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Caminhando com Arte - Arte moderna e contemporânea

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Arte moderna e contemporânea

Dados internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Fundação Itaú | Itaú Cultural

PALADINO, Luiza Mader.

Arte moderna e contemporânea / Luiza Mader Paladino – São Paulo : Itaú Cultural , 2026. (Coleção Caminhando com Arte) 12 p. : il. color. ; PDF.

Inclui bibliografia.

ISBN: 978-85-7979-214-4

1. Mediação cultural. 2. Arte moderna. 3. Arte contemporânea. 4. Arte Educação. 5. Educação não formal. I. Fundação Itaú. II. Itaú Cultural. III. Enciclopédia Itaú Cultural. IV. Título. CDD 709.04

Bibliotecário Fernando Galante Silva CRB-8/10536

Capa:

A refeição (1970), Maria Auxiliadora

Acervo Museu Afro Brasil Emanoel Araujo

Foto: Marcia Gabriel

A Coleção Caminhando com Arte é resultado de uma parceria entre o programa Caminhando com Arte e a Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. As publicações reúnem reflexões sobre conceitos, referências e práticas de mediação cultural e de educação não formal em museus, centros de memória e equipamentos culturais, oferecendo fundamentos teóricos e metodológicos para atividades educativas que promovem a diversidade de experiências, o pensamento crítico e a valorização da arte e da cultura.

Boa leitura!

Arte moderna e contemporânea

apresentação do tema

Este caderno apresenta um breve percurso pela produção artística moderna e contemporânea em relação às práticas de mediação cultural.

A compreensão dos contextos históricos de desenvolvimento da arte moderna e contemporânea permite um melhor entendimento de seus meios expressivos e dos processos de propor, investigar, experimentar e fruir obras de arte. Ao romper paradigmas artísticos estabelecidos, o Modernismo reformula perspectivas tradicionais associadas ao espectador e às formas de ensino da arte. Já os processos artísticos contemporâneos envolvem o público de maneira participativa, complexificando as conexões entre produção e apreciação, arte e cotidiano.

São Paulo, 2026.

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Glossário

Perguntas ativadoras

Saiba mais

Origens da arte moderna

Ouso cotidiano da palavra “moderno” geralmente está associado ao que é novo, inovador, tecnológico e original. Mas será que a condição moderna da arte se define pelos mesmos critérios? Afinal, o que é arte moderna e quando esse movimento se originou?

Segundo o historiador e crítico italiano Giulio Carlo Argan (1909-1992), arte moderna é um termo genérico empregado para designar a produção artística europeia (especialmente a francesa) produzida na conjuntura política e cultural do fim do século XIX ao início do século XX, período profundamente impactado pelas transformações econômicas e sociais provocadas pela Revolução Industrial.

A expansão das indústrias substituiu gradualmente a produção manual pelo uso de máquinas, alterando significativamente as relações de trabalho e o perfil demográfico das cidades, que cresceram com o êxodo rural e a chegada de imigrantes aos grandes centros metropolitanos como mão de obra operária. Essa nova realidade foi representada na pintura por meio do tema recorrente de multidões anônimas povoando as paisagens urbanas modernas, como observa o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867).

As reformas urbanas nas principais capitais europeias – especialmente em Paris, redesenhada por Georges-Eugène Haussmann (1809-1891) entre 1853 e 1870 – incorporaram ideias modernas ao traçado das cidades, lançando mão de extensas avenidas e bulevares, além de ampliar a malha ferroviária e o sistema de iluminação a gás. Essas mudanças impactaram os primeiros artistas modernos, em especial os impressionistas, que saíram de seus ateliês para aprofundar sua experiência da vida nas metrópoles por meio da pintura ao ar livre

A pintura moderna indicou os novos rumos da arte ao representar cenas corriqueiras, paisagens urbanas e grupos sociais até então pouco retratados na arte ocidental, como boêmios, ciganos e classes populares. Pouco a pouco, os artistas renunciaram à pintura de gênero e abandonaram os códigos pictóricos1 que tradicionalmente dominavam as academias de belas-artes2 desde o Renascimento, como a perspectiva linear, amplamente utilizada para criar efeitos de profundidade. Essa mudança privilegiava a superfície plana da tela e aspectos compositivos formais fundamentais do campo da arte.

glossário

1. Termo vinculado aos aspectos formais e compositivos da pintura.

2. Instituições de ensino de artes segundo ideais técnicos e modelos clássicos de beleza –relacionados à Antiguidade greco-romana e aos modelos academicistas europeus –, surgidas no contexto do Renascimento e consolidadas nos séculos XVI e XIX.

