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Caderno de mediação cultural | Exposição "Stefania Bril: desobediência pelo afeto"

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STEFANIA BRIL DESOBEDIÊNCIA PELO AFETO

CADERNOS DE MEDIAÇÃO CULTURAL

A imagem é um ponto de

partida: questionamento e resposta, afirmação e dúvida. Não o fotógrafo, mas a imagem e o leitor, frente a

frente, dialogando.

COMO UTILIZAR

ESTE CADERNO?

Este caderno de leitura de imagens é um convite à construção de experiências sensíveis, reflexivas e significativas, propondo o contato com a arte em três tempos:

1. PREPARANDO O ENCONTRO COM A IMAGEM

Antes de apresentar uma imagem a um grupo de pessoas, é essencial que você a observe com atenção. Esse olhar prévio permite que você construa alguma intimidade com a imagem e reflita sobre possíveis abordagens, considerando temas, públicos e contextos. Avalie se deseja trabalhar exclusivamente com foco nas obras aqui selecionadas ou se deseja reunir outras imagens para discutir questões específicas do projeto pedagógico que orienta a realização da leitura em grupo, lembrando que você pode utilizar materiais de apoio, como entrevistas, vídeos e conteúdos do site do IMS ou de outros repositórios de publicações.

2. DURANTE AS ATIVIDADES DE LEITURA EM

GRUPO

Para preparar o grupo, uma conversa inicial ou atividade de escrita pode despertar memórias, opiniões e sensibilidades, criando conexões com o que será visto. Ao observar a imagem, incentive uma visualização cuidadosa. Com o grupo, escolha até cinco palavras-chave e, se possível, deixe-as anotadas em local onde todos possam ter acesso. Provoque os participantes com perguntas de caráter abrangente, que permitam abordagens

mais individuais e coloquem em destaque os repertórios pessoais, como, por exemplo: “O que você percebe na imagem?”, “Que informações você reconhece na imagem?”, “Como ela te afeta pessoalmente?”, “Qual o seu posicionamento diante do que você consegue ler na imagem?”. Crie pausas para escutar o grupo, levantar interesses e aprofundar temas. Estimule a realização de registros visuais ou escritos para contribuir no processo de escuta e da troca processual e negociada de percepções, informações, afetos e opiniões das pessoas presentes.

3. OUTROS MODOS DE APROFUNDAR AS LEITURAS DE IMAGENS

Estimule produções individuais – textos, desenhos, mapas mentais – e relacione a imagem a outras obras, estilos e artistas. Explore diferentes tipos de imagem e modos de exibição, questionando: “Onde a arte pode estar?”, “Quem define o que é arte – ou o que é beleza?”, “Que outros sentimentos, sensações e posicionamentos uma imagem pode despertar além do ‘gostar ou não gostar’?”. Proponha a realização de diários visuais, conversas, debates e visitas a exposições. Conectar os estudantes à programação de sua cidade é uma forma de estabelecer diálogo com a cena artística local, nacional e mundial. Além de visitar o IMS e participar de sua programação de arte e educação, você e sua turma podem acessar suas plataformas digitais, repletas de outros recursos de arte disponíveis gratuitamente.

STEFANIA BRIL: DESOBEDIÊNCIA

PELO

AFETO

A exposição oferece múltiplas portas de entrada para se compreender o mundo e os modos de estar no tempo e no espaço a partir do ato de fotografar e observar fotografias. No texto de curadoria disponível no site do IMS, a obra de Stefania Bril é posicionada como um contraponto ao olhar funcional e utilitário sobre a cidade, voltando-se aos gestos mínimos, às pausas e às presenças simples que ocorrem “no raio” das vidas humanas cotidianas, evitando priorizar o registro de grandes projetos urbanos ou eventos espetaculares. Essa atenção insistente ao que parece ser “sem importância” desafia a ideia de que só o extraordinário merece ser visto, pensado e discutido. A atenção ao descanso em espaços públicos e aos encontros familiares cotidianos são exemplos do que poderíamos considerar como bastidores de rituais populares. Para educadores, as obras da artista oferecem uma plataforma para diálogos críticos entre imagem, experiência e história. As fotografias de Bril não se esgotam no que mostram literalmente, possibilitando atividades dialógicas sobre relações de poder, modos de ocupar a cidade, formas de convivência e percepção da passagem do tempo. Ao proporem que se leia a cidade e seus corpos como cenas cheias de tensão e afeto, as imagens extrapolam a arte enquanto objeto de contemplação e se transformam em ferramenta de mediação cultural, estimulando estudantes a considerarem seus próprios contextos com novas abordagens e a reconhecerem narrativas invisíveis, articulando sentidos a partir da observação. Assim como Stefania, este material sugere que aprender com e sobre imagens é aprender a ver, a pensar e a perguntar, habilidades centrais para a formação de sujeitos críticos e conscientes da importância de deixar-se “afetar”.

