cinema jul.2025
Yõg ãtak: Meu pai, Kaiowá, de Sueli Maxakali, Isael Maxakali, Roberto Romero e Luisa Lanna
destaques de julho Um dos grandes atores e criadores de cinema de todos os tempos é o foco da Sessão indeterminações no IMS Poços. A partir de um curta-metragem de Murilo Salles e Ronaldo Foster, que visita o ator na intimidade doméstica, e do longa Também somos irmãos, de José Carlos Burle, o programa questiona de que modos Grande Otelo reinventa e reposiciona o debate sobre cinema negro no Brasil. No centenário do lançamento de Em busca do ouro, um dos mais famosos filmes de Charles Chaplin, o longa retorna aos cinemas em nova restauração 4K. No ciclo dedicado a uma das pioneiras do cinema norte-americano: Cinzas que queimam. Embora não seja oficialmente creditada, Ida Lupino, que interpretava uma das protagonistas do filme, assumiu a direção de parte do longa quando Nicholas Ray se afastou por questões de saúde. Nas férias escolares, filmes para crianças de todas as idades: Flow, vencedor do Oscar 2025 de Melhor Animação; O Homem-Cão, inspirado na história em quadrinhos de mesmo nome; e o também premiado Memórias de um caracol. Ainda este mês: a cineasta Sueli Maxakali parte em busca de seu pai, de quem fora afastada durante a ditadura militar em Yõg Ãtak: Meu pai, Kaiowá; Iracema, uma transa amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, retorna aos cinemas em cópia restaurada; Kiyoshi Kurosawa explora o terreno dos filmes de ação e das vendas online em Cloud – Nuvem de vingança; Raoul Peck disputa a memória de Ernest Cole, o fotógrafo sul-africano responsável por expor os horrores do apartheid; a dramaturga e roteirista Rebecca Lenkiewicz estreia na direção com Hot Milk; e uma celebração da memória de Teddy Vieira no Dia da Viola Caipira. [imagem da capa] Também somos irmãos, de José Carlos Burle 1
Cloud – Nuvem de vingança (Cloud), de Kiyoshi Kurosawa
Cinzas que queimam (On Dangerous Ground), de Ida Lupino (não creditada) e Nicholas Ray
O Homem-Cão (Dog Man), de Peter Hastings
filmes de julho Em cartaz
Férias no cinema
Dirigidos por Ida Lupino
Cloud – Nuvem de vingança (Cloud) Kiyoshi Kurosawa | DCP
Flow (Straume) Gints Zilbalodis | DCP
Cinzas que queimam (On Dangerous Ground) Ida Lupino (não creditada) e Nicholas Ray | Arquivo digital
Hot Milk Rebecca Lenkiewicz | DCP
O Homem-Cão (Dog Man) Peter Hastings | DCP
Ernest Cole: achados e perdidos (Ernest Cole: Lost and Found) Raoul Peck | EUA | DCP
Iracema, uma transa amazônica Jorge Bodanzky e Orlando Senna | DCP, restauração 4K Milton Bituca Nascimento Flavia Moraes | DCP
Yõg ãtak: Meu pai, Kaiowá Sueli Maxakali, Isael Maxakali, Roberto Romero e Luisa Lanna | DCP
Memórias de um caracol (Memoir of a Snail) Adam Elliot | DCP
Sessão indeterminações Sebastião Prata, ou bem dizendo, Grande Otelo Murilo Salles e Ronaldo Foster | DCP
Também somos irmãos José Carlos Burle | DCP, restauração 2K
2
Sessão especial Em busca do ouro (The Gold Rush) Charles Chaplin | DCP, restauração 4K Teddy Vieira – Um poeta da música brasileira José Ricci | Arquivo digital
quinta
sexta
3
4
19:00
10
19:00
Ernest Cole: achados e perdidos (106')
Yõg ãtak: Meu pai, Kaiowá (93')
19:00
11
19:00
Hot Milk (93')
Hot Milk (93')
sábado
domingo
5
6
16:00 19:00
12
16:00 19:00
Hot Milk (93') Ernest Cole: achados e perdidos (106') Yõg ãtak: Meu pai, Kaiowá (93') Hot Milk (93')
16:00 18:15
13
16:00
18:15
17
14:00 19:00
Memórias de um caracol (94') Cloud – Nuvem de vingança (123')
18
14:00 19:30
O Homem-Cão (95') Ernest Cole: achados e perdidos (106')
19
16:00
19:00
24
14:00 19:00
Flow (85') Iracema, uma transa amazônica (90')
terça 29
14:00
3
O Homem-Cão (95')
25
14:00 19:00
Memórias de um caracol (94') Cloud – Nuvem de vingança (123')
26
16:00 19:00
Sessão indeterminações Sebastião Prata, ou bem dizendo, Grande Otelo + Também somos irmãos (97'), seguida de debate com Lorenna Rocha e Gabriel Araújo Cloud – Nuvem de vingança (123') especial charles chaplin Em busca do ouro (88') Iracema, uma transa amazônica (90')
quarta
quinta
30
31
14:00
Flow (85')
14:00 19:00
Memórias de um caracol (94') Iracema, uma transa amazônica (90')
20
16:00 18:00
27
16:00 18:00
Ernest Cole: achados e perdidos (106') Milton Bituca Nascimento (110') Teddy Vieira - Um poeta da música brasileira (44'), seguida de debate com José Ricci, Wanderson Lima e Laura Vieira Azevedo Yõg ãtak: Meu pai, Kaiowá (93') dirigidos por ida lupino Cinzas que queimam (82') Yõg ãtak: Meu pai, Kaiowá (93')
Iracema, uma transa amazônica (90') Cloud – Nuvem de vingança (123')
Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas em ims.com.br.
