MOP$10
S E G U N DA - F E I R A 2 4 D E F E V E R E I R O D E 2 0 1 4 • A N O X I I I • N º 3 0 3 6
hojemacau
GONÇALO LOBO PINHEIRO
DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ
DESENVOLVIMENTO INFANTIL Associação em risco de fechar portas
PÁGINA 8
DOCUMENTOS AO MP
Testemunhas negam pressões para entrega tardia CASO DAS CAMPAS PÁGINA
9
PUB
AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006
GOVERNO PROPÕE
28 patacas por hora é valor “adequado” SALÁRIO MÍNIMO PÁGINA PUB
5
URBANISMO Executivo promove discussão de projectos aberta ao público na maioria dos casos
Transparentes q.b. O Governo decidiu. A partir de agora as reuniões do Conselho do Planeamento Urbanístico serão abertas à população. Numa tentativa de total transparência, o Executivo deseja que todos possam participar nas discussões sobre a elaboração, execução, revisão e alteração dos planos urbanísticos. De
igual modo, a sociedade será convidada a pronunciar-se sobre determinados projectos. Contudo, toda a regra tem uma excepção. “Às vezes, as reuniões à porta fechada têm o seu valor. Quando envolve, por exemplo, negócios de uma empresa, para evitar que algumas situações sejam reveladas.”
PÁGINA 3
2
POLÍTICA
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
MIGUEL SENNA FERNANDES CHUI SAI ON “AQUÉM” NUM GOVERNO QUE “FALHA”
“Fogo de vista” na Assembleia
O
presidente da Associação dos Macaenses lança críticas à actuação do Governo e seu líder, mas não deixa melhores créditos à Assembleia Legislativa. Para Miguel de Senna Fernandes, Chui Sai On tem ficado “aquém” do que seria exigível neste primeiro mandato, tendo sido tratada o problema da habitação de forma inadequada. Por essa razão, a nota a dar ao Chefe do Executivo não vai além de um cinco numa escala de zero a 10. “O Chefe do Executivo, para mim, ficou aquém. Em várias coisas o Governo falha. O Governo falha não sei se é porque está preso por várias razões. Há uma certa hesitação a implementar certas coisas, como a questão da
habitação, por exemplo. É gritante relegar a resposta para resolução do problema às leis de mercado, isso é tão falacioso como outras coisas mirabolantes que podemos imaginar”, sustenta, numa entrevista este fim-de-semana à Rádio Macau. “Temos um Governo agrilhoado. Isto é importante que se diga. O Governo não decide como deve decidir. Eu sempre esperei que o Governo fosse mais corajoso em determinadas matérias. Mas o Governo não faz, e está muito aquém do que eu esperava que o Governo pudesse fazer.” No entanto, Senna Fernandes ressalva que o líder da RAEM tem dado apoio à comunidade macaense.
Já sobre o órgão legislativo, o também advogado entende que não tem sabido cumprir o seu papel, quando em vez de legislar apenas cria “espectáculo”. “É muito fogo de vista. Há muito show. Já houve alguém que dissesse, e eu concordo plenamente que estão a fazer a AL como uma caixa de ressonância. Não pode ser assim. A AL não é para fazer show. A AL institucionalmente é também para legislar”, justifica.
“MACAU VAI TER DE FALAR PORTUGUÊS DE NOVO”
O português está para ficar. Miguel de Senna Fernandes não tem dúvidas, numa altura em que Pequim quer reforçar a aposta na aproximação a lusofonia. Por essa
razão, a população deve debruçar-se novamente sobre a língua de Camões para que não sejam só continentais a falar o idioma. “Vai sobreviver enquanto durar esta política de aproximação entre a República Popular da China e os países da lusofonia. Não estou a ver como não sobreviver. Macau vai ter de falar português de novo. Os macaenses vão ter de falar português de novo”, sustenta, em declarações à Rádio Macau Entrevista. “Não é ficção científica. Pode-se assistir. Os falantes de português em Macau serem chineses do Interior da China.” Além disto, o presidente da Associação dos Macaenses defende que a língua deve ser obrigatória, mas para isso faltam professores na RAEM. Por outro lado, a identidade dos macaenses está em perigo numa altura em que 70% dos jovens não fala português. “Os macaenses estão a perder uma oportunidade de ouro. O que é uma pena que a comunidade macaense no seu todo não abrace esta causa e voltar a apostar no português”, avalia.
PORTUGUESES COMO “ILHÉUS”
O presidente daAssociação dos Macaenses entende que os portugueses chegados a Macau não se esforçam por aprender o cantonês. “É fundamental que os portugueses que se fixam em Macau comuniquem. A falta de comunicação com os locais faz deles autênticos ilhéus. Isto é muito mau. Há muita gente que vem cá e fala mal de Macau, da comida, das pessoas. Falam mal de tudo. Criticam tudo. Mas não procuram saber o que há de bom nesta terra”, argumenta Miguel Senna Fernandes, presidente da Associação dos Macaenses, entendendo ainda assim que são bem-vindos a Macau.
Mak Soi Kun preocupado com desalojados
O deputado Mak Soi Kun interpelou o Executivo para a necessidade de ser feito um estudo sobre as causas para o despejo de muitas famílias, por forma a resolver as suas necessidades. O deputado considera que, tendo em conta o desenvolvimento económico, deve ser considerada a desigualdade social, e o facto de cada vez ser mais evidente em Macau. Mak Soi Kun falou ainda dos casos dos sem-abrigo que dormem na rua, o que, na sua opinião, acarreta “problemas sociais mais profundos”.
Ainda não há soluções para o Sin Fong Garden
Mais de cem proprietários dos apartamentos do Sin Fong Garden, o edifício em risco de ruína, tiveram este Sábado uma reunião para debater o futuro do caso. Wong Man Seng, porta-voz dos proprietários, disse que já foram apresentadas várias propostas, mas que ainda não se chegou a um acordo para a reconstrução do prédio. O grupo de dez proprietários declarou não ter esperança no sucesso das comunicações com o Governo, e espera que os restantes moradores procurem novas soluções para o caso.
PROTESTO NO PROGRAMA FÓRUM MACAU SOBRE ALEGADA CENSURA
Protecção animal chumba na AL “por causa da TDM” CECÍLIA LIN
cecilia.lin@hojemacau.com.mo
O
NTEM, no programa matinal Fórum Macau da TDM, um grupo de activista pró-democratas fizeram um protesto e dedicaram minutos de silêncio à censura, que dizem existir no seio da televisão público sobre alguns assuntos polémicos.
Antes do início do programa, alguns manifestantes levantaram um cartaz para pedir a “Saída de Lo Song Man”, a directora do departamento de notícias no canal chinês da TDM e também membro da direcção da TDM, que acusam de “harmonizar” as notícias em língua chinesa. No decorrer do programa, alguns manifestantes fizeram
silêncio contra aquilo que dizem tratar-se de censura no tratamento de notícias da TDM, invocando um caso recente. Em seu entender, o projecto de lei para protecção dos animais – apresentado por duas vezes pelo deputado Pereira Coutinho – sempre mereceu o chumbo da AL porque a TDM não explica a sua importância para a sociedade.
O director-adjunto do departamento de programas de noticias e informações, Un Veng Kuai, declarou aos manifestantes que a TDM continuará a insistir nos princípios de “objectividade, justiça e factualidade”. À imprensa chinesa, garante, os funcionários que fizeram a carta pública com acusações à TDM não serão alvo de investigação.
Também ontem, Ng Kuok Cheong questionou ontem o Governo da RAEM se irá fazer uma consulta pública para criar um regime sobre a instalação pública de comunicações, a fim de defender a liberdade de imprensa no serviço público. Numa interpelação escrita, o deputado reivindica que a mudança de director da TDM causa dúvidas na
sociedade, tendo levado a que os seus funcionários lançassem duas cartas esta semana onde apontam que há uma dirigente do departamento a fazer censura no tratamento de notícias. O deputado perguntou ainda se o Governo iria fazer mudança na direcção da TDM, para certificar que esta inclui mais representantes dos média.
política 3
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
PLANEAMENTO URBANO COMISSÕES ABERTAS AO PÚBLICO E CONSULTAS À POPULAÇÃO SOBRE PROJECTOS
Governo a tentar a transparência joana.freitas@hojemacau.com.mo
H
AVERÁ excepções, mas, no geral, as reuniões do Conselho do Planeamento Urbanístico serão à porta aberta. O anúncio foi feito pelo Executivo, na sexta-feira, dia em que foi apresentado o Regulamento Administrativo que cria o grupo responsável por emitir pareceres sobre a elaboração ou alteração dos planos urbanísticos e sobre a emissão das plantas de condições urbanísticas. “Com excepção das situações que, nos termos da lei, devem ser mantidas confidenciais, as reuniões plenárias são públicas na parte da discussão sobre a elaboração, execução, revisão e alteração dos planos urbanísticos, a emissão das planta urbanísticas (PCU) e os estudos estratégicos sobre o desenvolvimento urbano”, começou por dizer Leong Heng Teng. Sobre algumas das reuniões serem à porta fechada, o porta-voz do Conselho Executivo explicou apenas que isso se deve a assuntos de negócios. “Às vezes, as reuniões à porta fechada têm o seu valor. Quando envolve, por exemplo, negócios de uma empresa, para evitar que algumas situações sejam reveladas.”
Com excepção das situações que, nos termos da lei, devem ser mantidas confidenciais, as reuniões plenárias são públicas na parte da discussão sobre a elaboração, execução, revisão e alteração dos planos urbanísticos, a emissão das planta urbanísticas (PCU) e os estudos estratégicos sobre o desenvolvimento urbano
TIAGO ALCÂNTARA
JOANA FREITAS
LEONG HENG TENG O porta-voz do Conselho Executivo
rem prontas, serão alvo de auscultações públicas. “A DSSOPT deve proceder à recolha das opiniões dos interessados e da população num mínimo de 15 dias.” Estas depois serão enviadas ao Conselho para que este emita um parecer, no prazo máximo de um mês. Lau Si Io pode decidir que o Conselho não seja ouvido, mas apenas em casos específicos e previstos por lei, não podendo o secretário para as Obras Públicas abrir excepções que não estejam previamente no diploma. “Há sempre auscultação pública, sempre que haja um projecto é preciso ouvir a população.” Actualmente, o Governo tem mais de 300 plantas de condições urbanísticas (antigas Plantas de Alinhamento Oficial) para emitir, mas ainda espera receber mais de 200 requerimentos até ao final do ano. Ainda assim, segundo Jaime Carion, director das Obras Públicas, não haverá aceleração de autorizações e as que apenas começarem os procedimentos administrativos após a entrada em vigor da lei serão autorizadas consoante as novas regras.
IMPEDIMENTOS
Presidido por Lau Si Io, secretário para os Transportes e Obras Públicas, o Conselho do Planeamento Urbanístico vai ainda integrar 27 pessoas da área da áreas relacionadas com o planeamento, mas também “de reconhecido mérito social”. A Lei do Planeamento Urbanístico prevê, por isso, um regime de impedimento, mas que só é activado quando os próprios elementos denunciarem ter interesses sobre a matéria que está a ser discutida. “Em princípio será por iniciativa própria e por escrito. Há situações em que [esses elementos] sabem que têm de declarar [o impedimento], mas o Governo também tem de estar sempre atento” frisou Leong Heng Teng, acrescentando que o Governo está “ciente da importância de um regime de impedimento”. O regulamento prevê, no entanto, que só à segunda vez que algum elemento não siga a lei é que deixará de ser membro do Conselho. A lista com todos os nomes que integram este grupo será anunciada “em breve”.
AUSCULTAÇÃO PÚBLICA
A entrada em vigor da Lei – a 1 de Março -, em conjunto com os Regulamentos Administrativos apresentados pelo Governo traz ainda outras novidades. A partir do próximo mês, assim que as Plantas de Condições Urbanísticas estive-
GOVERNO SEM DADOS SOBRE PATRIMÓNIO NOS PRIVADOS O Conselho do Património Cultural vai ser presidido por Cheong U, secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, e terá Ung Vai Meng como vice-presidente. Durante três anos – e a partir de 1 de Março – o também presidente do Instituto Cultural vai integrar o grupo responsável pela elaboração de pareceres sobre o património de Macau. Ao contrário do Conselho do Planeamento Urbanístico, as reuniões não serão públicas. O grupo tem como trabalhos autorizar a
demolição de edifícios de interesse arquitectónico, por exemplo, e avaliar projectos de grande impacto na vida da sociedade. O Conselho tem ainda que ser ouvido face ao facto de a RAEM ter exercício do direito de comprar primeiro edifícios de valor patrimonial. Leong Heng Teng, contudo, não conseguiu apresentar dados aos jornalistas sobre quantos edifícios de valor histórico estão nas mãos de privados, descartando a informação para outra altura. No grupo, além de
Cheong U e Ung Vai Meng, estão ainda representantes do Gabinete do secretário, o director dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes, Jaime Carion, o presidente do Conselho de Administração do Instituto para os Assunto Cívicos e Municipais, um representante do Instituto Cultural e até 12 especialistas ou académicos da área da arquitectura, planeamento, história ou cultura e “personalidades de reconhecido mérito social”.
4 política
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
PUB TIAGO ALCÂNTARA
ACREDITAÇÃO PROFISSIONAL DEPUTADOS QUEREM VER CLARIFICADA FUNÇÃO DO CONSELHO
Trabalho mais abrangente O S deputados, que apreciam na especialidade o diploma que regula a acreditação de profissionais nos domínios do urbanismo e da construção civil, querem maior clareza nos artigos sobre o conselho de arquitectura e engenharia. Este organismo, segundo a nova lei, ficará responsável pela acreditação destes profissionais. “A acreditação profissional cabe a este conselho que depois de aferir a qualificação e documentos, etc., dos candidatos pode concedê-la. Por isso, não é um conselho consultivo e a comissão [permanente da Assembleia] questionou [o Governo] se há necessidade de clarificar o conteúdo dos respectivos artigos”, explicou Kwan
Tsui Hang, presidente da 1.ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa. O novo regime de acreditação permite às empresas privadas decidir se querem acreditar os trabalhadores mas obriga, por exemplo, os arquitectos e engenheiros que assinam projectos a acreditarem-se. Para o efeito, há dois requisitos principais: uma licenciatura e um estágio de três anos. “Devem ser apresentados às obras públicas um projecto e a planta. Claro, que as empresas podem contar com a colaboração de outros trabalhadores, só que o projecto que chega às obras públicas tem de ser apresentado por um profissional acreditado porque se ocorrer qualquer problema ou acidente é essa pessoa que tem de assumir
as devidas responsabilidades. Esta proposta de lei prevê também a responsabilidade civil”, frisa a deputada. Neste campo, os deputados questionam a norma relacionada com a obtenção de seguros, embora não tenham ainda aprofundado esta discussão com os membros do Governo. A proposta de lei que regula a acreditação nos domínios do urbanismo e da construção civil contempla um total de 13 áreas de especialização profissional. Dados veiculados pelo Executivo dão conta da existência de 1200 inscrições num sistema de registo, embora estes profissionais precisem obter nova acreditação quando o regime entrar em vigor.
política 5
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
SALÁRIO MÍNIMO GOVERNO PROPÕE 28 PATACAS PARA TRABALHADORES
“Adequado à realidade” e, de acordo com a rádio, defende um cálculo com base no índice do risco social. “Através das estatísticas é fácil estabelecer o valor de 30 patacas para o salário mínimo”. Mas há mais uma razão para os trabalhadores estarem contra as 28 patacas propostas: a previsão de que a lei demore dois anos até entrar em vigor. “Achamos que não vai ser adequado daqui a dois anos. Ninguém pode garantir quando é que este processo
legislativo fica concluído. E depois da conclusão, tem que se esperar 180 dias para entrar em vigor”. A notícia dá ainda conta que, o representante dos patrões, Wong
Kok Seng, diz não ter opinião sobre o montante decidido pelo Governo, mas alerta que a introdução de um salário mínimo vai representar problemas para as empresas: “Não achamos que o montante é um problema. [Mas] a criação deste regime implica várias partes, é um problema social e poderá ter efeitos como o aumento dos salários, das despesas dos condomínios e também poderão ser causados efeitos noutros sectores.”
