hoje macau
Agência Comercial Pico • 28721006
pub
Director carlos morais josé
h
Mop$10
www.hojemacau.com.mo
demografia
opinião Duas As coisas lá cidades Ficam dois e uma parte um povo dos States isabel castro
anabela canas
sociedade Pág.
6
Página 18
s e x ta - f e i r a 3 1 d e j u l h o d e 2 0 1 5 • A N O X i v • N º 3 3 8 4
hotel roosevelt
Fachada nas costas do futuro eventos
hojemacau
A vida é bela Um ano depois de uma reportagem que dava conta das condições miseráveis em que viviam várias famílias carenciadas num bairro junto às Portas do Cerco, encontrámos Ng Su On que encara hoje o mundo com outros olhos.
reportagem páginas 2-3
reportagem
Vidas mudadas. Foi o que o HM encontrou quando voltou às casas de idosos e famílias carenciadas que viviam em más condições, um ano depois. Realojados em habitações públicas ou em lares, os residentes começam agora uma nova vida, ainda que haja muito a fazer
U
m ano depois do HM ter visitado várias famílias a viverem com dificuldades, numa espécie de bairro improvisado e ilegal junto às Portas do Cerco, a surpresa chegou: apenas uma família resta e, até mesmo esta, está de saída. “Depois da reportagem [do HM] recebemos a visita de alguns deputados e, um dia, o Instituto de Acção Social (IAS) ligou-me por causa do meu irmão. Ele foi colocado num lar meses depois”, partilhou com o HM Ng Wai, irmão de Ng Su On, portador de poliomielite. Ng Su On vivia entre quatro paredes de cimento, num espaço minúsculo, com bichos e um cheiro nauseabundo constante. Aquela pessoa, de 55 anos na altura, em momento algum permitiu o contacto com a equipa do HM: nunca nos olhou e muito menos falou. Agora, a história é diferente.
“É clara a falta de assistentes sociais do IAS que possam dar vazão ao aumento de casos de famílias e idosos que precisam de apoio, não há dúvida. (...) O Governo precisa de olhar mais para os idosos” Pereira Coutinho Deputado
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
Famílias que estavam em más condições foram realojadas, mas ainda “há muito a fazer”
Com um brilhosinho Ao lado viviam outras famílias. Três ou mais membros partilhavam espaços que nem para uma pessoa eram suficientes. Num corredor com diversas portas, muitas foram as histórias que ouvimos e agora nada mais há para além de um silêncio que aparenta felicidade.
hoje macau
2
Mais que merecido
Os atrasos e as controversas condições de acesso à habitação pública fizeram com que aquelas famílias fossem ali esquecidas e, entre estas, há ainda muitas mais. “Em Outubro passado, os deputados Si Ka Lon e Song Pek Kei, tomando conhecimento dos casos, foram visitar o espaço que acolhia aquelas famílias. Mas só conseguiram falar com o irmão do Ng Su On”, explica-nos o gabinete do deputado Chan Meng Kam. Depois de conversarem com Ng Wai e este contar todo o processo que levou o irmão a estar trancado naquele local, os deputados denunciaram o caso ao IAS, tal como o HM tinha feito. “A equipa dos deputados voltou ao lugar um tempo depois, falámos com uma idosa que iria receber ajuda dos filhos, outras famílias não nos abriram a porta e outras não estavam”, continua. Um mês depois, em Novembro de 2014, o telefone de Ng Wai toca. Do outro lado era o IAS e queria conversar sobre a situação do seu irmão. “Fizeram-me muitas perguntas e foram visitar o meu irmão. Uns dias depois voltaram a explicar que o meu irmão não iria conseguir obter o tipo de habitação porque não reuníamos as condições, mas que iam colocá-lo num lar”, conta o irmão. Em poucas semanas, Ng Su On era o novo residente de um lar de idosos na Taipa. “Aqui ele está muito melhor, tem fisioterapia, as condições são boas. Tem também terapia da fala. Nunca está sozinho, tem o apoio de médicos e funcionárias. Ele ouve muito mal, mas agora já fala mais e caminha com a ajuda de um andarilho”, continua. Durante a nossa visita ao lar, que agora acolhe Ng Su On, foi-nos difícil reconhecê-lo, tais eram as mudanças. Ng soube quem éramos e, pela primeira vez, olhou-nos e, mais do que isso, sorriu-nos. Num abraço sentido, Ng Su On partilhou o seu estado de espírito actual. “Estou feliz”, disse-nos com alguma dificuldade. Sentado numa mesa, numa grande sala que acolhia mais idosos, Ng Su On apontou para a televisão, mostrando aquilo que estava a fazer. A pedido do
Ng Su On em 2014
irmão levantou-se e exibiu a sua nova capacidade de locomoção sem a ajuda de ninguém. “As quedas acabaram. Antes quando ele tentava levantar-se ou até ir àquela casa-de-banho que não era mais que um balde caía
muitas vezes. Chegou a magoar-se, por isso é que lá ia visitá-lo todos os dias, por isso e para lhe dar comida também, claro”, adianta o irmão, que confessa que agora quando não se pode deslocar à Taipa, não fica preocupado. “Sei
que cuidam bem dele aqui, basta olhar para a cara dele e vê-se que ele está feliz. As melhorias são visíveis”, repara. Mas nada disto é gratuito. “Aqui paga-se sete mil patacas por mês, mas por o meu irmão ser defi-
reportagem 3
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
“Depois da reportagem [do HM] recebemos a visita de alguns deputados e, um dia, o Instituto de Acção Social (IAS) ligoume por causa do meu irmão. Ele foi colocado num lar meses depois”
nos olhos
“Aqui ele está muito melhor, tem fisioterapia, as condições são boas. Tem também terapia da fala. Nunca está sozinho, tem o apoio de médicos e funcionárias” Ng Wai Irmão do Ng Su On, portador de poliomielite
Um ano depois
ciente o Governo ajuda numa parte, quase quatro mil patacas, e nós pagamos o resto. Guardei todos os cheques pecuniários do meu irmão, portanto ele tem suficiente para se manter aqui, pagando só essa parte, com o dinheiro que guardámos”,
conta o irmão, enquanto entrega um “mimo” a Ng Su On. “Venho pelo menos uma vez por semana e ele sabe que lhe trago sempre um doce ou um coisa que ele goste. Hoje trago uma perna de frango, ele adora”. Pelo olhar,
o petisco foi bem recebido, mas o apetite já não dava para mais. “É para amanhã”, disse Ng Su On.
Só mais um bocadinho
Das famílias que visitámos apenas uma se mantém pelo velho edifício.
“Mas não é por muito tempo. O Governo disse-me que em menos de três meses já estou na casa nova”, conta Fei Ng, uma idosa que viveu naquele espaço “há mais de dez anos”. Fei tem tido companhia nos últimos anos. “O meu filho que é trabalhador não residente vem aqui comer todos os dias. Eu faço arroz nesta máquina e a carne ali”, conta, apontando para uma cozinha de improviso entre a cama e um armário carregado de roupa e bacias. “Estar aqui trouxe-me muitas doenças, tem lixo e cheira sempre mal. Eu limpo, eu limpo. Mas também vejo muito mal”, partilha a idosa, olhando para o filho que nos ouve atentamente. Fei Ng está há uma mão cheia de anos à espera da habitação social. Quando a conhecemos o ano passado não quis contar a sua história, referindo apenas que o Governo deveria preocupar-se mais com os idosos. “Depois de eles [Governo] virem aqui as coisas mudaram”, contou ao HM, explicando que lhe está prometida uma habitação em breve. “O IAS disse-me que em menos de três meses já posso ir para uma casa em Seac Vai Pan. Eu preferia no Fai Chi Kei ou na Ilha Verde, mas não faz mal”, remata. Questionada sobre as outras famílias, Fei Ng contou-nos que quase todas foram embora. “Foram para casas. Agora estão melhores”, acrescenta.
A ponta do iceberg
Confrontado com a intervenção por parte do Governo, o IAS sem adiantar informações sobre os casos, apenas defendeu que sempre que existe uma “detecção na
sociedade de casos de emergência/ risco, o IAS envia, de imediato, pessoal para proceder ao seu acompanhamento, por forma a prestar, na sua esfera de competências, apoio adequado aos necessitados”. Segundo dados do IAS, no início do presente ano, existiam 150 idosos à espera de vaga para lares sendo o tempo médio de espera de um ano. Dos 380 idosos que no final de 2014 estavam à espera de vagas, o IAS garantiu que 230 já foram contactados pelas autoridades, tento por isso começado a tratar das formalidades para a sua admissão. Relativamente à habitação pública, o Instituto da Habitação indica que até ao momento foram construídos 34 mil apartamentos, sendo que 28 mil referem-se à habitação económica e seis mil à social. Ainda assim muito trabalho há a fazer. Para o deputado Chan Meng Kam, situações destas são uma constante e a culpa deve-se às falhas da habitação social e às altas rendas que muitos residentes não conseguem pagar, sobretudo os trabalhadores não residentes. “Estes moradores saíram mas outros continuam nesta situação e aquele espaço vai ser ocupado por outros”, acredita. Para o deputado José Pereira Coutinho os casos destas famílias são apenas “a ponta do iceberg”. Num território que se mostra rico e cheio de brilho, existe “um número infinito de famílias a precisar de ajuda e a viver em condições miseráveis”. Muitas vezes, defende, o IAS não tem conhecimento destes exemplos de segregação social porque não tem recursos humanos suficientes. Também a Associação dos Trabalhadores da Função Pública (ATFPM) foi visitar estes casos tornados públicos e “fez um relatório sucinto e enviou ao IAS para acompanhamento do caso”. “O feedback que temos recebido do IAS é positivo porque eles de imediato tomam a iniciativa de contactar com as famílias em causa e a médio prazo resolvem as situações. Foi o que aconteceu aqui. (...) É clara a falta de assistentes sociais do IAS que possam dar vazão ao aumento de casos de famílias e idosos que precisam de apoio, não há dúvida. (...) O Governo precisa de olhar mais para os idosos, devem ser criados departamentos directamente vocacionados para o tratamento deste tipo de situações”, rematou. Dados da Direcção dos Serviços de Estatísticas e Censos (DSEC) mostram que, em 2014, existiam mais de 53 mil habitantes com mais de 65 anos, perfazendo 8,4% da população total de Macau. O índice de envelhecimento ultrapassa os 70% e continua a ser visto como “um dos maiores desafios” do Governo. Filipa Araújo (com Flora Fong) filipa.araujo@hojemacau.com.mo
4
política
A
Comissão de Acompanhamento para os Assuntos da Administração Pública da Assembleia Legislativa (AL) debateu ontem o agravamento das penas para quem conduz sob efeitos de álcool ou estupefacientes. Segundo o deputado Chan Meng Kam, que preside à Comissão, os deputados defendem o agravamento das penas e o fim da pena suspensa, em casos de condenação dos condutores. “A Comissão está muito preocupada com essa situação e espera que para esses casos não haja lugar à suspensão da pena, porque isso vai reduzir o efeito dissuasor. Acabar com a suspensão ou agravar a pena, é esta a tendência”, referiu Chan Meng Kam. À saída do encontro, que contou com representantes da Polícia de Segurança Pública (PSP), Raimundo do Rosário, Secretário para as Obras Públicas e Transportes, garantiu que até ao final do ano o Governo vai tomar a decisão final. “Eu, com a Secretária para a Administração e Justiça (Sónia Chan) e o Secretário para a Segurança (Wong Sio Chak) combinámos fazer uma análise sobre se é ou não necessário aumentar as penas. Esse estudo ficará concluído no final do ano”, afirmou, em declarações reproduzidas pela Rádio Macau. Os membros da PSP apresentaram ainda dados sobre os casos de condução sob efeitos de drogas ou álcool relativos aos primeiros seis meses do ano, tendo sido revelada uma redução de 17% por ano. Nos casos de condução sob efeitos de droga a redução foi de 40%. “É claro e evidente que no que se refere ao álcool e droga a situação melhorou bastante”, disse Raimundo do Rosário.