Apesar das perspectivas positivas diante do progresso industrial, o novo modo de produção econômico ampliou contradições, como o desalojamento em massa deflagrado pela urbanização haussmanniana, e intensificou os conflitos políticos no período. Segundo Argan, é o abandono do otimismo industrial e a tomada de consciência crítica dessas contradições que marcam o desenvolvimento das vanguardas artísticas modernas nos anos inaugurais do século XX.

O termo “vanguarda”, de origem militar, designava a linha de frente em campos de batalha. No campo da arte, passou a representar mudanças radicais nos modos de pensar e produzir. Os artistas de vanguarda recorreram a práticas revolucionárias e experimentais, antecipando novas visões de futuro e aproximando a arte da vida cotidiana. Assim, vanguardas europeias como C ubismo , S urrealismo , E xpressionismo e Construtivismo abriram novos rumos formais e intelectuais para a prática artística.

Semana de 22

As transformações radicais deflagradas pelas vanguardas europeias impactaram os artistas latino-americanos no início do século XX. Essa influência, contudo, não significou a importação irrestrita de estilos prontos, mas a reformulação desses de acordo com as particularidades socioculturais de cada país.

No Brasil, diversos acontecimentos contribuíram para a formação de discursos e práticas artísticas modernas. A historiografia brasileira, entretanto, costuma apontar a Semana de Arte Moderna de São Paulo, realizada em 1922, como marco inicial desse processo, ainda que ele tenha começado antes. Prova disso são as duas exposições individuais de Lasar Segall (1889-1957) realizadas em 1913 em São Paulo e Campinas, e a Exposição de pintura moderna Anita Malfatti (1889-1964), inaugurada em 1917 e severamente criticada por Monteiro Lobato (1882-1948) pelo suposto elitismo, hermetismo e adesão aos modismos da arte moderna.

De caráter interdisciplinar, a Semana de Arte de 1922 reivindicou mudanças radicais na literatura, nas artes plásticas e na música ao renunciar ao academicismo, considerado obsoleto e conservador.

A consagração desse evento tem sido objeto de questionamento e revisão histórica. Para entender as bases conceituais desses questionamentos à luz da historiografia atual, o artigo “A semana de cem anos”, de Frederico Coelho (1974) , é uma referência esclarece dora.

Quem tem medo da arte contemporânea?

É comum que o público manifeste dificuldade para compreender a arte contemporânea Afinal, por que um objeto cotidiano ganha status artístico ao ser exibido em um museu?

Para melhor compreender a produção artística contemporânea, é preciso abandonar a ideia tradicional de que a obra de arte resulta apenas do talento e da destreza manual de um artista, cuja genialidade se expressa pela representação fidedigna da realidade por meio de linguagens consagradas, como a pintura e a escultura. De fato, desde a segunda metade do século XX, a arte pop, o Minimalismo, a arte conceitual e a land art desafiam esses valores. Esses movimentos aproximaram os processos artísticos de outras formas de produção e questionaram concepções de autoria, noções de obra única e permanente e definições convencionais de belo. Um exemplo marcante dessa interseção das fronteiras entre arte e cotidiano é a obra Latas de sopa Campbell (1962), de Andy Warhol (1928-1987). Em sua criação, o artista se apropriou de imagens da cultura de massa e da publicidade, como a sopa enlatada Campbell, amplamente consumida na época. No livro O legado dos anos 60 e 70 , de 2005, a crítica de arte e curadora Ligia Canongia destaca:

Com a Pop, não interessa mais, como no Modernismo, encontrar um discurso autônomo para a arte, restrito a seus meios e princípios autorreferentes, mas, ao contrário, fazê-la aderir, sem restrições, às linguagens do mundo real (Canogia, 2005, p. 45).

A partir da década de 1960, o termo “experimental” passou a denominar a liberdade de recorrer a novas mídias na produção artística, como a videoarte, o registro fotográfico de performances, as intervenções urbanas e as instalações. Essas práticas contemporâneas ultrapassaram os limites das linguagens tradicionais do campo da arte e convidaram o público a experimentar a obra para além do imperativo da visão, por meio de múltiplos sentidos – olfato, tato, audição e paladar –, intensificando a interlocução da artes visuais com a dança, a música, o teatro e a literatura.

