentos, preconceitos, estigmas e práticas discriminatórias que desvalorizam, excluem ou inferiorizam pessoas com deficiência, sustentando o capacitismo e dificultando sua participação plena e igualitária na sociedade, mesmo na presença de acessibilidade física, comunicacional ou tecnológica.

21. Obstáculos decorrentes da concepção, do desenvolvimento ou do uso de tecnologias que não consideram os princípios da acessibilidade universal, dificultando ou impedindo que pessoas com deficiência utilizem dispositivos, softwares, plataformas digitais ou equipamentos de forma autônoma, segura e eficiente.

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22. A língua brasileira de sinais é um sistema linguístico, utilizado pelas comunidades surdas, de natureza visual-motora, com estrutura gramatical específica reconhecida oficialmente como meio legal de comunicação e expressão.

23. Conjunto de estratégias, métodos e recursos que visam ampliar ou substituir a fala de pessoas com deficiência na comunicação oral, promovendo sua expressão, compreensão e interação social de forma funcional e efetiva.

24. Estratégias e materiais pedagógicos que mobilizam simultaneamente diferentes sentidos –como visão, audição, tato, olfato – com o objetivo de ampliar a compreensão, a atenção e a aprendizagem, especialmente de estudantes com deficiência ou com diferentes estilos de processamento sensorial.

25. Materiais e ferramentas acessíveis que utilizam estímulos ao tato, como relevo, texturas, formas e temperaturas, para transmitir informações e facilitar a aprendizagem de pessoas com deficiência visual ou com outras necessidades educacionais relacionadas à percepção sensorial.

Estratégias, tecnologias e ferramentas assistivas

Tecnologias assistivas são todos os recursos, estratégias, práticas, serviços ou equipamentos necessários para garantir a autonomia de pessoas def., como tradução em Libras22 , Comunicação Aumentada Alternativa23 (CAA), recursos multissensoriais24 , recursos táteis25 , audiodescrição26, equipamento de leitura de texto, transcrição de textos em braille 27, emprego de caracteres ampliados e de alto contraste, legendas em português, estenotipia28, espaços de descanso sensorial e equilíbrio de estímulos, entre outros.

O desenvolvimento e a aplicação de recursos 29, abordagens e dispositivos assistivos é valioso para possibilitar ações educativas mais acessíveis para diversos públicos, não apenas para pessoas com deficiência. Nesse contexto, como sublinha a artista, educadora e pesquisadora Lígia Zamaro, a mediação cultural pode contribuir de forma particularmente poética.

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26. Recurso de acessibilidade comunicacional que consiste na narração objetiva de elementos visuais para tornar conteúdos visuais, como filmes, peças teatrais, exposições e ambientes, acessíveis a pessoas com deficiência visual.

27. Sistema de leitura e escrita tátil baseado em combinações de pontos em relevo organizados em células, desenvolvido para permitir o acesso à informação por pessoas com deficiência visual. É reconhecido como um instrumento fundamental para sua inclusão educacional, social e cultural.

28. Método de transcrição escrita da fala em tempo real realizado por meio de um teclado especial (máquina de estenotipia), que permite a produção simultânea de legendas, sendo um recurso de acessibilidade comunicacional voltado, principalmente, para pessoas surdas ou com deficiência auditiva.

29. Recursos assistivos são objetos, equipamentos, métodos, estratégias, práticas e serviços que possibilitem ou ampliem a participação de pessoas com deficiência, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social.

Intérprete de língua brasileira de sinais (Libras), 2023

Foto: Daniela Ramiro/ Itaú Cultural

A alternância da audiodescrição com a exploração de materiais sensoriais, aprimora muito o campo cognitivo, proporcionando melhores ferramentas para um conhecimento mais global, de objetos, situações e ambientes [...] A própria confecção de recursos multissensoriais já é em si uma intervenção criativa, que assume um caráter autoral no coração das equipes educativas. Nela, se relaciona a poética dos elementos presentes nas obras com o interesse primordial de torná-las acessíveis aos mais variados públicos, propiciando traduções estéticas e conceituais variadas. (Zamaro, 2019).

A oferta de recursos de acessibilidade em espaços públicos é fruto de uma longa história de mobilização política, porém, embora muitos equipamentos culturais adotem estratégias pontuais, como disponibilização de conteúdos audiovisuais em Libras ou de materiais táteis, essa oferta não implica um compromisso abrangente com a cultura do acesso. Afinal, é preciso considerar que a existência de rampas ou pisos podotáteis, por exemplo, não garante um combate efetivo ao capacitismo estrutural30; mais do que adaptações físicas ou emprego de recursos assistivos, é preciso identificar e combater práticas discriminatórias, rompendo barreiras atitudinais e questionando hábitos e comportamentos naturalizados por meio de um trabalho educativo e relacional que garanta o acesso e a permanência de pessoas com deficiência.

