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Golpe Branco - Daniel Lima

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Dilma Rousseff

Temer é Cunha

Em escutas telefônicas reveladas depois da votação do Impeachment no Congresso, Romero Jucá, importante político do complô, revela a aliança entre os dois maiores personagens políticos do golpe: Jucá - Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra... Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria. [...] Machado Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer]. Jucá - Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. 'Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha'. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra. Machado - É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Jucá - Com o Supremo, com tudo. Machado - Com tudo, aí parava tudo.

Fotos: Daniel Lima, Fernando Coster e Miguel Salvador. Publicado em 31 de Agosto de 2016.

A presidenta Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade. A grande maioria dos políticos que a julgaram são processados por crimes que lesam a sociedade, assim como são citados várias vezes por delatores da maior investigação contra corrupção da história do Brasil. Sim, há um golpe em curso no Brasil! Gravações divulgadas posteriormente à votação do impeachment no Congresso mostraram claramente uma articulação de políticos ligados à base do governo (traidores) e à base oposicionista de direita para um “um pacto nacional”, visando depor do poder a presidenta eleita democraticamente. Gravações que mostravam o próprio vice-presidente, em maquiavélico gesto de traição política, construindo a “solução Temer” para dar um golpe na presidenta e paralisar as investigações de corrupção envolvendo ele próprio e seus aliados.* As eleições de 2014 dividiram o país e, em maio de 2015 iniciou-se o processo de impeachment, que culmina agora em 31 de agosto de 2016 com as forças políticas derrotadas nas urnas assumindo o governo. Golpe consumado. Especialistas, técnicos e o próprio judiciário admitem que

não houve crime de responsabilidade fiscal, e que esse é um processo puramente político. Portanto um golpe explicitamente jurídico-midiático, um golpe branco que prescindiu das armas e do exército para afastar um presidente legitimamente eleito no meio do seu mandato. A legitimação e aceitação da maior parte dos governos internacionais em relação ao golpe coloca em desafio a noção de democracia e faz-nos perguntar que nova estruturação geopolítica começa a surgir. Já tivemos na América Latina o precedente do Paraguai e de Honduras. A questão atual que se coloca é: como estes golpes brancos, nos quais o Poder Judiciário e a grande mídia substituem a intervenção militar direta, podem reconfigurar o mundo num sentido ainda mais autoritário, conservador e excludente? Em um capitalismo cognitivo nada mais natural que a tomada do poder seja a força da percepção e da legalidade fictícia. Quais são os futuros da Democracia quando legitimada por um Poder Judiciário muitas vezes tendente à direita, às ideias conservadoras e antidemocráticas? *https://theintercept.com/2016/05/23/novo-abalo-politico-no-brasil-e-hora-da-midia-comecar-a-dizer-golpe/

EUA e a eleição de George Bush

Na eleição presidencial de 2000 nos EUA, a disputa entre o candidato republicano George W. Bush, então governador do Texas, e o candidato democrata Al Gore, então vice-presidente, terminou sendo decidida nos tribunais. “Esta eleição ficou marcada pela controvérsia sobre a concessão dos 25 votos no Colégio Eleitoral da Flórida, o subsequente processo de recontagem dos votos nesse estado e o acontecimento invulgar de o candidato vencedor ter recebido menos votos populares do que o perdedor: Gore somou 50.999.897 votos contra 50.456.002 de Bush. Mas não é isso que vale. Era a quarta eleição em que o vencedor no Colégio Eleitoral não recebeu também a maioria do voto popular.(...) Gore contestou formalmente os resultados e o Supremo Tribunal da Flórida ordenou a recontagem manual de mais de 70 mil votos. A Suprema Corte, porém, revogou a decisão, proclamando o resultado final do pleito a favor do republicano.” http://operamundi.uol.com.br/conteudo/historia/32916/

Venezuela e Haiti?

