MOP$10
SEGUNDA-FEIRA 27 DE MARÇO DE 2017 • ANO XVI • Nº 3781
AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006
hojemacau
SOFIA MARGARIDA MOTA
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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ
“ESPAÇO CIDADÃO”
Prioridades há muitas PÁGINA 5
UE dividida OPINIÃO RUI FLORES
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DEFICIÊNCIA
Falhas de avaliação PÁGINA 7
PAUL PUN | SECRETÁRIO-GERAL DA CARITAS MACAU
O pulso dos mais fracos
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ENTREVISTA
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Pinturas notáveis ZHANG YANYUAN
Contar histórias VALÉRIO ROMÃO
HONG KONG | ELEIÇÕES
A VENCEDORA PÁGINA 11
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PAUL PUN SECRETÁRIO-GERAL DA CARITAS MACAU
Candidatou-se quatro vezes à Assembleia Legislativa e em todas perdeu. Em ano de eleições, o secretário-geral da Caritas Macau, Paul Pun, diz que não pondera, por enquanto, uma nova candidatura. Ao HM falou das razões e de algumas prioridades que tem na instituição que dirige É candidato às eleições deste ano? Neste momento, não tenho qualquer intenção de me candidatar às próximas eleições para a Assembleia Legislativa (AL). Tenho sido abordado na rua por residentes que me colocam a mesma questão e que me incentivam a concorrer. Gosto de sentir que sou apoiado e o argumento de quem me apoia é de que a AL deve ter diferentes vozes. Mas, independentemente de concorrer ou não, continuo a ouvir o que as pessoas têm a dizer, o que pensam, e os seus apelos e preocupações. Neste momento, não tenho um plano. Se o tivesse avançaria e seria para que fosse concretizado. No entanto, se até ao momento da formalização das candidaturas, tiver ideias concretas para avançar com uma lista, assim o farei. Nas quatro vezes em que me candidatei pensava seriamente no processo e sentia que tinha de avançar. Este ano, e até à data, nem me ocorreu pensar nas pessoas que poderiam avançar comigo. Que tipo de eleitores mais se dirige a si e o que procuram com a sua representação?
“Macau não é só dinheiro” Posso dizer que represento os menos privilegiados, pois trabalho com eles. Mas as pessoas que me abordam são de diversos estratos sociais e não só os mais necessitados. Alguns trabalhadores, alguns reformados, alguns portugueses, por exemplo. A minha prioridade é continuar a fazer o que faço e não vejo como a minha presença na AL possa melhorar as minhas funções. As pessoas dizem que posso fazer mais, mas não vejo como. Tem defendido a integração dos imigrantes no território. Essa é uma das minhas prioridades. Mesmo nas campanhas que fiz para as eleições, tive sempre em mente a questão dos imigrantes em Macau. Acho que é essencial para qualquer deputado pensar em todas as pessoas que habitam no território. Pensa que a defesa dos imigrantes pode ter tido interferência nos resultados? Não. Os imigrantes trabalham em Macau, vivem cá e, como tal, temos de pensar neles. Mas as pessoas tendem a não falar muito no assunto. Parece que o que consta da agenda política relativamente à importância dos imigrantes no território é o silêncio. Mas eu falo sempre, talvez porque não tenho preocupações políticas, nem tenho
“Nas quatro vezes em que me candidatei pensava seriamente no processo (...) Até à data, nem me ocorreu pensar nas pessoas que poderiam avançar comigo.”
SOFIA MARGARIDA MOTA
ENTREVISTA
de agir segundo o politicamente correcto. Digo o que penso com base no pulso que sinto por parte da sociedade e das necessidades das pessoas.
O que acha que tem de ser feito nesta área? Cerca de 40 por cento da nossa força de trabalho depende dos imigrantes. Os residentes pensam, de alguma forma, que estas pessoas que vêm de fora lhes roubam os empregos, o que não corresponde, de todo, à verdade. Por exemplo, no que respeita a cargos de chefia, apenas 1,9 por cento são ocupados por imigrantes. Estes dados podem comprovar que não são os estrangeiros que ocupam os lugares destinados aos residentes. O seu papel tem de ser respeitado. Se não se sentirem respeitados, os residentes ficam em dívida. Se tiverem o devido respeito também trabalham melhor e contribuem activamente para a dinâmica económica e social local. Há muitas pessoas a dizer, por exemplo, que os trabalhadores não residentes não devem ter acesso e apoio nos cuidados médicos porque é uma forma de “levarem” o dinheiro do território. Dizem que a riqueza de Macau não deve ser partilhada com os estrangeiros e argumentam que devem ser os empregadores a suportar seguros de saúde. Defendo que o nosso sistema de saúde deveria incluir esta faixa da população. Estamos a falar de cuidados básicos que não devem ser negados a quem vive no território. Mas isso não está na agenda política. Sem imigrantes, Macau não existiria e seria estático, sem qualquer desenvolvimento. Temos de ter essa consciência e apoiar, pelo menos, as áreas dos cuidados básicos. Até mesmo para os turistas, que lidam directamente com esta população em várias funções, é benéfico que vejam as pessoas a sorrir e satisfeitas. Acaba por dar uma boa imagem de Macau para o exterior. O Governo tem feito
melhorias no sistema de saúde e no sistema social, mas ainda é dirigido aos residentes e há uma franja da população que não é abrangida. Macau é um sítio pequeno, seria muito fácil educar as pessoas para o respeito umas pelas outras. No entanto, penso que as pessoas de Macau são generosas por natureza. Mas é necessário analisar e ter a consciência do todo da sociedade com a sua diversidade. Neste sentido, cabe aos políticos ter um papel também mais interventivo e seguirem no sentido da inclusão. Há vozes na política muito duras com a questão dos imigrantes e dos trabalhadores não residentes. Sim, mas Macau também dá a oportunidade de ter vozes livres.
Foi recentemente aprovada a Lei Eleitoral. O que acha da revisão? É um passo positivo para umas eleições mais abertas e para a luta contra a corrupção. O diploma prevê também regras que são importantes para evitar comportamentos desapropriados. Mas continuo a duvidar que o sistema actue em conformidade com a lei. No meu escritório, por exemplo, não admito que ninguém pergunte a quem entra as razões da sua vinda. Defendo uma política de portas abertas. No caso das eleições, também todos se podem juntar. Desta vez, há a questão do juramento de fidelidade à Lei Básica e ao Governo Central, mas acho que sempre que alguém vai para um cargo político já deve ter subentendido a
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nuição é a política de habitação pública do Governo. As pessoas que têm este tipo de apoio já não procuram tanto a Caritas. Temos também o banco alimentar que se destina a quem não tem o que comer. E também aí, há cada vez menos pessoas a precisar de ajuda, sendo que são os idosos que vivem sozinhos quem mais nos procura. Além das iniciativas sociais já conhecidas da Caritas, há novos projectos? Estamos agora com o processo de abertura de uma clínica de cuidados dentários. O espaço, num momento inicial, vai ser dirigido, essencialmente, a doentes mentais e a idosos locais, mas o objectivo é que, correndo tudo bem, seja aberta a todos, e aos imigrantes também.
“Sem imigrantes Macau não existiria, seria estático e sem qualquer desenvolvimento.” Os idosos parecem ser dos que mais precisam de ajuda no território. É necessária ajuda em três sentidos: a criação de lares, o apoio domiciliário e o apoio ao cuidador, que pode ser um profissional ou um familiar. A Caritas já dispõe destes três serviços e damos formação geriátrica. Temos também um centro de dia para quem precisa de apoio. Não é um centro de lazer e está preparado para acolher utentes com vários tipos de problemas, como a demência, por exemplo.
sua fidelidade ao país. No entanto, quando dizemos que amamos o nosso país, isso não pode querer dizer que não gostamos dos outros, de outras regiões e que possamos discriminar outras pessoas. Claro que quando se fala de terrorismo o trabalho é outro e tem de ser feito de forma coordenada. Ainda relativamente à nova lei, penso que poderia ser mais uma razão para me candidatar. A legislação mais clara, e uma sociedade mais desenvolvida e educada como a de hoje são factores apelativos, mas, de facto, ainda não sinto que o deva fazer. Recente também é a lei da violência doméstica. A Caritas tem vindo a trabalhar com vítimas.
Foi uma lei muito importante e, depois de o diploma ter sido aprovado, as pessoas, felizmente, começam a sentir-se mais à
“O Governo tem feito melhorias no sistema de saúde e no sistema social, mas ainda é dirigido aos residentes e há uma franja da população que não é abrangida.”
