2/2017 Carlos Pimenta | António Costa Silva Moderação de Helena Garrido 4 de julho de 2017 Sala do Arquivo dos Paços do Concelho, Lisboa
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
Vivemos uma época em que a aceleração tecnológica, a globalização e as mudanças climáticas interagem com movimentos societais e políticos, que resultam em realidades e cenários complexos com ameaças e oportunidades muitas vezes difusas. O debate sobre o rumo das transições energéticas e das mudanças geopolíticas em curso é importante para uma melhor compreensão dos fatores que sustentam o desenvolvimento e as próprias condições de vida do planeta. A decisão tomada pelo Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) de retirar o país do Acordo atingido em Paris sobre as alterações climáticas reforçou ainda mais a natureza estratégica da sustentabilidade dos modelos energéticos. Esta decisão tem na realidade impacto sobre as metas negociadas ou pode ser revertida pelas posições favoráveis ao COP de grande parte dos Estados, empresas e cidadãos? O ainda atual coração do sistema energético convencional – o Médio Oriente – perde cada vez mais relevância como resultado do impacto da produção do shale oil & gas e do aumento da produção e diminuição do preço das energias renováveis. Que impacto geopolítico têm estas realidades? A maioria dos países da União Europeia depende do fornecimento de gás proveniente da Rússia e do Norte de África e são afetados pelos acontecimentos nas regiões produtoras do Médio Oriente. Onde se posiciona Portugal nesta equação energética?
A segunda Lisbon Talk organizada pelo Clube de Lisboa teve como oradores Carlos Pimenta, membro do conselho de administração do NovEnergia II e membro da direção da Plataforma para o Crescimento Sustentável e António Costa Silva, presidente executivo da Partex Oil & Gas e professor catedrático do Instituto Superior Técnico. O debate foi conduzido e moderado pela jornalista Helena Garrido.
Lisbon Talks são sessões de debate periódicas sobre temas relevantes da atualidade internacional.
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
THE GREATEST THREAT TO OUR PLANET IS THE BELIEF THAT SOMEONE ELSE WILL SAVE IT. Robert Swan
Carlos Pimenta
6
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
Este tema é apaixonante e vou procurar passar duas mensagens fundamentais, para além de uma terceira para o debate. A primeira mensagem é ambiental. Embora façamos o que em inglês se denomina de prestar “lip service” à mudança climática, na prática não interiorizamos no nosso comportamento o mal que estamos a fazer e a eminência de uma verdadeira catástrofe ambiental, a qual não passa apenas pelas mudanças climáticas. Em décadas a trabalhar neste assunto, penso que não consegui chamar a atenção para a gravidade, a premência e a importância que têm os nossos comportamentos enquanto consumidores, enquanto cidadãos, enquanto agentes educativos e pedagógicos, pessoas políticas. O problema é mesmo muito sério. Eu diria mesmo que é o problema mais sério, porque é estrutural e planetário, não afetando apenas regiões localizadas do planeta ou grupos humanos mais sofredores por razões estruturais ou conjunturais, mas a totalidade da Humanidade que está viva e a que vai nascer. A segunda mensagem é a de que estamos a viver num mundo que é um tsunami de mudanças, sobretudo por via do trabalho dos cientistas e dos engenheiros científico-tecnológicos, que provocou mudanças sistémicas. Hoje damos por adquirido aquilo que vemos nas telecomunicações, a internet, os telefones móveis, o Simplex, e outras coisas que nos mudaram a vida, mas tudo isto será muito mais profundo. Neste sentido, o mundo da energia é uma próxima frente que será totalmente alterada pelas novas soluções e tecnologias. O terceiro desafio, que não irei desenvolver mas que pode ficar para pensarmos, é o que é que uma comunidade de cerca de 10 milhões de pessoas como Portugal, com a localização geográfica que tem, com as suas virtudes, perigos e riscos, pode fazer para melhorar a sua vida e para evitar alguns dos seus riscos (por exemplo temos uma
frente litoral muito grande e um regime de clima que é muito ameno, mas também pode dar situações extremas) e nomeadamente o que podemos fazer na área da energia. A marca e a pegada ecológica que estamos a deixar no planeta são tão grandes que a União Geológica Internacional - organismo que gere por exemplo as classificações dos períodos geológicos das eras - estabeleceu um grupo de trabalho para a criação de um novo período chamado Antropoceno (da palavra grega, o Homem)1. Estes períodos são definidos pelo que se vê nos extratos, porque a quantidade de plástico e lixo não degradável que estamos a deixar no planeta é tão grande, que daqui a 10 mil anos quem cá estiver olhará para uma falésia e conseguirá identificar o Antropoceno. O termo Antropoceno é um termo cunhado por Paul Crutzen e Eugene Stoermer em 2000, que designa o período em que as condições e processos geológicos são profundamente alterados pelas atividades humanas, ou seja, a nossa influência já vai ao nível das rochas e da geologia. Será possível ler na geologia as alterações decorrentes da destruição das florestas, da erosão do solo, da alteração da atmosfera, do aquecimento global, da alteração química do mar e da quantidade de resíduos que produzimos. Estamos, portanto, a viver vários tsunamis em simultâneo: (i) o geopolítico, com a época da emergência do Pacífico (depois de termos vivido o tempo do Mediterrâneo e o tempo do Atlântico), com a alteração dos padrões demográficos e com a ascensão das redes sociais; (ii) o ambiental, com as alterações climáticas, a extinção em massa das espécies e as disrupções ambientais ao nível sistémico; e (iii) a revolução científica e tec-
1. Ver http://quaternary.stratigraphy.org/workinggroups/anthropocene/ e http://www.scientificamerican.com/article/didthe-anthropocene-begin-in-1950-or-50-000-years-ago/
7
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
nológica, com a inteligência artificial, a robótica, a computação quântica, novos materiais, etc. A computação quântica e a inteligência artificial são verdadeiros game changers, porque não somos capazes de antecipar o que isto traz em termos de mudança do nosso quotidiano e da maneira como produzimos, como vivemos e consumimos. É uma nova vida, a vida sintética, que é uma verdadeira “caixa de pandora”2. Em termos demográficos, até 1820, ou entre Júlio César e Napoleão, o mundo mudou muito pouco. De acordo com estudos de Angus Estamos a viver vários Maddison3, a variação tsunamis em simultâneo: do Produto Interno o geopolítico, o ambiental Bruto (PIB) mundial e a revolução científica per capita (a preços e tecnológica. constantes em dólares de 1990), desde o ano 1 até 1700, foi muito reduzida, de 467 para 615 USD. Calcula-se que, nesses mesmos anos, a população global atingia, respetivamente, 226 e 603 milhões de pessoas. Porém, desde o fim das guerras napoleónicas e a entrada da revolução da energia (primeiro com o carvão), o PIB, o consumo de recursos e a população explodiram e o Antropoceno mudou tudo. De 1820 a 2006, o PIB per capita subiu de 666 para 7.215 USD e a população global de 1.041 para
8
2. Sobre estas alterações, ver Game Changers: Surfing the Wave of Technology Disruptions (disponível em http://ow.ly/ Jrtu30fPlaY) e An Optimist’s Guide to Thriving in the Age of Accelerations, Thomas L. Friedman (resumo em https://www. nytimes.com/2016/11/22/books/review/thomas-friedmanthank-you-for-being-late.html). 3. Ver http://www.ggdc.net/maddison/maddison-project/home. htm
6.560 milhões de pessoas. São duas variações à escala global verdadeiramente prodigiosas, que vieram dar maior qualidade de vida, bem-estar e riqueza a uma humanidade muito mais numerosa. O mundo integrou-se, tendo início uma exploração maciça dos recursos e uma alteração profunda do planeta, que nos coloca desafios de sustentabilidade enormes, incluindo também desafios sociais - com ganhadores e perdedores -, insegurança alimentar, escassez de água e problemas climáticos. Figura 1. Os desafios da sustentabilidade
Focando particularmente a mudança climática, esta tem duas abordagens simultâneas e paralelas. Uma é a estatística média estruturante, ou seja, o clima fica mais quente, há mais energia na atmosfera, há mais gases CO2, a atmosfera ou o “cobertor” que nos envolve fica mais denso. A realidade é que se não houvesse este “cobertor” não havia vida. A Terra está situada entre o deserto de Marte e a sauna de Vénus. Marte já terá tido atmosfera e perdeu-a, pelo que toda a radiação que é emitida do Sol aquece, enquanto Vénus tem uma enorme camada nebulosa à volta e, portanto, toda a energia que entra bate em
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
Vénus e é refletida para a sua atmosfera, ficando lá retida. Na Terra, se não existissem gases com efeito de estufa, não existiria vida, ou seja, precisamos que haja emissão que seja absorvida na terra e nos oceanos e que seja reemitida para cima, sendo que uma parte se escapa e outra é capturada pelas plantas e pelos processos químicos, permitindo o ciclo da vida. O nosso planeta já registou muitas variações, uma vez que, há 56 milhões de anos, já depois dos dinossauros estarem extintos, a concentração de gases era muito maior do que é hoje, os mares tinham dezenas de metros mais do que atualmente, a geografia dos continentes era diferente, a Antártica era subtropical e estendia-se durante 3 meses por ano.. O problema é que, atualmente, existem 7 mil milhões de pessoas. Nomeadamente, estamos a provocar a
extinção de espécies, o que é preocupante tendo em conta que o aparecimento de novas espécies leva milhões de anos. Para além das questões estruturantes existem os fenómenos, como os acontecimentos em Pedrogão, o Katrina em Nova Orleães, o Sandy em Nova Iorque e outros. A quantidade e a intensidade dos fenómenos extremos vai aumentar nos próximos anos, ou seja, o normal é a repetição de fenómenos anormais, sejam chuvas intensas ou secas intensas, temperaturas muito altas ou muito baixas, variações súbitas e outros. Porque há muito mais energia, os fenómenos tornam-se todos muito mais violentos e súbitos. Segundo o Earth System Research Laboratory, a concentração do dióxido de carbono aumentou 42% desde o século XVIII.
Figura 2. Aumento da concentração de dióxido de carbono, 1960-2020
10
Fonte: Earth System Research Laboratory. https://www.esrl.noaa.gov/gmd/ccgg/trends/full.html
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
Para além disso, as temperaturas subiram 1.5oC. (graus Celsius) nos últimos 50 anos. O Prof. Richard A. Muller, da Universidade de Berkeley afirma que “Our results show that the average temperature of the earth’s land has risen by two and a half degrees Fahrenheit over the past 250 years, including an increase of one and a half degrees over the most recent 50 years. Moreover, it appears likely that essentially all of this increase results from the human emission of greenhouse gases.” Esta é uma história interessante, porque o Prof. Muller, uma das maiores mentes matemáticas do mundo, foi, durante muitos anos, um aliado daqueles que negam as alterações climáticas, tendo ido várias vezes ao Congresso norte-americano afirmar que os modelos matemáticos do clima uti-
lizados pelas universidades, pela NASA ou pelas Nações Unidas estavam errados. No entanto, tendo pegado em mais de 2 mil milhões de medidas, em 40 mil estações de medida existentes desde 1750, descobriu que, afinal, o intervalo dos vários modelos era muito pequeno, conforme representado na figura 3. Tendo sido convidado pelo Chefe da Comissão de Energia da Câmara dos Representantes, um homem ligado à indústria do carvão e feroz combatente das medidas que o Presidente Obama tomou nesta área, o Prof. Muller acabou por apresentar as suas conclusões e afirmou “I was wrong, climate change is real”4, tornando-se a partir desse momento um dos maiores promotores da luta contra as emissões e por uma mudança de paradigma.