Objeto tátil do programa Sextas Brasilianas, do Itaú Cultural, 2020 Foto: Agência Ophelia/ Itaú Cultural glossário 30. Refere-se às barreiras e desigualdades incorporadas em instituições, leis, políticas e espaços sociais que dificultam a plena participação das pessoas com deficiência.

Desse modo, o desenvolvimento, a aplicação e o monitoramento da efetividade de ações educativas comprometidas com a cultura do acesso devem constituir uma prioridade estratégica da gestão institucional de museus e centros culturais, considerando-se inclusive os investimentos e aportes financeiros necessários para a capacitação e as necessidades técnicas envolvidas.

De fato, a ação educativa pode expandir o uso de recursos assistivos associando-os ao desenvolvimento de processos poéticos, o que amplia as abordagens da acessibilidade em um campo de reflexão crítica sensível e criativa. Afinal, a investigação sensorial, as potências plásticas e expressivas dos materiais em suas múltiplas formas, é inerente à prática e apreciação artísticas.

Valorização das contribuições def.

na história da arte

No âmbito da mediação cultural, devemos considerar os modos como as pessoas com deficiência foram compreendidas, representadas e omitidas pelo campo das artes. De fato, a ausência de representatividade, o apagamento e a representação estereotipada limitam nossas perspectivas sobre suas potencialidades e contribuições. A pesquisadora britânica Anne Delin argumenta:

A ausência de artistas com deficiência com suas histórias sendo contadas reforça os estereótipos culturais contra as pessoas com deficiência.

(Delin, 2004, tradução nossa).

Embora as obras de artistas como Nazareth Pacheco, Antonio Francisco Lisboa (Aleijadinho), Anita Malfatti e Arthur Bispo do Rosario sejam amplamente conhecidas, difundidas, debatidas e estudadas, pouco se menciona sobre suas identidades como artistas def.

A atuação de arte-educadores em contextos formais e não formais deve assumir um papel crítico frente aos discursos hegemônicos e cânones artísticos, de modo a recuperar e valorizar a diversidade.

Se as universidades, os museus e demais instituições culturais se abrem e se preparam para receber pessoas com deficiência e reduzir a privação cultural, o mesmo não acontece com a ampliação de exposições de artistas nessa condição.

(Barbosa; Minerini Neto, 2023, p. 5).

Sobre o enfrentamento à segregação no contexto def., considere a leitura do texto “Ativismo curatorial”, da pesquisadora e curadora estadunidense Maura Reily, do “Manifesto anti-inclusão” e do “Corpo intruso”, da performer e videoartista brasileira Estela Lapponi (1973), e da “Carta aos bípedes”, do professor, performer e dançarino brasileiro Edu O., diretor do Grupo X de improvisação.

Para conhecer uma ampla gama de referências de artistas com deficiência que atuam em diferentes linguagens e áreas de expressão, conheça o portfólio do projeto Arte e Acesso , do Itaú Cultural, que fomenta a expansão da participação de pessoas def. em programações culturais independentes e institucionalizadas.

A cultura do acesso envolve o emprego de diversas estratégias e ferramentas, mas, sobretudo, desenvolve-se como um conjunto de relações entre pessoas. Nesse sentido, é importante nos perguntarmos: Que estratégias educativas podemos propor para o estabelecimento de uma relação mais potente com a cultura def.?

A mediação cultural como prática anticapacitista

Equipamentos culturais são importantes espaços de educação e sociabilização . Refletir sobre práticas educativas anticapacitistas nesses espaços não se resume à aplicação de manuais ou fórmulas prontas; acima de tudo, é necessário desenvolver um letramento crítico 31 pautado pela experiência , pela pesquisa e pelo protagonismo de pessoas com deficiência. Afinal, a aplicação de estratégias e recursos de acessibilidade tem por finalidade construir possibilidades de interação entre pessoas, considerando a ação conjunta e colaborativa de agentes culturais , especialistas e pessoas com deficiência

As ações educativas com coleções e acervos artísticos em museus ou centros culturais são importantes oportunidades para a promoção do acesso, seja por meio de atividades teóricas (como encontros, visitas mediadas e palestras), seja pelo contato com práticas e processos artísticos (como oficinas e ateliês educativos 32 ) baseados no exercício do diálogo e na atenção sensível às necessidades, experiências e vulnerabilidades do outro para, só então, tomar decisões acerca dos procedimentos, dos recursos e das posturas adequadas.

