


AUTORES
Amanda Alvarez
Andrés Pardo
Andrew Macedo
Francesco Thorik-Saboia
Inês Silva de Almeida
SOB ORIENTAÇÃO DA PROFESSORA
Ana Thomé Williams

no ícone para aceder ao trailer do conto.





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AUTORES
Amanda Alvarez
Andrés Pardo
Andrew Macedo
Francesco Thorik-Saboia
Inês Silva de Almeida
SOB ORIENTAÇÃO DA PROFESSORA
Ana Thomé Williams

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Professora Ana Thomé Williams
É com muita alegria que apresento os contos do livro dos estudantes do Port 202, fall 2024 “Northwestern Assombrada. História de Mistérios e Terror em português”. É o fruto de leituras que fizemos de muitos contos em língua portuguesa onde o Surrealismo se impõe e também se reflete na nossa vida, na nossa escrita.
Como o título anuncia, os autores escolheram diferentes lugares da Northwestern para ser o pano de fundo de sua trama, que vai leva o leitor a desvendar a psiquê dos personagens. Todos os autores têm essa profunda conexão com a universidade onde estudam, trabalham, fazem amizades, e vivem inesquecíveis momentos de suas vidas. Seus percursos também passam pela língua portuguesa que os fará refletir sobre uma bela e rica fase de suas vidas… onde indagações, tramas e muita criatividade também acontecem! Vamos a essas histórias de terror e mistério!
Amanda Alvarez escreveu um conto que se passa na icônica Biblioteca Deering. Quantas horas de leitura e reflexão, estudantes e futuros escritores passam ali. Sim, futuros escritores! No conto “O estudante favorito”, Amanda traça o perfil de um estudante comum que vai se perdendo em leituras, caminhos, direções, e seus escritos… aos poucos vai se transformando! Você também pode se transformar ao ler esse conto!
Andrés Pardo personifica situações de medo com seu conto “Medos debaixo d’água”. A história acontece no conjunto esportivo da Universidade, o SPAC, especialmente na piscina. Que medos são tão grandes assim, monstruosos que abruptamente nos paralisam? É possível confrontá-los com coragem? Como se livrar deles? A leitura vai levá-lo a uma grande reflexão e empoderamento.
Andrew Macedo traz uma história interessante em seu conto “Meu colega de quarto” Você vai compartilhar seu quarto com um desconhecido… Há várias áreas residenciais na NU. como confiar em alguém que não tem os mesmos hábitos, a mesma autonomia e com quem você não consegue conversar? Como se sentir seguro se você é tão vulnerável em seu lugar de maior fragilidade, onde dorme? O conto é bastante criativo e tem um final irônico, surreal.
Francesco Thorik-Saboia, na sua história “Os pedidos de Socorro no Louis Hall” revela histórias de terror que assombram o Louis Hall, esse prédio famoso pelas produções de Rádio, TV e filme. Entre fios e microfones, como sobreviverá o personagem? Ele realmente sobrevive… ou não??
Inês Almeida, Teaching Assistant do nosso programa de português, contribuiu com uma história muito interessante. O prédio de letras da universidade é o Kresge Hall ou é o Crowe? Estão juntos. É o Crowe.. que se conecta ao Kresge… ou é o contrário? Para o novato, tudo é bastante confuso nessa engenharia, entre salas de professores, salas de aula e salas de reuniões que brotam do meio dos corredores. Onde está a saída? Por onde se sai? A entrada não é o mesmo lugar da saída? (A bem da verdade, não queremos que ela nos deixe não, queremos que ela continue por aqui entre nós, o máximo possível!) Mas será que a autora descobre a saída?
Com essas histórias assombradas, desejamos a todos os leitores, uma ótima leitura… Certamente, nossa universidade Northwestern continuará a gerar muitas histórias interessantes, assombradas e muito divertidas!

Amanda Alvarez
Biblioteca Deering é o lugar preferido do mundo do estudante. Entre as prateleiras, o estudante sentiu que ele estava no meio de uma fonte intelectual interminável no que poderia aprender. Mas, um bichinho começou a picar a mente do estudante. Seu único desejo da vida inteira foi escrever um livro que poderia ficar dentro das bibliotecas das universidades também. Algo literário. Algo sério. Contudo, quanto mais ele escrevia, menos ele ficava contente com seu trabalho. O que acontecerá se sua fonte criativa estiver seca?
