Falar de Responsabilidade Social a partir de um caso de boas práticas “Fomos crescendo de forma ambientalmente sustentável: a partir de 2002 descobrimos que podemos certificar as áreas das nossas colmeias, pois são livres de contaminação – mas o mais interessante é que estamos a contribuir para a preservação da vida na terra.” Cézar Ramos, gestor
Três perspectivas, um objectivo: o desenvolvimento sustentável
Responsabilidade Social das Empresas Um conceito segundo o qual as empresas decidem, numa base voluntária, contribuir para uma sociedade mais justa e um ambiente mais limpo. Esta responsabilidade manifesta-se em relação aos seus trabalhadores e, mais genericamente, em relação a todas as partes interessadas afectadas pela empresa. In Livro Verde da Comissão Europeia, 2001
Feito com Dignidade Um movimento que potencia a participação activa dos cidadãos. Procura tornar-se um interlocutor forte face aos poderes políticos, para que favoreçam um desenvolvimento durável e solidário. Luta por uma mudança profunda nas práticas que conduza as empresas a agir em prol do bem comum. Critérios: parcerias de longa duração, comércio justo, regras sociais, ambientais e de transparência. In www.madeindignity.be
Comércio Justo O Comércio Justo (CJ) é uma parceria entre produtores do Sul e consumidores de todo o mundo, que visa o estabelecimento de uma alternativa comercial de economia solidária, para a melhoria das condições de vida das populações nas zonas mais desfavorecidas do mundo. Esta rede propõe uma cadeia comercial transparente e o mais directa possível, cumprindo critérios ambientais e sociais.
Nos anos 50 e 60 do século XX começou a desenhar-se o conceito de responsabilidade social [RS], distinguindo-se de práticas como a filantropia ou o mecenato, que aparecem ainda hoje misturadas junto da opinião pública e por vezes reduzem a RS – tão abrangente como trabalhar para o bem comum - a uma acção pontual ou instrumental. Nestas décadas nasceu igualmente a ideia de um Comércio Justo como resposta às desigualdades económicas mundiais – que hoje é uma rede de milhares de lojas, milhões de produtores e consumidores. Nesse âmbito cresceu este movimento “Made in Dignity/Feito com Dignidade” que lança a ideia de uma participação activa dos cidadãos e de uma responsabilização das grandes empresas, exigindo que a ética presida em toda a cadeia de produção.
A RSE vista pelos produtores A introdução de um caso brasileiro prende-se com a concretização de um elo entre Portugal e um país de Desenvolvimento médio, que contraria, pelo exemplo em causa, a ideia de que as boas práticas são exclusivas aos países economicamente mais desenvolvidos.
Um caso de boas práticas Natucentro é uma empresa que produz, comercializa e exporta o seu produto, própolis e mel, com base numa política ambientalmente correcta, socialmente justa e economicamente viável. Está localizada em Bambuí, estado de Minas Gerais, onde há grande concentração do Alecrim do campo (Baccharis dracunculifolia), planta ideal para a produção da própolis verde. Os sócios da Natucentro, Cézar Ramos Júnior e Fernando Ramos, trabalham há 20 anos na apicultura:
“Comecei a trabalhar em apicultura em 1986, com apenas 12 anos, incentivado por amigos do meu pai. Até 1994 sempre vendi a minha produção de própolis para atravessadores [intermediários], que fixavam o preço. Percebi que o Japão tinha muito interesse comercial no própolis, pelo grande valor medicinal desta substância produzida pelas abelhas e, em 1995, convidei o meu irmão para montar a Natucentro com o objectivo de fazer exportação. Só em 1996 descobriram que o própolis verde vinha do Alecrim do campo e aí a Natucentro começou a fazer a aquisição de pequenas propriedades, a fazer a plantação de árvores e alecrim para as abelhas terem flores – e guardamos intocados 30% dos nossos terrenos, para preservação. A actividade apícola só funciona se a natureza estiver equilibrada – sem árvores e sem
plantas não é possível criar abelhas. Com esta mentalidade fomos crescendo de forma ambientalmente sustentável. Mas não existe literatura sobre a produção de própolis, tivemos de desenvolver as técnicas de produção e dar formação aos apicultores que trabalhavam connosco. Em 1998 propusemos aos apicultores que se tornassem parceiros e correu bem – entramos com veículo, colmeias, todos os materiais necessários e em vez de ganhar ordenado fixo o apicultor ganha conforme a produção.
A partir de 2002 descobrimos que podemos certificar estas áreas, pois são livres de contaminação – essencialmente o mais interessante é que contribuímos para a preservação da vida na terra. Fomos aprovados como produtor para o circuito de comércio justo pela importadora italiana Commercio Alternativo e também já exportámos para a Alemanha, Inglaterra e Bélgica.” Cézar Ramos, director da Natucentro
Histórias de Vida Paulo Moura Apicultor da Coapsul Estas histórias de vida foram recolhidas num conjunto de entrevistas com os apicultores de Bambuí, Minas Gerais, Brasil, realizadas em Maio de 2007
“Surgiu a ideia de formarmos uma cooperativa porque o pessoal sofria muito: vendíamos os nossos produtos para quem andava a comprar mel e própolis a um preço muito abaixo do mercado – o atravessador. Depois fizemos uma parceria com a empresa Natucentro para ter nosso produto processado, em boas condições e atendendo as exigências dos consumidores.
A Coapsul identifica-se com os princípios ecológicos da Natucentro e temos orgulho. Sabemos que estamos a colocar no mercado – nacional e no Japão - um produto de boa qualidade. Inclusive tem notícias de que é um dos melhores do mundo, um mel totalmente natural, que não usa nenhum tipo de químico nas colmeias.”
