Skip to main content

Hoje Macau 6 OUT 2017 #3909

Page 1

MOP$10

SEXTA-FEIRA 6 DE OUTUBRO DE 2017 • ANO XVII • Nº 3910 PUB

hojemacau

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

TIAGO ALCÂNTARA

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

Os dados não estão lançados

LANTERNAS DE HOJE EVENTOS

CHAN WAI CHI

Chefe devia ter nomeado portugueses para a AL PÁGINA 4

KIANG WU

Negócios na baixa PÁGINA 5

SÉNIORES

Aprender, aprender, aprender sempre PÁGINA 8 PUB

www.hojemacau.com.mo•facebook/hojemacau•twitter/hojemacau

JOGO RENOVAÇÃO DAS LICENÇAS MARCARÁ LEGISLATURA

Na sequência das eleições, saíram da Assembleia Legislativa deputados ligados ao Jogo, mas os interesses dos casinos não deixam por isso de ali estar bem defendidos. Em véspera das renovações dos contratos, muitos defendem que este vai ser a o tema quente da legislatura. GRANDE PLANO

CASO MINISTÉRIO PÚBLICO PEDE ABSOLVIÇÃO DE JOÃO TIAGO MARTINS

PÁGINA 10


2 grande plano

C

OM as concessões das operadoras de jogo a expirarem entre 2020 e 2022, espera-se que o futuro da indústria seja um dos temas mais presentes na Assembleia Legislativa, ao longo dos próximos quatro anos. As saídas de deputados ligados ao casinos, como Chan Meng Kam, Melinda Chan ou Fong Chi Keong, e a entrada de legisladores mais próximos dos trabalhadores, como Leong Sun Iok, Sulu Sou ou Agnes Lam, fazem antever um maior equilíbrio entre as diferentes vozes.

JOGO

UMA CASA MAIS SECTOR COM MENOS DEPUTADOS, MAS COM O MESMO PODER

GCS

O futuro da indústria do jogo vai ser um dos grandes temas da próxima Legislatura. As saídas de deputados associados ao casinos e as entradas de Sulu Sou, Leong Sun Iok e Agnes Lam abrem o espaço para uma maior representação do sector laboral. Contudo, o espectro de uma mudança com tradução nas grandes decisões está longe do hemiciclo.

6.10.2017 sexta-feira

Neste cenário seria de antever também um maior equilíbrio na altura de tomar as decisões. Porém, não é esse o entendimento dos analistas ouvidos pelo HM, apesar de admitirem a existência de uma maior pluralidade no hemiciclo. “Os debates sobre o jogo vão ser mais diversificados e acredito que vamos ouvir mais opiniões contrárias, mesmo dentro da indústria. As opiniões que defendem mais direitos para os trabalhadores vão ser mais constantes porque os deputados já não se vão limitar a defender os interesses das operadoras, como aconteceu no passado”, disse Larry So, académico, ontem, ao HM. O académico explicou esperar que o número dois da lista apoiada pela Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), Leong Sun Iok, seja uma das vozes

pró-trabalhadoras mais activas. O futuro deputado é o responsável na FAOM por lidar com as queixas apresentadas pelos empregados do sector. “Só que não creio que a maior pluralidade vá limitar a capacidade

“Os donos dos casinos vão ser menos ouvidos. No entanto, Chan Meng Kam continua a ser membro do Conselho do Executivo, que é um órgão muito mais importante do que a AL” BILL CHOU ACTIVISTA E ACADÉMICO

de expressão dos interesses ligados aos patrões do jogo. Podemos olhar para a saída de Melinda Chan [derrotada nas eleições]. Contudo permanecem no hemiciclo deputados ligados a esses interesses, como Angela Leong”, sublinhou.

VIA DIRECTA PARA PEQUIM

Também Bill Chou, académico e activista político, acredita que as vozes dos donos dos casinos vão ter menos tempo na AL. Porém, recusa encarar esse facto como uma perda de poder para os interesses do jogo. “Não há dúvidas que têm menos deputados. Mas é preciso não esquecer que os patrões mais poderosos da indústria são as concessionárias. E algumas delas têm contactos directos com Pequim”, afirmou Bill Chou. “Os donos dos casinos vão ser menos ouvidos. No entanto, por

exemplo, Chan Meng Kam continua a ser membro do Conselho do Executivo, que é um órgão muito mais importante do que a AL”, frisou. Por sua vez, Johnson Ian, candidato não-eleito da lista Sinergia de Macau, liderada por Ron Lam, defende que a situação não vai

“Não tenho expectativas sobre ele [Davis Fong]. O centro de pesquisa que lidera na Universidade de Macau está dependente do financiamento dos casinos” BILL CHOU ACTIVISTA E ACADÉMICO


grande plano 3

sexta-feira 6.10.2017

SOFIA MARGARIDA MOTA

DIVIDIDA

“Estamos numa fase em que as empresas de jogo cresceram muito e estão disponíveis para fazer o que o Governo lhes pedem. Mas acredito que a situação vai mudar”, anteviu Johnson Ian, “Quando se começar a definir o futuro modelo do jogo, com as discussões de impostos e o possível aumento do número de concessões para sete ou oito, o debate vai ser muito intenso. Nessa altura, as vozes da indústria vão ser mais activas na tentativa de pressionar o Governo e pedirem o mesmo à sociedade”, complementou.

“Quando se começar a definir o futuro modelo do jogo, com as discussões de impostos e o possível aumento do número de concessões para sete ou oito, o debate vai ser muito intenso. Nessa altura, as vozes da indústria vão ser mais activas na tentativa de pressionar o Governo” JOHNSON IAN EX-CANDIDATO À AL

sofrer grandes alterações. “Conto cerca de 10 deputados que têm ligações à indústria do jogo. Angela Leong, Zheng Anting, Vong Hin Fai, Chan Chak Mo, Davis Fong, Vitor Cheung são alguns deles. Os interesses da indústria continuam a estar muito bem representados entre deputados, quer sejam eleitos de forma directa, indirecta ou nomeados”, começou por dizer o ex-jornalista. “Sulu Sou e Leong Sun Iok podem ter um papel muito importante nas reivindicações laborais, porque sempre tiveram essa postura de pedir às operadoras para que assumam responsabilidades sociais maiores. Mas no essencial não creio que haja uma grande alteração nos equilíbrios na AL”, acrescentou. Por outro lado, Bill Chou defende que Agnes Lam vai colar-se

ao interesses dos casinos durante os debates, fazendo com que não se assuma como uma voz próxima do sector laboral: “Ela não é independente e nunca expressa opiniões que causem danos aos grandes negócios”, acusou. O activista realçou igualmente as limitações de Sulu Sou: “não foi eleito com os votos das associações laborais. Acredito que esse facto vai fazer com que acabe por não ter muito impacto, apesar das reivindicações que vai fazer”, frisou.

JOGO EM DISCUSSÃO

No que ninguém tem dúvidas é que a discussão do futuro do jogo vai ser um dos grandes temas da VI Legislatura, que se inicia a 16 de Outubro. Um assunto que vai ter um enorme impacto no futuro de Macau, dada a dependência económica face ao sector.

Larry So, que partilha a opinião de Johnson Ian, também espera que o tema comece verdadeiramente a ser debatido quando se souberem as condições para a atribuição das licenças. “Vai ser o grande tema e desafio da Legislatura. O Governo está neste momento a olhar para o processo [renovação das licenças], e qualquer movimentação na indústria pode ter um impacto no futuro do jogo. Por isso, nesta fase, estão todos à espera para ver quais são as condições”, apontou. Existem actualmente três concessões atribuídas a Sociedade de Jogos de Macau, Galaxy e Wynn Resorts, além das três subconcessionárias: Venetian Macau, MGM e Melco. A primeira concessão a expirar é a da SJM, em 2020, sendo que as outras vão expirando progressivamente até 2022. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo

O DILEMA DE ANGELA LEONG

A

PESAR de ter sido eleita com 10.447 votos, as opiniões de Angela Leong sobre a indústria do jogo podem facilmente transformar-se num calcanhar d’Aquiles. Antes das eleições, vários analistas acreditavam que a quarta mulher de Stanley Ho ia eleger dois deputados, devido ao apoio de William Kuan. Só que a eleição do segundo candidato ficou longe e a perda do apoio laboral pode colocar a directora executiva da SJM numa situação complicada. “Em muitos assuntos ela vai ter de ficar no meio da estrada, principalmente quando estivermos mais perto da altura das eleições. Nessa fase ela não pode ser colada a medidas que prejudiquem os interesses dos trabalhadores”, afirmou Larry So. “Por outro lado, ela não tem interesse em ver as licenças serem renovadas com condições prejudiciais para os lucros das operadoras. Vai ter de ser muito inteligente na forma como vai abordar estes assuntos”, defendeu So.

Bill Chou acredita que o espectro de Melinda Chan vai mesmo pairar sobre Angela Leong. A mulher de David Chow falhou a eleição para deputada, e alguns dos apoiantes explicaram o insucesso com a incapacidade para mobilizar os trabalhadores do grupo liderado pelo marido. “O exemplo de Melinda Chan vai estar presente na mente de Angela Leong. Por outro lado, ela também nunca utilizou muito a AL para defender os interesses dos casinos. Percebe que os contactos directos com o Governo e com Pequim são mais importantes”, sublinhou. Johnson Ian explica as dificuldades com uma mudança nos eleitores: “Antes, os empregados do jogo tinham menos opções de voto. E os trabalhadores da SJM confiavam muito em Angela Leong. Só que essa situação mudou”, explicou. “A deslocação do votos dos empregados do jogo para listas não ligadas aos seus patrões é uma tendência que se vai acentuar”, acrescentou.

A INCÓGNITA DAVIS FONG

A

CADÉMICO especializado na indústria do jogo, Davis Fong é a grande incógnita da futura legislatura. Entre as opiniões interessadas ligadas a proprietários de casinos e à força laboral, Davis Fong pode assumir-se como um homem capaz de construir consensos com opiniões mais académicas. Contudo, como nomeado pelo Chefe do Executivo, vai ter dificuldades para se descolar da imagem de voz do Governo, caso tenha essa ambição. “Não acredito que vá trazer para a sociedade novas ideias para o sector do jogo. Está lá para ‘moderar’ o debate sobre as licenças e, como nomeado pelo Governo, vai reflectir as opiniões do Executivo”, disse Johnson Ian, que revela ter poucas esperanças face ao deputado, em termos de um novo discurso. Enquanto académico, Davis Fong esteve à frente do estudo

intercalar sobre o sector do jogo, publicado no ano passado e encomendado pelo Governo. Larry So considera que os resultados do estudo vão orientar a actuação do futuro deputado: “O estudo vai ser uma referência para a sua actuação. Mas está lá para defender as posições do Governo, por isso não espero que tenha opiniões muito próximas do sector laboral”, considerou. Bill Chou foi o que se mostrou mais pessimista face ao deputado nomeado, recordando o percurso de Davis Fong, que é o director do Instituto para o Estudo do Jogo Comercial, da Universidade de Macau. “Não tenho expectativas sobre ele. O centro de pesquisa que lidera na Universidade de Macau está dependente do financiamento dos casinos”, começou por dizer. “Portanto, não acredito que com ele aumente o número de deputados a falar em nome dos trabalhadores do sector”, frisou.


4 política

6.10.2017 sexta-feira

ASSEMBLEIA PAUL CHAN WAI CHI DEFENDE NOMEAÇÃO DE DEPUTADOS PORTUGUESES

Representatividade coxa

Paul Chan Wai Chi, ex-deputado e candidato nas últimas eleições, considera que o Chefe do Executivo deveria ter nomeado, pelo menos, um deputado português, por memória à Declaração Conjunta

O

antigo deputado e número dois de Sou Ka Hou nas últimas eleições considera que Chui Sai On falhou na escolha dos sete deputados nomeados para a Assembleia Legislativa (AL), pelo facto de não ter escolhido um membro da comunidade portuguesa ou macaense. Em declarações ao HM, Paul Chan Wai Chi defendeu a existência de deputados portugueses nomeados no hemiciclo, lembrando que a assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa, em 1987, previa a participação de portugueses no meio político local. O também dirigente da Associação Novo Macau apontou que, desde a transferência de soberania de Macau para a China, o número de deputados portugueses tem vindo a diminuir, sendo que, na próxima legislatura, que arranca a 15 de Outubro, não haverá qualquer deputado nomeado de nacionalidade portuguesa. Quanto a este ponto, Paul Chan Wai Chi confessou sentir-se desiludido e questiona se, caso o Governo e o próprio Governo Central afastem a necessidade de nomeação de deputados de origem portuguesa, será possível reduzir o número de nomeados e aumentar os assentos eleitos pela via directa. O último deputado nomeado português nomeado ou de origem macaense foi o advogado Philip Xavier, que cessou funções em 2009. Nomes como o de José Manuel Rodrigues ou de José Manuel Baptista Leão chegaram a sentar-se no hemiciclo pela via da nomeação após 1999. Nas últimas eleições legislativas antes da transferência de soberania, o governador Vasco Rocha Vieira nomeou José João de Deus Rodrigues do Rosário, Raimundo Arrais do Rosário (actual secretário para os Transportes e Obras Públicas), Joaquim Morais Alves, Jorge Neto Valente, José Manuel de Oliveira Rodrigues, António José Félix Pontes e o advogado Rui Afonso.