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
Álcool e Droga Decisão este ano para punição por condução
Infracções ao volante
Os deputados da Comissão de Acompanhamento para os Assuntos da Administração Pública querem penas mais graves ou o fim da pena suspensa nos casos de condução com efeito de álcool ou drogas. Governo promete decisão até final do ano através de um estudo com várias Secretarias
Andreia Sofia Silva
andreia.silva@hojemacau.com.mo
Pereira Coutinho quer lista de terrenos que ainda não foram desenvolvidos
O
gcs
deputado José Pereira Coutinho lançou um apelo ao Governo para que este publique uma lista de quantos terrenos arrendados não foram ainda desenvolvidos. Numa interpelação escrita, o deputado questiona
o Executivo sobre os “muitos terrenos foram concedidos mas não foram aproveitados ou desenvolvidos de acordo com as prometidas finalidades”. De acordo com a Lei de Terras, o prazo para
concessão dos terrenos por arrendamento é fixado no contrato de concessão não podendo exceder 25 anos. Além de muitos verem constantemente prorrogados os prazos de aproveitamento, outros pertencentes ao Go-
verno são frequentemente “abusivamente ocupados por empresas particulares para servir de depósito de materiais de construção, sucata e outros materiais”, aponta Pereira Coutinho. O deputado quer, por isso, saber se o Governo vai proceder ao levantamento cadastral de todos os terrenos que foram e “colocar as referidas informações nas respectivas páginas electrónicas dos serviços competentes”, sendo que Pereira Coutinho questiona ainda se o Executivo vai “instituir um mecanismo permanente de fiscalização dotado de suficientes recursos humanos para fiscalizar assiduamente se os terrenos da RAEM estão a ser devidamente salvaguardados”.
Corrupção Chan Meng Kam clama por “justiça”
O
deputado Chan Meng Kam voltou a pedir “justiça” depois do tribunal ter acusado dois membros da sua associação, a Aliança do Povo de Instituição de Macau, de terem praticado corrupção eleitoral durante a campanha para as legislativas de 2013. “Relativamente a essa injustiça, estamos a recorrer judicialmente e esperamos que a justiça seja reposta”, disse Chan Meng Kam aos jornalistas, quando questionado sobre a legitimidade dos resultados eleitorais depois da acusação judicial. O deputado garantiu ainda que não foi contactado pelo Chefe do Executivo, tendo acusado os tribunais de uma “aplicação selectiva da lei”. “Não sei se há ou não uma aplicação selectiva da lei, porque não há provas, e isso tem de ser esclarecido. A justiça tem de ser igual para todos. Os idosos [que serviram de base à acusação de subornos de incentivo ao voto], com mais de 60 anos e que desempenhavam funções como professores há mais de 40 anos, disseram que não acreditam mais na lei. Um dos idosos dizer isso leva-nos a pensar como é que as leis são aplicadas”, disse o deputado. Chan Meng Kam foi o grande vencedor das eleições de Setembro de 2013 para a Assembleia Legislativa (AL), tendo eleito os deputados Si Ka Lon e Song Pek Kei. A.S.S.
Reunião para reforçar cooperação Macau e a província de Zhongshan querem reforçar a cooperação existente, insistindo no território como uma plataforma para os Países de Língua Portuguesa. Numa reunião que aconteceu ontem, o Secretário-geral do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, Chang Hexi, sublinhou a vontade existente de desenvolver o intercâmbio
mútuo iniciado este ano, fazendo votos para que os contactos e a cooperação entre os Países de Língua Portuguesa e a Nova Zona de Cuiheng sejam consolidados através da plataforma de serviço de Macau. O ViceGovernador do Município de Zhongshan, Yang Wenlong, referiu que Zhongshan e os Países de Língua Portuguesa têm um grande potencial de cooperação. É necessário, afirmou, promover com grande esforço a realização dos projectos da Nova Zona de Cuiheng de Zhongshan em cooperação com Macau, promover a construção da base de armazém dos produtos comerciais e económicas dos Países de Língua Portuguesa e promover a cooperação profunda e global entre Zhongshan, Macau e os Países de Língua Portuguesa.
política 5
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
O
pub
Habitação Económica Concluída análise da revisão da lei
Um passo de cada vez
Governo proceder aos trabalhos [da revisão global da lei]”. Outro ponto que também será legislado aquando da revisão global
Seac Pai Van Mais instal ações sociais este ano Para além da questão das penas de condução com droga ou álcool, a Comissão de Acompanhamento para os Assuntos de Administração Pública também serviu para o Governo apresentar a lista detalhada dos espaços comerciais e sociais que existem na habitação pública de Seac Pai Van. Três instalações sociais, da responsabilidade do Instituto de Acção Social (IAS), deverão entrar em funcionamento já este ano. Um lar para deficientes entrará em funcionamento em Setembro, uma residência para crianças e jovens no próximo mês, um centro de dia para idosos e um centro integrado de reabilitação para portadores de deficiência deverão abrir portas em Outubro.
gcs
s deputados da 2.ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa (AL) concluíram ontem a análise na especialidade da primeira fase de revisão da Lei da Habitação Económica. Segundo Chan Chak Mo, o processo decorreu “sem grandes controvérsias”. A alteração do diploma, que entrou em vigor em 2011, pretende simplificar os processos de acesso a uma casa do Governo, para reduzir o tempo de espera dos candidatos. “O novo método é de apreciação preliminar e esta fase inclui os excluídos e não excluídos. Depois inclui-se o sorteio e uma nova apreciação e esta nova regra aplica-se ao concurso para as habitações económicas em 2013. Este novo método não vai afectar os interesses legítimos dos candidatos. O Governo está a deparar-se com muitas candidaturas e são poucas as habitações disponíveis, e por isso pretendeu-se alterar para um novo método, encurtando o prazo para os trabalhos administrativos”, explicou Chan Chak Mo. Segundo o deputado, o parecer jurídico “sugere algumas soluções para o aumento da oferta de habitação económica, e no próximo passo este parecer pode servir de referência para o
da Lei de Habitação Económica é a existência de muitas casas públicas desocupadas. “Houve um consenso com a Comissão [para os Assuntos
de Administração Pública] de que a resolução dessa questão das fracções não habitadas passaria por duas possibilidades: ou faría-
mos uma revisão parcial da lei, só para tratar deste assunto, ou uma revisão global, como está prevista. Optámos por incluir esta matéria na revisão global”, disse Raimundo do Rosário, Secretário para as Obras Públicas e Transportes. Andreia Sofia Silva
andreia.silva@hojemacau.com.mo
sociedade
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
tiago alcântara
6
Demografia Macau vai ter 750 mil habitantes daqui a dez anos
E que tudo vá para o continente O Gabinete de Estudos das Políticas apresentou ontem o Relatório do Estudo sobre a Política Demográfica de Macau onde se declara que, em 2025, Macau vai ter 750 mil habitantes e uma população ainda mais envelhecida. Os responsáveis do Gabinete dizem que viver no continente pode e deve ser uma opção
D
aqui a dez anos a população de Macau vai crescer, ainda que não tanto como agora. A conclusão é do Relatório do Estudo sobre a Política Demográfica de Macau, apresentado ontem pelo Gabinete de Estudos das Políticas (GEP). Os dados mostram que em 2025 Macau terá 750 mil habitantes e
uma densidade populacional de 20.500 habitantes por quilómetro quadrado. O crescimento é de 1,9% anual entre 2014 a 2020, sendo que nos cinco anos seguintes a taxa de crescimento a cada ano deverá cair para 1,1%. Apesar dos números, os responsáveis do GEP garantem que as infra-estruturas do território vão conseguir suportar o aumento populacional, com base em informações analisadas em conjunto com o Instituto de Formação Turística (IFT), a Universidade de Macau (UM) e a Associação de Urbanização de Macau. “Se nos próximos dez anos a população atingir as 750 mil pessoas, as restantes áreas têm de ser aperfeiçoadas e segundo essas instituições é possível absorver essa população”, disse Lao Pun Lap, coordenador do GEP. “O ritmo vai ser diferente do que é agora e mesmo que haja uma subida vai ser mais estável e moderada do que agora”, acrescentou. O GEP garantiu ainda que um aumento mais “estável” da população se deve às mudanças nos horários nas fronteiras e ao fomento da cooperação regional, o que poderá levar muitos trabalhadores não residentes (TNR) a viverem fora do território. “Sabemos que temos cerca de 180 mil TNR, grande parte deles do interior da China. Cerca de 60% desses TNR vive em Macau, sendo que no período antes da abertura
“Podem existir TNR e até residentes a residir na China. Isso pode acontecer devido a vários factores, mas também devido à cooperação regional. Temos de ter uma ideia mais regional e não apenas dentro das fronteiras” Lao Pun Lap Coordenador do GEP
das fronteiras esse número era de 80%. Desde a abertura das fronteiras que houve alterações porque cada vez mais TNR optam por viver em zonas como Zhuhai ou Zhongshan. Vemos uma descida notável nas rendas e isso também tem a ver com a redução de TNR em Macau. Prevemos que o número de TNR [a viver cá] venha a descer até 40 a 50% e essa será uma tendência no futuro. Quem pode optar naturalmente vai viver nessas regiões onde os produtos e as rendas são mais baratos”, disse Lao Pun Lap. “Podem existir TNR e até residentes a residir na China. Isso pode acontecer devido a vários factores, mas também devido à cooperação regional. Temos de ter uma ideia mais regional e não apenas dentro das fronteiras”, referiu ainda o coordenador do GEP.
Mais velhos
Yun Kin Cheng, investigador do mesmo gabinete, pediu mesmo maior “responsabilidade” das concessionárias de Jogo no sentido
de criarem soluções de transporte e alojamento dos seus trabalhadores. “Os TNR poderão ser mais ou menos, consoante as políticas do momento e as concessionárias devem ser responsáveis. Não temos outros desenvolvimentos de projectos de Jogo [além dos actuais] e no futuro pode haver uma subida de população, mas não tão alta como agora.” Daqui a dez anos, Macau terá também uma população ainda mais envelhecida, sendo que a população idosa irá rondar os 16,3%, com uma esperança média de vida de 84,6 anos. O relatório apresenta ainda vários sugestões na área da habitação, saúde e economia (ver caixa). Apesar de referir que Macau vai conseguir suportar mais pessoas, a verdade é que o coordenador do GEP defende mais medidas por parte do Executivo. “Se nos próximos anos existir uma melhor distribuição e um melhor reordenamento das zonas antigas podemos ver melhorias no futuro. Temos de reforçar e intensificar a coordenação entre diferentes Secretarias para que possam existir melhores
Mind the GEP • A construção do metro ligeiro é de interesse para os residentes e é outra solução para o problema de transporte em Macau, sendo uma grande questão a ter em consideração • Implementar a licença de paternidade • Introduzir um subsídio progressivo de acordo com o número de filhos • Acelerar o estudo sobre novas formas de arrendamento da habitação • Implementação com a maior brevidade do “Projecto de Melhoramento das Infra-estruturas do Sistema de Saúde” e completar a construção do “Complexo de Cuidados de Saúde das Ilhas” • O Governo deve, em conjunto com as empresas de Jogo e as grandes empresas, diminuir as necessidades de habitação dos TNR e promover a sua fixação de residência fora de Macau • Sugere-se a integração de vários programas de cooperação regional para que os residentes possam optar por viver ou trabalhar noutros locais
resultados e aplicar ajustamentos aos processos. As medidas do Governo poderão responder melhor às necessidades da população.” Andreia Sofia Silva
andreia.silva@hojemacau.com.mo
sociedade 7
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
Emprego Mais de duas mil pessoas procuravam trabalho até Junho
O
s dados de Abril a Junho passados revelam que mais de 2200 pessoas se inscreveram nos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) à procura de emprego e a maioria fê-lo por estar desempregado. O mesmo relatório afirma que 43% destas inscrições se deveram à cessação laboral, enquanto 36% desejam mudar de ambiente de trabalho e outros 11% acabaram de chegar ao território. Comparando com os números de procura de emprego do segundo semestre do ano passado, o recente relatório mostra um ligeiro aumento. A grande maioria dos candidatos inscritos tinha entre 45 e 59 anos, enquanto outros 40% tinham entre os 25 e os 44 anos. No que diz respeito às habilitações académicas dos candidatos, cerca de 63% deles tinham apenas o ensino secundário e os outros 23% finalizaram o primário.Apenas 13% dos inscritos são licenciados e menos de 1% têm um mestrado ou doutoramento. Tal como em anos anteriores, também nos passados três meses as profissões mais procuradas são trabalhador de casino, empregado administrativo, vendedor e segurança ou porteiro de prédios. Assim, o espectro de salários procurado vai das 10 mil patacas às 15,6 mil patacas, tendo os ordenados oferecidos para cargos semelhantes apenas circulado entre as 7,6 mil e as 12,6 mil patacas.