Cada dia, o estudante mudava de onde ele se sentia, e a cada dia ele ficava mais e mais longe das outras pessoas. Ele não podia estar distraído, ele justificou-se, lentamente perdendo sua habilidade de se relacionar com as pessoas. Mas, isso não importava nenhum pouco. O mais importante era demais óbvio para ele. Ao fim do seu terceiro ano, passou a escrever entre a parede e a estante. Cada vez que alguém escolhia um livro, ele seguia o rosto com só um olho, seco e injetado de sangue, e ninguém percebia que ele estava constantemente olhando.
Qual seria o destino do estudante se não pudesse escrever como seus ídolos? Quem ele se tornaria se não fizesse esta coisa? Não poderia pensar nisso. Somente poderia escrever. Só poderia jogar suas forças fora e começar outra vez, uma e outra vez. Quanto mais tentasse escrever a próxima grande obra da literatura, tanto mais ele ficaria menor de si mesmo. Quase nunca regressou a casa, só comendo suas unhas e bebendo suas lágrimas. Quando a noite caiu, e a biblioteca estava fechada, ele deixou seus escritos atrás da estante e ousou entrar no espaço próprio da biblioteca.
Ele correu os dedos pelas lombadas dos livros, intimamente, suavemente, com um amor que ele não conseguia reunir por si mesmo. Cada noite, ele podia sentir algo diferente do pavor para seu futuro. À noite, ele podia sentir amor – um amor estranho, retorcido e quase profano – um amor impuro, tingido de ciúmes. Foi um amor cheio de ódio para consigo mesmo.
Um ano passou, e outro, e outro mais. Quanto mais os anos passavam, mais ele ficava petrificado com a ideia de falhar. O começo do oitavo ano do seu programa foi um momento vertiginoso. Sua casa – para a qual ele precisava retornar-a porque na biblioteca havia começado a construção que ia durar pelo menos dois anos – estava completamente lotada de seus escritos, de fragmentos de papéis até diários inteiros, cheio dos pensamentos com os quais se torturavam.
Seu conselheiro o convidou para uma reunião em seu escritório.
— Deus, ele pensou, não poderia ser bom.
Ele se sentou em frente a uma pessoa pela primeira vez em seis anos.
— Como está meu estudante favorito?
Seu sorriso escondia uma careta – favorito? Em que mundo ele seria o favorito de alguém?
— Muito bom, senhor. Obrigado.
— Queria falar com você sobre seus escritos, porque tenho algumas perguntas com as quais acho que você poderia me ajudar.
Começou a suar. Quase começou a chorar, mas não havia água suficiente no seu corpo para fazer as duas coisas. Ele ficou pálido, e sua roupa parecia mais apertada.
— Ah, sim? Perguntas?
Quase não podia respirar.
— Sim, perguntas. Como você pensou em uma história tão engraçada? Não posso imaginar!
Quê? Engraçada? Ele só tinha escrito histórias de terror – enviou o arquivo errado?
— Alguém morando dentro da biblioteca, quem pode imaginar isso! Que personagem tão patético, tão relacionável, mas que pensamentos tão risíveis!
Seu sangue congelou. Tinha enviado seu diário pessoal.
— Acho que poderia ser uma série perfeita para as crianças, não? Pode ensinar que não deve ser tão sério nessa vida, porque vai ficar como esse pobre coitado.
Crianças. Uma série para crianças. Oito anos da sua vida, estudando literatura, escrevendo cada noite, para ser um autor para crianças.
— Ah, absolutamente, o senhor tem razão.
Ele não poderia ouvir mais nada do que seu conselheiro dizia. A reunião, para qualquer outra pessoa, seria o início da sua carreira. Para ele, foi o término. Ele saiu do escritório e regressou à biblioteca. Estava totalmente vazio. Uma vez mais, ele correu os dedos pelas lombadas dos livros, com uma tristeza que a distância entre eles seria intransponível.
Nesse momento, ele sentiu uma paz nisso, sem razão. Levantou-se mais ereto, sentiu um estrondo dentro do seu estômago, e seus pensamentos pararam pela primeira vez em oito anos. Isso o assustou mais do que tudo. Quanto mais tentava pensar, mais seu corpo encolhia, seus membros entrando em colapso, seus sentidos escurecendo, seu corpo dobrando-se a meio.
Em só um momento, um livro novo caiu acima do chão, sem palavras, sem capítulos, sem um pensamento original. Só intitulado: O estudante favorito.

Andrés Pardo
éo sempre teve medo do fundo do mar. Não era a profundidade da água - era o que ele sabia que estava lá embaixo.
“Há um monstro na piscina”, Téo sussurrou para seu melhor amigo Tomás.
Tomás riu. “Não, não há. Pare de ser um bebê. Estamos no SPAC agora mesmo, e há salvavidas. Se houvesse um monstro, todos nós o veríamos. Ele pulou como uma bola de canhão no meio da piscina.
