Skip to main content

Caderno de mediação cultural | Exposição "Zumví Arquivo Afro Fotográfico"

Page 1


ZUMVÍ ARQUIVO AFRO FOTOGRÁFICO

CADERNOS

DE MEDIAÇÃO CULTURAL

Eu fotografo para o futuro.

COMO UTILIZAR

ESTE CADERNO?

Este caderno de leitura de imagens é um convite à construção de experiências sensíveis, reflexivas e significativas propondo o contato com a arte em três tempos:

1. PREPARANDO O ENCONTRO COM A IMAGEM

Antes de apresentar uma imagem a um grupo de pessoas, é essencial que você a observe com atenção. Esse olhar prévio permite que você construa alguma intimidade com a imagem e reflita sobre possíveis abordagens, considerando temas, públicos e contextos. Avalie se deseja trabalhar exclusivamente com foco nas obras aqui selecionadas ou se deseja reunir outras imagens para discutir questões específicas do projeto pedagógico que orienta a realização da leitura em grupo, lembrando que você pode utilizar materiais de apoio, como entrevistas, vídeos e conteúdos do site do IMS ou de outros repositórios de publicações.

2. DURANTE AS ATIVIDADES DE LEITURA EM

GRUPO

Para preparar o grupo, uma conversa inicial ou atividade de escrita pode despertar memórias, opiniões e sensibilidades, criando conexões com o que será visto. Ao observar a imagem, incentive uma visualização cuidadosa. Com o grupo, escolha até cinco palavras-chave e, se possível, deixe-as anotadas em local onde todos possam ter acesso. Provoque os participantes com perguntas de caráter abrangente, que permitam abordagens

mais individuais e coloquem em destaque os repertórios pessoais, como, por exemplo: “O que você percebe na imagem?”, “Que informações você reconhece na imagem?”, “Como ela te afeta pessoalmente?”, “Qual o seu posicionamento diante do que você consegue ler na imagem?”. Crie pausas para escutar o grupo, levantar perguntas e aprofundar temas. Estimule a realização de registros visuais ou escritos para contribuir no processo de escuta e da troca processual e negociada de percepções, informações, afetos e opiniões das pessoas presentes.

3. OUTROS MODOS DE APROFUNDAR AS LEITURAS DE IMAGENS

Estimule produções individuais – textos, desenhos, mapas mentais – e relacione a imagem a outras obras, estilos e artistas. Explore diferentes tipos de imagem e modos de exibição, questionando: “Onde a arte pode estar?”, “Quem define o que é arte – ou o que é beleza?”, “Que outros sentimentos, sensações e posicionamentos uma imagem pode despertar além do ‘gostar ou não gostar’?”. Proponha a realização de diários visuais, conversas, debates e visitas a exposições. Conectar os estudantes à programação de sua cidade é uma forma de estabelecer diálogo com a cena artística local, nacional e mundial. Além de visitar o IMS e participar de sua programação de arte e educação, você e sua turma podem acessar suas plataformas digitais, repletas de outros recursos de arte disponíveis gratuitamente.

ZUMVÍ ARQUIVO AFRO FOTOGRÁFICO

A exposição apresenta ao público um conjunto fundamental de imagens para compreender a história recente do Brasil a partir de perspectivas negras, periféricas e situadas. Criado em 1990 por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, e mantido hoje por Lázaro Roberto em parceria com o historiador José Carlos Ferreira dos Santos Filho, o Zumví nasceu do compromisso político e afetivo de registrar a vida negra na Bahia pelas lentes de fotógrafos negros. Historicamente, pessoas negras raramente eram fotografadas por artistas negros e, quando o eram, quase nunca tinham controle sobre seus próprios modos de representação. Com cerca de 400 fotografias, organizadas em 16 núcleos temáticos, a exposição permite acompanhar a amplitude do acervo e das experiências documentadas. As imagens mostram festas, lutas, cotidianos, gestos de trabalho, celebrações e encontros, compondo uma narrativa visual que articula política, cultura e vida comum. Para professores e estudantes, a exposição e seu conteúdo podem ser trabalhados como uma inspiração para a criação de arquivos vivos, em constante construção, permitindo discutir o que é um arquivo, quem o produz, quais histórias ele preserva e quais histórias costumam ficar de fora das narrativas oficiais. As fotografias selecionadas neste material convidam à leitura de imagens e ao exercício de interpretação e reflexão, observando‑se e nomeando s e enquadramentos, ações, corpos, espaços e contextos históricos, ao mesmo tempo que se relacionam imagem, memória e experiência social.