vontade para denunciarem casos de abuso. O mesmo acontece nas situações em que as vítimas são do sexo masculino. Antes da entrada em vigor da nova lei, já tinha casos de homens a recorrem à Caritas para falar da situação. A questão do abuso está muito relacionada com a falta de auto-estima e o trabalho que tem de ser feito é o da sua recuperação. Normalmente são pessoas, principalmente nos casos do sexo masculino, que não são respeitadas por ninguém e que vivem o mesmo tipo e situações de abuso em casa e no trabalho. É necessário promover a confiança. Na Caritas, por exemplo, tentamos integrar estes casos em programas de voluntariado onde
podemos fazer com que se sintam úteis e respeitadas. Tem trabalhado na área da pobreza. Quem é que procura mais ajuda? Macau não é só dinheiro. Podíamos fazer do território uma terra maravilhosa, dado o dinheiro que existe. Se me perguntasse isso há uns anos, diria que precisam de ajuda aqueles que têm uma renda alta e, como tal, não podem suportar a renda de um tecto, aqueles que partilham casas muito pequenas e aqueles que não têm cozinha em casa. Mas o que tenho constatado é que, felizmente, há cada vez menos pessoas nestas condições. Uma das acções que terá contribuído para esta dimi-
Está desde 1991 à frente da Caritas. Tenciona continuar por mais tempo? Não sei. Pode ser para sempre. Mas isso não é importante. Com ou sem título de secretário-geral da Caritas, pretendo continuar a trabalhar naquilo em que acredito. Algumas pessoas acham que é importante que tenha o cargo e o título porque pensam que é uma forma de ter mais respeito, tanto da população, como do próprio Governo. Não concordo. Quando acreditamos em nós e naquilo que fazemos encontramos sempre o nosso espaço para servir a sociedade. Quando era pequeno tive quem tomasse conta de mim. É a minha função também tomar conta dos que mais precisam. Sofia Margarida Mota
sofiamota.hojemacau@gmail.com
4 POLÍTICA
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M Dezembro último, o Executivo respondia a uma interpelação de Mak Soi Kun relativa à alteração ao regime de despesas com obras e aquisição de bens e serviços. Em resposta às dúvidas do deputado sobre a forma como se faziam os concursos públicos, o Governo afirmou que estava a rever a legislação com base nas sugestões de vários departamentos públicos, do Comissariado contra a Corrupção (CCAC) e do Comissariado da Auditoria (CA). Esta alteração à lei é uma das iniciativas legislativas que está prevista avançar este ano, estando o Executivo a recolher e analisar opiniões nesse sentido. Mas o recente relatório do CCAC, que demonstrou de forma arrasadora falhas à forma como o Instituto Cultural (IC) contratou pessoal, veio trazer atenção extra a esta matéria. Aliás, Mak Soi Kun menciona o caso na interpelação que escreve ao Executivo, adiantando que se violaram regulamentos previstos na lei no que diz respeito à contratação de trabalhadores públicos. Por detrás deste atropelo legal estará, na opinião do deputado, uma forma de contornar a fiscalização e a aprovação de
Interpelação MAK SOI KUN COM DÚVIDAS ACERCA DO REGIME DE DESPESAS
Princípios da incerteza Na ressaca do relatório do Comissariado contra a Corrupção, que arrasou o Instituto Cultural por contratar funcionários sem concurso público, as dúvidas entre os deputados da Assembleia Legislativa persistem. Desta vez foi Mak Soi Kun, que questionou o Executivo acerca da forma como se gastam os dinheiros públicos
DIZ-ME COMO CONTRATAS
Nesse sentido, Mak Soi Kun interroga o Executivo no sentido de se apurar se o IC é um caso isolado, ou uma demonstração de prática comum no aparelho administrativo. No caso de ficar demonstrado que o IC é apenas a ponta de um iceberg de más práticas na contratação de pessoal, o deputado quer saber se isso indica que existem lacunas na actual legislação que regula a contratação. De qualquer forma, mesmo que não se verifique o cenário de generalização deste método pouco transparente, Mak Soi Kun é da opinião de que o Executivo deve investigar a fundo o sistema de gestão. Por último, o deputado interpelou a Administração no sentido de saber em que ponto está a situação da alteração ao regime de despesas com obras e aquisição de bens e serviços. A questão que levanta é se esta lei poderá entrar em vigor ainda no decorrer deste ano.
Mak Soi Kun interroga o Executivo no sentido de se apurar se o IC é um caso isolado, ou uma demonstração de prática comum no aparelho administrativo
Vítor Ng e João Luz
info@hojemacau.com.mo
Andares vazios no Iao Hon Leong Veng Chai pede novo planeamento para mercado
bleia Legislativa pede ainda que seja feita uma análise para um melhor aproveitamento dos recursos. “O Governo deve indicar quais são os serviços públicos que devem ser responsáveis por dar a devida sequência aos seus prédios e terrenos que se encontram desocupados, com vista à sua utilização e desenvolvimento de forma planeada. Vai fazê-lo?”
DESPORTO E CULTURA
Para Leong Veng Chai, os dois andares vazios do mercado do bairro do Iao Hon poderiam ser espaços importantes para actividades
juvenis e para o fomento das indústrias culturais e criativas. “Deve-se planear transformá-los num espaço interior para a prática do desporto, que beneficia a saúde física e psicológica, com salas de ténis de mesa, badminton ou campos de futebol, com vista a disponibilizar espaços para a utilização dos cidadãos ou especialmente para os jovens no âmbito do desenvolvimento das indústrias culturais e criativas, contribuindo para a formação de uma cultura local.” Isto porque o bairro do Iao Hon, bem perto da fronteira
com a China, constitui “uma zona de habitações onde vive e cresce uma boa parte da nossa população juvenil”. HOJE MACAU
O
deputado Leong Veng Chai entregou uma interpelação escrita ao Governo onde exige que seja feito um plano para o aproveitamento de dois andares no mercado do Iao Hon, onde antes funcionava a zona de venda de comida ao público. “O Governo dispõe de algum plano concreto para o segundo e terceiro andares do mercado do Iao Hon, que estavam destinados a acolher o antigo centro de comidas? Com vista a evitar o constante desperdício dos recursos sociais, será possível avançar, com a maior brevidade possível, o reaproveitamento dos referidos espaços?”, questiona. O número dois de José Pereira Coutinho na Assem-
entidades superiores no processo de contratação de funcionários. O tribuno considera que o atraso em arrancar com o processo legislativo do referido regime de despesas com obras e aquisição de bens e serviços terá facilitado a prática de actos ilegais.
“Coloca-se então a dúvida se o Governo pode articular as características demográficas da zona norte com as suas linhas governativas ao nível do apoio ao desenvolvimento das nossas indústrias culturais e criativas”, escreve Leong Veng Chai.
O deputado lembra na sua interpelação que o reordenamento do mercado trouxe vantagens aos comerciantes, mas deixou à vista o problema de ausência de planeamento. “Nos últimos anos, o Governo tem-se dedicado à recuperação dos terrenos desaproveitados, mas não procedeu a um pleno planeamento dos terrenos que já tem em mãos, como, por exemplo, o local antigamente destinado ao centro de comidas, que durante os quatro anos que se seguiram à referida deslocação, continuou bloqueado e desaproveitado, situação que constitui um desperdício de recursos de solos e resulta num aumento dos custos sociais”, conclui Leong Veng Chai. A.S.S.
5 POLÍTICA
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A diferença horária entre Macau e Lisboa é um problema quando se fala na possibilidade de introduzir novos serviços ao nível consular. José Luís Carneiro diz que o território está na lista das prioridades, mas Londres e Bruxelas também
O
Governo português inaugura na próxima quarta-feira um “Espaço Cidadão” em São Paulo, no Brasil, informou em Macau o secretário de Estado das Comunidades, afirmando ter como objectivo abrir também no território um daqueles serviços. “Levámo-lo em primeiro lugar para Paris, porque se trata do posto consular com maior movimento, estamos a falar de um posto com mais de um milhão de inscritos e 200 mil actos consulares. Vamos inaugurar o segundo ‘Espaço Cidadão’ em São Paulo no dia 29, também é um consulado que teve 192 mil actos consulares no ano de 2016”, disse José Luís Carneiro, no segundo e último dia da sua visita a Macau. A abertura de um espaço semelhante em Macau, também em resposta a pedidos dos conselheiros locais, está a ser equacionada, mas compete com outras prioridades como Londres e Bruxelas. “Vamos depois avançar com o objectivo de criar um espaço consular em Londres, que é uma comunidade que precisa de uma atenção muito especial do Estado português por força das circunstâncias que está a viver, nomeadamente o Brexit. Temos também Bruxelas, uma comunidade que cresceu muito, praticamente duplicou o número de portugueses. Queremos depois levar a experiência
Portugal “ESPAÇO CIDADÃO” PODE CHEGAR A MACAU, MAS HÁ OUTRAS PRIORIDADES
A maldição do fuso horário a outros postos consulares”, afirmou, antes da reunião com os conselheiros das comunidades portuguesas da Ásia-Oceânia. “Naturalmente que Macau não pode deixar de ser um objectivo de extensão do ‘Espaço Cidadão’ às comunidades portuguesas. Mas para isso é necessário que haja uma dimensão de infra-estrutura tecnológica. É uma questão que é preciso solucionar porque há uma parte dos serviços que são disponibilizados pela Administração Pública portuguesa que está em Portugal. Como aqui há uma diferença horária de oito horas, há este obstáculo que tem de ser vencido”, explicou o secretário de Estado, não se comprometendo com uma data para a abertura do espaço. Carneiro garantiu que a abertura deste espaço não implica a contratação de mais funcionários – difíceis de conseguir e com salários muito abaixo da média de Macau –, já que a estratégia é “garantir que os funcionários que hoje estão apenas concentrados nos actos consulares possam ter uma formação por forma a que possam tornar o seu traba-
“Macau não pode deixar de ser um objectivo de extensão do ‘Espaço Cidadão’ às comunidades portuguesas. Mas para isso é necessário que haja uma dimensão de infra-estrutura tecnológica.” JOSÉ LUÍS CARNEIRO SECRETÁRIO DE ESTADO DAS COMUNIDADES
pedidos de apoio “de jovens empresários que querem ir para Portugal ou estudantes que querem integrar as universidades”. “Se tivesse um número adequado de funcionários, isso poderia ser feito pelo consulado”, frisou, indicando que a dificuldade em contratar pessoas é também explicada pelos “salários tão baixos”. A conselheira alertou ainda o secretário de Estado para a importância de Portugal “dar mais atenção a Macau”. “Temos de olhar para os jovens portugueses [em Macau] porque sinto que não estão a dar muito amor e carinho a Portugal. É preciso mais sensibilização, para que os jovens possam ir a Portugal, conhecer Portugal, principalmente os luso-descendentes que já não têm tanta ligação como nós tínhamos antigamente”, disse. lho ainda mais eficiente”. “Em regra, são os mesmos funcionários que já temos nos postos consulares”, esclareceu.
