Skip to main content

Caderno do Professor - Lygia Clark e o ensino de matemática

Page 1


LYGIA CLARK E O ENSINO DE MATEMÁTICA

Dados internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Fundação Itaú | Itaú Cultural

NUNES, Katia Regina Ashton. Lygia Clark e o ensino de matemática / Katia Regina Ashton Nunes –São Paulo : Itaú Cultural , 2026. (Cadernos do professor) 24 p. : il. color. ; PDF.

Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-7979-223-6

1. CLARK, Lygia. 2. Matemática - estudo e ensino. 3. Arte contemporânea. 4. Arte e matemática. 5. Ensino fundamental. 6. Sequência didática. 7. Plano de aula. I. Fundação Itaú. II. Itaú Cultural. III. Enciclopédia Itaú Cultural. IV. Título.

CDD 372.7

Bibliotecário Fernando Galante Silva CRB-8/10536

guia de ícones

analisar, questionar, elaborar hipóteses, comentar (questionando)

assistir, apresentar (vídeo)

comentar, explicar

dica

discutir, conversar

observar, ver (obra de arte)

oficina, prática artística e experimentação

pesquisar, aprofundar, procurar

recuperar, retomar, relembrar registrar

título

Lygia Clark e o ensino de Matemática

apresentação

Lygia Clark propôs uma obra interativa que exige a participação direta do público, tornando-o coautor da experiência artística. Este caderno constitui um convite para conhecer e refletir sobre a trajetória e a produção da artista, bem como sobre a maneira pela qual suas propostas poéticas e conceituais oferecem oportunidades para a aprendizagem de conteúdos e para o desenvolvimento de habilidades relacionadas à Matemática no contexto da sala de aula.

objetivos

• Possibilitar o conhecimento das propostas artísticas de Lygia Clark desenvolvidas entre 1947 e 1964;

• Contextualizar essas experiências no âmbito do movimento neoconcreto;

• Promover a reflexão sobre o potencial sensível e conceitual da abordagem das obras da artista no ensino da Matemática;

• Explorar conteúdos e favorecer o desenvolvimento de habilidades e competências relacionadas ao estudo da Matemática no Ensino Fundamental, por meio de vivências de práticas artísticas capazes de tornar a sala de aula um ambiente mais sensível, lúdico e prazeroso para a aprendizagem.

áreas do conhecimento

Matemática e Artes Visuais.

segmento(s) e habilidades da BNCC

Ensino Fundamental – Anos Finais: EF06MA07, EF06MA18, EF06MA20, EF06MA22, EF06MA25, EF07MA21, EF07MA27, EF07MA32, EF08MA15, EF08MA18, EF08MA19, EF09MA15, EF69AR01, EF69AR02, EF69AR04, EF69AR05, EF69AR06, EF69AR07 e EF69AR31.

duração

7 aulas.

recursos necessários

• Folhas de papel sulfite;

• Papel Paraná;

• Tesoura;

• Cola;

• Lápis de cor;

• Régua;

• Papelão ou embalagens cartonadas do tipo longa vida;

• Película adesiva (papel contact);

• Fita adesiva.

São Paulo, 2026

Lygia Clark

Escada, 1951

óleo sobre tela 72 x 98cm

Foto de Fernando Aurélio

Silveira/Associação Cultural

“O Mundo de Lygia Clark”

1º MOMENTO

Vida e obra de Lygia Clark

Nesta sequência didática, investigaremos a trajetória artística de Lygia Clark (1920-1988) no período entre 1947 e 1964, fase que compreende a atuação da artista no movimento neoconcreto e a consolidação de propostas que contribuem de modo significativo para o ensino e a aprendizagem da Matemática. Convide os estudantes a conhecer a artista, observando como a sua obra impactou a cena artística e colaborou para a difusão internacional da arte brasileira, ao mesmo tempo que reformulou as formas de apreciação e fruição em espaços museológicos.

Inicie apresentando a obra Escada (1951)

Peça que os estudantes descrevam o que observam e quais sensações essa obra lhes desperta. Questione se conseguem identificar o suporte, a técnica e os materiais utilizados pela artista. Em seguida, apresente o nome da obra, o ano de sua produção e suas dimensões.