A ética do cuidado, nesse contexto, é essencial para promover autonomia e trocas entre pessoas com deficiência. Artistas e educadores def. como Daniel de Moraes, o grupo Dissidência Def. e Carolina Teixeira, têm impulsionado ações formativas em história da arte def. e acessibilidade cultural. Soma-se a isso a pesquisa de Camila Alves, em E se experimentássemos mais? (2020), que destaca a importância de uma acessibilidade também alinhada com a estética e a cultura def.

glossário

31. Abordagem educacional que vai além da decodificação de textos, promovendo a capacidade de analisar, questionar e interpretar criticamente as mensagens veiculadas nas práticas sociais e culturais, com foco na construção de sujeitos conscientes, participativos e capazes de transformar a realidade por meio da leitura e da escrita.

32. Abordagens educativas que envolvem atividades práticas e experimentais relacionadas a diversos processos, técnicas e suportes artísticos.

glossário

33. As correntes de estudos crip constituem um campo interdisciplinar que questiona normas capacitistas e heteronormativas, reinterpretando a deficiência como construção social e cultural em diálogo com os estudos queer, enquanto o termo “aleijar”, ressignificado por pesquisadoras e artistas como Estela Lapponi e Lua Cavalcante, é usado como um marcador identitário e como tradução do crip por autoras como Mariana Rosa, Karla Garcia, Thais Becker e Laureane Lima.

Sobre práticas educativas e acessibilidade em mediação cultural, considere a leitura da publicação Mediações acessíveis , resultado do ciclo de encontros realizado pelo Instituto Tomie Ohtake em 2016.

Para conhecer mais sobre a cultura do acesso, consulte o Dossiê de acessibilidade da Fundação Itaú .

As ações educativas, nesse sentido, podem se beneficiar e ser subsidiadas por diversos recursos conceituais, sobretudo pelas reflexões e pelos repertórios oferecidos pelos estudos crip ou do alejo 33. Artistas e profissionais da mediação cultural, como Estela Lapponi e Lua Cavalcante, buscam ressignificar conceitualmente abordagens de mediação cultural de modo a valorizar as contribuições e a participação de pessoas com deficiência em suas interseccionalidades 34 , bem como de suas comunidades e redes de afeto (como no caso da parentalidade atípica 35 e das experiências Coda 36 , não encarando a pluralidade de corpos , linguagens e percepções como um obstáculo a ser superado, mas como uma diversidade a ser celebrada.

Práticas anticapacitistas em arte-educação constituem experiências poéticas, estéticas e críticas comprometidas com a participação ativa e autônoma de todas as pessoas, o que implica, em alguma medida, desafiar modelos normativos , hegemônicos e excludentes de gestão cultural, em prol do direito à fruição, produção e participação na circulação de bens culturais de forma equitativa e plural.

A construção institucional de uma intimidade do acesso 37 implica reconhecer as disputas e tensões envolvidas na formulação de diretrizes e parâmetros da gestão cultural e como estes são impactados e desafiados pela presença e permanência de corpos intrusos 38

glossário

34. O termo, cunhado pela jurista e pesquisadora Kimberlé Crenshaw, refere-se a um instrumento de análise que examina como diferentes formas de opressão e desigualdade, como de gênero, raça e classe, se cruzam e se potencializam.

35. Refere-se à experiência subjetiva e social de pais, mães ou responsáveis em relação a deficiências ou neurodiversidades.

36. Child of deaf adults (Coda) refere-se a uma pessoa ouvinte que cresceu em uma família com pais surdos, atuando frequentemente como intérprete, mediadora cultural e ponte entre o mundo surdo e o mundo ouvinte.

37. Termo conhecido pelos textos da ativista def. Mia Mingus. A intimidade surge quando alguém compreende as necessidades de acesso da pessoa com deficiência sem que ela precise pedir e sem demandar longas explicações.

38. Termo cunhado por Estela Lapponi que se refere a corpos cujas características físicas, sensoriais ou cognitivas os tornam deslocados ou indesejados pelos padrões sociais e culturais dominantes.

A pesquisadora e educadora brasileira Desiree Helissa propõe o termo “caleijamento” para denominar um conjunto de abordagens educativas comprometidas com o respeito e a valorização das experiências defs., engajadas na construção de uma cultura do acesso38 e marcadas pelo encontro com o outro, por uma ética amorosa, por um compromisso com a desobediência e pelo enfrentamento de padrões hegemônicos socialmente impostos. Para conhecer mais da produção da autora, recomendamos a leitura de seu livro Tá todo mundo rindo?

Sobre equidade de acesso de pessoas def., considere a leitura de “Ofensivas capacitistas e o medo de um planeta aleijado: desafios para o ativismo defiça”, das pesquisadoras Marivete Gesser e Márcia Moraes.

Conheça a seguir alguns projetos de mediação cultural anticapacitistas.