A
Wynn Macau anunciou na quarta-feira uma quebra de 62,5% nos lucros líquidos do segundo trimestre para 73,6 milhões de dólares norte-americanos. Em comunicado é referido que a Wynn Macau teve uma quebra de 35,8% nas receitas líquidas do segundo trimestre para 617 milhões de dólares, das quais 578 milhões geradas em casinos, menos 36,4% em termos anuais homólogos. Entre Abril e Junho, a empresa registou um EBITDA ajustado (resultados antes de impostos, juros, depreciações e amortizações) de 173,4 milhões de dólares, traduzindo uma queda anual homóloga
A
Sands China e a Câmara do Comércio de Macau unem-se para criar um programa de incentivo à compra de produtos locais. De acordo com um comunicado, só no ano passado, a operadora comprou cerca de 12,5 mil milhões de patacas a mais de 2200 empresas locais, incluindo pequenos e médios vendedores e distribuidores. “Ao perceber as dificuldades sentidas pelos pequenos negócios em colaborar com grandes organizações, a Sands contactou a Câmara do Comércio de Macau, levando-a a perceber a importância destas empresas”, refere a empresa em comunicado. Durante a sessão de esclarecimento, foram mais de CEM as PME interessadas em participar neste programa de fomento. Há, de acordo com a equipa gestora do projecto, três diferentes tipos de empresas: pequenas e micro, aquelas que “são feitas e criadas em Macau” e jovens empreendedores locais. O primeiro grupo é constituído por
Sands China e Câmara do Comércio querem comprar a PME
Macau tem valor
É mais uma demonstração de apoio às PME locais da parte das operadoras de Jogo. Agora foi a Sands China quem fez uma parceria com a Câmara de Comércio local todos os negócios em que mais de 50% do capital seja detido por cidadãos residentes e não empregam mais de 15 pessoas, enquanto aquelas “criadas” no território detêm uma licença de Indústria e um certificado dos Serviços de Economia.
Aposta de futuro
Finalmente, descrevem como jovem empreendedor aquele que detenha mais de 50% do seu negócio e tenha entre 21 e 44 anos de idade. “A Sands acredita no investimento na comunidade local, seja através de esforços de voluntariado com ONG ou iniciativas como esta”, diz a Sands, citando o vice-presidente executivo, Ben Toh. Na passada quarta-feira, as entidades responsáveis pelo projecto publicaram uma lista de mais de 200 produtos que podem agora ser comercializados localmente, através de empresas de Macau. Estes eram anteriormente importados e a lista – de entre bens alimentares, instalações, iluminação e mobiliário – pode ser consultada online.
“A Sands acredita no investimento na comunidade local, seja através de esforços de voluntariado com ONG ou iniciativas como esta”
Leonor Sá Machado
Comunicado da Sands
leonor.machado@hojemacau.com.mo
Wynn Macau com quebra de mais de 60% de 43,5%, “principalmente devido à debilidade no sector do jogo”. O volume de negócios nas mesas de segmento VIP da Wynn Macau caiu 41,1% para 15,5 mil milhões de dólares no trimestre terminado em Junho, altura em que o número médio de mesas para grandes apostas diminuiu de 263 para 247. Já os ganhos do segmento do jogo de massas da Wynn Macau sofreram uma quebra de 32,9% para 208,6 milhões de dólares no segundo trimestre do ano, tendo o
número médio de mesas registado um aumento de 192 para 223. Nas operações globais do grupo, a Wynn Resorts obteve receitas líquidas de 1,04 mil milhões de dólares contra 1,41 mil milhões de dólares apurados no segundo trimestre de 2014. O declínio é atribuído à quebra de 35,8% nas receitas líquidas registadas em Macau e à diminuição de 6,2% dos ganhos nas apuradas em Las Vegas. Com dois casinos em Macau – Wynn e o Encore – a operadora
tem actualmente em construção um resort integrado, com um orçamento global de 4,1 mil milhões de dólares. O Wynn Palace, localizado no Cotai, deverá abrir portas no primeiro trimestre do próximo ano. Durante uma teleconferência após a divulgação dos resultados do segundo trimestre do ano pela empresa mãe, nos Estados Unidos, o líder da Wynn, Steve Wynn, afirmou que planeia inaugurar o seu novo empreendimento em Macau em 25 de Março de 2016, de acordo com o portal especializado em jogo GGRAsia.
Migração com novos serviços online
O Serviço de Migração da PSP lançou novos serviços de marcação online , agora destinados aos requerentes de autorização de permanência na qualidade de trabalhador das categorias de “trabalho doméstico” ou “trabalho especializado”. A partir do dia 3 de Agosto, a PSP acrescenta ainda o serviço de Autorização Especial de Permanência para Estudantes do Exterior. O sistema está concebido em Chinês, Português e Inglês e está disponível no site oficial da PSP (http://www.fsm.gov.mo/psp).
8 sociedade
O
Instituto de Acção Social (IAS) pondera o estabelecimento de acordos com empresas privadas para que estas contratem idosos que tenham capacidade para trabalhar. Esta ideia, explicou ontem o presidente do IAS, Iong Kong Io, serve para ajudar a uma melhor integração destes residentes na sociedade e é uma das sugestões incluídas no Mecanismo de Protecção aos Idosos, que agora avança para consulta pública. Nenhum dos representantes presentes avançou mais novidades sobre o assunto, referindo apenas que este está em maturação. O anúncio teve lugar durante a sessão de apresentação de um plano decenal para minorar o impacto do envelhecimento da população – o Mecanismo de Protecção aos Idosos da RAEM -, desenvolvido pela mesma entidade, que teve como base um estudo feito pela Universidade Lingnan de Hong Kong. Foi o professor Alfred Cheung-ming Chan quem ficou responsável pela referida pesquisa, que durou mais de dois anos. As conclusões apontam para a aplicação de um mecanismo com enfoque em quatro pontos principais: serviços médicos e de assistência social, garantia dos direitos, participação
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
Idosos IAS sugere acordos com empresas para contratação de seniores
Respeitinho é bom e bonito O Governo está a ponderar a criação de acordos com empresas para que estas contratem idosos locais. De acordo com um estudo pedido a uma universidade de Hong Kong, é preciso investir em acessos sem barreiras, mais lares e formação de recursos humanos. Um novo mecanismo de protecção aos idosos vai agora a consulta pública
social e ambiente de vida. Estes dividem-se, por sua vez, em 14 diferentes questões, como a reabilitação e cuidados a longo prazo, transporte e deslocações, pub
construção e habitação e garantias jurídica e de segurança económica. Questionado sobre se a criação deste mecanismo estava relacionado com a Lei
de Protecção de Bases dos Idosos, que já deveria ter sido entregue à Assembleia Legislativa, mas ainda está atrasada, Iong Kong Io afirmou que se trata apenas de uma medida
cumulativa, exterior ao documento da proposta. Tudo isto, assegurou o IAS na apresentação do plano, deve culminar na promoção de “sentimentos de segurança e
de pertença, valorizando os idosos”. O Instituto prevê ainda que em 2036 a população com mais de 65 anos possa chegar aos 20,7%, sendo necessário preparar a região e a sociedade para lidar com o aumento progressivo dos seniores. A consulta pública sobre o novo mecanismo começou ontem e estende-se até 12 de Setembro, embora os resultados só venham a ser conhecidos “no primeiro semestre do próximo ano”, de acordo com um dos responsáveis do IAS ontem presentes na sessão. O mecanismo a desenvolver deverá implicar mudanças a vários níveis, nomeadamente na formação de recursos humanos na área da Geriatria, dos serviços sociais, dos médicos e enfermeiros, no número de vagas em lares de idosos, entre outras. De acordo com o estudo da universidade da RAEHK, é também necessário proceder ao “aperfeiçoamento da Lei de Bases dos Direitos e Garantias dos Idosos e das medidas para o acompanhamento, estabelecimento do regime de segurança social de dois níveis”. Em termos físicos, o mesmo relatório conclui que é preciso melhorar os acessos para as pessoas mais velhas, como em passagens superiores, passeios e a segurança doméstica. Leonor Sá Machado
leonor.machado@hojemacau.com.mo
Exportações sobem 8,7% no primeiro semestre
Défice não mudará A
s exportações de Macau aumentaram 8,7% nos primeiros seis meses do ano, sem impedir, porém, o agravamento do défice da balança comercial, indicam dados oficiais ontem divulgados. Segundo a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), as exportações atingiram 5,45 mil milhões de patacas – mais 8,7% –, contra importações avaliadas em 42,67 mil milhões de patacas – menos 0,3% face ao primeiro semestre do ano passado. Por conseguinte, o défice da balança comercial no primeiro semestre do ano corrente alargou-se, atingindo 37,21 mil milhões de patacas. Em termos do destino das exportações relativas aos primeiros seis meses do ano, Hong Kong surge no topo da tabela (3,37 mil milhões de patacas), seguido do interior da China (847 milhões de patacas), mercados que registaram aumentos de 10,5% e 20,1%, respectivamente. Em contrapartida, os valores exportados para a União Europeia (131 milhões de patacas) e para os Estados Unidos (97 milhões de patacas) caíram 16,2% e 39,9%, em termos anuais, respectivamente, informa a DSEC.
Até Junho, Macau exportou 5,09 mil milhões de patacas de produtos não têxteis – mais 9,3% face ao período homólogo do ano passado.
China lidera
Do lado das importações, o interior da China surge à cabeça, com bens avaliados em 15,80 mil milhões de patacas, mais 13,7% comparativamente aos primeiros seis meses do ano. Já da União Europeia chegaram mercadorias avaliadas em 9,64 mil milhões de patacas, menos 11,2%. O valor total do comércio externo de mercadorias cifrou-se em 48,12 mil milhões de patacas entre Janeiro e Junho, traduzindo uma subida anual de 0,6%, indica a DSEC. Só em Junho, as exportações corresponderam a 923 milhões de patacas – mais 17,6% face ao sexto mês de 2014. Destaca-se o valor da exportação doméstica, que atingiu 133 milhões de patacas, menos 20%, e, em particular, a de tabaco (24 milhões de patacas) que diminuiu 25,2%. Já as importações cifraram-se em Junho em 6,76 mil milhões de patacas, reflectindo uma queda ténue de 0,1%, em termos anuais. LUSA/HM
Pousada da Juventude de Hác-Sá reabre ao público
A Pousada da Juventude de Hác-Sá vai reabrir ao público, depois de ter sido usada para a criação de um acampamento de isolamento temporário para eventuais casos de infecção por coronavírus. A partir de 1 de Agosto, as instalações são reabertas dado que não foram detectados novos casos de infecção pelo coronavírus da síndrome respiratória do Médio Oriente desde o dia 6 de Julho e até agora. O cancelamento foi ordenado pelos Serviços de Saúde.
china
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
9
FMI Economia é “suficientemente forte” para enfrentar variações na bolsa
A força do império do meio A directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, desvalorizou esta quarta-feira as fortes quedas recentes na Bolsa de Xangai, considerando que a economia chinesa “é resiliente” e “suficientemente forte” para enfrentar essas variações na bolsa. Numa conferência ‘on-line’ através de Washington, Christine Lagarde respondeu às questões colocadas pelos jornalistas sobre as quedas na Bolsa de Xangai e se temia impactos dessas variações na economia chinesa. “Devemos olhar para o mercado bolsista chinês no médio prazo. A Bolsa de Xangai ganhou já mais de 8% quando comparado com o ano passado. É uma subida extraordinária, apesar das quedas recentes”, afirmou a directora-geral do FMI. Para Christine Lagarde, “a economia chinesa é resiliente pub
e suficientemente forte para enfrentar essas variações dos mercados”.
Aprender a ganhar
Além disso, considerou, a bolsa chinesa “ainda não está bem estabelecida”, quando comparada com as congéneres
norte-americanas ou europeias, e que por isso também há uma “curva de aprendizagem” dos intervenientes do mercado, tanto investidores como as próprias autoridades. A Bolsa de Xangai, cuja volatilidade voltou a alarmar esta semana os mercados inter-
nacionais, subiu ontem 3,44%, interrompendo três sessões consecutivas em terreno negativo. O Índice Composite de Xangai fechou nos 3.789 pontos, acima dos 3.725 de segunda-feira passada, quando a bolsa chinesa registou a maior queda dos últimos sete anos e cinco meses (8,48%). Na sexta-feira passada, pela primeira vez numa semana, a Bolsa de Xangai - com mais de 2.500 empresas cotadas - caiu 1,29% e continuou a perder nas duas sessões seguintes: 8,48% e 1,68%, respectivamente. A queda, e em particular a de segunda-feira passada, que foi descrita na imprensa oficial como “colapso”, reavivou a extrema volatilidade registada entre meados de Junho e a primeira semana de Julho, quando a bolsa chinesa perdeu cerca de 30%. Antes disso, e durante cerca de um ano inteiro, a bolsa chinesa valorizou-se mais de 150%, atraindo milhões de novos investidores.