Relate o início da trajetória artística de Lygia Clark : em 1947, ela deixa Belo Horizonte, em Minas Gerais, e muda-se para o Rio de Janeiro, dando início à sua formação artística sob a orientação do pintor e paisagista Burle Marx (1909-1994). Entre 1950 e 1952, vive em Paris, onde estuda com o pintor francês Fernand Léger (1881-1955). Esse período constitui o ponto de partida para a ruptura progressiva com a figuração e para a consolidação do caminho da abstração geométrica, fase em que realiza a obra Escada

Observe como o emprego da geometria nessa composição oferece a oportunidade de explorar conteúdos da Matemática, como o estudo de ângulos, retas, triângulos e quadriláteros. Em seguida, peça que os estudantes, organizados em grupos, realizem uma pesquisa detalhada, em livros ou na internet, sobre a vida e obra da artista, desde seu nascimento até 1964. Considere indicar a leitura do verbete da artista na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira A partir deste levantamento, oriente-os na elaboração de uma linha do tempo que relacione os dados encontrados a acontecimentos históricos, políticos e sociais relevantes ocorridos no Brasil e no mundo durante a vida de Lygia Clark. Aproveite essa atividade para discutir como a produção artística se vincula diretamente a seus contextos históricos, retomando, por exemplo, a afirmação do artista espanhol Pablo Picasso (1881-1973): ”Não há arte do passado, nem do futuro. A arte que não é do presente jamais será arte” (PICASSO, P. apud CLARET, Martin: 1997).

A construção da linha do tempo possibilita que os estudantes exercitem cálculos matemáticos ao relacionar determinados eventos à biografia da artista. Nesse sentido, convide-os, por exemplo, a identificar:

• Quando Lygia Clark nasceu? Há quanto tempo isso ocorreu?

• Em 1947 ela sai de Belo Horizonte e se muda para o Rio de Janeiro. Qual a idade dela nessa época?

• Quando a artista vai a Paris para estudar com Fernand Leger, que idade ela tem?

• Há quanto tempo ela pintou a obra Escada?

Após essa discussão, proponha que usem a imaginação e a criatividade para realizar, individual ou coletivamente, releituras da obra Escada Explique que releitura não consiste em uma simples reprodução ou cópia, mas em um processo de interpretação e reelaboração, que resulta na criação de uma nova obra a partir da percepção de suas características mais marcantes. Essas releituras podem ser desenvolvidas com diferentes materiais, técnicas e dimen-

sões, como dobraduras de papel, colagem, desenho ou modelagem, inclusive transformando uma obra bidimensional em tridimensional. Na arte moderna e contemporânea, a releitura e a citação são práticas recorrentes, por meio das quais um artista dialoga com a produção de outros. Pablo Picasso, por exemplo, produziu cerca de 58 releituras da célebre pintura As meninas (1656), do pintor espanhol Diego Velázquez (1599-1660).

2º MOMENTO

Descobrindo o Concretismo e Neoconcretismo

O movimento da arte concreta defendia uma produção artística racional e não representativa, fundamentada na relação plástica entre elementos formais como linha, cor, plano e forma. O desenvolvimento da arte concreta no Brasil se relaciona, sobretudo, ao impacto da obra do pintor, escultor e designer suíço Max Bill (1908-1994). Para ele, o fundamento de toda obra plástica residia na geometria e nas relações de posição no plano ou no espaço. A participação e a premiação desse artista na primeira edição da Bienal de Arte de São Paulo, em 1951, com a escultura Unidade tripartida (1948-1949), mobilizaram artistas brasileiros, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, a se engajarem de modo mais consistente em experiências no campo da linguagem geométrica.