Ocorreu em 2002 uma tentativa mal sucedida de golpe militar na Venezuela. O povo foi às ruas e impediu a continuação do golpe. Interessante perceber que a estratégia de intervenção militar que não deu certo, indicava a necessidade de novas estratégias: a via militar será substituida pela via “parlamentar e jurídica”. No Haiti, entretanto, temos uma inflexão histórica com a intervenção direta e militar dos EUA, retirando o presidente Jean-Bertrand Aristide em 2004, no meio da madrugada e levando-o para o meio da África! Logo depois, o Brasil é convidado pela ONU para chefiar a Minustah, missão de “paz e estabilização” do Haiti. O Brasil permanece como força militar de ocupação por 12 anos no Haiti. Atualmente a luta dos haitianos é por uma democracia real sem a interferência do “Core Group” (EUA, Canadá, França, Espanha, EU e Brasil) nas eleições presidenciais.

https://www.youtube.com/watch?v=on7s339cRNc http://www.danielcflima.com/Haiti---Nou-Pap-Obeyi

Honduras e Zelaya

Em 2009, o então presidente hondurenho Manuel Zelaya foi tirado à força de sua casa pelos militares em cumprimento a um mandado de prisão emitido pelo Poder Judiciário, e colocado em um avião que o levou para a Costa Rica. “Horas mais tarde, a Suprema Corte de Honduras lançou uma declaração dizendo que havia ordenado a deposição de Zelaya ao Exército. O Congresso Nacional aceitou aquilo que disseram ser a ‘carta de renúncia’ de Zelaya, apesar de o presidente ter dito que a carta não foi escrita por ele. Em seguida, o presidente do Congresso, Roberto Micheletti, foi nomeado presidente da República.” https://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_militar_em_Honduras_em_2009

Paraguai e Lugo

“Três anos depois da queda de Zelaya em Honduras, deu-se no Paraguai um golpe que lembra ainda mais o clima do Brasil de hoje. Por 39 votos a favor e 6 contrários, o Senado aprovou em 22 de junho de 2012 a remoção de Fernando Lugo do poder, abrindo espaço para o vice-presidente Frederico Franco, do Partido Liberal Radical Autêntico, um ano após romper a coligação com Lugo. A decisão coroava a aprovação na Câmara dos Deputados, com 73 votos a favor e 1 contrário, ao processo de impeachment. Segundo o argumento oficial, Lugo era retirado do poder pelo ‘fraco desempenho de suas funções’.”

Sim, o golpe é

Jurídico

Moro, Janot e Gilmar

SAÍDA DE EMERGÊNCIA A relação de controle policial e territorial sobre as populações afroamericanas está em toda América que sofreu o trauma da escravidão. Saída de Emergência, cartografia geopolítica, ligando diferentes cidades. Uma investigação-ação que denuncia um mundo estruturado no racismo institucional e anuncia uma revolução através da convivência, arte e pensamento.

www.danielcflima.com

http://www.cartacapital.com.br/revista/895/honduras-e-paraguai-motivos-de-inspiracao

Sim, as perspectivas para a cultura são elitistas e antidemocráticas Uma das primeiras medidas do governo do golpe foi a a dissolução do Ministério da Cultura, visto como um “reduto” de resistência. Após pressão de semanas de ocupação dos espaços culturais federais, manifestação em massa dos artistas, o governo interino voltou atrás e restabeleceu o Ministério da Cultura. Entretanto um ministério morto-vivo se estabeleceu, com manutenção apenas de sua figura jurídica e institucional. De fato, as atividades foram interrompidas e a política pública cultural não tem perspectiva alguma de ser discutida, debatida e construída democraticamente. Estamos diante de um governo que através de seu Ministério da Cultura já interrompeu e ou desmantelou várias políticas públicas das áreas da cultura e da educação. Esse é um governo que veio para marcar uma posição de inferioridade da Cultura em relação às suas prioridades. A política cultural se mantém apenas em funcionamento na ligação com o capital privado, ao financiamento do capital pri-