Antigo vice-ministro do Ambiente investigado por corrupção
Um antigo vice-ministro chinês do Ambiente está a ser investigado por “grave violação da disciplina e da lei”, anunciou ontem a Comissão Central de Disciplina do Partido Comunista Chinês usando a terminologia habitual para os casos de corrupção. Trata-se de Zhang Lijun, 63 anos, membro do Comité Central do PCC, que ocupou aquele cargo entre 2008 e 2013. Filiado no PCC desde 1976, o exgovernante fez quase toda a sua carreira na área da protecção ambiental. Dezenas de quadros dirigentes com a categoria de vice-ministro ou superior foram presos no âmbito da campanha anti-corrupção em curso na China desde que o actual presidente, Xi Jinping, assumiu a chefia do PCC, em Novembro de 2012. O caso mais grave envolveu um ex-chefe da Segurança da China, Zhou Yongkang, condenado em Junho passado a prisão perpétua.
10
eventos
hoje macau sexta
Design Jovem local vence competição para decorar fachada do Hotel Roosevelt
Espuma, fumo e celebridade
M
acau vai ter um novo hotel na Taipa, desta vez livre de mesas de Jogo e totalmente dedicado ao mundo hollywoodesco, onde reinavam estrelas como Marilyn Monroe, Marlon Brando ou James Dean. Este deverá ser inaugurado durante o primeiro semestre do próximo ano e vai, de acordo com um dos investidores, Aaron Iu, dar primazia às gastronomias asiática e ocidental. “Estamos a planear ter um hotel com um serviço especializado de alta qualidade. Vai ter restaurantes chineses e ocidentais, por isso vai apresentar um bom estilo, mas não [será] para Jogo”, disse o investidor à Agência Lusa. O Roosevelt
pertence à mesma cadeia dos hotéis Roosevelt dos EUA, mas com uma componente asiática. “O conceito não é exactamente o mesmo do hotel de Hollywood, onde foi construído o primeiro. Este combina as tradições de Macau e as de Hollywood”, afirmou Iu. A possibilidade de abrir um hotel da cadeia na região foi anunciada em 2013, mas apenas recentemente se soube mais pormenores. Foi através de um concurso que o realizador local Kenny Leong venceu um prémio pecuniário de 300 mil patacas e a oportunidade de decorar parte da fachada e do terraço do empreendimento. O HM conversou com Leong e percebeu que se trata de um projecto complexo, revolucionário e “no qual poucas grandes cadeias investem”. Isto porque, explicou o artista, preferem ficar-se por elementos mais básicos e de mais fácil e barata manutenção, uma vez que se tratam de espaços frequentados por um grande volume de pessoas. Questionado sobre a natureza do projecto, Kenny Leong respondeu que demorou cerca de dois meses a completá-lo totalmente e as coisas foram surgindo aos poucos. “Demorei um mês e meio para desenvolver a ideia e acho que não vai ser assim tão caro [montar o projecto]”, disse. Visualmente, a obra de Kenny é feita de vários materiais e recorre a uma série de técnicas artísticas. Antes de mais, será colocada uma instalação de canos no ter-
Design vencedor de Kenny Leong
raço que ganha vida através da técnica de impressão em espuma em 3D. “Desenhei uns painéis verticais de [luz] LED com os quais os visitantes podem interagir, por meio de uma
À venda na Livraria Portuguesa Preces Antendidas • Danielle Steel
Um livro sobre a família e a amizade, sobre uma mulher que tenta libertar-se do seu passado e o homem que a ajuda a vencer. Com uma visão extraordinária sobre a vida de maridos e mulheres, amantes e familiares, Danielle Steel conta-nos uma história comovente e sábia de segredos que nos ferem e escolham que nos saram – e das segundas oportunidades, que só uma vez na vida acontecem.
aplicação móvel por exemplo”, explica Kenny. O conceito, diz, gira em torno da relação entre espaço e utilizador. Além de tudo isto, há ainda espaço para colocar painéis de fumo que
Kenny Leong venceu o concurso para decorar parte da fachada do futuro Hotel Roosevelt, na Taipa. Este deverá ser livre de mesas de Jogo, focando-se na temática de Hollywood. A inauguração está prevista para 2016
criam “uma enorme parede de projecção instaladas do hotel cá para fora”, contrariando assim o conceito tradicional de uma projecção, que o faz do projector para uma parede. Para completar,
Rua de S. Domingos 16-18 • Tel: +853 28566442 | 28515915 • Fax: +853 28378014 • mail@livrariaportuguesa.net
Bala Santa • Luís Miguel Rocha
Que acontecimentos estiveram por detrás da tentativa de assassinato do Papa na praça do Vaticano em 1981? Quem é, e o que sabia verdadeiramente Alia Agca, o turco que disparou contra João Paulo II? Que forças ocultas gerem os destinos da igreja católica e conseguem nomear e destronar Papas, ocultando impunemente as suas acções? Uma jornalista internacional, um ex-militar português, um muçulmano que vê a Virgem Maria, um padre muito pouco ortodoxo que trabalha directamente sob as ordens do sumo pontífice, vários agentes dos serviços secretos mais influentes do mundo e muitos outros personagens dos quatro cantos do globo, envolvemse numa busca pela verdade e descobrem que ela nem sempre é útil. Pelo menos não o foi para João Paulo II.
eventos 11
a-feira 31.7.2015
es
Marlon Brando e Marilyn Monroe da Hollywood americana.
O talento não abandona o artista
A história de Kenny começa em Macau, mas rapidamente continua do outro lado do mundo, no Canadá. Desde os cinco anos de idade que lá viveu, tendo frequentado a Universidade Ryerson, em Toronto. A sua primeira escolha havia sido Design de Interiores, a segunda Rádio e Televisão, mas o destino deixou que o jovem fosse parar ao curso de Novos Média. “Na escola, desenvolvi um projecto relacionado com design, mas acabei por não entrar no curso mais tarde, quando me candidatei”, lamenta. Foi há três anos que regressou ao território e confessou-se “muito agradecido” ao Centro de Design de Macau pela oportunidade de poder ter o seu próprio estúdio de produção de vídeo neste local. “É isso que basicamente faço e onde passo quase todas as horas dos meus dias, a trabalhar, pelo que estou muito grato ao Centro”, disse.
Lembrar para não esquecer
“O conceito não é exactamente o mesmo do hotel de Hollywood, onde foi construído o primeiro. Este combina as tradições de Macau e as de Hollywood” Aaron Iu Investidor
Kenny escolheu imagens de celebridades da “Era Dourada” para figurar nos painéis. “The Era” é o nome da sua invenção, precisamente por aludir aos actores como
Entre os premiados estiveram ainda projectos de Henrique Silva e de Rui Rasquinho, juntamente com uma equipa da Associação Art for All (AFA). O primeiro fez, de acordo com declarações do autor ao HM, uso de resíduos de estaleiros para decorar partes da fachada do prédio, de uma forma original. “A ideia foi pegar no entulho das obras e utilizá-los como elementos decorativos do próprio hotel, embutindo-os dentro de placas de epoxi [plástico semelhante a verniz]”, começa por explicar. O terceiro projecto foi primeiramente criado por Rui Rasquinho, mas posteriormente desenvolvido por uma equipa de artistas da AFA. No entanto, ao HM, o artista plástico disse que a ideia inicial foi recriar a cultura chinesa, com uma espécie de recursos aos elementos básicos. “Faz parte de uma série que estou a fazer e que se inspira directamente em elementos da pintura chinesa, mas não recria, apenas se inspira, usando elementos como a água, as rochas, as nuvens”, explicou.Apenas Kenny Leong ganhou a oportunidade de ver o seu projecto ganhar vida, mas Henrique Silva e Rui Rasquinho também receberam galardões pecuniários, no valor de 50 mil patacas, ao lado de Ng Hio Wai e Carlos e Pedro Ho. Leonor Sá Machado
leonor.machado@hojemacau.com.mo
Pintura Exposição de Crystal M. Chan no Albergue
“Estou à procura de algo poético” “E
u sou a minha própria paisagem” é, mais do que uma exposição, o resultado de uma nova fase da vida profissional da artista local Crystal M. Chan. A inaugurar no próximo dia 5 de Agosto no Albergue SCM, a exposição parte de uma frase de um poema de Fernando Pessoa para revelar quadros mais intimistas e minimalistas, onde até a forma de pintar e os materiais utilizados são diferentes. Poucas horas depois de ter regressado a Oriente vinda de Nova Iorque, onde passou meio ano, Crystal M. Chan explicou ao HM o que pretende mostrar ao público com os seus quadros. “Nesta altura estou a trabalhar com aguarelas e é algo bastante diferente em relação ao que tenho vindo a pintar no passado. Costumava usar outros materiais em que se podia ver mais os olhos e a face. Depois, a certa altura, senti que queria fazer uma mudança, que queria ver quais seriam as outras possibilidades que tinha ao nível da pintura. Penso que muitos dos trabalhos
que vi em Nova Iorque me inspiraram para fazer algo mais sobre a forma como quero representar o meu trabalho.”
Diferenças poéticas
O uso da aguarela nos quadros não surge por acaso. “Estou à procura de algo poético no meu trabalho e tenho vindo a usar aguarela para buscar esse lado mais poético e ver as diferenças”, disse Crystal M. Chan. “Estou a pensar na melhor maneira de representar algo de forma mais poética, menos narrativa e mais sugestiva. Mais minimalista. Estes trabalhos fizeram-me pensar que estava a pintar muito à maneira chinesa na forma do corpo, que tem diferentes texturas ou padrões. Essa é
a direcção que estou a tentar levar”, frisou. Não só a exposição revela uma nova fase de Crystal M. Chan como artista, como também revela uma fase em que a pintora tem estado mais virada para si mesma. “O nome da exposição é ‘Eu sou a minha própria paisagem’, é uma frase de um poema de Fernando Pessoa, um poeta português do qual gosto muito. Esse poema é sobre ‘eu tenho várias almas, não sei quem sou realmente’. Tenho vindo a pensar muito em o que sou, a minha própria existência.” Por essa razão, Crystal M. Chan decidiu pintar-se a si própria. “No passado, mesmo desenhando amigos, namorados ou familiares, a forma como os desenhava não os representava realmen-
te. Desta vez pintei-me a mim mesma, porque percebi que os meus trabalhos têm muito a ver comigo”, explicou. Um olhar sobre os quadros de Crystal M. Chan permite perceber algumas semelhanças com o estilo expressionista do pintor austríaco Egon Schiele, para quem o corpo humano, mas sobretudo o feminino, era o ponto principal. “A primeira vez que vi os seus trabalhos tinha 18 anos, num livro de pintura, e depois vi uma exposição em Viena. Quando vejo os seus quadros sinto que são muito poderosos, nunca sabemos muito bem quem foram as suas musas, mas pela maneira como ele desenha consigo sentir o desenho e a sensação de uma mente distorcida como a de Egon Schiele. Ele é a minha maior influência”, rematou Crystal M. Chan. A exposição no Albergue SCM fica patente até ao dia 23 de Agosto e a entrada é livre. A primeira vez que Crystal M. Chan expôs em Macau foi em Julho do ano passado. Andreia Sofia Silva
andreia.silva@hojemacau.com.mo
IFT Estudantes visitam Portugal para formação
Vinhos, cortiça e águas do Douro E studantes do Instituto de Formação Turística (IFT) visitaram Portugal para uma acção de formação nas áreas da Viticultura e Enologia, a convite da ESPRODOURO. O convite da Escola Profissional de S. João da Pesqueira surgiu depois de uma parceria acertada em Macau, na MIF, entre a instituição portuguesa e o IFT. Durante uma semana de Julho, um grupo de 14 estudantes e um professor frequentaram um workshop sobre vinhos. Mas a viagem não se ficou por aqui. “A prioridade da ESPRODOURO foi a de mostrar a qualidade e os segredos do vinho do Porto, localmente conhecido por ‘vinho generoso’, e também os vinhos de mesa. Contudo, não era vontade da ESPRODOURO que esta formação se cingisse apenas à descoberta dos vinhos do Douro. Por isso, tentou-se mostrar aos estudantes o património material e imaterial desta região ímpar, tendo como base a paisagem e o Rio Douro, dar também a conhecer os monumentos arquitectónicos do concelho de S. João da Pesqueira”,
pode ler-se num comunicado enviado ao HM pelo Gabinete de Comunicação e Imagem da Câmara Municipal de S. João da Pesqueira.