Em 1952, forma-se o Ruptura, grupo de pintores concretos de São Paulo liderado por Waldemar Cordeiro (1925-1973). No ano seguinte, constitui-se o Gr upo F rente , núcleo do concretismo carioca organizado em torno de Ivan Serpa (1923-1973) e com Lygia Clark como uma de suas fundadoras. Os artistas desse grupo defendiam a articulação entre a linguagem formal e aspectos como expressividade, sensibilidade e emoção. Essa divergência de concepção artística se torna inconciliável e, em 1959, o grupo carioca rompe com o Concretismo, dando origem ao neoconcretismo.

O movimento Neoconcreto, cujo manifesto foi escrito pelo poeta e crítico de arte Ferreira Gullar (1930-2016) , buscava revitalizar a relação entre o sujeito e a obra de arte por meio da participação ativa do espectador, que passaria a desempenhar o papel de coautoria. Nesse contexto, o artista deixa de ser apenas um produtor de objetos artísticos para se tornar um propositor de experiências.

A partir da apresentação desse contexto histórico, proponha que os estudantes se organizem em grupos de três ou quatro integrantes para pesquisar

informações adicionais sobre o movimento neoconcreto, bem como sobre obras e artistas associados a ele. Incentive-os a compartilhar e discutir coletivamente os resultados de suas investigações.

3º MOMENTO

Investigando a série Planos em superfícies moduladas

Entre 1955 e 1958, Lygia Clark passa a explorar a pintura para além de seus suportes tradicionais, como se observa na série Planos em superfície modulada (1957). Nessa produção, a artista abandona o uso do pincel e da tela e passa a realizar composições formadas pela justaposição de placas de aglomerado de madeira, recobertas com tinta industrial ou automotiva, organizadas de modo semelhante a um jogo de quebra-cabeça.

Apresente aos estudantes a obra Planos em superfície modulada n. 3 (1957).

Lygia Clark Planos em superfície modulada n. 3, 1957

tinta industrial sobre madeira

75,8 x 75,8cm

Foto de André Arruda

Pimentel/Associação Cultural

“O Mundo de Lygia Clark”

Proponha que observem atentamente a obra e tentem reproduzi-la por meio de dobraduras de papel, analisando cada dobra realizada. Incentive-os a identificar, durante esse processo, alguns conceitos matemáticos, como ponto médio, ângulo reto, formas geométricas, diagonal, área, polígono convexo, polígono regular, entre outros conceitos. Em seguida, solicite que realizem nova reprodução da obra utilizando o material de desenho geométrico e/ou softwares específicos, como o programa Régua e Compasso, e que respondam às questões a seguir:

• Quais quadriláteros figuram na obra?

• Existem polígonos não convexos na obra?

• Qual o nome do polígono regular que aparece nela? Esse polígono tem quantas diagonais?

• O quadrilátero em laranja é um losango? Justifique sua resposta.

• Qual a medida dos ângulos internos de cada trapézio que figura na obra?

• Qual a área e o perímetro da obra?

• Qual a área e o perímetro do quadrado em laranja?

Peça que os estudantes recortem a obra reproduzida, obtendo um quebra-cabeça composto por doze peças. Oriente-os a sobrepor as peças recortadas e a verificar que todos os quadrados são congruentes entre si, assim como todos os trapézios. Em seguida, proponha que realizem as seguintes montagens:

• Com 2 peças, um retângulo.

• Com 2 peças, um trapézio.

• Com 2 peças, um pentágono.

• Com 2 peças, um paralelogramo.

• Com 2 peças, um polígono não convexo.

• Com 3 peças, um quadrado.

• Com 3 peças, um trapézio.

• Com 4 peças, um retângulo.

• Com 5 peças, um retângulo.

• Com 6 peças, um retângulo.

Dê continuidade à investigação da obra com os estudantes, revisando conteúdos referentes ao estudo de frações

• O quadrado laranja que figura em Planos em superfície modulada n. 3 (1957) representa que fração da obra?

• Na composição, os quatro quadrados congruentes, considerados em conjunto, representam que fração do total?

• Observe atentamente a obra e identifique o desenho de um cata-vento formado por quatro trapézios congruentes. Esse cata-vento representa que fração da obra?

• Utilize papel manteiga ou outro recurso para fazer cópias da obra e proponha que os estudantes pintem, de três maneiras diferentes, ¼ dela.