Mas Téo sabia que não` era assim. Sempre que olhava para o fundo da piscina, ele via um ser parecido com uma cobra, com olhos azuis brilhantes e uma cauda escamosa e assustadora.
“Por que ninguém mais vê isso?” murmurou Téo, olhando para as profundezas.
O monstro nunca se aproximava da borda, mas seus olhos brilhantes estavam sempre fixos nele, sem nem mesmo piscar, observando cada movimento seu.
Um dia, depois de uma sessão de sauna, Téo não aguentou mais. “Vou provar que é real!”, declarou ele a Tomás.
“Claro, Téo”, respondeu Tomás, sorrindo. “Faça um vídeo, talvez venda o filme para o Discovery Channel. Estamos na faculdade. Cresça.”
Segurando uma bóia tipo macarrão como se fosse sua única forma de sobrevivência, Téo caminhou até a beira da água. Seus joelhos tremeram quando ele olhou para baixo. Lá estava ele, à espreita nas profundezas, com seus olhos brilhando mais do que nunca. Sua cauda aterrorizante se contorcia como uma cobra cascavel e um som profundo e ameaçador vinha das profundezas da água. “Alguem alí?” Téo chamou com a voz nervosa.
O monstro subiu de forma gradual e calculada, como um leão perseguindo lentamente um sua preza. Pela primeira vez, Teo o viu por completo. O grande e aterrorizante rosto reptiliano do monstro causou arrepios na espinha de Téo. O rosto parecia estranhamente humano. O monstro exibiu um sorriso assustador que mostrava seus dentes extremamente afiados.
“Olá, Téo”, disse ele em uma voz profunda e ressonante que ecoou em seu peito como uma batida de tambor. Téo podia sentir a respiração do monstro em seu rosto. O sopro intenso da respiração do monstro fez com que Téo se sentisse paralisado, preso no lugar.
“Você fala?,” perguntou Téo.
A cabeça do monstro se inclinou ligeiramente. “Claro que sim. Eu estava esperando que você dissesse olá.” Ele sorriu novamente, um sorriso malicioso e perturbador. “Por que você tem tanto medo de mim? Eu já te fiz alguma coisa… assustadora?”
A mente do Téo se acelerou. “Bem... não, mas você é um monstro! Você está na piscina! O que você quer?”
O monstro deu uma risada suave. “Querer? Eu não quero nada. Você me vê porque você tem medo de mi. Eu existo apenas nas sombras da sua mente. E ainda assim, você me deixa permanecer aqui.”
Téo hesitou. “O que você quer dizer com isso?”
O monstro se aproximou mais, com seus olhos penetrantes. “Estou aqui por causa de você. Seu medo me mantém vivo. O fundo do mar, o desconhecido, as coisas que você não pode controlar - esse sou eu. Seu medo em pessoa.”
Téo agarrou com mais força a boia. “Então... se eu parar de ter medo, você vai embora?”
“Talvez”, disse o monstro, rodeando-o lentamente. Sua cauda roçou na coxa de Téo, fazendo com que sua perna estivesse prestes a cair... “Mas o medo não desaparece tão facilmente. Você precisa enfrentá-lo, Téo. Mergulhar nele. Descubra o que está la baixo.”
O coração de Téo batia outra vez como um tambor. Ele respirou fundo, com o peito apertado, e deu um passo à frente entrando na piscina. A água era como um gelo contra sua pele. Os olhos do monstro estavam tão fixos nele que ele sentiu como se o monstro estivesse olhando para a sua alma. Finalmente, com um ato de coragem, ele pulou na parte funda da piscina. A água o envolveu e, por um momento, ele sentiu como se a presença do monstro o estivesse sufocando. Téo não conseguia respirar. Ele sentiu como se seus últimos momentos estivessem chegando.
Mas pouco antes de sentir que a morte iria levá-lo embora, ele abriu os olhos embaixo d'água e tudo o que viu foi a extensão azul. Nenhum olho brilhante, nenhuma cauda esquisita - apenas a água límpida e imóvel. Ele subiu à superfície com um suspiro ofegante, girando ao redor. O monstro havia desaparecido.
Quando Téo saiu, tremendo, mas sorrindo, Tomás o encarou. “O que acabou de acontecer?”
“Eu o enfrentei”, disse Téo, com a voz firme. “Ele não era real. Era apenas eu. Meu medo.”
Tomás riu. “Então, não há mais desculpas sobre o fundo da piscina?”