CURADORIA

Ileana Pradilla Ceron e Miguel Del Castillo

ASSISTÊNCIA

Pamela de Oliveira

VISITAÇÃO

Stefania Bril: desobediência pelo afeto 7/3 a 2/8/2026

IMS POÇOS

Rua Teresópolis, 90, Poços de Caldas/MG – Brasil Entrada gratuita.

Terça a sexta, das 13h às 19h. Sábados, domingos e feriados, das 9h às 19h (fechado às segundas).

* Exposição apresentada no IMS Paulista de 27/8/2024 a 26/1/2025.

Stefania Bril (Gdansk, Polônia, 1922 – São Paulo, SP, 1981) foi uma fotógrafa, crítica, educadora e curadora judia, sobrevivente do Holocausto, que chegou ao Brasil em 1950. Graduada em química, dedicou-se à fotografia após longos anos de atuação na indústria bioquímica. Sua obra artística foi produzida sobretudo entre 1969 e 1977, período em que desenvolveu um modo singular de olhar para a cidade e para as relações humanas. Bril transitou entre a crítica na imprensa e a fotografia autoral, sempre movida pela convicção de que as imagens têm um potencial transformador. Sua prática fotográfica se distancia do espetacular e do monumental para se concentrar no cotidiano, nos gestos mínimos, nas cenas de convívio familiar, nos rituais populares e nas pausas que atravessam a vida urbana. Nesse sentido, sua obra expressa uma descrença na promessa da modernidade como projeto redentor e, ao mesmo tempo, uma aposta radical no afeto, na empatia e na atenção ao ordinário como formas de resistência à violência estrutural.

Autoria não identificada1

Chegada ao Brasil, 1950

Acervo Jacqueline Bril

1 O IMS envidou todos os esforços para identificar e localizar os detentores dos direitos de autor da obra e dos direitos de imagem dos retratados, e agradece toda informação suplementar a respeito.

Essa postura está profundamente ligada à sua experiência de vida. Judia, Stefania Bril conheceu de perto a violência histórica do século XX – primeiro na Polônia natal, durante a Segunda Guerra Mundial, e depois no Brasil, em pleno período da ditadura militar, quando se dedicou à fotografia. Sua trajetória atravessa a constatação de que o progresso técnico promovido pela modernidade não eliminou a barbárie, apenas a tornou mais sofisticada, como evidenciam as guerras sucessivas e as violências sistemáticas que marcaram a humanidade. Como apontam os curadores da mostra, uma espécie de desobediência constante se torna o eixo de sua prática pessoal e profissional: desobediência às narrativas oficiais, aos usos normativos do espaço urbano e às formas hegemônicas de representar pessoas e territórios. Suas imagens se colocam junto ao mundo, acompanhando seus ritmos, suas contradições e seus ruídos, em uma presença que escolhe conviver com o que encontra pelo caminho, deslocando estereótipos e certezas.

A partir de 1978, seu inconformismo a levou a redirecionar parte de sua atuação para o agenciamento cultural e educativo da fotografia. Bril concebeu e organizou os Encontros de Fotografia de Campos do Jordão (1978 e 1979), espaços fundamentais para a reflexão crítica e a formação de uma comunidade fotográfica no Brasil. No mesmo ano, passou a atuar como crítica de fotografia, escrevendo regularmente por mais de uma década em O Estado de S. Paulo e na revista Íris Foto, defendendo a necessidade de formar leitores de imagens, e não apenas produtores ou consumidores visuais. Em 1990, inaugurou a Casa da Fotografia Fuji, o primeiro centro cultural brasileiro dedicado à discussão, ao ensino e à difusão da fotografia, que coordenou até poucos meses antes de sua morte, em 1992. Todo esse percurso – obra fotográfica, textos críticos e biblioteca – integra hoje o acervo do Instituto Moreira Salles.