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ATENÇÃO E CARINHO
A abertura de um ‘Espaço Cidadão’ tem vindo a ser pedida por Macau, com a conselheira Rita Santos a explicar que a sua existência facilitaria “não só a ida dos chineses a Portugal, com a obtenção mais rápida de vistos”, mas também para [os residentes de] Macau” poderem tratar dos seus impostos, taxas de autarquia, sem recorrerem a amigos ou advogados a quem precisam de pagar. Rita Santos, que é presidente do conselho regional das comunidades portuguesas da Ásia e Oceânia, voltou a insistir na falta de funcionários no consulado, que diz ser “um problema grave”, que se reflecte no elevado número de pessoas que contactam os conselheiros para ajuda com marcações para renovação de documentos, “simples esclarecimento dos procedimentos de aquisição de nacionalidade”, ou
Anúncio 【N.º62/2017】 Nos termos do n.º 2 do artigo 72.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 57/99/M, de 11 de Outubro, são por este anúncio notificados, os representantes dos agregados familiares candidatos à aquisição de habitação económica, do seguinte: Representante do agregado familiar candidato a habitação económica
Número do boletim de candidatura
CHEONG HONG KUAN
82201304239
CHE SAO CHUN
82201301949
Causa e fundamento legal da exclusão de adquirente seleccionado Falta de entrega dos documentos necessários para a avaliação do requerimento no prazo fixado (Nos termos da alínea 2) do n.º 1 do artigo 28.º da Lei n.º 10/2011, alterada pela Lei n.º 11/2015)
Nos termos dos artigos 93.º e 94.º do Código de Procedimento Administrativo, o Instituto de Habitação (IH) notificou, no dia 20 de Fevereiro de 2017, através de anúncio, os referidos representantes dos agregados familiares candidatos à aquisição de habitação económica para que apresentassem, no prazo de 10 dias, justificação escrita, não sendo a mesma considerada quando submetida fora do prazo, considerando-se como desistência. Os representantes dos respectivos agregados familiares candidatos à aquisição de habitação económica não apresentaram qualquer justificação escrita dentro do prazo fixado, pelo que o presidente do IH aprovou, de acordo com o despacho exarado na Proposta n.º 0428/DAJ/2017, a exclusão dos referidos agregados familiares de adquirentes seleccionados. Caso não concorde com a decisão acima referida, deve ser apresentada reclamação ao presidente do IH (sem efeito suspensivo) nos termos do artigo 149.º do Código de Procedimento Administrativo no prazo de quinze dias a contar da data da publicação do presente anúncio, ou/e intentar a acção do recurso contencioso ao Tribunal Administrativo dentro do prazo legal nos termos do artigo 25.º do Código do Processo Administrativo Contencioso. Atenciosamente Instituto de Habitação, aos 23 de Março de 2017 O Chefe da Divisão de Assuntos Jurídicos, Nip Wa Ieng
6 SOCIEDADE
hoje macau segunda-feira 27.3.2017
Desaparecimento FUNCIONÁRIO DE ONG DE TAIWAN ESTARÁ NA CHINA
A última estação: Macau A Amnistia Internacional está preocupada com o desaparecimento de um funcionário de Taiwan de uma organização não-governamental que ajudava activistas na China. Lee Ming-cheh passou por Macau. Terá ido para o Continente, mas desconhece-se o seu paradeiro
As autoridades de Taiwan tem informação de que Lee Ming-cheh cruzou a fronteira através de Macau no passado dia 19, mas desde então desconhece-se qual é a situação e não há qualquer registo da sua entrada num hotel ou da sua detenção, aponta a AI num comunicado. O taiwanês, que colaborou no passado com o pró-independentista Partido Democrático Progressista de Taiwan, trabalha para uma organização que ajudava grupos civis e activistas na China, se bem que, desta vez, terá viajado para o país para gerir o tratamento médico da sua sogra. “O facto de Lee Ming-cheh ter desaparecido volta a gerar sérias dúvidas sobre a segurança das pessoas que trabalham com a sociedade civil na China”, afirmou o director da AI na região, Nicholas Bequelin.
• Nicholas Bequelin, responsável da Amnistia Internacional “O facto de Lee Mingcheh ter desaparecido volta a gerar sérias dúvidas sobre a segurança das pessoas que trabalham com a sociedade civil na China”
U
A HISTÓRIA QUE SE REPETE
Taipé em Macau, onde lhe confirmaram que tinha abandonado o território. O caso assemelha-se aos de dissidentes, activistas, advogados e outros trabalhadores de organizações não-governamentais que desapareceram, reaparecendo meses depois sob custódia na China. Em muitas destas situações, as pessoas em causa estiveram confinadas em centros de detenção
secretos, onde a lei chinesa permite que um cidadão seja mantido até seis meses sem obrigação de informar sobre o seu paradeiro, nem de providenciar contacto com um advogado ou familiares se tal colocar em perigo a segurança do Estado. Grupos de direitos humanos advertiram que esta medida dá lugar a torturas que ficam impunes devido à falta de controlo.
A
Consequências do jogo
apesar de a ‘almofada’ financeira ter emagrecido 26 por cento face ao ano anterior.
M funcionário de Taiwan de uma organização não-governamental que ajudava activistas na China encontra-se desaparecido, receando-se, à semelhança de outros casos, que tenha sido detido pelas forças de segurança chinesas, alertou a Amnistia Internacional (AI).
Receitas públicas caíram 6,7 por cento em 2016
a 2015, para 80,730 mil milhões de patacas. No âmbito do PIDDA (Plano de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração) foram gastos 8,519 mil milhões de
patacas, menos 4,8 por cento que em 2015. Entre receitas e despesas, a Administração de Macau acumulou um saldo positivo de 21,681 mil milhões de patacas em 2016, isto
CASINOS E CONTRACÇÕES
Os casinos de Macau fecharam 2016 com receitas de 223,210 mil milhões de patacas, uma queda de 3,3 por cento face ao cômputo do ano anterior. Em Fevereiro, os casinos tiveram receitas de 22,991 mil milhões de patacas, um aumento de 17,8 por cento face ao período homólogo de 2016. Foi a maior subida desde Fevereiro de 2014, segundo os dados da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos. A economia de Macau contraiu-se em 2016 pelo terceiro ano consecutivo, com o Produto Interno Bruto (PIB) a cair 2,1 por cento em termos reais, apesar da recuperação da indústria do jogo. No entanto, a agência de notação financeira Fitch prevê que o PIB cresça 2,5 por cento em termos reais este ano, apoiado pelo crescimento das receitas do jogo, depois da contracção de 2,1 por cento em 2016.
O
Instituto Cultural (IC) recolheu vários objectos de valor de dois estaleiros de Lai Chi Vun. Em nota à imprensa, o organismo explica que, em coordenação com a Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água, concluiu recentemente o trabalho de mapeamento em dois dos estaleiros. Objectos como reclames dos estaleiros, os pilares de madeira, as tabuletas espirituais dos Deus da Terra (Tou Tei) e de Lu Ban foram retirados pelo IC para que possam ser preservados. As peças serão aproveitadas no futuro, garante o Instituto, na fase que se irá desenvolver em seguida. No comunicado, indica-se ainda que o IC mantém o trabalho de mapeamento dos outros estaleiros, sendo salientada a existência de uma boa comunicação com a DSAMA e os vários os departamentos envolvidos na questão. Recorde-se que o Instituto Cultural será o responsável pela recuperação de um estaleiro e duas pequenas casas. O plano de demolição de grande parte dos estaleiros de Lai Chi Vun tem sido recebido com desagrado por vários sectores, que gostariam de ver o local preservado, por ser o último espaço representativo da construção de embarcações em Macau. Duas das estruturas foram arrasadas no início deste mês. A Administração fundamenta o seu plano de demolição com a degradação dos estaleiros e a necessidade de manter a segurança no local. DAVID MARQUES
S receitas da Administração de Macau caíram 6,7 por cento em 2016, mas as contas públicas continuam a apresentar um saldo positivo, apesar de o excedente ter caído 26 por cento. De acordo com dados provisórios publicados no portal da Direcção dos Serviços de Finanças, a Administração de Macau arrecadou no final do ano passado receitas de 102,412 mil milhões de patacas. Os impostos directos sobre o jogo – 35 por cento sobre as receitas brutas dos casinos – foram de 79,482 mil milhões de patacas, uma diminuição de 5,9 por cento face a 2015. A importância do jogo reflecte-se no peso que o imposto detém no orçamento: 77,6 por cento nas receitas totais, 78,4 por cento nas correntes e 89,8 por cento nas derivadas dos impostos directos. Ao contrário da receita – onde todos os componentes registaram descidas em termos anuais homólogos –, a rubrica da despesa registou aumentos. A despesa global subiu 0,3 por cento face
Bequelin pediu às autoridades de Taiwan e da China que informem a família de Lee sobre as diligências que estão a tomar para o encontrar ou que divulguem o seu paradeiro. Até à data, Pequim não fez qualquer declaração sobre o que terá acontecido ao funcionário da organização não-governamental. A mulher de Lee contactou o Gabinete Económico e Cultural de
LAI CHI VUN VÃO-SE OS ESTALEIROS, FICAM AS PEÇAS
7 hoje macau segunda-feira 27.3.2017
Saúde HETZER SIU APONTA FALHAS NA AVALIAÇÃO DA DEFICIÊNCIA
Pequenos grandes detalhes O presidente da Macau Special Olympics defende que persistem falhas no funcionamento do sistema de avaliação de deficiência, já que muitos daqueles que precisam de ajuda acabam por nunca ter acesso a apoio médico gratuito, pelo facto do seu grau de deficiência não atingir determinado nível
H
ETZER Siu, presidente da Macau Special Olympics, considera que o Governo deve melhorar o sistema de avaliação de deficiência, sob pena de muitos deficientes perderem o acesso a assistência médica gratuita, apesar de terem necessidade desse apoio. O responsável lembrou que, desde que entrou em vigor o sistema de avaliação de deficiência, em 2011, que as pessoas registadas têm direito a apoio médico sem pagar. “Enfrentamos uma situação em que nem todos os deficientes podem obter o cartão de registo de avaliação da deficiência. As pessoas são autorizadas a ter acesso ao cartão, uma vez que têm um determinado nível de deficiência, mas quem não atingir determinados patamares não consegue ter acesso a essa assistência. É preciso avaliar se, no sistema, o cartão de registo de avaliação representa também o subsídio de invalidez”,
E
apontou o director da Macau Special Olympics. Para Hetzer Siu, as pessoas com deficiência mental não têm apenas a necessidade de uma avaliação do seu estado de saúde, mas também de tratamentos médicos de acordo com a sua situação. O responsável acredita que o Executivo deveria melhorar e rever o sistema da avaliação para os deficientes mentais. Hetzer Siu afirma ainda que a ideia inicial da criação do cartão visava a criação de uma base de dados, através da qual o Governo e as instituições pudessem prever o número de portadores de deficiência existentes. Contudo, o responsável aponta que só os portadores do cartão entram para as estatísticas, o que faz com que muitos deficientes fiquem de fora.
organizada ontem pela Macau Special Olympics, em torno da avaliação da saúde dos portadores de deficiência mental, pertencentes a outras associações. Segundo um comunicado, devido às dificuldades de expressão destas pessoas, é difícil tratar a tempo eventuais problemas de saúde, por ser, muitas vezes, tardio o seu diagnóstico.