“Não há mais desculpas”, respondeu Téo, mergulhando de volta com um respingo. Enquanto nadava, Téo se sentia mais leve, mais livre. Mas, no canto mais distante de sua mente, um sussurro se prolongava - um leve vislumbre de olhos azuis brilhantes esperando nas sombras. Porque, às vezes, os monstros mais assustadores não desaparecem completamente. Eles esperam, aguardando seu tempo, prontos para ressurgir quando novos medos aparecem…

Andrew Macedo
Tudo começou bastante normal, nós tínhamos enviado mensagens de texto um pouco antes do termo começar e nada pareceu estranho. Quando nos mudamos para o dormitório ele pareceu bem ainda. Conheci seus pais e eles mesmo me ajudaram a instalar-me em meu quarto. Meu colega de quarto era um cara quieto, mas parecia gentil. Todavia ele fez um comentário bizarro quando nós estávamos desfazendo as malas.
Enquanto minhas mãos estavam perdidas numa caixa, ele se moveu sorrateiramente atrás de mim. Ele meteu a cabeça logo atrás de minha orelha e sussurrou,
- Eu trabalho até tarde na noite.
Eu pulei em choque, assustado por ele estar tão próximo de mim. Eu me virei rapidamente para olhá-lo, quando ele disse levemente, numa voz mais alta:
- Não me incomode enquanto estiver trabalhando, por favor.
A segunda frase dele me congelou. Era como se ele não compreendesse o quão esquisito ele estava agindo. Meu coração batia mais rápido do que eu gostaria de confessar. Eu queria dizer mais, mas tudo o que eu podia fazer era gaguejar.
- Ah, claro…
Sua atitude mudou instantaneamente e ele foi de volta para a desarrumação de malas. Eu o encarei vagamente por um momento, mas eu logo retornei às coisas que eu estava fazendo. Não pensei muito nessa interação, achava somente que ele estava um pouco nervoso ao redor das pessoas.
Não nos vimos muito durante as semanas seguintes, só o ocasional olá, como vai? ou uma conversa curta no máximo. Ele chegava tarde à noite enquanto eu tinha aula cedo pela manhã, então eu estava dormindo sempre que ele estava no quarto. Era estranho. Eu não o via nunca em volta do campus, e jamais o via durante o dia (a menos que ele estivesse dormindo até tarde em horas absurdas). Era como se ele existisse somente em nosso quarto e desaparecia cada vez que ele ia para fora. Meus amigos nem mesmo acreditavam que meu colega do quarto era real, porque ninguém o conhecia ou conhecia alguém mais que o conhecia. Ele parecia estar incógnito completamente no campus. Por um momento achava que um fantasma estava me assombrando! (Nós até procuramos por ele no banco de dados da escola e descobrimos que ele existia realmente.)
Essa não era a única conduta estranha de meu colega de quarto. Enquanto eu vivia com ele, notava mais e mais as suas idiossincrasias. Ele era terrivelmente desorganizado e sua metade do quarto sempre estava uma bagunça de papéis, livros, e roupas sujas. Eu nunca o vi tomar banho, e eu
percebia isso. Ele também trocava de roupa aleatoriamente, usando as mesmas roupas por uma semana, antes de trocá-las três vezes num dia. Jamais o vi bebendo água também não, só Coca Diet, tanto que as garrafas transbordavam a lata do lixo. Finalmente, algumas vezes, se eu acordasse muito tarde na noite, veria meu colega no escuro, deitado na posição fetal, rindo para si mesmo quietamente. A única vez que eu perguntei se ele estava bem, ele se tornou silencioso. Depois de um momento, ele disse quase com raiva:
- Não olha para mim!
Suas palavras eram tão assustadoras, tão inesperadas, que eu não disse nada em resposta. Eu desviei meus olhos rapidamente, e peguei um momento breve para organizar meus pensamentos. Depois me acalmei, notei que ele estava rindo novamente, suavemente ainda, mas um pouco alto dessa vez. Minha espinha formigava por aquele som vil. Queria dizer algo, mas em meu delírio sonolento os pensamentos não podiam se formar em minha mente. Tudo que eu podia fazer era voltar a dormir, esperando que tudo isso fosse só um pesadelo.
Depois dessa interação, me distanciei mais do meu colega de quarto, mesmo. Falávamos ainda menos, e eu parava de tentar ser compreensivo. Eu passei a ignorá-lo completamente, ele podia ser um fantasma que eu não me importaria.