SEM REPRESENTATIVIDADE

O antigo deputado disse ainda duvidar da representatividade dos novos sete deputados nomeados porque, na sua visão, não repre-

sentam a diversidade de vozes que existe na sociedade. Sobre os futuros obstáculos do hemiciclo, Paul Chan Wai lembra a saída de deputados com muita

Paul Chan Wai Chi lembra que a assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa, em 1987, previa a participação de portugueses no meio político local

experiência, como é o caso de Leonel Alves ou Kwan Tsui Hang, o que vai obrigar a um maior esforço nos trabalhos de produção e análise de leis.

ELEIÇÕES EM DEBATE

No próximo dia 15 de Outubro terá lugar, em Macau, um debate sobre as últimas eleições legislativas, que conta com organização do Jornal Observatório de Macau, dirigido por Paul Chan Wai Chi. O evento terá lugar no Centro Pastoral Diocesano da Juventude em Macau e terá a presença de três oradores, um deles de Hong Kong. Trata-se de Chan Chi Wang, docente da Universidade de Hong

Kong que é também residente de Macau. Paul Chan Wai Chi espera que possam ser analisados aspectos como as insuficiências verificadas nas últimas eleições, a alteração da lei eleitoral, a reforma do sistema político e o aumento do número de deputados eleitos pela via directa na AL. Chan Wai Chi espera que, com a presença do docente de Hong Kong, poder-se-á discutir os sistemas políticos das duas regiões administrativas especiais, analisar diferenças e avançar com sugestões para o futuro. Vítor Ng

victor.ng@hojemacau.com.mo

FONG SOI KUN ALIANÇA DO POVO FALA DE IRREGULARIDADES TARDIAS

A

S irregularidades detectadas no pedido de reforma do ex-director dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG), Fong Soi Kun, deveriam ter sido descobertas mais cedo. A ideia foi deixada pelo presidente da Associação Aliança de Povo de Instituição de Macau, Lei Leong Wong, ao jornal Ou Mun. O responsável mostra-se insatisfeito com o decorrer do processo de pedido de reforma ligado ao ex-responsável pelos SMG e justifica a situação com a falta de conhecimento jurídico por parte dos funcionários públicos. Lei Leong Wong lamenta que, apesar do processo ter passado por vários departamentos públicos, não tenham sido detectadas as suas falhas legais. Para o presidente da Aliança do Povo, o facto de que ninguém tenha assinalado que o processo de pedido de reforma de Fong Soi Kun não reunia os requisitos necessários levanta questões de fundo relacionadas com a formação dos próprios funcionários no que respeita ao conhecimento, compreensão e aplicação das leis. No entender do responsável, só há uma solução, que passa pela implementação de mais formação na área. Lei Leong Wong adiantou ainda que, de acordo com o Estatuto dos Trabalhadores da Administração Pública de Macau, as regras estão bem esclarecidas no que respeita às condições necessárias para dar seguimento a pedidos de reforma na Função Pública, pelo que considera “irracional” o que se passou com o processo de Fong Soi Kun. Ao mesmo tempo que pede que o Governo implemente acções de formação jurídica aos quadros da função pública, Lei Leong Wong exige também que o Executivo reveja o sistema de responsabilização dos seus funcionários.


política 5

PORTAS DO CERCO GOVERNO DEVE SIMPLIFICAR PROCEDIMENTOS ADMINISTRATIVOS

TIAGO ALCÂNTARA

sexta-feira 6.10.2017

O

terminal de autocarros das Portas do Cerco, o mais movimentado do território, deve ver agilizados os procedimentos para uma rápida reconstrução. A deputada reeleita por via indirecta no passado dia 17 de Setembro, Chan Hong, pede ao Governo para facilitar os procedimentos administrativos de modo a facilitar as obras a que vai ser sujeita a infra-estrutura, depois dos estragos causados pela passagem do tufão Hato. O terminal tem sido alvo de queixas de vária ordem, mesmo quando estava em funcionamento. Em causa, recorda a deputada, estavam as más condições de funcionamento ligadas ao precário sistema de ventilação e à falta de luz. Agora fechado o recinto para obras, as condições de circulação dos passageiros que têm de apanhar autocarros naquela área são mesmo perigosas, considera Chan Hong. Em causa está o grande fluxo de passageiros que, dados os condicionamentos à circulação de autocarros, coloca em perigo a circulação dos mais jovens e de idosos. “As condições são muito más para os passageiros e existe risco de segurança para estudantes na zona, assim como para os idosos e outros grupos vulneráveis da população”, refere. A deputada queixa-se ainda, em interpelação escrita, que o estudo sobre o plano conceptual urbanístico da zona das Portas do Cerco e envolvente, concluído em 2012, ainda não foi concretizado em nenhuma das suas vertentes. Dada a urgência da situação, Chan Hong considera que as obras a terem lugar no terminal devem ser concluídas o mais rapidamente possível e para o efeito pede ao Executivo que simplifique os procedimentos administrativos necessários. Entretanto, a deputada sugere ainda que o Governo utilize um terreno situado entre a Avenida do Comendador Ho Yin e a Rua dos Currais para albergar um espaço temporário de paragem de autocarros. V.N.

KIANG WU ASSOCIAÇÃO VAI CONSTRUIR EDIFÍCIO COM CASAS E LOJAS

Soma e segue

O Governo autorizou a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu a juntar dois terrenos, na Rua de Camilo Pessanha, e transformar o espaço num edifício com seis pisos. O imóvel vai ser utilizado para a recolha de fundos para a associação

A

Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu garantiu a autorização necessária para anexar dois terrenos na Rua de Camilo Pessanha e construir um edifício com seis pisos para fins habitacionais e comerciais. A informação foi publicada em Boletim Oficial, com a associação presidida pelo deputado Tommy Lau a pagar 3,38 milhões de patacas, pela revisão do contrato de concessão dos terrenos. O edifício vai ser utilizado para arrecadar fundos para a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, o que supõe a venda ou arrendamento do mesmo. “Uma vez que o edifício a construir no terreno não se destina ao

seu uso [da associação], a mesma apresentou deliberação do órgão social competente a autorizar a prática do acto, o qual visa a recolha de fundos para a prossecução dos seus fins”, é explicado no despacho de Raimundo Rosário, que revelou a informação. Actualmente, a associação está na posse da concessão dos terrenos n.º 24 e n.º 26 na Rua de Camilo Pessanha, que têm 38 m2 e 39 m2,

respectivamente. Com a anexação, a área global passa a ser de 77m2. Segundo os planos apresentados, no novo edifício a área destinada a habitação é de 409 m2 e ao comércio de 57 m2. O prazo de reaproveitamento é de 36 meses, ou seja, três anos.

PRESIDENTE AUSENTE

O contrato de reaproveitamento do terreno em causa foi assinado por

Recorde-se que Chui Sai On desempenhou anteriormente o cargo de director executivo na Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu. Além disso, vários deputados fazem parte da direcção do Instituto de Enfermagem do Kiang Wu, que pertence à mesma associação.

Tommy Lau Veng Seng, no cargo de presidente da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, e Ho Weng Pio, na posição de vice-presidente. O HM entrou ontem em contacto com Tommy Lau para perceber melhor os detalhes do projecto, mas o ainda deputado não quis comentar o assunto através do telemóvel, por se encontrar no Interior do Continente. O reaproveitamento do terreno foi autorizado pelo Chefe do Executivo, Chui Sai On, a 8 de Maio deste ano, com base num parecer de Raimundo do Rosário, com a data de 10 de Abril. Antes disso, as alterações propostas já tinham recebido um parecer favorável da Comissão de Terras, a 30 de Março de 2017. Recorde-se que Chui Sai On desempenhou anteriormente o cargo de director executivo na Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu. Além disso, vários deputados fazem parte da direcção do Instituto de Enfermagem do Kiang Wu, que pertence à associação. Entre os legisladores em causa estão Tommy Lau, presidente, Dominic Sio, Fong Chi Keong, Vitor Cheung Lup Kwan e Chan Meng Kam. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo


6 publicidade

6.10.2017 sexta-feira


sociedade 7

sexta-feira 6.10.2017

O

Fórum Macau vai finalmente ter uma casa própria que ficará erguida daqui a 600 dias, bem junto ao edifício da Assembleia Legislativa.Ao HM, o arquitecto Carlos Marreiros levanta a ponta do véu de um projecto cheio de complexidades por ultrapassar. “O projecto está pronto. É só acertar os pormenores, porque até o orçamento está pronto. Temos, naturalmente, de ver que um projecto é sempre um livro aberto até ao fim.” O edifício será “muito simples, funcional, sem arestas” e será erguido tendo como pano de fundo a ideia por detrás da política nacional “Uma Faixa, Uma Rota”, fundamental nas relações culturais e económicas que a China quer estabelecer com os países de língua portuguesa. Neste âmbito, o Fórum Macau será a casa onde essas relações se materializam. Carlos Marreiros garante que o calendário será cumprido, apesar das dificuldades que o projecto acarreta, em grande parte associadas ao terreno onde será erguido o edifício. “Vai ser um esforço brutal. A obra é de grande

FÓRUM MACAU NOVO EDIFÍCIO SERÁ “FUNCIONAL, MUITO SIMPLES”

Uma faixa de betão

Carlos Marreiros será o arquitecto responsável pelo projecto do novo edifício do Fórum Macau, que será “muito simples, funcional, sem arestas”. A política “Uma Faixa, Uma Rota” dá o mote ao projecto, que tem “um problema funcional complexo” por resolver envergadura e tem dificuldades, porque é numa zona de aterro, tem uma cave. O edifício vai ter três andares e terá nove metros de altura. É um edifício baixo, mas vasto.”

“O problema funcional do edifício é muito complexo, com muitas regras de segurança. O edifício tem um programa muito exigente nesse sentido”, acrescentou Marreiros.

MARREIROS AFASTADO DO PROJECTO DO PALÁCIO SOMMER

C

arlos Marreiros assegurou ao HM que não será o arquitecto responsável pela renovação do Palácio Sommer, situado em Lisboa e recentemente adquirido pela Fundação Macau (FM). O arquitecto disse que chegou a ser convidado para participar como consultor ou colaborador, mas negou, por “não estar interessado”. “O projecto será desenvolvido por equipas portuguesas e faz todo o sentido que assim seja. Todo o projecto é feito lá”, contou Marreiros, que também faz parte do conselho de curadores da FM. O edifício foi comprado a Liu Chak Wan, empresário local que é, também, membro do mesmo conselho de curadores.

A Companhia de Construção e Engenharia Omas, ligada à família Ma, foi a vencedora do concurso público onde participaram um total de 12 candidatos. A proposta feita foi a quarta mais barata, no valor de 692,8 milhões de patacas. Carlos Marreiros vai trabalhar ao lado dos engenheiros José Silveirinha e Jorge Lipari Pinto e orgulha-se de estar inserido numa equipa cem por cento local. “A equipa é toda local e isso dá-me muita alegria, porque não é fácil concorrer com construtoras de grande dimensão, que Macau não tem. Participaram construtoras da República Popular da China com muita expe-

riência a nível internacional, mas nós fomos a equipa que ganhámos.

UM CONCURSO POLÉMICO

O concurso público para a construção da sede do Fórum

“A equipa é toda local e isso dá-me muita alegria, porque não é fácil concorrer com construtoras de grande dimensão, que Macau não tem.” CARLOS MARREIROS ARQUITECTO

Macau não foi pacífico, pois houve atrasos que originaram desigualdades no acesso ao concurso, sobretudo da parte de arquitectos portugueses. A tradução para português das cláusulas técnicas do concurso chegou um mês depois, além de que houve alterações do projecto a meio do processo. Confrontado com estas eventuais desigualdades, Carlos Marreiros lembrou que se tratam de situações “que não são agradáveis”, até porque ele próprio não lê chinês. Ainda assim, “hoje em dia temos de fazer um esforço”, assegura. “A língua chinesa é a língua oficial de Macau. As traduções demoram algum tempo mas as pessoas têm de ter a noção de que estão em Macau, RAEM da China. A língua principal é a chinesa”. “Houve algumas reclamações neste sentido, mas percebo que não é agradável. O tempo foi curto, mas como conseguimos responder, doze equipas também o fizeram”, frisou. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


8 sociedade

O

Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) adiantou ao deputado Mak Soi Kun que o edifício do mercado vermelho vai ser alvo de obras ainda este ano. “Em 2017 pretende-se efectuar um projecto de reparação de grande escala ao mercado. Deu-se já início ao respectivo estudo que engloba a instalação de elevadores dentro do mercado, do tipo de estrutura independente, além do aumento de equipamentos de electricidade, instalações livres de barreiras arquitectónicas e aparelhos de ar condicionado, entre outros. Tal vai melhorar a higiene ambiental do local”, lê-se na resposta à interpelação escrita do deputado. José Tavares, presidente do IACM, afirma ainda que já estão a ser feitos diálogos com o Instituto Cultural e “serviços competentes por obras”, “para encontrar o plano de tratamento mais adequado e elaborar, com a maior brevidade possível, um calendário concreto do respectivo plano, esperando que possa proporcionar aos cidadãos e comerciantes um ambiente de compras e negócios seguro e agradável, equipado com equipamentos modernos.” O presidente do conselho de administração do IACM acrescentou ainda que, desde 2015, “têm sido realizadas diversas obras de reparação básica, que abrangem a reparação da estrutura de lajes e aperfeiçoamento das instalações de drenagem exteriores”. Além disso, “foi concluída, no segundo semestre do ano de 2016, a recuperação das partes afectadas por ferrugem e infiltração de água”.