“Enfrentamos uma situação em que nem todos os deficientes podem obter o cartão de registo de avaliação da deficiência.” HETZER SIU PRESIDENTE DA MACAU SPECIAL OLYMPICS Por isso, a Macau Special Olympics realiza pelos menos duas vezes por ano este tipo de iniciativas, por forma a avaliar previamente o estado de saúde destas pessoas. O director executivo lamenta que a saúde destas pessoas se torne cada vez pior, devido a dificuldades económicas e à falta de conhecimentos médicos. As dificuldades no transporte é também outra das razões apontadas para um fraco diagnóstico de doenças. Vítor Ng (revisto por A.S.S.) info@hojemacau.com.mo
LEI SILENCIOSA
O presidente da Macau Special Olympics deixa ainda um alerta
´
já a partir do dia 1 de Abril que começam a circular os 50 veículos da Companhia de Serviços de Rádio Táxi Macau SA, sendo que outros 50 deverão começar a circular até ao final deste ano. Segundo um comunicado, 35 veículos serão destinados ao transporte normal de passageiros, sendo que dez carros são de “grande porte” e apenas cinco serão destinados ao transporte de pessoas com mobilidade reduzida. A concessão do serviço a esta empresa foi feita por um período de oito anos. Os pedidos de transporte poderão ser feitos não apenas
sobre a legislação que determina que edifícios e transportes públicos devem estar equipados com instalações disponíveis para deficientes,
mas que não específica quais os serviços públicos que são obrigados a ter essas infra-estruturas. Para Hetzer Siu, tal facto acaba por tornar a lei sem sentido prático, pois define requisitos sem que haja especificidades para o seu cumprimento. É ainda pedido que o Governo ajuste as políticas de acordo com as necessidades reais dos portadores de deficiência. Estas declarações foram proferidas no âmbito de uma actividade
SOCIEDADE
Mais rodas por oito anos Novo serviço de rádio-táxis arranca este sábado
por telefone mas também via aplicação móvel ou no website da própria empresa.
PRAÇAS FIXAS
Numa fase inicial a Direcção dos Serviços para osAssuntos de Tráfego (DSAT) irá fixar um total de 14 paragens para estes táxis, as quais ficam situadas na zona da Barra (Rua do Dr. Lourenço Pereira Marques), Fai Chi Kei (Rua do Comandante João Belo), Areia Preta (Rua Central da Areia Preta), Hospital Kiang
Wu (Rua de Tomás Vieira), Centro Hospitalar Conde de São Januário, Colégio do Sagrado Coração de Jesus (Rua do Padre João Clímaco), Dynasty Plaza (Rua de Bruxelas), Edifício do Lago (Rua de Pequim), Baixa da Taipa (Rua do Regedor), Seac Pai Van (Avenida de Ip Heng), Pavilhão Polidesportivo Tap Seac (Rua Filipe O’Costa), Portas do Cerco (Rua Marginal do Canal das Hortas), Aeroporto e Terminal Marítimo de Passageiros da Taipa (Rua
Son Keng) e Praia Grande (Avenida Comercial de Macau). Caso seja necessário, “não se descarta, no futuro, a possibilidade de criar mais locais de espera nos locais adequados”, aponta a DSAT.
TODOS IGUAIS
No que diz respeito às tarifas, os táxis especiais irão cobrar a mesma quantia que os táxis normais, com excepção da cobrança de cinco patacas como taxa de chamada. Caso o cliente faça a marcação uma hora
antes, não terá de pagar este valor. Os passageiros podem ainda fazer o pagamento da tarifa através do Macau Pass, bem como o cartão “Quick Pass” do Banco da China e do Banco Industrial e Comercial da China. A DSAT afirma ainda que “tem mantido uma comunicação estreita” com a concessionária, e que tem sido intensificada a “ realização de inspecção de respectivos táxis”, para além de destacar pessoal para “fiscalizar as acções de formação dos seus trabalhadores, vistoriar os equipamentos, os sistemas e a central de táxis especiais, no sentido de tratar e ajustar
atempadamente os problemas encontrados”. Em relação ao processo de fiscalização, o organismo liderado por Lam Hin San garante que irá realizar esses trabalhos com base nos padrões de serviço do “número mínimo de veículos em operação”, bem como através do “rácio de atendimento das chamadas telefónicas” estabelecidos no contrato. Caso sejam verificadas falhas no funcionamento do serviço, a DSAT explica que cabe à concessionária “assumir as respectivas responsabilidades”, tais como a “aplicação de multas e rescisão da concessão”.
8 Cultura CINEMATECA INAUGURADA NA PRÓXIMA QUINTA-FEIRA
EVENTOS
PAIXAO PELA
FERNANDO PIRES
˜
OBRAS DE JOAQUIM FRANCO EXPOSTAS EM PORTUGAL
O Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, Portugal, acolhe desde a semana passada uma exposição com pinturas de Joaquim Franco, artista radicado em Macau há mais de 30 anos. Intitulada “Franco, Obra Abstracta”, a exposição faz parte de um projecto de residência artística que o pintor está a desenvolver em Idanha-a-Nova. Para além desta iniciativa, Joaquim Franco participou no workshop “Expressões Plásticas”, estando prevista a realização de uma série de workshops intitulada “Um mundo às Cores”, nos dias 5, 6 e 7 de Abril, numa iniciativa virada para os mais novos. Joaquim Franco formou-se na Sociedade Nacional de Belas Artes na década de 70, sendo que os seus trabalhos já integraram diversas exposições individuais e colectivas em Macau, China, Portugal, Espanha, França, Brasil, Holanda, Japão, Filipinas e Colômbia.
EXPOSIÇÃO A HISTÓRIA DOS CANHÕES PARA OS MAIS NOVOS
A
TÉ 20 de Agosto, quem passar pelo Museu de Macau (MM) poderá ver a exposição “História do Fabrico do Canhão – Exposição sobre Experiência Infantil”. Organizada pelo MM e pela Universidade da Cidade de Macau, trata-se da primeira iniciativa que tem como eixo principal a experiência infantil no espaço museológico da Fortaleza do Monte. “O processo de experimentar vários jogos na exposição tem como objectivo inspirar e encorajar as crianças a aprenderem sobre a história de Macau, transformando o museu num outro espaço de aprendizagem para crianças”, explica a organização em comunicado. Há seis áreas de jogos educacionais: “Percorrendo por uma História Interessante”, “Em Busca de Fortale-
zas”, “O Fabrico das Balas do Canhão”, “Experimentando a Sensação no Campo de Batalha”, “Explorando o Processo de Fabrico de Canhões” e “Sensação da Fortaleza no Presente e no Passado”. As actividades destinam-se a crianças dos três aos oito anos. Além da exposição, estão ainda planeados workshops sobre o tema em foco, destinados a pais e filhos. A actividade, com a duração de uma hora, “irá permitir às crianças experimentarem pessoalmente a manufactura de canhões através dos sentidos da visão e do tacto, e aprenderem o desenvolvimento do fabrico de canhões de outrora, visando expandir um pensamento multidimensional e reforçar as relações familiares”.
O cinema está prestes a ter uma nova casa. Quinta-feira é inaugurada a Cinemateca Paixão e, como não poderia deixar de ser, o foco do primeiro dia de actividade será o cinema produzido em Macau
N
A próxima quinta-feira abre um espaço novo dedicado à sétima arte: a Cinemateca Paixão. Localizada no coração da cidade antiga, perto das Ruínas de S. Paulo, na Travessa da Paixão, será mais um pólo de atracção turística. “A localização é também conveniente para os turistas que queiram cá vir”, explica Rita Wong, directora da cinemateca. Acrescenta ainda que “de dois em dois fins-de-semana haverá algo que tenha Macau como tema”. Outro incentivo extra do espaço que fica sob a tutela do Instituto Cultural (IC) é o facto destes eventos terem entrada livre. Acerimónia de inauguração da Cinemateca Paixão é na quinta-feira, às 18:45, e terá como prato principal a apresentação de três curtas-metragens de três realizadores de Macau. Os cineastas escolhidos para apadrinhar a nova casa da sétima arte são Tracy Choi, Chao Koi Wang e António Faria. Na
À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA VIVER E MORRER NOS CÁRCERES DO SANTO OFÍCIO • Isabel Drumond Braga
A historiadora Isabel Drumond Braga apresenta-nos uma investigação original que nos transporta para o universo sombrio do Santo Ofício, dando-nos a conhecer o dia-a-dia daqueles que eram presos pela Inquisição. Homens e mulheres, gentes do litoral e do interior, pobres e abastados, arrependidos ou pertinazes, mas sempre em busca de um objetivo, muitas vezes não alcançado: a saída rápida do cárcere e o recomeço de uma nova vida.
mesma noite realiza-se ainda uma sessão destinada aos cineastas de Macau, de forma a abrir, oficialmente, um novo capítulo na indústria cinematográfica do território. A abertura ao público será na sexta-feira, mas para o dia da inauguração Rita Wong pretende algo que “seja divertido e que sirva para conectar as pessoas do ramo”. A casa do cinema encerra às segundas-feiras, mas “abre todos os outros dias, incluindo nos feriados, com portas abertas das 10 da manhã às 11 da noite”, conta a directora.
