DIGNIDADE E LUTA: LAUDELINA DE CAMPOS MELLO
Lázaro Roberto, Registro da passeata das lavadeiras, reivindicando seus direitos, 1992. Fotografia, 59 x 38 cm. Zumví Arquivo Afro Fotográfico.
A exposição e este material oferecem aos professores uma rica oportunidade para discutir em sala de aula temas essenciais como direitos trabalhistas, racismo estrutural e protagonismo feminino negro. A figura central é a ativista mineira Laudelina de Campos Mello (1904-1991), que lutou incansavelmente por dignidade e reconhecimento para as trabalhadoras domésticas.
Com fotografias, documentos, objetos e obras de artistas como Gê Viana, Rosana Paulino e Kika Carvalho, a mostra conecta a vida de Laudelina a questões históricas e sociais ainda urgentes. Professores podem explorar este material mesmo que não tenham visitado a exposição, adotando uma perspectiva interdisciplinar, relacionando-o com conteúdos de História, Sociologia, Educação para as Relações Étnico-Raciais, Arte e Literatura, incentivando reflexões sobre a herança escravocrata no Brasil, a luta por direitos civis e a importância do associativismo negro.
O material também permite trabalhar linguagens artísticas contemporâneas, valorizando o papel das mulheres negras como protagonistas na luta por justiça e cidadania e promovendo o diálogo entre arte e política.
CURADORIA
Raquel Barreto
Renata Sampaio Phelipe Rezende (Assistência de curadoria)
VISITAÇÃO
Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello 16/5 a 18/10/2026
IMS PAULISTA
Avenida Paulista, 2424, São Paulo/SP - Brasil Entrada gratuita.
* Exposição apresentada no IMS Poços de 22/3 a 14/9/2025.
Terça a domingo e feriados das 10h às 20h (fechado às segundas).
Última admissão: 30 minutos antes do encerramento.
Autoria não identificada, Laudelina de Campos Mello, sem data. Reprodução fotográfica. Acervo do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas.
LAUDELINA DE CAMPOS MELLO
Nasceu em 1904, em Poços de Caldas (MG), menos de duas décadas após a abolição da escravidão no Brasil, e morreu em 1991, aos 86 anos de idade. Foi ativista, líder comunitária e articuladora cultural.
Começou a trabalhar em serviços domésticos aos sete anos, deixou a escola para cuidar dos irmãos e, aos 16, já atuava em organizações culturais negras em Poços de Caldas. Foi condecorada com o título de Heroína da Pátria, em 2023, por suas contribuições e sua dedicação para o país na defesa da democracia e da liberdade, tendo sido a primeira mulher negra a integrar o Exército como combatente durante a Segunda Guerra Mundial. Um exemplo de sua atuação no campo da cultura foi a criação da Escola de Bailados Santa Efigênia, a primeira para meninas negras de Campinas. Sua trajetória revela as marcas do racismo estrutural e da exclusão histórica das mulheres negras no país. Em sala de aula, sua história pode ser ponto de partida para discutir como a herança
escravocrata moldou o trabalho doméstico no Brasil, marcado por desigualdades de gênero, raça e classe. O fortalecimento dos instrumentos de controle se reflete na legislação, que, desde o início do século 20, foi articulada para proteger os interesses dos empregadores, e não para garantir direitos às pessoas que realizavam os trabalhos. A associação entre escravidão, trabalho doméstico e população negra persiste no imaginário social de forma evidente e naturalizada em muitos contextos. Laudelina enfrentou esse cenário com organização política, educação e cultura: fundou o primeiro sindicato de trabalhadoras domésticas, lutou por direitos trabalhistas e pelo reconhecimento da categoria, organizou eventos, bailes, encontros, conversas, e, aos poucos, agregou artistas, intelectuais e personalidades políticas para apoiarem a causa. Por meio das artes, incentivou a dignidade no trabalho doméstico e a valorização da cultura negra.

Walter Firmo, Clementina de Jesus em sua casa no Grajaú (RJ), 1977. Fotografia, 42 x 60 cm. Acervo Instituto Moreira Salles/Coleção Walter Firmo.
QUE POSSIBILIDADES DE CRIAÇÃO, CUIDADO E REINVENÇÃO PODEM SURGIR QUANDO RECONHECEMOS O DESCANSO, A PAUSA E O ÓCIO
COMO DIREITOS − E NÃO COMO PRIVILÉGIOS?