correspondências
de: Sueli Maxakali para: Luiz Kaiowá 13 de jun. de 2025
4
Ugnõy iga õm te ãtãm te kax nã nun Meu irmão, choca-listrada está vindo cantando Ugnõy iga õm te ãtãm te kax nã nun Meu irmão, choca-listrada está vindo cantando E yã hãmnãg xeka um pip um yi ãtãm te kax na nun Por acaso aqui tem mata grande para choca-listrada vir cantando? E yã hãmnãg xeka um pip um yi ãtãm te kax na nun Por acaso aqui tem mata grande para choca-listrada vir cantando? Pumi ã nũ mõg ax nũhũ Vamos ver o que é Pumi ã nũ mõg ax nũhũ Vamos ver o que é Ũg tu ã yĩka tap puyĩ yũmũg pe nũn Por que não trouxe sua esposa? Ũg tu ã yĩka tap puyĩ yũmũg pe nũn Por que não trouxe sua esposa? Tu ãtex xaxok hok hãmpuk ũm xup ax hok ũm Queria chupar mel sem ela ver Tu ãtex xaxok hok hãmpuk ũm xup ax hok ũm Queria chupar mel sem ela ver à yõg ĩy xe ĩy nut Fiquei com vergonha à yõg ĩy xe ĩy nut Fiquei com vergonha
Meu pai, este é o canto de ãtãm que você ganhou quando viveu por aqui, nas nossas terras Maxakali. Ãtãm, choca-listrada. Este é o nome que você recebeu quando viveu aqui entre nós, assim como Kõmiy nãg, batatinha. A gente ouviu essas histórias, e por isso cantamos esse canto quando fomos visitar você. Queria te falar, meu pai, você mora bem longe, e eu, aqui, sinto muita falta de você. Mas eu sei que você está lá na sua aldeia, que é minha aldeia também. É sua, mas como você sempre falou: é o lugar onde é meu ambá. É aí, onde você está, é um lugar seu, o seu território. Eu fico muito feliz também por estar aqui onde estou, na região onde era território do meu povo no passado, em Itamunheque. Minha avó contou que nossos antigos fizeram aldeias nessa região antes dos brancos invadirem e chamar de Filadélfia, depois Teófilo Otoni. E hoje nós estamos aqui. Eu tinha muita vontade, meu pai, de conhecer o território de onde o senhor veio quando chegou pra morar aqui em Minas Gerais. Eu tinha vontade de conhecer. Hoje eu conheci a terra onde você nasceu. E eu sei que você sabe todo o canto do milho, de todo tipo de milho, e isso me deixa muito emocionada. Porque você preservou os cantos do milho pra deixar pra meu povo Kaiowá. Eu também queria dizer, meu pai, que mando um grande abraço pra você. Você está bem longe, no Mato Grosso do Sul, e eu aqui em Minas, mas eu fico muito feliz de saber que o nosso filme está circulando. Mando um abraço para as pessoas que fizeram parte do filme também: Luisa, Robertinho, Isael e as minhas primas, Michelle e Dani. Um grande abraço pra elas, cineastas lá em Mato Grosso do Sul, que é um dos dois territórios que fazem parte do meu sangue. Fico muito feliz de ouvir que o nosso filme tá circulando e tenho muita certeza de que agora o pessoal sempre vai conhecer que nós existimos. Como a gente fala: nós estamos aqui. Baí ! 5
Sessão indeterminações
Grande Otelo, enigma das contradições
Lorenna Rocha e Gabriel Araújo
6
A estatura pequenina esconde uma imensidão. O sorriso largo, a qualquer momento, pode se transformar num olhar vazio, numa revolta que não aparece como explosão, mas como feitiço. A incontornável negrura, superfície de possíveis capturas, revira os significados, confunde quem está do lado de cá. Enigmático, desafia as traduções dos sentimentos do mundo com a poética polissêmica de seu corpo, contraditoriamente, ao longo de décadas, sendo inscrito e rasurando a história de um país em constante destruição/transformação. Se, então, por meio de seus personagens e de sua biografia, interpreta e documenta o Brasil, assim como o próprio cinema, é sempre fortuito e revelador olhar de novo, de novo, de novo, e mais uma vez, para ti, Grande Otelo. Menos do que uma ação memorialista, a sessão Grande Otelo, enigma das contradições investe em adentrar nos contornos de malícia, tracejos interpretativos e galanteios cheios de intenção das performances do multiartista Bastiãozinho, Otelo Gonçalves, Pequeno Otelo, Sebastião Prata, Otelo Queiroz, The Great Otelo, consagrado nos palcos e nas telas como Grande Otelo. Não se trata de revelar um segredo; afinal, não há o que se desvelar. Ao contrário, perseguimos os gestos e as grafias de seu trabalho atoral com o desejo de perguntar: como seu repertório criativo poderia alargar e estremecer as
concepções desde já estabelecidas sobre o cinema negro no Brasil? Combinamos, assim, o curta-metragem Sebastião Prata, ou bem dizendo, Grande Otelo (Murilo Sales e Ronaldo Foster, 1971) a Também somos irmãos (José Carlos Burle, 1949), longa-metragem recém-restaurado pela Cinemateca Brasileira. No primeiro, um retrato íntimo desse homem de muitos nomes,1 recorte que se confunde com as imagens cristalizadas pelos seus filmes, com o que a imprensa enunciava sobre ele e com as assimetrias e hierarquias de poder que marcaram suas experiências de vida e trabalho. Já no segundo, ao lado de Aguinaldo Camargo, ator proeminente do Teatro Experimental do Negro (1945-1964), e de outros nomes do coletivo teatral, político e pedagógico, se apresenta num dueto/ duelo em que a contradição e a errância aparecem como linguagem. O desvio é ferramenta de sobrevivência, e a liberdade se dá por meio de decisões desprezíveis, moralmente questionáveis. Ascensão e queda encontram pesos equivalentes. Raça e classe operam como vetores de disputas. 1.