CURADORIA

Hélio Menezes

ASSISTÊNCIA DE CURADORIA

Ariana Nuala

CONSULTORIA

Elson Rabelo

PESQUISA

Vilma Neres

VISITAÇÃO

28/3 a 23/8/2026

IMS PAULISTA

Avenida Paulista, 2424, São Paulo/SP — Brasil Entrada gratuita.

Terça a domingo e feriados das 10h às 20h (fechado às segundas).

Última admissão: 30 minutos antes do encerramento.

O ARQUIVO

O Zumví Arquivo Afro Fotográfico é um dos mais importantes acervos dedicados à história da fotografia negra e às lutas do movimento negro no Brasil. Criado em 1990, em Salvador (BA), por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, o arquivo nasce do compromisso de registrar a vida negra a partir de suas próprias experiências, já que pessoas negras raramente eram fotografadas por mãos negras e quase nunca controlavam suas formas de representação. Desde o início, o Zumví foi mais do que um repositório de imagens. É um projeto político, cultural e pedagógico, voltado à construção de memória, à afirmação de identidades e à circulação das imagens nos próprios territórios onde foram produzidas. Seu acervo reúne fotografias de mobilizações do movimento negro, festas populares, blocos afro, afoxés, mercados, cenas urbanas, práticas religiosas, manifestações culturais e acontecimentos históricos, compondo uma narrativa visual ampla sobre a vida negra na Bahia e no Brasil.

Roberto Machado

Lázaro Roberto, Salvador, BA, 2006

Fotografia em gelatina de prata a partir de negativo em 35 mm

Zumví Arquivo Afro Fotográfico

LÁZARO ROBERTO

Lázaro Roberto é fotógrafo, formador e articulador cultural. Ao longo de sua trajetória, tem se dedicado à formação de novos fotógrafos e ao desenvolvimento de propostas educativas com fotografia, especialmente em escolas e espaços comunitários. Seu trabalho articula produção de imagem, educação e devolução: as fotografias não são pensadas apenas para museus ou arquivos institucionais, mas para circular, retornar às comunidades e gerar conversas. Exposições realizadas nos próprios locais fotografados, oficinas, encontros e materiais pedagógicos fazem parte dessa prática continuada.

Lázaro Roberto (Salvador, BA, 1958 – Vive em Salvador, BA)

Seu Nôca, mestre artesão de cestaria, Salvador, BA, 1994

Fotografia em gelatina de prata a partir de negativo em 35 mm

Zumví Arquivo Afro Fotográfico

O QUE SABE O CORPO QUE TRABALHA COM A MATÉRIA NO LUGAR ONDE SE ENCONTRAM?

Um homem agachado se inclina para baixo, mãos e pés moldam a trama que se forma. Diante dele, fibras vegetais se abrem em linhas radiais, ainda soltas, como se o objeto estivesse em estado de expansão a partir de um centro de gravidade. O gesto é preciso e econômico. As mãos seguram e ajustam as hastes, enquanto o peso do corpo ajuda a tensionar o trançado. Não há ferramentas visíveis além do próprio corpo. O balaio nasce no chão, em contato direto com a terra, num tempo que não é apressado nem interrompido. Aqui, a fotografia não opera como registro distante. Ela se aproxima do fazer, do saber em ação. O enquadramento privilegia a relação entre corpo, matéria e processo, mais do que o objeto acabado.