CASA DE FILMES
A cinemateca está instalada num edifício de três andares, multifuncional, habilitado a ter vários propósitos. Como é natural, vão ser projectados filmes, e haverá um espaço para o armazenamento de vídeos locais. Além disso, o local terá zonas dedicadas para a leitura de livros e revistas da especialidade. “É uma área para quem queira
estudar cinema e, além da sala que reúne documentação sobre cinema, vamos também coleccionar publicações sobre Macau”, revela Rita Wong. No que diz respeito à organização do espaço é de
referir que a bilheteira é no rés-do-chão, onde se encontram também uma sala de projecção e outra de controle. A sala de documentação de material cinematográfico está situada no primeiro andar do edifício.
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SPÍNOLA E A REVOLUÇÃO , DO 25 DE ABRIL AO 11 DE MARÇO DE 1975 • Francisco Bairrão Ruivo
Desde finais do marcelismo que a acção do general António de Spínola apontava para a chegada ao poder, estando umbilicalmente ligada à questão africana. Com o golpe militar de 25 de Abril de 1974, tornava-se o primeiro Presidente da República após o Estado Novo. Até Setembro desse ano, procurará reforçar os poderes presidenciais, retardar a descolonização e aplicar-lhe uma via federalista, impor um projecto político assente na limitação de direitos e liberdades, na contenção da democratização e, fundamentalmente, do que se afirmava como uma revolução. Meses depois, regressaria com o precipitado golpe de 11 de Março de 1975. Talvez nunca se tenha falado tanto em «povo» como naqueles anos, sinal de que, no período revolucionário de 1974 e 1975, dificilmente se pode encontrar maior ou tão central protagonista. Será, precisamente, nesse «povo», ou parte dele, nos movimentos sociais e na revolução que Spínola encontrará a razão fundamental do fracasso do seu projecto político.
9 hoje macau segunda-feira 27.3.2017
SETIMA ARTE ´
Rita Wong explica ainda que a Cinemateca Paizão terá igualmente um programa de “workshops e conferências relacionados com cinema”. É de salientar que a gestão e programação do espaço estará a cargo da Cut Lda.
Com a intenção de promover a sétima arte em Macau, o espaço irá apresentar durante dois fins-de-semana por mês duas longas, ou curtas, metragens produzidas localmente
Com uma periodicidade mensal, a Cinemateca organizará festivais de cinema temático e programas como o “Realizador em Foco”. Também todos os meses, o espaço irá estrear dois ou três
filmes provenientes de todo o mundo. Com a intenção de promover a sétima arte em Macau, o local irá apresentar durante dois fins-de-semana por mês duas longas, ou curtas, metra-
EFEMÉRIDE ISABELLE HUPPERT DIZ QUE TEATRO “SOBREVIVE A TUDO”
gens produzidas localmente. A mostra do cinema local insere-se no programa “Descobrir Macau: Produções Independentes Locais Revisitadas”, que pretende dar visibilidade aos cineastas do território.
A actriz francesa Isabelle Huppert considerou que o “teatro é muito forte” e “resiste e sobrevive a tudo, à guerra, à censura, à penúria”, na mensagem oficial da UNESCO para o Dia Mundial do Teatro, que se celebra hoje. Isabelle Huppert sublinhou que o teatro “é a capacidade de representar outro”, é a “ausência de ódio”, é a possibilidade de criar cidadãos do mundo. “Renasce sempre das cinzas”, e continua vivo, por “derramar as convenções anteriores nas suas novas formas”, diz a actriz, na mensagem escrita a convite do Instituto Internacional do Teatro, criado no âmbito Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). “O teatro protege-nos, abriga-nos. Creio mesmo que o teatro nos ama, tanto como o amamos a ele”, finaliza Huppert.
A inauguração deste equipamento marca um novo capítulo na promoção de filmes locais no exterior, assim como o impulsionamento da cultura e arte cinematográfica entre a população do território. Rita Wong acrescenta que a Cinemateca Paixão nasce com o intuito de “ser uma plataforma de intercâmbio entre a audiência, cineastas e também turistas”. No fundo, o cinema passa a ter uma casa em Macau, para a qual todos estão convidados. João Luz
info@hojemacau.com.mo
EVENTOS
Chuva de prémios “Uma Ficção Inútil” volta a ser distinguido
C
OM apenas uma curta-metragem Kin Man Cheong, realizador e antropólogo de Macau, ganhou um punhado de prémios, obtidos em vários festivais de cinema pelo mundo fora. Recentemente “Uma Ficção Inútil” obteve o seu sexto e sétimo prémio na Índia, onde foi considerado o Melhor Filme Documentário no Festival de Curtas-metragens e Documentário Atarva, em Bombaim. O filme ganhou ainda o prémio da Melhor Montagem no Festival de Cinema Mundial da Índia, em Hyderabad. Em entrevista por e-mail ao HM, Kin Man Cheong mostra-se surpreendido com tantos prémios. “A curta-metragem já tinha obtido algum sucesso entre 2014 e 2016. Não esperava que a Índia me desse mais dois prémios, parece-me bastante positivo.” “Uma Ficção Inútil” foi um trabalho que Kin Man Cheong desenvolveu para concluir o mestrado em Antropologia Visual na Universidade Livre de Berlim, Alemanha. “Foi de certa forma um diário visual, íntimo, que não pretendia mostrar ao público”, apontou. Para este ano estão ainda agendadas mais viagens para “Uma Ficção Inútil”. A curta-metragem será reproduzida amanhã na Universidade Livre de Bruxelas, seguindo-se a galeria LemoArt, em Berlim, Alemanha, já em Abril. Há ainda passagens por Colónia, em Maio, no círculo de conferências “Estética, Média e Culturas na China” da Universidade de Colónia, pela Macedónia e Paris, entre outros locais. A frequentar o doutoramento na mesma área, Kin Man Cheong pretende “aprofundar as investigações sobre a auto-etnografia”, estando a preparar um novo filme para a conclusão desta fase de estudos. Para além disto, Kin Man Cheong está a preparar uma “ficção auto-biográfica” do seu pai. “Começa na véspera da Revolução Cultural e termina com a sua emigração clandestina da República Popular da China para Macau”, contou.
UMA CASA NECESSÁRIA
Esta semana é inaugurada oficialmente a Cinema-
teca Paixão, (ver texto principal), uma iniciativa do Instituto Cultural (IC) aplaudida por Kin Man Cheong. “Fico contente com o facto de o projecto estar bem encaminhado, embora se pudesse ter começado a desenvolver esse mesmo projecto mais cedo”, defende. “A cinemateca pode ir muito longe em termos de divulgação do cinema produzido em Macau, tanto dentro do território, como também no exterior. Existem no resto do mundo mil possibilidades à nossa espera. Agora coloca-se a questão: como aproveitar estas oportunidades?”, questiona ainda. Sendo da área da antropologia visual, Kin Man Cheong assume conhecer “mal a indústria cinematográfica”, mas acredita que “poderia ser muito útil um ‘film board’, que ainda não temos”. Kin Man Cheong defende que a iniciativa do IC pode ser um óptimo ponto de partida para a dinamização da produção cinematográfica local, mas afirma que é necessário apostar na desburocratização em termos de apoios financeiros a películas locais. “Seria importante haver maior flexibilidade no processo burocrático para aprovação desses apoios.” “Com a política de promoção e apoio aos projectos relacionados com Macau, podemos facilmente limitar-nos a temas ou conteúdos que têm de alguma maneira a ver com a região administrativa especial. Macau, e as perspectivas que de lá vêm, são igualmente interessantes. No entanto, não é só com as cenas referentes a Macau que podemos classificar um projecto que seja de interesse para o território. Qualquer trabalho, de qualquer natural macaense, ou de outra pessoa que simplesmente se tenha estabelecido aqui na terra, poderá ter um impacto positivo na sua área”, conclui. Andreia Sofia Silva
andreia.silva@hojemacau.com.mo
10 CHINA
hoje macau segunda-feira 27.3.2017
PEQUIM E MOSCOVO QUEREM INVESTIGAÇÃO A USO DE ARMAS QUÍMICAS NO IRAQUE
Exames em expansão
LI KEQIANG NA NOVA ZELÂNDIA EM VISITA OFICIAL O primeiro-ministro da China, Li Keqiang, chegou ontem à Nova Zelândia para uma visita oficial de quatro dias. Trata-se da primeira visita àquele país oceânico desde que Li tomou posse como primeiroministro da China em 2013. Durante a visita, de quatro dias, Li vai reunir-se com o seu homólogo neozelandês, Bill English, e com a governadora geral Patsy Reddy. Além de Wellington, o primeiroministro chinês vai também deslocar-se a Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia.
A
Rússia e a China propuseram que a comissão das Nações Unidas que investiga o uso de armas químicas na Síria alargue os trabalhos ao Iraque, uma proposta rejeitada imediatamente pelo Reino Unido. Os dois países sugeriram a possibilidade de alargar o âmbito do Mecanismo de Investigação Conjunta durante uma reunião sobre a batalha de Mossul, onde forças iraquianas combatem extremistas do Estado Islâmico. Os membros do Conselho de Segurança expressaram “preocupação unânime” com as últimas informações sobre o uso de armas químicas pelo Estado Islâmico, de acordo com o embaixador britânico Matthew Rycroft, que presidiu às negociações. A Rússia e a China apresentaram uma proposta de resolução que “pretende expandir o trabalho do Mecanismo de Investigação Conjunta ao Iraque”, disse Rycroft, acrescentando que o Reino Unido se opõe à medida. “O Reino Unido assinalou que há muitas diferenças entre a situação no Iraque e na Síria”, afirmou.
NADA A ESCONDER
Ao contrário do Governo sírio, o Executivo iraquiano “está a cooperar totalmente com o OPCW”, indicou Rycroft, referindo-se à sigla inglesa da Organização intergover-
PELO MENOS CINCO SOTERRADOS APÓS DESMORONAMENTO
Pelo menos cinco pessoas ficaram soterradas num prédio na sequência de um desabamento ocorrido de madrugada na província de Guizhou, no sudoeste da China. O desmoronamento teve lugar na aldeia de Baga, no condado de Panxian, para onde foram mobilizados mais de 300 bombeiros, polícias e médicos para a operação de resgate. A causa do desabamento está a ser investigada.