RESIDÊNCIA E CONSULADO DE PORTUGAL RENOVADOS COM APOIO DE EMPRESÁRIOS LOCAIS
Haja beneméritos dos empresários Ng Fok e Stanley Ho, que financiam os projectos. “Apesar de termos necessidade de efectuar a manutenção da residência e as melhorias no auditório do consulado, não nos podemos esquecer que a difícil situação económica de Portugal impedia esse objectivo e o que se criou aqui foi uma parceria inédita de apoio que irá continuar noutras áreas, que deve ser conhecida da nossa comunidade, reconhecida pelas nossas autoridades e alvo da nossa gratidão”, afirmou. Escusando-se a revelar números, Vítor Sereno su-
blinhou, contudo, que Ng Fok vai pagar as obras de reparação da residência, ao passo que Stanley Ho assume a despesa no consulado. “Os números não são importantes, é a vontade que estes dois homens, ligados ao desenvolvimento de Macau e também parcialmente responsáveis pela aproximação e excelentes relações políticas e económicas de Portugal com a China, manifestaram em ajudar a nossa missão em Macau numa altura difícil para o nosso país”, acrescentou. Além dos dois empresários, Vítor Sereno vincou ain-
da a participação da empresa portuguesa PAL-AsiaConsult, responsável pela construção do Pavilhão de Portugal na Expo de Xangai, e que terá a seu cargo o acompanhamento técnico da obra na residência consular. “É da conjugação dos esforços de todos que a Residência de Portugal terá uma nova face visível dentro de poucas semanas e poderá continuar, com toda a dignidade, a ser uma casa aberta na representação e promoção do Portugal moderno, competitivo e onde vale a pena investir. Além de elevar a presença portuguesa na região”, concluiu.
O DOBRO PARA A SEGURANÇA SOCIAL O Governo propôs ainda o aumento das contribuições do regime de segurança social, que devem passar de 45 para 90 patacas, mantendo-se a proporção em que cabe à parte patronal a maior fatia, agora de 60 patacas. Os trabalhadores devem contribuir com 30 patacas. De acordo com a rádio, o presidente do Fundo de Segurança Social, Ip Peng Kin, defende a actual proporção e admite estar “um pouco desiludido” com os patrões, que pedem o mesmo montante que os trabalhadores, porque o Fundo de Segurança Social “tem que ser assumido por ambas as partes.” Ainda não há data para quando possa entrar em vigor o novo valor das contribuições.
TIAGO ALCÂNTARA
A
Residência de Portugal em Macau, a casa oficial do cônsul português, e o auditório do Consulado Geral estão a ser alvo de obras pagas por dois empresários locais, disse à agência Lusa o cônsul-geral Vítor Sereno. “Na residência (antigo Hotel Bela Vista) estamos a fazer obras de fundo de conservação, reparação e pintura da parte exterior que estava muito danificada e no auditório do consulado-geral estamos a reformular toda a componente técnica daquele espaço dotando-o de novas tecnologias que permitem disponibilizar um espaço moderno e com capacidade para todo o tipo de conferências”, explicou o diplomata. Vítor Sereno lembrou, contudo, que as obras não seriam possíveis sem o apoio
TIAGO ALCÂNTARA
O
Governo decidiu: 28 patacas por hora. É este o valor proposto para o salário mínimo dos trabalhadores de limpeza e segurança de edifícios. De acordo com a Rádio Macau, o anúncio foi feito em sede de Concertação Social, na passada sexta-feira. Recorde-se que, no ano passado, uma consulta pública dava conta que 99% das pessoas que participaram na consulta pública sobre o assunto, pediam 30 patacas por hora. De acordo com o director dos Serviços para os Assuntos Laborais, Wong Chi Hong, que também coordena o Conselho Permanente de Concertação Social, a proposta agora apresentada é a que melhor se adequa à realidade e é calculado com base “nas opiniões recolhidas e tendo em conta a situação de Macau, o salário dos empregados e a capacidade das empresas”. A proposta já está nas mãos do secretário para a Economia e Finanças, Francis Tam, que, diz a rádio, deve agora dar início ao processo legislativo. Um salário de 28 patacas por hora equivale a cerca de 5800 patacas mensais. Este valor, diz o Executivo, vai aumentar os salários dos trabalhadores da limpeza e porteiros entre 80% a 90%. O valor deverá ser revisto de dois em dois anos, apesar da parte laboral querer uma revisão anual. Ella Lei, representante dos trabalhadores, contudo, considera esta uma proposta “sem fundamento”
6 publicidade
Atribuição de subsídio a pilotos locais participantes nas corridas no exterior em 2014 Os interessados podem apresentar o requerimento, a partir do dia 17 de Fevereiro até ao dia 18 de Março de 2014, na Comissão do Grande Prémio de Macau. I. Requisitos do pedido e critérios de atribuição do subsídio que se passam a citar: 1. O requerente, ao abrigo do n.o 1 do artigo 34.o do Decreto-Lei n.o 67/93/M, de 20 de Dezembro, deve satisfazer uma das seguintes condições: 1) Ser natural da Região Administrativa Especial de Macau (R.A.E.M); 2) Ser de nacionalidade portuguesa ou chinesa e ter na R.A.E.M. a sua residência há mais de 1 ano; 3) Residir na R.A.E.M. há, pelo menos, 3 anos. 2. O requerente deve, ainda: a) Ser sócio da Associação Geral de Automóvel de Macau, China (AAMC), e ser portador de todas as licenças legais e indispensáveis para a participação em corridas no exterior, bem como obter a representividade da AAMC; b) Ter terminado e obtido classificação oficial nas corridas do Grande Prémio de Macau (GPM) realizado no ano de 2013. 3. A atribuição de subsídio em 2014 será limitada à participação em corridas homologadas pela Fédération Internationale de Motocyclisme (FIM) ou pela Fédération Internationale de l’Automobile (FIA), devendo estas competições no exterior ser do mesmo tipo e de nível equivalente ao da efectivamente participada pelo piloto requerente no GPM em 2013 (motos, carros de turismo ou fórmula 3). A atribuição está sujeita aos seguintes padrões de avaliação: 1) Classificação geral numa das corridas do Grande Prémio de Macau realizado no ano de 2013 (em comparação com o resultado dos primeiros 3 classificados na mesma corrida), analisando o nível de competição do requerente nestas corridas; 2) Classificação geral do requerente nas corridas realizadas no exterior (em comparação com o resultado dos primeiros 3 classificados da mesma corrida), analisando-se o nível de competição do requerente nestas corridas; 3) Potencialidade de desenvolvimento do requerente no desporto motorizado (incluindo idade, etc.); 4) Importância e popularidade da corrida em que irá participar, analisando-se o nível de competição do requerente em diferentes tipos de corridas, internacionais ou regionais; 5) Efeito promocional e divulgação de Macau. 4. A atribuição será calculada com base na percentagem correspondente à participação efectiva nas corridas declaradas pelo piloto no pedido de atribuição de subsídio no ano de 2013. II. Documentos a apresentar com o formulário especial para a atribuição de subsídio a pilotos locais participantes nas corridas no exterior: 1) Carta de pedido, indicando obrigatoriamente o valor do subsídio requerido; 2) Plano de actividades (incluíndo a designação, datas, locais e os nos. das corridas no exterior da RAEM e respectivas mangas); 3) Mapa pormenorizado das despesas previstas; 4) Curriculum vitae do requerente; 5) Cópia do B.I.R. do requerente; 6) Cópia do cartão de sócio na Associação Geral de Automóvel de Macau, China; 7) Cópia de todas as licenças legais e indispensáveis para a participação em corridas no exterior da RAEM; 8) Documento comprovativo da obtenção de representatividade da Associação Geral de Automóvel de Macau, China; 9) Prova de participação obrigatória e obtenção de resultados oficiais das corridas do Grande Prémio de Macau no ano de 2013; 10) Prova da classificação final e oficial do requerente obtida em corridas realizadas no exterior da RAEM no ano de 2013. III. Qualquer alteração às informações apresentadas deve ser comunicada dentro do prazo de 30 dias a contar da apresentação do pedido de subsídio, com declaração expressa do motivo justificativo, findo o qual, salvo comprovadas situações de cancelamento por parte da organização do evento ou motivos de força maior, o piloto terá necessariamente que concretizar as restantes corridas que no pedido de atribuição de subsídio declarou ter a intenção de participar, para lhe ser reconhecido o direito à sua percepção. Atribuição dos subsídios em 2014 seja concedida na seguinte forma: l Após a análise do pedido, ser concedido 50% do subsídio autorizado sendo os restantes 50% concedidos após a conclusão da participação na corrida declarada (com partida efectuada) e apresentação do respectivo relatório. (O subsídio será calculado de acordo com a participação efectiva em cada evento) l Caso se venha a confirmar que a corrida participada não foi a corrida declarada no pedido, os restantes 50% do subsídio não serão atribuídos e o montante já recebido, deve ser reembolsado. Endereço da Comissão do Grande Prémio de Macau: N.o 207, Av da Amizade, Edif. do Grande Prémio de Macau. Telefone: (853) 87962200 ou 87962204.
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
SOCIEDADE
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
CECÍLIA LIN
cecilia.lin@hojemacau.com.mo
O
Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) revelou um aumento anual de 10% do número de residentes a adoptar cães e gatos no Canil Municipal de Macau (CMM). Ainda assim, o número de eutanásia ainda não diminuiu. Nos últimos anos, há cada vez mais cidadãos a adoptar animais, num total de 100 por ano, o que revela “consciência comunitária sobre protecção dos animais”. As declarações foram feitas por Choi U Fai, chefe do Serviço de Inspecção e Sanidade da Divisão de Inspecção e Controlo Veterinário do IACM, que falou aos jornalistas à margem da actividade “Carnaval dos Cães 2014”, na Taipa.
IACM ADOPÇÃO DE ANIMAIS CRESCEU 10% NO ANO PASSADO
Eutanásia sem melhorias Porém, o responsável referiu que o número de licenças de cães aumentou bem como o número de cães vadios. Logo, ainda que o número de adopções aumente, os casos de eutanásia não decresceram. Segundo os dados do IACM, nos últimos cinco anos, entre 5200 cães abandonados, 3100 foram sujeitos a eutanásia, ou seja, anualmente 600 cães são mortos. Por isso, Choi U Fai considera que, além da promoção e execução da lei do Governo, ainda é precisa a coordenação com os residentes para melhorar a situação actual.
ANIMA FAL A EM MORTE DE ANIMAIS SE ABANDONAR TERRENO A ANIMA está obrigada a abandonar uma parcela de terreno, por ocupação ilegal. O espaço em causa faz parte do complexo instalado em Coloane. Albano Martins justifica a utilização do terreno por questões de segurança. “A informação que temos é que o Governo quer que a Anima abandone aquela área, que é impossível de ser
tomada porque fica entre duas montanhas e é um terreno de ninguém”, nota o presidente da Anima, em declarações à Rádio Macau, que estima dois problemas decorrentes desta situação. “Primeiro, vamos ter de matar todos aqueles animais que ali estão porque não temos espaço e são mais de 30 animais. Nós não matamos, portanto,
alguém vai ter de fazer esse trabalho. Não vamos ser nós. Em segundo lugar, vamos pôr em perigo os visitantes que nós temos e o nosso próprio pessoal.” A Anima não vai contestar o despacho das Obras Públicas – algo que deveria ser feito até ao final desta semana – e o caso vai chegar ao Chefe do Executivo.
TRIBUNAL CÂMARAS NO TRABALHO PODEM SER USADAS PARA VIGIAR HORÁRIOS
Imagens tramam inspector da PJ JOANA FREITAS
joana.freitas@hojemacau.com.mo
A
lei admite que as câmaras de vigilância no trabalho sirvam para reter informações sobre a entrada e a saída de trabalhadores, pelo menos no caso dos funcionários públicos. Isto mesmo decidiu o Tribunal de Segunda Instância (TSI) e o Ministério Público (MP), depois de um agente da Polícia Judiciária ter tido 39 faltas injustificadas por decisão do superior, que fez uso de imagens extraídas dessas câmaras. Um acórdão do TSI, publicado na sexta-feira, nega um recurso do investigador contra o director da PJ e o secretário para a Segurança, Cheong Kuok Vá. Em 2008, a PJ detectou atrasos repetidos e saídas antecipadas do homem, que trabalhava no Departamento de Investigação Criminal, durante três meses, através de imagens gravadas por câmaras de vídeo do circuito interno do serviço. O director da PJ decretou 39 faltas injustificadas, mas o inspector não concordou, remetendo um recurso para o secretário para Cheong Kuok Vá. Ao falhar
a sua intenção, dado que o secretário lhe negou razão, o homem interpôs um recurso para o TSI. No recurso, o inspector explica que foi “inconscientemente” sujeito à vigilância do circuito fechado de televisão e entendeu que a lei não admitia este sistema como controlo dos horários de trabalho. O recurso defendia ainda que as decisões do director da PJ “violavam a lei” e que, por isso, “deveria ser considerada como inexistente a prova das faltas injustificadas”. Mas, há mais. “Afirmou o recorrente que o [director] da PJ apenas o notificou para justificar as faltas em Dezembro de 2008, quando tomou conhecimento dos factos já em Outubro do mesmo ano. No seu entender, a directoria da PJ não actuou com vista ao interesse público, no sentido de o notificar imediatamente para dar justificações ou de lhe aplicar sanções.” O inspector queixa-se de má fé do director, que permitiu que as faltas se fossem acumulando. “Desvio de poder” e violação dos “princípios da proporcionalidade, da boa fé e da pros-
secução do interesse público” foram alguns dos argumentos para pedir o recurso ao tribunal. Ainda assim, e depois
de um parecer do MP, o TSI negou-lhe razão. O tribunal concorda com o organismo do procurador, quando este diz que, devido ao avanço tecnológico, o controlo de entradas, saídas e ausências do serviço é feito através dos mais diversos métodos e que a acção da PJ pode ser justificada como adopção de “medidas de controlo suplementar”, devido ao excesso de vezes em que o inspector entrou atrasado e saiu cedo demais. “[Estas] ainda mais logram justificação, na medida em que se trata de um funcionário no topo da carreira de investigação”, acrescenta ainda o tribunal. O TSI entende que foram cumpridas todas as regras no que diz respeito a proteger a vida privada do inspector e os seus dados pessoais e que não tinham existido quaisquer “atropelo dos princípios da proporcionalidade e razoabilidade”. O tribunal diz ainda que não houve desvio de poder da parte do director, porque o seu comportamento “condiz com o fim que a lei visou”. Não houve qualquer má fé, assegura o tribunal, nem incumprimentos do que é legal.
7
De ano para ano, na época de aplicação da licença dos animais de estimação (Janeiro e Fevereiro), o CMM tem um aumento de 5% na emissão das licenças. Quanto à renovação de licenças, cerca de 20% dos portadores acaba por não o fazer devido à morte ou perda dos animais.
600
cães são mortos, em média, por ano
O CMM escolhe os cães e gatos mais domesticados para serem adoptados e, desta forma, garantir a saúde dos animais e a sua castração. “Fazer esta operação é importante para evitar o aumento de abandonos”, explica Choi U Fai. Actualmente, explica o responsável, o tempo de espera para o procedimento de castração no CMM diminuiu para um mês. Embora haja pessoas a devolver os animais ao CMM, o número é pequeno. Segundo dados do IACM, no ano passado, foram devolvidos 226 animais ao canil.