Sob a luz do sol, no quintal de sua casa no bairro carioca do Grajaú, Clementina de Jesus repousa numa cadeira de balanço. À sua direita, um pouco mais à frente, um varal com uma colcha para cama de casal balança em processo de secagem. O olhar do fotógrafo nos mostra algo mais, como se fosse uma cortina que se abre, revelando aos poucos uma cena em um palco.
A fotografia de Walter Firmo capta mais do que um instante de descanso: revela uma pausa que carrega história, dignidade e resistência. É uma imagem rara de serenidade, em uma trajetória marcada por talento, trabalho duro e muitos momentos de invisibilidade.
Também chamada de Tina e de Quelé, Clementina foi uma das principais responsáveis por popularizar o samba no país. Reconhecida por resgatar cantos negros tradicionais, tornou-se um elo fundamental entre as culturas do Brasil e da África, deixando um legado profundo na música e na memória popular.
Clementina, que exerceu a profissão de trabalhadora doméstica por décadas antes de ser reconhecida como cantora, nos lembra que o descanso, para muitas mulheres negras, nem sempre foi direito − muitas vezes, foi considerado um luxo, e negado. A imagem convida à reflexão: o que é um trabalho satisfatório? O que é direito e o que é privilégio quando falamos sobre trabalho e valor? Se trabalharmos apenas para pagar contas, conseguiremos realmente descansar?
Neste retrato, o corpo de Clementina, enfim em repouso, afirma: o descanso também é território de luta a ser conquistado e mantido diariamente. Um território onde podem caber memórias, beleza e uma ideia radical de bem-viver.
Walter Firmo (1937), que fotografou a artista em diferentes momentos de sua vida, é reconhecido pelo uso intencional e expressivo da cor, valorizando a presença e a cultura negra em sua obra. Ler suas imagens permite trabalhar os temas da identidade, memória, ancestralidade e representatividade na escola. Ao retratar o cotidiano, especialmente de pessoas negras, com dignidade e poesia, Firmo nos convida a olhar para o Brasil com mais atenção e sensibilidade.
Gê
Viana, Sentem para jantar [da série Atualizações traumáticas de Debret], 2021. Colagem digital, 42 x 59,4 cm. Coleção da artista.
SE VOCÊ PUDESSE COLABORAR NA
CRIAÇÃO DESSA COLAGEM, O QUE MAIS VOCÊ GOSTARIA DE INSERIR NA CENA FAMILIAR?
Na imagem, cada detalhe revela gestos de cuidado, ancestralidade e celebração da vida cotidiana. À esquerda, sobre a cristaleira, objetos ligados à fé e à proteção espiritual ocupam lugar de destaque: uma vela acesa, imagens de São Jorge e de Jesus Cristo, o frasco com remédio “cura-tudo” apontam para um cotidiano em que o sagrado se mistura ao doméstico. Dentro do móvel, a importância da arte e da memória para o grupo de pessoas reunidas à mesa se mostra na kalimba, instrumento ancestral de origem africana. Ao fundo, pela janela, avista-se um homem negro e idoso, vestido de branco e abrigado à sombra de uma árvore: seria um preto velho como presença ancestral de sabedoria e acolhimento?
Na mesma parede, à direita, o retrato emoldurado de uma mulher negra reforça a centralidade da figura feminina na construção dos afetos: a imagem mostra aquilo que não queremos esquecer. À mesa, a fartura salta aos olhos − alimentos dispostos com abundância convidam ao encontro e à partilha. Crianças brincam e são cuidadas. Os olhares, os toques e a proximidade entre as pessoas revelam vínculos profundos, construídos no cotidiano. O animal de estimação está integrado à cena, em um ambiente de aconchego e pertencimento. A composição celebra não apenas a vida doméstica mas também a força das relações que sustentam e ressignificam esse espaço. Não há serviçais, e todos cuidam uns dos outros. Sentem para jantar, da artista Gê Viana, é uma colagem digital que tensiona as representações históricas do Brasil
colonial ao reimaginar cenas do passado com um olhar contemporâneo e insurgente. Parte da série Atualizações traumáticas de Debret, a obra se apropria das imagens criadas por Jean-Baptiste Debret no século 19, especialmente aquelas publicadas em Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, e as atualiza com novas camadas visuais e simbólicas.
Ao recompor uma das cenas clássicas do cotidiano escravista, Gê ressignifica os corpos negros, que antes eram retratados sob o olhar eurocêntrico. O gesto de “sentar para jantar” − que, no contexto de Debret, aludia a hierarquias raciais e sociais − é transformado aqui em um chamado à autonomia, à convivência ancestral e à reparação. Os personagens, que em Debret ocupavam posições subalternas, passam a compartilhar a mesa de forma horizontal, desafiando a lógica colonial que moldou simultaneamente a arte e a história oficial. A imagem torna-se uma reivindicação do direito à imagem e, mais ainda, do direito ao cuidado nas relações cotidianas e domésticas.