DETIDO NO AEROPORTO DE HONG KONG COM 25 QUILOS DE MARFIM
namental para a Proibição de Armas Químicas, que trabalha com a ONU para implementar o Mecanismo de Investigação Conjunta. “Não há alegações” de que o Governo iraquiano use armas químicas, afirmou. O conselho não tomou qualquer decisão sobre a proposta na sexta-feira. Rycroft não indicou se a Rússia e a China vão
submeter a sua resolução a votos no futuro. A disputa evidenciou uma discordância fundamen-
tal entre os países ocidentais e a Rússia sobre a Síria. O Mecanismo de Investigação Conjunta – que
A Rússia e a China apresentaram uma proposta de resolução que “pretende expandir o trabalho do Mecanismo de Investigação Conjunta ao Iraque”
Moscovo ajudou a estabelecer como membro do Conselho de Segurança – concluiu que o Governo sírio, aliado da Rússia, usou armas químicas pelo menos três vezes. No entanto, em Fevereiro a Rússia e a China vetaram uma proposta de resolução para sancionar o Governo sírio devido ao uso de armas químicas.
BRASIL ANUNCIA QUE A CHINA VAI RETOMAR IMPORTAÇÃO DE CARNE
O
Brasil anunciou sábado que a China, um dos seus principais mercados, vai retomar as importações de carne brasileira, depois da polémica em torno das práticas neste sector. “A China anunciou hoje (sábado) a reabertura total do seu mercado à carne brasileira”, afirmou o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, num comunicado citado pela Agência France Presse. Na quarta-feira, um porta-voz do ministério chinês do Comércio tinha indicado que o país decidiu
suspender as importações de carne de vaca oriundas do Brasil, na primeira confirmação oficial de Pequim sobre a interdição de carne brasileira. Uma operação policial no Brasil detectou um esquema de facilitação de licenças e fiscalização irregular de frigoríficos. De acordo com a polícia federal brasileira, funcionários públicos eram subornados por directores de empresas para darem aval a carnes com prazos de validade já ultrapassados e adulteradas. Entre as práticas, foi comprovado
o uso de químicos para melhorar o aspecto das carnes, a falsificação de etiquetas com a data de validade ou a inclusão de alimentos não adequados para consumo na elaboração de enchidos. Maggi não precisou quando serão retomadas as importações, mas referiu que a reabertura do mercado chinês “atesta a solidez e a qualidade do sistema sanitário brasileiro” e “mostra o espírito de confiança” que existe entre os dois países. O ministério precisou que as únicas restrições dizem respeito
a produtos provenientes de 21 fábricas de transformação de carne visadas pelo inquérito que esteve na origem deste escândalo. A China é o segundo comprador de carne de vaca do Brasil, com mais de 703 milhões de dólares de importações em 2016. Quanto à carne de frango, a China também figura em segundo lugar, com perto de 859,5 milhões de dólares de exportações.
Um homem foi detido no sábado no Aeroporto Internacional de Hong Kong após a descoberta de que transportava cerca de 25 quilogramas de alegado marfim trabalhado, noticiou ontem o South China Morning Post. O valor dos produtos apreendidos no Aeroporto Internacional de Hong Kong foi estimado em aproximadamente 514 mil dólares de Hong Kong. As autoridades alfandegárias interceptaram o homem, de 20 anos, à sua chegada na tarde de sábado à Região Administrativa Especial chinesa procedente de Harare, Zimbabué, via Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O suposto marfim trabalhado foi encontrado numa mochila do homem e dentro de um colete, feito à medida, que estava no interior da sua bagagem de mão.O caso foi entregue ao Departamento da Agricultura, Pescas e Conservação da antiga colónia britânica para ulterior investigação. Ao abrigo da legislação de Hong Kong, quem for culpado de importar ou exportar espécies ameaçadas de extinção sem licença arrisca uma pena máxima de 5 milhões de dólares de Hong Kong e até dois anos de prisão.
11 CHINA
hoje macau segunda-feira 27.3.2017
O discurso de vitória foi feito em prol da união de uma sociedade considerada dividida. Carrie Lam, ex-número dois do Governo de CY Leung, toma posse como Chefe do Executivo de Hong Kong dia 1 de Julho. Dois jovens residentes falam das suas expectativas sobre o novo Executivo
U
M total de 777 votos, oriundos de um colégio eleitoral com 1194 membros, bastaram para eleger a Chefe do Executivo de um território com cerca de sete milhões de habitantes. Carrie Lam, antiga número dois do Governo de CY Leung, em Hong Kong, já era considerada favorita para vencer as eleições de ontem. Para trás ficaram John Tsang, ex-secretário para as Finanças, que obteve 365 votos, e Woo Kwok-hing, juiz jubilado, com apenas 21 votos. Ainda assim, houve ecos de contestação. Anunciada a vitória de Lam, um grupo de activistas pró-democracia, munidos de cartazes e guarda-chuva amarelos, deu uma volta à sala a entoar palavras de ordem a exigir o sufrágio universal. Mais protestos ocorreram em Hong Kong no dia anterior às eleições. Centenas de pessoas manifestaram-se no sábado “em prol do sufrágio universal e contra a interferência de Pequim”. “Seja qual for o candidato que seja eleito, isto não é democracia, isto é apenas uma eleição [feita] por um pequeno círculo”, disse Au Nok-hin, coordenador da Frente dos Direitos Humanos e Cívicos, que organizou o protesto, em referência ao facto de o direito de voto estar restrito a um comité eleitoral composto por cerca de 1.200 pessoas. A manifestação juntou vários partidos políticos do campo pró-democrata, que estava dividido entre o voto em John Tsang e o voto em branco, como sinal de protesto pela ausência de sufrágio universal. Alan Leong, líder do Civic Party, marcou presença na manifestação “para protestar contra a interferência do Governo Central na eleição do chefe do Executivo de Hong Kong”. “Esta eleição está dentro [das competências] da autonomia de Hong Kong e o Gabinete de Liga-
Hong Kong CARRIE LAM ELEITA CHEFE DO EXECUTIVO COM 777 VOTOS
Sem sombra de surpresa ção [do Governo Central da China] tem usado meios (...) para aumentar a pressão sobre os membros do comité eleitoral para votarem em Carrie Lam”, disse à agência Lusa. O jovem activista político Joshua Wong, que ficou conhecido como o rosto da revolução dos guarda-chuvas, não tem direito de voto na eleição do Chefe do Executivo, mas se tivesse também votava em branco. “Os três candidatos concordam ou mantêm silêncio sobre a interferência do governo de Hong Kong e também concordam com a implementação do artigo 23, por isso é difícil para nós apoiar qualquer um dos candidatos pró-China”, disse.
UNIÃO SIM, DEMOCRACIA DEPOIS
Carrie Lam escondeu do seu discurso a questão da reforma democrática, tendo defendido outras prioridades. “Hong Kong, a nossa casa, está a sofrer uma grave divisão e acumulou muitas frustrações. A minha prioridade vai ser sarar a divisão, aliviar a frustração, e unir a nossa sociedade para seguir em frente.” “Muita gente (...) disse-me que estava agora preocupada, porque Hong Kong parece estar a perder a competitividade”, disse ainda, falando da existência de “muitos problemas” ao nível da habitação, educação e saúde. “A minha prioridade é tentar demonstrar que podemos unir as pessoas com posições diferentes para seguir em frente e, com o ambiente propício, recomeçar o processo de reforma política”, afirmou.
QUE FUTURO?
Firmino da Silva Khan é macaense mas desde criança que vive em Hong Kong. Em entrevista por email horas antes das eleições, o jovem empreendedor afirma que o futuro não será muito diferente face à era CY Leung. “Independentemente daquele que será o próximo Chefe do Executivo de Hong Kong o futuro será o mesmo, a não ser que alguém esteja disposto a ir contra os desejos da República Popular da China.” Firmino da Silva Khan explica a antipatia que muitos cidadãos sentem pela recém-eleita Chefe do Executivo. “Admito que Carrie Lam irá provavelmente acelerar o processo de morte da democracia em Hong Kong. Fez parte da Administração 689 (número de votos que elegeu CY Leung em 2012). É também bastante pró-República Popular da China. Estes dois factores fazem com que seja ainda mais odiada. É também hipócrita, pois, por um lado, diz que quer comu-
nicar mais com as gerações mais jovens, mas por outro lado critica essa mesma geração pelas suas acções e recusa responder a várias questões”, acrescentou o jovem. John Tsang poderia receber mais apoio dos que têm menos de 30 anos, mas, ainda assim, faltava algo. “Muitos apoiaram John Tsang e
“Hong Kong, a nossa casa, está a sofrer uma grave divisão e acumulou muitas frustrações. A minha prioridade vai ser sarar a divisão, aliviar a frustração, e unir a nossa sociedade para seguir em frente.” CARRIE LAM
muitas pessoas próximas de mim me falaram dele nos últimos dias antes das eleições”, explicou Firmino da Silva Khan. “Não havia um apoio forte, mas as pessoas odeiam tanto Carrie Lam que não lhes restava outra alternativa se não apoiar Tsang. Foi um candidato mais amigável e aberto, disposto a fazer um esforço de ligação das pessoas, sobretudo das gerações mais jovens”, acrescentou. Tâmara Liu Ying Ying, que está a realizar o estágio em advocacia, diz não estar certa se “Carrie Lam é verdadeiramente odiada pela população”. “As pessoas da minha idade e do meu circulo de amigos preferiam John Tsang, porque fez uma boa campanha e foi um dos que serviu o Governo por um longo período de tempo e, ainda assim, recebe apoio tanto dos democratas como de alguns apoiantes de Pequim. Seria o único a conseguir unir a sociedade nesta altura”, explica a jovem advogada. Para Tâmara Liu Ying Ying, caso o sufrágio universal já estivesse implementado, os resultados eleitorais teriam sido bem diferentes. “Esse sistema seria melhor do que aquele que temos actualmente.