Habitação privada Nasceram 46 condomínios em Macau no ano passado
M
ACAU viu serem erguidos, no ano passado, 46 empreendimentos habitacionais. No entanto, apenas 27 dos quais conseguiu obter a licença de utilização. Ou seja, foram criadas no ano passado 620 novos apartamentos já prontos a habitar. Já este ano, foram emitida, em Janeiro, licenças de utilização para dois novos edifícios residenciais. Os restantes 17 condomínios ainda estão em fase de vistoria. Todos estes 19 empreendimentos acrescentam à cidade mais 1710 fracções autónomas. Os dados foram ontem apresentados pela Direcção dos Serviços de Solos e Obras Públicas (DSSOPT). Mas as novas construções não ficam por aqui. Existem outros 76 edifícios residenciais a nascer. De entre os quais, 62 na cidade de Macau, quatro na Taipa e 10 em Coloane. Os novos empreendimentos vão dar lugar a 8110 apartamentos (4560 na cidade e 3450 nas ilhas). O Governo não dá conta de quando estarão construídos, diz apenas que 17 já têm a superstrutura concluída, a construção da estrutura principal de 20 está em curso e os restantes 39 prédios ainda estão em fase de construção das fundações. Nos novos empreendimentos, haverá 5860 fracções de tipologia 2 ou inferior e aproximadamente 2250 T3 ou superior. A DSSOPT indica ainda que, até ao quarto trimestre do ano passado, há 242 projectos de construção a poder proporcionar cerca de 27690 apartamentos, mas cerca de 60% dos requerentes não prosseguiram por um período superior a meio ano a fase seguinte do pedido. – R.M.R.
8 sociedade
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
ELIANA CALDERON DIZ-SE “DESESPERADA” COM POUCA ACÇÃO DO GOVERNO
Associação infantil corre o risco de fechar Infiltrações e esgotos têm vindo a causar problemas ao normal funcionamento da Associação para o Desenvolvimento Infantil, que receia ter de encerrar por não conseguir pagar uma renda num novo espaço
pagar os salários dos terapeutas e 70% da renda. O resto vem de apoios, que também custam a chegar. “Não queria passar os custos para os pais”, diz a presidente da MCDA.
500 CRIANÇAS À ESPERA
ANDREIA SOFIA SILVA
andreia.silva@hojemacau.com.mo
H
Á dez anos que a Associação para o Desenvolvimento Infantil de Macau (MCDA, em inglês) existe para prestar apoio, sem fins lucrativos, a crianças com necessidades educativas especiais. Contudo, corre o risco de fechar portas nos próximos meses, uma vez que as actuais instalações, na Taipa, têm problemas de esgotos e infiltrações. “A solução que o dono do edifício apresenta é temporária e não definitiva”, disse Eliana Calderon, presidente da MCDA, ao HM. “Estamos a deparar-nos com o facto de termos de fechar portas e não dar apoio a estas crianças. Estamos aqui há dez anos, e há dez anos que pedimos ao Governo
RENDAS AFECTAM ESCOL A DA CÁRITAS A escola da Cáritas para crianças com necessidades especiais pode vir a fechar portas. A renda da instalação, em Coloane, vai ser aumentada, em Setembro, em cerca de 60 mil patacas. O encerramento do estabelecimento afectará 50 estudantes com necessidades especiais. “Algumas pessoas dizem que a Cáritas é uma instituição poderosa, proprietária de muitos imóveis. Então, como é que não conseguimos ter espaço para estes 50 estudantes?”, interroga Paul Pun, em declarações à Rádio Macau. A Cáritas paga cerca de 40 mil patacas por mês, para ocupar dois pisos. Mas o proprietário exige a actualização da renda para um valor próximo das 100 mil patacas. Este não é o único projecto da Cáritas afectada pelo aumento das rendas. Em causa está também um centro para idosos com demência.
Criada Câmara de Comércio Africana em Macau para fomentar negócios com a China
A
Câmara de Comércio Africana em Macau foi criada no sábado, com o objetivo de promover negócios e captar investimento chinês para África, disse o seu presidente, Francis Nwachukwu. “Os objectivos da Câmara são o de promover os negócios entre Macau e os países africanos e utilizar Macau como plataforma para fazer a ligação ao interior da China”, afirmou à agência Lusa Francis Nwachukwu. O responsável nigeriano explicou que a Câmara de Comércio Africana em Macau conta actualmente com cerca de 20 membros, de países africanos como Angola, Nigéria, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Togo e
Guiné-Conacri, além de filiados de Macau e de outras partes do mundo como os Estados Unidos. Francis Nwachukwu afirmou que o novo organismo vai desempenhar um “papel importante” na divulgação de informação sobre as oportunidades de investimento nos países africanos. “Muitos querem investir em África, mas precisam de mais informação”, acrescentou, ao referir que serão levados a cabo seminários e workshops nesse sentido. “E nós não estamos sozinhos: trabalhamos com os consulados africanos em Macau e Hong Kong para prestar informação fidedigna e também vamos fornecer uma
pesquisa actualizada sobre as nações de África”, adiantou. Francis Nwachukwu destacou a importância de fomentar as relações entre os países africanos e a China, além daquelas estabelecidas no universo lusófono, e dinamizadas ao nível do Fórum Macau, criado em 2003 por iniciativa do Governo central da República Popular da China, e que tem como designação oficial Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau). “A nossa câmara é para toda a África, incluindo os países de língua portuguesa. Eu penso que o nosso papel vai complementar o do Fórum Macau”, adiantou.
para nos dar apoio, e não temos conseguido.” Existe uma possibilidade de arrendar um novo espaço, mas a renda é incomportável para a associação. Para além de uma petição recente entregue ao Chefe do Executivo, a MCDA já fez um pedido formal de instalações ao Instituto da Habitação (IH), para além do Instituto de Acção Social (IAS) e Serviços de Educação e Juventude (DSEJ). Todos foram negados. Chui Sai On não respondeu ao apelo. “As crianças vão perder os nossos serviços, não vão ter acesso a estes cuidados porque o Governo não os disponibiliza. É incrível. O Governo ainda não propôs nenhuma solução, por isso é que resolvemos transmitir o caso aos jornalistas.” Eliana Calderon não cala a sua revolta. “Estamos desesperados, de mãos atadas. Não acredito que encontremos uma solução. Macau dá atenção aos lucros, aos casinos. Se formos pedir ajuda aos casinos, dizem que pagam impostos e que o Governo é que nos deveria ajudar. Mas depois vamos ao Governo e dizem que não têm espaços suficientes.” Eliana Calderon assume que poderá ir para as ruas pedir apoio, se nada for feito no espaço de três meses. Neste momento a MCDA paga pelas instalações num rés-do-chão cerca de 15 mil patacas. O subsídio dado pelo Governo dá apenas para
AMCDAdisponibiliza terapeutas de diversas especialidades a um custo muito baixo, muitas vezes gratuito. “Neste momento paga-se entre cinco a oito mil patacas por uma vaga num jardim de infância. Os salários de Macau ainda estão nessa fasquia.” Com cerca de 40 crianças a receber cuidados permanentes, a MCDA tem em lista de espera cerca de 530. Muitas delas só têm acesso um tratamento faseado, consoante a disponibilidade. Mas cerca de dez novas crianças engordam esta lista todos os meses. Jenice, mãe filipina de um menino de cinco anos, com necessidades educativas especiais desde os três, encontrou na MCDA uma solução. O filho, que precisa de ajuda ao nível da fala e da coordenação dos movimentos, tem um terapeuta do Governo, que só dá sessões duas vezes por mês. Ao HM, Jenice receia o futuro, porque não tem dinheiro para uma escola privada. “Somos não residentes, e é ainda mais caro. A associação dava-nos a terapia de forma gratuita, mas se fechar não sei como vai ser.”
Estamos a depararnos com o facto de termos de fechar portas e não dar apoio a estas crianças. Estamos aqui há dez anos, e há dez anos que pedimos ao Governo para nos dar apoio, e não temos conseguido ELIANA CALDERON Presidente da Associação para o Desenvolvimento Infantil de Macau
Eliana Calderon promete continuar a enviar cartas. “Só vamos parar quando formos forçados a tal, mas não podemos, porque estas crianças precisam de cuidados. Nasceram, há estatísticas sobre isso e não existem centros suficientes.”
sociedade 9
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
CASO DAS CAMPAS TESTEMUNHAS NEGAM PRESSÕES PARA ENTREGA TARDIA DE DOCUMENTOS AO MP
“Responsáveis pediram rapidez” na busca JOANA FREITAS
joana.freitas@hojemacau.com.mo
T
ODAS as testemunhas até agora ouvidas pela Tribunal Judicial de Base (TJB), no caso que envolve quatro responsáveis do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), negam ter sentido qualquer pressão no sentido de atrasar a entrega de documentos relacionados com as dez campas perpétuas ao Ministério Público (MP). Em mais uma audiência do julgamento, no âmbito do Caso das Campas, que senta no banco dos réus Raymond Tam, presidente suspenso do IACM, Lei Wai Nong, vice-presidente, Fong Vai Seng, Chefe de Departamento dos Serviços de Ambiente e Licenciamento, e Sio Kok Kun, ajudante de encarregado, isso mesmo foi confirmado. Dois antigos trabalhadores do instituto não só afirmaram nunca terem recebido ordens neste sentido, como acrescentaram mais: os arguidos pediram ajuda na procura dos documentos e pediram rapidez aos funcionários. “Nunca recebi instruções para atrasar a procura, nem ouvi colegas a dizerem isso”, começou por dizer Fong Chio Lei. “Eles [superiores] pediram para procurar os documentos com a maior brevidade possível.”
A testemunha, que na altura trabalhava nos Serviços de Ambiente e Licenciamento (SAL) – responsáveis pelos cemitérios -, disse que nunca sequer tinha recebido ordens directas dos primeiros três arguidos, excepto quando o seu superior directo, Sio Kok Kun, estava ausente do trabalho. Aí, Fong Vai Seng, terá ordenado a suspensão do trabalho para que a equipa de funcionários se focasse apenas na procura dos documentos. “Em Agosto, até foi montada uma ‘task force’ para deixarem tudo e procurar os papéis, correcto?”, questionou a defesa, na voz de Álvaro Rodrigues. A testemunha confirma e explica que eram três as pessoas encarregues de os procurar. Os documentos em questão estão relacionados com a atribuição alegadamente ilegal de dez sepulturas perpétuas no Cemitério São Miguel Arcanjo. O caso foi investigado pelo Comissariado contra a Corrupção (CCAC) e pelo MP, que enviou pedidos para o IACM, a pedir os documentos para investigação. Tam e os outros três arguidos são acusados de terem demorado demasiado tempo a entregar as informações propositadamente, de forma a atrasar essa investigação. Os responsáveis do instituto disseram em tribunal não te-
rem entregue os documentos ao MP imediatamente, porque não os conseguiam encontrar. Isto é algo que as testemunhas têm vindo parcialmente a confirmar. Apesar de não saber que o MP tinha requerido as informações em Março, a testemunha ouvida na sexta-feira partilhou o mesmo depoimento de um anterior empregado ouvido no tribunal: “havia pessoas” à procura dos documentos, antes mesmo de lhe ter sido pedido a ela que os procurasse, em Agosto de 2010. Só nessa altura, a 13 de Agosto, e a 5 de Setembro
Estância de madeira Lei Seng perdeu processo contra José Chui Sai Peng
D
E acordo com a edição do passado Sábado do jornal Ou Mun, o Tribunal de Última Instância (TUI) decidiu que a associação de beneficência Tung Sin Tong, cujo vice-presidente é o deputado José Chui Sai Peng, passa a ter direito de propriedade sobre dois terrenos, onde está situada a estância de madeira Lei Seng, junto à avenida Almirante Lacerda. A estância terá de abandonar o espaço. O TUI considera que a Tung Sin Tong adquiriu a posse temporária de quatro terrenos, dois agrícolas e dois urbanos, à estância de madeira, no ano de 1948. Desde então que a estância tem vindo a pagar uma renda à associação para operar o seu negócio. Em 2003 a associação fez um contrato de arrendamento com a estância, tendo arrendado dois terrenos
urbanos para uso comercial durante dois anos. Contudo, em Fevereiro de 2007, a Tung Sin Tong enviou uma carta à estância de madeira a avisar do fim do contrato em Março. A família Iong, proprietária da estância, recusou sair do terreno e devolver o espaço à associação, tendo reivindicado possuir a propriedade do espaço. Em Maio do ano passado uma sentença do Tribunal de Segunda Instância (TSI) também decretou que a associação de José Chui Sai Peng é a verdadeira proprietária. Desde 1914 que a família Iong está à frente do negócio da estância de madeira. Reivindicam que sempre foram os donos do espaço, até terem recebido a carta da Tung Sin Tong, a pedir a desocupação dos terrenos. - C.L.
foram encontrados alguns originais e cópias destes papéis.
INTERFERÊNCIA HUMANA?
Um dos problemas levantados na audiência de sexta-feira, contudo, foi precisamente o facto desses documentos não terem sido encontrados em Maio de 2010. A situação tem levantado as suspeitas da defesa, que já anteriormente tinha feito notar que uma das testemunhas ouvidas – Ng Peng In, ex-chefe dos SAL e ex-administrador do IACM – tinha os documentos consigo e não os entregou ao IACM. “O Neca [João Manuel das Neves, funcionário e testemunha] era conhecido por ser organizado no arquivo e não os encontrou em Maio. Al-
guém estranho foi aos SAL, para eles depois aparecerem em Agosto?” Fong Chio Lei não sabe, mas admite ter visto a secretária de Ng Peng In no arquivo, a 27 de Maio. “Daquilo que ouvi dizer dos meus colegas, ela foi lá à procura dos documentos.” Ng Peng In – que pode vir a ser arguido noutro processo, precisamente por causa de ter mentido sobre os documentos – já tinha dito em audiência ter mandado a secretária procurar os papéis, mas a defesa tem outra tese: a de que a assistente do ex-responsável poderá ter colocado os documentos de volta no local de onde anteriormente tinham sido retirados. “A última visita à Barra, em Maio, foi dela,
ninguém mais lá foi em Agosto”, atirou Álvaro Rodrigues. Para a assistente, Paulina Alves dos Santos, isso seria impossível, uma vez que a porta do arquivo estava trancada à chave. A defesa reitera que a secretária conseguiria arranjar uma chave, se quisesse. Uma outra testemunha ouvida na sexta-feira, trabalhador dos cemitérios dirigidos pelo IACM, afirmou ter recebido duas cópias relacionadas com os documentos de nove campas perpétuas no Cemitério de São Miguel Arcanjo, onde os guardei num pequeno arquivo. Foi Sio Kok Kun, quarto arguido, que lhas enviou. O homem diz que os outros três arguidos, Tam, Lam e Fong, não podiam saber que ele tinha as informações, porque na altura, em 2002, nada tinham a ver com os cemitérios. Mas, o homem confirmou que, em 2011, quando questionado junto do MP disse que tinha cópias e ninguém lhas pediu – mesmo estando o organismo à procura deles. Também já em 2013 foi ouvido “por uma outra instituição” – não sabe dizer qual – a quem também informou dos documentos, mas a qual também não os requereu. O homem, José Assis, não conseguiu explica mais, devido à interrupção da sessão, mas continuará a ser ouvido na próxima sexta-feira. Nesse dia, vai ainda ser inquirida a secretária de Ng Peng In.
PUB
1.
AVISO COBRANÇA DA CONTRIBUIÇÃO ESPECIAL
Faço saber que, o prazo de concessão por arrendamento dos terrenos da RAEM abaixo indicados, encontra-se terminado, e, que de acordo com o artigo 3.º da Lei n.º 8/91/M, de 29 de Julho, conjugado com os artigos 2.º e 4.º da Portaria n.º 219/93/M, de 2 de Agosto, foi o mesmo automaticamente renovado por um período de dez anos a contar da data do seu termo, pelo que deverão os interessados proceder ao pagamento da contribuição especial liquidada pela Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes. Localização dos terrenos: - Avenida de Kwong Tung, n.ºs 151 a 183, Rua de Viseu, n.ºs 152 a 160 e Rua de Braga, n.ºs 143 a 165, na ilha da Taipa, (Edifício The Hillsville); - Avenida de Kwong Tung, n.ºs 199 a 241, Rua de Braga, n.ºs 144 a 178, Rua de San Tau, n.ºs 145 a 185 e Rua de Viseu, n.ºs 214 a 240, na ilha da Taipa, (Edifício Hung Ip Mansion). 2. Agradece-se aos contribuintes que, no prazo de 30 dias subsequentes à data da notificação, se dirijam ao Núcleo da Contribuição Predial e Renda, situado no rés-do-chão do Edifício “Finanças”, ao Centro de Serviços da RAEM, ou, ao Centro de Atendimento Taipa, para levantamento da guia de pagamento M/B, destinada ao respectivo pagamento nas Recebedorias dos referidos locais. 3. Na falta de pagamento da contribuição no prazo estipulado, procede-se à cobrança coerciva da dívida, de acordo com o disposto no artigo 6.º da Portaria acima mencionada. Aos, 17 de Janeiro de 2014.