O homem retratado é Seu Nôca, balaieiro do Quilombo da Praia Grande da Ilha da Maré, comunidade quilombola localizada na Região Metropolitana de Salvador, território marcado por práticas de pesca, coleta de mariscos e produção artesanal destinada, entre outros circuitos, à Feira de São Joaquim. Na imagem, Seu Nôca não aparece como artesão isolado, mas como parte de um sistema coletivo de transmissão de saberes, em que aprender e fazer acontecem juntos, no corpo e no cotidiano.

Os balaios produzidos na Ilha da Maré integram um repertório amplo de objetos de uso social. São utensílios de trabalho,

transporte e troca, feitos para carregar peixes, mariscos, alimentos, carvão e frutas. Cada forma responde a uma função específica. O trançado, realizado com fibras vegetais como a taquara, exige conhecimento do material, do tempo de colheita, da flexibilidade correta, da resistência necessária ao uso diário. Trata-se de um saber técnico situado, construído na repetição do movimento e na observação atenta dos mais velhos. Mais do que um objeto utilitário, o balaio organiza relações. Ele conecta o trabalho ao território, a ilha à cidade, o fazer manual aos circuitos de circulação econômica. Também estrutura posturas do corpo, ritmos de trabalho e modos de estar junto. Ao apoiar os pés sobre o trançado em formação, Seu Nôca participa ativamente da construção da forma, usando o corpo inteiro como ferramenta e medida. Na imagem, o balaio ainda não está pronto. O que vemos é o processo, o intervalo, o tempo do fazer. A fotografia nos convida a olhar para o trabalho não como resultado final, mas como prática viva, em que memória, técnica e vida cotidiana se entrelaçam. Ao acompanhar o gesto de Seu Nôca, somos chamados a reconhecer o balaio como objeto social, portador de história, e como expressão de um conhecimento que se mantém vivo porque segue sendo praticado, compartilhado e reinventado no território.

Centenário de Chico Tomé, com sua esposa Ana à esquerda, Bom Jesus da Lapa, BA, 1994

Fotografia em gelatina de prata a partir de negativo em 35 mm Zumví Arquivo Afro Fotográfico

Lázaro Roberto (Salvador, BA, 1958 – Vive em Salvador, BA)

QUE DURAÇÕES MARCAM OS NÚMEROS

EM UMA FESTA DE ANIVERSÁRIO?

A fotografia registra uma cena ao ar livre. No centro, um grande bolo retangular repousa sobre uma mesa simples. Quatro pessoas, duas mulheres e dois homens, aproximam-se para o mesmo ato: cortar o bolo juntos. As mãos se sobrepõem, os corpos se inclinam levemente para a frente, concentrados na ação compartilhada. Ao redor, muitas pessoas observam. Alguns sorriem, outros acompanham com atenção, criando um círculo de testemunhas.

O clima é de celebração, mas também de solenidade. O momento parece suspenso entre festa, rito e afirmação pública.

A imagem foi realizada por Lázaro Roberto, em 1994, no Quilombo do Rio das Rãs, zona rural de Bom Jesus da Lapa (BA). Feita em preto e branco, a fotografia reforça contrastes de luz e sombra, destacando os gestos e os rostos mais do que o ambiente ao fundo. O enquadramento aproxima o observador da cena, como se também estivesse entre os que assistem ao corte do bolo.

A comemoração marca o centenário de Chico Tomé, líder quilombola e figura central na memória local e regional. Mais do que um aniversário simbólico, o evento se configura como ato público de reconhecimento. O bolo, elemento associado à celebração íntima, ganha escala coletiva. Ele deixa de ser objeto doméstico e passa a operar como

dispositivo de memória compartilhada, reunindo diferentes gerações em torno de uma mesma narrativa.