A Academia Sénior do Instituto Politécnico de Macau é a valência da instituição que se dedica ao ensino a estudantes com mais de 55 anos. O sucesso parece garantido com a satisfação de alunos e professores. A idade, ao invés de acarretar a paragem e o descanso, parece ser fonte de vida e interesse

A

sala estava cheia. As secretárias ocupadas pelos cerca de 30 alunos não tinham telemóveis. Os estudantes não se distraíam e, atentos, seguiam as palavras do professor. De vez em quando ouviam-se sorrisos, com uma ou outra piada. Todos com mais de 55 anos, são alunos do curso de caligrafia da Academia Sénior do Instituto Politécnico de Macau (IPM), um dos 29 cursos administrados pela instituição de ensino superior. Porque envelhecer não é parar, a opção pela continuação dos estudos é uma forma de permanecer activo, saudável e útil. “Devido ao envelhecimento da sociedade, há cada vez mais gente a querer permanecer activa e com saúde”, aponta Lei Kam Wa, professor de caligrafia. Já reformado, ocupa o tempo a ensinar os outros. Ex-trabalhador do Instituto para os Assuntos Cívicos e

AS RUGAS DO IPM NA ACADEMIA SÉNIOR, HÁ NOVAS VIDAS DEPOIS DA REFORMA

TIAGO ALCÂNTARA

MERCADO VERMELHO OBRAS DE RENOVAÇÃO ACONTECEM ESTE ANO

6.10.2017 sexta-feira

Municipais, desde pequeno que Wa gosta mesmo é de literatura chinesa e de se dedicar à arte da escrita de caracteres. Enquanto trabalhava, tirou vários cursos no continente. Tanto o professor como os alunos em nada devem à vitalidade. “O aluno mais jovem que tenho tem 55 anos”, diz, “mas a turma tem toda muita energia”. A matéria que lecciona é, considera, um conhecimento cada vez menos apreciado pelos jovens. No entanto, para os mais velhos soma candidaturas e é das áreas mais procuradas na Academia. “Como a caligrafia exige calma, os alunos sénior sentem-se melhor com a sua aprendizagem e encontram na escrita de caracteres uma forma de preservar a

sua saúde mental e de aumentar os seus conhecimentos, sem esquecer que é um assunto essencial na cultura chinesa”, afirma o professor. Por outro lado a aprendizagem destes alunos é rápida, talvez pelo interesse ser genuíno, considera. “Os idosos concentram-se melhor”, refere. Ao contrário

“Os mais novos têm muito boa memória e ficam logo com a matéria na cabeça, os idosos nem tanto, mas estudam muito” LEI KAM WA PROFESSOR DE CALIGRAFIA

dos alunos mais jovens que têm naturalmente melhor memória, os mais velhos, já numa outra etapa da vida, têm outro método: estudam. “Os mais novos têm muito boa memória e ficam logo com a matéria na cabeça, os idosos nem tanto, mas estudam muito”, sublinha o professor Lei Kam Wa. Esta é também a razão que leva o professor, depois de ter passado pelo ensino a crianças e jovens, a preferir ensinar séniores. O resultado é animador, existindo turmas nos cursos de quatro anos geralmente cheias. “Depois do curso, as notas são muito boas e alguns dos alunos acabam por prosseguir o seu trabalho com a realização de exposições inseridas em eventos colectivos,


sociedade 9

sexta-feira 6.10.2017

CONHECIMENTO

ACADEMIA PREMIADA

A

Academia do Cidadão Sénior do IPM existe desde Novembro de 1999 e tem como objectivo pôr em prática a ideia da formação para idosos. Existem hoje 29 cursos e actividades, para um total de 54 turmas, com 480 inscritos. Durante os últimos 14 anos, a Academia tem-se empenhado na troca de experiências com instituições de ensino similares no Continente, em Taiwan e em Hong Kong, a fim de aperfeiçoar os seus programas. Em 2009, realizou-se em Pequim a cerimónia de atribuição dos prémios nacionais de “Distinção de Instituições de Ensino para a Terceira Idade” em que a valência de ensino do IPM foi nomeada “Universidade Nacional da Terceira Idade”, enquanto o Presidente do Instituto, Lei Heong Iok recebeu o prémio de “Distinção na área da Educação Nacional para a Terceira Idade” e a directora da Academia, Lam Wan Mei foi nomeada “ Educadora Nacional da Terceira Idade”.

O voltar a estudar, já depois de uma vida de trabalho, não é tarefa complicada. “Estudei sempre, durante a vida, é uma coisa que gosto de fazer e se calhar é por isso que não considero os cursos muito difíceis”, refere.

“Tenho amigos que depois da reforma começaram a ficar muito confusos e que passam o tempo a dormir e a ver programas de televisão, parece que estão isolados da sociedade” KOU CHI KEONG ALUNO DO TERCEIRO ANO

e mesmo individuais”, diz o professor com orgulho.

ENSINO PARA TODOS OS GOSTOS

Os cursos da Academia permitem aos alunos escolher de entre um leque de disciplinas. Kou Chi Keong, tem 63 anos e está no terceiro ano. Aluno de caligrafia, frequenta ainda aulas de informática, desenho e massagem terapêutica. Nos dois anos anteriores, dedicou-se às aulas

de fotografia, medicina chinesa e de pintura ocidental. A ideia de voltar a estudar apareceu mal se reformou, há dois anos. “Felizmente fui um dos cerca de cem alunos que são anualmente sorteados para ingressar na Academia”, refere. Keong, não queria que lhe acontecesse o que via acontecer a alguns conhecidos da mesma idade. “Tenho amigos que depois da

reforma começaram a ficar muito confusos e que passam o tempo a dormir e a ver programas de televisão, parece que estão isolados da sociedade”, lamenta. O caso de Kou Chi Keong é o inverso. “Além de estar sempre a aprender, conheço ainda outras pessoas. A Academia organiza também algumas excursões e acabamos por viajar juntos”, explica.

No final do curso, Kou pretende continuar a aprofundar conhecimentos, o que já faz com o que aprendeu nos últimos dois anos. “Estudei fotografia e agora ando sempre com a câmara, estudei pintura e vou muitas vezes para a rua desenhar”, ilustra, satisfeito. O mesmo acontece com o erhu, instrumento tradicional chinês, que toca quando se junta com os amigos.

O erhu é também o instrumento que Alice Lao, de 65 anos estudou e continua a tocar com a orquestra sénior do IPM. Alice Lao já terminou os quatro anos de curso, mas não conseguiu deixar a Academia. Passou pelo Tai Chi e acabou por continuar na música. O que aprendeu e a continuidade no agrupamento permite-lhe agora continuar a participar nos espectáculos dados pela orquestra tanto em espaços públicos como enquanto animação de instituições de solidariedade social. Sofia Margarida Mota com Vitor Ng info@hojemacau.com.mo


10 sociedade

6.10.2017 sexta-feira

Rumo à Europa de Leste

PEDOFILIA MP PEDE ABSOLVIÇÃO DE JOÃO TIAGO MARTINS

6.ª edição do Fórum de Economia de Turismo Global de Macau, que decorre nos dias 16 e 17, vai incidir na cooperação com 16 países da Europa Central e de Leste, que estarão representados a nível ministerial. A edição deste ano será subordinada ao tema “Colaboração Regional para um Futuro Melhor” e além de se centrar sobre a iniciativa chinesa “Uma Faixa, Uma Rota”, vai focar-se na chamada cooperação “16+1”, que inclui 16 países da Europa central e de leste e a província chinesa de Guizhou. “Com o forte crescimento do número de visitantes chineses aos países da Europa Central e de Leste nos últimos anos, a China e estes países criaram uma organização oficial para facilitar a crescente cooperação turística”, disse a secretária-geral do Fórum, Pansy Ho, em conferência de imprensa.

Ministério Público (MP) recorreu da decisão que condenou João Tiago Martins a cinco anos e seis meses de prisão por dois crimes de abuso sexual contra os filhos. No recurso para o Tribunal de Segunda Instância, o Ministério Público pediu a absolvição. A informação foi dada ontem ao canal de rádio da TDM, pelo advogado do arguido, João Miguel Barros. A defesa também apresentou um “extenso recurso”. A sentença que condenou João Tiago Martins foi lida a 5 de Setembro. O Tribunal Judicial de Base considerou o arguido culpado de dois crimes de abuso sexual. Concluiu, no entanto, que não ficou provado o crime de maus tratos, nem que tenha havido relações sexuais com a

Fórum de Economia e Turismo com mais cooperação

A

PUB

“Este ano incluímos 16 países da Europa que não são muito conhecidos no Extremo Oriente, alguns deles nem eu visitei. Achámos que era uma boa oportunidade. São todos muito próximos uns dos outros e não são muito grandes, têm experiência em oferecer pacotes turísticos combinados”, acrescentou, explicando que podem re-

presentar um bom exemplo para Macau.

REPRESENTAÇÃO MINISTERIAL

Alguns destes países vão estar representados a nível ministerial, como a Hungria, através do Ministro do Turismo, e a Bósnia-Herzegovina. O Fórum vai também contar com a presença do secretário-geral da Organização Mundial do Turismo (OMT), Taleb Rifai.

Estes representantes vão participar nas sessões “Frente a frente entre ministros e líderes do sector privado”, uma das iniciativas do Fórum, que este ano, segundo a organização, vai contar com “o maior painel de oradores de sempre”, 169 de 50 países. Durante o fórum será também apresentada pela OMT a quarta edição do “Relatório sobre tendências do turismo da Ásia”. A 6.ª edição do Fórum de Economia de Turismo Global de Macau tem um orçamento de 46 milhões de patacas, dos quais 24,2 milhões são da responsabilidade da Direcção de Serviços de Turismo, ficando o restante valor a cargo de patrocinadores. Desde a edição inaugural em 2012, o Fórum atraiu um total de mais de 7.000 participantes de 63 países e regiões, recebeu 54 delegações de diferentes províncias e regiões autónomas do Interior da China, e mais de 300 oradores.

O

filha menor. João Tiago Martins foi também absolvido de um acto exibicionista de carácter sexual. O caso envolve os dois filhos menores do arguido e resultou de uma denúncia apresentada pela mãe. O Tribunal Judicial de Base considerou os depoimentos dos menores “credíveis” e que “não há prova que foi a mãe que influenciou” as crianças. Na altura da sentença, o advogado de defesa João Miguel Barros, considerava que “o processo estava completamente cheio de falhas desde o primeiro momento”. João Tiago Martins está em prisão preventiva desde Maio de 2016 e começou a ser julgado em Abril deste ano.


sociedade 11

sexta-feira 6.10.2017

O fumo em locais proibidos vai sair mais caro aos infractores. A partir do início do próximo ano as multas para quem se encontrar a fumar onde não é permitido vão chegar às 1500 patacas. A medida é prevista pela implementação gradual da Lei da Prevenção e Controlo do Tabagismo

A

partir de 01 de Janeiro do próximo ano, quem fumar em locais proibidos passa a pagar uma multa de 1500 patacas, recordaram esta semana, os Serviços de Saúde em comunicado. Actualmente as multas individuais oscilam entre as 400 e as 600 patacas. A Lei da Prevenção e Controlo do Tabagismo, que entrou em vigor em 2012, tem vindo a ser implementada gradualmente, começando por visar a generalidade dos espaços públicos. Em Julho foi aprovada a legislação que entra em vigor no início de 2018 e que prevê a proibição de fumar em todos os recintos fechados, à excepção dos casinos e dos aeroportos, os únicos dois locais onde as salas para fumadores são permitidas.

O

TABACO MULTAS AUMENTAM A PARTIR DE JANEIRO

Desde 2012, a lei veio a alargar o seu âmbito de aplicação. Em 2015, entrou em vigor a proibição total de fumar em bares, salas de dança, estabelecimentos de saunas e de massagens.

Caro fumo A nova lei prevê ainda este aumento das multas.

INFRACTORES AOS MILHARES

Em comunicado, os Serviços de Saúde indicam que este ano, até 30 de Setembro, 5.327 pessoas foram multadas por fumarem em locais proibidos, depois de mais de 250 mil inspecções a estabelecimentos. A maioria dos infractores, 93,8 por cento, eram homens. Metade eram residentes de

S Serviços de Saúde e a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos realizaram uma inspecção a todas as áreas para fumadores situadas numa zona denominada “Pit96” no rés-do-chão do casino Wynn após terem recebido uma queixa telefónica alertando para uma alteração das áreas de fumadores. A investigação efectuada no local revelou que algumas divisões da zona denominada “ Pit96” situada no rés-do-chão

Macau, 44,8 por cento, turistas, e 5,2 por cento, trabalhadores não-residentes. As infracções foram mais comuns em parques e jardins (16,9 por cento), abrigos afectos a veículos de transporte colectivo (12,4 por cento) e casinos (11,5 por cento). De 1 de Janeiro a 30 de Setembro deste ano, 613 pessoas foram multadas em casinos por violarem a lei do tabaco, a maioria (84,2 por cento), turistas.

Desde a entrada em vigor da Lei da Prevenção e Controlo do Tabagismo, em 2012, um total de 43.279 pessoas foram multadas, como resultado de 1,54 milhões de inspecções.

JOGO COM EXCEPÇÕES

Os casinos passaram a ser abrangidos dois anos antes, a 1 de Janeiro de 2013, mas apenas parcialmente, dado que as seis operadoras de jogo foram autorizadas a

Em Julho foi aprovada a legislação que entra em vigor no início de 2018 e que prevê a proibição de fumar em todos os recintos fechados, à excepção dos casinos e dos aeroportos

Queixa anónima trama casino Wynn apanhado sem dísticos de proibição de fumar

do casino Wynn não estão em conformidade com a planta da instalação das áreas para fumadores no casino autorizada em 2012. O casino anexou algumas áreas para fumadores (salão e salas) com áreas para não fumadores (corredores), não existindo separação prática entre as mesmas.