HIRANO, Luis Felipe Kojima. Grande Otelo: um
intérprete do cinema e do racismo no Brasil
(1917-1993). Belo Horizonte: Editora UFMG, 2019.
tempo, lugares distintos, em viver temores e audácia, enunciar e cantar as palavras em múltiplas significâncias, com língua bifurcada, esquivando-se de pertencer de forma estática. Em suas atuações e interpretações musicais, há lirismo e zombaria, risco e equilíbrio, cômico e erudito, “uma confusão fértil no lugar da mera representação”.3 O programa será comentado pelos programadores da Sessão INDETERMINAÇÕES e é acompanhado por um texto crítico da pesquisadora Cynthia Ferreira, que combina pesquisa histórica com análise fílmica, em direção à performance de um ator inesquecível. A vinheta da sessão é assinada pela artista visual e cineasta Darks Miranda. O colorido e o preto e branco dos filmes em exibição se recombinam em ambiguidades, criando inflexões que nos levam a caminhos desconhecidos e, por assim dizer, indecifráveis. teatro de revista brasileiro entre as décadas de
20 e 40. Dissertação de mestrado, Universidade
Também somos irmãos, de José Carlos Burle
“Acho que o erro está todo dentro de mim”, diz Grande Otelo, em tom confessional. Sua trajetória no campo das artes brasileiras parece se dar, sobretudo, a partir de uma infindável busca. Esse ator 7
de fronteira, como diz Deise Santos de Brito,2 destaca-se por ocupar, ao mesmo 2.
BRITO, Deise Santos de. Um ator de fronteira:
uma análise da trajetória do ator Grande Otelo no
3.
de São Paulo, 2011.
ROSA, Allan da. “Apresento o meu amigo! O
que ele merece?”: Lábia, estéticas afrodias-
póricas, jogo e convivialidade entre negros de São Paulo. Mecila Working Paper Series, n. 78,
São Paulo: The Maria Sibylla Merian Centre Conviviality-Inequality in Latin America, 2024.
Sessão indeterminações
Grande Otelo, Sebastião Prata: imagens que se recombinam ao infinito Cintya Ferreira
“Procuro servir sempre ao meu público, fazendo o que as pessoas esperam de mim. Se querem que eu as faça rir, por que vou fazê-las chorar?”1 A fala de Grande Otelo foi proferida frente à exibição de Sebastião Prata, ou bem dizendo, Grande Otelo (Murilo Salles e Ronaldo Foster, 1971) no II Festival Brasileiro de Curta-Metragem. O ator continua: “Gostei de fazer esta experiência, de trabalhar com esses rapazes. Do filme que resultou ainda não sei se gosto.” O curta é estruturado a partir de depoimentos, mesclando imagens do trabalho e de seu cotidiano: casa, família, amigos. Os diretores relatam que o objetivo era desmistificar o ator e, por isso, há uma contradição intrínseca entre o ser e o artista2 – uma tensão constante, inseparável da trajetória de Otelo. Não se trata de resolver essa contradição aqui, mas de indicar um desejo: o de habitar esse espaço do entre, onde as fronteiras perdem sua rigidez e as imagens se recombinam ao infinito. Seguimos a deixa prenunciada ao combinar o Sebastião Prata, nome de batismo, ao Grande Otelo, o artístico. 1.
2. 8
“Festival de Curta-Metragem recebe documen-
tário em cores sobre Grande Otelo”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17.06.1972. Ibidem.
Entre um e outro, tantos: Bastiãozinho, Pequeno Otelo, Otelo Queiroz, Moleque Tião, Miro, Espírito da Luz… O curta-metragem de 1971 termina com uma imagem desfocada: vemos pessoas andando na rua, sem nitidez. A princípio, ouvimos barulhos infantis, e logo uma voz surge: “Vocês devem estar ouvindo ruídos que não estão na imagem, possivelmente é porque eu estou em casa". A imagem, junto à fala de Grande Otelo, parece um bom modo de encerrar um filme que tenta se aproximar de uma pessoa que, ao mesmo tempo que abriga muitos, também empresta muito de si para outros. Os ruídos ausentes da imagem, mas determinantes na sua constituição, se fazem ouvir para além do som – rastros de uma figura cuja vida se confunde com o ofício de ser ator ou, como ouvimos no filme: “Pequenininho, preto, ele gostava de chegar nos lugares e que todo mundo olhasse pra ele”. Olhemos, então. Sebastião Prata, ou bem dizendo, Grande Otelo começa com uma cena extraída de A dupla do barulho (Carlos Manga, 1953), em que Grande Otelo e Oscarito estão correndo de outros personagens. A típica comédia corporal assume um tom diferente a partir do silêncio da cena. Em seguida, ouvimos a voz de Otelo refletindo sobre seu passado.
Sebastião Prata, ou bem dizendo, Grande Otelo, de Murilo Salles e Ronaldo Foster
Palavras como “renúncias” e “omissões” aparecem em seu depoimento. A sequência, que, no longa-metragem de 1953, seria motivo de risadas, ganha contornos de tristeza. Talvez pela ausência da banda sonora, talvez pelo novo olhar que o tempo nos permite lançar sobre aquele corpo em fuga. Na releitura, o filme de Murilo Salles e Ronaldo Foster propõe uma espécie de melancolia, entrecortada pela beleza da família de Grande Otelo e pela grandiosidade de seus múltiplos personagens. Em dado momento, vemos a sala de estar da casa em que ele vive: Grande Otelo está sentado sozinho no sofá; a câmera dá um zoom lento até enquadrar apenas seu rosto, que contém todos os sentimentos 9
do mundo. Junto dessa imagem, ouvimos um samba de sua composição: “A vida não vale nada,/ pra que me aborrecer?/ Sou feliz vivendo assim,/ há de passar 100 anos/ até que se esqueçam de mim.” A música, muito pertinente para pensar seu legado, insere-se também na tradição sambista de cantar a tristeza com alguma alegria. O curta de 1971, no entanto, não tenta ser um “retrato alegre” de Grande Otelo, o que contrasta, em alguma medida, com a frase que inicia este texto e sua reivindicação pelo riso. No comentário durante o II Festival Brasileiro de Curta-Metragem, o ator parece compartilhar a necessidade de se explicar frente às demandas do público, de colocar suas dores de lado e ir
para o palco. Possivelmente, um hábito que o acompanha desde muito jovem. Quando ainda era Bastiãozinho, já despontava no centro de São Pedro de Uberabinha,3 cantava para transeuntes por trocados e fazia da rua seu primeiro palco. Em Minas Gerais, realizou sua estreia no circo e, pouco depois, foi adotado por uma família branca que o levou para São Paulo. Aos 11 anos, passou a se apresentar na Companhia Negra de
3.