Bom Jesus da Lapa, marcada por romarias, encontros populares e forte dimensão religiosa e política, aparece aqui como espaço de convergência. A fotografia evidencia o espaço público como local de celebração e de história. Não há palco elevado nem separação rígida entre protagonistas e público. A memória se constrói no mesmo nível do chão, entre pessoas que participam ativamente do acontecimento.

O gesto de cortar o bolo em conjunto é central. Ele exige coordenação, proximidade e acordo. Não é um ato individual, mas coletivo. As mãos unidas sugerem partilha, continuidade e responsabilidade comum pela memória que se celebra. Ao redor, a comunidade não apenas assiste, mas valida o gesto com sua presença. O olhar coletivo sustenta o acontecimento.

A fotografia de Lázaro Roberto não se limita a documentar uma festa. Ela revela como a memória de uma liderança negra se atualiza no presente, por meio de rituais cotidianos e acessíveis. O centenário de Chico Tomé emerge como momento em que história, afeto e política se entrelaçam. O bolo, o corte, o público e o espaço urbano formam um conjunto que transforma a comemoração em ato de afirmação coletiva, inscrito no tempo e no território.

Lázaro Roberto (Salvador, BA, 1958 – Vive em Salvador, BA)

Mãe Hilda Jitolu na saída do bloco afro Ilê

Aiyê, Salvador, BA, 1992

Fotografia em gelatina de prata a partir de negativo em 35 mm

Zumví Arquivo

Afro Fotográfico

O QUE UM CORPO EM MEIO À MULTIDÃO SUSTENTA QUANDO CARREGA, AO MESMO TEMPO, FESTA, FÉ E HISTÓRIA DE UMA COMUNIDADE INTEIRA?

A fotografia mostra uma mulher idosa posicionada no centro da cena. Ela está em pé, com postura firme, olhar sereno e direto, cercada por adultos e crianças. Todas as pessoas vestem tecidos estampados, alguns com inscrições gráficas, panos de cabeça e adereços que indicam participação em um cortejo coletivo.

A multidão se organiza em camadas, mas o enquadramento faz com que essa mulher permaneça como eixo visual da imagem. Não há gesto expansivo nem movimento dramático. O que se impõe é a presença.

A imagem feita por Lázaro Roberto em 1992, na cidade de Salvador, é um registro em preto e branco que acentua contrastes e destaca texturas dos tecidos, expressões dos rostos e a densidade da cena coletiva, evitando qualquer distração cromática.

A mulher ao centro é Mãe Hilda Jitolu, liderança espiritual, educadora e uma das fundadoras do Ilê Aiyê, o primeiro bloco afro do Brasil. Aqui, ela aparece na saída do bloco, momento de transição entre o espaço da preparação e o espaço público da rua, onde o corpo coletivo se apresenta, ocupa e afirma sua existência.

O Ilê Aiyê não se configura apenas como manifestação carnavalesca. Ele articula estética, política, educação e espiritualidade. Seus desfiles afirmam identidades negras, reconstroem narrativas históricas e produzem pertencimento. A presença de Mãe Hilda nessa cena não é decorativa nem simbólica no sentido abstrato. Ela encarna a base ética e espiritual que sustenta o bloco. Seu corpo não conduz o movimento à frente, mas ancora o sentido do que se move.