De acordo com o que está estipulado nos diplomas em vigor aquelas áreas são consideradas como áreas para não fumadores. No entanto, na fiscalização efectuada verifica-se que a área “Pit 96” do casino Wynn não cumpre o estipulado no artigo n.º 6 da lei n.º 5/2011 que obriga a afixação

de dísticos de proibição de fumar, de forma visível, aprovados por regulamento administrativo. Os agentes de fiscalização dos Serviços de Saúde exigiram imediatamente que o responsável do estabelecimento realizasse a fixação dos dísticos de proibição de fumar, aprovados por

criar zonas específicas para fumadores, que não podiam ser superiores a 50 por cento do total da área destinada ao público. Em Outubro de 2014, “as zonas para fumadores” foram substituídas por salas de fumo fechadas, com sistema de pressão negativa e de ventilação independente, passando a ser proibido fumar nas zonas de jogo de massas dos casinos e permitido apenas em algumas áreas das zonas de jogo VIP. No Verão do ano seguinte foi aprovada, na generalidade, uma proposta de lei que proibia totalmente o fumo nos casinos, mas o Governo viria, no entanto, a recuar na promessa inicial de “tolerância zero”.

regulamento administrativo, em lugares visíveis, elaborando autos conforme a situação detectada no local e haverá agora o devido acompanhamento. Se os dísticos de proibição de fumar não forem afixados nos locais considerados, os estabelecimentos envolvidos serão punidos com uma multa entre 10 mil e as 100 mil patacas pela infracção da Lei. A partir do dia 1 de Janeiro de 2018 o valor máximo irá aumentar para as 200 mil patacas.


12 eventos

CARLOS MARREIROS

LANTERNAS CON ONE CENTRAL CARLOS MARREIROS TRAZ “ESCULTURAS URBANAS LUMINOSAS” À CIDADE

C

“

OMO dizem os americanos, ‘The size does matter’ (o tamanho realmente importa).” É desta forma que o arquitecto Carlos Marreiros começa por falar do seu mais recente projecto, que mostra as tradicionais lanternas do Festival do Bolo Lunar numa versão mais contemporânea, de maior dimensão. “Não queria que este evento fosse tradicional, mas que caminhasse para uma mostra de esculturas urbanas luminosas”, contou ao HM. “É uma iniciativa local, não no sentido de ser mais uma actividade de Macau, mas de ser a actividade de Macau. Não existe no mundo um festival, ou uma exposição, que esteja relacionado com lanternas de grande porte ou instalações artísticas urbanas”, disse Marreiros. O ano passado, a primeira edição contou com 38 lanternas de grande porte, tendo sido convidados artistas locais para a decoração. Este ano são dez, sendo que cinco delas são decoradas por cinco artistas, dois deles locais: Alexandre Marreiros e Konstantin Bessmertny. “Fiz uma instalação urbana, de arte pública, com lanternas que são esculturas, e que são iluminadas por dentro, com pintura de artistas. Este ano mudei e propus que fosse menos lanternas, mas com um tamanho mais significativo, pois têm entre cinco a oito metros”, explicou. Para o arquitecto e membro do Conselho do Patrimó-

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA

CARLOS MARREIROS

O 2º Festival de Lanternas de Macau decorre na Promenade do One Central e conta este ano com dez esculturas iluminadas, decoradas por vários artistas, incluindo Alexandre Marreiros e Konstantin Bessmertny. O arquitecto Carlos Marreiros pretende fazer deste um evento anual de relevo, que mostre a cultura local ao mundo

6.10.2017 sexta-feira

nio Cultural, está em causa a criação de uma iniciativa que tenha “interesse turístico e de entretenimento”. “A nossa ideia é que haja anualmente uma grande instalação de esculturas de luz, com estilos de artistas

convidados de todo o mundo e excursões plásticas muito variadas, do mais figurativo ao mais abstracto.”

O QUE É LOCAL É BOM

Carlos Marreiros considera que o território não tem capacidade

para competir com as bienais de arte que acontecem um pouco por todo o mundo, mas sobretudo na Ásia. Daí a aposta nas esculturas cheias de luz, por representarem algo novo. “Macau tem recursos, mas tem as suas limitações. Caso

RUA DE S. DOMINGOS 16-18 • TEL: +853 28566442 | 28515915 • FAX: +853 28378014 • MAIL@LIVRARIAPORTUGUESA.NET

12 - A DOCE • François Schuiten Léon conhece bem a Doce. Compreende-a melhor do que ninguém e antecipa os seus mínimos desejos. O que é muito natural, depois de tantos anos passados juntos a devorar quilómetros. Porque a Doce, ou melhor, a 12.004, é uma locomotiva a vapor. Uma rainha da velocidade, com uma mecânica sofisticada, que é o orgulho do seu maquinista. Mas os tempos mudam, os transportes eléctricos ganham terreno, e os dias da Doce estão contados.

ELOGIO DA MADRASTA • Mario Vargas Llosa Elogio da Madrasta é a história de um universo dominado por um triângulo inquietante, que pouco a pouco envolve os leitores na rede de subtil perversidade que une, na plena satisfação dos seus desejos, a sensual Lucrécia, Rigoberto e o filho.Uma audaz e apaixonante incursão de Mario Vargas Llosa no romance erótico.


eventos 13

NTEMPORÂNEAS

GONÇALO LOBO PINHEIRO

sexta-feira 6.10.2017

não está “preocupado com a arte de massificação”. “Estas esculturas estão num sítio bonito, têm tamanho e dimensão. Macau deve ser animada com qualidade e a tradição deve ser renovada”, adiantou. Até porque, na sua visão, os museus e a própria arte têm de sair das paredes em que vivem enclausuradas e encontrar-se com as pessoas, o público.

FOTO GONÇALO LOBO PINHEIRO GANHA MENÇÃO HONROSA

O

fotojornalista português Gonçalo Lobo Pinheiro conquistou uma menção honrosa na vertente profissional dos International Photography Awards (IPA), anunciou a organização. Afotografia “Stay Tuned” foi distinguida na categoria “Architecture: Historic” (Arquitectura: Histórico), na vertente para fotógrafos profissionais, de acordo com o comunicado da organização. No campo dos fotógrafos não profissionais, os portugueses Filipe Matos e Jorge Maia ficaram em terceiro lugar nas secções “People:Lifestyle” (Pessoas: Estilo de vida) e “Nature: Landscapes” (Natureza: Paisagem), respectivamente. Para a edição de 2017, o IPA indicou ter recebido 14.270 trabalhos oriundos de 165 países.

fosse feita outra bienal, [o território] não iria conseguir competir com outras regiões e países, e até mesmo com a China. A história e a cultura são um atractivo, esta miscigenação cultural, e isso tem de ser explorado.” Na ideia de Marreiros, este objectivo pode ser atingido se for associado o conceito de lanterna tradicional “a uma dimensão contemporânea, de vanguarda”. “A tradição das lanternas chinesas é lindíssima e pego nesta tradição e reformo-a em fórmulas contemporâneas, mostradas em locais bonitos, que não são os habituais”, frisou. O arquitecto garante que, com este projecto em mente,

“A arte deve ir de encontro à população. As pessoas vêm aos museus mas os promotores das artes têm de ir ter com o povo. E isso faz com que as pessoas sejam mais selectivas a frequentarem museus e galerias. Não estou interessado no produto massificado, para ser arte é porque é único e original.” Marreiros já pensa noutras edições, e espera que, nos próximos anos, “haja mais esculturas de luz, com mais artistas internacionais”. “Gostava de produzir lanternas em menor número e convidar os artistas a fazer a escultura e a decorá-las”, concluiu. A segunda edição deste evento conta com a organização do One Central e da Associação Comercial Macao International Brand Enterprise. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

FILIPE MATOS

CARLOS MARREIROS ARQUITECTO

JORGE MAIA

“A tradição das lanternas chinesas é lindíssima e pego nesta tradição e reformo-a em fórmulas contemporâneas”

Nascido em Lisboa, em 1979, Gonçalo Lobo Pinheiro colaborou com vários órgãos de comunicação social, tendo sido editor do Hoje Macau, e é actualmente coordenador fotográfico da Revista Macau, do Gabinete de Comunicação Social do Governo. Na competição anual podem participar fotógrafos profissionais, amadores e estudantes de todo o mundo e todos os anos, o IPA atribui ainda os títulos de “Fotógrafo do Ano”, escolhido entre os vencedores de todas as categorias, e “Descoberta do Ano”, entre os vencedores de todas as categorias para amadores e estudantes. Seis candidatos são ainda convidados para a competição “Deeper perspective photographer of the year”, onde as histórias das imagens também são avaliadas.


14 china

A

China apoiará a Interpol, fortalecendo o perfil e a liderança da agência de cooperação de policiamento global, disse o presidente da China, Xi Jinping, nesta terça-feira, na abertura da assembleia geral da Interpol em Pequim. No ano passado a agência elegeu uma autoridade chinesa de alto nível, o vice-ministro da Segurança Pública, Meng Hongwei, como seu presidente, levando grupos de direitos humanos a questionarem se Pequim pode tentar usar a posição para perseguir dissidentes no exterior. Xi disse que a estabilidade da China é uma contribuição para o mundo, tanto quanto o seu desenvolvimento económico, e que o país apoia firmemente a luta internacional contra o terrorismo. “A China louva intensamente os esforços da Interpol para proteger a segurança e a estabilidade mundiais, e continuará a apoiar a Interpol para esta desempenhar um papel ainda mais importante na gestão global da segurança”, disse Xi, segundo a agência de notícias oficial Xinhua. Há muitos anos que Pequim tenta a ajuda de países estrangeiros para que estes prendam e deportem para a China suspeitos procurados por crimes como corrupção e terrorismo. Tais pedidos encontraram resistência, especialmente de países ocidentais onde surgiram dúvidas sobre a adequação dos indícios oferecidos pelos chineses a critérios aceitáveis nos seus tribunais. Também surgiram temores de que os suspeitos possam sofrer maus tratos e não ter um julgamento justo na China e de que as alegações possam ter motivação política. Na cooperação de aplicação da lei extrafronteiras, disse Xi, as leis de cada nação devem ser res-

6.10.2017 sexta-feira

INTERPOL XI JINPING APOIA EXPANSÃO E FORTALECIMENTO DA POLÍCIA GLOBAL

Terror, o inimigo comum O presidente chinês garantiu que a China está totalmente ao lado da Interpol na luta contra o terrorismo. Problema que identificou existir no oeste do seu país

peitadas igualmente, sem “dois pesos e duas medidas”. O ministro da Segurança Pública chinês, Guo Shengkun, disse à assembleia que o seu país espera utilizar a cooperação policial internacional para fortalecer a defesa contra a

ameaça de militantes que retornam do exterior para se unirem a grupos como o Movimento Islâmico do Turquistão Oriental. Grupos de direitos humanos criticam a China por empregar mal o sistema de “alerta verme-

lho” da Interpol, visando uigures exilados de Xinjiang que acusa de terrorismo. O secretário-geral da Interpol, Juergen Stock, disse que a organização “reforçou significativamente” a análise de pedidos

de alertas vermelhos de todos os 190 países-membros e que no ano passado “99 por cento” obedeceram aos regulamentos internos da Interpol.

PRESIDENTE QUER SER LÍDER MUNDIAL EM ARMAMENTO

O

Presidente chinês manifestou às principais empresas de defesa do país o desejo de melhorar o armamento, para a China estar à altura “dos mais poderosos do mundo”, segundo um documentário emitido pela televisão estatal chinesa esta semana.O jornal publicado em Hong Kong South China Morning Post citou ontem as declarações do líder chinês no documentário divulgado pela CCTV na segunda-feira, no qual Xi Jinping afirmava que “os desenvolvimentos das armas deveriam apontar e alcançar, e até superar, a tecnologia de outros países”. “A importância do desenvolvimento de armas aumentou à medida que as tecnologias militares foram melhorando nos últimos anos. […] É impossível ganhar uma batalha se houver uma falha de armamento”, acrescentou. A série documental, intitulada “Exército poderoso”, revela que os desejos do Presidente chinês não só apontam uma melhoria de armamento como também dos

sistemas científicos e tecnológicos das suas Forças Armadas: supercomputação, navegação por satélite ou mísseis balísticos de defesa mais desenvolvidos. “A tecnologia de mísseis antibalísticos da China está a alcançar a dos Estados Unidos”, disse Xi Jinping, que assegurou que até agora só estes dois países em todo o mundo podem interceptar com êxito mísseis deste tipo. Peritos consultados pelo jornal disseram que a China está a utilizar o seu talento jovem – universitários e recém-formados – para desenvolver estas melhorias e “conseguir uma força de combate no futuro”, em programas como o do sistema de navegação Beidou, equivalente ao norte-americano. No início deste mês a China também anunciou alterações dentro da sua cúpula militar que precedem as mudanças previstas ocorrer na liderança do Partido Comunista durante o XIX Congresso, com início em 18 de Outubro, assim como no processo de modernização das Forças Armadas.


china 15

sexta-feira 6.10.2017

UNIÃO EUROPEIA VAI REFORÇAR LEGISLAÇÃO ANTIDUMPING CONTRA PEQUIM

Um desejo chamado mercado

O

bra para calcular os seus direitos antidumping. O período acabou em Dezembro de 2016, e agora a China é considerada um membro pleno da OMC. Mas Pequim continua a subvencionar, com dinheiro público, alguns sectores, como o do aço e do alumínio. As novas regras antidumping vão permitir que a UE responda a este dilema, já que se aplicam, em princípio, ao conjunto de membros da OMC – mesmo que visem essencialmente, porém não nominalmente, a China. Na prática, Bruxelas vai elaborar e actualizar os relatórios por país ou por sector em casos de suspeitas de distorções do mercado, sobre os quais as empresas europeias poderão basear-se se precisarem de apresentar uma queixa que possa levar à imposição de direitos antidumping.