Em diferentes depoimentos de Grande Otelo,
ele lembra que Uberlândia era chamada de São
Pedro de Uberabinha durante a sua infância. A mudança de nome ocorreu em 1929.
Revistas,4 fundada por D’Chocolat e Jaime Silva. A novidade era um teatro de revista majoritariamente negro. O espetáculo de estreia, Tudo preto (1926), teve uma recepção heterogênea, mas não escapou de notas da imprensa de cunho abertamente racista. Mário Poppe escreveu na revista Fon-Fon que os artistas negros “haviam desertado do nosso serviço doméstico para o palco da avenida”, e concluiu: “Ficaremos em breve livres do triste espetáculo, da feira de criaturas humanas”.5 O episódio ilustra o contexto enfrentado por artistas negros, ao evidenciar uma dimensão importante da estrutura racista: a tentativa de controlar os corpos negros; ou os lugares nos quais suas presenças seriam toleradas; ou quais comportamentos podem ser vistos 4.
Sobre a Companhia Negra de Revistas, ver
BARROS, Orlando de. Corações de Chocolat:. a história da Companhia Negra de Revistas (1926-27). Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2005.
É importante notar que o primeiro espetáculo
da companhia aconteceu em julho de 1926,
e Grande Otelo entrou no elenco apenas em 5.
outubro do mesmo ano.
BRITO, Deise Santos de. Um ator de fronteira:
uma análise da trajetória do ator Grande Otelo no teatro de revista brasileiro entre as décadas de
20 e 40. Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011, pp. 41-42. 10
como um atrevimento de quem se recusa a “aprender o seu lugar”. Se, na Companhia Negra de Revistas havia uma dimensão satírica da questão racial, nas outras expressões desse gênero teatral, era comum o uso de estereótipos racistas para efeitos cômicos. O que não significa que artistas negros aceitavam passivamente essas imposições. Em 1935, Grande Otelo participou do espetáculo Carioca, da Companhia de Jardel Jércolis, que continha inúmeros diálogos preconceituosos.6 Certa noite, o ator decidiu se “vestir de mulher” e invadiu uma cena da qual não participava – um gesto de irreverência que desafiava não apenas a autoridade cênica, mas também a lógica de uma sociedade empenhada em fixar cada um em seu devido lugar. Naquele momento, “o público riu muito com ele”.7 É na negociação entre o drama e a comédia, o choro e o riso, que se constitui a trajetória de Otelo. Em 1941, o ator revela à revista Diretrizes que “sua ‘maior ambição’ era interpretar um ‘papel sério’, que fizesse 6.
7.
Parte dos diálogos do espetáculo Carioca pode ser encontrado na dissertação já citada de Deise Santos de Brito.
CABRAL, Sérgio. Grande Otelo: uma biografia. São Paulo: Editora 34, 2007, p. 63
o público chorar”.8 A matéria inspiraria seu primeiro protagonista no cinema, Moleque Tião (José Carlos Burle, 1943), da recém-fundada Atlântida. Apesar do filme ser considerado desaparecido, sua narrativa foi reconstruída por meio de reportagens da época. O personagem Tião, que sonha em ser artista de teatro e busca uma companhia negra no Rio de Janeiro, encontra lastro na trajetória de Otelo. Também somos irmãos (José Carlos Burle, 1949) marca a continuidade do desejo de Otelo por papéis densos. A trama gira em torno de dois irmãos negros criados por uma família branca. Miro (Grande Otelo) é o malandro ressentido; Renato (Aguinaldo Camargo),9 o negro exemplar que busca ascender por meio da educação. O longa-metragem também incorpora elementos biográficos de ambos os atores: Otelo viveu entre famílias brancas, enquanto Camargo, como seu personagem, foi advogado. 8.
MELO, Luis. Argumento e roteiro: o escritor
de cinema Alinor Azevedo. Dissertação de
mestrado, Universidade Federal Fluminense, 9.
Niterói, 2006, p. 71.
Além de Aguinaldo Camargo, Ruth de Souza
também compõe o elenco. Ambos os atores
são oriundos do Teatro Experimental do Negro (TEN).
“Trabalhei no filme como se contasse para a câmera a história da minha própria alma…”10 Esse é o relato do ator Aguinaldo Camargo sobre Também somos irmãos. O corpo e a alma em cena são rastros que podemos seguir, ou, como diz Miro: “Minha alma é mais preta que essa mão”. Renato é o negro ideal: seu corpo é diligente, anda com cuidado, costas encolhidas, roupas impecáveis. Ele se forma como advogado e é apaixonado por Marta, sua irmã branca adotiva. Miro é o oposto. Malandro que bebe, ri, canta e desafia: “Há de passar 100 anos até que se esqueçam de mim”. De modo atrevido, Miro insiste em não se encaixar na exemplaridade esperada de homens negros que desejam ser aceitos. Recusa o lugar da docilidade e submissão. Ou, como diria Renato: “Jamais aquele moleque se conformaria de ser o negrinho insignificante que realmente era. De ser apenas um negrinho.” À medida que, para Miro, o personagem de Camargo “pensa que é um negro livre, mas não é, não tem esse direito”. Também somos Irmãos se constitui na contraposição desses dois homens negros, irmãos. No entanto, junto aos constantes embates, há também um laço de irmandade que atravessa a narrativa. Quando Renato 10. “Numa conversa de café”. O Jornal, Rio de Janeiro, 14.08.1949.