Essa conduta estranha continuou até uma noite quando, depois de desfrutar de uma quantidade considerável de bebidas, eu tropecei em nosso quarto. As luzes estavam ligadas ainda, então sabia que eu tinha de interagir com ele. Na verdade, teria tido medo se o álcool não fortificasse os nervos, eu estava realmente assustado com o homem. Enquanto eu andava no interior do quarto, eu o vi atrás de sua mesa, escrevendo com fúria. No início, não me notou, ele estava tão perdido em seu trabalho. Não querendo incomodá-lo, me mexia inquietamente. Pus vagarosamente minha mochila sobre a cama, encarado por ele para o tempo inteiro.
Meu Deus, estou bêbado e agindo como paranóico, pensei. Eu comecei a descontrair, tirei meus sapatos e os deixei cair no chão; grande erro.
Logo que os sapatos bateram no piso de madeira com um estrondo alto, eu vi meu colega de quarto me observando para além de sua mesa, tentando fazer contato visual comigo. Seus olhos estavam penetrantes, suas íris cinzas eram cercadas de escleras amarelas, marcadas com vasos sanguíneos vermelhos vívidos. Grandes olheiras pesavam suas pálpebras. Parecia que ele não dormia há dias. Meu coração parou enquanto nossos olhos permaneciam travados. Depois de alguns momentos, ele disse suavemente,
- Perdão, mas estou trabalhando agora, mantenha-se quieto, por favor.
Ele olhava para baixo e começava a escrever novamente.
Sua voz estava calma, mas seus olhos pareciam loucos ainda, e eu notava que sua mão estava trêmula. Escolhia minhas próximas palavras cuidadosamente,
- Desculpa, estou indo para a cama, somente.
Minhas palavras não provocaram uma resposta.
Agora, fiquei bravo. O estresse por viver com essa pessoa, e o álcool em meu sangue se misturaram, criando um sentimento profundo de irritação. Esse era meu quarto também, não merecia esse tratamento, não merecia o estresse de viver com ele, eu merecia tirar meus sapatos em meu próprio quarto! Com essa chama em meu coração, me levantei e pisoteei por sua mesa. Ele não olhou para mim, apenas para seus papéis, o que fez minha raiva crescer. Não vou ser ignorado, pensei comigo mesmo, enquanto eu batia minha mão sobre sua mesa.
- Qual é o seu problema?
Imediatamente ele olhava para mim e eu soltei um mês de queixas sobre ele.
Via alguma coisa que nunca tinha vista antes em meu colega do quarto, medo. Sua boca ficou aberta e suas mãos tremiam mais do que nunca. Habitualmente, essa atitude evocaria um sentimento de empatia em mim e eu tentaria desarmar a situação, mas minha empatia tinha secado e essa situação estava me desarmando. Eu continuava, ainda sob influência de álcool.
- Não posso viver assim! Cada noite você faz alguma nova coisa estranha que faz minha vida um inferno! Nosso quarto é uma bagunça por causa de você, há garrafas de Coca-cola por todo o chão, você cheira horrivelmente, e pior, tudo o que diz é aterrorizante. Estou falando sério, nós não tivemos uma única interação onde você não me deixou desconfortável. Você já teve uma conversa normal em toda a sua vida? Não pedi para viver com um psicopata!
Meu coração e mente estavam agitados ainda, mas após minha falação ter terminado, eu vi o estado em que ficou meu colega. Seus olhos cansados se tornavam lacrimosos, e o lábio inferior começava a tremer. Eu esperava por uma resposta, mas desejava isso menos a cada segundo que passava. Ele agarrou sua mão esquerda, que tinha tremido incontrolavelmente e disse, com lágrimas,
- Desculpa, tinha só ficado sob tanto estresse, com tarefas e provas dos cursos. O dia todo estudo na biblioteca ou vou para aula, mas preciso ainda trabalhar a noite toda também. Desculpa!
Ele acabou em lágrimas e meu coração se quebrou. Em choque, só consegui perguntar:
- Mas e a risada à noite?
Ele fungava, antes de murmurar
- Gosto de escutar um podcast de masmorras e dragões antes de dormir. Desculpa, sou muito inseguro, e não gosto quando as pessoas olham para mim.
Meus olhos se alargaram e tudo se tornou claro. Começava a temer o pior. Havia uma pergunta que eu precisava perguntar.
- O que você estuda?
Ele ficou silencioso por um momento, como se ele não tivesse coragem para dizer.
- Ciências da computação.