S europeus concordaram, nesta terça-feira (dia 3), em reforçar a legislação antidumping da União Europeia, sobretudo para controlar as exportações chinesas de matérias-primas ao bloco por preços mais baratos – ameaçando, assim, acentuar a tensão comercial com Pequim. “A Europa defende um comércio aberto e justo, mas não somos inocentes. Hoje, reforçámos as regras antidumping”, disse o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, em um comunicado. As novas medidas não visam “um país em particular”, assegurou, mas visam “garantir que tenhamos os meios de agir contra a concorrência desleal”. O acordo político alcançado pelos representantes do Parlamento europeu, da presidência temporária da Estónia e da Comissão vai permitir que a UE cumpra suas obrigações legais internacionais com Pequim. Quando a China entrou na Organização Mundial de Comércio (OMC), em 2001, ficou acordado que os demais membros poderiam tratá-la, durante 15 anos, como uma “economia de não mercado”, o que lhes deu grande marcha de mano-

PROCESSO DA CHINA

Diversos critérios serão levados em conta nessas análises, como a influência do Estado na economia, a presença generalizada de empresas públicas e até a falta de independência do sector financeiro. A nova regulamentação também vai levar em conta o dumping social, ou ambientes que também

BANCO MUNDIAL REVÊ EM ALTA PREVISÃO DE CRESCIMENTO DA CHINA

O

Banco Mundial reviu em alta as suas previsões de crescimento para a China em 2017, de 6,5% para 6,7%, e manteve as estimativas de crescimento moderado para os anos seguintes. Na apresentação do relatório “Actualização económica da Ásia Oriental-Pacífico”, divulgado na quarta-feira, o Banco Mundial anunciou um aumento das suas estimativas de crescimento da economia do país em relação às apresentadas em Abril: de 6,5% para 6,7% em 2017, e de 6,3% para 6,4% em 2018, escreve a agência espanhola Efe, citando o jornal Diário do Povo. O relatório aponta que estas novas estimativas devem-se a uma melhoria das previsões também para a região asiática, onde se estima um crescimento de 6,4% este ano, acima dos 6,2% estimados em Abril, e de 6,2% em 2018, também acima dos 6,1% apontados há seis meses. Segundo o Banco Mundial, com sede em Washington, a revisão em

alta das estimativas ocorreu, em parte, graças às políticas governamentais contra o excesso de capacidade e expansão do crédito. Também se deve às políticas seguidas por Pequim, que vai levar a cabo uma reestruturação das empresas estatais, assim como normas mais rígidas sobre o sistema bancário paralelo, tal como recomendado pelo próprio Banco Mundial em Abril. Por outro lado, assinalou que a tensão geopolítica, o crescente proteccionismo comercial e o nacionalismo económico poderão afectar elementos como as exportações, que, até à data, recuperaram, favorecendo um maior crescimento. O estudo indica que apesar dos esforços da China serem actualmente destinados a reequilibrar o investimento e procura externa, prevê-se que o seu crescimento económico seja moderado em 2018 e 2019, embora se mantenha superior ao de muitas economias da Ásia.

Zheijiang constrói torre eléctrica mais alta do mundo

A China começou recentemente a construção de uma gigantesca torre de transmissão eléctrica que deverá ser a mais alta do mundo, informou na terça-feira a Companhia de Eletricidade de Zhejiang. Com 380 metros, a altura da torre será quatro vezes a do Big Ben, em Londres. Localizada na Província de Zhejiang, leste da China, a torre suportará cabos de electricidade entre Jintang, em Zhoushan, e as ilhas Cezi, a uma distância de 2.656 metros. A torre baterá o recorde mundial de torre eléctrica mais alta, que actualmente pertence à torre de Damaoshan, também em Zhoushan, com uma altura de 370 metros. A nova infra-estrutura faz parte do projecto de uma nova linha de ultra-alta tensão entre as cidades de Zhoushan e Ningbo que deve ser completado até o fim de 2018 e começar a funcionar em 2019.

EUA Tufões atrasam exportações de soja para a China

As importações de soja dos Estados Unidos pela China devem-se atrasar em pelo menos duas semanas, já que os vendedores norte-americanos estão a ter dificuldades em encontrar grãos de alta qualidade depois de os campos de cultivo terem sido danificados por furacões. “Os exportadores estão a pedir aos compradores chineses para baixarem as especificações de qualidade (da soja), mas eles não estão a aceitar”, afirmou uma fonte de uma companhia internacional, em Singapura. A China, que compra cerca

podem afectar as empresas europeias. Até à entrada em vigor dessas medidas – esperada para o fim do ano – a UE vai continuar a considerar a China uma “economia de não mercado”. Essa “nova metodologia” é “essencial para enfrentar a realidade do ambiente comercial internacional de hoje”, insistiu a comissária europeia de Comércio Cecilia Malström em Estrasburgo, onde o Parlamento europeu se reúne semanalmente para uma sessão plenária. A delicada questão do estatuto da economia chinesa, na agenda desde Dezembro de 2016, perturbou a cimeira UE-China em Junho passado. Por isso, Pequim recusou-se a assinar uma declaração comum sobre o clima. A China, que considera a recusa de ser considerada uma economia de mercado um exemplo de “protecionismo disfarçado”, apresentou um recurso na OMC para protestar contra a atitude dos europeus. Segundo uma fonte europeia, Bruxelas espera que o processo fique obsoleto uma vez que a nova legislação comece a valer. O acordo político alcançado nesta terça ainda deve ser votado em plenário no Parlamento europeu, provavelmente numa sessão em Novembro.

de 65 por cento da soja negociada no mundo, tinha aumentado as negociações com os EUA nas últimas semanas, aproveitando a queda de quase 10 por cento nos preços desde meados de Julho. Mas a soja colhida mais cedo nos EUA, produzida perto do Delta do Mississippi, foi afectada por furacões no último mês, tornando difícil aos exportadores atingirem as especificações de qualidade acertadas com os compradores chineses, afirmaram as fontes. O problema na qualidade dos grãos está a causar atrasos nos terminais do Golfo, com tempos de espera para os navios a aumentar para 10 a 12 dias, face ao período comum de cinco dias nesta época do ano, disseram os operadores.

Gás Começam exportações do Cazaquistão

O Cazaquistão e a China assinaram um acordo comercial de exportação de 5 mil milhões de metros cúbicos de gás cazaque para o gigante asiático durante um ano, o que renderá cerca de 1 US$ mil milhões ao país centro-asiático, informou nesta terçafeira a empresa JSC KazTransGas. “O contrato foi assinado pela JSC KazTransGas e PetroChina International Company Limited em 30 de Setembro em Pequim. As entregas de exportação de gás estão programadas para começar em 15 de Outubro”, disse o serviço de imprensa da companhia cazaque. Os recursos energéticos procederão dos depósitos do oeste do Cazaquistão, bem como das reservas de gás disponível nas instalações subterrâneas de armazenamento da JSC KazMunayGas. A recepção de gás por parte da China será realizada através do ponto fronteiriço de Khorgos, a fronteira comercial mais importante entre os países.


16

h

6.10.2017 sexta-feira

Meu coracão, um solavanco, ou antes ´ ´ Um intervalo consciente José Simões Morais

A Pharmacia Popular

pecialmente das suas relações políticas e comerciais e História Pátria. Em 29 de Junho de 1910 vê ser inaugurado o novo farol da Guia, sendo a altura sobre o nível do mar de 105,7 metros e cuja torre de 14,5 metros passou a ser circular, tendo no topo o novo aparelho luminoso de terceira ordem, uma aparelhagem moderna de rotação que veio de Paris, com uma distância focal de 0,375 metros e uma intensidade de luz cujo alcance era de 25 milhas. No mesmo ano é aberta a Avenida da República e dá-se início ao projecto de abertura da Avenida Almeida Ribeiro.

CARESTIA

V

ÁRIOS assuntos atravessam a estadia em Macau de Camilo Pessanha e a construção da Avenida Almeida Ribeiro é um deles. Imaginariamente delineada já nos jornais desde 1890, essa avenida só fará a ligação do Porto Interior com a Praia Grande em 1926, está a falecer o poeta. A história da Avenida Almeida Ribeiro, por vezes mal contada pois dá-a como terminada em 1915, mas tal só acontece do Porto Interior ao Largo do Senado. Cinco anos para construir essa parte da via, demorando do Senado à Praia Grande mais dez, e só quando o morro é destruído, com grande contestação da comunidade chinesa de Macau, é a ligação em linha recta feita até à Praia Grande. Para remediar o corte da Rua da Sé, que fica sem a parte tomada pela Avenida Almeida Ribeiro, é pensada uma ponte, mas a Rua Central, ganhando uma boa centena de metros, começa agora a um nível mais baixo, na Avenida Coronel Mesquita, que da Rua da Praia Grande vai até ao Cinema Apolo. Daí o Largo do Senado onde, para Oeste

se liga a Avenida Almeida Ribeiro, que em 1926 estende o nome e ocupa a então Avenida Coronel Mesquita; e nessa transferência de nomes passa a Avenida Coronel Mesquita a designar uma via na parte Norte da cidade. Percorre também toda a estadia em Macau do poeta a história das obras do porto, desde o desassoreamento do Porto Interior à construção do novo Porto Exterior para albergar navios de maior calado. Já para a Lotaria da Santa Casa da Misericórdia de Macau não há aqui espaço.

LUZ ELÉCTRICA NA CIDADE

Entre 1898 a 1919 apenas funciona no Liceu Nacional de Macau o curso geral, sem o complementar e como o currículo é parecido com o do Seminário de S. José e do Colégio Feminino de Santa Rosa de Lima, o Liceu tem uma fraca frequência de alunos. Por isso é o Instituto Comercial de Macau fundado pela Portaria n.º 59 de 10 de Agosto de 1901, ficando anexo ao Liceu e tutelado pelo Leal Senado. Tal dura apenas até 1903,

pois dissolvido é em 7 de Outubro integrado no Liceu. Sobre um museu para a cidade, Pessanha, nas suas cinco estadias em Macau, escuta e fala sobre a sua criação, mas o único que conhece é o de História Natural criado no Liceu em 1895 pelo Reitor Dr. Gomes da Silva. Ano da existência da Pharmacia Popular, fundada a 5 de Dezembro na Rua da Praia Grande, comprada em 1910 pela família Nolasco. Quando Camilo Pessanha vai para Portugal em Agosto de 1905, está por inaugurar o sistema de iluminação eléctrica em Macau, o que ocorrerá em Fevereiro de 1906 e a verá ao regressar em 18 de Fevereiro de 1909, para a sua quarta estadia que se desenrolará até 10 de Setembro de 1915. No dia seguinte à chegada, a 19 de Fevereiro de 1909 Camilo Pessanha reassume o cargo de Conservador do Registo Predial e a 11 de Março é nomeado professor de Economia Política e de Direito Comercial, tomando posse a 2 de Junho do cargo de professor de Noções de História Universal, História da China e es-

O jornal Vida Nova de 2 de Janeiro de 1910 refere que “a construção de habitações na parte da Colina da Penha levou ao desviar de alguns veios de água que alimentavam a fonte do Lilau e devido também à exploração de várias pedreiras na referida montanha secaram algumas pequenas nascentes; “de modo que os habitantes daquela zona da cidade que dantes se utilizavam da água daquela fonte e nascentes, hoje vêem-se na necessidade de servir-se da água da Fonte de Inveja que, segundo dizem, já não é tão abundante como noutros tempos. Dizem também que o corte das árvores daquela montanha influiu para o desaparecimento de algumas nascentes”. De Macau, Pessanha ausenta-se de 19 a 22 de Novembro de 1911 para ir a Cantão à procura de objectos de arte chinesa, segundo Daniel Pires que refere, no final do Verão de 1912, Pessanha mora num casarão antigo do século XVII ou XVIII de alvas varandas, cerca do Hotel da Boa Vista e “em cujas espaçosas salas e largos corredores se desenrolava a suave e ridente fantasmagoria do seu museu chinês...”, observação de Alberto Osório de Castro. À falta do inebriante absinto consumido em Portugal, Camilo Pessanha em Macau substitui-o pelo ópio, que sente falta na sua estadia na metrópole e o faz regressar a 21 de Maio de 1916. No dia seguinte, a Pharmacia Popular muda-se para a casa n.º 16 do Largo de Senado, onde Beatriz Basto da Silva refere ter estado a antiga Farmácia e Drogaria Franco e Companhia. Nessa quinta estadia em Macau de Camilo Pessanha e última, o jornal O Progresso (Semanário independente, Dedicado à Propugnação dos Interesses Portugueses no Extremo-Oriente, com redacção e tipografia na Rua do Hospital n.7 e Director Luiz Nolasco) de 1 de Outubro de 1916, num artigo de fundo, na primeira página a prolongar-se à seguinte, com o título Carestia da Vida revê os preços dos produtos de primeira necessidade entre 1910 e 1916, num trabalho de curiosa caturrice. Durante esse período, “a carne de vaca aumentou 33%, a de porco 80%, o arroz 44%, peixe 60%, galinha 100%, pombos 125%, batatas 100%, laranjas 25%, pão 60%,carvão 54%, petróleo 72%, lenha 60%, açúcar 88%, leite de lata 48% e biscoitos de soja 38%. Toda a gente berrava contra a carestia de vida, mas em geral ignorava-se quantas vezes, em números...”