11
está se preparando para sua formatura, Miro começa a se exibir, falando sobre sua persona criminosa. Renato não o leva a sério e diz: “Você está representando”. Isso é suficiente para despertar a raiva de Miro – sua máscara fora frivolamente arrancada – e ele esbraveja que Renato fracassará. A cena, que poderia escalonar, é interrompida por uma mulher que traz o paletó de Renato. Miro, então, ajuda o irmão a vestir a roupa e lhe dá um tapa nas costas, um gesto de orgulho que contradiz suas palavras anteriores. Ao sair de casa, Renato é recebido com aplausos pela comunidade. Para evitar que ele suje sua roupa na lama, os moradores conseguem tábuas e criam um caminho improvisado. Um plano-detalhe nos revela os pés de Renato se equilibrando cuidadosamente. Há uma alegria coletiva pela ascensão de Renato à posição de advogado, e um esforço coletivo para que sua impecabilidade seja mantida. Grande Otelo e Aguinaldo Camargo estão atuando como personagens que, por sua vez, também atuam. Cada um no seu jogo. A sequência na delegacia, quando Miro encontra repórteres após ser preso por um crime que não cometeu, sintetiza isso: ele conta seus crimes com humor, até que começam a duvidar de sua veracidade. Ao que ele rapidamente muda o tom, demanda ser escutado, tanto pelos policiais quanto pelo público. A cena revela a força de Miro
e toda a potência do ator Grande Otelo. Ele passa da alegria para a raiva, exige atenção, demonstra sua tristeza. Seu corpo vai da altivez ao cansaço de uma vida inteira. Ao fim do monólogo, desafia: “Hoje vocês não levam mais nada”. No final, Miro não se torna exemplar, mas ajuda o irmão. Renato, apesar de suas tentativas, comete um crime. Marta, a branca da família adotiva e por quem Renato vislumbra uma paixão, não o perdoa. Numa sociedade que não te quer, não há integração possível. Uma das forças de Também somos irmãos está em sua dimensão não conciliatória, especialmente dentro de um país que tentava forjar uma ideia de unidade nacional. Anunciado o desafio, ergue-se a hipótese: a estranheza de Otelo com Sebastião Prata, ou bem dizendo, Grande Otelo não se deve à tristeza ou à alegria reveladas, mas ao jogo da atuação – às dobras entre presença e performance. O curta o captura desprevenido, nos bastidores, quando o corpo ainda não performa e a risada tarda diante da solidão. Pensar em Grande Otelo é, acima de tudo, olhar para ele. Eis também a beleza desse curta-metragem: a chance de enxergar, por outro ângulo, um ator fundamental na história do cinema brasileiro e que não cessa de habitar nossa memória. Não por acaso, curta e longa usam a mesma canção composta por ele: “Há de passar 100 anos/ até que se esqueçam de mim”.
Em cartaz
Cloud – Nuvem de vingança
Cloud Kiyoshi Kurosawa | Japão | 2024, 123’, DCP (O2 Play) Buscando lucro rápido, um jovem revende online diversos produtos baratos por preços elevados, o que acaba gerando insatisfação entre seus clientes. Conforme o descontentamento cresce, alguns clientes decidem se vingar, levando-o a enfrentar uma série de eventos misteriosos e ameaçadores que colocam sua vida em risco. “A inspiração para este projeto não surgiu a partir de um tema específico, mas do meu desejo de longa data de criar um filme de ação. A ação é um gênero profundamente enraizado na história do cinema, mas realizar um ambientado no Japão contemporâneo apresenta desafios únicos, tanto logísticos quanto financeiros”, declara Kurosawa em entrevista ao portal The Hollywood Reporter. “Um desafio significativo que impus a mim mesmo foi me afastar dos protagonistas típicos dos filmes de ação japoneses – frequentemente membros da Yakuza, policiais ou das forças 12
de defesa – e, em vez disso, focar em pessoas comuns. São indivíduos sem qualquer ligação com a violência em seu cotidiano, mas que se veem subitamente lançados em uma situação de vida ou morte, em que a sobrevivência exige medidas extremas. Isso exigiu criar uma história que colocasse de forma convincente pessoas comuns em circunstâncias extraordinárias – matar ou morrer. Levá-las até esse ponto foi o maior desafio narrativo.” Sobre o trabalho de revendedor online que escolheu para seu protagonista, o diretor comenta: “Para mim, essa ocupação simboliza o capitalismo contemporâneo – em que, se você não tem talentos excepcionais ou riqueza, a revenda é uma forma de se virar dentro do sistema. É interessante porque, quando você pensa bem, essa operação em pequena escala espelha o que grandes corporações fazem em larga escala: comprar barato, vender caro – mas com menos consciência das linhas éticas que podem estar sendo ultrapassadas. Essa ocupação me pareceu uma metáfora poderosa para os tempos em que vivemos.” [Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ cloudimskk] Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Ernest Cole: achados e perdidos Ernest Cole: Lost and Found Raoul Peck | EUA | 2024, 105’, DCP (Imovision)
Ernest Cole, um fotógrafo sul-africano, foi o primeiro a expor os horrores do apartheid para uma audiência global. Seu livro House of Bondage, publicado em 1967, quando ele tinha apenas 27 anos, o levou ao exílio em Nova York e na Europa pelo resto de sua vida. O indicado ao Oscar Raoul Peck narra suas andanças, seu ativismo como artista e sua raiva diante do silêncio do mundo ocidental frente aos horrores do regime do apartheid. Ele também conta como, em 2017, 60 mil negativos supostamente perdidos do trabalho de Cole foram descobertos no cofre de um banco sueco. “Eu estava em Berlim, com 17 anos, na universidade, quando vi pela primeira vez as fotografias de Ernest Cole sobre a África do Sul”, conta Raoul Peck em entrevista ao portal POV Magazine. “Berlim era uma cidade muito politizada naquela época, o lar de todos os movimentos de libertação. O ANC, o movimento anti-apartheid, estava