Com isso, minhas suspeitas foram confirmadas. Meu colega de quarto não era um psicopata, mas pior, um estudante de ciências da computação. Seria um ano longo…

Francesco Thorik-Saboia
Ele estava desesperado para falar com alguém do outro lado do rádio, gritando ao microfone, mas no jeito típico, ninguém respondeu. “Por favor, alguém me ajude! Qualquer pessoa, por favor, eu vou morrer aqui… eu não quero morrer…” Ele começou a chorar depois de falar isso, e parecia que ele tinha sido abandonado. Ele estava sozinho no Louis Hall, preso na sala de rádio dentro do edifício. As portas estavam fechadas e trancadas, e as janelas da sala agora estavam cobertas de concreto. Não havia luz natural, só uma lâmpada colocada na mesa ao lado da tecnologia do rádio. Ele apoiou a cabeça nas mãos, chorando sem parar, tentando aceitar sua nova realidade. Um mês atrás, ele dirigia um show de rádio bem popular no campus da universidade Northwestern e ele fez esse show no Louis Hall, onde havia várias tecnologias de rádio e televisão. Todo mundo no campus, incluindo os estudantes, professores e o presidente da universidade escutava o show dele. Quando ele começou o show de rádio dele, ele não sabia que ele ficaria no Louis Hall pela eternidade. Eu queria falar o nome desse show, mas agora, não importa agora. Talvez você esteja pensando quem eu sou… vamos só falar que eu estou no Louis Hall pela eternidade também. Foi um dia normal quando ele dormiu no estúdio depois de um show; ele estava no estúdio o dia todo. Ele nem usava o banheiro o dia todo porque ele estava trabalhando na estação de rádio, era como a tecnologia estava lhe consumindo. Quando ele dormiu, porque ele estava desmaiado de trabalhar, ele estava com suas mãos e cabeça na tecnologia do rádio. A mesa estava cheia de controles deslizantes, computadores, e luzes. Quando ele acordou, estava aqui, mas algo era diferente… um lugar que era um segundo casa para ele, mas agora funciona como sua prisão. E a única luz que havia era a lâmpada na mesa ao lado do centro de controle do rádio.
Ele tirou a cabeça das suas mãos e deu uma grande sapatada. “Mantenha o foco!” ele berrou, a esperança dele sofrendo. Nesse momento, uma porta abriu-se rapidamente para mostrar um corredor de metal. Fios metálicos preencheram o corredor, e ele quase caiu correndo em cima deles enquanto esses fios grandes e estragados estavam crescendo. Ele tinha que começar a pular em cima dos fios, porque eles estavam crescendo e ficando mais gigantes. Em frente dele, no corredor de metal, os fios estavam em todo lado, consumindo tudo que ele viu, e formaram a parede mais alta que ele já viu na vida dele. Ele não tinha mais lugar para correr, todavia os esforços dele para escapar. Ele se virou para ver uma Sombra, um monstro que não daria para ver de um jeito claro, mas era claro que se dava para ver, seria feio demais. A Sombra ficou rápida demais e puxou ele para o chão. Não tinha nome ou forma física, mas estava diante dele.
“Quem é você?” a Sombra lhe perguntou. Antes que ele pudesse falar uma resposta, a Sombra falou de novo.
“Pode deixar, agora eu não estou curioso. Por que você está aqui?” a Sombra perguntou. Ele olhou para a Sombra e perguntou por que ele estava aí, e a Sombra falou rapidamente que ele não tinha o direito de fazer perguntas.
“Eu… eu tinha um show de rádio. Eu amava esse lugar, sempre passei músicas para meus amigos e para todo mundo que escutava o show. Um dia, eu acordei e eu estava aqui. Nessa solidão, silêncio… As únicas coisas que quebram o silêncio são os barulhos da tecnologia e meus gritos,” ele respondeu. A Sombra riu dele, quase gritando com de tanto rir.
“Eu tinha um show também. Como você gosta de outro mundo?” a Sombra perguntou, depois de a Sombra parou de rir e deixou uns segundos de silêncio. Nossa personagem principal estava olhando para o chão, mas quando olhou para cima, a Sombra não estava lá. Só o corredor de metal. Ele se levantou e olhou pelo corredor, que agora estava iluminado. Ele caminhou pelo corredor devagar, mas não tinha nada. Agora, no Louis Hall, ele não sentiu fome ou sede, e teve mais energia.
Sou morto? Ele pensou.
Um grito ecoou no corredor, que agora tinha fios retos que não cresceram para cima. Ele começou a correr, igual a antes, e a voz que gritava, agora calma, falou uma coisa para ele: “Corra.” Ele virou para olhar para essa voz, mas viu uma Sombra diferente… agora estava vermelho. “Você já morreu uma vez. Corra.”
Contanto que ele corresse, ele não morreria na forma espiritual.