No contexto escolar, a produção e a trajetória de Stefania são especialmente relevantes por oferecerem uma proposta de educação do olhar. Suas imagens permitem trabalhar com estudantes a leitura crítica de fotografias a partir do cotidiano, estimulando a observação atenta, a escuta e a formulação de perguntas, em vez de respostas prontas. Ao abordar temas como convivência, memória, território, representação e ética da imagem, sua obra favorece práticas pedagógicas interdisciplinares, articulando artes visuais, história, geografia e linguagem. Mais do que ensinar fotografia como técnica, Stefania Bril oferece à escola um repertório para pensar a imagem como forma de conhecimento, de presença e de relação com o mundo, um aprendizado fundamental em uma sociedade marcada pela saturação visual.

Batismo no rio Tietê, Itu, SP, maio de 1973 Arquivo Stefania Bril/ Acervo Instituto Moreira Salles

DE QUE MODO A FOTOGRAFIA PODE REVELAR TENSÕES ENTRE ORDEM E DESVIO, SACRALIDADE E RUÍDO, A PARTIR DE PEQUENOS GESTOS E MOVIMENTOS QUASE IMPERCEPTÍVEIS?

Um grupo numeroso se reúne ao ar livre. Muitas mulheres usam véus claros – alguns rendados – que caem sobre a cabeça e enquadram os rostos, criando uma espécie de “campo branco” contínuo na parte superior do enquadramento. No centro, uma jovem segura um pequeno livro aberto, que lê em voz alta, com os olhos fixos na página, enquanto sustenta no colo uma criança pequena, que se inclina para a frente, como se tentasse escapar daquela situação de contenção. À esquerda, mulheres mais velhas aparecem com expressão grave, uma delas com a mão junto ao rosto, como quem enxuga suor ou emoção; à direita, uma menina de camisa clara olha para baixo, deslocada do foco da leitura. O chão é de terra, muitas pessoas calçam chinelos de dedo, e a cena inteira tem a densidade de um rito: silêncio atento, corpos próximos, tempo suspenso. A imagem se chama Batismo no rio Tietê e está catalogada no Arquivo Stefania Bril/Acervo IMS como tendo sido realizada em Itu, em

maio de 1973. Ela também aparece como obra de abertura (Estação 1) do percurso de acessibilidade da exposição Stefania Bril: desobediência pelo afeto, o que sinaliza seu peso como porta de entrada para o universo da artista. No contexto da mostra, esse trabalho se articula com a ênfase na cidade e na vida comum – “os seres humanos que a habitam” – e com a ideia de que o cotidiano pode ser um lugar de resistência e de invenção de sentido. A curadoria da mostra destaca o atrito entre sacralidade e ruído: a cena é descrita como uma atmosfera quase “imaculada”, construída pela massa de véus e pelo gesto concentrado da leitura, mas atravessada por um elemento que desarruma a ordem – a criança curvada, em tensão com o colo que a segura, como se quisesse se lançar para a água, em uma manifestação que se apresenta como ruído corporal, feminino, parte de um grupo maior de pequenos gestos de resistência cotidiana. Em textos sobre sua fotografia

de rua, aparece também a noção de que ela não buscava o “instante decisivo” clássico em que o ápice de um evento é capturado em menos de uma fração de segundo, e sim “a vida acontecendo”, o processo, o movimento e as contradições do entorno: aquilo que estava em seu raio de observação. A esse respeito, Stefania formulou uma ideia que costuma ser citada como síntese do seu programa ético: em 1975, escreveu que, “nesse nosso mundo de violência”, continuava a acreditar no “homem humano”, e que “as coisas sem importância” são as únicas que dão importância à vida. Quando lida em diálogo com a imagem Batismo no rio Tietê, essa fala nos ajuda a perceber a fotografia para além de sua função de registro de um rito de celebração, em um dia simbolicamente importante nas narrativas pessoais dos envolvidos, evidenciando as micronarrativas de gestos banais e a atenção radical ao que parece mínimo. Entre esses elementos, a imagem destaca: a leitura como gesto público, o peso de um corpo no outro, a criança que não se ajusta, a fé vivida no desconforto e na proximidade, o papel de sacralidade de um rio que hoje consideramos morto, e todas as vivências simultâneas nas quais é possível identificar a força e a tensão do acontecimento.