Invisíveis Produções

Golpes militares na América Central e do Sul

A conivência do Sistema Jurídico brasileiro com o extermínio da juventude negra pelas forças policiais, cria os fundamentos para os desmandos do Estado Policial. Um verdadeiro terrorismo de Estado. Como no exemplo dos ataques de Maio 2006, quando uma onda de chacinas ocorreram em São Paulo em reação aos assassinatos de policiais pelo PCC. Com evidente colaboração de policiais militares o caso foi arquivado pelos promotores de São Paulo. “Em 25 de maio de 2006, 79 promotores criminais da cidade de São Paulo assinaram um ofício dirigido ao comandante geral da PM em que reconheciam ‘a eficiência da resposta da Polícia Militar, que se mostrou preocupada em restabelecer a ordem violada, defendendo intransigentemente a população de nosso Estado’ e afirmavam que ‘eventuais excessos praticados individualmente’ seriam apurados. O documento foi enviado nove dias após o PM Alexandre André Pereira da Silva e outros cinco encapuzados entraram gritando ‘o comando é nóis’ num lava-rápido da zona norte de São Paulo e executar três jovens. Dez dias após quatro homens encapuzados, identificados como policiais, atirarem na cabeça e na barriga de Ana Paula Gonzaga dos Santos, grávida de nove meses, em Santos (SP), e dizer ‘filho de bandido, bandido é’. (...). Elaborado logo após os Crimes de Maio, quando a PM paulista se tornava suspeita de executar um dos piores massacres da história do Brasil, o ofício do Ministério Público era uma demonstração de apoio vinda justamente dos promotores que deveriam fiscalizar a ação dos policiais.” Como lembra as Mães de Maio, são estes os mesmos promotores que perseguem e tentam colocar o ex-presidente Lula na cadeia, tornando-o ineligível. http://ponte.org/10anosdechacinasdapm/index.html#artigoemicida

OCUPAS, SECUNDARISTAS, MOVIMENTOS NEGROS, FEMINISTAS E LGBT Os recentes levantes dos secundaristas ocupando centenas de escolas por todo país, coloca à prova não só o nascimento de criatividade política, mas também uma política transversal que carrega consigo diversas urgências da voz e na voz desta mesma parcela mais vunerável da sociedade. Ocupação que vem como fluxo desde rolezinho à luta LGBT, feminista, negra e periférica. vado através das leis de incentivo fiscal (Lei Rouanet). Vemos um governo que interrompeu os concursos públicos de projetos artísticos (a maneira mais democrática de acesso a recursos para a Cultura que existia no Brasil) e retira sorrateiramente esses editais de projetos do seu planejamento anual, deixando no lugar o vazio. A perspectiva é negativa seja em relação a cultura, seja popular, seja contemporânea, seja urbana, seja tecnológica-digital. A cultura brasileira está hoje orfã de um projeto político. A manutenção da leis de incentivo se mostram, como sempre se mostraram, antidemocráticas. Deixar a decisão do incentivo cultural para as empresas leva a um acúmulo de poder, a uma prioridade de projetos megalomaníacos, a um abandono da cultura popular e dos projetos de pequenos e médio porte, e concentra todo o poder de decisão do que será produzido e financiado culturalmente na mão de departamentos de marketing de empresas privadas, que em última análise, só tem como objetivo o lucro.

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Midiático

Utilizando-se desde manipulações de dados de pesquisa a manchetes tendenciosas, a mídia brasileira extremamente concentrada teve um papel fundamental no golpe. Em cooIntenção de votos por renda peração ao vazamento seletivo do judiciário, os meio de co(%). Eleições presidenciais municação de massa puderam agir da maneira mais eficiente 2014: Dilma x Aécio 69 na manipulação da informação: dar visibilidade aos crimes 58 que desejam e deixar na escuridão os crimes que envolvem 52 49 42 claros aliados políticos à direita. Mais que fortalecer um lado 37 33 no cabo de guerra, ela foi construtora da narrativa do Golpe. 24 Temos desenvolvido no Brasil uma Ela deu os nomes, montou a farsa em novela rocambolesca, batalha de projetos políticos. De um inventou capítulos e personagens, criou um clima de perlado um projeto que aposta na Até 2* 2 a 5* 5 a10* + de 10* dição e crise. Desde a eleição de Dilma Rousseff, a mídia manutenção de uma tradição segrehegemônica criou sua campanha paralela em favor de forças gadora que vem desde o Brasil Colo- *salários mínimos conservadoras, e fez da investigação espetaculosa sobre a nial, o projeto conservador; e do outro http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/blog/eleica o-em-numeros/post/datafolha-para-presidente-porPetrobras seu tema perfeito de exploração e manipulação da lado uma luta pela democratização e renda-escolaridade-idade-regiao-religiao-e-porte-domunicipio.html informação. A cumplicidade entre mídia e judiciário teve distribuição dos meios de renda. Este seu auge na divulgação de conversas da segundo projeto vem vencendo nas urnas há mais de 13 anos e agora, presidenta Dilma Rousseff somente por um golpe, é subjugado pelo projeto conservador. com o ex-presidente Lula no Esses dois projetos políticos conviveram por muitos anos através de maior jornal televisivo do concessões e acordos. Essa esquerda teve que abdicar de muitos Brasil, numa edição “especial”. pontos de luta e abraçar forças conservadoras para manter a “goverA abordagem tendenciosa chenabilidade”. Esses acordos muito distanciaram os líderes vindos da gou a ponto risível de jornalistas esquerda da sua base popular. comemorarem a aprovação do Agora diante da tomada da força (cognitiva), ficam claras as difeimpeachment na votação do renças e se desenha um divisão no país. E ainda bem que dividem, Congresso. Soma-se a esta exporque deixam claras a diferenças entre os projetos políticos e nos trema concentração da mídia no alertam da fragilidade da nossa noção de democracia. Lembrando Brasil, a falta da esquerda que, sempre que, na discussão sobre esses projetos, há que retornar e quando no poder, não estabeleceu pontuar sempre que o Brasil foi o país que teve a maior escravidão a pauta da democratização dos da História e até hoje um dos países mais desiguais do mundo. Então meios de comunicação – briga peé claro, o Brasil está dividido politicamente e deve continuar dividido sada mas fundamental. politicamente. É luta de classes.