A arte conceitual problematizou ainda mais essas transformações ao questionar os próprios sistemas de legitimação da arte 3 A obra passou a ser entendida não apenas como objetos e formas, mas também como proposição de ideias e conceitos. Entre os anos de 1960 e 1980, a arte conceitual fomentou debates relevantes para o campo das artes sobre os circuitos oficiais de exibição por meio da crítica institucional 4 Na América Latina, o contexto de ditaduras militares intensificou a emergência desses debates e estimulou a proliferação de espaços alternativos de exposição e a ruptura com sistemas tradicionais de circulação da arte.

glossário

3. Sistema das artes é definido como o conjunto de instituições, agentes, práticas e discursos que regulam a produção, circulação, legitimação e recepção das obras de arte em determinado contexto histórico e cultural.

4. Termo que designa um conjunto de práticas artísticas que emergem nos anos 1960 e 1970, voltadas para o questionamento sistemático dos mecanismos e dos discursos de poder, exclusão e legitimação em instituições artísticas, como museus, galerias e o mercado de arte.

Registro da ação de Paulo Bruscky O que é a arte?

Para que serve?, 1978

Foto: Iara Venanzi/Itaú Cultural

Para aprofundar-se nas propostas e no legado da arte conceitual, recomendamos a leitura do livro Arte conceitual , da crítica, curadora e pesquisadora brasileira Cristina Freire (1961)

Na ação O que é a arte? Para que serve? (1978) , o artista pernambucano Paulo Bruscky (1949) provocou os limites da prática artística e dos locais consagrados de exibição ao caminhar pelas ruas do Recife com uma placa pendurada em seu pescoço com as perguntas: “O que é arte?”, “Para que serve?”. Ao se unir ao corpo social da cidade, Bruscky tensionava os sistemas de validação institucional e as hierarquias da arte.

Esses debates nos levam a outra questão: é possível reescrever os relatos da arte moderna e contemporânea sem reproduzir as discrepâncias geográficas, raciais e de gênero?

O contexto contemporâneo evidencia a importância da aproximação entre arte, política e subjetividade ao reconhecer a contribuição incontornável de pessoas negras, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+.

No texto “A pálida história das artes visuais no Brasil: onde estamos negras e negros?”, a artista e educadora Renata Felinto (1978) denuncia a invisibilização de artistas negros no sistema artístico, refletindo sobre o apagamento de agentes não brancos nos registros históricos e no ensino das artes visuais no Brasil. A autora defende a inclusão, em livros didáticos, de artistas negros como protagonistas de movimentos artísticos ocidentais, do barroco à arte contemporânea.

Nesse sentido, investigar a trajetória de artistas como Maria Auxiliadora (1935-1974) – pintora, bordadeira e costureira que retratou o cotidiano urbano e rural de lugares de sociabilidade afro-brasileira, como terreiros e rodas de samba – permite superar as narrativas tradicionais dos intelectuais que orbitaram a Semana de 22. Os trabalhos dessa artista dão dignidade à população negra em retratos de tons vibrantes, como a obra O almoço (1970).

Aprofunde o assunto com a leitura de “Todo cubo branco tem um quê de Casa Grande: racialização, montagem e histórias da arte brasileira” (2021). Nesse artigo, o curador Igor Simões discute a racialização e o caráter estruturalmente racista do sistema artístico brasileiro.

O questionamento dos cânones modernistas reformula tanto os discursos críticos quanto os meios de produção e os modos de exibição da arte. A crítica institucional, no contexto do desenvolvimento da arte conceitual, entre as décadas de 1960 e 1980, corrobora e aprofunda essa reflexão ao denunciar os meios

A refeição (1970), Maria Auxiliadora

Acervo Museu Afro Brasil

Emanoel Araujo

Foto: Marcia Gabriel

institucionais de legitimação do sistema das artes como reflexo das assimetrias recorrentes na sociedade.

As práticas contemporâneas também têm contribuído para a democratização da arte, sobretudo por meio de projetos de mediação cultural. De acordo com a arte-educadora Ana Mae Barbosa (1936) , a mediação cultural é social e, portanto, é fundamental aproximar a arte das pessoas e do mundo, tendo museus e centros culturais como espaços privilegiados para promover essa interlocução.