A imagem revela diferentes gerações reunidas: crianças, jovens, adultos. Os tecidos estampados funcionam como signos de pertencimento, quase como uma escrita coletiva vestida no corpo. O espaço urbano se transforma em território ritual. A rua deixa de ser apenas lugar de passagem e se converte em espaço de afirmação cultural, memória e continuidade. Destaca‑se na fotografia uma forma de liderança que não se impõe pelo gesto grandioso, mas pela constância de Mãe Hilda Jitolu e sua presença, que sustenta, observa e acompanha. A multidão se organiza ao redor dela não por hierarquia visível, mas por reconhecimento. A imagem nos convida a perceber como festa, espiritualidade e política se entrelaçam no cotidiano, e como certos corpos carregam, em silêncio, a responsabilidade de manter viva uma história coletiva. Nas roupas dos participantes aparecem frases como “orgulho de ser negro” e “Azânia”, que explicitam a dimensão política da cena. Em 1992, ano da fotografia, o tema do desfile do Ilê Aiyê era “Azânia”, em homenagem a Nelson Mandela. O termo, de origem banto, foi usado por movimentos negros sul-africanos durante o Apartheid (regime institucionalizado de segregação racial na África do Sul vigente entre 1948 e 1994), como nome alternativo para o país, em oposição à designação colonial “África do Sul”. Ao incorporar essa palavra em seu desfile e nas estampas criadas pelo artista Jota Cunha, o Ilê Aiyê transforma o próprio corpo coletivo do bloco em superfície de afirmação identitária e solidariedade internacional.

O QUE FAZEMOS

QUANDO ENCONTRAMOS

UMA IMAGEM?

Ver junto é uma prática fundamental da mediação cultural e do cotidiano compartilhado de comunidades de todos os tipos. Antes de interpretar, explicar ou contextualizar, ver junto implica compartilhar o tempo do olhar, aceitar a presença do outro e reconhecer que a imagem não se esgota em um único sentido. Essa fotografia nos coloca exatamente neste lugar: pessoas reunidas diante de imagens, conversando, reconhecendo-se, produzindo sentido coletivamente. A imagem acontece no encontro. A trajetória de Lázaro Roberto e do arquivo Zumví é exemplar nesse sentido. Desde sua criação, o Zumví se constrói como prática de olhar comprometida com a vida negra na Bahia, com a formação de novos fotógrafos e com o uso da fotografia como ferramenta de educação, memória e ação política. Oficinas em escolas, propostas pedagógicas com imagens, criação de materiais educativos e capas de cadernos, além de exposições realizadas nos próprios territórios fotografados, fazem parte de um mesmo entendimento: a fotografia ganha potência quando circula, retorna e cria conversa com quem participa da história registrada. Expor as imagens nos lugares onde foram feitas é um gesto de devolução e reconhecimento. As fotografias não pertencem apenas ao arquivo ou à instituição, mas às pessoas, às comunidades e às relações que tornaram possível sua existência. Ao acompanhar essa trajetória, estudantes e professores podem compreender o arquivo como algo vivo, em constante construção, e não como um conjunto fechado de documentos.

Quando encontramos uma imagem do Zumví, algumas perguntas podem orientar o olhar: “Quem olha quem nessa fotografia?”, “De onde parte o olhar?”, “Que vínculos existem entre quem fotografa e quem é fotografado?”, “Que histórias atravessam a imagem e continuam para além do enquadramento?”. Essas questões ajudam a compreender a fotografia como linguagem, como gesto e como posição no mundo. No campo do ensino, essas imagens abrem múltiplas possibilidades de trabalho articuladas à BNCC. Em Artes, permitem desenvolver habilidades relacionadas à leitura, análise e produção de imagens, abordando elementos da linguagem visual, autoria, circulação e usos sociais da fotografia (como as habilidades do componente Artes no Ensino Fundamental, voltadas à apreciação, contextualização e criação). Em História, contribuem para o estudo das lutas do movimento negro, da formação de comunidades, das experiências urbanas e das disputas por direitos, dialogando com habilidades relacionadas à diversidade cultural, à memória e às múltiplas narrativas históricas. Em Geografia, as fotografias possibilitam analisar territórios, paisagens, modos de vida, economia popular

e ocupação do espaço urbano. Em Sociologia e em projetos interdisciplinares, o Zumví favorece discussões sobre identidade, racismo estrutural, organização política, cultura e pertencimento.

De forma transversal, as obras dialogam com Competências Gerais da BNCC, especialmente aquelas relacionadas ao pensamento crítico, ao exercício da empatia e do diálogo, à compreensão da cultura digital e dos processos de produção e circulação de imagens.