Formação e não só
O acordo entre a ESPRODOURO e o IFT foi celebrado em Outubro passado, quando uma delegação do município participou na Feira Internacional de Macau (MIF) e realizou reuniões com algumas instituições locais para eventuais parcerias. No encontro entre o IFT e a ESPRODOURO foi apresentada uma proposta de formação sobre a vinha e o vinho do Douro a ter lugar em S. João da Pesqueira, concelho que já foi representado em feiras de Macau por mais do que uma vez. “Este projecto teve grande aceitação por parte do IFT e um grupo de estudantes macaenses foi seleccionado para incorporar o primeiro grupo a frequentar esta acção de formação”, explica a Câmara em comunicado, acrescentando que “esta formação se revestiu de uma componente teórica em sala de aula e foi enriquecida em contexto real de
trabalho com provas de vinhos, visitas a quintas, vinhas e adegas onde [os alunos] puderam verificar todo o processo produtivo”. Sendo a cortiça “um componente forte na fase final de engarrafamento dos diferentes tipos de vinho”, os estudantes foram ainda à corticeira de Castanheiro do Sul. “Puderam ainda apreciar a vida religiosa e mundana, os usos e costumes do povo duriense através das visitas a museus, nomeadamente aos museus etnográfico e de arte sacra de Trevões, e museu do vinho de S. João da Pesqueira. A gastronomia duriense esteve sempre presente e, porque em qualquer processo formativo a componente lúdica deve ser uma constante, foi ainda possível navegar nas águas do Douro. Com esse leque de saberes agora adquiridos, acreditamos que deixaram esta região, Património Mundial da Humanidade, enriquecidos culturalmente”, remata o Gabinete de Comunicação e Imagem da Câmara Municipal de S. João da Pesqueira. Joana Freitas
joana.freitas@hojemacau.com.mo
h
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
artes, letras e ideias
12
OS INTERESSES DA EMBAIXADA
S
e Duarte Coelho foi um dos responsáveis pelo início das hostilidades navais com os chineses, apesar de Joaquim Veríssimo Serrão dele dar uma imagem de homem honrado e ilustre diplomata, anteriormente, já Simão de Andrade, sem tacto diplomático, “cometeu um erro que originou o primeiro equívoco grave nas relações com as autoridades locais”, como refere João Paulo Oliveira e Costa, e, “após os conflitos armados luso-chineses, ocorridos entre 1521 e 1522, nas águas de Tunmen, a Corte de Pequim decretou o encerramento dos portos cantonenses. Inicialmente, (...) as autoridades de Cantão recusavam (os portugueses,) os de Aname e Malaca. Desde que os mais variados bárbaros de Aname e Malaca foram recusados, eles iam fazer comércio clandestino às águas da prefeitura de Zhangzhou (漳州, Chincheo) fazendo com que a província de Fujian (福建) lucrasse com isso, deixando o mercado cantonense numa situação paupérrima” segundo Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, “O encerramento total dos portos cantonenses provocou danos insuportáveis à economia de Cantão, que tem sido, desde as dinastias Tang (唐, 618-907) e Song (宋, 860-1279), um importantíssimo empório para o comércio externo chinês. As receitas locais caíram a pique. A ordem económica local e de uma boa parte do Centro e Sul da China estava afectada e desequilibrada. A situação financeira de Cantão era de tal maneira caótica que nem conseguiam pagar os soldos e os vencimentos da função pública. Esta situação dramática levou o vice-rei Lin Fu a moralizar a Corte Central em 1529, apelando à revogação das proibições marítimas impostas a Cantão. O memorial ao Trono foi favoravelmente despachado e restabelecido o sistema tributário em Cantão, mas os portugueses continuavam proibidos de vir às águas de Cantão. No entanto, alguns, após uma década de ausência do litoral cantonense, começaram a voltar ao negócio da China, a título individual e integrados em grupos tributários de alguns países do Sudeste Asiático, principalmente disfarçados de siameses.” Com os dois conflitos navais no Rio das Pérolas ganhos pelos chineses aos portugueses, em 1522 terminou “o primeiro período que começara com a chegada de Jorge Álvares à China em
1513”. Iniciava-se um novo ciclo “em que os Portugueses começaram a frequentar o litoral de Fujian e Zhejiang e que acabou” em 1549 “e podemos designá-lo como Entre Chincheo e Liampó” Revisitar os Primórdios de Macau.
O antigo Sultão de Malaca “As petições do enviado do antigo sultão de Malaca, ferozmente anti-portuguesas, encontraram um renovado acolhimento na corte imperial, onde foram analisadas pelo libo (Rui Manuel Loureiro, Cartas dos cativos de Cantão: O libo de Cristóvão Vieira corresponde ao Tribunal do Ritos pequinense, que estava encarregado de organizar o protocolo das missões tributárias (Hugh b. O’Neill, Companinon to Chinese History). A partir das informações, algo confusas, do prisioneiro português, pode deduzir-se que em finais de 1521 a missão de Tutão Mafame rumou novamente a Pequim, onde pôde apresentar as suas razões em audiência imperial. O embaixador malaio queixava-se da abusiva conquista de Malaca pelos portugueses, pedindo a intervenção militar do Filho do Céu para repor a legalidade, ao mesmo tempo que denunciava a embaixada de Tomé Pires como missão de espionagem. Subsequentemente, os malaios foram reenviados para Cantão, com a promessa de que brevemente <lhe mandariam o despacho>”. E continuando no Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang: “A decisão imperial, com efeito, não tardou, após o lipu ter deliberado que <a terra dos franges devia ser cousa pequena chegada ao mar>, uma vez que <depois que o mundo é mundo nunca viera a terra da China embaixador de tal terra>. O Imperador Jiajing (1522-66) ordenou, em primeiro lugar, que a carta do monarca português fosse queimada. Depois, o presente trazido por Tomé Pires devia ser recusado. Em terceiro lugar, o embaixador e os membros da sua comitiva deviam ser aprisionados e mantidos como reféns. Ou seja, a China não reconhecia a missão portuguesa como embaixada tributária formal. Finalmente, as autoridades provinciais deveriam escrever a el-Rei D. Manuel e ao seu representante em Malaca, com instruções peremptórias para que esta cidade fosse devolvida ao seu legítimo
soberano. Após a entrega da praça ao antigo sultão, Tomé Pires e os restantes prisioneiros seriam libertados. Caso o Rei Venturoso desrespeitasse as decisões imperiais, realizar-se-ia um novo conselho. Entretanto, os navios portugueses deveriam ser rigorosamente impedidos de visitar portos chineses. (Rui Manuel Loureiro, Cartas dos cativos de Cantão. Para T’ien-Tsê Chang, a conquista portuguesa de Malaca, que viera perturbar o equilíbrio político-militar no Sudeste Asiático, foi o factor determinante no fracasso da embaixada de Tomé Pires (Malacca and the failure)” Rui Manuel Loureiro. “Com a denúncia dos emissários do desapossado sultão de Malaca, ficou apurado o facto – já tão bem conhecido pelas autoridades de Cantão como pelas centrais, mas omitido de propósito pelos mandarins e eunucos junto do Imperador – de que eram mandados pelo país Folangji, que conquistara a cidade, tributária da China. Mesmo assim, a Corte só mandou executar os intérpretes sob a acusação de terem trazido à China estrangeiros e não maltrataram os membros não asiáticos da embaixada” Revisitar Os Primórdios de Macau. E ainda desse livro: “Quanto aos contactos com a Corte, (...) foi Ning Cheng, quem fez este favor aos Portugueses porventura em troca de algum presente ou suborno”.
foi preparada postumamente por Yang Tinghe que exerceu a regência durante a sucessão, juntamente com a Imperatriz-Mãe. Pelas fontes chinesas, sabemos que no momento do falecimento do Imperador Zhengde, o quase regente Yang Tinghe, por uma questão de segurança da capital, tomou muitas medidas, das quais algumas implicavam o repatriamento de embaixadas, tais como as de Qomul, Turfan e a de Portugal, que se encontravam em Pequim, além da execução do eunuco Jiang Bin, entre outros protegidos do Imperador Zhengde. Como o falecido Imperador
Sem ordem de prisão Encontrava-se desde 22 de Setembro de 1521 Tomé Pires e os restantes membros da sua comitiva em Cantão, mas só a 14 de Agosto de 1522 foram formalmente acusados de entrarem em território chinês sob falsos pretextos. Altura em que decorriam nos mares de Cantão os confrontos entre a armada chinesa e os navios de Martim Afonso de Melo Coutinho. “Quanto à rejeição da embaixada, inicialmente, quando os Portugueses foram mandados de volta a Cantão, não houve ordem de Pequim para deter a embaixada em Cantão, como bem elucida um trecho do diário de Yang Tinghe, o ministro mais influente dessa altura: <(...) quanto aos bárbaros de Folangji, mandem-nos sob escolta de volta para Cantão, onde ficarão à espera de novas ordens de Baofang (Casa de Leopardo)>. Esta ordem foi dada como correspondendo à vontade expressa pelo Imperador Zhengde no seu testamento, mas a verdade é que
Mesquita Huaisheng
artes, letras e ideias 13
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
José Simões Morais
não deixou descendentes, o vácuo do poder poderia dar lugar a uma renhida luta pela sucessão entre os diferentes ramos da casa imperial, como costumava acontecer nestes casos. Assim sabemos que o principal motivo do reenvio da Embaixada de Tomé Pires para Cantão se ficou a dever a uma questão de segurança nacional.” “A questão é que a vinda da Embaixada de Tomé Pires para Cantão terá sido interpretada pelas autoridades provinciais como um claro sinal de rejeição dessa missão. Para esconder a sua cooperação e participação neste processo passível de ser considerado como uma fraude, uma irregularidade que poderia custar a carreira e até mesmo a própria vida a essas mesmas autoridades, caso fosse descoberta, houve, pois, todo o interesse em silenciar o
caso. Entretanto, chegou de Pequim a ordem de deter a embaixada, tomando os seus membros como reféns até à desocupação de Malaca. Daí que, como nos informa Cristóvão Vieira, as autoridades de Cantão passassem a perseguir implacavelmente os Portugueses com todas as acusações possíveis e imagináveis e com todos os meios ao seu alcance” Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang.
O presente real Quanto aos presentes destinados ao Imperador chinês, pelas fontes portuguesas, sabemos que o embaixador Tomé Pires os levou; todavia, até agora não foi possível localizar nenhuma lista, embora haja muitas referências a
O encontro entre os governantes da cidade e o Embaixador Tomé Pires decorreu na Mesquita Huaisheng, que continua hoje a existir na Rua Guangta, no centro de Cantão eles. O que levou Rui Loureiro a colocar estas questões: “O presente para o Imperador nunca é descrito na documentação quinhentista. Por mero lapso? Ou talvez porque a missão de Tomé Pires não tinha o estatuto oficial de embaixada e, como tal, o presente que transportava não era significativo?” De novo no Revisitar os Primórdios de Macau de Jin Guo Ping e Wu Zhi-
liang: “Em nosso entender, dado que a primeira missão diplomática portuguesa junto da Corte chinesa foi uma iniciativa lisboeta e o embaixador seleccionado e nomeado pelo vice-rei da Índia, o presente destinado ao Imperador da China foi preparado in loco e de modo improvisado. Talvez esta tenha sido a razão da insignificância dos presentes. No entanto, a pobreza da oferta leva-nos a crer que a primeira missão diplomática portuguesa teria mais por objectivo um reconhecimento do terreno do que apresentar-se como uma embaixada propriamente dita, como nos revela António Galvão: <E esteve Fernão Peres catorze meses numa ilha que se chama Veniaga, informando-se das coisas daquela terra, como lhe mandava El-Rei, por serem muito grandes e notáveis; e ainda que já lá fora Rafael Perestrelo em um junco de mercadores de Malaca, mas a Fernão Peres se deve dar o louvor deste descobrimento, (tanto) por ser por El-Rei mandado, como por descobrir tanto com armada. E Tomé Pires por terra, e Jorge Mascarenhas por mar e costa até à cidade de Foquiém, que está em vinte e quatro graus de altura. Além da própria questão da baixa origem social do embaixador, é disso prova tanto o facto de que nem os membros da própria embaixada se lembrarem de tais objectos, como o da estranha e completa ausência de referências ao conteúdo do presente nas fontes quinhentistas portuguesas>” Revisitar os Primórdios de Macau. E nele continuando: “Ora, também este documento chinês tem esse mérito: o de preencher uma lacuna multissecular na historiografia portuguesa das relações luso-chinesas. Analisando o conteúdo da lista, não podemos dizer que fossem presentes preciosos em extremo. No entanto, não eram de preço menor. Para isso, é interessante ver as componentes desta relação. O objecto que lidera o inventário é o coral em rama, que era muito apreciado na China imperial”. Mas, como objecto de maior valor que vinha no presente, para além de alguns tecidos e vidros, “os portugueses incluíram um espadagão de três gumes e outro terçado de ferro, uma escolha diplomática prudente a substituir as armas de fogo, que tanto poderiam causar admiração como suspeita.” A observação de que “o cabecilha costumava ler livros” confirma que Tomé Pires era um homem culto e amigo da leitura” Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang.