Sim, o golpe é

Elitista

Machista

Sim, o golpe é machista e podemos evidenciar esse posicionamento em toda a oposição que foi feita de forma sexista à presidenta eleita Dilma Rousseff. A presidenta teve a sua imagem execrada publicamente através de xingamentos, de imagens que a colocavam em situação de humilhação baseada na perspectiva de gênero e na tentativa de diminuição da sua capacidade política, por ser mulher. A projeção política de Dilma já era excessão na regra política brasileira, país com apenas 10% de representação feminina no congresso, e neste processo se tornou verdadeira aversão e ódio. Como coloca Márcia Tiburi: “O que aconteceu com Dilma Rousseff nos faz saber que o poder violento do patriarcado não se volta apenas contra as mulheres, mas contra a democracia como um todo, sobretudo na sua versão cada vez mais radical intimamente relacionada com as propostas do feminismo como luta por direitos ao longo do tempo. O que aconteceu com Dilma Rousseff nos ensina a compreender o funcionamento de uma verdadeira máquina misógina, máquina do poder patriarcal, ora opressor, ora sedutor, a máquina composta por todas as instituições, do Estado à família, da Igreja à escola, máquina cuja função é impedir que as mulheres cheguem ao poder e nele permaneçam.” O golpe é machista e isso fica evidente no quadro político estabelecido pelo vice-presidente (agora presidente interino) Michel Temer, logo após o impeachment. Temer colocou apenas homens em todos os cargos de Ministro. O golpe é machista porque utiliza uma oposição conservadora que é majoritariamente branca e masculina. Dilma Rousseff sempre confrontou a imagem familiar conservadora ao não estabelecer um padrão heteronormativo. Em sua posse subiu a rampa com sua filha. Esta postura, somada a ações de afirmação dos direitos da comunidade LGBT, reuniu contra ela uma reação homofóbica e facista. http://revistacult.uol.com.br/home/2016/07/a-maquina-misogina-e-o-fator-dilma-rousseff-na-politica-brasileira/

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/16/opinion/1463408268_288480.html

Mas a disputa é desigual entre os projetos, porque parte desse convencimento à direita conservadora se deve aos meios de comunicação extremamente concentrados e que tiveram protagonismo absoluto no golpe pelo qual passou o Brasil. É a partir dos meios de comunicação que se dá o convencimento de que a situação econômico-política chegou a um ponto de radicalidade, e que legitimaria o impeachment (golpe) e a retirada da presidenta, mesmo sem provas de crime cometido.

CONFIO - A DEMOCRACIA POR UM FIO Série sobre as manifestações do processo de impeachment. Ação CONFIO (um telefone de copos com fio que ligava as duas partes com o muro da vergonha no meio); entrevistas com manifestantes de direita da Av. Paulista; até ações “Fora Temer” nas Olimpíadas. http://www.danielcflima.com/Confio1

Muro da Vergonha

Bombas, gás e cassetete

O terrorismo da PM em manifestações de esquerda é uma ampliação das perversas estratégias da polícia nas periferias: toque de recolher, agressão gratuita, humilhação, impunidade...

Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados até julho de 2016, foi um dos principais artífices do golpe. Deputado Federal ligado à bancada evangélica simboliza a virada do PMDB de sua posição de centro democrático à direita conservadora BBB (Boi, Blíbia e Bala). Acusado de desviar dinheiro público com diversas provas documentais, chantageia a Presidenta para se livrar do processo. O governo vota contra sua absolvição, Cunha inicia o processo do impeachment. Talvez um dia seja preso.

Sim, o golpe é

Sim, o golpe é

Racista

A conivência jurídica com PM assassina

Os líderes políticos que a julgam são processados por crimes que lesam a sociedade, assim como são citados várias vezes por delatores da maior investigação contra corrupção da história do Brasil. A presidenta não foi citada uma única vez em casos de desvio de dinheiro público.

http://www.cnv.gov.br/institucionalacesso-informacao/verdade-e-reconcilia %C3%A7%C3%A3o.html

Essa mesma configuração política que se dá após o golpe, com a liderança do vice (traidor) é majoritariamente branca. Essa composição reflete uma elite que sempre apostou na segregação do país, onde uma minoria branca se vê fixa diante de privilégios e excluindo a maior parte da população preta, parda e indígena a uma condição de subcidadania. A elite colonial escravocrata hoje se revela na elite empresarial. A FIESP, patrocinadora do golpe, é hoje a nova Casagrande, como coloca Eugênio Lima (artista e ativista), em entrevista a Eliane Brum, ao explicar a ação Legítima Defesa: “FIESP é a Casa Grande Moderna. Ela representou um projeto que é, numa ponta, a subtração de direitos constituídos, na medida em que essa pauta nunca passou pelo crivo eleitoral. Essa é a primeira coisa. Não é uma pauta do conjunto da população. Assim, só pode ser feita na surdina. A segunda coisa é que ela agiu de maneira clara e nítida incentivando ações fascistas. Insultando, racializando o discurso, diminuindo. E utilizou recursos que são públicos para financiamento de ações constituídas dentro do âmbito privado, como no financiamento dessas passeatas (a favor do impeachment). Esse é o jeito da Casa Grande. Eu não estou chamando a FIESP de Casa Grande apenas porque são os herdeiros dos escravocratas. Mas por causa da lógica da Casa Grande. A Casa Grande organiza a sociedade, organiza o Estado à sua semelhança. O que era a Casa Grande? A Casa Grande era a Igreja, a Casa grande era o hospital, a Casa Grande era o Estado, a Casa Grande era tudo. A Casa Grande é onde tudo orbita. Essa é a metáfora do que essas forças reunidas em torno da FIESP fizeram neste momento histórico. Um momento análogo ao de 1964, já que a FIESP já fez isso antes, porque o golpe de 1964 foi civil, além de militar.”

Em Brasília, durante o processo de votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, foi instalado um muro dividindo opositores.

CONTRANARRATIVA A mídia independente se organizou e construiu uma nova forma de contar a história. Essa mídia, quase sempre de maneira coletiva e colaborativa, foi para o chão. Ao invés de mostrar as manifestações de cima, do alto dos prédios e das portas dos helicópteros, a mídia independente colou no rosto do povo, trouxe de volta esse personagem, mostrando suas angústias, suas dúvidas, sua força e sua luta. E abriu os olhos alheios para a farsa. Aliados à utilização da rede como plataforma, transformou a internet num palco imediato dos acontecimentos. A bomba explodia nas páginas dos Jornalistas Livres, Mídia Ninja, Imprença, R.U.A., FotoColetivo, Democratize, Vaidapé, Brasil de Fato e outras mídias progressistas. A contranarrativa encontrou suas peças dentro do tabuleiro do jogo do Golpe. A urgência está nas ruas! Por Fernando Sato - Jornalistas Livres

Sim, há poesia na

Resistência!