Menino lê gibi em carrinho de supermercado, rua França, São Paulo, SP, 1973

Arquivo Stefania Bril/Acervo Instituto Moreira Salles

NA FOTOGRAFIA QUESTIONAM AS IDEIAS DE TRABALHO, PRODUTIVIDADE E USO

DO ESPAÇO PÚBLICO NA VIDA URBANA CONTEMPORÂNEA?

A fotografia em preto e branco mostra uma rua tranquila, arborizada, vista em leve perspectiva. Em primeiro plano, um carrinho de supermercado aparece tombado junto ao meio-fio, com as rodas voltadas para a rua. Um garoto está deitado de costas na calçada, o corpo estendido entre o meio-fio e a rua, com as costas e a cabeça repousando, apoiadas dentro do carrinho. Ele segura um gibi acima do rosto e lê, aparentemente concentrado, alheio ao entorno. A calçada é larga, marcada por sombras irregulares das árvores, e a rua está quase vazia ao fundo, com poucos carros estacionados. Não há sinais de pressa nem circulação de outras pessoas. O tempo parece suspenso: a leitura acontece em um lugar improvável, reconfigurando o uso habitual daquele espaço urbano e subvertendo a função esperada de um objeto do cotidiano, convertido em um apoio para o descanso do corpo.

Essa imagem integra o conjunto de fotografias realizadas por Stefania Bril na década de 1970, período em que a fotógrafa se dedicou a observar gestos mínimos de pessoas e situações aparentemente banais da vida urbana. Integrando a série Descanso, a fotografia dialoga com outras cenas em que pessoas interrompem o fluxo da cidade para dormir, repousar ou simplesmente parar. Não se trata de um descanso idealizado, mas de pausas improvisadas, muitas vezes realizadas no próprio espaço de circulação, revelando uma cidade vivida a partir de seus desvios. A série também se aproxima de outros trabalhos da artista que exploram situações limítrofes, nas quais o cotidiano beira o absurdo. Estudos recentes sobre a autora já destacaram essa fotografia como um exemplo preciso da “torção” que Bril opera sobre a lógica urbana, destacando o inusitado e o inesperado nos espaços públicos. Também apontam que o gesto de deitar-se na

calçada para ler subverte tanto a função do espaço público quanto a expectativa sobre o corpo em ação na cidade moderna. O carrinho de supermercado, objeto associado ao consumo e ao trabalho, aparece esvaziado de sua utilidade e integrado à cena como elemento quase escultural. O caráter silencioso da imagem é ressaltado: não há denúncia explícita nem narrativa fechada, mas a apresentação de um instante que revela brechas na ideia corrente de trabalho e de produtividade contínua. O humor discreto, o estranhamento e a atenção a quem está na rua são citados como chaves de leitura dessa fotografia.

A própria artista, em textos e declarações, afirmou reiteradamente seu interesse pelas pequenas coisas e pelos gestos considerados sem importância, como um conjunto de escolhas éticas e estéticas que parte de sua necessidade de olhar para aquilo que normalmente não costuma merecer a atenção de quase ninguém. Na série Descanso, tal postura se traduz em imagens como essa, que não tentam explicar nada nem concluir nenhum assunto, mas convidam o observador a reconhecer, no meio da cidade, outros modos possíveis de estar, parar e existir.

Faço parte de uma metrópole chamada São Paulo. Estou atenta a tudo que compõe a vida dessa grande cidade: o céu pintado para substituir o céu verdadeiro que desaparece; as árvores pintadas, para substituírem as verdadeiras derrubadas, e o “verdadeiro verde” que, indiferente à destruição/construção, surge de qualquer fenda no muro deixada por distração humana.

Sem título: Narcisa, Sebastião, dona Ermília e Cecília, Vila Santo Estéfano, São Paulo, SP, junho de 1975

Arquivo Stefania Bril/Acervo Instituto Moreira Salles

QUE IMAGENS COSTUMAMOS ASSOCIAR

À IDEIA DE FAMÍLIA, CUIDADO E CONVIVÊNCIA, E QUEM GERALMENTE FAZ PARTE DA COMPOSIÇÃO DESSAS REPRESENTAÇÕES?