lá. Todos nós trabalhávamos juntos. Eu era um dos mais jovens, mas havia anciãos que me acolheram e me formaram politicamente. As fotos de Cole estavam sobre a mesa onde nos reuníamos para fazer panfletos e escrever artigos. Eu era fotógrafo naquela época, então ele fazia parte do meu mundo.” “Quando comecei a trabalhar em Eu não sou seu negro, James Baldwin era considerado ultrapassado. Meu trabalho como cineasta é dizer: ‘Não, essas são pessoas que devemos respeitar’. O trabalho de Cole era importante, como o de Baldwin – ele mudou vidas.” “Ele sofreu por estar no exílio. Esse é o ponto central. Quando chegou à América, ele não queria ser um fotógrafo negro. Queria ser um fotógrafo. O ídolo dele era Cartier-Bresson. Como ele, queria ir a todos os lugares, capturar histórias, rostos, situações. Essa era a liberdade que achava que merecia. E não conseguiu. Ele dizia: ‘Não quero me tornar um cronista da miséria’. Isso é profundo.” [Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ ernestcolerp] Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
13
Hot Milk
Rebecca Lenkiewicz | Reino Unido | 2025, 92’, DCP (O2 Play) Sofia e sua mãe enferma, Rose, viajam para a cidade litorânea de Almería, na Espanha, em busca da ajuda do Dr. Gómez, um curandeiro que pode deter a chave para a misteriosa doença de Rose. Enquanto tensões há muito reprimidas vêm à tona entre mãe e filha, Sofia se vê atraída por Ingrid, uma viajante livre e espontânea. Um lançamento A24, Hot Milk é adaptado do romance homônimo de Deborah Levy. Originalmente convidada a escrever a adaptação para cinema, Rebecca Lenkiewicz disse que só aceitaria se também pudesse dirigir o projeto. “Imagino que haja metáforas no livro que se traduzem lindamente para o cinema”, comenta a cineasta em entrevista ao portal Cineeuropa. “Por exemplo, no livro há menções ao cachorro que
não para de latir – no filme, isso pode ser representado sonoramente, com um latido constante. E o cachorro, para mim, é a própria Sofia, que mudou e se sente presa; ela quer escapar, mas existe essa codependência [com a mãe].” “O silêncio também pode ser muito ambíguo, e os atores do filme são brilhantes ao expressar isso: você observa seus rostos, mas nunca tem certeza de como interpretar aquele silêncio. Você os acompanha, mas não há nada [no que dizem] que seja totalmente conclusivo – e isso abre espaço para o espectador simplesmente se deixar levar pelas possibilidades, refletindo sobre o que eles podem estar pensando.” [Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/hotmilkrl]
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Iracema, uma transa amazônica
Jorge Bodanzky e Orlando Senna | Brasil, França, Alemanha | 1975, 90’, DCP (Gullane +), restauração 4K Em contraste com a propaganda oficial da ditadura militar, que alardeava um país em expansão com a construção da rodovia Transamazônica, o filme aponta para os problemas que a estrada traria para a região: desmatamento, queimadas, trabalho escravizado, prostituição infantil. Em uma obra que mistura documentário e ficção, uma pequena equipe de cinema vai à Amazônia rodar um filme com imensa liberdade formal. Um fio de enredo: um caminhoneiro, Tião Brasil Grande, interpretado por Paulo Cesar Pereio, encontra Iracema, vivida por Edna de Cássia, e juntos percorrem parte da região amazônica, então zona de segurança nacional sob rígido controle militar, contracenando com moradores e interagindo com outros intérpretes. “A primeira semente de Iracema germinou num posto de gasolina à margem da rodovia Belém-Brasília, em 1968”, relembra Bodanzky 14
na biografia Jorge Bodanzky – O homem com a câmera, escrita por Carlos Alberto Mattos. “Enquanto esperava que o repórter da revista Realidade apurasse alguma coisa, fiquei dois dias observando a movimentação de caminhoneiros e prostitutas em torno do posto. A estrada ainda era de terra e as ‘Iracemas’ e ‘Tiões’ estavam todos ali.” “Tínhamos um roteiro-guia, que não era mostrado aos atores. Explicávamos a situação, dizíamos o que não poderia deixar de ser falado, e os deixávamos à vontade diante da câmera. Edna, por exemplo, tinha uma ideia básica da situação de Iracema na cena, mas não sabia exatamente o que Pereio ia dizer ou perguntar. Tinha que reagir à sua maneira. E ela, muito brincalhona e irônica, geralmente se saía bem das provocações. O momento em que Pereio a expulsa do caminhão é exemplar dessas virtudes da improvisação. [...] Ao lidar com não atores, é complicado cortar para fazer contracampos, closes etc., pois isso retira toda a naturalidade. Faço, então, com que a câmera costure a ação, de certa forma me antecedendo à montagem. O hábito fez dessa a minha maneira de dirigir.” Realizado em 1974 para a ZDF, emissora de TV alemã, Iracema, uma transa amazônica ficou proibido pela censura no Brasil durante seis anos, mas teve uma boa repercussão de público e crítica internacionalmente desde sua estreia, em 1975, na ZDF. Foi premiado em festivais estrangeiros e convidado para a Semana da Crítica, do Festival de Cannes em 2016. Quando liberado no país, em 1980, foi premiado nas categorias Melhor Filme, Montagem, Atriz e Atriz Coadjuvante no Festival de Brasília. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Milton Bituca Nascimento
Flavia Moraes | Brasil | 2025, 110’, DCP (Gullane+) O documentário musical parte da turnê de despedida de Milton Nascimento, um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos, para entender a complexidade simples de sua obra e o quanto os mistérios que ele carrega permitem refletir sobre a alma brasileira. Além de acompanhar a longa e bem-sucedida turnê de Nascimento, a diretora Flavia Moraes reúne depoimentos de personalidades, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Mano Brown, Djamila Ribeiro, Quincy Jones, Spike Lee e Paul Simon. “Eu gosto de dizer que esse é mais um road-movie do que um documentário”, declara Flavia Moraes em entrevista ao portal Meio Amargo. “Porque ele se propõe a registrar esse recorte da vida do Milton que é a despedida, que é o fim. E ao mesmo tempo a gente questiona, o que é o fim de um artista imortal. O filme se
propõe a viajar com o Milton e levar o público pra viajar com ele. A gente não preparou um roteiro, a gente se preparou pra captação e pra tudo o que acontecesse no caminho. Coisas difíceis, coisas emocionantes, o cansaço, o show.”
declarou “A gente assistiu a um filme sobre um deputado que fala ‘Ainda estou aqui’. A gente também fala que nós também estamos aqui. O povo Maxakali, o povo Kaiowá estão aqui. Este filme me marcou.”