14
h
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
D
or e cão para pernoitar. Como uma senha cúmplice. Disse ao monge que me abre a porta pesada a ranger nos gonzos, com aquela idade indefinida que lhe imaginei, e que me parece um conhecido de sempre, tantos os emails trocados. Estendo-lhe a mão e ele, olhando para mim e para trás de mim, surpreende-me com três beijos nas faces. Muito fraternais, muito firmes muito urbanos aqui neste confim que tanto me obrigou a trepar. Exausta. Pedi um quarto de casal com uma caminha extra desmontável, lembro-lhe. Ele riu, ligeiramente trocista. Entendi mais tarde que aquilo que parecia ironia, nele, raramente era outra coisa senão ternura. Abriu a porta do quarto que eu esperava e disse que teríamos que nos revezar, ou tirar a cama estreita à sorte todas as noites. Vim pelo claustro. Mas também pelas montanhas que aqui bem perto têm a verticalidade lisa de lâminas, e pelas árvores que densamente bordejavam o caminho até aqui acima. E também pelas mesas compridas de madeira que percorrem o refeitório em que eles se sentam silenciosos em frente a malgas que eles mesmos fazem, de um minimalismo essencial como só no Japão e por outras razões que tradicionalmente talvez se cruzem com as que subjazem a esta estética. E pela cama sóbria, elementar e nua que habita os quartos de todos e também dos visitantes como eu. Não vou dizer o lugar, que conheci há muito num artigo de jornal, nem vou descrever a aventura quase penosa que me trouxe aqui. Eles merecem essa descrição e merecem ser conhecidos mas ficar na memória só para quando algo de especial passa. Eu vim pelo claustro e pelo silêncio radical a que eles me destinam de que precisava usufruir como um banho purificador. Não vou detalhar-me na candidatura quase desesperante nos termos. Entendo a auto-protecção necessária e por fim vim. Está frio aqui. Mais do que imaginei, mas vim prevenida e sem vaidades. Tudo aqui é reduzido ao elementar. Vim pelos claustros, já o disse, e pelo silêncio. E vim para alimentar o meu desgosto em paz. Todos dizem isso. Diz-me de olhar azul e transparente num sorriso, o monje, que é a ponte entre mim e as regras do lugar. Com aquela calma contemplativa e a benevolência que se espera. Respondi que é natural os seres humanos terem em comum essa necessidade. Aí o olhar dele, mas não os lábios, sorriu ainda mais, e acrescentou que raramente depois e de facto se verifica ser essa a verdadeira necessidade, mas sim a de derramar a alma, nos ouvidos de quem puder acolhê-la. E aqui, só ele se destinou a ter essa função, talvez por também ter menos vocação para o silêncio. Talvez porque o mosteiro se deixa usar mesmo para sua própria viabilidade, ou talvez porque dedicando-se aos outros alcança melhor as trilhas do seu caminho. Lancei-lhe estas hipóteses e finalmente sorriu com o rosto todo. Peut-être… E quanto a si, veremos… acrescentou e sorriu de novo. Julguei ver de novo uma pontinha de ironia benévola. Garanti-lhe que não o incomodaria muitas vezes saindo das minhas primeiras intenções e de facto poucas vezes o vi, e sempre pelo acaso da sua preocupação. E sempre sorriu como se contente da minha persistência. Mas nos primeiros
anabela canas
Ficam dois e uma parte
dias, reparei que era ele que de algum modo se propunha ao diálogo, como se quisesse inteligente e generoso, deixar-me confortável para encetar o meu silêncio das despedidas só se verdadeiramente fosse aquilo de que necessito, ou para estar ali a acompanhar-me, sem me dar a impressão de insucesso, poupando-me à eventual frustração, já que era ele a vir ao meu encontro. Porque ele sabe que muitos dos visitantes chegam imperfeitos, e ser generoso é não os confrontar com a imperfeição. Poucas vezes ou nenhuma, senti tanto o reflexo atento de alguém, face ao intuído. Até o fumo negociei com ele. O fumo e o feminino, assunto este, tão ou mais complexo e igualmente fora dos limites estritos da ordem. Mesmo nos visitantes. Dura negociação e duras conversações. E também aí, fui surpreendida pela profunda generosidade que na maioria das vezes
não se encontra na ortodoxia destas ordens. Garanti-lhe que, nas camisas brancas que levaria, recordação dos vários homens da minha família, e no resto do meu equipamento habitual, pouco vislumbrariam desse feminino proibido ali. O quarto, e a cama reduzidos à essência, como disse. Belos e legítimos. Uma assombrosa janela sobre um pedaço do vale meio confundido pelo muito arvoredo. Da cama, tudo o que é necessário para ser uma boa cama. Os lençóis de um linho quase áspero e amarelado, um colchão firme. Uma almofada rija e alta e um único cobertor de lã, num castanho muito escuro, que na primeira noite percebi insuficiente para mim, e com uma única risca cinzenta a delimitá-lo de um só lado, o que me intrigou. Ainda persisti duas noites no frio irremediável até que cedi à incontornável necessidade de dormir algumas horas e apelei por mais dois. Iguais
artes, letras e ideias 15
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
de tudo e de nada
em tudo e que, somados, eram de um enorme conforto, então. E o meu cão ao lado da cama sempre. Sem um tapete mas com o pêlo comprido a fazer parecer que esteve sempre bem. A mesma estética minimalista ou essencialista e depurada, constatei nos utensílios à refeição, toda a cerâmica feita ali mesmo por eles, e uma parte dela comercializada por necessidade, embora com tristeza. Gostariam de não ter que lidar com dinheiro e de pouco precisam. Mas a variedade subtil de formas e tons maioritariamente variando entre os azuis e os verdes aquosos, fizeram-me pensar que as cores quentes não são para eles um anseio da alma. Nas formas, perfeitas até ao desaparecimento de vestígios artesanais, via-se serem a procura e o apuro progressivo e perfeccionista. Com variações por vezes para pequenas assimetrias. Uma cerâmica fina, argila da região, a lembrar
oriente. E os talheres de pau. Basicamente apenas colheres e as facas do pão. Mesmo as refeições se pautam pelo mesmo rigor. Tudo produzido por eles na horta primorosa. Uma única refeição sempre constituída por uma sopa espessa variada e abundante. Com alguma carne, muitos legumes e uma grossa fatia de pão. E ao dejejum, sempre o mesmo pão, com queijo fresco ou mel, ou ambas as coisas e sempre. Como são belíssimos aqueles pães enormes grosseiros, toscos, cheirosos e ainda quentes. Tudo intenso de paladar e curiosamente em quantidade saciante. O que me pareceu bem, não pensei nunca que o sacrifício e o maltratar do corpo fossem caminho necessário para provar o que quer que fosse. Eles têm uma vida útil, oferecem o silêncio e a fé. Para quê adicionar sofrimento… Rumei um pouco mais a norte, para chegar aqui. Passei duas fronteiras. Penso que uma é a da dor e outra, a do lugar da dor. Penso que uma é a da dor e outra, a da inércia. Mas só por uma delas ponho as mãos no lume. Quanto à dor, não se pode deixá-la escorrer no espaço normal de sempre e para o sempre de todos os dias, sob pena de ela impregnar indelevelmente o habitáculo das paredes que por reflexo voltarão a macular-me mais e mais. A dor precisa do seu cenário próprio. Acolhedor, digno, acalentador mas longínquo. E de ficar lá, tentando que não nos acompanhe no regresso. Mas a dor, como um cão. Não se deixa abandonar facilmente e por vezes percorre os quilómetros de uma vida e até à exaustão, atrás do dono. Caminhar. Foi para o que vim. Sem o olhar se perder em nada ou prender a nada. Nada querer e nada querer ver. Uma sucessão de minutos e horas e dias, cheios de sinais exteriores à dor, em que as únicas marcas que se imprimem são aquelas coisas – tantas - que a fazem lembrar. E todos esses signos de que se rejeita a leitura, todos esses conjuntos de formas significantes, todas as cores, os movimentos e os sons, nada dizendo que se queira ouvir, funcionam a longo prazo como uma superfície abrasiva. Uma pedra-pomes que desgasta, refina e alisa o sentir. Mais ainda. Mas não se ama a dor. Como não se ama a mágoa. Só que uma e outra, a ter uma representação possível, é literalmente o rosto do objecto da dor. Da mágoa. E como tal, é paradoxal o desejo e temor de a perder. Porque com uma e outra, se vai ele também. Para o lugar do nunca mais. Maior o rigor e diria que se ama a tristeza e a dor, mas não se quer ficar nela ou com ela para sempre. E não por elas em si mas pela memória registada a ferro e fogo nelas. É só um divórcio triste. E que se deve encetar com a delicadeza e o tempo de fazer bem as partilhas. Sim, eu trouxe o meu cão. E ao meu cão dei um nome feminino. Não sei bem porquê, talvez para ser forte. Tal como chamei Feliz ao gato para enganar a sorte. Não o deixei abandonado nem vim a fugir dele, e com ele, desesperado, a correr atrás do comboio tentando não me perder o rasto. O meu animal querido. E com ele passei os dias. Colado a mim. A caminhar em torno do claustro até à tontura. Tentando progressivamente andar mais devagar e assim abrandar o ritmo cardíaco e as guinadas da dor. E ele, que foi lentamente conhecendo o ritual diário e a obsessão do percurso, passou a, uma vez por outra, esperar-me deitado ou
Anabela Canas
sentado no ponto qualquer do caminho, seguindo-me depois a partir dali. Ou não. Aleatoriamente primeiro, e a pouco e pouco, mais espaçadamente. Suponho que se resignava a ficar, tal como eu aprendia a deixá-lo para trás. De início custou-me. Da primeira vez que parou sem me seguir, senti um travo amargo de desapontamento. Mas quase sempre não se afastava muito das minhas pernas. Suponho que queria dizer que estava lá para mim, enquanto necessário, mas sabia que não era para sempre e que teríamos que nos despedir com desgosto no final da estadia. Ele sabe, não sei como, que o vou deixar ali. Não abandonado, mas entregue a quem tratará bem dele. E que encontrará ali a sua última morada, num sítio belo. E com uma pequena pedra com uma frase minha de carinho. E eu sabia que ele não iria seguir-me na abalada porque entendia. Que tinha que ser assim. E que eu não iria esquecer nunca. E ele também não. Iria farejar de vez em quando pequenos pontos nas pedras daquele chão, onde talvez persistisse um registo ténue de lágrimas. E depois, vou ter para sempre saudades do meu cão. Hoje eu sei que este e outros sentimentos são para sempre. Mas o esquecimento recobre as saudades como recobre um amor. E só quando umas e outros vêm à memória, de forma aguda e cortante, se entende que estão lá e sempre estiveram. Num recanto escuro e esconso dos bastidores. Para sempre. Ou então, se a memória for generosa como o monge que conheci aqui, para nunca mais. Mas ele, por aqui, não vai comer pão por muito tempo. Carrega uma idade inverosímil para um cão. E um dia, não muito longe, virá uma carta, simples e delicada - eu sei - com uma fotografia do lugar em que ficou. Tratei de tudo com o irmão. Perguntei-lhe se me enviaria um email, porque há toda uma logística que mesmo aqui já se trata desse modo. E ele, sem aquele sorriso habitual e só dos olhos, neste caso, disse que as coisas importantes se escrevem em papel. Sim. Com invisíveis dedadas e impressões deixadas pela subtil gordura das mãos, o ritmo da escolha das palavras certas em modo e número. As dobras no papel, a espessura, a dança da caligrafia o rasgar do envelope. Ou no silêncio do ar. Como o contrato de silêncio - perguntei. Sim, disse. Fiz alguns desenhos do claustro e da capela. Quando fiz menção de lhos deixar, foi rigoroso na recusa. Disse: leve-os para suporte de memória. Nós ficamos com o melhor de si. (A dor?) Para se lembrar de como ela ficou bem entregue. O seu cão. Amanheceu e levanto-me de imediato com os primeiros raios. A experiência diz-me que acordada na cama sou pasto fácil para pensamentos devoradores. Preciso de caminhar muito ainda e aproxima-se o tempo de voltar. E das despedidas. Amanhã. A porta fecha-se entre mim e o irmão dos olhos sorridentes, sérios no momento. No último instante já não é ele mas um outro diferente e dos que nunca quebraram o silêncio devido. Quase duvido do que vejo, tão fugaz foi o momento. E de tudo. Enceto a descida. O passo rápido e embalado porque a descer todos os santos ajudam. E do que não posso duvidar, é de que vou mais leve. Sem eles. Mas não menos triste. Ficam dois, e uma parte. O combinado. Dois e uma parte.