ARTES, LETRAS E IDEIAS 17

sexta-feira 6.10.2017

Tonalidades António de Castro Caeiro

ALAIN RESNAIS, O ANO PASSADO EM MARIENBAD

“Affairs” humanos

T

ÊM início relações humanas, mas não têm fim. Acabam mas não no sentido em que é como se nunca tivessem sido. Pelo menos, não, algumas. Mas talvez falemos de relações humanas, daquelas que se travam no núcleo duro das nossas existências, aí onde a batida cardíaca ganha o seu bombear. A própria expressão “relações humanas” é complexa e ambígua. Todas as relações do humano são humanas. O mundo em que vivemos está completamente revestido pelo ser do humano. Nós próprios reconhecemos de algum modo ser humanos. A relação do humano com Deus é humana, ainda que de Deus para nós possa não o ser, a partir de uma certa teologia. Tudo o que é humano é em relação: de si para si, de si para o mundo, de si para Deus, de si para os outros. Ainda, desde sempre que estamos remetidos para outros, outros que estão vivos e na proximidade espacial e afectiva. Outros também que sabemos terem existido, os antepassados que estão na boca daqueles que nos estão próximos, pais e mães dos avós, conhecidos contemporâneos deles. Pode ser também com um sem número de pessoas que constituam a nossa árvore genealógica incógnita e

as árvores genealógicas dos outros que conhecemos. Cada pessoa é constituída pela ausência de todas as pessoas que são condições de possibilidade da sua história, mesmo que não façam parte da sua história. Sem haver histórias para contar acerca delas que tenham sido vividas na primeira pessoa. Podemos ainda compreender que estamos remetidos para incógnitas futuras, quem serão, como serão, os nossos descendentes, os descendentes dos descendentes dos nossos familiares e amigos? Como são os pais para os órfãos de pais incógnitos? Todos nós somos um feixe complexo e emaranhados de relações com todas as pessoas que conhecemos e com todas as pessoas que não conhecemos, como se a nossa fachada apenas fosse a ponta de um iceberg constituído pela multidão de gente com quem convivemos mas também com a multidão de gente muito mais vasta, a perder de vista, que não conhecemos, a humanidade, as gerações de gerações passadas e futuras e todos os nossos contemporâneos que nunca veremos a não ser a porção finita e limitada das pessoas que conhecemos. Das pessoas que conhecemos, umas houve e há que sempre lá estiveram, pai e mãe e avós e tios e irmãos ou primos

mais velhos, aquela parte da família que já vive quando acordamos para a vida. Outros há que conhecemos ao longo da vida, fomos tendo como amigos, como os outros que se tornaram nossos. Fazer um amigo é um acontecimento histórico, não apenas porque existe um momento em que não o conhecemos e um momento em que o conhecemos, mas também porque nós próprios somos diferentes se não tivéssemos conhecido essa pessoa. Seríamos diferentes, se não tivéssemos os amigos que temos. Seríamos outros. Nem saberíamos distinguir quem seríamos agora que somos conjuntamente com esses outros que se tornaram e ficaram amigos. Somos definidos pela presença de familiares e amigos que são os nossos. A sua presença é indelével. Podemos não os ver com a frequência com que os víamos nas tardes infinitas e oníricas da infância e da juventude. Podemos já não os ver. Houve outros que morreram e outros que se afastaram e ficaram, por isso, vida fora. E, contudo, vivem em nós, mesmo se não vivem já connosco. É que os interrogamos, quando queremos saber como reagiriam, o que fariam, que conselhos têm ou teriam para dar. A sua presença é completa, ainda que desaparecidos. São

os nossos mortos, que cruzam as nossas casas e as asas das suas vidas desaparecidas batem ainda o ar das nossas cidades, fazem a corrente de ar que bate portas e estilhaça os vidros das janelas. Passam por nós com a densidade suficiente para lhes adivinharmos a presença. Há também aqueles que por um qualquer mal-entendido, bem entendido para uma das partes e mal entendido para a outra das partes, se afastam e irremediavelmente para sempre. Até podem reencontrar-se algures, décadas mais tarde, ao abrir de uma porta, ao dobrar de uma esquina ou lá ao longe. Não sabemos bem como os dois reagirão, se mal se bem. Se será indiferente e é como ver um fantasma já morto, mas que não enterráramos. Mas esses outros de que nos afastamos e nós afastados dos outros somos habitamos uma dimensão diferente do ser. Nunca nos despedimos e vive em nós a amargura da injustiça que fica em nós, objectiva ou só nossa. Viverá também talvez alguma alegria dos dias felizes, se calhar pouca, porque tudo se esfuma em face da tristeza e da melancolia. Não é é como se nunca tivesse sido. Ninguém desaparece como se nunca tivesse existido. A amargura atesta-o e a amargura é a abominação da desolação.


18

h

6.10.2017 sexta-feira

´

E

U jantava com Poirot. Ontem morreu. Talvez jante de novo com ele hoje, ou um destes dias. É triste morrer uma personagem de ficção. Já basta que as do real, mesmo longínquo, o façam. Às vezes penso que as mortes que nos vão passando pela vida, se não colocam uma ausência concreta no quotidiano dos dias, são quase tão irreais como essa. Mesmo o morrer de uma fantasia, é triste. Todos os meus ângulos são susceptíveis à insónia, ao bloqueio das articulações numa cãibra de mutismo, à cacofonia do dia que é, e às anquilosidades do terror da palavra errada, aos murmúrios de tempos que acertam em lugares diferentes do relógio. Aos subornos dos ponteiros, às aplicações exponenciais e desperdiçadas. Todos. Vítimas de me pertencerem antes de mais. Na deriva da informação e do silêncio. Em que marear é tarefa de remotos e expeditos marinheiros a pensar no sentido, no fim. Da viagem. Essa que não sei. E por isso, todos os meus ângulos sofrem da mesma insone e desassossegada perplexidade sem fim. Da mesma indisciplina irreprimível da insónia como do sono em desmaio abismal que, outras vezes, me atinge. Há dias em que a manhã me encontra como se num parque subterrâneo em que a noite e o esquecimento me estacionou como veículo. Muito se constrói nas infraestruturas de um espaço e de um ser. Dúvidas de ser, talvez. Mesmo as que nunca. Talvez em algumas pessoas o tempo, rasteiramente como um vento que, raso ao solo, arrasta poeiras, torna por momentos indefinida a vista do chão, ou como ter os pés mergulhados numa água que por refracção deforma. Talvez o tempo, sim, traga alguma desconstrução. Da memória de certezas de coordenadas espaciais. Os eixos xyz, inseparáveis na geometria, no turbilhão da noite sideral dos sonhos, a dar pequenas e irónicas reviravoltas sobre si. E em outros segundos que sucedem a outros e antecederam os que a seguir desabam sem predição nem adivinhação possível, uma nesga estreita abre-se e de súbito toda uma janela de porvir imediato se dá a ver. Não é feia esta paisagem solitária em névoas luminosas de uma luz qualquer que se espreguiça por detrás. Impúdica. Não é triste, ou mais do que outras emo-

ções quando breves, esta melancolia de aceitar o aceitar, porque nada mais se pode fazer ou querer. Dentro de fronteiras da possibilidade de agora. Deste momento ímpar, se bem que repetido aleatoriamente pela vida de antes. Talvez pela de depois, também. Que dizer do que nos castiga, de ser tristes ante a enormidade de tudo o que se apresenta em paisagem. De uns escassos minutos de eternidade a outros, sempre a vastidão se mostra. E nela todas as variantes de mundo a ver. Mas, às vezes pelo tiro da manhã, como um puzzle desfeito. Quem dera um álbum de retratos parados, sólidos de linhas e sombras e sorrisos para o sempre. Aquele que nunca é. Mas de algum modo se poderia tornar ilusão, abrindo-lhe as páginas como de um sonho arrumadinho de uma noite só. Nunca esta miríade de mundos a assomar logo pela manhã do acordar confuso. A querer uma área límpida de caminho a percorrer na calma de uma manhã como nunca se repete em outras, mas uma manhã única para viver em cada dia. Porque o tempo não fez de mim a forma de uma seta, a determinação de um raio e a persistência cega de uma lâmina, é pergunta que não tem lugar na mesa de uma convivência serena, com uma consciência que me caiba em mim. Por isso shsss… medir as palavras em sonoridade, voltes e sangue. Que a vida insinua-se tormentosa e vinga-se em violência nos elementos. Dúvidas do sentido. Nessa reviravolta dos eixos. XYZ, por momentos a girar sobre si. Vaga memória de sentido. Mas a única firme a do sentido sentimento. Ou a nitidez sentida da sensação. Mesmo na confusa abordagem ao acordar do dia. Tão confusa de sentidos confluentes, dúvidas de verbos e tempos verbais. E pessoas. Sobretudo pessoas. Sujeitos de orações. Como se nada pudesse determinar em que momento do mundo ou da vida me situar em cada incidente da consciência encerrada no mutismo interior. O interior da casa. Nada. Procuro, mas não há esta entrada no dicionário de sentir. Antes dispersa por páginas e páginas. Penso coisas como por que letra começa cada palavra. E nem assim. Se organiza numa topografia convincente este início de manhã. Dias em que afinal me levanto de um salto, em fuga e sem mesmo quase querer, nesse abrupto espantar o conforto da cama, caem as peças afi-

nal num lugar qualquer e esqueço as dúvidas iniciais. Toda aquela desarrumação confusa. Substitui-se por uma outra mais reconhecida. Suspiro de alívio. Antes. A fímbria estreita irregular. E arenosa, para piorar a, já de si, insegura forma de poisar cada pé apressadamente, desastradamente a correr a correr e ao lado o espaço, sempre em névoas, que não deixam ver o sem fim do abismo abaixo da montanha, em que me dou a correr. E as portas em que passo em frente trancadas e então porque corro se simplesmente as adivinhei mal e abertas de longe quando afinal não era mas é a imponderável variação de cenários que não têm uma ordem vislumbrável. O que foi aberto, e talvez já não e não sei porquê nem porque corro para onde para quê? Sem mais, afinal, do que a mais intensa necessidade de recolher ao interior casa onde habita o monstro. De estimação, descuidado, ausente e emudecido à força. Entro e deixo-o rugir até a insuportável agonia de tolher asas, me apurar o ouvido ao tom. Talvez lhe doa algo, o estômago ou os ouvidos como a mim. Talvez lhe doa algo afinal e para além dos dentes afiados e ameaçadores, as garras ou cascos rudes – não consigo ver - haja afinal a dor. Também ele, mas com ruído. Penso como conheço mal esse mal que me habita e que descuro por o achar ausente no mais dos dias. E afinal é só a pequena afinação do ouvido. Ao tom. E daí até há habitação plena deste oco de pele sangue e vísceras que me arrasta pelo mundo, ser completa, é um segundo sobreposto no outro, como se não houvesse vazio que me chegasse vindo da intempérie e da negação. Ou outro. De que se fazem os medos? Perguntava ontem em olhar transido sobre as múltiplas páginas sem beijos. Disso, que são páginas a soltar ao vento e deixar nas rotundas de percepções moribundas. Folhas a secar. Penso de novo no labirinto dos dias. Aquele de fundos corredores, bem ao fundo de um dos quais repousa o monstro conhecido desconhecendo-o ainda assim. Os passos decisivos que não podem passar além da exaustão. A trilhar com pegadas profundas e cada vez mais escavando um solo que era liso. A ficar revolto dos passos que nunca calcam a mesma porção de dúvida. O desconhecido desse chão, das reviravoltas do percurso esquina sobre esquina, sobre outra e muitas

ANABELA CANAS

Jantava com Poirot

outras esquinas - ou as mesmas em outras vistas. As luzes baixas a mudar de momento para momento, irreconhecíveis assim. As mesmas ou outras é uma outra interrogação no percurso. O bosque nocturno não se revela


ARTES, LETRAS E IDEIAS 19

sexta-feira 6.10.2017

iluminacão artificial

´

no todo. Nunca no todo. Ao caminho cabe o momento próprio. As trevas renovam-se na folhagem fantasmagórica, mas são outras porque o olhar o é. Irreparável de humano, para o confronto com algum cristal. Alguma fór-

Anabela Canas

mula de mineralização permanente. O bosque sofre de males de organismo. Vivo, habitado dos passos. Numa deriva em que se cruzam caminhos e passos em sentido contrário. Quase uma voracidade num e noutros. Caminho

e caminho eu nele. Mas sei de limites imprecisos, no momento impreterível de aliviar uns e outros. Momento a adivinhar no indizível invisível. Velado tormento e dilema entre persistir ou insistir. Aquela tonalidade ligeira-

mente diferenciadora entre o peso leve e a leveza feroz e arrasadora. Talvez devesse aprender com a crosta terrestre a elevar a ferida até à lava tumultuosa, lágrima fatal para o que apanha em redor. Por isso, talvez, não o faço. Por isso, talvez. Dentro. Passo o bálsamo nos lábios. Creme no corpo, recordações na alma e uma compressa húmida e tépida de sonhos no olhar cansado a desejar e a temer, a desejar e a adiar o sono sem agitação permitida. Ao lado, na almofada fofa de penugem de ganso, desmorona no ressonar abrupto e entrecortado de longas aspirações, o monstro de sempre, feito corpo e sensações tácteis pelo caminho. O caminho do sonho permitido afinal. Temido. Adiado. Volto o rosto a ver se está por detrás dos ruídos roucos e do ranger de dentes assustador. Ou é uma ilusão em fuga, que se esqueceu do som ao partir. Ruge. Descanso. É o estômago, penso. Talvez. Ou algo que não eu. Digo-lhe: estou aqui? É belo e sinto-lhe vaga penugem como uma aura de determinação, de doçura. Sim, parece-me que disse. É suave para além dos rugidos de fantasia. Um anjo, talvez. Porque os anjos são monstros bonitos e grandes a ocupar a cama inteira, a alma inteira, a noção de noite de vazio e de silêncio. Tudo sem espaços. Por isso gosto dele. Contente com a conclusão nocturna. Abro a caixa de bombons e trinco um, determinada a adormecer apesar do açúcar, num alo de doçura – o mesmo do açúcar que recobre violento ondas de sabor do cacau negro que vem dos campos de longe - e depois lembro-me que é bom para a digestão e ofereço-lhe um que dorme sem sentir este aroma que é inconfundível e recusa, claro, e dorme de súbito e de novo como sempre sem aviso nem resolução. Mas teimo em deixar-lhe um sabor adocicado nos lábios distraídos e acorda por momentos. Agradece sem saber o quê. Sentiu. Fora. Apressadamente, continuo, tocando sempre a áspera parede ao lado, quase num abraço quando o caminho estreita ainda mais. Algures há um passo de montanha. Senão a porta, o passo. Caminho. Caminho porque ao fundo, num lugar que não sei mas vejo, e que quando vir poisando os olhos, mesmo não sabendo, está. Caminho. Sem parar, porque ao fundo, imprecisamente ao fundo, o meu monstro - talvez carinhosamente - espera.