Na mediação cultural, trabalhar com o Zumví é criar condições para perguntas abertas, escutas atentas e produções autorais. As imagens convidam estudantes a pesquisar arquivos familiares e comunitários, a produzir fotografias a partir de seus próprios contextos e a refletir sobre a importância de preservar memórias locais. A fotografia aparece, assim, como gesto de afirmação, cuidado e construção de narrativas próprias.

Ver junto essas imagens pode ser a chance de aceitar o convite para aprender com elas sobre nós e sobre o lugar onde vivemos, tensionar versões únicas da história que conhecemos e fortalecer práticas educativas comprometidas com a diversidade, a escuta e a construção coletiva do saber.

Lázaro Roberto (Salvador, BA, 1958 – Vive em Salvador, BA) Exposição do Zumví O negro e seu trabalho na Feira de São Joaquim, na fachada do Sindicato dos Arrumadores, Salvador, BA, 1992 Fotografia em gelatina de prata a partir de negativo em 35 mm Zumví Arquivo Afro Fotográfico

ENTRE CADERNOS E MOSTRAS: IMAGEM,

TERRITÓRIO

E

PERTENCIMENTO

NA ESCOLA

Na escola, os espaços de circulação de imagens e de visibilidade cumprem um papel formativo decisivo. Exposições de trabalhos, mostras de processos, painéis coletivos, varais de produções e apresentações públicas de pesquisas criam situações em que os estudantes se veem, se reconhecem e são reconhecidos em seus processos de aprendizagem e circulação social. Esses dispositivos tornam visível que aprender também é expor percursos, compartilhar olhares e construir sentido em comum.

A prática de Lázaro Roberto como fotógrafo e educador pode inspirar e trazer referências importantes para pensar os dispositivos de visibilidade e circulação de imagens na escola, uma vez que seu trabalho se constrói por meio de propostas situadas nos territórios, em diálogo com comunidades, festas, mercados, ruas e escolas. As mostras e exposições que realiza, muitas vezes em espaços públicos, acessíveis e não institucionalizados, onde ele previamente realizou suas fotografias e conviveu com as pessoas fotografadas, funcionam como ações educativas em si. Na imagem, vemos uma exposição organizada em contexto comunitário na Feira de São Joaquim, ocupando o espaço de circulação das pessoas, criando encontro, conversa e reconhecimento. A mostra não separa quem produz de quem vê; ela afirma a imagem como relação viva com o território.

Inspirada nas práticas e ideias de Lázaro Roberto e nesse modo de pensar a imagem como algo que nasce do encontro e retorna a ele, a proposta pedagógica aqui apresentada desloca o olhar para um objeto cotidiano da escola: o caderno. Um dos projetos do artista parte do entendimento de que, no cotidiano escolar, as capas de caderno integram esse mesmo campo de circulação cotidiana de imagens, acompanhando os alunos dentro e fora da escola por ciclos anuais.

Uma das atividades de criação que integra as propostas do artista é a possibilidade de realizar oficinas e aulas em que seja possível substituir as capas padronizadas, geralmente ocupadas por celebridades, personagens animados ou imagens da indústria cultural, por fotografias dos próprios estudantes, realizadas no contexto da escola e do território em que vivem. A escolha da imagem passa a operar como dispositivo pedagógico, simbólico e político.

Os retratos podem ser individuais ou coletivos, feitos com cuidado, tempo, conversa e escuta: corpos conhecidos, olhares, gestos, modos de estar. Ao circular diariamente com um caderno cuja capa traz sua própria imagem ou a de alguém da comunidade escolar, o estudante se reconhece como parte de uma comunidade, sujeito de visibilidade e memória.

A capa do caderno, assim como as exposições escolares, torna se espaço de afirmação intencional e pública, deslocando hierarquias visuais e valorizando as presenças que constituem a vida escolar. Com o tempo, esses cadernos formam um conjunto, uma coleção, que pode funcionar como arquivo vivo da escola, feito de trajetórias, relações e experiências. A proposta articula exposição, imagem e cotidiano, transformando um objeto simples em campo de reconhecimento, pertencimento e educação do olhar.