Sim, as Olimpíadas foram também campo de batalha

http://www.frente3defevereiro.com.br/

ISBN

Temer, o traidor

Cena 1: Temer e sua mulher “bela, recatada e do lar”, quarenta e três anos mais nova, ex-miss Paulínia. Cena 2: em meio a crise política, Temer deixa “vazar” uma carta para Dilma: “Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo. Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade.” Carta pessoal? Desabafo? Lealdade? Cena 3: Temer sorri ao lado de sua turma homem-branco-engravatado, ao ganhar a presidência sem ter um voto sequer. E assim o PMDB, partido de Temer, sem ganhar nenhuma eleição presidencial, emplaca terceiro presidente em 30 anos.

Mídia Familia Família Mídia

Mídia Família porque todos os grandes meios de comunicação de massa do Brasil são conservadores, sentados nas poltronas da falsa moral familiar dos domingos. Família Mídia porque são sim famílias – e igrejas pentencostais – que detém o poder hegêmonico da comunicação de massa. Estadão: Família Mesquita. Versão mais conservadora do jornalismo impresso. Bastião do poder geopolítico de São Paulo em relação ao país. Folha de S. Paulo: Família Frias. Talvez o mais influente dos jornais impressos. Intimamente ligado ao PSDB (conservadores liberais), é a referência cultural essencial da classe média. Maior articulador da oposição ao PT (Partido dos Trabalhadores). Abril: Família Civita. A maior editora de revistas do Brasil. Sob sua coordenação a Veja, revista de maior tiragem do país, reúne nas suas páginas o discurso e as personalidades conservadoras. Faz das suas revistas parte da campanha de oposição aos partidos e discursos de esquerda. SBT: Família Abravanel. Com seu dono e teleapresentador, self-made-man, Silvio Santos, é a emissora popular. Exemplo maior da alienação midiática em seus programas de auditório. Record: Igreja Universal do Reino de Deus. A proibição de igrejas deterem canais de comunicação não impediu o pastor Edir Macedo de construir um império fundado na equação fé, mídia e dízimo. Com condenações por homofobia e perseguição religiosa contra as religiões afrobrasileiras, a emissora radicalmente conservadora é a defensora da bíblia na mídia manipuladora. BAND: Família Saad. A emissora ligada ao agronegócio, equaciona em seus programas e telejornalismo a versão (BB - Boi e Bala). Abertamente opositora a todas as esquerdas. Rede Globo: Família Marinho. Monopoliza a comunicação televisiva brasileira desde a ditadura militar. Cidadão Kane brazuca, Roberto Marinho, morto em 2003, consolidou imenso complexo de mídia. A Globo fabrica crises, derruba presidentes e seus jornalistas atualmente precisam se esconder em grandes manifestações de esquerda: o povo não é bobo, fora a Rede Globo!