Figura 3. Aumento de temperatura na Terra, comparação dos vários modelos matemáticos do clima
Fonte: http://berkeleyearth.org/results-summary/
4. Ver o artigo http://www.nytimes.com/2012/07/30/opinion/ the-conversion-of-a-climate-change-skeptic.html
11
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
Verificamos que os meses são cada vez mais quentes. Entre 1850 e o presente a temperatura aumentou 0,06 graus centígrados por década, entre 1900 e o presente cresceu 0,86 graus por década e só entre 1990 e o presente já vai em 0,19 graus. Cada década acelera o aumento e a mudança da temperatura, porque aumenta a concentração dos gases de estufa. A última análise confirma 36 meses consecutivos de temperaturas recorde. Outro aspeto de que se fala menos, mas com efeitos catastróficos, é o aumento da acidez do mar. Tal já aconteceu no passado, pois, de cada vez que houve uma extinção maciça de espécies no mar, este registou uma acidez maior. O PH do mar está a alterar-se e a acidez dá-se mal com o ciclo do cálcio, ou seja, as espinhas dos peixes ou as conchas dos moluscos, sendo feitas de cálcio,
são afetadas por este facto. Assim, para além da sobre-pesca e da poluição, a mudança de acidez do mar é condição explosiva de destruição de espécies marinhas. Além disso, o gelo está a derreter mais depressa e a temperatura dos oceanos está a subir, como demonstra a figura 4. O Ártico é a zona do planeta que está a aquecer mais depressa, sendo já navegável a famosa passagem do Noroeste, onde tantos navegadores morreram no séc. XIX5. As temperaturas no Ártico atingiram valores na ordem dos -5ºC em novembro de 2016, quando costumam estar perto dos -25ºC. O gelo atua como um ar condicionado para o planeta, porque reflete a energia do sol para o espaço, enquanto o mar absorve calor e radiação, ou seja, verifica-se um fenómeno com efeito de retroação positivo.
Figura 4. Aumento da temperatura dos oceanos, 1860-2020
12
5. Sobre as temperaturas no Ártico, ver o vídeo da NASA: https://earthobservatory.nasa.gov/IOTD/view. php?id=84418&src=eoa-iotd
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
No fundo, estamos a brincar com o planeta. No nosso dia-a-dia conduzimos carros que desperdiçam 4 em cada 5 litros de gasolina, ou seja, só aproveitam 20% do combustível, sendo o restante perdido em poluição e calor. Continuamos a chegar a casa e a comer um 1kg de bife ao jantar para a família toda, quando a produção desse bife utilizou milhares de litros de água, para além de metade da carne ter sido desperdiçada no supermercado (deitada fora por ter passado o prazo de validade), nos restaurantes ou na nossa própria casa, por não ter sido consumida. Isto não é possível nem sustentável. Espero que esta intervenção vos inquiete a sério. Temos de mexer com o quotidiano e não estar apenas ao nível do discurso. Quando temos um ciclo de vida dos objetos cada vez mais curto, quando temos um padrão de alimentação insustentável, ou quando temos o atual padrão de mobilidade, é óbvio que estamos a contribuir para tudo isto. Vale a pena ler os documentos de preparação da Cimeira de Paris, em 2015, Espero que esta nomeadamente intervenção vos inquiete o Laudato Si6, e a sério. Temos de mexer os Acordos de Paris, onde os com o quotidiano e não Estados assumiestar apenas ao nível do ram compromisdiscurso sos sérios, mas ainda assim insuficientes7. O Acordo
6. Disponível em http://w2.vatican.va/content/francesco/en/ encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html 7. Ver mais em http://www.cop21.gouv.fr/en/learn/ e em http://citiscope.org/topics/implementing-paris-agreement-climate
de Paris é um marco muito importante porque incorpora um objetivo de longo prazo, tem alvos definidos e identificados, define um mecanismo de transparência para podermos verificar o que está a acontecer, tem previstos mecanismos de climate justice and money, com um fundo para as zonas menos desenvolvidas do mundo e para as comunidades mais vulneráveis e com um mecanismo de loss and damage (para responder às perdas financeiras dos países vulneráveis, devido a impactos climáticos como os fenómenos meteorológicos extremos). Com todas as deficiências e dificuldades que tem uma negociação internacional, Paris é um grande passo em frente do ponto de vista do consenso mundial, tendo conseguido muito mais do que alguma vez teria sido possível em Quioto - particularmente se virmos a evolução de países que olhavam para a mudança climática como mais uma maneira de os países ricos poderem manter os restantes de fora. Este é o caso da China e agora também da Índia, que tomaram a dianteira na defesa deste processo. No entanto, o Acordo de Paris, sendo uma base de referência jurídica e económica internacional que constitui uma boa base de trabalho, é também insuficiente. Os compromissos de diminuição das emissões de gases com efeitos de estufa são nacionais e não são juridicamente vinculativos8, para além de estarem muito abaixo do necessário (como se demonstra na linha vermelha da figura 5) relativamente ao objetivo dos 2ºC definidos em Paris (linha verde). Gostaria também de abordar o tema da biodiversidade, que geralmente é o “parente pobre” da conversa entre engenheiros. O ecossistema é um sistema vivo e interrelacionado, que tem uma grande capacidade de resiliência e adaptação. Mesmo quando cai um asteroide, como aconteceu
8. Ver as Intended Nationally Determined Contributions (INDCs) em http://unfccc.int/focus/indc_portal/items/8766.php
13
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
Figura 5. Impacto dos compromissos nacionais (INDCs) nas emissões, até 2100.
há 66 milhões de anos, a vida renasce, tal como já tinha renascido quatro vezes antes, em outras grandes extinções. Estamos a viver a sexta extinção maciça de espécies, mas a única diferença é que as anteriores derivaram de causas naturais – asteroides, vulcões, placas tectónicas – e esta é provocada pelo Homem. Segundo um estudo da Universidade da Califórnia9, que mede o risco de
destruição dos ecossistemas da natureza, verificamos que os riscos não estão apenas no Ártico ou nas florestas tropicais, mas na própria Península Ibérica (conforme o mapa da figura 6).
Figura 6. Projeção da perda de habitats e biodiversidade no mundo
14
9. Estudo disponível em http://ucsdnews.ucsd.edu/archive/ newsrel/science/02-08BattlegroundsForConservation.asp . Sobre a sexta extinção maciça das espécies, ver também Ceballos et al (2015), Accelerated modern human–induced
species losses: Entering the sixth mass extinction, disponível em http://advances.sciencemag.org/content/advances/1/5/ e1400253.full.pdf
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
Isto é particularmente evidente nos oceanos, que são uma cadeia muito complexa e rica. Com a destruição da cadeia marítima e do ecossistema marítimo, por via do aumento da temperatura, da acidez, da pesca excessiva e da poluição – sobretudo da poluição com origem em terra, que é fonte de 80% da poluição marítima – o ecossistema marítimo está a simplificar-se e a empobrecer-se, como demonstra a explosão das alforrecas, ocupando o espaço de outras espécies10. Temos hoje uma zona no Pacífico, de convergência das correntes, com três vezes o tamanho da Península Ibérica, formada por vários triliões de sacos de plástico e outros objetos e detritos a flutuar. É um mar, não dos sargaços, mas do plástico e dos dejetos humanos, que flutua no centro do Pacífico, conforme representado na figura 7.