20

h

6.10.2017 sexta-feira

´

A Poesia Completa de Li He

夢天 老兔寒蟾泣天色,雲樓半開壁斜白。 玉輪軋露濕團光,鸞佩相逢桂香陌。 黃塵清水三山下,更變千年如走馬。 遙望齊州九點煙,一泓海水杯中瀉。

Sonho do Céu A antiga lebre, o sapo trémulo,1 Choram lágrimas azul-céu, As torres-nuvem meio expostas, Paredes inclinadas e brancas.2 Roda de jade esmaga orvalho, Molhado globo de luz, Encontro pendentes de jade-fénix Em estradas perfumadas de cássia.3 Ora pó amarelo, ora água clara, Sob as Três Colinas,4 Súbitas as mudanças de mil anos Como cavalo a galope. De muito alto, o País do Meio É só nove fiapos de nuvem,5 Todas as claras águas do mar Uma taça rachada.

1

As primeiras quatro linhas descrevem a lua; as duas linhas seguintes descrevem as Ilhas dos Imortais; as últimas duas linhas descrevem a Terra vista do céu. Animais ao luar. 2 “Torres-Nuvem”: as Torres de Jade da lua. 3 As fadas lunares viajam em carruagens com sininhos, as suas jóias de cinta a tilintar. As estradas cheiram às árvores de cássia na berma. 4 As Ilhas dos Imortais resistem às épocas geológicas, ao passo que os mares cobrem a terra e recedem de novo. 5 Uma alusão às nove províncias do império. As últimas linhas sugerem uma passagem do Chuang Zi, XVII.

Tradução de Rui Cascais • Ilustração de Rui Rasquinho Li He (790 a 816) nasceu em Fu-chang durante a Dinastia Tang, pertencendo a um ramo menor da casa imperial. A sua morte prematura aos vinte e sete anos, a par da escassez de pormenores biográficos, deixam-nos apenas com uma espécie de fantasma literário. A Nova História dos Tang (Xin Tang shu) diz-nos que He “nunca escrevia poemas sobre um tópico específico, forçando os seus versos a conformarem-se ao tema, como era prática de outros poetas [...] Tudo quanto escrevia era inquietantemente extraordinário, quebrando com a tradição literária.” Segundo um crítico da Dinastia Song, o alucinátorio idioma poético de Li He é a “linguagem de um imortal demoníaco.” A versão inglesa de referência aqui usada é a tradução clássica da autoria de J.D. Frodsham, intitulada Goddesses, Ghosts, and Demons, publicada em São Francisco, em 1983, pela North Point Press.


(f)utilidades 21

sexta-feira 6.10.2017

TEMPO

?

AGUACEIROS

O QUE FAZER ESTA SEMANA Sábado FIMM | NOVUS STRING QUARTET 20h00 | Teatro D.Pedro V

MIN

26

MAX

31

HUM

65-95%

•

EURO

9.20

BAHT

KINO, FESTIVAL CINEMA ALEMÃO | “O FLORIR DE ONTEM” 21h30 | Cinemateca Paixão

Domingo

O CARTOON STEPH

KINO, FESTIVAL CINEMA ALEMÃO | “FITZCARRALDO” 21h30 | Cinemateca Paixão FIMM | BRAVO MACAO! CONCERTOS POR MÚSICOS LOCAIS Teatro D.Pedro V | 20h00

DIARIAMENTE SOLUÇÃO DO PROBLEMA 134

EXPOSIÇÃO | “REPRESENTAÇÕES DA MULHER” Museu de Arte de Macau EXPOSIÇÃO “CONTELLATION” DE NICOLAS DELAROCHE Galeria do Tap Seac | Até 08/10

Cineteatro

C I N E M A

PROBLEMA 135

UM FILME HOJE

SUDOKU

DE

WORLD PRESS PHOTO Casa Garden | até 22/10

1.17

ESPERTO OU INTELIGENTE

KINO, FESTIVAL CINEMA ALEMÃO | “O MEU ENCONTRO COM A VIDA” 16h30 | Cinemateca Paixão

KINO, FESTIVAL CINEMA ALEMÃO | “BERLINALE CURTAS I: UTOPIA SEM LIMITES” 19h30 | Cinemateca Paixão

YUAN

PÊLO DO CÃO

FIMM | MUSIC THERAPY WORKSHOP 15h00 às 16h30 | Fundação Rui Cunha

FIMM | NOVUS STRING QUARTET 20h00 | Teatro D.Pedro V

0.23

Sempre me questionei acerca da diferença entre um ser esperto e um ser inteligente. Para mim ser esperto é apenas uma benesse do momento. Quem é inteligente terá melhores recompensas da vidaCheguei a esta conclusão depois de olhar os humanos que giram à minha volta. Há uns que se são muito espertos, outros muito inteligentes. Há ainda a vertente daqueles que se julgam espertos e quem o são, e tão pouco chegam a inteligentes. Há ainda aqueles que não se julgam espertos – e não o são – e nem se julgam inteligentes, sendo-o.Bom, isto parece uma conversa de malucos. Eu sou esperto e sou inteligente. Complemento uma coisa com outras e assim vivo com a cabeça entre as orelhas.O problema é que há muito boa gente, e eu vejo, que não consegue lidar com a falta de alguma destas características ou das duas. Coitados. Com esse problema chegam os chicos-espertos que pensam que são mais e melhores que os outros. Equívoco. Lembro-me de ouvir numa conversa entre dois jornalistas do Hoje Macau que Portugal está carregado de chico-espertos. Eles é no trânsito, nas filas dos supermercados, na política. Mas vejo que Macau também não foge à regra. É nas filas de táxi, é nas filas de autocarro, é na não cedência de passagem nas passadeiras, é no Governo – se bem que aqui a chico-espertice de mescle com incompetência. Aliás, já que estamos em tempo de globalização, porque não globalizar o fenómeno do chico-espertismo? Eu aponto a bitola nesse sentido. Para mim, e essa é a grande conclusão desta dissertação, a chico-espertice é um mal global, bem dividido por todas as aldeias deste planeta.E assim irá continuar, presumo. Infelizmente, o acto de se julgar mais esperto do que os outros, para daí tentar tirar partido de algo, não vai acabar. O único gaudio que tiro disso é que, na altura do tombo final, a queda será sempre mais alta para os chico-espertos. Viva a inteligência e a sensibilidade de assumir que não se sabe.

DOCUMENTÁRIO “ANOS DOURADOS” | CHICO BUARQUE E TOM JOBIM

Jobim entrava de carro no jardim botânico, olhava as árvores e descobria todos os dias novos nomes científicos das plantas. É este o ponto de partida para um documentário que conta a história de uma das mais frutíferas relações da música popular brasileira. Chico e Tom juntos, um compondo, o outro cantando, era pura maravilha. “Anos Dourados”, letra de Tom e cantada, numa das suas inúmeras versões, por Chico, é disso exemplo.

BLADE RUNNER 2049 SALA 1

THE MOUNTAIN BETWEEN US [C] Fime de: HanyAbu-Assad Com: Kate Winslet, Idris Elba 14.30, 16.30, 19.30, 21.30 SALA 2

BLADE RUNNER 2049 [C] Fime de: Denis Villeneuve Com: Ryan Golsling, Harrison Ford, Jared Leto, Dave Bautista 14.30, 18.15, 21.15 SALA 3

THE LEGO® NINJAGO MOVIE [A]

FALADO EM CANTONENSE Fime de: Charlie Bean 14.15, 16.05, 17.50

FIREWORKS, SHOULD WE SEE IT FROM THE SIDE OR THE BOTTOM? [B] FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Fime de: Akiyuki Shimbo Com: Suzu Hirose, Masaki Suga, Mamoru Miyano, Takako Matsu 19.55, 21.30

www. hojemacau. com.mo

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Luz; Sofia Margarida Mota; Vitor Ng Colaboradores António Cabrita; Anabela Canas; Amélia Vieira; António Falcão; António Graça de Abreu; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; João Maria Pegado; José Drummond; José Simões Morais; Julie O’Yang; Manuel Afonso Costa; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fa Seong; Fernando Eloy; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


22 opinião

6.10.2017 sexta-feira

a outra face

VELÁZQUEZ, A RENDIÇÃO DE BREDA

A segunda transferência

A

primeira transferência de soberania ocorreu em Macau quando Portugal passou para a China a administração deste território. Foi em 1999. Desde então, Macau foi governado pelas suas gentes. Contudo, não o foi para as suas gentes. Se o consulado de Emund Ho se pode escudar no facto de ter implementado a liberalização do Jogo, com todas as desarmonias daí decorrentes, bem como na inexperiência governativa, já Chui Sai On é com dificuldade que explica o desinteresse do seu Executivo pelo bem-estar da população. Mas o facto está aí, para

quem o quiser ler: este Governo não realizou nenhuma grande obra que realmente beneficiasse a população, nomeadamente o Hospital das Ilhas e o metro ligeiro, tal como não resolveu nenhum dos problemas que o crescimento desordenado deu origem: habitação, trânsito, saúde, etc.. O que se assistiu na última década, com o beneplácito governamental, foi ao enriquecimento brutal de algumas famílias e dos seus satélites, num completo, por vezes arrogante, desprezo pelas necessidades populares. Este “feudalismo” foi sempre entendido como o “pagamento” de Pequim aos clãs nos quais depositava confiança pela sua acção patriótica durante o tempo dos portugueses. Ora esta era parece, com Chui Sai On, estar a chegar ao fim. No fundo, trata-se de pessoas que já detinham o poder económico mais ou menos desde 1966 e dos acontecimentos motivados pela Revolução Cultural. Até 1999, conseguiram garantir a sua con-

Este “feudalismo” foi sempre entendido como o “pagamento” de Pequim aos clãs nos quais depositava confiança pela sua acção patriótica durante o tempo dos portugueses. Ora esta era parece, com Chui Sai On, estar a chegar ao fim tinuidade no poder para o futuro, como algo de “natural” porque eram eles já os líderes de facto desta cidade. E os que mais lucravam com isso, se exceptuarmos a família de Stanley Ho. Ora este tempo parece estar a chegar ao fim. Com efeito, existem vários sinais deste facto e um deles, nada despiciente, é o último discurso de Chui Sai On, por

CARLOS MORAIS JOSÉ

ocasião do Dia Nacional, proferido no dia 1 de Outubro. Senão vejamos. O actual Chefe do Executivo começou por falar dos problemas que afligem a população e na obrigação de resolvê-los! E foi por aí fora: segurança social saúde, habitação, trânsito, poluição, encheram a primeira parte do discurso de Chui pela primeira vez numa ocasião destas. Normalmente, o Chefe do Executivo fica-se pelo elogio do costume ao apoio do Governo Central e à garantia de que a RAEM prosseguirá as estratégias definidas, nomeadamente no que concerne os países lusófonos e o projecto “Uma Faixa , Uma Rota”, por meio de juras de patriotismo. Mas desta vez não. Chui centrou a sua atenção no que definiu como “a felicidade” popular. Ou seja, o discurso não parecia seu e, pelo conteúdo apresentado, talvez esteja a indicar o caminho que o futuro nos reserva. Talvez o tufão Hato tenha sido o evento que mostrou claramente o quanto o rei vai nu e o quanto esse mesmo rei pouco se preocupa com a sua população. A falta de preparação das autoridades mais ricas do mundo em terra de tufões, a falta de meios e de liderança, bradou aos céus e o Céu (Pequim) não pôde fazer orelhas moucas. O Hato veio descobrir uma careca que todos os habitantes de Macau sabem estar lá mas que os cheques anuais e outras benesses sem conteúdo pretendem ocultar. E talvez o Governo Central tenha entendido que chegou o momento de dizer alto e pára o baile antes que uma terra pacífica e alinhada com a Mãe Pátria comece a desalinhar a dança e a dar passos parecidos com os dali de Hong Kong. Um bailarico que Pequim, como se sabe, pouco aprecia. Os sinais estão aí. E não passam apenas por pessoas vindas do Norte, como Wong Siu Chak (o Secretário a quem o tufão Hato também deve ter roubado os sonhos de ser Chefe do Executivo) ou André Cheong. Agora há mais: trata-se da implementação de uma política voltada para os interesses populares, o que pressupõe talvez o fim de medidas implementadas a pensar apenas nos interesses de alguns. Estaremos pois perante uma segunda transferência de soberania, o fim de um ciclo. Contudo, ao contrário do que se passou em 1999, o que aí vem permanece um mistério. Não se perfila ainda um candidato a Chefe do Executivo mas, seja ele Lionel Leong ou Ho Iat Seng, independentemente do seu nome e filiações, cremos que a política terá de ser necessariamente outra e o discurso de Chui Sai On é disso um claro e inequívoco sinal. Pequim terá entendido que as contas estão saldadas e chegado o momento de realmente pensar na população. Afinal, com tanto dinheiro disponível, não há-de ser assim tão difícil.