Sim, o golpe é

Durante todo o processo da esquerda no poder, que se inicia no governo Lula em 2002, a cultura foi uma base de atuação que diferenciou claramente o projeto político da direita e da esquerda. Na última eleição, artistas e proAs Olimpíadas significaram, assim como a Copa do Mundo, um campo de batalha dutores culturais se organizaram e praticamente reverteram o processo de dersimbólico. Durante as primeiras semanas foram proibidas manifestações políticas rota da esquerda na eleição à presidência. A cultura e os artistas tiveram um dentro das arenas esportivas, manifestações políticas que fossem contra o goverpapel fundamental na manutenção da esquerda no poder e essa resistência hoje no atual ilegítimo (Fora Temer). Isso se tornou um ponto de batalha jurídica para se põe em desafio diante do golpe. O que a Arte pode fazer em relação a um golpe que os cidadãos e as cidadãs pudessem levar cartazes e se manifestar dentro dos estádios, mas também um desafio à criação simbólica dentro do branco que não se apresenta somente na sua face mais fascista ligada às forças campo do espetáculo midiático em torno do esporte. Este controle das arenas esportivas foi feito pela Guarda Nacional, onipresentes diante da militares, mas sim, que se baseia no convencimento da sua “legalidade”? ativa “prevenção ao terrorismo”. Neste mesmo cenário, atletas brasileiros, de maneira sintomática, passavam a bater continência na premiação Diversas iniciativas surgem nesse contexto como uma forma de denúncia e de anúnde medalhas – programa de apoio ao atletas através das forças militares que foi criado ironicamente pela esquerda e que hoje anuncia uma cio de um futuro distópico, um futuro no qual despontam muitas perspectivas negativas guinada ao Estado Policial. Sim, este Estado Policial se expressa também pela ênfase das etiquetas militares. em relação à cultura, a citar organizações diversas como Arte pela Democracia (moviAções aconteceram dentro dos estádios e das arenas esportivas, e puderam romper, mesmo que temporariamente, esta norma. Sinmento dos artistas, coletivos, associações, entidades, trabalhadores e pessoas ligadas à tomático também que o espetáculo midiático tenha que ser invadido como uma guerrilha para que essa mensagem apareça diante de arte e cultura para defesa da democracia), Aparelhamento (projeto criado por artistas visuais meios de comunicação tão absolutos na sua narrativa, tão hegemônicos. São necessárias ações de guerrilha, mesmo que simbólipara autofinanciamento de ações de resistência e contra o governo atual) e ações performáticas, pequenas, que possam romper e anunciar um outro mundo possível, um mundo mais democrático, um mundo ligado à culcas pontuais como Confio – que desenvolvemos na votação do impeachment em Brasília. tura, ao simbolismo das mensagens e a uma perspectiva humanitária, antiracista e feminista. Importante citar também toda resistência artística no período pós-golpe, que começou com diversos É interessante que, para nós brasileiros, o esporte se mostrou novamente como campo de batalha, um campo movimentos e artistas ocupando espaços culturais federais (Funartes e outros órgãos ligados ao político de construção simbólica sobre o futuro da Democracia no Brasil – e por que não? – o futuro da Ministério da Cultura) por todo Brasil, denunciando o golpe mas também propondo novas formas de Democracia no planeta. gestão dos bens públicos. Sim, há a resistência da poesia. E essa resistência está ativa, apesar de desarticulada e quase que tomada por um sentimento de melancólica derrota. A resistência que se prepara para um período em que a oposição política pode ser criminalizada e no qual os gestos artísticos podem ser demonizados na cruzada dos evangélicos.

RACISMO POLICIAL. QUEM POLICIA A POLÍCIA? Cartazes colados em torno de batalhões em São Paulo. Frente 3 de Fevereiro, 2004. O que esperar de um país que mata sua população na idade mais ativa? E quem lucra com essas mortes? A indústria de armas, a indústria de fardas? Os cemitérios, as funerárias? E quem policia a polícia? E o que eu tenho a ver com isso? E o que você tem a ver com isso?

http://brasileiros.com.br/2016/05/ministro-planejamento-juca-epego-em-gravacao-prometendo-parar-lavajato/

Cunha, o chantagista

Há tempos a América sofre com golpes ao processo democrático. Os golpes militares na América do Sul e Central na segunda metade do século XX foram “patrocinados” pelos EUA como forma de combate a expansão do comunismo no mundo pósguerra. Entre meados das décadas de 1950 e 1980, a América do Sul e Central esteve basicamente dominada por regimes militares. Paraguai, Argentina, Peru, Guatemala, Equador, República Dominicana, Honduras, Brasil, Bolívia e Chile tiveram militares tomando o poder com a força das arDilma Rousseff espera o mas. Millhares de pessoas morreram, julgamento como terrorista foram perseguidas, presas e torturadurante a ditadura militar, das na luta pela Democracia. Este enquanto o militar na posição de período marcou um profundo juiz tapa o rosto diante da foto. trauma nas sociedades latino americanas. No Brasil, Dilma Rousseff instaurou a Comissão da Verdade que colheu depoimentos pelo país por quase 3 anos.

Sim, o golpe é

Mas este não é um golpe por armas e sim um golpe com novas características, um golpe jurídico-mídiático. Um golpe branco. Um golpe parlamentar. A legitimação e aceitação da maior parte dos governos internacionais em relação ao golpe coloca em desafio a noção de democracia e faz-nos perguntar que nova estruturação geopolítica começa a surgir. Já tivemos na América Latina o precedente do Paraguai, o precedente de Honduras e agora vemos essas perspectivas em um país com uma liderança regional maior, como o Brasil. Como os golpes antidemocráticos sem intervenção militar direta, que se dão com a anuência do Poder Judiciário e convencimento da mídia, os chamados golpes jurídicos-midiáticos, os golpes brancos podem reconfigurar o mundo num sentido mais autoritário, conservador e excludente? Em um capitalismo cognitivo nada mais natural que a tomada do poder seja a força da percepção e da legalidade fictícia. Quais são os futuros da Democracia quando legitimada por um Poder Judiciário muitas vezes tendente à direita, às ideias conservadoras e antidemocráticas? A frente jurídica formada pelo juiz de primeira instância, polícia federal, o promotor da república e o juiz do supremo arquitetaram a “condição jurídica” do golpe através de vazamentos seletivos de delações premiadas, criaram falsos heróis e lutaram contra o voto do povo brasileiro em defesa do “antigo regime” retirado do poder há 13 anos.