O plástico é um dos grandes problemas, não apenas em termos de poluição ambiental – uma vez que demora mais de 400 anos a ser absorvido pelo ambiente –, mas também de saúde pública, pois encontra-se espalhado em nano-partículas pelos alimentos11. Uma fralda demora 500 anos para ser reciclada, uma garrafinha de plástico 450 anos. Como não são reciclados, estes plásticos vão-se partindo em partículas cada vez mais pequenas. Atualmente, quando colocamos sal na comida estamos também a por plástico, porque já há micropartículas de plástico dentro do sal resultante da evaporação da água nas salinas. Isto entra no peixe, entra no ciclo alimentar, entra em nós. Algumas destas partículas têm efeitos cancerígenos e tóxicos, outras têm efeitos hormonais (por
Figura 7. A massa de plástico no Oceano Pacífico
Fonte: Infografia disponível em http://visual.ly/great-pacific-garbage-patch
10. Sobre a explosão das alforrecas, ver por exemplo http:// www.lenfestocean.org/en/news-and-publications/data-visualizations/could-fishing-and-jellyfish-suppress-gulf-menhaden
11. Sobre o plástico nos oceanos, consultar http://www.noaa. gov/, https://www.plasticoceans.org/ e http://www.algalita.org/
15
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
exemplo, devido a aditivos do plástico que são percebidos pelo corpo como estrogénio). Sobre os riscos financeiros associados à mudança climática12, estes incluem: os ativos abandonados ou improdutivos, como as reservas de hidrocarbonetos e carvão; a incapacidade de segurar as operações ou de só as conseguir segurar a um custo elevado (p. ex. seguros de cheias para instalações em zonas costeiras); questões de acesso aos recursos (p. ex. setores com utilização intensiva de água, como a agricultura, são vulneráveis ao stress hídrico, com impacto potencial nos meios de subsistência, nas vendas e nos lucros); o aumento dos custos jurídicos e de conformidade (p. ex. a alteração rápida da regulamentação ambiental na China, os sistemas de preços do carbono no Canadá, a proposta de restrições às emissões elétricas nos EUA de acordo com o “Clean Power Plan”, etc.), que implicam consequências financeiras significativas para quem atentar contra o ambiente; o risco de qualquer fator acima descrito ter impacto na cadeia de abastecimento ou afetar um elemento importante da cadeia de valor das empresas; e também alterações no mercado devido a inovações tecnológicas, levando a produtos obsoletos ou a novas soluções de mercado para o setor. É importante salientar o trabalho notável do Governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney, que foi um dos primeiros grandes financeiros mundiais a alertar para os riscos sistémicos para os fundos de pensões, para os fundos onde as pessoas põem as suas poupanças, para os bancos, e para outros efeitos no sistema financeiro. Os efeitos do clima nas atividades económicas e humanas são transversais: umas empresas perdem valor e outras ganham, umas são afetadas por desastres e perdem infraestruturas, outras ainda porque a
16
12. Ver mais em http://www.iigcc.org e em unpri.org/download_report/17724
mudança climática muda a produção de alimentos, afeta os fluxos turísticos, etc. Mark Carney conseguiu fazer aprovar no G-20 a criação de um grupo especial de trabalho dos governadores dos bancos centrais destes países, dedicado ao risco financeiro associado às mudanças climáticas e a outros riscos ambientais. Perante estes factos destacam-se várias inovações e tendências no mundo da energia, que estão a alterar a matriz energética mundial e a refletir-se nas mais variadas áreas. Estas são positivas, mas constituem uma revolução tão grande como foram a internet e os telefones portáteis a nível das comunicações. São elas: a eletrificação, a descarbonização e a digitalização dos sistemas de energia. Figura 8. Desafios para a indústria da energia elétrica: as “redes inteligentes”
Relativamente à eletrificação refira-se que a eletricidade representa atualmente cerca de 20% a 25% da energia que usamos, sendo o restante maioritariamente composto por combustíveis. Contudo, a eletricidade vai entrar em domínios anteriormente reservados aos combustíveis, a começar pela mobilidade (não apenas os carros ou autocarros, mas os sistemas globais de mobilidade) e pelos edifícios (nomeadamente na questão
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
térmica). Em segundo lugar, a descarbonização: essa eletricidade vai ser cada vez mais de fontes renováveis e de fontes com zero carbono. Por fim, a digitalização, em que as redes deixaram de ser verticais (emissor-transmissor-recetor) para serem polinucleares, ou seja, com milhões de núcleos em que todos passámos a ser emissores e recetores, produtores e consumidores. Com a internet, todos nós trabalhamos a informação que recebemos, pomos fotografias, mandamos e-mails, publicamos tweets, etc. Temos discos rígidos, temos memórias nos telefones, nos iPads, nos computadores, nos data servers, ou seja, todos nós armazenamos e todos nós produzimos. O custo de produção da eletricidade é um fator a ter em conta nesta equação. Segundo o World Economic Forum, utilizando os dados de 2017 da Agência Internacional de Energia, a energia solar é a que mais diminuiu em custo de produção, mas o eólico onshore é neste momento a forma mais barata de produzir eletricidade13. O custo da ener-
gia nuclear está a aumentar, por razões inerentes à sua própria tecnologia e à falta de segurança, pondo-se cada vez mais camadas de proteção que encarecem a obra e as infraestruturas. É claro que o nuclear funciona mais horas, mas tem riscos e custos de desmantelamento de resíduos que outras fontes de energia não têm, os quais têm de ser incorporados no custo de funcionamento. Os levelized costs of energy têm tudo isto em consideração, ou seja, incorporam os custos de investimento, desmantelamento e funcionamento, estando representados na figura 9. Se analisarmos também o custo das baterias em dólares por kilowatt/hora, em 2010 este ascendia a 1000 dólares, entre o preço da bateria, a vida da bateria e a sua reciclagem, mas em 2015 já eram apenas 350 dólares. Verificamos que há uma correspondência entre a baixa do custo da energia solar e a descida do custo da bateria, conforme demonstrado pelos dois gráficos.
Figura 9. Custo de produção de energia (média mundial) e custo das baterias (kilowatt/hora)
Fonte: World Economic Forum.
13. Ver WEF (2017), Renewable Infrastructure Investment Handbook: A Guide for Institutional Investors, disponível em http://www3.weforum.org/docs/WEF_Renewable_Infrastructure_Investment_Handbook.pdf
17
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
As baterias são “os telemóveis da energia” e nós vamos ter uma rede com armazenagem a nível central, como hoje a EDP e a REN têm com as barragens, mas também a nível regional, a nível de edifícios, a nível da casa, etc. O que é um carro? É uma bateria sobre rodas. Na Faculdade de Engenharia do Porto podem ver um inversor bidirecional que é pouco maior do que um telemóvel, de fabrico português, o qual permite que o carro carregue da tomada na garagem e também dê energia à casa quando é preciso. Cada um de nós passará de consumidor a prosumer, ou seja, produtor, armazenador, comercializador e vendedor. Para além das novidades tecnológicas, aparecerão enormes mudanças, novos protagonistas e novas formas de ligação entre as pessoas. O mercado, a maneira de produzir e de consumir, vai ser completamente diferente e vai ter milhões de outros concorrentes (o próprio consumidor passará a ser concorrente da EDP ou da Endesa, ou da Iberdrola). Tudo será muito mais complexo, colocando desafios brutais aos atuais atores no sistema energético. Com o aumento da informação, os consumidores reagirão e adaptarão os seus consumos. Um consumidor pode, já hoje, alterar no seu telefone os padrões de consumo da sua casa, ligando e desligando aparelhos elétricos através de uma aplicação gratuita. Mas para além da eletrónica e das inovações sofisticadas, também a velha engenharia pode ter um papel na eficiência energética. A arquitetura é “a arte de moldar a luz natural” e isso é evidente no exemplo da nova igreja em Fátima, cujo caderno de encargos foi desenvolvido pela Faculdade de Engenharia do Porto. O planeamento desta igreja foi feito de forma a garantir a melhor eficiência energética a longo prazo, incluindo ao nível da luz natural, da circulação natural do ar, etc. Pelo contrário, há também muitos exemplos menos positivos, como é o caso de intervenções
18
em escolas ou em hospitais que resultaram numa impossibilidade de abrir janelas, para o ar condicionado poder estar ligado. Gostava ainda de referir o papel dos municípios e o CO2 como critério de gestão urbana. Por exemplo, na Câmara Municipal do Porto, podem destacar-se medidas a dois níveis: o Metro do Porto (que foi um investimento muito caro, mas do ponto de vista energético tem efeitos muito positivos por tirar carros da cidade) e a distribuição de água, que deixou de ser por bombas e passou a ser por gravidade (ou seja, em vez de os depósitos estarem junto ao rio Douro e depois bombear-se a água para os consumidores, os depósitos passaram a estar em cima e a água desce por gravidade). Isto representa uma poupança enorme para os consumidores, para a Câmara Municipal e para o ambiente. Em suma, se formos coerentes com tudo o que dizemos sobre a energia, o clima e o ambiente, temos que tomar medidas concretas e urgentes. Destas medidas, destacam-se: • cumprir integralmente o Acordo de Paris sobre o Clima; • limitar as emissões de CO2 e outros gases com feitos de estufa, e alterar as regras da Organização Mundial de Comércio (OMC) sobre comércio e ambiente, em consonância com essas medidas; • definir metas vinculativas para as energias renováveis e para a eficiência energética; • estabelecer objetivos para uma mobilidade sustentável; • reforçar a proteção legal da biodiversidade e a gestão sustentável dos bens comuns; • promover a economia circular e combater a pobreza.
ANTES DE ENCENAR O SUICÍDIO PLANETÁRIO, POR ALEGADO ESGOTAMENTO DE TEMPO – E EXCESSO DE CARBONO -, APRENDAMOS A CAVALGAR AS DIFERENTES DIMENSÕES DA TEMPORALIDADE, INTEGRANDO AS MÚLTIPLAS FIGURAS ACROBÁTICAS NUMA NOVA REPRESENTAÇÃO DA NOSSA INTERAÇÃO COM O PLANETA E COM OS OUTROS.
Jorge Vasconcelos, 2016
Antรณnio Costa Silva
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
A minha intervenção sobre transições energéticas centra-se em cinco pontos: a geopolítica da energia, os “energy game changers”, a evolução dos preços do petróleo – que condiciona todas as mudanças da matriz energética mundial –, a transição energética e o papel crucial das energias renováveis e, por fim, as consequências para o futuro. 1. A geopolítica da energia e as mudanças estratégicas e estruturais Quando analisamos hoje os problemas da energia não podemos discuti-los fora daquilo que está a ocorrer ao nível geopolítico e estratégico. Há muitos autores que defendem, e eu partilho dessa ideia, que a nossa civilização está à beira de uma singularidade tecnológica. A nova onda de inovações tecnológicas no campo da inteligência artificial, da robótica, do big data e dos sensores está a transformar o mundo, o que significa que iremos ter num futuro próximo estes robôs nas nossas casas, fábricas e escritórios. Eles serão uma extensão da memória humana, pesquisarão informação científica, auxiliarão o diagnóstico, mudarão completamente as profissões, incluindo as profissões na área jurídica, na medicina ou na engenharia. Esta questão é crucial. Há pouco tempo o New York Times publicou uma fotografia do robô Simon, talvez o mais avançado do Mundo, desenvolvido pelo Instituto de Engenharia da Geórgia, e que já responde e articula frases complexas, bem como gestos complexos. Com esta revolução regressa também a ideia de demonização das máquinas. Eu acredito que a tecnologia é exógena e que nós ditamos as regras da tecnologia. É evidente que há muitos desafios que se colocam, mas é certo que as máquinas vão mudar o mundo e o campo da energia, estando em curso uma revolução absolutamente extraordinária.