Gê Viana é uma artista maranhense que trabalha com colagem, fotografia, performance e intervenções urbanas, especialmente por meio da técnica do lambe-lambe. Inspirada por vivências familiares e por códigos afro-indígenas do Maranhão, a artista articula uma memória coletiva marcada por apagamentos, mas também por resistências e reinvenções. A colagem funciona como um convite visual: é preciso sentar à mesa da história, mas com novas presenças e vozes, onde o passado pode ser reencenado com dignidade e crítica.
Mitti Mendonça, Tudo que vem de nós brilha como ouro, 2025. Sublimação (técnica de impressão que transforma tinta sólida em gás) e intervenções têxteis, 145 x 145 cm. Coleção da artista.
COMO A ARTE PODE AJUDAR A CONTAR HISTÓRIAS QUE NÃO APARECEM NOS LIVROS DE HISTÓRIA?
Em um casarão antigo, homens e mulheres se reúnem. Estão bem-vestidos, elegantes, como quem vai a um baile ou a uma festa importante. Sorriem? Estão sérios? Não podemos afirmar com certeza. Seus rostos não estão completamente nítidos, mas seus corpos estão ali, bordados com linha, pedrarias, esmero, memória e afeto. Preste atenção no nome da obra, antes de seguir a leitura.
Para fazer o trabalho, a artista Mitti Mendonça escolheu uma fotografia antiga de autoria desconhecida, tirada na década de 1950, no Clube Negro de Campinas, que ficou conhecido como Clube Machadinho. Com agulha e linha, ela bordou gestos de lembranças sobre a imagem. O bordado, que antes era coisa de casa e das pessoas mais idosas, aqui vira um gesto de resistência. Cada ponto traz uma lembrança que se recusa a esmaecer.


Quem eram essas pessoas? O que sonhavam? Como dançavam? Sem a definição de seus rostos, elas se tornam espelhos e nos convidam a imaginar, a sentir, a reconhecer a beleza dos encontros e a força das histórias que não estão nos livros. A obra remete às festas, como o concurso Pérola Negra, criado por Laudelina de Campos Mello. Eram eventos de orgulho e de valorização da beleza negra, oportunidades de vestir a melhor roupa e de ocupar o espaço com alegria e dignidade em uma época em que muitos lugares não aceitavam a entrada e a permanência de pessoas negras. Por isso, criaram os seus clubes, bailes, concursos, parâmetros de beleza, espaços de conexão, dança e liberdade. Poucas fotos restaram.
Laudelina compreendia que a luta por direitos se fortalecia na coletividade, ressaltando a importância da socialização, especialmente em um trabalho solitário como o doméstico. Valorizava os momentos de lazer social e descanso, tão fundamentais para a saúde física, mental e emocional. As ações culturais, impulsionadas por ela, como os piqueniques, proporcionavam oportunidades de lazer e união a mulheres historicamente excluídas desses espaços. Além de promover bem-estar, tais atividades ocupavam de forma pacífica os espaços públicos de uma cidade marcada pela segregação, como Campinas, última no país a abolir a escravidão.
Detalhes da obra.
Mitti Mendonça não deixa que essa memória se apague, costurando o passado no presente e nos lembrando da importância de celebrar como forma de resistir. Ela é artista visual, ilustradora, designer gráfica, curadora e produtora cultural. Em atividades escolares, sua obra – que combina bordado, pintura, colagem e ilustração digital – pode ser interessante para abordar temas como memória, ancestralidade, afeto e feminismo negro. Inspirada por álbuns de família e pelas mulheres de sua história, atualmente realiza projetos que cruzam arte, moda e educação.
CRONOLOGIA LAUDELINA DE CAMPOS MELLO
1871 Promulgação da Lei do Ventre Livre. 1888 Abolição da escravidão.
1904 Nascimento de Laudelina, em 12 de outubro, em Poços de Caldas (MG).
1916 Laudelina começa a trabalhar como pajem da família Moreira Salles.
1920 Funda o Clube 13 de Maio em Poços de Caldas.
1924 Casa-se com Geremias Henrique e muda-se para Santos. Funda o grupo cultural Saudades de Campinas.
1925 Nasce seu primeiro filho, Alaor.
1928 Nasce sua filha Neusa.
1928-34 Vive em São Paulo e segue trabalhando como doméstica.