Rafael Guimarães Apicultor associado da Natucentro “A Natucentro ajudou a minha vida: como parceiros trabalhamos mais incentivados, ganho uma percentagem sobre tudo o que trabalho - achei bem melhor… Dantes era mais pesado, mais duro. Trabalhar com as abelhas é um serviço cansativo mas é um serviço que eu gosto - é bom ficar nos matos, em contacto com a natureza, é bem bonito e mais tranquilo. Também sinto que estou a fazer algum bem para as outras pessoas porque o própolis tem muitas propriedades importantes para a saúde. Há respeito pelo meio ambiente porque se há uma árvore que tem abelhas, não se corta e isso é muito importante para o equilíbrio da natureza, se não respeitarmos acaba tudo!”
Paulo Ferreira Apicultor associado da Natucentro “Quando surgiu a Natucentro fizemos parceria, aí fui crescendo, fazendo cursos, ajudando a desenvolver a produção daqui. A gente é muito amigo e o Cézar sempre fornece o que é preciso de equipamento. São indústrias familiares e a família aqui tem outras actividades dentro do terreno: milho, arroz, pimenta… Essa produção aumentou bastante desde que temos aqui as abelhas para polinizar. Você está aproveitando a natureza e não está acabando com ela. As plantas têm um ciclo de vida, elas morrem mas sempre se renovam, pode-se voltar a plantar de novo. Há que preservar o meio ambiente.”
Própolis e mel de Bambuí Actores da cadeia de produção
Antes de 1995
Hoje
Apicultor
Apicultores associados/ cooperativas de apicultores
Atravessador (intermediário)
Natucentro - Empresa transformadora
Exportador de matéria-prima
Importadora de Comércio Justo
Indústria Transformadora de matéria-prima
Lojas de Comércio Justo
Grande Distribuição Alimentar
Consumidor
Lojas
Consumidor
A cadeia de produção do circuito de Comércio Justo (CJ) é mais pequena e directa, com menos intermediários entre produtor e consumidor. O CJ rege-se por um conjunto de princípios, reconhecidos de forma geral por todas as organizações mas com diferenças na formulação. Apresentamos os princípios enunciados pela FINE (a coordenação das principais organizações internacionais de CJ) em Abril 1999.
1. Elevar o nível de bem-estar e as condições de vida dos produtores, melhorando o acesso ao mercado, fortalecendo as organizações dos produtores, pagando um preço mais elevado e estabelecendo relações comerciais duradouras. 2. Promover oportunidades de desenvolvimento para os produtores desfavorecidos - especialmente mulheres e povos indígenas - e proteger as crianças da exploração no decurso do processo produtivo. 3. Sensibilizar os consumidores para os efeitos negativos do comércio internacio-
nal sobre os produtores, por forma a poderem exercer o seu poder de compra de forma consciente. 4. Estabelecer exemplos de relações de parceria comercial baseadas no diálogo, na transparência e no respeito mútuo. 5. Realizar campanhas de sensibilização sobre a necessidade de alterar as regras e as práticas do comércio internacional convencional. 6. Proteger os direitos humanos promovendo a justiça social, as boas práticas ambientais e a segurança económica.
RSE da distribuição ao consumidor O sector privado tem poder para influenciar o cumprimento dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio
A integração de política de responsabilidade social nas empresas surge, cada vez mais, como uma resposta a pressões sociais, ambientais e económicas. Na última década desenvolvem-se as iniciativas chamadas “multistakeholder” - reunindo os diferentes interessados ou afectados pela actividade empresarial, dos trabalhadores aos consumidores, dos sindicatos às entidades públicas ou organizações nãogovernamentais. Estas iniciativas mais abrangentes visam responder à multiplicação dos códigos de ética ou códigos de conduta voluntários e não vinculativos publicados por cada vez mais empresas. Torna-se claro e urgente a necessidade de uma nova perspectiva para o envolvimento da sociedade civil nesta discussão sobre a ética na cadeia de produção, nomeadamente dos países em desenvolvimento – contrariando a visão unilateral e, por exemplo, a adopção de padrões de RSE formatados à realidade “do Norte”.
Por outro lado, a tónica dos movimentos sociais ligados ao Comércio Justo é muitas vezes colocada no papel voluntário do consumidor. Dado o peso preponderante das empresas transnacionais na cadeia de produção, é tempo de olhar para estes actores e o seu papel fundamental no desenvolvimento sustentável. A grande distribuição alimentar tem hoje em dia o domínio económico de uma grande fatia do mercado – é, por conseguinte, um grande empregador e agente económico poderoso. As empresas transnacionais do sector possuem a capacidade de intervir nas áreas sociais e ambientais. A sua actuação pode ser determinante na luta contra a pobreza, na melhoria das condições laborais em todo o mundo ou no cuidado ambiental urgente que as alterações climáticas exigem.
«Saber de Experiência Feito» é um projecto coordenado pelo IMVF, para a partilha de boas práticas e troca de experiências, sensibilizando a sociedade civil portuguesa para questões como o Comércio Justo, produtos ‘feitos com dignidade’ e Responsabilidade Social das Empresas (RSE).
Ficha técnica Concepção e edição: IMVF Grafismo: Diogo Lencastre Impressão: Gráfica Europam Agradecimentos: apicultores da Natucentro e Coapsul Esta publicação foi produzida com o apoio da União Europeia. O conteúdo desta publicação é da exclusiva responsabilidade do IMVF e não pode, em caso algum, ser tomado como expressão das posições da União Europeia.
saberdeexperiênciafeito
“Temos orgulho: sabemos que estamos a colocar no mercado – nacional e no Japão - um produto de boa qualidade. Inclusive tem notícias de que é um dos melhores do mundo, totalmente natural, não usa nenhum tipo de químico nas colmeias.” Paulo Moura, apicultor
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