Uma segunda questão está relacionada com o que se vai passar nas cidades. A inteligência artificial é baseada nas redes neuronais, que funcionam como o nosso cérebro, sendo treinadas com imagens da internet, através de sensores que reconhecem as imagens. Todos os anos realiza-se um concurso mundial – o Internet Image Challenge – com equipas que trabalham com inteligência artificial, com capacidade de reconhecer imagens. Em 2012 verificou-se um salto brutal, pois a equipa da Universidade de Ontário conseguiu esse reconhecimento com uma fiabilidade de 82%, e em 2015 a fiabilidade chegou aos 96%. Ora a fiabilidade humana é de 95%. É por isso que a paisagem das cidades irá mudar: por um lado, os self-driving cars vão ser uma realidade e, por outro lado, a economia partilhada (a nova tendência das gerações jovens que querem pagar para ter acesso aos meios, como os automóveis, mas não para serem proprietários dos meios) pode mudar toda a paisagem das nossas cidades. Muitos destes problemas que parecem apocalípticos vão calmamente resolver-se com o trabalho sereno das indústrias da energia. Para vos dar um exemplo claro, se aplicarmos o modelo da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) à cidade de Lisboa, com self-driving cars e economia partilhada, podemos prescindir de 80 a 90% dos carros. É um impacto brutal que pode gerar mudanças enormes. A terceira questão diz respeito às interfaces conversacionais e à internet das coisas. A internet das coisas está a caminho, com a internet da energia. Isto significa que passamos a ter em casa o automóvel, a fábrica, o escritório. O grande impulso está a vir da China, de uma companhia denominada Baidu. A Baidu tem 700 milhões de utilizadores de smartphones e, sendo os ideogramas da língua chinesa bastante difíceis e complexos, esta empresa é a mais avançada no mundo a trabalhar a voz e a linguagem, transformando-a em
21
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
interfaces, o que vai ter repercussões significativas (incluindo no plano da energia). Apesar de todos os problemas no mundo vivemos tempos absolutamente fascinantes e a capacidade de inovação e criatividade humana são extraordinárias. Nesta altura, esta é a civilização que pode ligar tudo o que se passa no mundo físico com estes veículos sem condutor, a impressão tridimensional, a robótica, tudo aquilo que se passa no mundo digital, desde logo a inteligência artificial, as learning machines, a internet das coisas e o poder dos sensores – e tudo isto, articulado com o que se vai passar no mundo biológico, irá colocar desafios extraordinários. Estamos na iminência de ter o primeiro ser humano com memória artificial e na iminência da edição genética começar a funcionar por causa da sequenciação do genoma humano (nos EUA já há uma empresa com trabalho nessas áreas), ou seja, podemos ter o primeiro ser humano com genoma desenhado e editado à nascença, com todos os problemas éticos que isto pode transportar. As ideias podem, de facto, mudar o mundo. A nossa civilização tem 250 mil anos, mas apenas há 10 mil anos a revolução agrária veio trazer grandes mudanças. No entanto, o Produto Interno Bruto (PIB) mundial manteve-se praticamente estável até à primeira revolução industrial, onde se transformou a tração animal em tração das máquinas. Este salto foi condensado no séc. XX, um século extraordinário no plano das invenções e da tecnologia: o motor de combustão interna baseado no petróleo, o avião, o carro, a eletricidade, o laser, o computador, o telefone e outras invenções transformaram definitivamente a trajetória da nossa civilização e levaram o progresso aos vários continentes do mundo. Estamos, atualmente, à beira da 4ª revolução industrial. Quando falamos em tecnologia não podemos, contudo, esquecer a encruzilhada em que está
22
Portugal, a Europa e o Mundo. Nela se intercetam os problemas da geopolítica e da economia, os efeitos da globalização, o declínio do Estado-Nação, a emergência de novos atores na cena internacional, a crise geral do sistema capitalista e as várias ameaças globais. O colapso da ordem em algumas zonas do mundo é preocupante, com expressão nos Estados falhados; só no Médio Oriente temos quatro países nessa situação: a Líbia, o Iémen, a Síria e o Iraque. Por outro lado, a questão dos recursos é crucial. Vamos ter cada vez mais conflitos ligados à água, uma vez que há 41 países do mundo em situação de stress hídrico, o que significa que o acesso da população à água é inferior a 2 mil m3/ ano por habitante, abrangendo atualmente 100 milhões de pessoas do nosso planeta. Salienta-se ainda a importância dos minerais estratégicos, como se demonstrou pelo exemplo do primeiro grande choque entre a China e o Japão nas ilhas Senkaku, em setembro de 2010. Nesse episódio, o Japão capturou um barco de pesca chinês e, perante a recusa dos japoneses em libertarem o barco de pesca, a China cancelou a exportação de terras raras para o Japão. Terras raras são um grupo de 17 elementos que ocupam uma posição muito específica na tabela periódica de Mendeleev, a qual é uma espécie de código genético do nosso planeta, codificando os 118 elementos que dão origem às mais de 2 mil ou 3 mil espécies minerais que aqui existem. Perante essa posição da China, o Japão capitulou em menos de 48 horas. Isto porque a China produz mais de 95% das terras raras ao nível global – os lantanídeos, o disprósio, o neodímio – que são absolutamente cruciais para a indústria eletrónica de alta precisão, para os computadores, para os telemóveis e smartphones, entre outras utilizações.
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
Figura 1. A evolução da ideias que mudaram o mundo
Figura 2. Tendências globais: geopolítica, ameaças, recursos
23
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
Os desafios serão cada vez maiores e mais complexos. Temos atualmente um planeta com cerca de 7.3 mil milhões de pessoas, um PIB mundial da ordem dos 65 biliões de dólares, uma frota automóvel de 800 milhões de carros; nos próximos 25 anos podemos atingir 8,5 a 9 mil milhões de pessoas, um PIB mundial a crescer significativamente e uma frota automóvel duas a três vezes maior. Cada um destes fatores é absolutamente crucial e surpreendente. Em termos populacionais, a raça humana demorou 250 mil anos a chegar aos mil milhões, mas depois demorou apenas 12 anos a passar dos 5 para os 6 mil milhões, e apenas 12 anos a passar dos 6 para os 7 mil milhões de pessoas. Tudo isto exige recursos e respostas ao nível da energia. Em 1950, o PIB do planeta eram 5 biliões de USD e em 2012-13 chegou aos 65 biliões, ou seja, no espaço de 60 anos a quantidade de riqueza que temos no planeta aumentou 13 vezes. Isto deve-se às grandes tecnologias descobertas e/ou desenvolvidas no séc. XX. Ainda não temos a certeza que as grandes tecnologias do séc. XXI – como o big data, a inteligência artificial, a robótica tenham o mesmo impacto na produtividade total dos fatores de produção como as tecnologias do passado tiveram, mas trabalhos como o do economista norte-americano Robert Gordon são um alerta importante nesse âmbito. Para além disso, quando olhamos para a frota automóvel verificamos que a China tinha 1 milhão de carros no seu imenso território em 1990 e em 2012 tinha atingido 100 milhões de carros, ou seja, a frota automóvel desta grande potência mundial aumentou 100 vezes no espaço de 22 anos. Isto coloca muitos desafios em termos das respostas de energia e da sustentabilidade do nosso planeta. Relativamente às tendências emergentes, verifica-se um fenómeno novo, que é a globalização da procura de petróleo e de gás no mundo, conforme representado na figura 3. No passado, 75%
24
do incremento da procura mundial era proveniente do Japão, da Europa e dos EUA, mas, nos últimos anos, 85% da procura mundial vem dos países emergentes (com a China à cabeça), com os vários super-ciclos das matérias-primas e o aumento exponencial da procura, a volatilidade dos preços e a financeirização das matérias-primas. O petróleo é hoje uma matéria-prima estratégica, mas também é um ativo financeiro, o que atrai para o mercado bancos de investimento e edge funds, que complexificam a dinâmica dos preços. Olhando para os números do U.S. Geological Survey, as conclusões são surpreendentes. Nos últimos 60 anos, em termos percentuais, estamos a consumir atualmente 618 vezes mais petróleo, 1000 vezes mais gás, 756 vezes mais níquel, aproximadamente 1500 vezes mais bauxite, conforme a figura 4. Isto não é possível; somos uma civilização que sofre de bulimia energética e transformamos recursos em lixo a uma velocidade sem precedentes na História. Uma das respostas é a economia circular, pois temos de começar a transformar lixo em recursos - e isso é possível, por exemplo, no âmbito da União Europeia. No nosso continente geramos anualmente 3 mil milhões de toneladas de lixo e cada cidadão produz 6 toneladas de lixo. Se forem reciclados, cerca de 25% da procura dos minerais estratégicos da Europa é respondida através do reprocessamento de lixo. São grandes segmentos de negócio que vão avançar. Outra dimensão do problema, que é inevitável para responder ao crescimento desta procura mundial de recursos, é a mineração do espaço marítimo. Muitas das reservas de minerais estão offshore, pelo que é imperioso ordenar o espaço marítimo como um espaço fundamental para a estabilização da vida no planeta, dando respostas ao nível dos recursos, da eficiência e da sustentabilidade.
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
Figura 3. Tendências nos mercados mundiais de matérias-primas
Figura 4. Produção de matérias-primas selecionadas, em 1950, 1975 e 2000
Fonte: US Geological Survey, Minerals Yearbook; BP, Statistical Review of World Energy.
25
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
A velha ordem petrolífera, embora enfrente todos os desafios decorrentes das energias renováveis e de outras mudanças, ainda hoje está no centro da matriz energética mundial e assenta no Médio Oriente. Ghawar é o maior campo de petróleo do mundo, na Arábia Saudita, produzindo 5 milhões de barris de petróleo por dia e o North Field é o maior campo de gás do mundo, situado no Qatar. Mas o Médio Oriente está atualmente em convulsão, assistindo-se ao desmoronamento do Estado-Nação, à emergência de Estados falhados e ao desmoronamento da ordem anteriormente existente. Parece que regressamos àquilo que é descrito no Leviatã de Thomas Hobbes, com uma espécie de medievalização do poder político no Médio Oriente. Por outras palavras, a Idade Média era marcada por impérios, corporações, ordens tribais, grupos religiosos, mercenários, a lutarem entre si pela posse de território e recursos, o que é similar ao cenário atual nesta região. Tal é agravado por uma política norte-americana que incita à fragmentação, à venda de armamento e à política externa como negócio, em vez de trabalhar para desenvolver esquemas de segurança regionais. A análise geopolítica e geoestratégica revela dados interessantes. Os 20 milhões de barris de petróleo que todos os dias passam pelo Estreito de Ormuz representam 86% das importações do Japão, 82% das importações da Coreia do Sul, 42% das importações da China e 22% das importações da Europa. No grande Médio Oriente, com o Irão e o Iraque, estão concentradas 65% das reservas mundiais de petróleo. Mas a 6 de janeiro de 2013, na fronteira entre a Argélia e a Líbia, a indústria petrolífera sofreu o pior ataque da sua história: o campo de gás de In Amenas foi capturado por grupos terroristas e 39 pessoas foram mortas. E perante uma zona sul do Mediterrâneo em convulsão e um Médio Oriente mergulhado na
26
instabilidade, a Europa revela-se incapaz de dar resposta aos problemas, porque os seus líderes são tecnicistas que não pensam do ponto de vista estratégico. Quem tem dado algumas respostas nesta área são os Estados Unidos, com várias descobertas em termos do shale gas e do shale oil, o que representa uma mudança do paradigma energético. Na indústria petrolífera, trabalhámos durante 160 anos no paradigma de que os hidrocarbonetos se geram numa rocha-mãe e depois, em função dos movimentos tectónicos, migram para uma rocha reservatória ou alto estrutural onde se acumulam. Mas uma ideia, lançada pelas empresas de pequena e média dimensão dos Estados Unidos, veio Acredito que, mudar o paradigma, independentemente da ao olharem diretaimportância do problema mente para a rochaclimático, a combinação -mãe. A revolução do shale gas está a entre o gás e as energias ter um impacto brurenováveis pode ser uma tal nas emissões de solução válida para o CO2 no nosso planeta, futuro em combinação com a grande aposta dos EUA nas energias renováveis. Os EUA estão a substituir as centrais a carvão por centrais a gás, onde as emissões de CO2 são 60% inferiores. Em 2015, os EUA consumiram menos 13% de carvão e as emissões de CO2 caíram 2,5%, o que é uma boa notícia para o planeta, tendo esta tendência sido acentuada em 2016. A China está a seguir o mesmo caminho, com a substituição das centrais a carvão por centrais a gás, tendo consumido em 2015 mais 5% de gás e menos 1,5% de carvão. Se olharmos para o panorama global, verificamos que as emissões de CO2 no planeta aumentaram em média 1,6% ao
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
ano durante três décadas e, de repente, em 2015, estabilizaram. Esta tendência consolidou-se em 2016 e é por isso que acredito que, independentemente da importância do problema climático, a combinação entre o gás e as energias renováveis pode ser uma solução válida para o futuro. No âmbito da geopolítica da energia, o Ocea-
no Atlântico pode desempenhar um papel importante, estando representado na figura 5. É uma zona com poucos conflitos, exceto o das Ilhas Falklands e do Sahara ocidental, e 90% do comércio mundial faz-se atualmente por mar, pelo que este oceano vai ser crucial para desenvolver todo o trading no séc. XXI.