A Directora dos Serviços de Finanças, Vitória da Conceição
10
CHINA
A
China acusou sábado os Estados Unidos de interferirem nos seus assuntos internos depois do Presidente Barack Obama ter recebido na Casa Branca o Dalai Lama e defendeu que Washington tem de tomar medidas para não prejudicar as relações. “Os Estados Unidos interferiram seriamente nos assuntos internos da China permitindo a visita do Dalai Lama ao país e organizando encontros com os seus líderes”, referiu o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Qin Gang, em comunicado. Pequim instou Washington a levar a “sério as preocupações da China interrompendo apoio às forças separatistas do país e deixando de interferir nos assuntos internos” de forma a não prejudicar as relações entre ambas as potências. Já na sexta-feira, o vice-primeiro-ministro chinês, Zhang Yesui, tinha convocado o encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos na China para denunciar o encontro entre Barack Obama e o Dalai Lama, que decorreu apesar da forte oposição de Pequim. “A China expressa a sua forte indignação e firme oposição” referiu Zhang ao representante diplomático norte-americano Daniel Kritenbrink, de acordo com a agência noticiosa estatal Xinhua.
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
PEQUIM ACUSA WASHINGTON DE INTERFERÊNCIA EM ASSUNTOS INTERNOS AO RECEBER DALAI LAMA
Aviso sério O encontro de sexta-feira entre Obama e o líder espiritual tibetano decorreu na Sala dos Mapas, no piso
térreo da Casa Branca, e não na Sala Oval, que o presidente dos Estados Unidos geralmente utiliza
para reuniões com líderes estrangeiros e dignitários. O Dalai Lama não foi visto na Casa Branca e, num sinal da sensibilidade diplomática do encontro, a administração norte-americana decidiu que a reunião seria fechada à imprensa. O Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos afirmou, na sua conta na rede social ‘Twitter’, que Obama se encontrou com o
monge budista “como um líder religioso e cultural respeitado internacionalmente”. O primeiro-ministro tibetano no exílio, Lobsang Sangay, elogiou Barack Obama por se reunir pela terceira vez, na qualidade de Presidente dos Estados Unidos, com o Dalai Lama. Sangay revelou que os dois, ambos galardoados com prémios Nobel da Paz, discutiram a questão
EMBAIXADOR CHINÊS SUBLINHA APOIO FINANCEIRO AOS “AMIGOS PORTUGUESES”
Relações com lufada de ar fresco O embaixador da China em Portugal, Huang Songfu, sublinhou quinta-feira o apoio financeiro do seu país “para ajudar os amigos portugueses a superar dificuldades temporárias”, ao celebrar os 35 anos das relações diplomáticas entre os dois países. “Nos últimos três anos, em que Portugal enfrenta a crise financeira, a parte chinesa não ficou de braços cruzados, mas oferece o seu apoio financeiro com o objectivo de superar dificuldades temporárias”, referiu o diplomata num breve discurso na embaixada da China em Lisboa. “O governo chinês tomou a decisão imediata
de comprar obrigações de Tesouro de Portugal, e os investidores públicos e privados chineses participam de maneira activa na privatização das empresas públicas”, salientou Huang Songfu, exprimindo-se em português. Na presença do vice-primeiro-ministro português, Paulo Portas, e de diversos secretários de Estado, magistrados, deputados, diplomatas e militares, com destaque para o ex-presidente da República Ramalho Eanes (1976-1985), Huang Songfu enalteceu os 35 anos de relações diplomáticas sino-portuguesas, formalizadas em 8 de Fevereiro
de 1979, como um exemplo de “coexistência pacífica” entre países com regimes políticos distintos. “Particularmente a resolução da questão de Macau através de negociações amistosas oferece ao mundo inteiro um bom exemplo da resolução pacífica das questões
legadas pela história (…) e estabelece uma base sólida para o fortalecimento da amizade entre os nossos dois povos”, sublinhou o embaixador chinês, antes de mencionar a “Parceria estratégica global sino-portuguesa” de 2005, “marco importante na história do
desenvolvimento das relações bilaterais”. Huang Songfu recordou o “novo e ambicioso plano de desenvolvimento para aprofundar a reforma e a abertura” da China, também designado “Sonho Chinês”, garantiu que Portugal “está preparado para se livrar da crise financeira com os bons sinais de recuperação económica” e “vai ganhar novos desenvolvimentos económicos e sociais”, para benefício do país. “Neste contexto, as relações sino-portuguesas estão no seu novo ponto de partida histórico, que conta com novas oportunidades e desafios (…) e vão ganhar mais avanços no futuro”, asseverou.
Pequim instou Washington a levar a “sério as preocupações da China interrompendo apoio às forças separatistas do país e deixando de interferir nos assuntos internos” de forma a não prejudicar as relações entre ambas as potências dos direitos humanos nas regiões tibetanas sob administração chinesa. “O encontro transmite uma mensagem poderosa para os tibetanos que se encontram no Tibete, porque lhes dá um sentimento de esperança de que as suas vozes são ouvidas, até pela pessoa mais poderosa do mundo”, disse o primeiro-ministro tibetano à agência France Presse, após o encontro. A China, que chama ao Dalai Lama um “lobo na pele de cordeiro” e o acusa de pretender a independência do Tibete, tinha já manifestado a sua “firme oposição” ao encontro, através do porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros. “Apelamos aos Estados Unidos para que encarem a preocupação da China de forma séria e que imediatamente cancele o encontro planeado”, disse Hua Chunying. Sobre o Dalai Lama, Hua disse tratar-se de um “exilado político que tem estado há muito envolvido em acções separatistas anti-China, sob o disfarce da religião”. Sangay desvalorizou as acusações chinesas, afirmando que o líder espiritual já afirmou claramente que não faz quaisquer mensagens “anti-China” e tem procurado pacificamente garantir uma maior autonomia aos tibetanos, aceitando a administração de Pequim. Na quinta-feira, o Conselho Nacional de Segurança sublinhou que os Estados Unidos apoiam a abordagem do Dalai Lama, mas reconheceu que o Tibete faz “parte da República Popular da China”.
china 11
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
CORRUPÇÃO VICE-PRESIDENTE DA PETROCHINA SOB INVESTIGAÇÃO
Mais um “tigre” para a lista O vice-presidente da petrolífera chinesa PetroChina International, Shen Dingcheng, está sob investigação por possível corrupção, revelou ontem a revista China Business Journal. Shen Dingcheng é considerado um aliado do antigo chefe dos serviços secretos chineses, Zhou Yongkan, até Dezembro de 2012 um dos nove homens mais poderosos da China e que actualmente poderá estar sob investigação por alegada corrupção. De acordo com a revista, Shen Dingcheng ficou sob custódia das autoridades chinesas após as festividades do Ano Novo Lunar, que este ano se celebrou a 31 de Janeiro e é a maior e mais importante festividade das famílias chinesas, semelhante ao natal nos países ocidentais.
PUB
Shen Dingcheng entra assim numa longa lista de aliados de Zhou Yongkan que passaram a ser investigados nos últimos meses, incluindo o chefe dos serviços secretos de Pequim, Liang Ke, ou o responsável pela comissão encarregue de supervisionar as empresas estatais, Jiang Jiemin. A China Business Journal escreve também que Shen Dingcheng foi secretário de Zhou. A investigação a Shen é divulgada uma semana antes da abertura do período de sessões da Assembleia Nacional Popular chinesas. Desde a sua chegada ao poder em Novembro de 2012, o novo Presidente chinês, Xi Jinping, lançou uma ampla campanha anti-corrupção que garantiu visar as “moscas”, ou funcionários de nível baixo, e os “tigres”, os que ocupam postos mais altos.
Três navios da guarda costeira chinesa nas águas das ilhas Diaoyu
Três navios da guarda costeira chinesa navegaram ontem nas águas das ilhas disputadas com o Japão e que são formalmente controladas por Tóquio, revelou a guarda costeira japonesa. Os navios chineses entraram nas águas exclusivas das ilhas Diaoyu na manhã de ontem e deixaram a zona cerca de duas horas depois, referiu a guarda costeira japonesa. Só este ano, a guarda costeira japonesa já registou cinco incursões chinesas nas águas do pequeno arquipélago localizado no Mar da China Oriental, desabitado, controlado pelo Japão e que segundo especialistas é rico em petróleo e gás natural. As Diaoyu constituem um dos vários conflitos territoriais da China na região e já provocaram vários momentos de tensão entre Pequim e Tóquio.
Governo municipal de Pequim eleva nível de alerta de poluição O governo municipal de Pequim elevou sexta-feira o nível de alerta acerca da qualidade do ar, prevendo que a “grave poluição” envolvendo a cidade desde quinta-feira se prolongue por “pelo menos mais três dias”, anunciou a imprensa oficial. No estado de alerta laranja decretado, um nível acima do alerta amarelo que vigorava antes, crianças e idosos devem ficar em casa, os outros cidadãos são aconselhados a deslocar-se em transportes colectivos. Algumas fábricas poderão suspender a laboração, indicou a agência noticiosa oficial chinesa Xinhua. O alerta laranja é o terceiro mais grave de uma escala de quatro níveis.
12 publicidade
hoje macau segund
EVENTOS
da-feira 24.2.2014
MORREU MARIA VON TRAPP, QUE INSPIROU ‘MÚSICA NO CORAÇÃO’
Última dos sete cantores M
ARIA Franziska von Trapp, da família de músicos que escapou da Áustria ocupada pelos nazis, morreu na sua casa em Vermont aos 99 anos, anunciou o irmão. Era Louisa no filme ‘Música no Coração’. “Ela era uma mulher adorável que era uma das poucas pessoas verdadeiramente boas”, afirmou à agência AP Johannes von Trapp, indicando que a irmã morreu na terça-feira. “Não havia um osso de maldade no seu corpo. Penso que todos os que a conheciam iam concordar”, acrescentou. Maria von Trapp era a última sobrevivente dos sete cantores originais da família, que ficou famosa em ‘Música no Coração”. Era a segunda filha mais velha do capitão Georg von Trapp e da sua primeira mulher, Agathe Whitehead von Trapp. Os seus sete filhos serviram de inspiração para a família do musical da Broadway de 1959 e do filme de 1965, que ganhou o Óscar para melhor filme. Maria von Trapp era Louisa no
filme, um papel interpretado por Heather Menzies. “Música no Coração” foi baseado livremente no livro de 1949 da segunda mulher do capitão von Trapp, também chamada Maria, que morreu em 1987. Contava a história de como uma mulher austríaca casou com um viúvo com sete filhos e lhes ensinou música. Em 1938, a família escapou da Áustria, então ocupada pelos nazis.
Rota das Letras Cat Power, Arnaldo Antunes e Tian Yuan em Macau
O brasileiro Arnaldo Antunes, ex-Tribalistas, e a americana Cat Power vão dar um concerto em Macau no próximo mês de Março, no âmbito da terceira edição do Festival Rota das Letras. O concerto está agendado para dia 29 de Março, na arena do Venetian. Para o dia 30 estão agendados outros dois concertos. No mesmo local evoluirão a chinesa Tian Yuan e a banda de rock Omnipotent Youth Society. Os bilhetes vão estar à venda a partir do dia 28 de Fevereiro.
MultiFormas 2015 CCM à procura de talentos locais
O Centro Cultural de Macau está a desafiar os artistas locais a submeterem propostas de produções para a série “MultiFormas” 2015. Com o objectivo de incentivar a criatividade local, explorando novas possibilidades teatrais, o CCM abre inscrições até 31 de Março de 2014 para que os projectos seleccionados subam ao palco em Fevereiro do próximo ano, informa o comunicado de imprensa da organização. A série “Multiformas” continua a ser uma oportunidade para os artistas locais mostrarem o seu talento, ousando explorar novos caminhos performativos, acrescenta a nota. Para apoiar uma vasta gama de necessidades artísticas e criativas, bem como a proximidade entre o público e o palco, a série trás novas perspectivas ao panorama cultural. O MultiFormas 2014 encerrou sábado com o teatro multimédia “Cidades em Mudança” a terceira nova produção apresentada na edição deste ano depois da peça ao ar livre “ Lisístrata” e do cabaret “Uma Noite em Macau” . As produções artísticas seleccionadas para a próxima edição serão apresentadas no CCM em Fevereiro de 2015. O convite está aberto a todos os artistas de Macau das mais diversas áreas e as candidaturas devem ser submetidas até 31 de Março de 2014, finaliza a nota.
PUB
Depois de chegarem a Nova Iorque, tornaram-se famosos e deram vários concertos. Acabaram por mudar-se para o Vermont, onde abriram uma estância de esqui em Stowe. Maria Von Trapp tocava acordeão e ensinava danças austríacas com a irmã Rosmarie na estância de esqui. Rosmarie, Johannes e Eleonore Von Trapp são filhos do capitão e da sua segunda mulher, Maria.