• Em seguida, utilize novas cópias da obra para que eles represente, também de três formas diferentes, ¾ da obra.

Para finalizar a aula, apresente aos estudantes o Tangram, um quebra-cabeça de formato quadrado composto por sete figuras geométricas – cinco triângulos, um quadrado e um paralelogramo – que possibilitam a construção de inúmeras composições e a exploração de diferentes conteúdos matemáticos, como ângulos, frações, congruência, semelhança, área, entre outros. Essa atividade favorece, ainda, o desenvolvimento de habilidades, como a visualização, a criatividade e a percepção espacial. De forma semelhante, a obra Planos em superfícies moduladas n. 3 (1957) também é constituída por módulos poligonais que, articulados entre si, resultam na formação de um quadrado.

4º MOMENTO

Conhecendo outras obras da série

Planos em superfícies moduladas

Retome brevemente os pontos principais discutidos na aula anterior. Em seguida, peça que os estudantes observem as obras Planos em superfície modulada n. 2 (1956) e Planos em superfície modulada n. 4 (1957).

Lygia Clark

Planos em superfície modulada n. 4, 1957

tinta industrial sobre madeira 80 x 80cm Foto de Autoria desconhecida/Associação Cultural “O Mundo de Lygia Clark”

Lygia Clark Casulo, 1959

Foto de Autoria desconhecida/Associação Cultural “O Mundo de Lygia Clark”

Aproveite essa etapa para ampliar os conhecimentos deles referentes às transformações geométricas de reflexão, translação e rotação. Em conjunto, identifiquem e experimentem a construção de figuras que apresentam esses tipos de simetria, bem como aquelas obtidas por meio da composição de diferentes transformações.

Proponha que os estudantes pesquisem outras obras da artista nas quais seja possível identificar a presença de simetria. Em seguida, convide-os a criar sua própria produção visual utilizando uma das simetrias estudadas. Essas obras podem ser elaboradas com material de desenho geométrico ou com auxílio de softwares de geometria dinâmica, como o GeoGebra, que dispõe de ferramentas específicas para o estudo de reflexão, translação e rotação.

Após a conclusão do trabalho, organize com os estudantes uma exposição das diferentes obras criadas por eles a partir da análise da série Planos em superfície modulada. Escolha um espaço na escola que favoreça o acesso dos demais alunos e de seus responsáveis à mostra. Sugira também que elaborem um breve texto explicativo para acompanhar as obras,destacando a importância dessa série de Lygia Clark para a arte brasileira

5º MOMENTO

Dos Casulos aos Bichos

Em 1959, Lygia Clark inicia a série Casulos , na qual o quadro é projetado para o espaço por meio de dobraduras, de modo que a superfície adquira tridimensionalidade.

As obras dessa série são compostas por placas fixas na parede e exploram a maleabilidade e a possibilidade de dobra do metal para a criação de um espaço interno. Essa série constitui uma zona intermediária entre a pintura e a escultura na produção da artista. Observe que, embora sejam estruturas inertes, essas obras produzem a sensação de movimento.

Peça aos estudantes que reproduzam uma obra dessa série e, em seguida, que criem seu próprio casulo, utilizando a técnica empregada pela artista. Aproveite a atividade para refletir com os estudantes sobre a transição da bidimensionalidade para a tridimensionalidade na obra de Lygia Clark

Os artistas neoconcretos buscavam modificar as relações tradicionais entre o espectador e a obra de arte por meio da participação ativa do público, orientada por uma experiência sensível e sensorial. Eles defendiam uma arte vivencial, capaz de superar a separação entre experiência artística e a vida cotidiana. Lygia Clark, por exemplo, afirmou:

“A arte não consiste mais em um objeto para você olhar, achar bonito, mas para uma preparação para a vida.” (CLARK. L. in BUTLER et al.: 2014.)

Impactada pela escultura Concreção 5730 (1957), de Luiz Sacilotto (1924-2003), Lygia Clark declarou que produziria uma obra semelhante, porém capaz de ser movimentada. Entre 1960 e 1964, a artista efetivamente transita do plano para

Luiz Sacilotto

Concreção 5730, 1957

Foto de Autoria desconhecida

© Sacilotto, Luiz/ AUTVIS, Brasil, 2026.