Figura 5. O papel geoestratégico da Bacia do Atlântico
Importa, igualmente, olharmos para o papel da China neste quadro geoestratégico. O novo paradigma de organização das sociedades é a conetividade, ou seja, quem está conectado nas várias redes globais vai prosperar e quem está fora vai empobrecer. Existem as rotas marítimas, as rotas comerciais, todas as rotas ligadas às cadeias de abastecimento, as rotas ligadas às cadeias de produção industrial e aos fluxos de tecnologia, de
finanças, de dinheiro, de talento, de pessoas. Em suma, temos que pensar em rede e em fluxos e é isso que os chineses estão a fazer. A Cimeira de Davos de 2017 foi um exemplo paradigmático, com o Presidente dos EUA a desenvolver uma política protecionista e de isolamento do mundo, por um lado, e o Presidente chinês Xi Jinping a afirmar a defesa do comércio livre, por outro. A China tem uma liderança que pensa efe-
27
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
tivamente em termos estratégicos. O projeto que denominam de OBOR – “One Belt, One Road” - retoma uma formulação do geógrafo alemão Ferdinand von Richthofen, que chamou Rota da Seda à rota ancestral que vem da dinastia Han e dos Persas e que atravessava toda a Ásia Central e ligava ao Mediterrâneo. O OBOR é um projeto para formatar o comércio mundial, abrangendo 65% da população do planeta, 30% a 40% do PIB mundial e 25% das trocas de bens e serviços. No mapa da figura 6 é possível observar os vários corredores que estão a ser desenvolvidos: o corredor para
norte, para a Sibéria Oriental, o corredor para a Rússia, o corredor para o centro da Europa (que termina em Madrid, embora eu pense que Portugal também tem de participar neste projeto), o corredor do Paquistão com o Porto de Gwadar (que encurta o caminho pelo Estreito de Malaca, que é de cerca de 12 mil quilómetros, em quase 4 mil quilómetros). Assim, a China está a aproveitar a retração dos Estados Unidos para se colocar no centro e reformatar o comércio mundial, o qual representava 52% do PIB mundial em 2010 e pode representar 2/3 da riqueza mundial em 2020.
Figura 6. Projetos completados e planeados no âmbito da estratégia chinesa “One Belt, One Road”, dezembro de 2015
28
2. Os “Energy Game Changers” Nos últimos anos, tivemos alguns acontecimentos com forte impacto no sistema energético, os chamados “game changers”: a revolução do shale gas; alguns acidentes raros mas catastróficos para a imagem da indústria petrolífera (parti-
cularmente nas plataformas, como por exemplo o acidente de 20 de abril de 2010 no poço de Macondo, em que 5 milhões de barris de petróleo foram debitados diretamente no mar); o acidente na central nuclear de Fukushima, no Japão (em que o pior cenário era a ameaça de uma nuvem radioati-
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
va se dirigir para sul e chegar à área metropolitana de Tóquio); a instabilidade nos países produtores de petróleo e a instabilidade do fornecimento; a emergência da Bacia do Pacífico como grande consumidor de energia; e, também, a ameaça decorrente das alterações climáticas. Em 2011, uma capa da Time dizia que o shale pode dar energia ao mundo e resolver a crise de energia1. Esta descoberta extraordinária, que consiste em olhar diretamente para a rocha-mãe, transformou os EUA no maior produtor de gás e também de petróleo (em paralelo com a Arábia Saudita), com três grandes bacias: Bakken/Three Forks (no Dakota do Norte), Eagle Ford e Permian (ambas no Texas). E isto está a mudar a geopolítica da energia. As reservas mundiais de gás estavam estimadas em 187 biliões de m3, mas as de shale gas podem ser entre duas a três vezes maiores.
Verifica-se, de repente, uma abundância deste recurso que, nos EUA, é extremamente barato. Conforme demonstrado no mapa da figura 7, as reservas de shale gas são muito maiores do que as reservas convencionais em países como o Canadá (6 vezes maiores), a Argentina (20 vezes maiores) ou a China (12 vezes maiores). Em relação à França ou à Alemanha, os EUA têm preços muito mais baixos, o que lhes confere uma grande vantagem competitiva com esta revolução. É necessário salientar que não podemos tratar os combustíveis fósseis da mesma forma, uma vez que o gás é o mais limpo destes combustíveis e pode, em combinação com as energias renováveis, ter um papel no processo de descarbonização mundial, promover a mudança energética e ser uma espécie de fuel de transição, numa mudança da matriz energética mundial que esperamos estruturada e inteligente.
Figura 7. Reservas mundiais de gás, convencionais e não convencionais
Fonte: The Economist, 6 de agosto de 2011.
1. “This rock could power the world: Why shale can solve the energy crisis”, revista Time, 11 de abril de 2011
29
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
As alterações climáticas são uma questão de segurança e de sobrevivência global, que agora ganha relevância. O primeiro cientista do mundo que relacionou a temperatura da terra com a concentração de CO2 da atmosfera foi o químico sueco Arrhenius, em 1896. Antes da revolução industrial, numa altura em que a concentração de CO2 na atmosfera era de 280ppm (hoje é cerca de 400ppm), este cientista previa que uma duplicação na concentração de CO2 faria com que a temperatura do planeta aumentasse entre 3 e 4 graus, o que está em linha com os mais modernos modelos climáticos. Temos que estabilizar o clima do planeta, mas como o poderemos fazer? É necessária uma redução das emissões de CO2, que tem de estar ligada a mecanismos de mercado; a construção de economia de baixo carbono, que até hoje tem tido parcos resultados; ações focadas nos centros poluidores, ao nível dos sistemas de energia, de transporte, etc.; e, também, a mobilização dos cidadãos, a mudança de comportamentos, a ação local, para além da ação das instituições multila-
terais, no sentido de uma reestruturação da economia mundial. Segundo as previsões de Mackenzie, para conseguir um cenário favorável (a verde, no gráfico da figura 8), é necessário diminuir o consumo de carvão em cerca de 40% até 2030 (diminuição esta que já se está a verificar em países como os EUA e a China), diminuir o consumo de petróleo em cerca de 15% (ou seja, uma redução de aproximadamente 1% ao ano), aumentar o consumo de gás em 15-20% e as energias renováveis em 40%. Isto é possível. Esta tendência já está em curso nos grandes poluidores mundiais, com a China e os EUA alinhados numa aposta crescente nas energias renováveis, na sua combinação com o gás e na substituição das centrais de carvão. No início de 2017, o Primeiro Ministro da Índia anunciou ao mundo que, num espaço de dez anos, o peso do gás na matriz energética do país passaria de 6% para 15%. Na realidade, poderemos ter uma diminuição das emissões de CO2 mais cedo do que se estava à espera, depois de em 2015-16 já se ter verificado uma estabilização.
Figura 8. Crescimento da procura de energia, 2000-2015 e cenários 2016-2030
30
Fonte: Wood Mackenzie.
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
Os dados demonstram uma diminuição do peso do petróleo na matriz energética mundial. Conforme demonstrado pela figura 9, esta fonte representava aproximadamente 50% em 1975, representando atualmente cerca de 32%. Os EUA, a China e a Índia são os grandes consumidores de carvão, podendo o seu peso vir a diminuir. O gás
e as energias renováveis apresentam uma ascensão muito significativa, embora estas últimas tenham ainda uma fatia pequena da matriz energética mundial (cerca de 3,8%). Se lhes somarmos a hidroeletricidade, que se mantém estável (cerca de 5%), a azul no gráfico, atingimos quase 9%, o que já é uma base importante.
Figura 9. Peso das fontes de energia, 1965-2015 e previsões para 2035
Fonte: Energy Outlook 2035, BP, 2015.
Outro facto interessante é que há uma reorientação dos investimentos globais nas indústrias de energia. Em 2015, estes fluxos de investimento foram de 1.8 biliões de dólares (conforme a figura 10), sendo o investimento em petróleo e gás aproximadamente 583 mil milhões de dólares. Em 2015, o petróleo e o gás continuaram a ser os principais destinos do investimento, mas registaram uma queda de 25% (queda esta que se voltou a repetir em 2016), havendo um aumento do investimento na geração elétrica e, sobretudo, nas energias renováveis e na eficiência energética. Se somarmos o investimento nestes segmentos chegamos a um investimento de 530 mil milhões de dólares em 2015, o que é apenas 50 mil milhões abaixo do petróleo e do gás. Tal nunca se tinha ve-
rificado no passado, apontando para um reequilíbrio das fontes de energia e uma reorientação do sistema energético mundial. Esta reorientação é uma tendência positiva, embora não suficiente. A intensidade carbónica na geração elétrica mundial é atualmente 400 kg de carbono por cada Megawatt/hora e precisamos de chegar aos 100. Assim, há um imenso caminho a percorrer, mas esse caminho já está a acontecer, com a crescente eletrificação da economia mundial, a descarbonização, a localização e a otimização.
31
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
Figura 10. Investimento global em energia, 2015
Fonte: IEA, 2016.
3. Evolução dos preços do petróleo e mercados Em 2008, o preço do petróleo atingiu o máximo na História – 147 USD por barril -, altura em que a OPEP teve de atuar, cortando cerca de 4 milhões de barris, entre novembro de 2008 e março de 2009. Em 2014, tal já não sucedeu, porque os EUA já eram um novo ator de grande dimensão no mercado, passando de uma produção de aproximadamente 6 milhões de barris/dia em 2008, para 10 milhões de barris/dia em 2013-14. A revolução do shale gas e do shale oil nos EUA contribuiu para um excesso da oferta no mercado de cerca de 2 milhões de barris, uma vez que consumimos atualmente cerca de 95 milhões e produzimos 97 milhões de barris por dia. Este excesso de oferta provocou uma diminuição dos preços, em ligação com outros mecanismos como o contango (quando há excesso de produção, os preços de venda do futuro são superiores aos preços da venda física diária), o que estimula todos os operadores a armazenarem, fazendo por exemplo com que
32
as reservas estratégicas tenham chegado a 540 milhões de barris nos EUA, um recorde absoluto na História. Os gráficos da figura 11 demonstram como, em 2008-09, a queda dos preços está mais ligada ao PIB mundial e à diminuição da procura, enquanto em 2014 a procura e o PIB mundial se mantiveram, estando o colapso dos preços ligado ao excesso da oferta e àquilo que o The Economist apelidou de uma luta entre “sheikhs” (em alusão à Arábia Saudita e aos produtores do Médio Oriente) e “shale”. A verdade é que, no início, a Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) subestimou o processo em curso nos EUA. Os Estados Unidos têm uma mentalidade muito focada nos ganhos de produtividade, no controlo de custos e na rentabilidade: no início deste processo faziam poços em dois meses, hoje conseguem fazê-los em 12 dias; no início, os poços horizontais atingiam 500 a 600 metros e hoje chegam a 2 quilómetros. Isto reconfigura tudo o que se passa na Península Arábica, com a erosão da influência da OPEP e com a Arábia Saudita no centro deste tsunami. Existe hoje uma transição em curso na Arábia Saudita, país que mudou as suas regras de sucessão (uma vez que o poder passava de irmão para irmão) e que quer atenuar a sua dependência do petróleo e colocar a Saudi Aramco em bolsa, entre outras mudanças.