13
MULHER DA LIMPEZA ENVIA ARTE PARA O LIXO
Real interacção N
UM conhecido espaço de arte em Itália, a galeria Murat na cidade de Bari, onde está patente uma exposição do artista nova-iorquino Paul Branca, aconteceu o inesperado. A empregada de limpeza, segundo a BBC, enviou para o lixo alguns componentes da instalação de arte, imaginando que seria lixo ali acumulado por quem havia montado a exposição na véspera, quando na verdade eram elementos que faziam parte integrante da mostra. Ao que parece, um dos propósitos do artista era que a instalação interagisse directamente com o espaço, existindo por isso realmente o propósito que alguns elementos da exposição parecessem lixo espalhado no chão, naquilo que parecia constituir um convite para os visitantes pensarem questões como o meio ambiente e as paisagens contemporâneas cada vez mais
degradadas e poluentes. O director do espaço pediu publicamente desculpas ao artista, enquanto a firma da empregada de limpeza comunicou que esta se equivocou, apesar de “estar apenas a fazer o seu trabalho”. Os estragos vão agora ser cobertos pelo seguro. A totalidade da instalação de Paul Branca está avaliada em cerca de 100 mil patacas, sendo parcialmente constituída por trabalhos ou peças feitas a partir dos mais diversos materiais, de jornais a cartões, passando por miolos de biscoitos espalhados pelo chão. A história está muito longe de ser virgem. Obras de artistas consagrados como Tracey Emin ou Gustav Metzger também já foram confundidas com lixo em espaços expositivos de arte contemporânea. Um dos casos mais conhecidos aconteceu em 2001, quando uma instalação de um dos artistas vivos mais conhecidos do globo, Damien Hirst, na galeria Eyestorm de Londres, feita a partir de garrafas de cerveja, copos e cinzeiros sujos, foi quase totalmente varrida por uma empregada de limpeza.
h
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
próximo oriente
ARTES, LETRAS E IDEIAS
14
“E
RNST Jünger diria que a grandeza consiste em estar exposto à tempestade. Estar no centro de cada acção, no centro do poder. Usar tudo como um meio e fazer de si próprio o fim. Quem disser que isto é amoral, que a vida não pode existir sem ética, que a economia tem limites e deve obedecer a certas regras, é meramente alguém que nunca esteve no comando, alguém que foi derrotado pelo mercado. A ética é o limite do vencido, a protecção do perdedor, a justificação moral para aqueles que não conseguiram arriscar tudo e tudo ganhar.” As palavras acima transcritas não são de um texto sobre o capitalismo, sobre Wall Street ou sobre os novos milionários russos ou chineses, sobre Hong Kong ou, já agora, sobre “a capital mundial do jogo”, Macau. Não. A citação que começa por evocar o filósofo alemão que deixou em livro a sua experiência nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial pertence a Roberto Saviano, autor de “Gomorra”, sobre a organização criminosa mais poderosa e violenta da Europa, a “Camorra”. Os “camorristi”, como são conhecidos os membros da máfia napolitana,
REALIDADES PARALELAS construíram um verdadeiro império em que se dedicam ao tráfico de droga e à agiotagem, mas também ao jogo clandestino e à contrafacção, passando ainda por inúmeras outras actividades que vão desde a produção de cimento às indústrias alimentares, carne, peixe ou leite. A autêntica economia paralela que nasceu em Nápoles mas corre o mundo foi possível apenas porque a “Camorra” tem entre os seus credos, ou dogmas, como a “omertà” (um código de honra, um voto de silêncio), o empreendedorismo. Há que negociar. Qualquer coisa. Até nada. Tal como acreditam piamente que não devem, em circunstância alguma, colaborar com as autoridades ou delas precisarem para o que quer que seja, os “camorristi” devotam todas as energias num objectivo: o poder. E aqui, escreve Saviano, a lógica dos “capos”, os chefes mafiosos, coincide com a das mais
agressivas teorias económicas do nosso tempo (neoliberalismo à cabeça), as que têm por programa destruir tudo o que possa servir de obstáculo ao mercado, ou, tal é por estes dias a esquizofrenia, aos “mercados”. Tanto para uns como para outros, “as regras, ditadas ou impostas, são as dos negócios, lucro e vitória sobre a concorrência”. Tanto melhor, claro, se esta for eliminada. “Tudo o resto não tem importância. Tudo o resto não existe.” Para estes “liberalistas samurais”, como lhes chama o autor de “Gomorrah”, o poder está acima de tudo e a vitória económica é mais preciosa do que a vida de qualquer pessoa. Até da própria. Para os mafiosos, não interessa se só se tem poder durante dez anos, um ano ou uma hora. No mundo dos grandes negócios, a divisão do tempo é ainda
Hugo Pinto
mais infinitesimal, e um trimestre parece uma eternidade quando comparado com a fracção de segundo que afunda e salva empresas cotadas em bolsa. “O crime organizado diversificou-se, globalizou-se e atingiu proporções macroeconómicas: produtos ilícitos podem ser produzidos num continente, traficados para outro e vendidos num terceiro”, dizem as Nações Unidas sobre as organizações criminosas que aprenderam uma lição antiga: as mais fortes, as que sobrevivem, são as que perceberam que teriam que funcionar como empresas em vez de simples grupelhos de foras-da-lei. À frieza do metal das armas era preciso aliar a frieza dos números. E é na mesma temperatura gélida que se forjam os parâmetros com que se julga e avalia os clãs de um império qualquer, económico ou outro, legítimo ou nem por isso: “A justiça e a injustiça, na realidade, têm apenas um significado. Vitória ou derrota, algo que se faz ou algo que se sofre.” O resto, diz Saviano, “é apenas religião e confessionários”, ou seja, uma forma de nos distrairmos da realidade paralela em que verdadeiramente vivemos. Presunção e água benta.
artes, letras e ideias 15
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
lorde gin
SEIN FEIN, SÃO PAULO E AS PORTAS DA PERCEPÇÃO “One trick is to make sure that influential locals are secretly part of the investor group buying the discounted debt: these locals will then do battle inside the developing countries governments to make sure the debts are paid in full. Their involvement, of course, must be hidden behind a shield of offshore secrecy, so that the impoverished nations’s citizens can never find out how their nation’s wealth was stolen.” Nicholas Shaxson, Treasure Islands, 2012
L
ORDE Gin, um ultra-republicano laico de mau quilate, nutriu sempre, e apesar de tudo, uma admiração pelos seus camaradas católicos menos afortunados do Eire. Um sentimento caritativo desprendido, uma visão esperançosa. Mas talvez fosse apenas uma ideia de pedagogia, ou somente uma velha ideia de revolução universal. Numa recente expedição a Dublin, lhe diziam: “Gin, faça qualquer coisa
por este país. Dê-nos ideias. Seja o que for! Temos de sair da crise!” Gin, condoído, regressou ao seu modesto quarto de hotel sobre o rio Lifey. Meteu-se a pensar: “Ora bem. A República da Irlanda o que é? Pequeno país húmido e verde; população diminuta e alcoólica; pouca indústria; agricultura rasteira; pescarias cabotinas; refúgio de ex-Secretários de Estado da Cultura de Portugal; pilar de manteiga e cerveja; campo de treino de padres pedófilos, antro de escribas, etc., etc...” “Que miséria,” realizou Lorde Gin pela manhã com tristeza. “Ao menos em Portugal há azeite e há vinho; há grandes mentes criativas e científicas. Há uvas sem grainha. Em Portugal, ao menos, exportam-se afamados jogadores e treinadores de football. Lá, têm ao menos relações firmes com os principais países produtores de petróleo e dinheiro, como a Suíça.” Na fustigada capital irlandesa sopravam as inauditas tempestades atlânticas do Ano da Graça de 2013. As ruas estavam desertas. O gado, ovino e/
Rui Cascais Parada
ou bovino, mascava sob telha. Os raros pescadores, sem mar de trabalho, dançavam nos pubs. Os criativos dormitavam. Só as chaminés da Guinness benziam a sua vizinhança dublinesca com o odor pútrido, automático e habitual, das fermentações. E, todavia, esta pequena república, paralisada por fenómenos atmosféricos e má genética, prosperava sem saber. Sem saber, se salvava. E apontava, sem saber, a saída da selva escura em que Europa tacteava seminua. * * * “Olhe lá, ó Gin, então se os irlandeses se safaram, porque não se há-de safar o nosso Partido?” inquiriu Costas, o ministro grego mais frontal. “Senhor Ministro,” retorquiu Gin, “à excepção de Portugal, eu só lido com países. Não quero saber nada de partidos. Os meus honorários não mudam por isso. Seja como for, eis algumas sugestões: se mudar a língua oficial do seu país para inglês, entrar no esquema de lavagem de dinheiro conhecido por Double Dutch, isentar as maiores empresas mundiais de impostos enquanto os intensifica sobre a sua população, dinamizar a criação de escritórios fictícios, prostituir a sua força laboral até à debilidade suprema e preferencialmente trans-geracional, contribuir sem medo para as campanhas eleitorais Norte-Americanas independentemente das suas convicções ideológicas e beber um rum nas Ilhas Caimão – nada há que não possamos fazer por si.”
16
h
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
Ricardo Daunt IN SIBILA
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
A MODERNIDADE EXCESSIVA
A
PÓS experimentar o percurso mais promissor para o suicídio algumas vezes, ele finalmente decide-se por uma das alternativas concretizáveis e consegue ter êxito: no dia 26 de Abril de 1916, às 8h20, o dramaturgo, contista, novelista e poeta Mário de Sá-Carneiro envenena-se, ingerindo 5 frascos de arseniato de estricnina. No Hotel de Nice, em Montmartre, bairro boémio de Paris, o amigo José Araújo, o último a visitá-lo, encontrou-o já nos derradeiros estertores, quando o poeta, impecavelmente vestido de smoking, como se fosse a uma festa de gala, se contorcia dolorosamente. Sá-Carneiro deixara uma mala, com sua produção literária édita e inédita, mas seu paradeiro é desconhecido até hoje. Sobre o fogão do modesto aposento, algumas cartas, uma delas endereçada a seu maior amigo, Fernando Pessoa; uma declaração pouco legível de que se envenenara voluntariamente — e algumas poucas moedas, único dinheiro que possuía, e que foi encontrado por um policial no bolso de seu colete.
Nesse dia de Abril, o Movimento do Orpheu, de que era integrante e um dos principais mentores, recebia um golpe também fatal, que não apenas paralisaria a revista de mesmo nome, (Mário era o porta-voz do movimento estético português mais inovador e revolucionário do século XX), mas que também engessaria parcialmente o processo de modernização das Letras portuguesas por algum tempo, apesar de outros integrantes do movimento, cada um a seu modo, como Almada-Negreiros, Souza-Cardoso — este um pouco ao largo do olho do furacão órfico, mas sabendo de tudo e contribuindo imensamente –, e Fernando Pessoa, empunharem com os seus formidáveis talentos o bastão da modernidade. Entretanto prosseguiram, o pintor por pouco tempo, pois logo viria a falecer,1 os outros dois cada um seguindo seu próprio caminho, que para Pessoa foi mais curto que para Almada. Este último, amigo de Sonia Terk-Delaunay e Robert Delaunay, artistas plásticos, na sua estada em França privou da convivência também do poeta Apollinaire, trazendo na bagagem para Portugal um
conhecimento apurado e sem ilusões quanto à agitação artística em França. De Delaunay e Sonia, absorveu o simultaneísmo, o futurismo, o pragmatismo e o empirismo radical de William James; de Apollinaire, as reflexões realizadas sobre esses assuntos, agora no campo da literatura – além, é claro, de manter estreito contato com o que o último escrevia. Os primeiros tentames literários de Mário de Sá-Carneiro deram-se em 1904, quando redige um jornal irreverente, denominado O Chinó. No ano seguinte, deixando o jornalismo de lado, envereda pelo teatro. Escreve então o drama em um acto denominado O vencido, em parceria com Tomás Cabreira Jr. (que tal como ele daria cabo da vida, suicidando-se). Em 1910 escreve a peça Amizade e testa seu talento para a representação teatral por duas vezes no liceu, mas a prosa de ficção iria interessá-lo muito mais e absorver suas atenções nos últimos anos daquela décaa. Entre 1908 e 1909, com 18 anos e fascinado pela loucura e pela morte, escreve os primeiros contos, publicando a
maior parte da produção ficcional desta fase na revista Azulejos. Deste período, por exemplo, é o conto “João Jacinto” (que só muito mais tarde veio a lume), em que um modesto professor de liceu encontra, “como terminus irredutível” de uma paixão inconcretizável por uma condessa, a morte debaixo das rodas de um carro. Outros contos, como “O caixão”, “Ladislau Ventura”, “A mendiga” e “Amor vencido”, assinalam o recorrente e obsessivo interesse do autor por temas como a morte e o suicídio. Em “Página de um suicida”, por exemplo, Lourenço Furtado, “vítima da época”, sujeito de espírito aventuroso”, considerando que não há nada mais a descobrir, num século em que tudo já parece ter sido realizado, inventado e criado, conclui: “não há dúvida, não: a única coisa interessante que existe atualmente na vida é… a morte!” e proclama: “pois bem, serei o primeiro explorador dessa região misteriosa, completamente desconhecida…”. Se a fonte em que Mário se inspirou foi provavelmente a personagem Jacinto, criada por Eça de Queirós em A cidade e as serras, pouco importa. Mal ou bem dela ele logo se
artes, letras e ideias 17
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
apartou, entendendo insuficiente ficar amuado e buscar uma vida mais natural, como o snobe Jacinto, descortinando, bem ao contrário uma solução fatalista para a personagem Lourenço, o suicídio. Nessa época Sá-Carneiro toma contacto com a obra de um leque de autores todos diferentes entre si como Schiller, Cesário Verde, Victor Hugo, Heine, Poe, Goethe, Eugenio de Castro, António Nobre e Huysmans. Deixa-se fortemente influenciar pelo decadentismo-simbolismo, como aliás o fariam mais tarde seus pares do movimento do Orpheu, na grande maioria –, mas busca, em sua curta vida literária, meios de ultrapassagem da estética finissecular, como também deixa patente suas releituras da herança simbolista, sobretudo a de Laforgue, que é talvez o autor francês que mais o impactou na esfera do processo de construção do verso. Para confirmar isso, coloque o leitor lado a lado o “Grande complainte de la ville de Paris”, de Laforgue, e o poema “Manucure”, de Mário. Após um exame detido nos dois poemas concordará o leitor que o poema português nasce do poema francês, para alcançar sua identidade própria e sua importância, no meu modo de ver incontestável, no âmbito do movimento do Orpheu. A sua curta vida literária atesta uma preocupação sistemática pelo fazer poético. As suas cartas endereçadas a Fernando Pessoa, a partir de Outubro de 1912, confirmam esse facto, revelando uma faceta de Sá-Carneiro muito pouco percebida: a do intelectual e artista preocupado em dar sentido e unidade ao seu projecto literário.3 Igualmente, sua vida literária, embora breve e perpassada por um constante tumulto pessoal, atesta sua enorme capacidade de rapidamente queimar as etapas do aprendizado das letras, logo afastando-se dos formulários herdados do passado e buscando a invenção e as possibilidades que o advento do novo século estimula. Em 1912 publica Princípio (novelas), que são uma espécie de preparação para a grande obra em prosa desse autor, A confissão de Lúcio, que viria dois anos depois. Nessas novelas, ressaltam o tédio das personagens, a atracção pelo invulgar, pelo bizarro, a instabilidade do sentir, em que a alucinação e a depressão se alternam e onde Sá-Carneiro encontra ensejo para uma crítica ao gosto e temperamento burgueses (aos lepidóperos como apelidou os membros da burguesia). É contudo após a publicação de Princípio quando certa notoriedade o alcança – e quando entra em contacto com seus futuros pares no Orpheu -, que a obra de Sá-Carneiro começa a ganhar os contornos que a tornaram