A fotografia em preto e branco apresenta um grupo reunido em um espaço externo doméstico. No centro da composição, uma mulher mais velha está sentada em uma cadeira simples, com o corpo levemente voltado para a câmera. Ela veste um casaco escuro e uma saia clara; as pernas, cobertas por meias, repousam apoiadas no chão. Em seu colo, um cão pequeno é acolhido com afeto, ocupando um lugar de destaque na cena. Ao redor dela, três pessoas mais jovens se aproximam, tocando seus braços e ombros. À esquerda, uma mulher e um homem; à direita, uma mulher segura outro cachorro. Todos sorriem. Os corpos estão muito próximos, formando um conjunto compacto e equilibrado. O fundo é simples: um muro, algumas plantas altas e sombras marcadas pela luz intensa do dia, compondo um ambiente cotidiano, sem sinais de encenação formal.

Na leitura proposta por Alexandre Araujo Bispo no catálogo da mostra, essa imagem se afirma como um gesto contra o que ele chama de desmemória, que seria um apagamento intencional sustentado pelo descuido com elementos decisivos para a construção das narrativas. O primeiro ponto, fundamental, é a nomeação das pessoas retratadas, que rompe com a tradição de anonimização frequente na história da fotografia, em especial no caso de pessoas subalternizadas, das classes populares ou racializadas. Nomear é reconhecer a existência histórica e social; é afirmar que essas pessoas não são tipos ou exemplos genéricos, mas sujeitos concretos, com vínculos, afetos e território. Bispo destaca também a diferença entre

“olhar para” e “estar com”: a fotografia não se coloca como observação distante, mas como presença partilhada. A proximidade dos corpos, a naturalidade dos gestos e o clima de intimidade indicam que a fotógrafa esteve ali como alguém que partilha o tempo e o espaço, e não como quem captura uma cena de fora.

No contexto do trabalho de Stefania Bril, a imagem evidencia um modo de olhar atento ao cotidiano como lugar de sentido, convívio e resistência. A mulher mais velha ocupa o centro, como eixo afetivo em torno do qual as relações se organizam. Os gestos de aproximação, como braços que se apoiam, corpos que se inclinam, mãos que tocam, constroem uma atmosfera de cuidado e pertencimento, sugerindo continuidade entre gerações.

A presença dos cães, integrados ao grupo e acolhidos no colo, amplia a noção de família e reforça a dimensão doméstica da cena, em que vínculos humanos e não humanos se entrelaçam no convívio diário. A fotografia, assim, não dramatiza nem idealiza: ela afirma a dignidade do ordinário, mostrando como a convivência, o afeto e o cuidado são formas centrais de produzir memória e presença no espaço urbano.

O QUE FAZEMOS QUANDO ENCONTRAMOS

UMA IMAGEM?

Encontrar uma imagem é aceitar um convite à atenção. No trabalho de Stefania Bril, essa pergunta se desdobra em observação, método e escuta do mundo. O aprendizado crítico da fotografia ajuda a compreender por que suas imagens nunca são apenas flagrantes: são construções rigorosas, mesmo quando parecem simples.

Ao trabalhar com as fotografias de Stefania Bril em rodas de conversa, a mediação cultural pode se organizar a partir de perguntas que convidam à observação lenta, à escuta e à partilha de percepções. As três imagens estudadas – Batismo no rio Tietê (1973), Sem título (1975) e Menino lê gibi em carrinho de supermercado (1973) – oferecem campos distintos, porém complementares, de diálogo.

Uma sessão compartilhada de leitura de imagem mediada pode ser organizada de forma simples e aberta. O mediador prepara o encontro, observando previamente a imagem e organizando o grupo em roda, favorecendo a escuta. Inicia-se com um breve tempo de silêncio para a observação atenta, seguido por indagações abertas que partem do visível, como: “O que você percebe na imagem?”. Em seguida, avançam para relações e afetos: “Como esta cena te toca?”. Registrar palavras-chave ditas pelo grupo ajuda a construir a memória coletiva da conversa. Como desdobramento, podem ser propostas ações: escrita curta, desenho a partir de

um detalhe ou associação da imagem com experiências do cotidiano. Encerrar retomando as perguntas iniciais reforça a imagem como ponto de partida para uma reflexão compartilhada, e não como resposta pronta.