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
Figura 11. A queda dos preços do petróleo em 2008 e 2014 e a alteração da procura
Fonte: Wood Mackenzie.
Figura 12. O Papel da OPEP e da Arábia Saudita
33
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
4. A transição energética e o papel das energias renováveis Relativamente ao petróleo e gás verifica-se atualmente que as descobertas são das mais baixas de sempre (em 2016 foram as mais baixas desde 1947), os investimentos na exploração decresceram e existe uma espécie de sobreabun-
dância, conforme representado na figura 13, uma vez que existem 1.7 biliões de reservas e até 2040 será necessário cerca de 1 bilião para responder à procura mundial. Isto irá condicionar a evolução dos preços, que é vital para países como Angola ou o Brasil.
Figura 13. A sobreabundância: reservas vs. procura mundial
Fonte: Gaffney Cline & Associates, 2017.
O consumo primário de energia aumentou cerca de 2% por ano, entre 1996 e 2010, mas atualmente cresce aproximadamente 1% ao ano. Em 2015 verificou-se uma evidente queda na produção de carvão e um aumento das energias renováveis e do gás, conforme a figura 14. Apesar de o petróleo continuar a aumentar, podemos ter notícias importantes para o início do declínio das emissões, se mantivermos a queda do carvão, o aumento das renováveis e do gás e um ajustamento do petróleo.
34
Quando olhamos para os vários continentes, verificamos que a matriz energética é completamente diferente. A figura 15 demonstra que o carvão tem uma parcela muito significativa na Ásia Pacífico, pelo que o processo de declínio do carvão na China, já em curso, é absolutamente vital. Na América Central e do Sul o carvão é residual e na Europa também está a diminuir. As energias renováveis têm ainda uma fatia pequena nos vários continentes, mas são fundamentais nesta transição energética. Na Figura 16 é evidente o seu
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
Figura 14. Aumento do consumo primário de energia (média de 10 anos, 2014 e 2015)
Fonte: BP Statistical Review of World Energy 2016.
crescimento, particularmente em países como pequena nos vários continentes, mas são fundaa China, o Japão e os Estados Unidos, no que diz mentais nesta transição energética. Na Figura 16 respeito à energia solar. Em 2015, as renováveis é evidente o seu crescimento, particularmente cresceram 15,8%, sobretudo a energia eólica e em países como a China, o Japão e os Estados solar, onde os custos estão a diminuir, particular- Unidos, no que diz respeito à energia solar. Em mente esta última (os custos de produção caíram 2015, as renováveis cresceram 15,8%, sobretudo 76% nos últimos seis anos). a energia eólica e solar, onde os custos estão a Quando olhamos para os vários condiminuir, particularmente esta última (os tinentes, verificamos que a matriz custos de produção caíram 76% nos energética é completamente diúltimos seis anos). ferente. A figura 15 demonstra As energias renováveis que o carvão tem uma parcela têm ainda uma fatia muito significativa na Ásia Papequena nos vários cífico, pelo que o processo de declínio do carvão na China, já continentes, mas são em curso, é absolutamente vifundamentais nesta tal. Na América Central e do Sul transição energética. o carvão é residual e na Europa também está a diminuir. As energias renováveis têm ainda uma fatia
35
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
Figura 15. Consumo primário de energia, por região e por fonte, 2015 (em percentagem)
Fonte: BP, 2015.
É interessante comparar o mix energético, pois poderíamos ter uma maior competitividade em termos de matriz energética na OCDE. A figura 16 mostra a evolução dos combustíveis não-fósseis, verificando-se na OCDE uma parte significativa da energia nuclear (a amarelo) e da energia hídrica (a azul), sendo o peso das energias renováveis ainda pequeno, mas com grandes perspetivas de crescimento no futuro. Esta fatia vai tender a crescer, combinada com o gás. Em 2015, a capacidade instalada no mundo em termos de energia eólica subiu aproximadamente 18% e a energia solar 32%. Neste século, a energia solar pode ser uma das grandes fontes, pois todos os dias recebemos do sol oito mil vezes mais energia do que aquilo que o planeta consome. Com a criatividade humana e a redução dos custos, poderemos aproveitá-la da melhor forma. Refira-se também dois tipos específicos destas energias. Por um lado, o caminho que está a ser feito pela energia eólica em offshore, que é
36
atualmente um mercado emergente com grande crescimento no investimento, embora haja necessidade de reduzir custos e de se tornar competitiva e comercial. Por outro lado, o potencial da energia das ondas, que são uma espécie de fábrica oculta da energia. Se olharmos para as ondas, correntes de marés, correntes profundas, variações do gradiente termal e de salinidade, a estimativa do potencial oscila entre os 20 mil terawatts (Twh)/hora e os 30 mil Twh/hora, sendo que 20 mil Twh/hora é a totalidade do consumo de eletricidade no mundo. Será necessário, porém, desenvolver mais as tecnologias marinhas e reduzir fortemente os custos. Em suma, estas energias ainda não são competitivas – sobretudo a energia oceânica - mas há muitas possibilidades de desenvolvimento, no âmbito da transição energética em curso. E o nosso país pode desempenhar um papel relevante.
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
Figura 16. Crescimento dos combustíveis não-fósseis, na OCDE e fora da OCDE, 1990-2030.
Fonte: BP Statistical Review 2016.
Figura 17. Crescimento das energias renováveis
Fonte: BP Statistical Review of World Energy 2016.
37
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
5. Consequências para o futuro e estratégia Termino com algumas considerações sobre fatores que considero fundamentais para o futuro,
do ponto de vista estratégico, apresentando também na figura 18 as componentes de uma possível visão sobre o mundo da energia em 2030.
Figura 18. Visão do mundo da energia até 2030
A primeira consideração é sobre as previsões apontarem para uma ascensão imparável do consumo de energia primária do planeta, com o desenvolvimento da economia e o crescimento demográfico. Em 2035, a China deverá consumir mais de 4 mil milhões de toneladas equivalente de petróleo por ano, o que significa um salto enorme, passando a representar cerca de 28% da matriz energética mundial. Vai ser um ator fundamental no futuro, estando alinhado com as principais tendências. Em segundo lugar, o novo paradigma energético, com as smart grids, a digitalização e a internet da energia, que está a caminho. Para além
38
disso, estão a ocorrer mudanças espetaculares a nível dos modelos de negócio, particularmente no âmbito da geração elétrica e térmica. Existe uma série de novas empresas a operar nos EUA, compostas por jovens saídos das universidades, que vão aos clientes para terem uma procura inteligente, trabalham com a gestão da procura, do abastecimento, do armazenamento e da eficiência energética. Quais são os meios de combate que têm? Algoritmos, sensores, poder de processamento da informação e bom marketing. Isto está a convulsionar as grandes companhias de geração elétrica e térmica nos EUA, porque as companhias convencionais (utilities) são verticalizadas, com
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
o calcanhar de Aquiles de terem que investir milhões, às vezes biliões de dólares, para manter uma capacidade de geração elétrica e responder ao pico do consumo. Mas hoje em dia não há pico, com esta gestão do consumo inteligente, a chamada revolução dos megawatts. Quer na armazenagem quer noutros desenvolvimentos estamos a assistir a uma espécie de revolução como a que aconteceu há alguns anos na indústria dos computadores, em que tínhamos os mainframes e os terminais e, de repente, temos o armazenamento na nuvem e a internet. A internet da energia está a caminho e pode revolucionar muitas coisas. Em terceiro lugar, gostaria de referir as nanotecnologias, ligadas a esse extraordinário cientista do século XX, o Professor Richard Feynman, que em 1956, numa aula na Universidade de Caltech, na Califórnia, afirmou que “there is plenty of room at the bottom”. Estas são tecnologias que operam à escala infinitesimal, com novos materiais e que estão a mudar muita coisa. Apesar de falarmos muito da necessidade de descarbonização, sendo evidente que queimar carbono tem algumas consequências negativas para o planeta, a realidade é que o carbono não vai desaparecer. Temos hoje toda uma geração de novos materiais - os nanotubos de carbono, as fibras de carbono e o grafeno - que são indispensáveis para a eletrónica, para os sensores, para os materiais de muitos aviões, para novas reconfigurações, para a impressão 3D, etc. Perto de Chicago foi impresso o primeiro carro do mundo de forma tridimensional, tendo demorado 44h. A impressão 3D é o que se chama de “additive manufacturing”, ou seja, com camadas e camadas, e pode vir a revolucionar muita coisa, com grande impacto para as indústrias existentes. Em quarto lugar, as potencialidades da economia circular, que gera ganhos triplos, ao nível económico, social e ambiental. No plano económico aumenta a eficiência na utilização das matérias-
-primas e na reutilização dos materiais, gerando mais eficiência em todos os segmentos da cadeia industrial. Em termos sociais impede o desperdício, melhora a gestão dos resíduos e sensibiliza os cidadãos para um uso mais sustentável dos recursos. Nos ganhos ambientais destaca-se a reparação e reciclagem de produtos, a alteração de um paradigma de exploração exponencial dos recursos, evita a deterioração do sistema climático da terra, altera hábitos e converte lixo em recursos. Por último, o papel das cidades, as quais são vitais para tudo o que se está a passar. Na minha opinião, as cidades são a maior invenção do Homem, porque marcaram a morte da distância, são uma plataforma giratória que agrega o capital humano, são fontes de inovação e possibilitaram todos os grandes desenvolvimentos tecnológicos. Se olharmos para a História, foi nas ruas de Florença que nasceu o Renascimento e das ruas de Birmingham que saiu a Revolução Industrial. Hoje são as ruas de Tóquio, Bangalore, ou Nova Iorque que estão a mudar o mundo. As cidades ocupam apenas 2% da superfície do planeta, mas concentram mais de 50% da população mundial, sendo atualmente responsáveis por 75% do consumo de energia e 80% das emissões. A China está a organizar o seu território em torno das chamadas “megacidades”, que são atualmente 24, cada uma delas com 100 milhões de habitantes. Olhando para a nossa realidade nacional, poderíamos ter uma megacidade Porto-Lisboa com Aveiro e Coimbra no meio, que se tornasse um grande competidor mundial. A questão da escala é absolutamente decisiva, bem como a inserção nas redes, cadeias de abastecimento, e o pensamento em termos de fluxos. As cidades enfrentam grandes desafios, incluindo a questão da segurança energética e da sustentabilidade. A sustentabilidade é um conceito multidimensional que deve questionar a lógica
39
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
de “crescimento constante” e combater o desperdício de recursos. Assim, as cidades precisam de novos modelos em termos de gestão da água, de gestão da energia, do tratamento de resíduos, de novos modelos de mobilidade e transporte baseados nos transportes públicos, nos carros elétricos e na eliminação dos engarrafamentos, bem como de novos modos de acesso e distribuição dos recursos. Não existirá sustentabilidade sem uma nova visão para o desenvolvimento de cidades mais inteligentes. Para terminar, é interessante olharmos para o exemplo da revolução em curso no setor automóvel. Temos esta luta entre o motor de combustão interna no topo, com o gás ou o petróleo, e depois os motores elétricos. Segundo um estudo do MIT, até 2050, todos os tipos de veículos vão ter o seu progresso em termos de diminuição do consumo de combustível e de limitação das emissões. No entanto, se durante mais de um século todas as inovações foram feitas dentro da indústria, atualmente, pela primeira vez, as inovações aqui estão a vir do exterior: nos motores elétricos é o grupo Bolloré em França ou a Tesla, nas baterias é a LG ou a Panasonic, nos sistemas de processamento de informação é a Google ou a Microsoft. O próprio conceito de carro está a mudar, pois no passado era uma peça de hardware, mas no futuro é simultaneamente hardware, software, sistemas de processamento de informação, sensores, um escritório onde iremos trabalhar, um produto que se vai dirigir sem condutor. Na realidade, a indústria automóvel está a passar por uma revolução similar à das telecomunicações. Há uns anos, a Nokia e a Motorola dominavam completamente o mercado e, de repente, é a HTC e a Apple. Os fabricantes de automóveis de hoje arriscam-se a ser assemblers das inovações que vêm do exterior, de outros setores, se não tiverem resposta para os desafios atuais.