ímpar na modernidade portuguesa. Interessando-se ora pela prosa (escreverá as novelas de Céu em fogo, que serão publicadas em 1915), ora pela poesia, a vertigem experimentalista de Sá-Carneiro será uma constante e contaminará Fernando Pessoa; também assim colaborará decisivamente para introduzir a busca do novo, apaixonadamente, como lema comum a um grupo de jovens lisboetas mais ou menos da mesma idade, todos em começo de carreira, e que fariam o movimento do Orpheu. De fato, poucos “ismos” de um movimento tão diversificado em termos de programas de arte, como foi o Orpheu, deixaram de ter sua contribuição directa e decisiva. Não raro, fora ele, Sá-Carneiro, cada vez mais plenamente poeta, o criador voluntário, ou não, desse ou daquele “ismo”. Assim, quando o paulismo surge (concebido em março de 1913 com o poema “Pauis de roçarem (…)]”), pelas mãos de Fernando Pessoa, com sua imagética simbolista tonificada por uma concepção cinematográfica da arte, buscando se apropriar das paisagens como se fossem um prolongamento directo das vivências espirituais do poeta — Mário de Sá-Carneiro prontamente respondia ao repto do amigo, gestando um paulismo à sua moda, confirmador não mais de sequências de estados de alma-paisagens, como definia Pessoa, mas indo além e substituindo o último termo do binómio por signos metafóricos, assim escamoteando a propriedade denotativa da paisagem. O resultado é uma intensificação da capacidade sugestiva do verso paúlico, como em “Taciturno” (“Percorro-me em salões sem janelas nem portas, / longas salas de trono e espessas densidades, / onde os panos de Arrás são esgarçadas saudades, / E os divãs, em redor, ânsias lassas, absortas…”). Da mesma forma, quando Pessoa publicava “Na floresta do alheamento”, obra até hoje apontada como a matriz do interseccionismo (outro “ismo” do Orpheu, derivado do paulismo e que postula o processamento em simultâneo de diversos estados de alma-paisagens, sobrepondo-os, fundindo-os, combinando-os, interseccionando-os, no intuito estético de ganhar em complexidade, para melhor fixar a inconstância e a irracionalidade do mundo), Sá-Carneiro, um pouco antes, no mesmo ano de 1913, imprimia “O homem dos sonhos”, conto interseccionista ao qual apenas faltava denunciar o traço diferencial. Até no terreno da heteronímia, Mário deixou sua marca, ainda que breve: Petrus Ivanovitch Zagoriansky era o nome do poeta russo inventado por ele, e que viria a imprimir um poema em prosa n’ A Renascença, publicação periódica dirigida por Car-
SE FERNANDO PESSOA FOI A INSPIRAÇÃO VIVA E TUTELAR QUE COSTUROU A TEORIA E A PRÁTICA ÓRFICAS, COM SEU PATCHWORK COLECTIVO TÃO INESPERADO, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO FOI O MAIS PROFÍCUO MENTOR DO MOVIMENTO valho Mourão e editada por Coelho Pacheco. No ano de 1914, Sá-Carneiro publica os 12 poemas de Dispersão. As duas primeiras quadras do poema-título são uma feliz síntese da linhagem de sentimentos e emoções que ocupam sua lira nessa fase: Perdi-me dentro de mim Porque eu era labirinto, E hoje, quando me sinto, É com saudades de mim. Passei pela minha vida Um astro doido a sonhar. Na ânsia de ultrapassa Nem dei pela minha vida… Estranhamento, dissipação no labirinto do eu e incapacidade de deslindar a trama do cotidiano são traços marcantes na lírica do poeta, para quem “de tudo houve um começo… e tudo errou… / – Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… — / Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, / Asa que se elançou mas não voou…” (“Quase”). Ascensão e queda, esplendor e trevas, plenitude e vazio. Entre extremos seu coração balança incessantemente. A ponto de ameaçar a unidade doeu que se reconhece a custo nos poemas de Indícios de ouro: “eu não sou eu nem sou o outro, / sou qualquer coisa de intermédio: / pilar da ponte do tédio / que vai de mim para o Outro”. A percepção distorcida da realidade, a fantasia sem peias e a alucinação são características cada vez mais presentes na poesia sensacionista de Sá-Carneiro: “Listas de som avançam para mim a fustigar-me / em luz. / Todo
a vibrar, quero fugir… Onde acoitar-me?…” (“Nossa Senhora de Paris”). Em outro poema, “Desquite”, o poeta indaga, ainda, retomando seu contato com a realidade; entretanto, o peso da existência é massacrante: “que faço só na grande Praça / que o meu orgulho rodeou — / estátua, ascensão do que não sou, / perfil prolixo de que ameaça?…” Extravasa uma ironia cáustica que logo, em outro poema, se deixa supera por uma pungente comiseração: “Lá anda a minha Dor às cambalhotas / no salão de vermelho atapetado — / meu cetim de ternura engordurado, / rendas da minha ânsia todas rotas…” (“Pied-de-nez”). Nos seus dois últimos anos de vida, Mário multiplica-se. Leva ao extremo o postulado fundamental do sensacionismo, enunciado por Fernando Pessoa (“a base de toda arte é a sensação”), princípio entretanto colhido directamente por ele, Mário, em diversas fontes: e, ungido por esse mote, produz uma poesia dos sentidos, mas perpassada sempre pelo vórtice da razão desacorçoada. A fonte do sensacionismo, para os artistas e poetas europeus desse tempo, é primordialmente a filosofia de James, nome já mencionado aqui. As suas reflexões sobre o empirismo são o cerne, a nomenclatura e a palavra de ordem na Europa. Sá-Carneiro transporta essas teses para Portugal e as coloca no colo de Fernando Pessoa, que por seu turno delas se apropria diligentemente, como também o faz, por meios próprios, Almada-Negreiros (e portugueses como Souza-Cardoso e Eduardo Vianna). O contrabando filosófico do irmão em letras de Pessoa, acrescido do testemunho sempre arrebatado, mas intenso e profundo, de Mário, escancara as portas do cenário agitado do movimento das artes, que se exibe muito além da agitação alfacinha de ‘A Brasileira do Chiado’ (território público em que o mentor do Orpheu confraternizava com amigos e, sobretudo, afiava sua prosa de convencimento para nos deixar o substrato teórico do orfismo — o que muito pouca gente deu importância em Portugal). O autor de Dispersão, em suas rotineiras viagens para Paris, passando pela Espanha, bem entendido, deixa-se contaminar pelo futurismo – e, em seu espírito aglutinador e franco, acolhe, remanufactura e confere a tudo o que presencia, experimenta e recombina em sua mente, uma marca pessoal, uma assinatura de indelével originalidade (eis outra coisa que não parece ter sido compreendida em lugar algum). Nesse cadinho poético Mário de Sá-Carneiro se apropria de processos de (Continua na pagina seguinte)
18
h
livre associação mental, da colagem, do tipografismo, da diluição entre o natural, o mental e o artificial, todos, aliás apanágios futuristas, é verdade, mas deixa sua marca. Em “Manucure”, poema do qual volto a falar, pois caminha sobre a minha mesa de trabalho nesse momento, revisitando minhas notas, numa agitação quase cruel de coisa viva, Mário inventa mais um “ismo” ou ‘sub-ismo”(sub-programa ou programa derivado) órfico, o sensacionismo-interseccionismo-futurismo. Se Fernando Pessoa foi a inspiração viva e tutelar que costurou a teoria e a prática órficas, com seu patch-work colectivo tão inesperado, Mário de Sá-Carneiro foi o mais profícuo mentor do movimento (fazendo parte destacadamente da tríade Pessoa-Almada-Mário), mas como não ostentava uma batuta nas mãos, e nem se dava ares de maestro do concerto, foi na maioria das vezes encarado como um poeta criativo, sensível, mas dominado pela própria angústia (que minou sua vida e o levou ao impasse fatal). É pouco, muito pouco, em se tratando de quem foi. Já está longe o ano de 1995, quando se imprimiu a primeira versão deste pequeno ensaio, saudando a chegada da obra completa daquele que ao morrer estava na vanguarda da arte em Portugal; daquele em cujas veias corria a seiva mais espessa, o sumo mais denso da revolução artística que tomou a Europa de assalto até quase o final do primeiro quartel do século XX. (...) Os seus últimos poemas denotam a perplexidade e o desencanto que sempre em toda a vida o acompanharam, ao lado de outras emoções fortes, incontroláveis, como o tédio, a excitação quase paroxista, o descompasso com o mundo – mas que nos últimos lanços biográficos, propiciatórios do fim, ganham a derradeira pincelada, quando seu pai se nega a fornecer-lhe subsídios para editar mais um número da revista Orpheu. Foi a gota d’água, dizem alguns académicos. Talvez não, levando-se em conta que não era a primeira vez que ensaiava suicidar-se – e que acabar com sua existência era no
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
plano real a saída que muitas vezes escolhera para o desfecho de seus contos, cujo tema revisitou amiúde ao longo de sua actividade como poeta. Mário era a flecha, mas era também o alvo. E não vou pedir desculpas pelo clichê de paternidade nietzscheana. Gostava tanto de mexer na vida, De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe… E não há forma: cada vez perdida Mais a destreza de saber pegar-lhe… (“Crise lamentável”, poema de Janeiro de 1916) Esses versos de abertura do poema seriam o sinal de que o aceno de adeus à vida estava próximo? Ousado afirmar. A morte visitava-o com a frequência do sol. Se o sujeito de enunciação poético não estivesse tão colado no seu criador, poder-se-ia dizer que era um cacoete. Mas a exposição de sentimentos tão íntimos nada tem de teatral no poeta português. É, bem ao contrário, mais um acto doloroso, equivalente ao de arrancar com as unhas a pele que impede a exploração directa de sentimentos fundos.
À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA A CONFISSÃO DA LEOA • Mia Couto
“[...] Os nossos jovens colegas trabalhavam no mato, dormindo em tendas de campanha e circulando a pé entre as aldeias. Eles constituíam um alvo fácil para os felinos. Era urgente enviar caçadores que os protegessem. Os caçadores passaram por dois meses de frustração e terror, acudindo a diários pedidos de socorro até conseguirem matar os leões assassinos. Mas não foram apenas essas dificuldades que enfrentaram. De forma permanente lhes era sugerido que os verdadeiros culpados eram habitantes do mundo invisível, onde a espingarda e a bala perdem toda a eficácia. Aos poucos, os caçadores entenderam que os mistérios que enfrentavam eram apenas os sintomas de conflitos sociais que superavam largamente a sua capacidade de resposta. Vivi esta situação muito de perto. Frequentes visitas que fiz ao local onde decorria este drama sugeriram-me a história que aqui relato, inspirada em factos e personagens reais.” (Mia Couto).
No fecho do mesmo poema, reconhece: “que tudo em mim é fantasia alada / um crime ou bem que nunca se comete: e sempre o Oiro em chumbo se derrete / por meu Azar ou minha zoina suada…”. A posição de evidente contraste e potencial antagonismo dos substantivos “oiro” e “azar”, ambos em maiúsculas, acusa um dos embates sempre titânicos que têm lugar no espírito do poeta. Nesses versos abaixo, extraídos de “Caranguejola”, o sujeito lírico implora pelo isolamento e busca uma espécie de claustro provisório, defendo-se assim da vida, ou de si mesmo. Ah, que me metam entre cobertores, E não me façam mais nada!… Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada, Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores. [...] Não, não estou para mais – não quero mesmo brinquedos, Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar… – Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar… Eis acima um caso raro, talvez dos únicos em Portugal, em que um poeta logra versos com elevada tensão lírica, versos que são ao mesmo tempo prosaicos; que recuperam directamente da infância, sem o concurso da maquilhagem, signos que ressurgem poéticos, e ao mesmo tempo nos convocam para o terreno da experiência consciente e sofrida, explorando por meio de expressões que se ouvem no quotidiano comum, expressões coloquiais, enfim – e tudo converge para uma recepção na qual o resultado lírico percebido ao final (que é mais significativo do que a mera soma das partes) propicia uma impressão imediata coesa e inteiriça. Expressão apenas imaginável e sensível no nosso espírito ao fim da leitura do poema. É no mínimo estimulante presenciar a máquina-poema engendrar a si mesma e reproduzir sinteticamente sentimentos tão complexos. (...) (texto editado)
RUA DE S. DOMINGOS 16-18 • TEL: +853 28566442 | 28515915 • FAX: +853 28378014 • MAIL@LIVRARIAPORTUGUESA.NET
A VISITA INESPERADA • Agatha Christie
Numa noite de nevoeiro cerrado, o carro de Michael Starkwedder despista-se numa estrada rural. Em redor, há apenas uma casa isolada. Quando Michael se aproxima para tentar pedir ajuda, o cenário com que se depara é arrepiante: numa cadeira de rodas, jaz o cadáver de um homem; a seu lado, está uma atraente mulher com uma arma na mão. A solução do caso parece simples, não fosse o facto de o morto ter uma longa lista de inimigos. Michael percebe que está perante o cadáver de um monstro. Quem de entre os muitos alvos da sua malvadez poderá ter cometido o crime? A resposta pode estar dentro da própria casa e dos seus inúmeros suspeitos… Escrito originalmente por Agatha Christie em 1958 como uma peça de teatro, A Visita Inesperada (The Unexpected Guest) foi adaptado para romance por Charles Osborne em 1999.
artes, letras e ideias 19
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
Andrés Hax
IN CLARIN
O SÉCULO CONSPIRADOR, ALUCINADO E EXCITANTE DE WILLIAM BURROUGHS Passaram cem anos do nascimento de William Burroughs (5 de Fevereiro de 1914): escritor, pintor e crítico social. Burroughs foi impulsionador da geração “beat” e influenciou dezenas de artistas
W
ILLIAM Burroughs (1914-1997) é um dos novelistas norte-americanos mais radicais, estranhos e contundentes da segunda metade do século XX. A sua influência vai desde Jack Kerouac (aparece como o personagem “Old Bull Lee” em “On The Road”) a Kurt Cobain (com quem gravou um curioso disco, em 1993), passando por J.G. Ballard e Lou Reed. O termo Heavy Metal, como referência ao género musical, deve-se a uma frase da sua obra “The Soft Machine” (1961). Em 1994, (aos 80 anos de idade) cruzou outra fronteira e apareceu num spot publicitário da Nike. Poderia ser enumerada uma longa lista da sua influencia profunda, não só em escritores, mas também em artistas de todo o género. Mas se alguém for à Harvard Book Store, uma livraria independente, em Cambridge ou Massachusetts, e procurar nas estantes de ficção os livros de Burroughs, não os encontrará. Como pode ser que uma das melhores livrarias dos Estados Unidos e uma das universidades mais prestigiadas do planeta (na qual Burroughs estudou), não tenha obras de tão influente autor? Sucede que os livreiros guardam-nas atrás do balcão, porque William Burroughs é um autor que se rouba. Nunca ganhou um Pulitzer e muito menos um Nobel. Nunca foi best-seller, nem se vendeu nos aeroportos, mas os livros de William Burroughs, ainda hoje, a cem anos do seu nascimento, são roubados das livrarias. Os ladrões são sempre jovens. Esse é o melhor exemplo da importância vital da escrita deste homem. Pela sua aparência, sempre se pareceu mais com um banqueiro do que como lenda da contracultura, mas na sua essência Burroughs foi um rufião. Foi elegante, inteligentíssimo e encontrou redenção na sua arte, mas foi um rufião afinal de contas. Burroguhs disse que começou a escrever para exorcizar o demónio que possuiu a sua alma, quando matou a sua esposa com um tiro num acidente enquanto – bêbados – jogavam Guillerme Tell.
Burroughs teve um papel central ao impulsionar a geração Beat: funcionou como um mentor (quando não escrevia) para Jack Keruac e Allen Ginsberg. A sua obra completa, que inclui onze novelas, dezenas de contos, milhares de cartas e textos inclassificáveis, está cheia de drogados, cenas bizarras homoeróticas, complexas graças escatológicas, ensaios paranóicos, viagens no tempo e cenários de ficção científica que pareceram ter nascido do cruzamento entre Franz Kafka e o Marquês de Sade. Mas isso é só à superfície. Na sua profundidade, a escrita de Burroughs é um sonho, tanto na sua dinâmica como nos seus conteúdos. E tal como nos sonhos, às vezes, vêem o futuro.
WILLIAM BURROUGHS PERCEBEU O PROFUNDO MAL ESTAR NUMA SOCIEDADE QUE SE RECUSAVA ENFRENTAR A SI MESMA E QUE NEGAVA OLHAR PARA O SEU LADO MAIS OBSCURO Na sua obra mais conhecida, “Naked Lunch” (1959) – que foi adaptada ao cinema, em 1991, por David Cronenberg – Burroughs escreve: “ O estudo de máquinas inteligentes diz-nos mais sobre o cérebro do que aquilo que podemos aprender por métodos introspetivos. (...) Em breve, estaremos a operar por controlo remoto sobre pacientes que nunca veremos (...) Pouco depois de nascer, um cirurgião poderia inserir conexões no cérebro.” Numa reportagem J.G. Ballard afirmou: “Viu o mundo como uma enorme conspiração de corporações mediáticas, do establishment político e da corrupção da ciência médica (...) Os seus livros são uma intenção de ex-
plorar esta cómoda conspiração, para nos permitir ver claramente a realidade.” Burroughs formou-se em Letras, em Harvard. O seu avô tinha inventado uma calculadora – The Burroghs Adding Machine – que foi um elemento central no mundo dos negócios de finais do século XIX. Burroughs também estudou Medicina, em Viena. Estava encaminhado para ser um cidadão modelo, mas algo aconteceu. Um moralista diria que a culpa foram as drogas e os seus apetites sexuais. Os seus defensores diriam o contrário: que tal como Kafka ou Philip Dick, William Burroughs percebeu o profundo mal estar numa sociedade que se recusava enfrentar a si mesma e que negava olhar para o seu lado mais obscuro. Desse ponto de vista, as obras de Burroughs são como sonhos lúcidos nos quais alguém desperta mais informado. Não é uma realidade cómoda ou esmerada. E talvez ainda inclua visões sobre o futuro.