1930 Início da Era Vargas.
1931 Decreto 19.770 exclui empregadas domésticas da sindicalização. Funda-se a Frente Negra Brasileira.
1934 Retorna a Santos e segue como doméstica.
1936 Funda a Associação Beneficente das Trabalhadoras Domésticas de Santos.
1937 Estado Novo fecha a associação.
1938 Se separa do marido.
1939 Início da Segunda Guerra Mundial.
1942 Atua na Defesa Passiva Antiaérea e na OFAG.
1943 CLT é criada, mas exclui as trabalhadoras domésticas.
1945 Criação do Teatro Experimental do Negro.
1946 Associação de Santos é reaberta.
1949 Muda-se para o interior de Campinas, atua como administradora de hotel-fazenda.
1953 O hotel é vendido, muda-se para a cidade e atua no Clube Cultural Recreativo.
1954-55 Abre pensão e vende salgados.
1955 Funda a Escola de Bailados Santa Efigênia.
1957 Organiza o Baile Pérola Negra e o 1º Baile das Debutantes Negras.
1959 A escola é fechada.
1960 Cria o I Salão Campineiro dos Amigos das Belas Artes.
1961 Funda a Associação das Empregadas Domésticas de Campinas.
1962 Comemora 1 ano da associação no Teatro Municipal.
1964 Ditadura militar. Associação foi obrigada a perder seu caráter militante.
1968 AI-5. 1º Congresso Nacional das Domésticas. Cria creche em Campinas. Retira-se da associação por divergência ideológica.
1970 Atua em grupo de mulheres na Vila Castelo Branco, em Campinas.
1972 Lei 5.859 garante direitos básicos à categoria (como férias anuais de 20 dias).
1982 Retorna à associação, aos 78 anos.
1985 Abdias Nascimento propõe o Dia da Empregada Doméstica.
1988 Constituição garante novos direitos, e associação vira sindicato.
1991 Morre Laudelina, aos 86 anos, em 12 de maio.
1993 Publicada pesquisa de Elisabete Pinto sobre a trajetória de Laudelina.
2013 Aprovada a PEC das Domésticas, com relatoria de Benedita da Silva.
2020 Primeira morte por covid-19 no Brasil é de uma doméstica. Surge o movimento Pela Vida de Nossas Mães.
2023 Nome de Laudelina é inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
2025 Realizada a exposição Laudelina de Campos Mello: dignidade e luta, no IMS.
REFERÊNCIAS E RECURSOS DE APOIO
Sobre a exposição:
Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello (IMS Poços).
Vídeo com curadores:
Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello no IMS Poços | Abertura.
Recursos de Acessibilidade:
Materiais acessíveis, com leituras de textos da exposição e audiodescrição de obras.
CRÉDITOS
Walther Moreira Salles (1912–2001) – Fundador
Conselho de administração
Jackson Schneider, Janaina Damaceno, Luiza Teixeira de Freitas, Matinas Suzuki Jr. (Presidente), Milene Chiovatto, Pedro Moreira Salles e Tadeu Chiarelli
Diretoria artística João Fernandes
Diretoria de educação
Renata Bittencourt
Diretoria de pessoas
Fabio Armani
Diretoria executiva
Jânio Francisco
Ferrugem Gomes
Diretoria-geral Marcelo
Mattos Araujo
Artistas: sobre Gê Viana: “Independência do Brasil, Debret e violência colonial” - ZUM.
Artistas: sobre Walter Firmo: Walter Firmo - Instituto Moreira Salles.
Artistas: sobre Mitti Mendonça: Vídeo Poéticas negras na publicação.
Cadernos de mediação cultural
Área de Educação IMS
Organização Renata Bittencourt
Concepção, pesquisa e textos
Valquíria Prates e Janis Clémen
Produção editorial Núcleo Editorial IMS
Projeto gráfico Estúdio Daó (Giovani Castelucci e Guilherme Vieira)
Revisão de textos Livia
Azevedo Lima
Digitalização e tratamento de imagens Núcleo Digital IMS e Pigma
Acessibilidade Victória Oliveira
Audiodescrição Sentindo os Sentidos (roteiro: Claudia Guarnieri, consultoria:
Lara Souto, locução: Layana Cattoni)
Libras AHU - Acessibilidade
Humanista Ltda.
Esta publicação foi impressa pela gráfica Pigma em maio de 2026 sobre papel Ofsete 120 g/m² e utiliza a fonte Mona Sans, de Deni Anggara.
Este material é distribuído gratuitamente. Não pode ser comercializado.
Tiragem 2.000 exemplares impressos. ISBN