40
Com a inteligência artificial, tudo está a mudar. E aqui a mecânica quântica e a computação quântica têm um impacto extraordinário. Em 1986, Richard Feynman visitou o Instituto de Los Alamos, onde trabalhou no projeto Manhattan e, no fim da visita disse “esqueçam estes computadores, daqui a alguns anos vão ter que substituir tudo isto por computadores quânticos”. A computação atual funciona em sistemas binários, com 0 e 1, mas no mundo quântico podemos ter os cubits com várias combinações, o que aumenta o poder de computação. Mas, para mim, o grande trunfo que permitirá que a computação quântica se afirme é a segurança. No mundo quântico há o denominado entanglement das partículas quânticas, ou seja, se mexermos numa partícula, tal é sentido no próprio segundo em que interferimos. Se olharmos para os atuais problemas do ciberterrorismo e para a imensa vulnerabilidade da nossa civilização em relação aos hackers, provavelmente a computação quântica será mais eficaz, mais veloz e mais segura. Estamos realmente a viver tempos fascinantes, com ideias que estão a mudar o mundo em vários setores e vertentes, conforme resumido na infografia da figura 19. O dinheiro digital (que pode mudar toda a forma como se negoceia a energia, porque acaba com os intermediários), a economia partilhada, a inter-conetividade global, a internet nos olhos das pessoas (por exemplo para os engenheiros mecânicos que fazem as inspeções vai ser extraordinário ter numa lente a informação das máquinas e dos materiais), as roupas ligadas à internet, o supercomputador no bolso, o big data, a internet das coisas, as neurotecnologias, as cidades inteligentes, são tudo exemplos de ideias que estão realmente a mudar o mundo. E é por isso que, apesar dos grandes desafios e dos problemas que temos, penso que a tecnologia, a imaginação e a criatividade humana podem dar uma boa resposta a todas estas questões.
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
Figura 19. SĂŠculo XXI: As ideias que podem mudar o mundo
41
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
DEBATE Entre as questões abordadas, salienta-se o impacto que todas as “revoluções” em curso – tecnológica, do conhecimento, geopolítica, etc. - estão a ter no mundo da energia e nos vários setores, por um lado, e o papel que o setor da energia pode dar – e está a dar - a estes desafios. Neste âmbito, focou-se particularmente o caso de Portugal, debatendo-se o contexto nacional e de como nos podemos preparar para estas mudanças, quer em termos internos quer das nossas mais-valias e posicionamento internacional. Portugal tem experienciado a revolução do conhecimento, pelo acesso generalizado à educação e à formação, tendo hoje ativos importantes e matéria-prima em termos de recursos humanos, de inovação e de conhecimento. No entanto, é preciso um pensamento que projete o que queremos a 25/30 anos e que nos integre nas redes e fluxos globais, sob pena de ficarmos de fora de soluções e projetos importantes (como o “one belt, one road”, já referido nas intervenções). Temos de ter consciência das nossas fragilidades em termos
42
ambientais, uma vez que temos um interface marítimo-terrestre e o impacto dos fenómenos sentir-se-á mais nas zonas de interface entre o mar e a terra. E projetar a longo prazo de forma estratégica, porque existe a tendência de nos centrarmos nos acontecimentos – como o mar a entrar em Ílhavo ou em Esposende há poucos anos, ou os fogos em 2017 – e depois a esquecê-los, ou então a falarmos durante muito tempo e de forma recorrente dos mesmos fenómenos sem que sejam tomadas medidas integradas e estratégicas, com princípio, meio e fim. Quando temos esse pensamento estratégico, conseguimos bons resultados. Foi o caso do processo de reflexão estruturada e de debate público que levou ao documento Energia 2010, onde se apresentaram os desafios políticos em termos de descarbonização, diminuição da dependência energética, aumento da eficiência e outros, incluindo os instrumentos e programas para prosseguir esses objetivos (incluindo o programa E4, leis, restruturação da administração pública em
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
termos dos organismos, regulação independente, etc.). Isto teve resultados, como o crescimento das energias renováveis e a redução da dependência energética de 86% para 74%. Portugal tem hoje entre 1/4 e 1/5 de eletricidade de energia eólica, tem uma incorporação nacional no fabrico dos equipamentos entre os 70% e os 90% (conforme a marca do gerador), houve uma substituição da importação de carvão e gás natural e toda esta estratégia permitiu o nascimento de um cluster anteriormente inexistente, que emprega atualmente milhares de pessoas e que exporta entre 400 a 500 milhões de euros de equipamentos e bens transacionáveis. O processo valeu a pena e teve resultados, mas atualmente o país está parado nesta área. Por esta razão, não basta apenas realçar os fenómenos positivos de evolução do nosso país nas últimas décadas – como foi o caso das eólicas, uma história de sucesso na criação de valor em Portugal – mas é preciso reforçar as políticas públicas em várias áreas, para dar quadros de referência onde as pessoas possam atuar. A energia eólica desenvolveu-se em Portugal porque existiu uma visão para o setor, que estava explanada no E4 e que depois teve expressão em vários concursos e medidas, no estabelecimento de metas e de regras. É necessário que as opções sejam claras noutras vertentes do setor energético e numa perspetiva de médio prazo, particularmente porque a energia é um setor muito mais pesado em termos de investimento do que as telecomunicações, ou seja, os setores de produção ou de consumo duram mais anos e custam mais dinheiro. No debate foi referido como exemplo da falta de visão estratégica a questão da prospeção de gás no Algarve, em que não foi realizado um debate abrangente nem se incluiu a questão no âmbito de um modelo energético mais vasto, por exemplo de combinação da exploração de gás com as energias
renováveis. Foi tomada a decisão de suspender os projetos tendo em conta a realização de eleições autárquicas este ano e, naturalmente, as empresas rumaram a outros destinos. A prospeção de gás em offshore, especialmente em jazidos convencionais, é muito segura e gera riqueza, podendo propiciar mais uma alavanca de desenvolvimento económico, desde que seja sustentável e respeite as regras ambientais. E existem exemplos de onde podemos tirar lições importantes, como o Brasil ou a Noruega, que fazem prospeção offshore e têm centros de proteção ambiental ao longo de toda a costa. Torna-se, assim, urgente e necessário ter um debate sobre políticas públicas nos setores que consideramos prioritários para o nosso país e que seja sério, abrangente e estruturado, com base em informação fidedigna, para definir respostas para a energia, a mobilidade, a gestão do espaço urbano e várias outras questões interligadas. Isto já não acontece há bastante tempo. Há uma parte que é da responsabilidade dos políticos e outra que diz respeito à sociedade civil e à intervenção cívica estruturada, com um papel importante no debate e na resolução de problemas concretos (tendo sido destacado o papel das universidades e das autarquias, nomeadamente para pensar as cidades). Um exemplo do papel da sociedade civil referido durante o debate foi o setor do calçado, onde foi feita uma verdadeira revolução nas últimas duas décadas por via da associação do calçado e das suas seis centenas de membros: substituição e/ ou requalificação da mão-de-obra não qualificada, substituição de produtos, punch de internacionalização de moda/design de marca, como se fossem multinacionais e mantendo o tecido económico muito disperso. Isto prova que é possível ter essa intervenção estruturada, abrangente e integrada, tendo em vista o que queremos atingir no futuro.