20
DESPORTO
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
EURO 2016 PORTUGAL COM DINAMARCA, SÉRVIA, ALBÂNIA E ARMÉNIA
Acessível, mas... P ORTUGAL ficou inserido no grupo I, o único com apenas cinco selecções, da fase de apuramento para o Campeonato da Europa de 2016, que se vai disputar em França. A Selecção Portuguesa, que teve o estatuto de cabeça de série, vai ter como adversários a Dinamarca, Sérvia, Albânia e Arménia. Pelo meio, uma vez que está num grupo com menos selecções, Portugal vai disputar um jogo de carácter particular com a França, que já está apurada para a fase final na condição de Selecção anfitriã.
DINAMARCA PELA TERCEIRA VEZ
BOXE ZOU SHIMING, MACAU KID E REX TSO VENCEM COMBATES POR KO
Lutador de Hong Kong leva dois títulos para casa JOANA FREITAS
joana.freitas@hojemacau.com.mo
R
EX Tso é o novo campeão da World Boxing Council e da World Boxing Organization em duas categorias diferentes. O “puto maravilha” conseguiu derrotar o japonês Mako Matsuyama por KO, a menos do minuto e meio do oitavo assalto, de 10. O combate impressionou quem estava a assistir nas bancadas do Arena do Venetian, até porque Matsuyama complicou a vida ao lutador de Hong Kong. Ambos demonstraram rapidez e resistência até ao quarto assalto, com Rex a conseguir controlar a técnica do japonês. Com excelentes esquivas, o “Wonder Kid”, levou a multidão ao rubro quando conseguiu pôr o japonês de joelhos uma primeira vez. Matsuyama, contudo, não desistiu. Ao terceiro assalto, apesar da confiança de ambos, o lutador nipónico entrou mais forte. Não foi suficiente, já que, desde o último combate no Venetian, Rex Tso apresentou, no sábado, técnicas de braços. O quarto ‘round’ ainda levou o
“puto maravilha” a falhar dois eventuais KOs, devido ao cansaço, mas Matsuyama não escapou. Ao oitavo ‘round’ um incrível lateral de Rex Tso levou o nipónico a cair inanimado de frente no chão. O público foi ao rubro e Tso – que continua sem qualquer derrota, dez combates e cinco KOs levou consigo dois títulos: campeão asiático da WBC em super-peso mosca e campeão júnior da Ásia-Pacífico da WBO em peso-pluma. De notar ainda o ‘fair-play’ de Rex, que imediatamente após o KO foi verificar o estado do oponente, a quem levantou ainda o braço quando estava a ser declarado vencedor.
RAEM VENCEDORA, ZOU FAZ PRIMEIRO KO
Ng Kuok Kun, de Macau, venceu por KO técnico ao primeiro minuto e 17 segundos do terceiro assalto. O ‘Macau Kid’ somava apenas dois combates antes de entrar no ringue do Venetian, mas conseguiu controlar Rocky Alap-Alap da Indonésia. Não muito forte ainda a nível técnico, Ng Kuok Kun fez uma combinação de três socos, que levaram Rocky cair de
joelhos, depois de dois ‘rounds’ em que Ng esteve ligeiramente superior ao indonésio. O chinês medalha de ouro Zou Shiming, que subiu ao ringue pela terceira vez em Macau, venceu o seu primeiro combate profissional por KO. Num combate esperado para durar oito ‘rounds’, Shiming fez as delícias dos fãs ao conseguir levar ao chão Yokthong Kiketgym, da Tailândia. Apesar de continuar a enfrentar oponentes com pouca experiência, o chinês demonstrou estar a melhorar ao nível técnico e ter mais resistência. Boas combinações de Zou levaram a melhor sobre a insistência do tailandês, até agora o adversário que deu mais luta ao campeão olímpico. Yokthong foi ao chão quando faltavam 50 segundos para terminar o sétimo assalto. De resto, e à excepção do combate entre Miguel Vasquez, do México, e o russo Denis Shafikov, todos os outros sete combates terminaram em ‘knock-out’. O “Ring of Gold” foi já o quarto evento de boxe na Arena do Venetian, à qual Bob Arum deixou a promessa de voltar ainda antes do final do ano.
A fase de apuramento para o França 2016 será a terceira em que Portugal e Dinamarca vão medir forças em qualificações para Campeonatos da Europa, depois de se terem cruzado na campanha para o Euro 72 e mais recentemente para o Euro 2012. No percurso para 1972, Portugal venceu os dois jogos, tendo ganho por 1-0 na Dinamarca, com um golo de Jacinto João, e goleado por 5-0 no Estádio das Antas, com golos de Rui Rodrigues, Eusébio e Vítor Baptista, que bisou. Já na campanha para o Euro 2012, Portugal venceu um jogo e perdeu outro, tendo ganho no Estádio do Dragão por 3-1, naquela que foi a partida de estreia de Paulo Bento à frente da Selecção, com golos apontados por Nani, que bisou, e Cristiano Ronaldo. Em solo dinamarquês, Portugal perdeu 2-1, tendo sido Cris-
tiano Ronaldo o marcador de serviço.
SEGUNDA COM A SÉRVIA
Portugal vai medir forças com a Sérvia em fases de qualificação para Campeonatos da Europa pela segunda vez, depois das duas selecções já terem sido adversárias na campanha para o Euro 2008, que foi organizado a meias pela Suíça e pela Áustria. Nos dois jogos que Portugal e Sérvia mediram forças, registou-se o mesmo resultado. O 1-1 foi o resultado final em solo sérvio e no Estádio de Alvalade. Na Sérvia, Tiago foi o marcador do golo de Portugal, sendo que em Alvalade foi Simão Sabrosa quem marcou, tendo o jogo ficado marcado pelo murro de Scolari a Dragutinovic, que fez com que o seleccionador português na altura fosse suspenso pela UEFA.
ALBÂNIA É ESTREIA, ARMÉNIA NÃO
Pela primeira vez, Portugal e Albânia vão medir forças em fases de qualificação para Europeus, embora as duas selecções já se conheçam de fases anteriores mas para Campeonatos do Mundo, sendo que a última vez que se cruzaram foi na campanha para o Mundial 2010. Por sua vez, a Arménia cruza-se com Portugal pela segunda vez em qualificações para Europeus, pois foi adversária no percurso para o Euro 2008. Na altura, a Selecção portuguesa empatou a uma bola na Arménia, tendo sido Cristiano Ronaldo o marcador de serviço. Mais tarde, em Leiria, Portugal ganhou 1-0 com um golo de Hugo Almeida.
FUTILIDADES
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
TEMPO
MUITO
NUBLADO
Cineteatro
CINEMA
MIN
14
MAX
20
HUM
60-95%
•
EURO
10.9
BAHT
0.2
YUAN
21
1.3
HOJE NA CHÁVENA Paula Bicho
Naturopata e Fitoterapeuta • obichodabotica@gmail.com
Carvalho Nome botânico: Quercus robur L. Família: Fagaceae. Nomes populares: Alvarinho; Carvalheira; Carvalho-alvarinho; Carvalho-comum; Carvalho-roble; Roble.
ROBOCOP SALA 1
ROBOCOP [C] Um filme de: José Padilha Com: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish 14.30, 16.30, 19.30, 21.30
WINTER’S TALE [B] Um filme de: Akiva Goldsman Com: Colin Farrell, Jessica Brown Findlay, Jennifer Connelly 14.30, 21.30 SALA 2
THE LEGO MOVIE [A] (FALADO EM CANTONÊS)
Um filme de: Phil Lord, Chris Miller 16.45, 19.30 SALA 3
FROM VEGAS TO MACAU [C] (FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS) Um filme de: Wong Jing Com: Chow Yun-Fat, Nicholas Tse 14.30, 21.30
Árvore de grande porte, copa larga e tronco grosso e maciço, o Carvalho pode alcançar mais de 40 metros de altura. O seu crescimento é lento e a sua vida longa, de pelo menos 500 anos, atingindo por vezes os 2000. Apresenta folhas características de cor verde-escura, profundamente lobuladas, caducas; os frutos (glandes) são as conhecidas Bolotas, de cor verde a castanha de acordo com a maturação. Habita os bosques e florestas da Europa. Com uma longa história de uso medicinal, o Carvalho foi referido por Dioscórides (século I) e outros autores idóneos ao longo da História. Considerado sagrado para os Gregos e Romanos era igualmente venerado pelos druidas. Com os seus ramos se coroavam os cidadãos na Roma Antiga em reconhecimento dos seus méritos. Utilizado por vários povos da Europa, o Carvalho era famoso pelas suas propriedades adstringentes. Em fitoterapia são usadas sobretudo as cascas dos ramos jovens, mas também as Bolotas e as galhas ou bugalhos (excrescências provocadas por insetos ou parasitas).
ENDLESS LOVE [B] Um filme de: Shana Feste Com: Alex Pettyfer, Gabriella Wilde, Robert Patrick 16.30, 19.30
Chama emergência para abrir fecho do casaco da mulher • Tudo se passou em Washington (EUA). Um homem estava tão chateado por não conseguir abrir o fecho do casaco da sua esposa que, decidiu recorrer ao número de emergência. Desesperado, pegou no telefone e ligou para o 911, pedindo a presença imediata da polícia e bombeiros no local da “emergência”. De acordo com os trabalhadores do serviço, o operador do 911 enviou uma equipa de emergência para lidar com o problema. A situação resolveu-se e ficaram todos felizes.
Emagrecer pode acabar com o seu namoro • Um estudo feito por professores das universidades Estadual da Carolina do Norte e do Texas descobriu que emagrecer pode distanciar o casal. Mas só se um deles se recusar a seguir o mesmo caminho do parceiro. Pelo menos foi assim com os 21 casais entrevistados. Em todos os casos, um dos parceiros tinha decidido começar uma vida mais saudável, com mudanças na alimentação e exercícios físicos. Em menos de dois anos, em média, essa pessoas emagreceram 13 quilos. E todos eles, inclusive os que ficaram de fora da dieta, contaram aos investigadores sobre o impacto daquelas mudanças na vida do casal.
DRAYA MICHELE FAZ SUBIR A TEMPERATURA Draya Michele é uma das mulheres mais desejadas na NBA. A modelo, natural do leste da Pensilvânia (EUA), foi pioneira num programa televisivo americano. Um ‘reallity show’ diferente de todos os outros. Foi lançado em 2009 e denominava-se Basketball Wives LA. Os requisitos: tinham de ser mulheres e todas as concorrentes estiveram de alguma forma romanticamente ligadas a jogadores profissionais de basquetebol.
fonte da inveja
Como diria Lapalisse, Portugal só tem uma saída:
a fronteira.
João Corvo
COMPOSIÇÃO Cascas: Taninos em abundância, até 20%; ácidos fenólicos, resinas, flavonoides, floroglucina. Bolotas: Hidratos de carbono, lípidos de alto valor biológico e taninos. AÇÃO TERAPÊUTICA As virtudes da casca do Carvalho devem-se ao elevado conteúdo em taninos. Estes compostos são muito adstringentes e contraem os tecidos do organismo. Quando estes se encontram inflamados, secam-nos e endurecem-nos formando uma camada protetora, até que sejam regenerados e substituídos por tecidos sãos; na presença de sangramentos, contraem os vasos sanguíneos e favorecem a coagulação detendo as hemorragias. Aos taninos são ainda atribuídos efeitos anti-inflamatórios e analgésicos. A casca do Carvalho, com todos os seus constituintes, oferece ainda outras propriedades: é tónica e antioxidante, combate bactérias e vírus, favorece a eliminação de líquidos e cálculos renais e
baixa a febre. Não obstante, o seu uso interno está reservado apenas para situações de diarreia, disenteria, hemorragias e febres intermitentes. É que, embora não sendo tóxico, tal concentração de taninos é irritante e pode provocar náuseas e, além disso, a natureza doou-nos muitos outros recursos botânicos mais suaves e com idênticas propriedades. O seu uso de eleição é pois a aplicação externa. OUTRAS PROPRIEDADES Externamente, a casca de Carvalho seca a pele e as mucosas inflamadas, alivia o ardor, prurido e vermelhidão, detém as pequenas hemorragias, desinfeta e acelera a cicatrização dos tecidos. São inúmeras as suas indicações: aftas, gengivite, amigdalite, faringite e para ajudar a firmar os dentes que abanam; erupções, gretas, feridas, chagas, úlceras varicosas, frieiras, queimaduras, pele inflamada, eczema húmido e pele seborreica; hemorroidas, fissuras anais e leucorreia; para minorar a transpiração excessiva e o mau odor dos pés. É ainda usado para acalmar as dores nos músculos e articulações. COMO TOMAR • Uso interno As Bolotas, adstringentes, podem ser ingeridas em caso de diarreia e gastrenterite, sendo especialmente úteis para as crianças. Alimentam e tratam. Assadas podem substituir as amêndoas; torradas são um substituto do café; secas e moídas podem ser adicionadas aos cereais no fabrico de pão. • Uso externo Cozimento da casca: 20 g por litro de água. Filtrar bem. Aplica-se várias vezes por dia em bochechos e gargarejos, banhos de pés ou mãos, lavagens, compressas, banhos de assento (hemorroidas) ou clisteres, irrigações vaginais, compressas quentes sobre os músculos e articulações. Na forma de tintura, pomadas, cremes ou loções. PRECAUÇÕES Contraindicado em caso de lesões extensas da pele. Não são aconselhados banhos de imersão com esta planta. Os taninos podem deixar uma coloração amarela na pele que se retira esfregando com sumo de Limão. Em caso de dúvida, consulte o seu profissional de saúde.