Lygia Clark

Bicho de Bolso, 1960 alumínio anodizado

Foto de Michel Desjardins/ Associação Cultural

“O Mundo de Lygia Clark”

o espaço ao acrescentar dobradiças a estruturas similares às da série Casulos na sua série Bichos, formada por placas de metal polido articuladas. Nessas obras, a participação do espectador passa a integrar o próprio sentido do trabalho artístico. O título da série faz referência a organismos vivos, cuja estrutura dinâmica se transforma continuamente, evocando a ideia de que a articulação entre os planos assemelha-se à função de uma espinha dorsal.

Apresente aos estudantes o vídeo que registra a interação do público com réplicas de diversos tamanhos dessa obra na exposição Lygia Clark: uma retrospectiva, realizada em 2012 no Itaú Cultural. Observe como essa obra é movimentada por meio de gestos contínuos, invertendo a recomendação convencional de museus e galerias e incentivando o público a investigar esses objetos por meio do toque.

Ao conhecer essa série, o crítico de arte Mário Pedrosa (1900-1981) descreve o conjunto como “[...] uma árvore mágica, que dá esculturas como um pé de jaqueira dá jacas, um cajueiro, cajus.” (PEDROSA, Mário in: FUNARTE, 1980.)

Apresente aos estudantes diferentes exemplares de Bichos e proponha que montem uma obra inspirada nessa série. Para isso, solicite que, em grupos,

construam seis triângulos congruentes com papelão ou embalagens cartonadas, recobertos com plástico adesivo. Oriente que deixem um pequeno espaço entre as peças para que o plástico adesivo possa funcionar como dobradiça, tornando a estrutura maleável. Caso necessário, a fita adesiva também pode ser utilizada para unir os triângulos

Explique que Lygia Clark criou Bichos a partir de formas geométricas além de triângulos, como retângulos, círculos e semicírculos. Proponha, então, que os estudantes criem um novo bicho utilizando outra forma geométrica.

Ao final, convide-os a manipular os diferentes bichos criados, observando que, a cada movimento realizado, eles vivenciam a obra. Peça que descrevam algumas semelhanças e diferenças entre as esculturas da série Bichos, as do concretista Luiz Sacilotto e as produções de artistas neoconcretistas, como Franz Weissmann (1911-2005) e Amilcar de Castro (1920-2002)

Por fim, comente a importância da interação e da participação como elementos centrais do projeto neoconcreto de aproximar arte e vida, concebendo a obra como uma experiência passível de ocorrer em diferentes contextos e não apenas como um objeto único exposto em museus ou galerias de arte.

6º MOMENTO

Criando a obra Caminhando

Lygia Clark Caminhando, 1963. Foto de Virna Santolia/ Associação Cultural “O Mundo de Lygia Clark”

Esquema representativo da fita de Möbius em tira de papel, 2025. Crédito: Kátia Regina Ashton Nunes.

Em 1964, Lygia Clark desenvolve uma proposta que, de forma ainda mais radical, aproxima a obra de arte de um gesto: Caminhando. Trata-se de uma fita de Möbius confeccionada em papel, na qual os participantes são convidados a perfurar a superfície com uma tesoura, realizando um corte longitudinal e trilhando seu próprio percurso.

Pergunte aos estudantes se já ouviram falar sobre essa fita Explique que ela recebeu esse nome em homenagem ao seu criador, o matemático alemão August Ferdinand Möbius (1790-1868).

“Se eu utilizo uma fita de Möbius para essa experiência é porque ela quebra os nossos hábitos espaciais. Ela nos faz viver a experiência de um tempo sem limite e de um espaço contínuo” (CLARK, L.: 1983).

Sugira aos estudantes que vivenciem essa proposta. Para isso, precisarão de uma tira de papel com cerca de 5 cm de largura e 25 cm de comprimento.