43
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
Relativamente à escassez de inteligência nas políticas públicas, foi referida a publicação “Porque falham as Nações?”, em que Daron Acemoglu e James Robinson enunciam três fatores fundamentais para o sucesso dos países, sendo um deles a qualidade das instituições. Ora vivemos num país que não cultiva muito essa qualidade e que até destrói instituições (veja-se o setor dos serviços florestais, por exemplo). Estes autores referem igualmente a inteligência nas políticas públicas, particularmente no plano económico, em que é necessário pôr o mercado a funcionar de acordo com a visão estratégica que temos e não o contrário. Frequentemente não damos muita atenção àquilo que os economistas denominam de design mechanisms, ou seja, os incentivos que se devem implementar e por no mercado para que os jovens empreendedores possam atuar nesse mercado, possam criar as empresas, tenham acesso ao capital de risco, possam desenvolver e implementar as suas ideias. Em Portugal, os clusters e os ecossistemas que se criaram à volta das universidades são muito promissores, só que é também necessário haver escala e mercado. Foi referido, a este propósito, o exemplo de Évora, com a InovGrid, que foi muito bem recebida pela população – imagine-se poder ler num ecrã digital o consumo, e ajustá-lo sem ter de gastar dinheiro – e que hoje deveria estar implementada em várias cidades portuguesas. Os recursos humanos existem e as ideias também, o que pode dar origem a laboratórios de experiências de startups, a soluções ligando as universidades, ligando empreendedores (não apenas jovens, mas também tradicionais); mas para isso é preciso criar condições e um caldo de cultura positivo, de risco e de experimentação. O terceiro fator referido pelos autores do livro, ao qual não damos importância no nosso país, é a construção de mercados inclusivos. No setor
44
energético dos EUA, isso é evidente, com os jovens que saíram das universidades a terem condições para atacarem o modelo de negócio das grandes elétricas, das utilities, funcionando através de algoritmos, processamento da informação, programação. Ou seja, no nosso país não faltam as ideias e o conhecimento, mas é preciso dar condições para implementação dessas ideias. E isto é particularmente importante numa altura em que a digitalização da economia abre muitas oportunidades: a maior companhia de táxis do mundo, a Uber, não tem um táxi; a maior companhia de redes sociais do Mundo, o Facebook, não fabrica um conteúdo; o Ali Baba, que é o maior revendedor do Mundo, não tem um armazém. Foi também referido que Portugal deve explorar o recurso geográfico que é o mar. A bacia atlântica está a ser revitalizada, a abertura do canal do Panamá vai abrir múltiplas oportunidades, e 90% do comércio do mundo faz-se por mar, ou seja, seguir o comércio é seguir a riqueza. É necessário pensar o país, não apenas na sua dimensão continental, mas também com as regiões autónomas, fazer os nossos portos penetrar nas redes marítimas de tráfego energético, fazer a ligação aos grandes armadores mundiais. Isto está ligado também a outro recurso, a plataforma continental, cuja extensão para 4 milhões de kms2 deverá ser aprovada pelas Nações Unidas. É uma extensão do tamanho da Índia projetada no Oceano Atlântico. E é preciso não esquecer os grandes recursos estratégicos existentes em toda esta área, incluindo o facto de a sul dos Açores existir a maior mancha de sulfuretos polimetálicos do mundo - os quais têm calcopirite de onde sai cobre, têm galena de onde sai chumbo, têm esfalerita de onde sai zinco – e de a norte dos Açores existirem grandes crostas de manganês, cobalto e níquel. Para aproveitar estes recursos é preciso desenvolver uma estratégia, valorizar o oceano,
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
criar nos Açores polos científicos, construir uma política de alianças (com empresas, com universidades), atrair companhias internacionais. Neste modelo estratégico que é preciso desenvolver, a atração do investimento é fundamental, incluindo a questão da articulação entre as instituições e a questão jurídica. Existem exemplos de empresas criadas por portugueses e com criação de postos de trabalho em Portugal, mas cuja sede não é no nosso país, devido às dificuldades ao nível jurídico, fiscal e administrativo. Isto não diz respeito apenas ao IRC, mas principalmente à estabilidade, rapidez e previsibilidade do sistema fiscal, do sistema administrativo de licenciamento, de relacionamento com o Estado e do funcionamento da justiça. A reforma do setor da justiça é uma das questões para a qual é necessário o consenso e a ação, no quadro da visão e implementação das políticas públicas. A previsibilidade das políticas é outra, uma vez que as regras do jogo não podem mudar várias vezes a meio de um projeto ou de um investimento. Ainda no âmbito da visão estratégica, outro exemplo referido foi a rede de transportes europeia, uma vez que a União Europeia está a investir 16 mil milhões de euros nesta rede lançada há poucos anos, que inclui o corredor do Atlântico (de onde saem quatro portos de Portugal para ligar ao resto da Europa). O que estamos a fazer em relação a isso? Estas redes transfronteiriças e o modelo estratégico de resposta podem mudar muita coisa. Em suma, Portugal poderia ser um polo de liberdade na experimentação de novas soluções, se existisse capacidade para políticas públicas estáveis, reforço das instituições e resolução rápida de alguns problemas práticos, em associação com uma visão e um modelo estratégico positivo para o futuro. Para além do contexto nacional foi debatido o
enquadramento global, as tendências e o contexto dos países em desenvolvimento, particularmente no que respeita ao enorme potencial das energias renováveis, que permitem aproveitar os recursos endógenos dos países. E não há nenhum país no mundo com sucesso se não olhar para os seus recursos endógenos, não construir um cluster tecnológico com base neles e não investir no mercado. Apesar de grande parte da matriz energética do continente asiático ainda ser dominada pelo carvão, isso terá de se reduzir significativamente no futuro. Essa tendência já está em curso, como se demonstra pelas políticas indiana e chinesa, que tiveram já resultados ao nível das emissões do planeta. Foi salientado o caso da Índia, onde está em curso uma alteração da matriz energética que assenta não apenas na passagem do carvão para o gás, mas também na implementação das energias renováveis de forma descentralizada, nomeadamente fora da rede, podendo revolucionar o acesso à energia. Já a China está a investir em grandes redes estruturais que lhe permitam essa transição. Nomeadamente, encontra-se a construir a maior rede elétrica de super alta tensão - 800 kilovolts de corrente contínua - para escoar as novas energias renováveis. Foi inaugurado recentemente um parque fotovoltaico com 46 km2 e 2 mil megawatts, e um eólico com 1200 megawatts, estando em projeto mais 30 mil quilómetros de linha de super alta voltagem de corrente contínua (que tem menos perdas). Atualmente, a China é já o maior investidor do mundo em energias renováveis e só a energia solar cresceu 60% neste país, em 2015. Com efeito, a China está presente em várias “revoluções” em curso, nomeadamente no setor dos transportes (carros elétricos, sistemas de motorização, etc.), onde pretende rivalizar com o
45
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
Ocidente, afirmando mesmo essa intenção quer em documentos políticos quer nos media. E isto faz parte da tendência geopolítica mais abrangente, discutindo-se atualmente se o centro de gravidade da economia mundial está a passar do Atlântico para o Pacífico. Foi expressa a opinião de que isso não significa uma substituição do Atlântico pelo Pacífico, do Ocidente pelo Oriente, ou dos EUA pela China, mas sim a tendência para um sistema multipolar complexo, em que o papel da China e dos países asiáticos é cada vez mais importante. Nos países em desenvolvimento têm havido saltos tecnológicos brutais em várias áreas, incluindo no setor energético. Em várias zonas de África há um crescimento enorme dos sistemas de telecomunicações, dos pagamentos e funcionamento bancário através de telemóveis, do acesso à banca, que está a revolucionar as economias, não seguindo necessariamente os modelos tradicionais do Ocidente. Existem projetos de energias renováveis com um grande impacto na vida das pessoas, na sua saúde e educação, tendo sido dado o exemplo dos fornos solares com um sistema triplo que permite cozinhar os alimentos, aquecer e descontaminar a água, e dar energia à noite. A descentralização da energia solar é, portanto, um aspeto que pode ter grande impacto nos países mais pobres. Questionado sobre o ritmo da mudança na matriz energética mundial, um dos oradores defendeu que é impossível passar das energias fósseis para as energias renováveis de um dia para o outro, no contexto atual. Foi evidenciado o facto de o petróleo e o gás continuarem a dominar a matriz energética mundial por várias razões, incluindo a versatilidade e a competitividade. Podemos armazenar petróleo e gás e consumi-los quando necessário, mas o mesmo não pode ser feito com a eletricidade a larga escala. Mas essa descoberta
46
acontecerá certamente no presente século, bem como outras inovações que contribuirão para a mudança de paradigma que já está em curso. Foi referido o exemplo de um laboratório perto de Chicago que se encontra a desenvolver as chamadas flow batteries, em que os materiais são simultaneamente elétricos e eletrólitos. A qualidade da eletricidade é muito importante para a economia do conhecimento e para a sociedade digital e as renováveis são intermitentes se não houver capacidade de armazenagem. Até lá, a combinação com o gás pode propiciar essa vertente. Foi salientado, ainda, que os custos das energias renováveis estão a declinar de forma muito clara; nesse âmbito, poucos terão hoje dúvidas de que a energia eólica, especialmente onshore, é altamente competitiva, e que vai fazer o seu caminho no futuro. O cenário mais provável de transição nos próximos anos é, portanto, o de continuação de um papel importante para os combustíveis fósseis, embora com uma redução do peso do petróleo e aumento do gás a par de um aumento das energias renováveis, até para caminhar no sentido das metas definidas pela Conferência de Paris. Para além disso, deverá haver uma diminuição clara do peso do carvão e um aumento da aposta numa combinação de energias renováveis, gás e eletricidade. O ritmo destas mudanças pode ser impulsionado por políticas públicas que apostem numa diversificação da matriz energética. Foi também mencionado que as várias perspetivas sobre os dados podem influenciar os resultados e a própria tomada de decisão. Nomeadamente, a análise das energias renováveis como energia primária resulta num peso muito pequeno destas energias na matriz energética mundial, mas o que interessa ao consumidor é a energia final, a energia consumida. Por exemplo, se analisarmos os dados da contribuição da energia eólica e solar para a geração elétrica mundial, verificamos que
Lisbon Talks 2/2017 | 4 de julho de 2017 | Paços do Concelho, Lisboa
já é bastante significativa - na ordem dos 15-17% - e com um peso crescente. As energias fósseis são mais ineficientes no processo físico de serem transformadas de energia primária em energia final, pelo que têm mais peso nessa energia primária. Precisamos de 3 unidades de carvão para produzir 1 de eletricidade, de 2 unidades de gás natural para produzir 1 de eletricidade, de 1,1 de unidade de potencial hidroelétrico para produzir 1 de eletricidade, e nas energias solar e eólica não é tão importante a taxa de conversão, porque os recursos são infinitos. Isto significa que, se fo-
cássemos a nossa análise na energia final, o peso das renováveis seria muito maior, pelo que o público, os governantes e os decisores teriam uma perceção completamente diferente. No entanto, o mindset e a linguagem da energia são ainda muito formatados pelos combustíveis fósseis e hidrocarbonetos (medidas de equivalência ao petróleo), até no quadro da Agência Internacional de Energia e das grandes instituições internacionais, pelo que há todo um caminho a percorrer também a esse nível.
47
TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS
3 horas de debate
50 participantes
Esta publicação foi transcrita e editada de acordo com as intervenções verbais dos participantes.
48
Transcrições António Castro Nunes Edição de conteúdos Patrícia Magalhães Ferreira Design/Paginação 004 F*@#ing Ideas Fotografias Catarina Benedito e Diana Alves, IMVF
O Clube de Lisboa visa projetar a capital do país como espaço de reflexão, debate e intervenção sobre a agenda internacional, com realce aos temas do desenvolvimento sustentável, da globalização e da segurança e com particular atenção aos desafios estratégicos para o futuro e o papel de Portugal na Europa e no mundo.
#clubelisboa
www.clubelisboa.com | info@clubelisboa.pt Rua de São Nicolau, 105, 1100-548 Lisboa | Tel: + (351) 213 256 302
apoio