22
OPINIÃO
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
A
António Manuel de Paula Saraiva NO do Cavalo! Um animal possante, de claras linhas, amigo do homem, que ao usar suas qualidades se torna um Cavaleiro do Progresso e da Esperança. Mas o cavalo também pode ser arma de guerra e destruição. Numa célebre gravura de Albchret Durer são representados os 4 cavaleiros do Apocalipse (fim do Mundo): a Peste, a Guerra, a Fome, e a Morte (1). Isto é: os cavalos que povoam as histórias das crianças transportando os príncipes e as princesas para os castelos encantados, ou que esforçadamente lavram os campos – podem cair nas mãos de indivíduos pouco avisados, que irão usar a sua força e docilidade para os transformar em temíveis armas de guerra. Mas como ninguém gosta de guerras – esses Cavaleiros do Apocalipse, para serem aceites, usam transvestir-se com as armas dos Cavaleiros da Esperança. Como disse o poeta António Aleixo: “ P’ra mentira ser segura E atingir profundidade, Tem que trazer à mistura Qualquer coisa de verdade”. E quais serão os nossos Cavaleiros da Esperança? O Primeiro Cavaleiro da Esperança chama-se sem dúvida Progresso. Progresso – quem não o quer? Enterrar de vez a fome, o frio, as casas minúsculas... poder passear, gozar a arte. Ora para haver Progresso tem de haver competição – que traz a Novidade, Novas Ideias, Nova Arte, Novos remédios - e com isto o bem da Humanidade. A história da China mostra bem o que foi, durante séculos, uma sociedade imobilizada no tempo. Ora o Primeiro Cavaleiro do Apocalipse apresentando-se, para melhor ser aceite, com essas armas, entende o Progresso apenas como “ter mais”. Para ele há o Dinheiro, o Dinheiro... e também o Dinheiro. O que dá dinheiro é bom, o que não dá não presta. Vender armas é bom, pois ter uma arma é um direito de cada um – e dá dinheiro. Fazer espectáculos em que dois desgraçados se esmurram um ao outro é bom – é um direito de cada um – e dá dinheiro. Cair um pobre na rua é bom, pois isso acicata os passeantes a trabalharem mais para não serem despedidos. Assim, desapiedadamente esse cavaleiro explora o ambiente, destrói montanhas e florestas, extingue espécies, enche o ar de fumo...o cavaleiro esquece-se que o Mundo é finito, e que o Homem depende dele para viver. Para dar um exemplo de Macau vivemos rodeados por água, mas não
PAUL W. S. ANDERSON, OS TRÊS MOSQUETEIROS
Os quatro cavaleiros da esperança e os quatro cavaleiros do apocalipse
Esperemos que neste Ano do Cavalo os Cavaleiros da Esperança tenham a sua estrada aplanada – e que os Cavaleiros do Apocalipse tropecem nas suas contradições – ou na velocidade exagerada que querem imprimir às montadas. Aqui só quis abrir-lhes um pouco a viseira, para que os pudéssemos olhar mais face a face a podemos usar para beber nem sequer para tomar banho. Os países, que, mal avisados, se deixaram cair nas mãos dos agiotas, têm que pagar – ao menos os juros pois o capital emprestado está fora de questão. Se deixarmos este cavaleiro correr à vontade arriscamo-nos a, talvez em época não muito longínqua, não termos Mundo para viver. E mais - esse cavaleiro, destruindo as relações fraternas entre os homens, em vez de avançar, fará recuar a Humanidade ao tempo das cavernas. O Segundo Cavaleiro da Esperança defende a Ordem e da Segurança. A Paz entre os países, e, a nível interno, o respeito pelo próximo, a ausência de medo, a existência de leis claras e a transparência na administração da coisa pública (que matem à nascença a corrupção), são requisitos indispensáveis para justas e pacíficas relações dos homens entre si e com quem os governa, e entre as diferentes raças e países. Ora o Segundo Cavaleiro do Apocalipse usa estas básicas necessidades humanas para tudo controlar. A privacidade, em nome do combate aos “inimigos” desapareceu, pois há prismas que conseguem ver dentro do teu computador. Os “cookies” sabem do que gostas, não
tardarão a descobrir o que pensas. E como o conhecimento é poder, e os actuais sistemas estão concentrado um incomensurável poder na mão de poucos. Dentro em breve, se deixarmos este cavaleiro espadeirar à vontade, o fosso entre espiões e espiados não deixará de se alargar, e qualquer alteração dos governos será impossível. E, paradoxalmente, este Cavaleiro, dizendo que é para manter a Paz, espalha continuamente a Guerra, semeando a Morte e a Dor. O terceiro Cavaleiro da Esperança é o dos Direitos humanos e do Direito ao próprio Eu. Cada homem é diferente de todos os outros – e só tem uma vida (2). Se não decidirmos nós a nossa própria vida outros a vão decidir – para seu bem e não nosso. Mas pastando nestas ideias levanta-se o Terceiro Cavaleiro do Apocalipse. Vamos então gozar a vida! E bem! E para tal não tem rebuço em espezinhar os outros, mandar os demais trabalhar para ele descansar, e não cumprir com as suas responsabilidades : face aos cargos desempenhados, face à sociedade, face aos próprios filhos gerados... e pelos não-gerados - tudo é bom, tudo é legal, vamos curtir. O Quarto Cavaleiro da Esperança apresenta-se com as armas da Igualdade entre
Sexos e da Tolerância. Noções preciosas, para mais nesta parte do Oriente, em que às mulheres estava frequentemente reservado o papel de concubinas, com os pés entrapados para (supostamente) serem mais femininas - para não falar da Índia, onde ainda hoje sofrem as maiores sevícias. Porém o Quarto Cavaleiro do Apocalipse brandindo essas ideias, confunde Igualdade com Identidade. Assim afirma que se homens e mulheres são iguais tanto faz namorar com uns como com outros; e que as mulheres poderão não só cumprir o serviço militar como ser enviadas para as zonas de combate (3). Desprezando frontalmente a biologia que mostra existirem homens e mulheres - afirma que há cinco, ou talvez sete, sexos – tantas são as cores do arco íris. Com alguma arrogância este cavaleiro proíbe (ou tenta) quaisquer manifestações de desagrado, ou até de simples dúvidas, face à bondade das suas bandeiras. E esquecendo os princípios taoístas – e a simples biologia - que afirma que a vida nasce da união do Yan (princípio masculino) com o Yin (princípio feminino), ou seja que a vida é gerada através do amor de um homem com uma mulher - chega a defender – em casos limite, é certo, mas para reforçar a ideia de que a sua forma de vida é perfeitamente normal - o “fabrico” de crianças sem pai e sem mãe, usando mulheres de povos miseráveis como chocadeiras (barrigas de aluguer), como se de galinhas se tratasse. Ora quem chegou a tal ponto de negação da realidade pode fazer qualquer coisa, ou negar qualquer outra evidência. Esperemos que neste Ano do Cavalo os Cavaleiros da Esperança tenham a sua estrada aplanada – e que os Cavaleiros do Apocalipse tropecem nas suas contradições – ou na velocidade exagerada que querem imprimir às montadas. Aqui só quis abrir-lhes um pouco a viseira, para que os pudéssemos olhar mais face a face. (1) Como se sabe o “Apocalipse” constitui a última parte da Bíblia, e relata as visões do apóstolo João do que seria o fim do Mundo. Os cavalos montados por treinados cavaleiros eram na época em que o “Apocalipse” foi escrito, a mais formidável arma de guerra (exceptuando os elefantes, que só existiam em países tropicais) – o que explica o facto de João os ter escolhido para corporizar alguns dos males que, segundo ele, iriam no fim dos tempos, destruir o género humano. (2) Em termos religiosos ou filosóficos o problema pode pôr-se de forma diferente. Aqui apenas expusemos o sentimento prevalecente na actualidade. (3) Por enquanto nos Jogos Olímpicos ainda há competições para homens e para mulheres – uma situação que, à luz destes princípios, talvez devesse ser corrigida.
opinião 23
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
N
DAVID CHAN* legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk • http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog
O dia 14 de Fevereiro de 2014, o Yahoo deu uma notícia indicando que um homem gastou 11.888 dólares de Hong Kong para oferecer 108 tulipas à sua namorada. A rapariga deve ter tido um dia de São Valentim inesquecível. O dia 14 de Fevereiro foi o dia de São Valentim. Foi também o dia de São Valentim chinês, Qixi Festival, Dia das Lanternas ou Dia dos namorados da China. Foi um “duplo dia de São Valentim” (Dia dos namorados ocidental e oriental). A última vez que tal aconteceu foi há 19 anos. O dia de São Valentim foi também o mais frio “duplo dia de São Valentim” desde 1889. A temperatura marcou apenas 7º célsius. O dia de São Valentim não é um dia feriado na maioria dos países, embora grande parte das pessoas o comemore. Sejam casais ou amantes todos o celebram. Em Hong Kong, a influência britânica faz-se sentir ainda mais e os homens exibem o seu amor às namoradas oferecendo-lhes chocolates, flores (sobretudo rosas) e jóias, entre outras prendas.As namoradas oferecem presentes como gravatas, lenços ou camisolas aos seus namorados. Na China, a celebração deste dia faz-se de um modo mais tradicional. O homem oferece um presente como demonstração do seu amor. Se a rapariga aceitar o presente passam a ser namorados. Alguns homens também fazem comentários em websites para demonstrar o seu amor. Em Macau, os homens costumam oferecer flores enquanto as raparigas oferecem chocolates. Existem várias versões sobre a origem do dia de São Valentim. A que se segue não é a mais popular, mas sim uma versão romântica. Valentim era um cristão. Antigamente ser cristão era muito perigoso e podia até significar ser condenado à morte. Valentim deixou-se apanhar pelo rei para proteger outros cristãos. Na prisão, cuidou da filha do director que era cega. A rapariga acabou por recuperar a visão. O rei ficou tão assustado com este “milagre” que mandou matar Valentim. No dia da execução, Valentim escreveu uma carta à filha do director, revelando-lhe o seu amor por ela. No fim da carta assinou “do teu Valentim”. A morte de Valentim causou um grande desgosto à rapariga. Para não se esquecer dele, a filha do director plantou uma árvore junto do seu túmulo. A árvore cresceu e no dia 14 de Fevereiro deu uma flor vermelha. Assim nasceu o dia de São Valentim. Não são apenas os casais tradicionais que celebram este dia. Os casais homossexuais também o fazem. Justino e Moon são dois homossexuais que puseram uma mensagem no website do Yahoo , em que diziam: “O meu companheiro é uma luz na minha vida que me ilumina nos dias mais negros.” O dia de São Valentim é uma oportunidade para os casais exprimirem o seu amor pelos seus companheiros. No entanto, nem todos se sentem felizes neste dia. Na Coreia
macau visto de hong kong
Dia de São Valentim de 2014 do Sul, uma mulher, farmacêutica, perdeu o marido em 2007. Gostava tanto do marido que não o enterrou. Usou os seus conhecimentos de farmácia para lhe injectar produtos químicos e fez dele uma múmia. Todas as noites dormia com o seu “marido múmia”, até que alguém denunciou a situação. No dia de São Valentim, provavelmente sentiu-se ainda mais desolada. A grandeza da sua paixão faz-nos sentir mais compaixão pelo seu infeliz destino. O que estará ela, na sua imensa solidão, a declarar ao mundo? Cada país tem as suas regras para restringir os cidadãos comuns de lidar com cadáveres. Os cadáveres são úteis para determinar as causas da morte. Qualquer interferência pode afectar a investigação. É óbvio que a farmacêutica sul-coreana estava a infringir a lei. Vale a pena pensar no que fará o governo neste caso. Será que há matéria para proceder a uma acusação? Qual é mal de dormir com um “marido múmia” durante os últimos sete anos? A mulher ainda hoje ama o marido, será que pode continuar com o “marido múmia” ? Estas questões não têm uma solução legal. Nem todas as recordações do dia de São
cartoon por Stephff
Na China, a celebração deste dia faz-se de um modo mais tradicional. O homem oferece um presente como demonstração do seu amor. Se a rapariga aceitar o presente passam a ser namorados Valentim são boas. O Yahoo relatou também a história duma rapariga, Fung, de 19 anos, que tinha um encontro marcado no Dia dos Namorados. No entanto, foi atropelada por um autocarro. Partiu um dedo, e um anel, provavelmente uma prenda do dia de São Valentim, que ficou perdido no chão. Morreu passados quinze minutos. O seu namorado, Ng, ficou extremamente deprimido. Esta triste história faz-nos lembrar a canção, “Palavras para o amor da minha vida”
(“留給最愛的說話”), interpretada por “鄭 丹瑞” e “張麗謹”. A história da canção é semelhante à do acidente da rapariga. Parte da letra diz assim: “Finalmente ganhei coragem e convidei-te, porque queria estar contigo e dizer-te algo que tenho escondido no coração há muito tempo. Mas, nesse dia de chuva, a estrada molhada e um condutor descuidado, não deixaram que te encontrasse para te dizer amo-te.” O imprudente condutor do autocarro vai ser sujeito a acções civil e criminal. Pode ainda ser preso por homicídio involuntário. A acção civil pode exigir uma indemnização para os pais de Fung. Será que isto compensa a perda de Fung para sempre? Como se sentirão os pais e como se sentirá Ng? A cada dia de São Valentim os pais de Fung devem sentir-se tristes e Ng melancólico. O dinheiro não pode compensar tamanha perda. A lei tem as suas próprias limitações. Os casos da mulher da Coreia do Sul e de Fung, são um exemplo para que todos os casais desfrutem da relação com os seus companheiros a cada dia que passa. Devemos amar o nosso parceiro(a). Se o fizermos, todos os dias serão dia de São Valentim.
TYMOCHENKO VS YANUKOVYCH
Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor Gonçalo Lobo Pinheiro Redacção Andreia Sofia Silva; Cecilia Lin; Joana de Freitas; José C. Mendes; Rita Marques Ramos Colaboradores Amélia Vieira; Ana Cristina Alves; António Falcão; António Graça de Abreu; Hugo Pinto; José Simões Morais; Marco Carvalho; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Tiago Quadros Colunistas Agnes Lam; Arnaldo Gonçalves; Correia Marques; David Chan; Fernando Eloy ; Fernando Vinhais Guedes; Isabel Castro; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi Cartoonista Steph Grafismo Catarina Lau Pineda; Paulo Borges Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Gonçalo Lobo Pinheiro; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo
hoje macau segunda-feira 24.2.2014
VISTOS GOLD CHINESES ENGANADOS NO PREÇO REAL DAS CASAS
A dar que falar MARIA JOÃO BELCHIOR Em Pequim
O
alerta foi dado ao jornal “Expresso” por fontes que preferem manter o anonimato. As casas-passaporte, compras de propriedade com valores de 500 mil Euros e que garantem a entrada na Europa, estão a tornar-se um negócio especulativo. E com muita gente a embolsar dinheiro no processo de venda. Agentes imobiliários, que preferem não ser identificados e proteger o nome das suas agências, falam em comissões elevadas que estão a provocar preços especulativos no mercado imobiliário. Mais do que saber quanto vale uma casa, os chineses sabem que a entrada no espaço Shenghen em categoria “Gold” vale 500 mil euros. O artigo do caderno de Economia do “Expresso” de 15 de Fevereiro passado, refere o contacto com várias agências de mediação em Lisboa que adiantam que são intermediários chineses quem está a cobrar comissões elevadas até 20 ou 25 por cento. Estes agentes viajam com os potenciais compradores a Portugal e fazem subir o valor das casas devido à comissão que exigem.As viagens chegam a durar apenas 48 horas em que os compradores chineses que chegam, têm um dia para ver casas antes de regressar à China. De acordo com a notícia do “Ex-
presso”, com pouco ou nenhum conhecimento do mercado, os investidores chineses que viajam com os intermediários estão a adquirir imóveis que valem 350 mil Euros por um preço de 520 mil. Uma situação que está a criar uma especulação restringida por enquanto ao mercado das casas do Parque das Nações em Lisboa, e que está a preocupar aAssociação Industrial Portuguesa (AIP). Em Março, a Fundação AIP tem uma viagem marcada para Xangai que pretende também credibilizar a imagem do mercado português. Entre os vistos Gold concedidos desde que o programa entrou em vigor, de 654 vistos concedidos, 433 foram para chineses. A representar 66 por cento do mercado dos vistos emitidos, os chineses são um importante segmento para o mercado imobiliário português. É importante que sintam que além de um investimento seguro, a compra das casas é uma boa compra. De 14 a 17 de Março vai ter lugar em Xangai a Feira Shanghai Overseas Property e Portugal vai marcar presença com uma comitiva de 12 empresas e entidades que vão passar desde promotoras, a bancos, até ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O objectivo é mostrar que no mercado português as oportunidades de negócios são “credíveis e fiáveis”, como disse Jorge Oliveira, director da área de feiras da AIP, ao Expresso.
Risco social Instituições de solidariedade pedem mais apoio do Governo
A Cáritas e a Santa Casa da Misericórdia querem que o Governo aumente o tecto dos limites de apoio a famílias carenciadas. Actualmente, o regime do subsídio a atribuir a indivíduos e a agregados familiares em situação de carência económica determina uma atribuição de 3670 patacas a agregados com um indivíduo e 17160 para famílias com oito ou mais membros. No entanto, para os responsáveis, estes montantes são diminutos face à inflação anual. O provedor da Santa Casa, António José de Freitas, diz que é altura de nivelar parâmetros “por cima os montante, por forma a que mais pessoas possam ter acesso a esta rede social por parte do Governo.” Paul Pun é da mesma opinião. “O Governo poderia alargar o apoio”, salienta. “Algumas pessoas que passam por necessidades, mas não preenchem os requisitos, acabam excluídas. A Cáritas tem sempre de encontrar outras formas para apoiar essas pessoas”.
Hotelaria 16 hotéis em construção vão garantir mais de 9600 quartos
Nos próximos anos, vão nascer 16 unidades hoteleiras. Os empreendimentos, que se encontravam em construção até ao 4º trimestre de ano passado, vão proporcionar 9600 quartos. Embora a maioria dos hotéis fique situado em Macau, na península apenas nascerão 1030 quartos. Já na Taipa, os dois em construção vão garantir 1060 quartos. Os restantes cinco hotéis nascerão no Cotai com um total de 7500 quartos. Os 16 hotéis darão ainda lugar a 9710 lugares de estacionamento. Há também 27 projectos hoteleiros em fase de apreciação pelas Obras Públicas. Se todos forem aprovados, Macau poderá disponibilizar mais 16000 quartos. Desse número total de projectos em estudo, 19 localizam-se na península, um na Taipa e cinco no Cotai.
PUB