16
( F ) utilidades
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
?
tempo aguaceiros ocasionais min 26 max 31 hum 70-95% • euro 8.72 baht 0.23 yuan 1.28
Cineteatro
O que fazer esta semana
Cinema
mission: impossible rogue nation Sala 1
mission: impossible rogue nation [b] Filme de: Christopher McQuarrie Com: Tom Cruise, Jeremy Renner, Simon Pegg, Rebecca Ferguson 14.15, 16.45, 19.15, 21.45
Diariamente
Sala 2
ant-man [B]
Filme de: Leigh Whannell Com: Dermot Mulroney, Stefanie Scott, Angus Sampson 16.45, 21.30 Sala 3
inside out [a]
Falado em cantonês Filme de: Peter Docter 14.15, 17.45, 19.30
minions [a]
Filme de: Peyton Reed Com: Paul Rudd, Michael Douglas 14.30, 19.15
exposição “Um olhar sobre o passado” Fundação Rui Cunha, (até 1/08) Entrada livre
insidious: chapter 3 [c]
FALADO EM CANTONÊS Filme de: Pierre Coffin, Kyle Balda 16.00, 21.30
Exposição de fotografia “Cities” Creative Macau (até 22/08) Entrada livre Exposição “O legado de Amílcar Cabral” Casa Garden, 18h30 (até 31/07) Entrada livre
Aconteceu Hoje
31 de JUlHO
Vitória de Chiang Kai Chek Exposição “Saudade” (até 30/9) MGM Macau Entrada livre “A Arte de Imprimir” (até Dezembro) Centro de Ciência de Macau Entrada livre Exposição “Ao Risco da Cor - Claude Viallat e Franck Chalendard” Galeria do Tap Seac (até 9/08) Entrada livre Exposição “Who Cares” (até 28/07) Armazém do Boi, 16h00 Entrada livre Exposição “De Lorient ao Oriente - Cidades Portuárias da China e França na Rota Marítima da Seda” Museu de Macau (até 30/08) Entrada livre Exposição de Artes Visuais de Macau (até 2/8) Pintura e Caligrafia Chinesas Edifício do antigo tribunal, 10h00 às 20h00 Entrada livre Exposição “Valquíria”, de Joana Vasconcelos (até 31 de Outubro) MGM Macau, Grande Praça Entrada livre
h o j e h á f i l m e “True Story” (Rupert Goold, 2015) Um filme intenso, de cortar a respiração e tão bem feito, que o vai deixar confuso no início. Uma quase inacreditável história verdadeira, de um homem que sofre de uma doença mental pouco ou nada tida como uma verdadeira doença: transtorno de personalidade narcisista. Christian Longo (muito bem interpretado por James Franco) é um homem procurado pelo FBI por ter alegadamente ter morto a mulher e os três filhos. Mas, fê-lo? Longo faz-se passar pelo repórter Michael Finkel, jornalista do New York Times caído em desgraça, e a história começa aqui. Um verdadeiro jogo do rato e do rato. Joana Freitas
• A 31 de Julho de 1931, dá-se o triunfo militar de Chiang Kai Chek sobre os comunistas rebeldes chineses. Chiang Kai Chek foi um militar e político chinês que assumiu a liderança do Kuomintang (partido político conservador da China na época) depois da morte de Sun Yat-sen, em 1925. Foi Chiang quem comandou a Expedição do Norte, que tinha como objectivo unificar a China contra os chamados Senhores da Guerra da China, que dominavam algumas regiões do país. Saiu vitorioso em 1928, como o líder da RPC. Foi escolhido o Homem do Ano em 1937, juntamente com Soong May-ling. A República da China caiu na Segunda Guerra Sino-Japonesa com o Império do Japão invadindo a Manchúria, em 1937, o que fragilizou a imagem de Chiang dentro da China, mas cresceu externamente. Durante a Guerra Civil Chinesa (1926-1949), Chiang tentou erradicar os comunistas chineses, mas falhou nessa tentativa, e se viu tendo ter que recuar o seu governo para a Formosa (Taiwan), onde continuou actuando, agora como presidente da República da China nessa ilha. Neste dia, em 1609 dá-se a libertação dos indígenas do Brasil. Quando os portugueses chegaram, havia mais de dois milhões de índios só no litoral da Baía. Os povos eram divididos em troncos linguísticos, dos quais se destacavam os Jês, os Nu aruak, os Karibi e os Tupis. A maioria dos índios era chamada de tupi. A 31 de Julho de 1944 o aviador Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro “O Principezinho”, desaparece num avião na região norte de África. Em 2006, após 46 anos no poder, Fidel Castro deixa o cargo de presidente de Cuba, passando-o para seu irmão, Raúl Castro.
fonte da inveja
Não se aprende com a vida. Não há tempo. Muito é gasto a desaprender.
João Corvo
opinião
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
paul chan wai chi*
17
um grito no deserto
R
ecentemente, os tribunais locais pronunciaram dois membros de uma associação que concorreu na quinta sessão eleitoral para a Assembleia Legislativa como culpados do crime de corrupção eleitoral, tendo para o efeito recebido sentenças de 18 e de 15 meses de prisão. Mas mesmo assim, várias pessoas manifestaram o seu desagrado com esta decisão, defendendo que esta sentença não vai conseguir mudar os resultados eleitorais já obtidos nem tão pouco deve conseguir dissuadir a própria tradição de corrupção eleitoral. Mesmo atendendo ao facto de esta decisão judicial não ter poder para reverter os resultados do acto eleitoral em questão, conforme está estipulado na Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa agora em vigor, não nos devemos esquecer que pode contudo servir de aviso para aqueles que aceitam receber ordens de outros em troca de recompensas materiais. No mínimo esta história serve para demonstrar que de facto se verificaram casos de fraude eleitoral durante o processo eleitoral para a quinta constituição da AL, sendo no entanto necessário realçar que os dados agora comprovados em tribunal representam apenas a ponta do icebergue. De forma a garantir que tal não volte a acontecer no futuro mas também que as próximas eleições decorram de uma forma justa e equitativa, o Governo da RAEM deve rever a Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa e colmatar as eventuais lacunas que esta revelar. Ao mesmo tempo, o Comissariado Contra a Corrupção assim como a Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa devem igualmente trabalhar de uma forma pro-activa para impedir que qualquer indivíduo se aproveite de possíveis falhas de rigor legislativas para assim se dedicar ao crime de fraude eleitoral. Isto deve ser feito o mais rápido possível de forma a prevenir que membros do público façam uso de associações para transferir favores ou outros benefícios a terceiras partes, sendo este um dos truques utilizados no passado para comprar votos, não obstante ser realizado de forma dissimulada. Além disso, a decisão do Tribunal vem informar o público que aqueles que se dedicam à compra de votos, quer através da oferta ou aceitação de subornos, estão de facto a quebrar a lei, constituindo este acto um crime que deve ser punido de acordo com a lei. E, mesmo que a Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa não seja capaz de anular os resultados das eleições em causa, conforme acima mencionado, esta pode contudo acarretar consequências graves para os candidatos eleitos. As leis são sempre justas e correctas. Quem quiser
Mark Robson, The Harder They Fall
A corrupção eleitoral é um crime que faz com que os candidatos errados sejam eleitos
acusar qualquer um dos candidatos da prática de corrupção eleitoral, tem invariavelmente de apresentar provas para corroborar essa mesma acusação. E, quando ficar provado que os membros de uma qualquer associação com candidatos eleitos para a AL cometeram de facto corrupção eleitoral, o caso assume contornos semelhantes ao que se verifica quando um empreiteiro contrata imigrantes ilegais para uma das muitas obras locais. Pois mesmo quando este se encontra numa situação de falta de mão-de-obra, o mesmo não pode deixar de ser responsável pela contratação ilegal de trabalhadores empreendida pelos seus subempreiteiros, nem que seja devido a uma obrigação moral. Da mesma forma, quando uma associação pratica corrupção eleitoral para conseguir a eleição dos seus candidatos, todas as outras associações são injustamente prejudicadas. Já no que diz respeito aos candidatos eleitos, e de acordo com a premissa de que todos são inocentes até serem provados culpados, estes não são considerados como culpados
“Teremos de melhorar a educação cívica dos nossos cidadãos para que estes compreendam que, nas lides políticas, nada se colhe gratuitamente”
de corrupção a não ser que existam fortes provas para o mesmo, e da mesma forma o seu estatuto de candidato eleito permanece válido e não deve ser desacreditado. Existem porém casos em que os membros de uma qualquer associação local utilizam o seu próprio dinheiro para proceder à compra de eleitores, mas estes casos devem contudo ser encarados de uma maneira diferente. Não nos podemos esquecer que o factor crucial para o sucesso de uma candidatura à Assembleia Legislativa é a escolha dos eleitores. Durante o acto de 2013, todas as assembleias de voto foram supervisionadas por fiscais de modo a garantir o cumprimento das normas. Mas que táctica foi então utilizada para garantir que certos eleitores votassem nos candidatos especificados por aqueles que procederam à compra de votos? Foi por esta mesma razão que eu decidi dedicar todos os meus esforços nos anos transactos ao fortalecimento da consciência cívica da população de Macau, ao mesmo tempo que procuro encorajar aqueles que considero serem não só incorruptíveis mas também como dispostos a servir a RAEM, a se candidatarem para a AL nas próximas eleições. Tenciono desta forma contribuir para que as gentes de Macau desenvolvam um novo respeito pelo processo eleitoral, ao mesmo tempo que se fortalece a tradição democrática na RAEM. Mas para que isto se torne numa realidade, vai ser necessário não só melhorar a qualidade dos próprios eleitores como ainda rever e melhorar as leis que supervisionam todo este
acto eleitoral. Na minha opinião, o Governo da RAEM tem de tornar público o relatório final que lhe foi submetido pela Comissão de Assuntos Eleitorais da AL, referente este às eleições legislativas de 2013, para que a população em geral possa compreender os problemas que temos de resolver. Assim sendo, qualquer futura revisão da Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa deve obedecer a uma análise analítica com vista a colmatar as lacunas aí contidas, especialmente no que diz respeito a um eventual cancelamento do próprio acto eleitoral. Por fim, teremos de melhorar a educação cívica dos nossos cidadãos para que estes compreendam que, nas lides políticas, nada se colhe gratuitamente. Cada processo eleitoral acarreta os seus riscos específicos, mas como as penas para os infractores não são severas, muitos candidatos acabam por cair na tentação de quebrar a lei de modo a garantir a sua eleição. Mas, se estes mesmos indivíduos conseguirem na realidade conquistar o lugar e chegar ao cargo de legisladores, que futuro nos espera então? Em Macau, é comum ouvir as gentes do território compararem a AL a uma “assembleia de lixo” (em cantonense), mas será que algum destes dissuasores chegou a perder tempo para reflectir no que é necessário para impedir que esse lixo consiga entrar na Assembleia? *Ex-deputado e membro da Associação Novo Macau Democrático
18 opinião
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
Isabel Castro
isabelcorreiadecastro@gmail.com
contramão
As coisas lá dos States William A. Wellman, Safe in Hell
Duvido que esta proposta seja seguida. Estes americanos têm cada uma. Havia de ser bonito. O Governo a gastar dinheiro com os não residentes, esse conjunto de gente que, a avaliar pelas declarações de alguns deputados, está entre o grupo dos mais privilegiados de Macau
pub
O
Departamento de Estado Norte-Americano divulgou esta semana o relatório anual sobre o tráfico humano e, mais uma vez, Macau não sai bem no retrato. Aos olhos de Washington, o território faz parte do grupo de jurisdições esforçadas, mas que não passam disso mesmo: são esforçadinhas, mas ainda têm muito para fazer. No caso de Macau, critica-se a forma como se aplica a lei e a capacidade jurídica de avaliar este tipo de processos, muitas vezes classificados como meros casos de lenocínio. Os números de casos de tráfico humano descobertos e de vítimas resgatadas diminuíram no último ano, o que – tanto para os Estados Unidos, como para quem trabalha no terreno – não é sinónimo de que as coisas estejam no caminho certo, antes pelo contrário: é sinal de que as autoridades não têm sido capazes de serem pró-activas na identificação de vítimas. Ao Centro do Bom Pastor, dirigido por Juliana Devoy, têm chegado muito menos raparigas menores de idade, vítimas de tráfico humano, do que no passado. A responsável não acredita que estas meninas não estejam por aí – a questão é que ninguém sabe delas. Estes americanos têm cada uma. O Governo foi célere a reagir ao relatório dos Estados Unidos e diz que as acusações carecem de fundamento. Estes americanos têm cada uma. O Secretário para a Segurança encontra no relatório “factos básicos e juízos de valor infundados”. Estes americanos têm cada uma. É dos filmes a mais, é a influência de Hollywood:
lá porque em Macau há casinos e máfias e prostituição, isso não significa que as autoridades não estejam empenhadíssimas em combater o tráfico humano. Tráfico quê, mesmo? O relatório assinala ainda o facto de não ter sido identificada uma única vítima de trabalho forçado. Os Estados Unidos voltam a escrever que Macau tem uma lei em relação aos não residentes que os coloca em posição de fragilidade, sujeitos a exploração laboral: o período de seis meses sem trabalho a que estão sujeitas as pessoas com bluecard que se despeçam ou sejam despedidas. Para os americanos, esses que se lembram de cada uma, como para qualquer pessoa que tenha dois dedos de testa, é óbvio que a invenção deste período de nojo veio piorar as condições laborais dos não residentes, que perderam qualquer margem – por mais pequena que já fosse – de negociação das condições de trabalho. Os (muitos) únicos que lucram são aqueles a quem dá jeito ter trabalhadores atados pelo pé ao salário que lhes apetecer pagar. O documento sugere que se faça um inquérito junto da população imigrante para identificar a vulnerabilidade a abusos. Estes americanos têm cada uma. No passado, houve sugestões deste relatório anual que foram acatadas por Macau. Duvido que esta proposta seja seguida. Estes americanos têm cada uma. Havia de ser bonito. O Governo a gastar dinheiro com os não residentes, esse conjunto de gente que, a avaliar pelas declarações de alguns deputados, está entre o grupo dos mais privilegiados de Macau. Estes americanos têm cada uma. Não nutro particularmente simpatia pelas teorias universalistas dos Estados Unidos, por esta mania bastante irritante que têm de analisar os outros, de apontarem o dedo ao que os outros não fazem bem. Mas, num mundo que está cada vez mais de pernas para o ar, com uma Europa extraordinariamente enfraquecida e uma China que só soube crescer em cifrões, é bom que, de vez em quando, alguém de fora olhe para dentro. Para que, cá dentro, não se tape o sol com a peneira sem que ninguém dê por isso.