REFERÊNCIAS E RECURSOS DE APOIO

Sobre a exposição:

Acesse conteúdos sobre a exposição, com textos e imagens selecionados.

Site Zumví Arquivo

Afro Fotográfico:

Podcast Zumví:

Canal do Zumví Arquivo Afro Fotográfico, com entrevistas e conversas com convidados sobre arte, cultura e sociedade.

Revista ZUM:

Texto “Arquivo Zumví guarda a memória da cultura e dos movimentos negros baianos desde os anos 1970”, publicado em 29 de novembro de 2019.

Revista ZUM:

Texto “Força negra”, de Denise Camargo, publicado em 7 de junho de 2022.

Estética negra:

Pesquisa sobre a fotografia de Lázaro Roberto, por Elson de Assis Rabelo (em espanhol).

Podcast Gargalheira:

Episódio com Lázaro Roberto, criado pelos professores Kleber Amancio e Matheus Gato.

Documentário Acervo ZUMVÍ — O levante da memória (2020), dirigido por Iris de Oliveira:

Recursos de acessibilidade:

Audiodescrições, locuções e videolibras.

CRÉDITOS

Walther Moreira Salles (1912–2001) – Fundador

Conselho de administração

Jackson Schneider, Janaina Damaceno, Luiza Teixeira de Freitas, Matinas Suzuki Jr. (Presidente), Milene

Chiovatto, Pedro Moreira

Salles e Tadeu Chiarelli

Diretoria artística João Fernandes

Diretoria de educação

Renata Bittencourt

Diretoria executiva

Jânio Francisco

Ferrugem Gomes

Diretoria-geral Marcelo

Mattos Araujo

Cadernos de mediação cultural

Área de Educação IMS

Organização Renata Bittencourt

Concepção, pesquisa e textos

Valquíria Prates e Janis Clémen

Produção editorial Núcleo Editorial IMS

Projeto gráfico Estúdio Daó (Giovani Castelucci e Guilherme Vieira)

Revisão de textos Livia

Azevedo Lima

Digitalização e tratamento de imagens Núcleo Digital IMS e Pigma

Acessibilidade Victória Oliveira

Audiodescrição Sentindo os Sentidos (roteiro: Claudia Guarnieri, consultoria: Lara Souto, locução: Layana Cattoni)

Libras AHU — Acessibilidade Humanista Ltda.

Esta publicação foi impressa pela gráfica Pigma em março de 2026 sobre papel Ofsete 120 g/m² e utiliza a fonte Mona Sans, de Deni Anggara.

Este material é distribuído gratuitamente. Não pode ser comercializado.

Tiragem 2.000 exemplares impressos.

ISBN 978-65-88251-42-3

Eu espero que minha fotografia sirva para isso, para dentro das escolas, para se trabalhar com educação, para ser referencial de dentro dessa luta, que por parte do Movimento Negro já tem 40 anos. E, antes, nós não tínhamos muitos referenciais, né? Por incrível que pareça, a fotografia ainda é uma coisa muito nova na vida do povo preto, no sentido de que estamos fazendo memória.

— LÁZARO ROBERTO

CADERNOS

DE MEDIAÇÃO

CULTURAL

Os cadernos têm o objetivo de provocar o pensamento sobre questões contemporâneas das artes, da cultura e da sociedade, incentivando a presença da imagem na sala de aula como campo de leitura, reflexão crítica e criação. Voltados a processos dialógicos, os cadernos apoiam professores, educadores e mediadores culturais em práticas formativas, podendo ser usados como recurso acessível em contextos de mediação cultural.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Caderno de mediação cultural | Exposição "Zumví Arquivo Afro Fotográfico" by Instituto Moreira Salles - Issuu