perfil 23

sexta-feira 6.10.2017

NATÁLIA LO, ESTUDANTE DE PORTUGUÊS

Q

“Gosto muito de bacalhau com natas”

UANDO chegou a Portugal sentiu-se “Lost in Translation”. Natália Lo já tinha contactos com a língua em Macau, de onde é natural, mas foi para o outro lado do mundo que decidiu ir aprender melhor o idioma que está na moda. Em Portugal há três anos, Natália recorda ao HM os primeiros dias no país onde o sol é um privilégio. “Achei logo que os portugueses eram muito próximos uns dos outros, porque a minha senhoria e colegas de casa cumprimentaram-me com beijinhos na cara. Sei que isso é um costume português, mas no início não estava nada habituada.” Nos primeiros dias, o português era uma língua estranha, as expressões não tinham compreensão. “Pedia muitas vezes para as pessoas repetirem o que me diziam. Às vezes via expressões estranhas e perguntava às minhas colegas de casa o que significava aquilo. Elas eram simpáticas e explicavam-me. Com o tempo habituei-me à vida aqui.” A estudante depressa se habituou ao clima, mas sobretudo à boa comida. “Sempre

ouvi dizer que em Portugal as pessoas comiam sempre batatas, mas quando cheguei percebi que também comem arroz, massa e feijão. Gosto muito de bacalhau com natas, bacalhau à Brás, feijoada e arroz de marisco”, exemplifica. Apesar de querer ficar em Macau, por ser a terra onde nasceu, Natália Lo gosta de viver na terra das praias. “Gosto do ambiente aqui, é confortável e adequado para viver. A natureza também faz parte dos meus gostos, e gosto muito dos monumentos, que são magníficos.” Natália só tem uma coisa a criticar: os portugueses gostam de aproveitar a vida e fazer as coisas de forma mais lenta. “Comparando com Macau as pessoas em Portugal têm um ritmo de vida mais lento, e para mim isso é bom, porque dá para aproveitar a vida. Mas no trabalho isso não é muito bom, uma vez que a eficiência e a produtividade das pessoas no local de trabalho pode aumentar.”

perguntou se, em Macau, toda a gente falava português. “Quando ele me perguntou isto fiquei logo a sentir alguma coisa, e pensei que, se o português era língua oficial, talvez tivesse de aprender a falar um pouco.” Na escola secundária, Natália Lo acabaria por escolher o idioma como opção. “Felizmente tive um professor muito bom, ele tinha muita paciência connosco e assumia responsabilidades. Então aí fiquei cada vez mais interessada em aprender e quis melhorar.” Natália estudou dois anos numa universidade e só mais tarde é que tomou conhecimento das bolsas de estudo disponibilizadas pelo Governo. Tinha chegado a altura de ir mais longe. “Fiquei muito contente e surpreendida. Aqui em Portugal temos boas condições para aprender a língua, e depois do curso quero ficar mais tempo para me qualificar para ser professora.”

UMA LONGA VIAGEM

PINTURA NOS TEMPOS LIVRES

Um dia, em criança, Natália encontrou-se com um amigo do interior da China que lhe

Quando não estuda a ligação entre caracteres e o alfabeto ocidental, Natália Lo pratica

caligrafia chinesa, por ser “uma maneira de relaxar e reduzir o stress”. “Às vezes vou beber um café como fazem os portugueses, e comer algo. Se tiver uns feriados ou dias de férias vou visitar outras cidades portuguesas ou outros países, para que possa conhecer culturas diferentes e ver melhor o mundo.” Apesar de já estar habituada a um estilo de vida europeu, Natália Lo quer regressar à terra de todas as oportunidades. “Prefiro viver em Macau, porque foi onde nasci, onde tenho a minha família e amigos. Tenho um sentimento de pertença muito forte. Macau é um sítio onde posso fazer muitas escolhas e facilmente encontro as minhas comidas favoritas.” Portugal é, para Natália, o sítio ideal para estudar, onde tem o seu espaço e onde aprende algo novo todos os dias. “Vou aos supermercados, ao banco, aos cafés e restaurantes, e encontro sempre palavras novas que uso no dia-a-dia. Esta é a maneira que mais gosto para aprender o idioma.” Vítor Ng (com A.S.S.)

info@hojemacau.com.mo


De beneficências está Macau cheio.

Tesoura das ilhas

sexta-feira 6.10.2017

CASAL PORTUGUÊS CONDENADO EM TIMOR-LESTE RECORRE DE SENTENÇA

Recurso a caminho

U

M casal português condenado a oito anos de prisão em Timor-Leste por peculato recorreu esta semana da sentença, considerando que esta “padece de nulidades insanáveis” mais comuns em “regimes não democráticos”, baseando-se em provas manipuladas e até proibidas. O recurso pede a absolvição do casal. Ao longo de 273 páginas, a defesa de Tiago e Fong Fong Guerra apresenta 13 pontos de contestação ao acórdão da sentença, incluindo, por exemplo o que dizem ser a violação de um direito fundamental, nomeadamente a “intromissão não autorizada em correspondência”. “Ao fim de 15 sessões de julgamento e depois de ter sido proferido o Acórdão ora colocado em crise, constata a defesa, sem qualquer margem para dúvida, que este processo padece de várias nulidades insanáveis, algumas das quais apenas acontecem em regimes não democráticos, o que não é o caso de Timor-Leste”, refere o texto. O texto considera ter havido “manipulação de prova, utilização de prova proibida e valoração da mesma”, defende ter havido inconstitucionalidade, ter havido omissão de realização de diligências necessárias para a descoberta da verdade e haver “insuficiência

de matéria de facto provada para a decisão”. Em 24 de agosto um colectivo de juízes do Tribunal Distrital de Díli condenou o casal de portugueses Tiago e Fong Fong Guerra a oito anos de prisão efectiva e uma indemnização de 859 mil dólares por peculato. O tribunal declarou os dois arguidos co-autores do crime de peculato e absolveu-os pelos cri-

mes de branqueamento de capitais e falsificação documental de que eram igualmente acusados. “Os arguidos prejudicaram as finanças e a economia do Estado, e defraudaram o Estado de Timor. Atuaram de forma livre, deliberada e consciente, sabendo que as suas condutas não eram permitidas por lei e que eram criminalmente puníveis”, disse a juíza.

Contactado pela Lusa o casal preferiu não prestar declarações, confirmando apenas que o recurso foi entregue no prazo permitido por lei. Ainda assim, fonte da defesa confirmou à Lusa que só teve acesso à cópia das últimas 769 páginas do processo de um total de 3.269 páginas que integram o processo - excluindo as cerca de 2.000 de apensos - cinco dias antes de terminar o prazo para apresentação do recurso, que terminava a 30 de Setembro. A defesa só recebeu também uns dias antes disso as cópias das gravações e transcrições das últimas audiências do julgamento que teve a sua leitura de sentença no dia 24 de agosto. O texto do recurso questiona logo as primeiras páginas do processo, nomeadamente uma carta da então ministra das Finanças, Emília Pires, e um relatório com anexos da consultora Deloitte e que, sustenta a defesa, ter acesso a documentos contidos num servidor de email semanas antes de haver autorização de um tribunal para o fazer. “Em termos legais configura-se uma nulidade insanável e absoluta, violadora de um direito fundamental (intromissão não autorizada na correspondência), sendo que toda a prova extraída do servidor da conta de email (…) está ferida de nulidade insanável”, refere o recurso.

COREIA DO NORTE VLADIMIR PUTIN DUVIDA DE ÊXITO DE ATAQUE

O

PUB

POSITOR declarado de uma intervenção estrangeira na Coreia do Norte, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse nesta quarta-feira que não há certeza de sucesso de um ataque armado porque o regime do ditador Kim Jong-un pode ter instalações militares escondidas. “Será possível um ataque global contra a Coreia do Norte para desarmá-la? Sim. Atingirá seu objectivo? Não sabemos. Quem sabe o que eles têm lá e onde. Ninguém sabe com 100% de certeza, já que é um país fechado.” A abordagem cautelosa de Putin destoa do tom adoptado

pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que tem repetidamente feito ameaças ao regime comunista e pedido a imposição de sanções económicas cada vez mais duras. Outro país que segue o mesmo princípio é a China, aliado de Pyongyang, embora tenha adoptado nas últimas semanas punições no comércio exterior que reduzem drasticamente a disponibilidade financeira do regime. Nesta quarta, Trump escreveu numa rede social que disse ao secretário de Estado, Rex Tillerson, que este estava “a perder tempo tentando negociar com o homem

do foguete [Kim Jong-un]”. No seu primeiro discurso na Assembleia-Geral da ONU, o republicano disse que “se [os EUA] forem forçados a se defender ou a defender seus aliados, não teremos outra escolha que destruir totalmente a Coreia do Norte. No início de agosto, o americano fez uma de suas mais contundentes ameaças ao país comunista ao declarar que “eles [o regime de Kim Jong-un] enfrentarão fogo e fúria como o mundo jamais viu”. Putin, por sua vez, tem advogado pela adopção de incentivos económicos e por uma diplomacia actuante que permita

negociações entre as potências e a ditadura. “Mais sanções são uma via para lugar nenhum”, afirmou o presidente russo, frisando que cerca de 40 mil norte-coreanos trabalham na Rússia. Sabe-se que estes trabalhadores enviam parte de seus salários com frequência para o se país. O russo também disse que seu país tem mais razões que a maioria dos países para se preocupar com o programa de mísseis balísticos de Pyongyang, já que o local onde as forças de Pyongyang realizaram seus testes nucleares fica a menos de 200 km de distância da fronteira russa.

Nobel Kazuo Ishiguro, a memória e o esquecimento

O escritor britânico Kazuo Ishiguro, distinguido ontem com o Prémio Nobel da Literatura, autor do romance “Os Despojos do Dia”, nasceu há 63 anos em Nagasaki, no Japão, mas fixou-se na infância, com a família, no Reino Unido. No final da década de 1970, Ishiguro graduou-se em Inglês e Filosofia na Universidade de Kent, e estudou em seguida Escrita Criativa na Universidade de East Anglia, em Inglaterra. Kazuo Ishiguro tornou-se desde então escritor a tempo inteiro. Começou por publicar contos na revista literária Granta, e o seu primeiro romance data de 1982, “A Pale View of Hills”, publicado em 1990 em Portugal, pela Relógio d’Água (“As Colinas de Nagasaki”), ao qual se seguiu “An Artist of the Floating World” (1986), situado em Nagasaki, poucos anos após a II Grande Guerra (1939-1945) Segundo a Academia Sueca, os temas que Kazuo Ishiguro aborda a memória, o tempo, a desilusão de si próprio - evidenciam-se já neste romance, editado em Portugal pela Livro Aberto, também em 1990, com o título “Um Artista no Mundo Transitório”. A preocupação com a memória e o esquecimento é particularmente notória no seu mais conhecido romance, “The Remains of the Day” (1989), editado em 1991 em Portugal pela Gradiva, com o título “Os Despojos do Dia”. A obra foi adaptada ao cinema, em 1993, pelo realizador James Ivory, com argumento do próprio escritor e de Ruth Prawyer Jhabvala, com Anthony Hopkins e Emma Thompson, por protagonistas. Segundo a instituição sueca, a escrita de Ishiguro é marcada por uma cuidadosa contenção, independentemente do local da narrativa. Com o trabalho distópico “Never Let Me Go” (“Nunca me deixes”, publicado em 2005, pela Gradiva), Ishiguro introduziu subjacentemente a ficção científica no seu trabalho. Neste romance, como em vários outros, também encontramos influências musicais, refere a Academia. “Um exemplo impressionante” para a Academia de Estocolmo é a colecção de contos “Nocturnes: Five Stories of Music and Nightfall” (2009), editada nesse mesmo ano pela Gradiva (“Nocturno: Cinco Histórias sobre Música e o Cair da Noite”), “em que a música desempenha um papel fundamental na representação da relacionamentos das personagens”, afirma a Academia Sueca. No seu mais recente romance, “O Gigante Enterrado” (2015), um casal idoso viaja por uma paisagem inglesa arcaica, esperando reunir-se com o seu filho adulto, que não vêem há anos. “Este romance explora, de forma emocionante, como a memória se relaciona com o esquecimento, da história para o presente e da fantasia para a realidade”, afirma a instituição.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Hoje Macau 6 OUT 2017 #3909 by Jornal Hoje Macau - Issuu