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
[Íntegra da entrevista: tinyurl.com/miltonbitucafm]
[Íntegra do debate: tinyurl.com/yogatakims]
Yõg ãtak: Meu pai, Kaiowá
Sueli Maxakali, Isael Maxakali, Roberto Romero e Luisa Lanna | Brasil | 2024, 93’, DCP (Embaúba Filmes) A busca de Sueli Maxakali e Maísa Maxakali pelo pai, Luis Kaiowá, de quem foram separadas durante a ditadura militar no Brasil. O filme acompanha a jornada da cineasta para reencontrar o pai, bem como as lutas enfrentadas pelos povos indígenas Tikmũ’ũn e Kaiowá em defesa de seus territórios e modos de vida. Sueli Maxakali, Isael Maxakali e seus colaboradores frequentes vem construindo uma filmografia que se destaca no cenário brasileiro pela qualidade, solidez e inventividade. Yõg ãtak: Meu pai, Kaiowá teve sua estreia no Festival de Brasília em 2024, onde foi laureado com o prêmio de Melhor Direção. No debate do filme no festival, Sueli
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Férias no cinema
Flow
Straume Gints Zilbalodis | Letônia, Bélgica, França | 2024, 85’, DCP (Mares Filmes), classificação livre Gato é um animal solitário, mas, quando seu lar é destruído por uma grande inundação, ele encontra refúgio em um barco habitado por diversas espécies, tendo que se juntar a elas apesar das diferenças. Flow é o segundo longa-metragem de Gints Zilbalodis. Longe (Away), seu longa anterior, é basicamente um filme de criação solo. Em Flow, Zilbalodis colaborou com uma ampla equipe, numa coprodução de três países. Ainda assim, ele esteve envolvido em uma série de funçõeschave, como o roteiro, o desenvolvimento do cenário e a composição da trilha sonora. Em entrevista à Variety, o diretor comenta: “Começo a escrever a música quando inicio o roteiro, quando a argila ainda não endureceu e ainda é moldável,
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e a música pode influenciar o desenvolvimento da história. Por exemplo, na cena de clímax com o gato e o pássaro nas torres, eu sabia que eles iriam para lá, mas não conseguia imaginar o que realmente aconteceria quando eles chegassem. Mas, quando a música que eu havia escrito enquanto trabalhava no roteiro estava tocando, de repente tive todas essas ideias. Se eu não tivesse escrito aquela música, toda a história seria diferente. Se eu tivesse feito a trilha sonora do filme depois, todo o significado e o destino desses personagens seriam diferentes. É também por isso que é importante que eu mesmo faça essas coisas. Não estou dizendo que posso fazer qualquer uma delas melhor do que outra pessoa, mas, para mim, tudo faz parte de um processo de descoberta.” Flow recebeu o Oscar na categoria Melhor Filme de Animação, tornando-se o primeiro longa criado com o software Blender, gratuito e de código aberto, a conquistar o prêmio. [Íntegra da entrevista, em inglês: bit.ly/flowims]
Ingressos: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
Memórias de um caracol
Memoir of a Snail Adam Elliot | Austrália | 2024, 94’, DCP (Mares Filmes), cópia legendada, indicado para maiores de 14 anos Grace Pudel, solitária e excêntrica, é apaixonada por livros e colecionadora de caracóis ornamentais. Ainda na infância, ao ser separada de seu irmão gêmeo Gilbert – um verdadeiro “cuspidor de fogo” –, Grace mergulha em um turbilhão de ansiedade e angústia. Mesmo diante de uma sequência contínua de dificuldades, ela encontra inspiração e esperança ao desenvolver uma amizade duradoura com Pinky, uma senhora cheia de coragem, irreverência e sede de viver. Do roteirista e diretor de animações Adam Elliot, vencedor do Oscar de Melhor Curta de Animação pelo filme Harvie Krumpet, Memórias de um caracol coleciona uma série de prêmios e uma carreira de sucesso em suas exibições.
Foi eleito Melhor Filme no Festival de Annecy, o maior dedicado a animação no mundo, além de ter recebido Melhor Direção na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. “Inventei uma palavra para descrever meus filmes: clayographies [argilografias, em tradução livre], uma junção das palavras clay [argila] com biographies [biografias]”, comenta Elliot em depoimento veiculado no material de divulgação do filme. “Os protagonistas de todos os meus filmes são outsiders, e meus temas e minhas narrativas exploram a diferença. Adoro contar histórias carregadas de humor e páthos – reflexos das nossas vidas cotidianas que celebram os momentos de alegria junto com a escuridão que acompanha os desafios da existência. Há mais de 30 anos, meu objetivo tem sido simples: fazer o público rir… e também chorar.” Ingressos: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
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foi descobrir o que uma versão cinematográfica precisava ter, em contraste com o que funciona bem no formato do livro. [...] O mais importante era capturar por que essas histórias são tão amadas. Grande parte disso está no tom, na sensibilidade e no humor. Esse se tornou o nosso foco – não reinventar o Homem-Cão, mas ampliar o que já estava ali.” [Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ homemcaoph]
O Homem-Cão
Dog Man Peter Hastings | EUA | 2025, 95’, DCP (Universal Pictures do Brasil), cópia dublada, classificação livre Quando um leal cão policial e seu parceiro humano são feridos juntos durante uma missão, uma cirurgia maluca e salvadora acaba fundindo os dois em um só corpo. Assim nasce o Homem-Cão, um herói com instinto canino e coragem de sobra. Jurado a proteger e servir – além de buscar, sentar e rolar –, ele precisa se adaptar à sua nova identidade enquanto tenta conquistar a confiança do Chefe. Mas não terá descanso: um astuto vilão felino, Petey, o Gato, está sempre tramando planos malignos. O filme é adaptado da série de histórias em quadrinhos de sucesso O Homem-Cão, de Dav Pilkey, mesmo criador dos quadrinhos do Capitão Cueca. Segundo o cineasta Peter Hastings em entrevista ao portal Animation Work Network, o quadrinho de “O Homem-Cão tem muitos momentos emocionantes e engraçados, então o desafio
Ingressos: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
Sessão indeterminações Grande Otelo, enigma das contradições Menos do que uma ação memorialista, a sessão Grande Otelo, enigma das contradições investe em adentrar nos contornos de malícia, tracejos interpretativos e galanteios cheios de intenção das performances do multiartista consagrado nos palcos e nas telas como Grande Otelo. Não se trata de revelar um segredo; afinal, não há o que se desvelar. Ao contrário, perseguimos os gestos e as grafias de seu trabalho atoral com o desejo de perguntar: como seu repertório criativo poderia alargar e estremecer as concepções desde já estabelecidas sobre o cinema negro no Brasil? Combinamos Sebastião Prata, ou bem dizendo, Grande Otelo (Murilo Sales e Ronaldo Foster, 1971) ao Também somos irmãos (José Carlos Burle, 1949). O colorido e o preto e branco dos filmes em exibição se recombinam em ambiguidades, criando inflexões que nos levam a caminhos desconhecidos e, por assim dizer, indecifráveis. Ingressos: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
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Sebastião Prata, ou bem dizendo, Grande Otelo
Murilo Salles e Ronaldo Foster | Brasil | 1971, 12’, DCP (CTAv) Na intimidade de um lar, uma voz embargada profetiza em samba: “Há de passar 100 anos até que se esqueçam de mim”. Passado, presente e algumas frases de Sebastião Prata, o homem eternizado como Grande Otelo.