Inês Silva de Almeida
Tudo está em silêncio. Lá fora, cai uma neve miúda que caia toda a paisagem, fazendo-a refletir o brilho da lua e das lâmpadas elétricas de uma maneira quase sobrenatural. A mulher pensa É tarde, e decide ir embora. Tinha trabalhado o dia todo e grande parte da noite, é o final do ano e os prazos não esperam nem perdoam. Vagarosamente, arruma as suas coisas: a garrafa de água, os restos do almoço, os papéis, as canetas. Olha mais uma vez pela janela, já adivinhando o frio que a aguarda no exterior, e suspira. Põe-se a caminho. Passa pelas portas e cartazes que já conhece de cor: 3544… “Spanish Tutoring”... “Northwestern Assombrada”… 3535…3552. Passa pela secção de Filosofia, a esta hora abandonada aos seus próprios pensamentos, e onde uma senhora, que costuma estar na biblioteca, a cumprimenta todos os dias. Cumprimentá-la-ia agora, se lá estivesse, mas é demasiado tarde e está sozinha, então acena só aos livros, Boa noite. Vira à esquerda, empurra uma porta pesada e desce as escadas. Não gosta muito de elevadores. Quer descer para o segundo andar, onde encontrará a saída para a rua, mas abre a porta e está no primeiro piso. Cartazes de arte, anúncios de aulas enchem o branco das paredes E diz alto para o vazio do corredor: Estou tão cansada que já nem sei quantos degraus desci! E apenas o eco lhe responde, sem trazer verdadeiras respostas. E volta a entrar na escadaria, volta a subir, quer ir para o 2º andar. Mas sai, e dá por si no 4º. Já chega, pensa, vou pelas outras escadas. Percorre o 4º andar, desta vez as paredes estão cobertas em línguas, aos seus olhos, indecifráveis, e sente-se ainda mais perdida, rodeada de letras que não sabe traduzir. Do outro lado do edifício, encontra outras escadas. Finalmente, chega ao lugar pretendido.
Atravessa o corredor, vê as salas onde os computadores hibernam, aguardando o novo dia. Na porta principal, a cafeteria dorme e as cadeiras e sofás têm o ar triste dos objetos que se encontram sem o seu propósito. Um homem esfrega o chão, É o funcionário que vem fazer a limpeza à noite, lembra-se, mas já é tão tarde...
— Boa noite! Com licença. – diz, levando a mão ao puxador da porta.
— Menina! – o homem agarra o seu braço com uma força inesperada – Espere. Não pode usar essa porta.
Faz uma cara de indagação, esperando um motivo, mas ele não lho dá.
— Posso usar a porta do lado?
— Não. Não. Esta noite ninguém sai daqui.
— Ninguém sai daqui?
— Por aqui!... Esta noite ninguém sai por aqui. Houve um grande nevão que bloqueou a entrada. Tem de usar a porta do outro lado, tem de sair pelo Crowe.
— Ah... Está bem. Obrigada. – responde, nada convencida. Um lugar daqueles não estaria preparado para um nevão? E decide-se a tentar a porta do outro lado.
Volta a atravessar o corredor, volta a entrar na escadaria. Tem de descer, no Crowe, a porta para o exterior fica no 1º piso. Desce, abre a porta das escadas, e lê: “Department of Portuguese and Spanish”. Está de volta ao 3º piso. Em rodopios, não sabe ao certo por quanto tempo, a mulher sobe e desce escadas, freneticamente. Nunca consegue chegar ao 1º nem ao 2º piso, não encontra saídas. Derrotada, decide voltar ao seu escritório, ou entrar em qualquer sala, mas de súbito lembra-se de que, no meio da correria sonolenta de finalmente voltar a casa, deixara a chave do escritório em cima da mesa. Arrasta-se até a um sofá, onde, finalmente, mal se senta, os seus olhos se fecham.
Um raio de sol bate-lhe nas pálpebras, forçando-a a despertar. Sente o corpo entorpecido e a cabeça confusa. Precisa de um segundo para se lembrar de onde está. Está no escritório, toda torcida na sua cadeira, dormira assim, nem sabe quantas horas. Mas eu não estava do lado de fora? Sem chave? Ah! Afinal tinha sido tudo um sonho. Olha o relógio e são quase 7h. O edifício está silencioso, ainda falta um pouco para começarem as aulas. Decide ir para casa, tomar um duche e um bom pequeno-almoço. Merece-o, depois daquela noitada. Levanta-se e pega na mochila, tinha arrumado as suas coisas, sim, isso não tinha imaginado. Sai e começa a percorrer o corredor.