A

D B C

Peça que passem cola em uma das extremidades da tira (AB ou CD), façam uma pequena torção em uma das extremidades e, em seguida, colem de modo que o ponto A coincida com C, e o ponto D com B. O resultado é uma fita de Möbius, que subverte o princípio euclidiano, segundo o qual uma superfície possui dois lados, passando a apresentar apenas um lado, isto é, tornando-se uma superfície unilateral. Para que os estudantes confirmem essa propriedade, solicite que percorram toda a fita com um lápis de cor, traçando uma linha contínua e observando que ela retorna ao ponto inicial sem nunca mudar de face.

Em seguida, peça que continuem “caminhando” pela fita, agora com a tesoura, como propôs Lygia Clark e exemplificado neste vídeo. Oriente-os a cortar a faixa no meio, paralelamente às bordas, completando uma volta completa. Antes de cortá-la, estimule-os a imaginar o resultado e questione: o que acham que irá acontecer? O resultado corresponde ao que esperavam?

Aguce a curiosidade da turma perguntando o que acreditam que ocorrerá caso o corte seja repetido. Antes que executem o corte, solicite novamente que formulem hipóteses do resultado. Ao final, pergunte se ficaram surpresos com o resultado obtido. Questione também se as superfícies resultantes dessa experiência continuam unilaterais, isto é, se ainda podem ser consideradas faixas de Möbius

Lygia Clark dá continuidade à experiência ao recortar novamente a faixa, transformando-a em tiras cada vez mais finas. Nessa proposta, a obra deixa de ser um objeto e passa a constituir-se como o próprio ato.

Oriente que realizem mais um corte e informe que uma nova surpresa surgirá a partir desse procedimento.

A fita de Möbius fascinou diferentes artistas e foi referenciada em diversas obras. A artista plástica nipo-brasileira Tomie Ohtake (1913-2015), por exemplo, inspirou-se nessa forma para criar o Monumento ao trabalhador (2013), obra pública localizada na cidade de Santo André, em São Paulo, com cerca de 12 metros de altura e 15 toneladas. A própria Lygia Clark também produziu outra obra baseada nessa faixa, a escultura O dentro é o fora (1963).

Para concluir esse momento, discuta com os estudantes a definição da obra de Lygia Clark proposta por Mário Pedrosa, que a qualificou como “exercício experimental da liberdade”.

7º MOMENTO

A relação Matemática e Arte

Inicie este momento com uma síntese da trajetória artística de Lygia Clark. Em seguida, convide os estudantes a assistirem a dois vídeos com o depoimento de Felipe Scovino (1978), um dos curadores da exposição Lygia Clark: uma retrospectiva, gravado em setembro de 2012 no Itaú Cultural, em São Paulo:

1. A arte participativa de Lygia

2. Percurso artístico

Após a exibição dos vídeos, proponha uma reflexão coletiva sobre como a obra de Lygia Clark e a arte, de modo geral, se relacionam com a Matemática e sobre como a geometria em especial tem sido fonte de inspiração para as artes visuais. Apresente a seguinte afirmação de Lygia Clark:

“Todo mundo tem, potencialmente, a capacidade de criar. Agora, se ela é condicionada num meio que não favorece, ela acaba não criando”. (CLARK, L. in SCOVINO: 2004.)

Discuta com os estudantes se concordam com essa afirmação e por quê. A partir desse debate, converse com o grupo sobre o modo como a participação influencia a forma como interagimos com objetos artísticos. Convide-os a relacionar esse processo ao próprio percurso de aprendizagem em Matemática, levantando questões como: o estudante é autor de seu processo de aprendizagem? Ele participa ativamente dele? O professor é um propositor de experiências? A Matemática envolve apenas relações formais ou também descoberta, emoções, sensibilidade, criatividade e imaginação?