Em Batismo no rio Tietê, a roda pode partir da atenção aos corpos e aos pequenos deslocamentos dentro de um ritual coletivo. Questões como: “Onde percebemos ordem e onde surgem desvios?” ou “Que tensões atravessam esta cena aparentemente sagrada?” ajudam a refletir sobre fé, convivência, controle e desobediência a partir de gestos mínimos, como o peso de um corpo sobre o outro ou a criança que não se ajusta ao rito.

Já em Menino lê gibi em carrinho de supermercado, a roda pode explorar os usos inesperados da cidade. As perguntas: “Este corpo poderia estar aqui?” ou “O que esta cena nos diz sobre trabalho, descanso e tempo?” abrem reflexões sobre produtividade, pausa e invenção de outros modos de existir no espaço urbano.

Na fotografia Sem título, a conversa pode se organizar em torno da ideia de família e pertencimento. “Quem está no centro da imagem e por quê?”, “Que gestos constroem cuidado?” ou “Que outras formas de família reconhecemos aqui?” são perguntas que permitem discutir memória, afeto, nomeação e o valor do cotidiano como produtor de história.

A OLHAR: STEFANIA BRIL

E A ÉTICAEDUCAÇÃO DA IMAGEM

A trajetória de Stefania Bril articula fotografia, crítica e educação como campos inseparáveis de reflexão e prática. Seu trabalho propõe a imagem não como mera ilustração ou registro imediato, mas como espaço de encontro, questionamento e responsabilidade ética. Sintetizamos abaixo algumas ideias, ferramentas de trabalho, princípios, falas e propostas inspiradas em sua atuação como fotógrafa, oferecendo caminhos para aprender a olhar, criar e ler imagens, considerando a fotografia como experiência formativa, capaz de mobilizar sensibilidade, pensamento crítico e diálogo em diferentes contextos educativos e culturais.

1. Educação do olhar: Para Stefania Bril, a fotografia foi um campo de pensamento, e não apenas técnica ou produto final. Sua escrita crítica, sua prática autoral e sua atuação institucional partiam da convicção de que é preciso aprender a ler imagens. Em um mundo saturado de visualidades, a educação em arte e fotografia, para ela, deveria formar sujeitos capazes de observar com

atenção, questionar sentidos, estabelecer relações e assumir uma responsabilidade ética diante do que veem e do que produzem. Essa ideia atravessa sua obra e se materializa na criação de espaços e atividades dedicados à formação do olhar.

2. Textos e falas de Stefania Bril: Seus textos e suas falas são potentes disparadores de leitura e reflexão. Ao afirmar que a imagem nasce no encontro entre quem olha e o que é visto, ela desloca a centralidade do fotógrafo para a relação estabelecida entre a imagem e o observador. Ao tratar da ética do olhar, enfatiza que o privilégio de acessar a vida cotidiana dos outros não autoriza a violação da dignidade humana. Sua atenção às “coisas aparentemente sem importância” reafirma o cotidiano como matéria sensível e política, enquanto o humor e a ironia aparecem como formas críticas de lidar com um mundo excessivamente normativo. Ao alertar que a imagem não deve substituir a realidade, convoca o olhar à consciência, à reflexão e ao enfrentamento da falta de sensibilidade diante da diversidade de contextos no mundo.

3. A Casa da Fotografia Fuji como projeto pedagógico: Criada em 1990, a Casa da Fotografia Fuji foi concebida por Stefania Bril como um projeto pedagógico ampliado, no qual um espaço expositivo se tornou um lugar de formação, debate e circulação de ideias sobre fotografia. Ali, a imagem era tratada como linguagem cultural, histórica, ética e técnica. Conversas, cursos, exposições, encontros, textos e uma biblioteca coexistiam, reforçando a compreensão de que aprender fotografia implica articular prática, pensamento crítico e diálogo coletivo, princípio que hoje se reconhece como central na mediação cultural e nas aulas de artes.