Um colega cruza-se com ela e dirigi-lhe um entusiasmado Bom dia! sem desacelerar o passo. Deve ter pressa de chegar a algum lado, pensa. Ela não conhece aquele colega, nem nunca viu ninguém que viesse trabalhar de fato e gravata, mas era normal encontrar novas personagens todos os dias numa universidade tão grande. Passa a biblioteca de Filosofia, onde uma senhora que ela não reconhece, de cabelo extremamente bem penteado e óculos de olho de gato, martela os dedos numa máquina de escrever. Não levanta os olhos da máquina e não a cumprimenta. Desde quando alguém aqui usa uma máquina de escrever? Na mesa junto aos WC, dois alunos conversam, e cada um tem nas orelhas um par de auriculares que, na outra extremidade, se conecta a um discman. No segundo piso, vê um professor fumar dentro de uma sala de aula. Que loucura! Faz uma nota mental para si mesma para avisar alguém do que viu. Estou a ver que, às 7 da manhã, a Universidade é frequentada por gente muito esquisita, pensa.
Eis que finalmente chega à porta. Respira fundo, aliviada, vendo a luz brilhar nos restos de neve que cobrem a escadaria e que ofuscam o vidro. Está tão feliz de finalmente ver a saída, que só depois se apercebe de que, ao seu lado, com o seu carrinho de baldes, esfregonas, vassouras e detergentes, o mesmo homem da noite anterior (ou seria do sonho?) a olha fixamente.
— Bom dia! Passou aqui a noite toda?
O homem ri:
— Os trabalhos mais importantes nunca têm fim. Pensava que você já sabia isso.
— Pois, tem toda a razão. Bem, – diz, levando a mão ao puxador da porta – um ótimo dia para si!
— Menina! – o homem agarra o seu braço com uma força inesperada – Espere.
Ela olha-o, percorrendo com o olhar desde a mão enrugada do homem até aos seus olhos, muito abertos, vermelhos, como quem não dorme há muito, muito tempo. Os olhos não se lhe alteram quando ele mostra os dentes num sorriso amarelo e diz:
— Ainda não percebeu? Ninguém sai daqui.

Amanda Alvarez é estudante de doutorado na Northwestern, fazendo sua pesquisa sobre a arte de vanguarda da América Latina. Quer tornar-se professora depois da graduação, e ensinar a importância de estudar a arte moderna. Ela também é artista, e sua mídia preferida é a cerâmica, embora esteja tentando bordar também.
O texto da Amanda experimenta com as ideias do autoódio, o que nós valemos, e o equilíbrio precário entre a vida e o trabalho. O personagem principal, um estudante sem nome, que lentamente se torna completamente torcido e desumanizado, pode ser qualquer pessoa - pode ser você!

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Andrés Pardo é estudante de cinema na Northwestern. Ele também está se formando em português e empreendedorismo! Sua paixão é a comédia e a atuação. Ele gosta de fazer comédia stand up, se apresentar com sua banda e conversar com as pessoas em seu podcast, The Green Room
O texto de Andrés explora os temas de enfrentar seus medos e não fugir deles. Por meio do personagem principal, Téo, e sua batalha contra o monstro, Andrés espera que você se sinta preparado para enfrentar seus medos de frente e não fugir deles!
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Andrew Macedo é um estudante na Universidade Northwestern. Ele estuda Filosofia e Ciências de Dados e espera ganhar um minor em Português. Quando não está estudando, pode encontrar Andrew jogando rúgbi, na academia, ou se voluntariando numa clínica de abuso de drogas em Chicago.
O texto do Andrew Macedo, Meu Colega de Quarto, é sobre as dificuldades simples de morar com um colega de quarto. Com sorte você jamais tivesse um colega de quarto como esse.
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Francesco Thorik-Saboia é um estudante de estudos maiores em jornalismo e história e estudos menores em português e empreendedorismo na Universidade Northwestern. Ele faz várias coisas, incluindo tocar guitarra, fazer música e atuar em filmes breves.
O texto do Senhor Thorik-Saboia, Os Pedidos de Socorro no Louis Hall, um edifício renomado e famoso, fala sobre como a tecnologia está nos consumindo. O personagem principal, que não tem nome, vai descobrir um segredo horrífico no Louis Hall, e talvez ele nunca consiga sair…
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Inês Silva de Almeida é Teaching Assistant de Língua Portuguesa na Universidade Northwestern no ano letivo 2024/2025. É portuguesa, mas sente-se em casa no mundo. Adora ensinar português, mas gosta mais de aprender, pois considera que o ensino é, primeiramente, um ato de aprendizagem. Quando não está a trabalhar, está provavelmente a ler um livro, a ver um filme ou a beber café.
O conto de Inês imagina uma Northwestern labiríntica, em que tempo e espaço não são lineares, e onde todos os passos são errados.
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