Por fim, convide-os a refletir sobre a importância da obra e das propostas de Lygia Clark e do movimento neoconcreto no campo das artes visuais, bem como sobre seus possíveis impactos para o estudo, o ensino e a aprendizagem da Matemática.

reflexão final

Álvaro de Campos, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), escreveu em 1935 um pequeno poema sobre a relação entre a Matemática e a Arte:

“O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.” (PESSOA, F.: 1993 (1944))

A trajetória de Lygia Clark busca reposicionar o artista como propositor de experiências, ampliando a compreensão da obra de arte para além da contemplação ao incorporar a participação ativa do público como parte essencial do processo artístico. De modo semelhante, educadores também não devem se limitar à transmissão de conhecimento, mas atuar como mediadores na constituição de condições favoráveis à participação dos estudantes e ao exercício de sua autonomia como sujeitos na construção do próprio saber.

De acordo com Paulo Freire (1921-1997): “A Educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados” (FREIRE, P. : 1988).

O ensino de Matemática pode oferecer contribuições significativas à formação dos estudantes na medida em que adota metodologias que valorizem a criação de estratégias, a argumentação, o desenvolvimento do pensamento crítico, favorecendo, assim, a criatividade, o trabalho coletivo, a iniciativa pessoal e a autonomia, decorrentes do fortalecimento da confiança na própria capacidade de conhecer e enfrentar desafios.

Relacionar o ensino da Arte e da Matemática, explorando a complementaridade entre esses dois campos do conhecimento, estimula a curiosidade e a criatividade por meio de atividades integradoras e desafiadoras, configurando oportunidades ricas de aprendizagem.

sugestões complementares

As abordagens da Matemática em sala de aula permitem diversos desdobramentos transdisciplinares e o desenvolvimento de atividades em parceria com professores de diversos componentes curriculares, favorecendo a articulação entre conteúdos e habilidades da Matemática e situações da vida cotidiana. Para conhecer mais sobre a obra de Lygia Clark, recomenda-se a consulta ao Portal Lygia Clark

Para aprofundar a relação entre o ensino da Matemática com o campo das artes, considere os cursos Artes Visuais e Matemática: ensaios aproximativos e Música e Matemática: uma harmonia perfeita , oferecidos pela Escola Fundação Itaú

Para ampliar seu repertório sobre atividades relativas às formas geométricas voltadas ao público infantil, recomendamos o projeto IC para Crianças: formas

Por fim, convide os estudantes a refletirem sobre estratégias de citação artística no campo da moda, a partir da apresentação de coleções dos estilistas Gustavo Carvalho e Raquel e Roberto Davidowicz inspiradas na obra de Lygia Clark.

referências

AMARAL, Aracy (org). Arte construtiva no Brasil – Coleção Adolpho Leirner São Paulo: DBA; Melhoramentos, 1998.

BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2005.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. Disponível em: basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 18 nov. 2025.

BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros curriculares nacionais para o Ensino Fundamental – Matemática. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros curriculares nacionais para o Ensino Fundamental – Artes. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BUORO, Anamelia Bueno. O olhar em construção: uma experiência de ensino e aprendizagem de arte na escola. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1998.

BILL, M. The mathematical approach in contemporary art. Arts and Architecture, Los Angeles, n. 8, 1954.

BRITO, Ronaldo. Neoconcretismo: vértice e ruptura do projeto construtivo brasileiro. Rio de Janeiro: Funarte; Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1985.

CLARET, Martin. Picasso- vida e pensamentos. São Paulo. Ed. Martin Claret, 1997.

CLARK, Lygia. Livro - Obra. Rio de janeiro, 1983. Disponível em: https://portal. lygiaclark.org.br/acervo/6275/caminhando. Acesso em: 24 out. 2025.

FAINGUELERNT, Estela K. Educação matemática: representação e construção em Geometria. Porto Alegre: Artmed, 1999.

FAINGUELERNT, Estela K.; NUNES, Katia Regina A. Tecendo matemática com arte. Porto Alegre: Artmed, 2009.

FAINGUELERNT, Estela K.; NUNES, Katia Regina A. Descobrindo matemática na arte. Porto Alegre: Artmed, 2010.

FAINGUELERNT, Estela K. ; NUNES, Katia Regina A. Fazendo arte com a matemática. 2. ed. Porto Alegre: Penso, 2015.