O programa Ocupações Acessíveis, realizado na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ), promove residências, oficinas e ações formativas conduzidas por artistas e educadores com e sem deficiência, como Lari Ferreira e Fernanda Costa, criando espaços de convivência, escuta e experimentação sensorial no desenvolvimento de práticas artísticas nas quais o acesso não é um complemento, mas parte essencial do processo criativo.

A iniciativa Sentindo os Sentidos, desenvolvida no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) por Leonardo Sassaki e Alice Procter, propõe a investigação do fazer artístico acessível e sensorialmente plural, convidando o público a experimentar a arte por meio do tato, da audição, do movimento e da escuta sensível.

A ação Saberes que Acolhem, realizada no Sesc Casa Verde (SP) e coordenada por Renata Figueiró, com Fabiana Coletta, Desiree Helissa e Tatiane Colevati, propõe um espaço de experimentação acessível, onde arte e tecnologia se entrelaçam para promover acolhimento e aprendizado mútuo.

O projeto de acessibilidade do Sesi Lab (DF), conduzido pela artista e educadora Lua Cavalcanti, tem foco no acolhimento de pessoas neurodivergentes e com transtorno do espectro autista (TEA). As visitas acontecem mediante ajustes sensoriais, como o desligamento de painéis de LED e a modulação da iluminação para reduzir estímulos intensos. Além disso, são disponibilizados recursos como brinquedos sensoriais e fones com abafadores de ruído.

O Itaú Cultural desenvolve uma programação de mediação cultural acessível que inclui a interpretação de conteúdos de exposições, debates, entrevistas e produções audiovisuais em língua brasileira de sinais (Libras) e a implementação de recursos táteis em espaços expositivos, além de uma programação cultural com comunidades, públicos e artistas def., destacando-se a atuação do poeta e educador Edinho Santos como referência nesse desenvolvimento.

reflexão final

Odesenvolvimento de uma cultura do acesso implica reconhecer que a participação de pessoas com deficiência não deve ser um complemento, mas parte basilar do fazer artístico e educativo. Essa abordagem exige que se questionem padrões normativos e estruturas excludentes, promovendo ambientes nos quais a diversidade de corpos, linguagens e modos de percepção seja valorizada. Ao integrar diferentes perspectivas e experiências, os espaços culturais tornam-se espaços de experimentação e convivência, nos quais o cuidado, o respeito e a presença ativa guiam decisões pedagógicas.

Nesse contexto, o anticapacitismo atua primeiramente como eixo orientador das ações educativas, incentivando a construção de iniciativas poéticas, estéticas e críticas que ampliam a participação social e cultural, consolidando a arte e a educação como instrumentos de emancipação e autonomia.

fontes de pesquisa

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BARBOSA, Ana Amália Tavares Bastos. Além do corpo: uma experiência em arte/ educação. São Paulo: Cortez, 2014.

BARBOSA, Ana Amália; MINERINI NETO, José. Uma odisseia inclusiva: grotesco e capacitismo a respeito da artista e professora Amália. Revista Palíndromo, Florianópolis, v. 15, p. 1-36, 2023.

CASALE, Desiree Helissa. Tá todo mundo rindo? Ilustrações de Paloma Barbosa. São Paulo: Editora Questione, 2023.

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ITAÚ CULTURAL. Dossiê acessibilidade. São Paulo: Itaú Cultural, 28 out. 2025. Disponível em: issuu.com/itaucultural/docs/dossi_acessibilidade. Acesso em: 21 jan. 2026.

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verbetes

• Ana Amália Tavares Bastos Barbosa

• Anita Malfatti

• Antonio Francisco Lisboa

• Arthur Bispo do Rosario

• Candido Portinari

• Coleções e acervos

• Escola de Artes Visuais do Parque Lage

• Estela Lapponi

• Francisco de Goya

• Instituto Tomie Ohtake

• Itaú Cultural

• Museu

• Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP)

• Nazareth Pacheco

• Sesi Lab

• Tarsila do Amaral

ESPAÇO DO EDUCADOR

núcleo de informação e difusão digital

Gerência

Tânia Rodrigues

Coordenação de Enciclopédia

Luciana Rocha

Coordenação de Documentação

Felipe Albert

Produção e pesquisa

Camila Fox

Matias Monteiro

Revisão

Quadratim

Redação

Desiree Helissa

núcleo de criação e plataformas

Gerência

André Furtado

Coordenação de produção

Kety Fernandes Nassar

Coordenação de design

Carla Chagas

Design

Girafa Não Fala (terceirizada)

Produção editorial

Pamela Rocha Camargo

Pedro Soares Bueno (estagiário)

Supervisão de revisão de texto

Tatiane Ivo

Revisão de texto

Karina Hambra (terceirizada)

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Caminhando com Arte - Cultura do acesso by Itaú Cultural - Issuu