4. Propostas de atividades: Reunimos algumas propostas de encaminhamentos para atividades inspiradas em Stefania Bril em diálogo pedagógico com as competências da BNCC ligadas à leitura de imagens, à empatia, ao pensamento crítico e à contextualização cultural:

a) Processos de criação de fotografia do cotidiano, centrada em gestos simples como pausa, encontro e cuidado, que possam deslocar o foco das cenas excepcionais para a vida comum.

b) Propostas de mediação cultural a partir da discussão sobre ética da imagem, para promover consciência crítica sobre exposição, circulação, respeito e compartilhamento de imagens, especialmente em contextos digitais.

c) Criação de cartografias afetivas pessoais e coletivas, baseadas na nomeação de pessoas e lugares, valorizando vínculos, territórios e memórias.

Todas as sugestões podem partir da leitura atenta antes da produção de imagens, estimulando a descrição, a formulação de perguntas e a reflexão.

5. Alguns pressupostos de Stefania Bril para a educação: Ensinar fotografia, para Stefania Bril, é ensinar a ver, a pensar e a se responsabilizar pelo olhar. Sua obra e sua atuação oferecem fundamentos para compreender a imagem como ferramenta de formação sensível, ética e crítica. Esse conjunto de ideias pode ser mobilizado em aulas de artes visuais, projetos interdisciplinares, formação de professores e ações de mediação em exposições, ampliando o entendimento da fotografia como prática educativa e cultural.

REFERÊNCIAS E RECURSOS DE APOIO

S obre a exposição:

Acesse conteúdos sobre a exposição, com textos e imagens selecionados

Vídeo com curadores: Curadores apresentam a exposição Stefania Bril: desobediência pelo afeto.

Revista ZUM:

Ensaio: “Cidade, fotografia, ficção”, de Miguel Del Castillo.

CRÉDITOS

Walther Moreira Salles (1912–2001) – Fundador

Conselho Jackson Schneider, Janaina Damaceno, Luiza Teixeira de Freitas, Matinas Suzuki Jr. (Presidente), Milene

Chiovatto, Pedro Moreira

Salles e Tadeu Chiarelli

Diretoria artística João Fernandes

Diretoria de educação

Renata Bittencourt

Diretoria executiva

Jânio Francisco

Ferrugem Gomes

Diretoria geral Marcelo

Mattos Araujo

Conversa na Galeria: “Contra a desmemória: estar com pessoas negras na fotografia de Stefania Bril”, Alexandre Araujo Bispo.

Por dentro do acervo: O arquivo fotográfico e a biblioteca de Stefania Bril se encontram sob a guarda do Instituto Moreira Salles.

Textos da exposição e recursos de acessibilidade: Recursos de acessibilidade para os textos – áudios e interpretação em Libras.

Cadernos de mediação cultural

Área de Educação IMS

Organização Renata Bittencourt

Concepção, pesquisa e textos

Valquíria Prates e Janis Clémen

Produção editorial Núcleo

Editorial IMS

Projeto gráfico Estúdio Daó (Giovani Castelucci e Guilherme Vieira)

Revisão de textos Livia Azevedo Lima

Digitalização e tratamento de imagens Núcleo

Digital IMS e Pigma

AcessibilidadeVictória Oliveira

Audiodescrição Danielle França e Sentindo os Sentidos

(roteiro: Leonardo Sassaki, consultoria: Lara Souto, locução: Layana Cattoni)

LIBRAS AHU – Acessibilidade Humanista Ltda.

Esta publicação foi impressa pela gráfica Pigma em março de 2026 sobre papel Ofsete 120 g/m² e utiliza a fonte Mona Sans, de Deni Anggara.

Este material é distribuído gratuitamente. Não pode ser comercializado.

Tiragem 2.000 exemplares impressos.

O fotógrafo do cotidiano tem o privilégio de “viver” a vida de muitos; não lhe é concedido o direito de explorar esta situação privilegiada, violando a dignidade humana

o pretexto

de Arte.

— STEFANIA BRIL

sob

CADERNOS DE MEDIAÇÃO CULTURAL

Os cadernos têm o objetivo de provocar o pensamento sobre questões contemporâneas das artes, da cultura e da sociedade, incentivando a presença da imagem na sala de aula como campo de leitura, reflexão crítica e criação. Voltados a processos dialógicos, os cadernos apoiam professores, educadores e mediadores culturais em práticas formativas, podendo ser usados como recurso acessível em contextos de mediação cultural.

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