Também somos irmãos
José Carlos Burle | Brasil | 1949, 85’, DCP, restauração 2K (Cinemateca Brasileira) O amor e o ódio entre Renato (Aguinaldo Camargo) e Miro (Grande Otelo), dois irmãos negros que crescem no seio de uma família branca, revelam os conflitos de raça e classe neste que é um dos marcos na discussão da racialidade na cinematografia brasileira. Cópia recém-restaurada em 2K pela Cinemateca Brasileira, a partir de materiais remanescentes em 16 mm.
Sessões especiais
Em busca do ouro
The Gold Rush Charles Chaplin | 1925 | EUA, 88’, DCP, restauração 4K (mk2 films) Um dos mais famosos filmes de Charles Chaplin completa 100 anos com um relançamento ao redor do mundo, em nova restauração 4K. Carlitos, o típico personagem Vagabundo de Chaplin, calmo e satisfeito, parte em busca de fortuna nas minas de ouro escondidas do Klondike. Mas toda a calma se perde rapidamente quando outro garimpeiro, tão faminto quanto ele, começa a confundi-lo com uma galinha gigante. Em 1942, Chaplin relançou o filme com trilha sonora sincronizada e narração, remontando o negativo original da câmera. Ele removeu todos os intertítulos, reorganizou algumas sequências e descartou várias cenas. Também tomou providências para que todas as cópias existentes da versão de 1925 fossem retiradas
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de circulação. Em 1993, Kevin Brownlow e David Gill reconstruíram o filme, combinando os poucos elementos sobreviventes com o relançamento de 1942, restaurando-o da forma mais próxima possível à versão original. A partir da reconstrução feita por Brownlow e Gill, e graças aos esforços conjuntos de diversos arquivos cinematográficos ao redor do mundo, esta restauração oferece a oportunidade de ver a obra-prima de Chaplin um passo mais próxima de sua forma original. A trilha sonora, originalmente composta por Charles Chaplin em 1942, foi adaptada, arranjada e regida por Timothy Brock para esta restauração da versão de 1925, e executada pela Orchestra Città Aperta. A restauração foi realizada pela Fondazione Cineteca di Bologna, no laboratório L’Immagine Ritrovata (em Bolonha), sob a supervisão da Association Chaplin e da Roy Export SAS, com o apoio da mk2. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).
Teddy Vieira – Um poeta da música brasileira José Ricci | Brasil | 2024, 44’, Arquivo digital (Acervo do artista)
Em celebração ao Dia da Viola Caipira, comemorado em 13 de julho, será exibido o documentário sobre Teddy Vieira – um dos maiores compositores da música brasileira. O filme traça um retrato sensível de sua trajetória, explorando sua vida pessoal, suas principais canções e seu legado na música raiz. Com depoimentos de artistas como Sérgio Reis e Moacyr Franco, o documentário é um convite para redescobrir a força poética e cultural da obra de Teddy Vieira. Ingressos: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
Instituto Moreira Salles Cinema Coordenador | Curador Kleber Mendonça Filho
Supervisora de curadoria e programação Marcia Vaz Programador adjunto Thiago Gallego
Produtora de programação Quesia do Carmo
Assistente de programação Lucas Gonçalves de Souza
Projeção Fagner Andrades e Gilmar Tavares Revista de Cinema IMS
Produção de textos e edição Thiago Gallego e Marcia Vaz
Os filmes de julho
A programação do mês tem apoio do CTAv (Centro Técnico Audiovisual) e das distribuidoras Embaúba Filmes, Gullane +, Imovision, MK2 Films, O2 Play e Park Circus. Agradecemos a Cinemateca Brasileira, Gabriel Araújo, Jacques Jagou, José Ricci, Jyan França, Laura Vieira Azevedo, Lorenna Rocha, Margot Pagot, Sandra Escribano Orpez e Wanderson Lima.
Sessão indeterminações Realização: Cinema do IMS Curadoria: Lorenna Rocha e Gabriel Araújo Produtor associado: Jyan França Produção executiva: Miracéu Audiovisual
Diagramação Marcela Souza e Taiane Brito Revisão Flávio Cintra do Amaral
apoio
agradecimentos
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Venda de ingressos Ingressos à venda pelo site ingresso.com e na bilheteria do centro cultural, para sessões do mesmo dia. No ingresso.com, a venda é mensal, e os ingressos são liberados no primeiro dia do mês. Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala. Capacidade da sala: 85 lugares. Meia-entrada Com apresentação de documentos comprobatórios para professores da rede pública e privada, estudantes, crianças de 3 a 12 anos, pessoas com deficiência, portadores de Identidade Jovem, maiores de 60 anos e titulares do cartão Itaú (crédito ou débito). Devolução de ingressos Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site. Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas no site ims.com.br e no Instagram @imoreirasalles. Confira as classificações indicativas no site do IMS.
Memórias de um caracol (Memoir of a Snail), de Adam Elliot
Visitação: terça a sexta, das 13h às 19h. Sábados e domingos, das 9h às 19h. Entrada gratuita. Sessões de cinema: Quinta a domingo.
Rua Teresópolis, 90 CEP 37701-058 Cristiano Osório Poços de Caldas ims.pc@ims.com.br
ims.com.br
/institutomoreirasalles @imoreirasalles Em busca do ouro (The Gold Rush), de Charles Chaplin
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