Perfil
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
19
Liliana Noronha Medalha, professora de Português
“Nunca pensei vir para a Ásia” N
asceu nas Caldas da Rainha mas bem cedo se mudou para a capital portuguesa, Lisboa. Licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e mestre em Ensino de Português como Língua Segunda e Estrangeira, Liliana Noronha Medalha decidiu arriscar e concorrer a uma vaga disponível para docente no Instituto Português do Oriente (IPOR). “Cheguei a Macau no final de Maio do ano passado”, relembra a jovem professora. Em conversa com o HM, Liliana, sempre de sorriso tímido, mostrava-se atenta ao que ao seu lado acontecia. Uma criança empoleirada na cadeira a espreitar para a professora, uma mãe concentrada no telemóvel, um empregado de mesa que pouco percebia e falava Inglês. Liliana ri-se e comenta: “o mais estranho foi isto tudo”. Assume-se como “perfeitamente adaptada”, mas consciente de que Macau não será um local onde vai ficar durante muito tempo. A sua ligação com o estilo europeu
é inegável e isso nota-se a cada palavra que a professora diz. “Sim, gosto muito da Europa, apesar de Macau ser a primeira experiência fora das fronteiras portuguesas, portanto não tenho termo de comparação. Mas identifico-me muito com o estilo europeu”, partilha. Vir para “o outro lado do mundo” nunca foi ideia que passasse pelos planos da docente de Língua Portuguesa. “É engraçado não é? Nunca pensei, nunca me tinha passado pela cabeça vir para a Ásia, nunca esteve nos meus planos, mas com a situação económica de Portugal quando vi a vaga disponível quis arriscar, e aqui estou”, explica.
Diferenças acentuadas
As diferenças culturais são notórias, não fosse estarmos na China. “O primeiro impacto são as diferenças, em tudo. Comportamentos das pessoas, o clima e tantas outras coisas. Mas no início tudo é surpresa, tudo é novo, assumimo-nos como turistas, parece que as coisas não são reais”, partilha Liliana, de-
pois de conseguir pedir o almoço, numa mistura de Cantonês com Português e Inglês. Canalizando o nervosismo da sua “primeira entrevista” para o garfo que tinha nas mãos, Liliana volta a olhar para a crianças e diz-nos “depois, quando assumimos que vivemos em Macau, que não somos turistas, temos de saber lidar com essas diferenças, porque elas podem ser boas ou más, dependendo da nossa capacidade de gerir [as situações]”.
Amores meus
Sem esconder, Liliana Noronha Medalha conta que a maior motivação para aguentar as saudades que sente de casa e da sua família são os seus “miúdos”. O amor pelo ensino sempre esteve muito presente na sua vida. “Adoro dar aulas, adoro os miúdos”, conta, acrescentando que tem turmas de várias faixas etárias, dependendo dos cursos, mas que maioritariamente são adolescentes “que em breve vão para Portugal” que ensina.
“Essa troca de informações é muito simpática. Falamos muitas vezes sobre a minha experiência como portuguesa, a viver em Lisboa. Como eles vão para lá agora é giro”, explica. Mas o mais interessante é saber “que os alunos são todos iguais seja em que país for”, ainda que haja claramente “um maior respeito pela figura do professor aqui em Macau”. Os hábitos e posturas na sala de aula trouxeram a Liliana histórias para a vida. “No início, estava cá há pouco tempo, e os miúdos comiam na sala, mas não era uma espécie de snack, eram bolas de peixe, ou fast-food, comida de faca e garfo”, partilha, entre risos. “Não sabia muito bem como reagir, mas assumi que era uma coisa natural para a cultura chinesa. Foi um jogo de adaptação entre mim e eles”, acrescenta.
Amizades no território
Não foi difícil para a docente “conhecer pessoas” e a própria garante que, entre portugueses, é fácil conhecer muita gente. “Mas
acredito que seja um bocadinho mais difícil criar relações de profunda amizade. Para aqueles que ficam aqui um período de tempo”, defende. Ainda assim, em pouco mais de um ano, Liliana já tem amigos com quem irá tentar manter relação, seja onde for. Nos seus tempos livres, aos fins-de-semana ou até ao final do dia, o que mais sente faltam são “cafés ou esplanadas” em que possa estar e descomprimir de um dia ou semana de trabalho. Ainda assim, na falta desses espaços, a jovem professora gosta de partilhar momentos com os amigos, nas suas casas ou em lugares em que todos possam estar tranquilos. “Não é importante os sítios, mas sim os momentos que partilhamos todos juntos”, remata. Apesar de Macau não fazer parte dos seus planos a longo prazo, e “embora toda a gente diga isso”, Liliana está convicta que isto será uma experiência para vida. Filipa Araújo
filipa.araujo@hojemacau.com.mo
hoje macau sexta-feira 31.7.2015
Encontrados destroços que podem ser do avião da Malaysia Airlines
O
mistério em torno do MH370, o Boeing 777 da Malaysia Airlines que desapareceu em Março do ano passado com 239 pessoas a bordo, pode estar prestes a ser esclarecido. É muito provável que o destroço, com cerca de dois metros de comprimento, encontrado na ilha francesa Reunião, no Oceano Índico, seja parte de uma asa do aparelho. «É quase certo que a parte encontrada da asa do avião pertence ao Boeing 777, segundo o nosso responsável pela investigação», afirmou Abdul Aziz Kaprawi, ministro malaio dos Transportes, citado pela agência Reuters. O primeiro-ministro da Malásia, Nakib Razak, já informou que os destroços vão ser enviados para as autoridades francesas, em Toulouse, para estas confirmarem se se trata (ou não) do voo MH370. Ao longo de meses foram levadas a cabo amplas operações de busca, lideradas pela Austrália, no Oceano Índico. O avião desapareceu durante a noite, quando sobrevoava o Mar do Sul da China, depois de ter mudado de rota, quando se dirigia de Kuala Lumpur para Pequim. A ilha Reunião fica situada a 600 quilómetros a leste de Madagáscar, sendo que especialistas oceanográficos consideram que os destroços podem ter sido levados pelo mar ao longo de milhares de quilómetros, desde o local da queda até à ilha.
Alasca Avião da Cathay Pacific faz aterragem de emergência
pub
Um avião da Cathay Pacific, que descolou de Hong Kong com destino a Los Angeles, foi forçado a fazer uma aterragem de emergência, na noite de quarta-feira, numa base militar no Alasca (EUA) após ter sido detectado fumo. O voo fez um “desvio por precaução” para um aeroporto militar norte-americano, nas Ilhas Aleutian, informou a companhia aérea. “Todos os passageiros e membros da tripulação estão a salvo”, afirmou a Cathay Pacific, em comunicado, dando conta de que seguiam a bordo 294 pessoas. Uma portavoz da companhia aérea disse ontem à agência AFP que o Boeing já partiu da base militar e chegou a Anchorage, a cidade mais populosa do Alasca. A Cathay Pacific, que indicou ter delineado arranjos para assistir os passageiros afectados pelo desvio do voo CX884, informou que vai ser lançada uma investigação sobre a causa do fumo detectado.
Dono da Hyundai admite intenção de se candidatar à FIFA
cartoon por Stephff
oceano de desespero e frustração
s lia370 í m fa mh do
ilha d sem respoos stas
ta pis ira e m Pri
Malásia HRW insta Cameron a condenar corrupção
Na rota dos abusos A organização de direitos humanos Human Rights Watch (HRW) pediu ontem ao primeiro-ministro britânico, David Cameron, que critique publicamente os alegados casos de corrupção e abusos na Malásia, durante a sua visita oficial ao país. Cameron, que chegou ontem a Kuala Lumpur, viaja com uma delegação de vários ministros e cerca de 30 homens de negócios e tem uma agenda que inclui acordos comerciais e de segurança. “É essencial que Cameron não se concentre exclusivamente no comércio e em assuntos de segurança, sem que também fale sobre a crescente crise de direitos humanos”, indicou em comunicado Mickey Spiegel, assessor da HWR em Singapura e na Malásia. “Isto significa fazer uma declaração pública e firme criticando as tentativas do Governo de silenciar aqueles que falam do escândalo do 1MDB [fundo
estatal de investimento 1Malaysia Development Berhad] e as suas políticas contra a liberdade de expressão e reunião”, acrescentou.
A primeira vez
O investigador da ONG lembrou que Cameron já abordou a corrupção num discurso em Singapura,
país que também estava incluído na sua viagem asiática, tal como a Indonésia e Vietname, ainda que referindo-se a lavagem de dinheiro por parte de empresas e não do Governo. Spiegel quer que Cameron, que se reunirá com o seu homólogo malaio, Najib Razak, fale sobre a tentativa do Governo de silenciar a investigação aos casos de corrupção em torno do fundo 1MDB. Uma comissão especial investiga as alegações por parte de alguns jornais de que cerca de 700 milhões de dólares do 1MDB foram desviados de contas bancárias de Najib, algo que este negou. A HRW acusou o primeiro-ministro malaio de forçar a demissão, na passada terça-feira, do procurador-geral, que fazia parte da comissão, alegando “razões de saúde”. No mesmo dia, Najib remodelou o Governo, forçando a saída do então vice-primeiro-ministro, Muhyiddin Yassin, que criticou a gestão da crise.
O
sul-coreano Chung Mong-joon, antigo vice-presidente da FIFA, anunciou ontem a sua candidatura à presidência do organismo, deixando críticas ao presidente demissionário, Joseph Blatter, e ao candidato Michel Platini. “Durante estes quatro anos, espero conseguir realizar o meu programa e fazer da FIFA uma verdadeira ONG (Organização Não Governamental) desportiva, aberta, transparente, moral e ética”, afirmou Chung Mong-joon, em conferência de imprensa. Figura incontornável do futebol sul-coreano, Chung Mong-joon, que deverá apresentar a candidatura oficial na próxima semana, disse que quer “eliminar a corrupção na FIFA”. Chung Mong-joon, accionista maioritário da Hyundai, classificou o presidente demissionário da FIFA, o suíço Joseph Blatter, como um “canibal corrupto” e afirmou que o francês Michel Platini é uma “marionete indigna de confiança”. O antigo futebolista francês e actual presidente da UEFA foi o primeiro a assumir a intenção de se candidatar à presidência da FIFA, nas eleições marcadas para 26 de Fevereiro. “Platini é bom para o futebol, mas pode ser um bom presidente da FIFA? Penso que não. Ele é um produto do actual sistema da FIFA”, disse Chung Mong-joon, de 63 anos. O sul-coreano, que foi vice-presidente da FIFA entre 1994 e 2011, referiu ainda que Joseph Blatter “é uma espécie de canibal que come os seus pais e depois chora por estar órfão. Ele culpa toda a gente, excepto ele próprio”. Os candidatos à sucessão de Joseph Blatter, que se demitiu na sequência do escândalo de corrupção que abalou o organismo em Maio, devem formalizar as candidaturas até 26 de Outubro.