Caso essa reforma política estivesse já implementada, John Tsang teria recebido mais votos.” Amada ou odiada, a escolha está feita. Para a estagiária em advocacia Carrie Lam tem, acima de tudo, experiência governativa. “Ela fez parte do Governo (desde a sua graduação na Universidade de Hong Kong) e penso que será uma Chefe do Executivo bastante capaz. Penso até que estará mais disposta a ouvir os democratas do que CY Leung, já que, por exemplo, convidou todos os partidos para um jantar na residência oficial para discutir a questão da reforma política, há uns anos”, concluiu. Em comunicado, Chui Sai On, Chefe do Executivo de Macau, deu os parabéns pela vitória de Carrie Lam. “Estou certo de que, com base nos bons fundamentos de cooperação já existentes, os dois Governos devem dar as mãos e continuar a aprofundar as relações amigáveis, inclusive para incrementar a eficácia.” Andreia Sofia Silva (com Lusa) andreia.silva@hojemacau.com.mo
h ZHANG ARTES, LETRAS E IDEIAS
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YANYUAN «Lidai Ming Hua Ji»
Relação das Pinturas Notáveis Através da História Wu Daoxuan1 da actual dinastia Tang, é único acima de todos os outros pintores e de todos os tempos, antigos ou modernos. Dentre os seus predecessores nem mesmo Gu Kaizhi ou Lu Tanwei podem ser chamados de seus iguais, e entre os seus seguidores não há ninguém que tenha uma importância igual. Ele aprendeu o seu método de pintura com Zhang Xu2, e a partir disto podemos de novo deduzir que o uso do pincel é o mesmo para escrever ou para pintar. Tal como de Zhang se dizia que era louco em caligrafia assim Wu pode ser designado como o Sábio da Pintura. Quando o Céu cria um grande espírito, ele é concebido como ousado e divino sem limites. Enquanto as pessoas comuns fixam a sua atenção nos contornos, eu (ou qualquer grande pintor) procuro a separação e o espalhar dos pontos e pinceladas, e se eles observam muito reverentes a semelhança das formas, eu evito esses aspectos comuns e vulgares.
1 - Mais conhecido como Wu Daozi (680-740), era de Yangdi na Província de Henan. A novidade de Zhang Yanyuan ao indicá-lo como aquele que efectuou a transformação fundamental na pintura de paisagem é diferente da apreciação anterior e posterior que coloca nesse lugar Wang Wei, da dinastia Song ou Liu (420-478). Jing Hao, do século X, por exemplo, tinha dito: «Em Wang Wei pincel e tinta são soberbos.» Zhang será o primeiro a reconhecer que é Wu e não Wang Wei o primeiro a transmitir a radical significação poética da pintura de paisagem (ver Osvald Sirén,The Chinese on the art of painting, op. cit. p.32). Já na dinastia Qing (1644-1911) viria a ser venerado como um dos três sábios da arte, juntamente com o calígrafo Wang Xizhi (309-c.365) e o poeta Du Fu (712-770). 2 - Calígrafo e pintor activo no século oitavo, tinha o nome de corte Bogao.
Natural de Suzhou na Província de Jiangsu, tornou-se funcionário durante o reino de Xuanzong (685-763), era um dos famosos Oito Imortais da Taça de Vinho. No poema do mesmo nome Du Fu escreveu: «Na escrita cursiva Zhang Xu era bem merecedor da sua fama/ Depois de três taças ele destapava a cabeça diante de damas e cavalheiros / E espalhava nuvens e neblina pelo papel como uma labareda.» De acordo com a lenda sempre que estava bêbado, usava o seu cabelo como pincel e produzia obras de que se espantava e não saberia reproduzir uma vez sóbrio. Embora também fosse admirada a sua escrita regular, foi na escrita cursiva que ficou famoso, obtendo o epíteto de Divino da Escrita de Relva. É muitas vezes emparelhado com o monge budista e calígrafo Huaisu (737-799), como os dois grandes calígrafos da dinastia Tang, afectuosamente referidos como «o louco Zhang e o bêbado Su».
Paulo Maia e Carmo tradução e ilustração
13 hoje macau segunda-feira 27.3.2017
o ofício dos ossos
Valério Romão
Da arte de contar uma história W
ALTER Benjamin diz que os contadores de histórias se podem dividir, fundamentalmente, em dois tipos cujas raízes são tão antigas como a própria necessidade de contar uma história: aquele que, por opção ou por destino, não tem como sair do seu sítio de origem e conta as histórias, tradições e mitos locais, e aquele que, viajando mundo fora – sendo o expoente máximo dessa figura o marinheiro – vai contando, por onde passa e, sobretudo, quando regressa de onde partiu, aquilo que viu. Já nos cruzamos de algum modo com uma destas duas figuras. Mais: cada um de nós tem, em quantidades desiguais, uma destas perspectivas de estar no e de ver o mundo. Somos, naturalmente, contadores de histórias. Estas servem o propósito de constituir um património comum de experiências, lendas e mitos que nos ligam e nos situam enquanto identidades sociais. Os gregos representavam a linha do tempo – e a marcha de um homem nela – como alguém virado para o passado que anda, inexoravelmente, em direcção ao futuro, de costas. A imagem, para além de adequada, é honesta. O futuro é o atractor universal que confere direcção – e, por isso, sentido – à caminhada. Mas é desconhecido. A única coisa a que temos acesso (ainda que o estatuto desse acesso não seja de todo claro) é o património de experiências que amealhámos. E neste património incluem-se as histórias que vivemos e que ouvimos e ambas, de certo modo, nos definem. Segundo Benjamin, a arte de contar uma história está em declínio (o texto no qual o afirma data de 1936 e chama-se “The Storyteller – Reflections on the Works of Nikolai Leskov”). A massificação da informação e do seu formato específico (o de abarcar quase tudo e de ser plausível) é o oposto daquilo que alimenta a arte de contar uma história. Como diz Benjamin, quando abrimos um jornal ao calhas, de manhã, e apesar da multiplicidade de notícias de todos os cantos do globo, a quantidade de histórias dignas de relevo é incrivelmente diminuta. Isto porque, na explicação
benjaminiana, tudo quanto nos chega pela via do relato e, sobretudo, do relato noticioso, já vem acompanhado de uma explicação. E a arte de contar uma história, prossegue o autor, é a de
A massificação da informação e do seu formato específico (o de abarcar quase tudo e de ser plausível) é o oposto daquilo que alimenta a arte de contar uma história
libertar a própria história da tentação de explicá-la de alguma forma, de remover quaisquer ligações psicológicas e subjectivas entre os acontecimentos da história. Um dos autores que melhor faz isso e que me vem imediatamente à cabeça é a Flannery O’Connor. A elisão a que nos vota relativamente às motivações psicológicas das suas personagens será talvez um dispositivo pelo qual faz ressair a natureza moral das mesmas. De qualquer modo, e independentemente da razão pela qual Flannery (e os contadores de histórias, na generalidade) escolhe suprimir das histórias que contam as ligações subjectivas de carácter psicológico ou explicativo acaba por dotar a história
de uma miríade de ângulos que a explicação, pela sua própria natureza, tenta obviamente reduzir a um único apenas. Numa época em que a informação se tornou o meio de transmissão de conhecimento por excelência (e que, por acréscimo, deixou de ter a verdade como fundamento axiológico) e, com isso, minou a nossa capacidade inata de trocar experiências, mirrando-a como um membro que não se exercita, era importante percebermos quais as formas que subsistem de produzir as ligações invisíveis que entretecem as estruturas sobre as quais assenta a própria noção de comunidade. Ou a solidão contemporânea deixará de ser uma metáfora simplista para passar a ser um modo de vida sem alternativas.