FREIRE, P. Extensão ou comunicação? 10. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1977.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra. 1998

GARDNER, H. As artes e o desenvolvimento humano: um estudo psicológico artístico. Trad. Maria Adriana V. Veronese. Porto Alegre: Artmed, 1997.

GULLAR, Ferreira. Etapas da arte contemporânea: do Cubismo à arte Neoconcreta. 2. ed. Rio de Janeiro: Revan, 1998.

HERKENHOFF, Paulo. Lygia Clark. Barcelona: Fundació Antoni Tàpies, 1997.

HERKENHOFF, Paulo. Lygia Clark. São Paulo: Museu de Arte Moderna, 1999.

LYGIA Clark: The Abandonment of Art, 1948–1988. Nova York: The Museum of Modern Art (MOMA), 2014. Disponível em: www.moma.org/calendar/ exhibitions/1422. Acesso em: 24 out. 2025.

LYGIA Clark. Texto Ferreira Gullar, Mário Pedrosa, Lygia Clark. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 60 p., il. color. (Arte brasileira contemporânea).

MILLIET, Maria Alice. Lygia Clark: obra-trajeto. São Paulo: Edusp, 1992.

NUNES,K. R. A. Tecendo matemática com arte. ANPMat- 2016. Disponível em: anpmat.org.br/deu-certo/tecendo-matematica-com-arte . Acesso em: 18 nov. 2025.

NUNES,K. R. A. Um brinde à arte de Lygia Clark e à sua influência na educação. Desafios da Educação, 22 out. 2020. Disponível em: desafiosdaeducacao.com. br/arte-de-lygia-clark. Acesso em: 18 de novembro de 2025.

NUNES,K. R. A ; RODRIGUES, Ana C. Tem Matemática! Nas Artes: a Matemática e sua influência nas artes visuais. Videocast: apresentação Eduardo Guedes. Multirio, 12 dez. 2024. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=176Ppxxb-RM. Acesso em: 18 nov. 2025.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

PEDROSA, Mário. Significação de Lygia Clark. In: FUNARTE (Ed.). Lygia Clark. Arte Brasileira Contemporânea. Rio de Janeiro: Funarte, 1980.

PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1993.

SCOVINO, Felipe (Org.). O mundo de Lygia Clark. Rio de Janeiro: Associação Cultural O Mundo de Lygia Clark, 2004. https://portal.lygiaclark.org.br/acervo/1633/o-mundo-de-lygia-clark. Acesso em: 24 out. 2025.

verbetes utilizados

• Abstração Geométrica

• Amilcar de Castro

• Arte Concreta

• Arte Contemporânea

• Arte Figurativa

• Arte Moderna

• Bicho

• Bienal de Arte de São Paulo

• Burle Marx

• Caminhando

• Casulo

• Citacionismo

• Colagem

• Concreção 5730

• Desenho

• Diego Velázquez

• Escada

• Felipe Scovino

• Fernand Léger

• Fernando Pessoa

• Ferreira Gullar

• Franz Weissmann

• Grupo Frente

• Ivan Serpa

• Luiz Sacilotto

• Lygia Clark

• Lygia Clark: uma retrospectiva

• Mário Pedrosa

• Max Bill

• Neoconcretismo

• Pablo Picasso

• Paulo Freire

• Planos em superfície modulada n. 3

• Planos em superfície modulada n. 4

• Ruptura

• Tomie Ohtake

• Waldemar Cordeiro

núcleo de informação e difusão digital

Gerência

Tânia Rodrigues

Coordenação de Enciclopédia

Luciana Rocha

Produção e Pesquisa

Ely Andrade

Matias Monteiro

Pedro Guimarães

Revisão Quadratim

Redação

Katia Regina Ashton Nunes

núcleo de criação e plataformas

Gerência

André Furtado

Coordenação de Conteúdos Multiplataforma

Kety Fernandes Nassar

Design

Girafa Não Fala (terceirizada)

Produção Editorial

Bruna Guerreiro

Pedro Soares Bueno (estagiário)

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Caderno do Professor - Lygia Clark e o ensino de matemática by Itaú Cultural - Issuu