Um caso exemplar é a ação Domingos da Criação , conduzida pelo crítico Frederico Morais (1936) no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) em 1971. Durante a ditadura militar, ele promoveu uma série de atividades públicas nos espaços externos do museu. Nesses eventos eram disponibilizados aos frequentadores diversos materiais (papéis, tecidos, terra, fio) para a construção coletiva de trabalhos artísticos. Em meio às transformações nas artes visuais, Morais aproximou os campos da arte e da educação em uma ação precursora para a práxis da mediação cultural na contemporaneidade.

O pensamento moderno brasileiro articula-se com o campo pedagógico por meio de iniciativas que valorizam a prática e a apreciação poética, bem como os saberes e modos de fazer populares. Nesse sentido, os processos artísticos modernos e contemporâneos têm um papel fundamental no desenvolvimento de novos modelos de aprendizagem democráticos, dialógicos, críticos e participativos. A arte constitui, portanto, um campo privilegiado para a construção coletiva do conhecimento e para o desenvolvimento da sensibilidade, da criatividade e do engajamento social na formação integral dos sujeitos.

reflexão final

As profundas transformações ocorridas nas artes entre os séculos XIX e XXI redefiniram os modos de produção, difusão e fruição da arte, além do seu papel social. A ruptura com valores tradicionais – como a perícia técnica, a criação de obras únicas e a noção convencional de autoria – ampliou as experimentações artísticas, aproximando a arte de outros campos de produção e estabelecendo modos mais participativos de diálogo com os públicos.

Nesse contexto, configuram-se novos questionamentos dos sistemas de circulação e de legitimação da arte. Compreender essas transformações permite ampliar as experiências de aproximação entre a arte e a vida cotidiana por meio de práticas educativas não formais desenvolvidas em equipamentos culturais que incentivem a participação crítica do público.

fontes de pesquisa

ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BARBOSA, Ana Mae. Mediação cultural é social. In: BARBOSA, Ana Mae; COUTINHO, Rejane Galvão (org.). Arte/educação como mediação cultural e social. São Paulo: Editora Unesp, 2009.

CANONGIA, Ligia. O legado dos anos 60 e 70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

COELHO, Frederico. A semana de cem anos. ARS, São Paulo, v. 19, n. 41, 2021.

FREIRE, Cristina. Arte conceitual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

GREENBERG, Clement. Pintura modernista. In: COTRIM, Cecília; FERREIRA, Glória (org.). Clement Greenberg e o debate crítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. p. 101-110.

HOBSBAWM, Eric. Da revolução industrial inglesa ao imperialismo . Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.

MARTINS, Luiz Renato. Manet: uma mulher de negócios, um almoço no parque e um bar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

SANTOS, Renata Aparecida Felinto dos. A pálida história das artes visuais no Brasil: onde estamos negras e negros? Revista Gearte, Porto Alegre, v. 6, n. 2, p. 341-368, maio-ago. 2019. DOI: 10.22456/2357-9854.94288. Disponível em: seer.ufrgs.br/index. php/gearte/article/view/94288. Acesso em: 19 jul. 2025.

SIMÕES, Igor Moraes. Todo cubo branco tem um quê de Casa Grande: racialização, montagem e histórias da arte brasileira. Revista Philia – Filosofia, Literatura & Arte, Porto Alegre, v. 3, n. 1, p. 314-329, maio 2021. DOI: 10.22456/2596-0911.113790. Disponível em: seer.ufrgs.br/index.php/philia/article/view/113790. Acesso em: 21 jul. 2025

verbetes

• Academicismo

• Ana Mae Barbosa

• Andy Warhol

• Anita Malfatti

• Arte conceitual

• Arte contemporânea

• Arte moderna

• Arte pop

• Construtivismo

• Cristina Freire

• Cubismo

• Domingos da Criação

• Earthwork

• Exposição de pintura moderna

Anita Malfatti

• Expressionismo

• Frederico Morais

• Giulio Carlo Argan

• Impressionistas

• Instalação

• Lasar Segall

• Maria Auxiliadora

• Minimalismo

• Monteiro Lobato

• Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio)

• O almoço

• O que é a arte? Para que serve?

• Paulo Bruscky

• Performance

• Pintura ao ar livre

• Pintura de gênero

• Renascimento

• Renata Felinto

• Semana de Arte Moderna

• Surrealismo

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Revisão de texto

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