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hoje macau segunda-feira 27.3.2017
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CONCERTO “THE BRIDGE – THE MACAU JAZZ CLUB LEGENDARY BAND” Live Music Association | 20h00 INAUGURAÇÃO DA INSTALAÇÃO “SEARCHING FOR SPIRITUAL HOME II”, DE YEN-HUA LEE Armazém do Boi (até 7 de Maio)
Diariamente
O CARTOON STEPH
EXPOSIÇÃO “SOLIDÃO”, FOTOGRAFIA DE HONG VONG HOI Museu de Arte de Macau EXPOSIÇÃO “AD LIB” DE KONSTANTIN BESSMERTNY Museu de Arte de Macau (Até 05/2017)
PROBLEMA 5
SOLUÇÃO DO PROBLEMA 4
UM DISCO HOJE C I N E M A
SUDOKU
DE
EXPOSIÇÃO “VELEJAR NO SONHO” DE KWOK WOON Oficinas Navais N.º1 (Até 23/4)
Cineteatro
1.16
IMPROVISO
Domingo
EXPOSIÇÃO “TRACING LINERS”, DE JOÃO PALLA Casa Garden
YUAN
AQUI HÁ GATO
“CONVERSAS SOBRE O LIVRO – A LITERATURA MODERNA CHINESA DE MACAU” Fundação Rui Cunha | 18h30 às 20h30
EXPOSIÇÃO | “ANSCHLAG BERLIM – DESENHO DE CARTAZES DE BERLIM”, Galeria Tap Seac
0.23
Não é à toa que os grandes mestres do Jazz, dos tempos de Bird, Dizzy, Miles, Morgan, etc, se tratavam por “cats”. Eram todos bichanos tarecos, cheios de ritmo e improviso, algo intimamente felino. Se o improviso é bom no bop, também o é quando se está a desvendar uma cidade como Macau. Rasguem todos os mapas e planos traçados e sigam pela rua que vos pareça mais bela. Há sempre algo para encontrar quando nada de específico se busca. A definição de um objectivo concreto não deixa abertura para a surpresa, para ruelas charmosas e propostas de última hora. Objectividade fatal, que cega de propósito. Como diria um personagem chamado Dean Moriarty, a estrada não tem destino, ela é o seu próprio destino. Essa personagem vive num livro cheio de beat, com gatos improvisadores que vivem desmesuradamente de costa a costa. Esta liberdade é um tempero de vida, como sal e pimenta na carne. Basta estar atento e receptivo e a música vem ter contigo, coisas mágicas acontecem nos sítios mais improváveis. Macau bebe-se bem assim, de tragos largos e sem receios, de percorrer becos labirínticos e seguir para onde o instinto mandar, seguir o puro faro. Macau deve ser tocada de improviso, como uma longa noite de bater de pés e acenar de cabeças concordantes com o beat do Birdland. Pu Yi
THE JESUS AND MARY CHAIN | PSYCO CANDY
“Psyco Candy” é o disco inaugural dos escoceses The Jesus and Mary Chain, um arranque glorioso que chegou aos escaparates em 1985. A banda vive da simbiose criativa de dois irmãos, Jim e William Reid, respectivamente vocalista e guitarrista. Este disco é essencial à discografia de qualquer melómano que goste de post-punk, noise e shoegaze, com um som assente em guitarras abrasivas e vocalizações negligentes. Na ingrata tarefa de distinguir faixas do álbum é impossível não mencionar “Just Like Honey”, “You Trip me Up” e “Some Candy Talking”. Um dos discos mais influentes dos últimos 15 anos do século passado. João Luz
LIFE SALA 1
POWER RANGERS [C] Filme de: Dean Israelite Com: Bryan Cranston, Elizabeth banks, Naomi Scott 14.30, 16.45, 19.15, 21.30 SALA 2
LIFE [C] Filme de: Daniel Espinosa Com: Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds 14.30, 16.30, 19.30, 21.30 SALA 3
A SILENT VOICE: THE MOVIE [B] FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO
EM CHINÊS E INGLÊS Filme de: Naoko Yamada 14.15, 19.15
SILENCE [C] Filme de: Martin Scorsese Com: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson 16.30
KONG: SKULL ISLAND [C][3D] Filme de: Jordan Vogt-Roberts Com: Tim Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson 21.30
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Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editores Isabel Castro; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; Sofia Margarida Mota Colaboradores António Cabrita; António Falcão; António Graça de Abreu; Gonçalo Lobo Pinheiro; José Drummond; José Simões Morais; Julie O’Yang; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Paulo José Miranda; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fernando Eloy; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo
15 hoje macau segunda-feira 27.3.2017
OPINIÃO
dissonâncias
A
Djissilbloem não fez Erasmus
S declarações infelizes sobre os países do sul da Europa proferidas pelo presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, a poucos dias da cimeira de Roma, mostram que as divisões no interior da União Europeia (UE) continuam tão vivas, agora, 60 anos após a assinatura dos Tratados de Roma, como quando a Comunidade Económica Europeia foi estabelecida. Os líderes de 27 dos 28 países da União Europeia – o Reino Unido já não faz parte da festa – acorreram a Roma, no sábado passado, para assinalar as virtudes de um projecto que levou a paz e a prosperidade à Europa por um período e a níveis nunca antes vistos. Ainda assim, diferenças, desconfianças e preconceitos continuam a marcar os povos da Europa. No caso em concreto, em que Dijsselbloem acusou os povos dos países que têm recebido apoio internacional às suas depauperadas economias, de não fazerem um esforço sério de consolidação das suas finanças, e de gastarem parte desse apoio internacional em bebida e mulheres, expressa uma visão comum entre alguns povos da Europa. Se se quiser, é como se Dijsselbloem tivesse verbalizado o que muitos europeus do norte pensam. Há uma divisão profundamente marcada entre os povos do norte da Europa e os do sul da Europa. Essa divisão norte-sul afecta muito o modo de nos vermos uns aos outros. E mesmo quando um político experiente dá uma entrevista acaba por saltar à vista. É como a parte de cima do leite-creme queimado, tão apreciado no sul da Europa. Estala com facilidade. A UE representa hoje para 27 países europeus uma conjugação de interesses, baseada em objectivos comuns, de valores idênticos e princípios semelhantes. Cooperação pacífica, respeito pela dignidade humana, liberdade, democracia, igualdade, solidariedade são a espinha dorsal desta união. São estes valores – a par da economia de mercado – que fizeram da União o que ela é hoje: o maior mercado do mundo, onde pessoas, bens, serviços e capitais circulam livremente. Um espaço de liberdade, onde o respeito pelos direitos humanos, solidariedade e igualdade, são, não obstante algumas dificuldades de percurso, uma realidade. Apesar de tudo aquilo que a UE e os povos europeus alcançaram – e, convém sempre sublinhá-lo, não foi pouco – as diferenças culturais são ainda hoje profundas. É um facto que o programa Erasmus e a sua nova versão, o Erasmus+, tem contribuído para um certo esbatimento das diferenças. É talvez o programa da UE que mais tem feito para aproximar os diversos povos europeus.
ANNALISA PIRAS, THE GREAT EUROPEAN DISASTER MOVIE (2015)
RUI FLORES
ruiflores.hojemacau@gmail.com
O norte europeu é protestante; o sul é católico. E a religião, como sabemos, imiscui-se em tudo. As diferenças não são, pois, meramente indicativas. São operativas. Formatam-nos. Nós construímos a nossa identidade por oposição aos outros. Eu sou aquilo que o outro, à minha frente, meu vizinho, não é. Os da minha tribo não fazem aquilo que os das outras fazem
O intercâmbio de alunos por toda a Europa evidenciou o que temos em comum. Mas as divergências persistem. Sobretudo em tempos, exponenciados por actos eleitorais, em que os povos têm de escolher entre diferentes opções. A opção por um ou outro caminho leva a que as pessoas mostrem a sua verdadeira natureza – veja-se o que acontece com o discurso fácil dos populistas. É certo que no caso de Dijsselbloem a campanha eleitoral já passou e o seu partido foi um dos mais penalizados pelos eleitores holandeses. Também isso deveria tê-lo feito ver a importância da tolerância democrática. As diferenças culturais são, pois, muito difíceis de ultrapassar. Um chinês que vai estudar para os Estados Unidos, por exemplo, não deixa de ser culturalmente chinês, ainda que coma ocasionalmente no McDonald’s. Quando sai de casa para jantar vai mais frequentemente aos restaurantes chineses do que aos estabelecimentos de comida ocidental. Usa pauzinhos às refeições, vive em bairros predominantemente chineses. Algo semelhante acontece, dê-se mais um exemplo, com a comunidade portuguesa de Macau. Aqui, continue-se a generalização, uma vasta maioria de portugueses só
vai a restaurantes portugueses; lê todos os dias os jornais em língua portuguesa; não perde o “jornal da Tarde” da RTPi; aplica no trabalho os valores que trouxe do outro lado do mundo e não os da comunidade de acolhimento. No caso da divisão norte-sul europeia, essas diferenças culturais têm ainda uma componente religiosa muito marcada. O norte europeu é protestante; o sul é católico. E a religião, como sabemos, imiscui-se em tudo. As diferenças não são, pois, meramente indicativas. São operativas. Formatam-nos. Nós construímos a nossa identidade por oposição aos outros. Eu sou aquilo que o outro, à minha frente, meu vizinho, não é. Os da minha tribo não fazem aquilo que os das outras fazem. Depois de a festa dos 60 anos de Roma, em que os líderes europeus voltaram a afirmar o seu empenho na unidade, o esforço principal que falta fazer para o avanço da Europa, agora formalmente a várias velocidades, é na “unidade” de que falava Donald Tusk. Essa unidade tem um nome: solidariedade. Uma solidariedade que passa por tratar as diferenças culturais não como um factor de afastamento mas de diversidade.
Macau se se tranquilizar, poder-se-á acertar Atlântido PUB
A sabedoria na multiplicação
Stephen Hawking surge em holograma em Hong Kong
O
célebre astrofísico Stephen Hawking falou na sexta-feira a uma audiência em Hong Kong através de um holograma, numa sessão em que discutiu ciência e também política. O cientista britânico surgiu perante uma audiência de centenas de pessoas que aplaudiram e tiraram fotografias, num evento em que Hawking falou da sua carreira e respondeu a perguntas sobre a possibilidade de existência de vida noutros planetas, o uso da tecnologia na educação e o impacto do ‘brexit’ no Reino Unido. Hawking, de 75 anos, disse que a eleição do Presidente norte-americano Donald Trump faz parte de uma cadeia de “sucessos da extrema-direita” que vão ter implicações graves para o futuro da inovação científica. “Com o ‘brexit’ e Trump (…) estamos a assistir a uma revolta global contra os especialistas”, disse, naquela que foi a sua primeira aparição em Hong Kong desde 2006.
A viragem à direita surge numa altura em que o mundo enfrenta múltiplas crises ambientais, do aquecimento global à desflorestação, acrescentou. “As respostas a estes problemas vão surgir da ciência e da tecnologia”, disse. Hawking sofre de esclerose lateral amiotrófica, uma doença neurodegenerativa que afecta os nervos que controlam os movimentos voluntários, que o deixou paralisado, só conseguindo comunicar através de um sintetizador de voz. O evento foi organizado pela empresa de jogos chinesa NetDragon Websoft, em parceria com a ARHT Media, que cria hologramas digitais humanos de celebridades, incluindo o guru espiritual Deepak Chopra, o orador motivacional Tony Robbins e o ‘rapper’ The Notorious B.I.G. A tecnologia que permite a um humano aparecer e interagir com audiências em múltiplas localizações em simultâneo está a expandir-se.
AUTOR DO ATENTADO EM LONDRES TERÁ AGIDO SOZINHO
A Polícia Metropolitana de Londres anunciou ontem que o autor do ataque terrorista em Westminster, na quarta-feira, agiu sozinho e não há indicações de que estejam a ser planeados novos ataques. «Todos temos de aceitar que há uma possibilidade de nunca virmos a perceber as razões que o terão levado a fazer isto. Esse entendimento pode ter morrido com ele», disse ontem o comissário-adjunto interino da Polícia Metropolitana, Neil Basu. Khalid Masood, nome que o britânico adoptou depois de se converter ao islamismo, matou quatro pessoas e deixou mais de 40 feridas.
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