A presidenta Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade. Os líderes políticos que a julgam são processados por crimes que lesam a sociedade, assim como são citados várias vezes por delatores da maior investigação contra corrupção da história do Brasil, a operação Lava Jato. A presidenta não foi citada uma única vez. Sim, há um golpe em curso no Brasil! Gravações divulgadas posteriormente à votação do impeachment no Congresso mostram claramente uma articulação de políticos ligados base do governo (traidores) e à base oposicionista direita para um “um pacto nacional” que incluía depor do poder a presidenta eleita democraticamente. Gravações que mostravam o próprio vice-presidente, agora presidente interino, em maquiavélico gesto de traição política construindo a “solução Temer” para dar um golpe na presidenta e paralizar as investigações de corrupção envolvendo ele próprio e seus aliados. O processo de eleição dividiu o país em 2014 e, pouco mais de um ano depois, tivemos o processo de impeachment, no qual o projeto político derrotado nas eleições agora se estabelece no poder.

Participação: Fernando Sato, Élida Lima, Maurinete Lima, Marie Ange Bordas e Jornalistas Livres. Revisão: Fernanda Lomba.

Eleita com mais de 54 milhões de votos

Econômico

O Pré-Sal (quarta maior reserva de petróleo do mundo, descoberta em 2006) talvez seja o principal elemento econômico em jogo no golpe branco, que destitui a esquerda do poder no Brasil. A esquerda, seguindo a sua tradição, aposta na nacionalização dos recursos naturais; e a direita, em oposição, se coloca buscando a internacionalização desses recursos por meios econômicos – que financiam parte dessa oposição política conservadora. O futuro do Pré-Sal, pós-golpe, já começa a ser desenhado com a menor participação da estatal Petrobras e a maior abertura às empresas estrangeiras na concessão dessas riquezas naturais.

Sim, o golpe é baseado no

Extermínio da juventude negra O extermínio da juventude negra é a base de toda ilegalidade do Estado brasileiro. E aqui, há que fazer uma crítica direta aos governos de esquerda que não tomaram o extermínio da juventude negra pelas forças policiais do Brasil como uma prioridade a ser combatida. Como falar de legalidade do Estado, legalidade dos processos democráticos, quando não se assegura a integridade física e a vida da parcela mais jovem e vulnerável da população? A Força policial brasileira é a que mais mata no mundo, de acordo com relatório da Anistia Internacional. Aqui a nação desenha a face mais perversa do racismo institucional:

a morte violenta do jovem negro pelas forças do Estado. “Brasil aparece como o país que tem o maior número geral de homicídios no mundo inteiro. Só em 2012, foram 56 mil homicídios. Em 2014, 15,6% dos homicídios tinham um policial no gatilho. Segundo o relatório da Anistia Internacional, eles atiram em pessoas que já se renderam, que já estão feridas e sem uma advertência que permitisse que o suspeito se entregue.” Além da morte pelas forças policiais, a juventude negra passou nas últimas décadas por um verdadeiro extermínio sistemático. Uma epidemia de assassinatos na periferias das grandes cidades do país.

O número de vítimas de homicídio entre 1 e 19 anos cresceu 475% em 23 anos, sendo os negros os mais atingidos. As esquerdas brasileiras não souberam equacionar esse problema e colocaram a questão de escanteio sem prioridade, e hoje colhem os frutos de um Estado Policial. Não é à toa que o golpe à presidenta começou num contexto de ações policiais e judiciárias. O que vemos é um Estado Policial que tomou conta do Brasil, e que tem o seu início e a sua semente na atuação ilegal, fascista e genocida em relação à juventude negra.

http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2015/09/forca-policial-brasileira-e-que-mais-mata-no-mundodiz-relatorio.html http://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/29/politica/1467227156_026422.html


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