AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006
hojemacau
www.hojemacau.com.mo•facebook/hojemacau•twitter/hojemacau
MOP$10
QUINTA-FEIRA 15 DE MARÇO DE 2018 • ANO XVII • Nº 4012
PUB
DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ
Vestidas para viver PÁGINA 7
WONG KIT CHENG DIREITOS DA MULHER DEFENDEM-SE LÁ FORA PÁGINA 4
TAÇA AFC BENFICA VENCE HWAEPUL
PÁG.17
STEPHEN HAWKING
O ÚLTIMO GÉNIO
EVENTOS
EPM ALUNO AGREDIDO PERDE MEMÓRIA
ÚLTIMA
GRANDE PLANO
2 grande plano
Ontem morreu um dos maiores nomes científicos do final do século XX e início dos século XXI. Depois de lutar 55 anos contra a esclerose lateral amiotrófica, Stephen Hawking faleceu na sua casa em Cambridge aos 76 anos. Para trás fica uma vida dedicada às grandes questões do Universo, mas fica também um legado
inspirador
para gerações de futuros cientistas “Estamos profundamente tristes com a morte do nosso adorado pai. Foi um grande cientista e um homem extraordinário, cujo trabalho e legado permanecerão por muitos anos.” LUCY, ROBERT E TIM HAWKING
15.3.2018 quinta-feira
O HOMEM QUE SABIA DEMAIS ÓBITO
MUNDO DE LUTO COM A MORTE DE STEPHEN HAWKING
O
NTEM, 14 de Março, dia internacional do número Pi e do nascimento de Albert Einstein, o mundo perdeu um dos grandes cientistas dos últimos cinquenta anos. Stephen Hawking morreu, aos 76 anos, na sua casa em Cambridge, anunciou a sua família. “Estamos profundamente tristes com a morte do nosso adorado pai. Foi um grande cientista e um homem extraordinário, cujo trabalho e legado permanecerão por muitos anos”, escreveram os filhos do cientista, Lucy, Robert e Tim, num texto divulgado pelas agências noticiosas. No texto, os filhos de Stephen Hawking acrescentam que a sua coragem e persistência, assim como a sua inteligência e humor inspiraram pessoas por todo o mundo. “Ele disse um dia que ‘este não seria um grande universo se não fosse a casa das pessoas que amamos’”, acrescentam os filhos. “O Professor Stephen Hawking é um dos gigantes da física moderna. Ocupou a cátedra de Newton em Cambridge e foi um dos físicos mais proeminentes do fim do século XX e princípio do século XXI, um vulto importante que desaparece”. As palavras são de Rui Martins, vice-reitor da Universidade de Macau e membro correspondente da Academia Portuguesa de Ciências.
Apesar de sofrer de esclerose lateral amiotrófica desde os 21 anos, Hawking surpreendeu os médicos ao viver mais de 50 anos com esta doença fatal, caracterizada pela degeneração dos neurónios motores, as células do sistema nervoso central que controlam os movimentos voluntários dos músculos. Uma patologia degenerativa que haveria de o relegar para uma cadeira de rodas cedo na vida. Em 1985, uma grave pneumonia deixou-o a respirar por um tubo, forçando-o, desde então, a comunicar através de um sintetizador de voz electrónico. Mas Hawking continuou a desenvolver as suas pesquisas na área da ciência, a aparecer na televisão e casou pela segunda vez. David Gonçalves, Director do Instituto de Ciências e Ambiente, da Universidade de São José, destaca a sua “capacidade de permanecer motivado e curioso acerca do universo e com vontade de trabalhar, apesar da doença debilitante que tinha”. O académico sublinha que a vida e obra de Stephen Hawking “foi inspiradora para qualquer pessoa que faça ciência”.
TEORIA DE TUDO
Professor de matemática na universidade de Cambridge, Hawking fez parte de uma das mais importantes pesquisas no ramo da física, sobre a “Teoria de Tudo”. Aquela teoria
resolveria as contradições entre a teoria geral da relatividade, de Einstein, que descreve as leis da gravidade que determinam o movimento de corpos como planetas, e a teoria da mecânica quântica, que lida com partículas subatómicas. Para Hawking, aquela pesquisa era uma missão quase divina, pois dizia que encontrar a “Teoria do Tudo” permitiria à humanidade “conhecer a mente de Deus”. Anos mais tarde, contudo, Hawking acabou por admitir que a teoria talvez não tivesse validade científica. David Gonçalves destaca a “contribuição de Stephen Hawking para tentar unificar diferentes teorias da física, na chamada Teoria de Tudo”, como um dos mais
“O Professor Stephen Hawking é um dos gigantes da física moderna. Ocupou a cátedra de Newton em Cambridge e foi um dos físicos mais proeminentes do fim do século XX, um vulto importante que desaparece.” RUI MARTINS VICE-REITOR DA UNIVERSIDADE DE MACAU
preciosas heranças científicas que deixa ao mundo. “Tentou explicar todos os fenómenos físicos observados a vários níveis, desde o subatómico ao nível do cosmos, das galáxias. É uma ideia chave que fica como um dos seus legados. Apesar de não ter conseguido cumprir essa ideia, porque continua a não haver uma teoria unificada para explicar todos os fenómenos físicos do universo, está lá a semente para ser seguida por outros”, refere o Director do Instituto de Ciências e Ambiente. Rui Martins recorda uma intervenção recente de Hawking que “levantou bastantes dúvidas sobre o desenvolvimento da inteligência artificial”, deixando um alerta para o mundo científico. “O professor disse que seria a quarta revolução industrial, e eu partilho completa-
grande plano 3
quinta-feira 15.3.2018
possibilidade de um universo com onze dimensões.
MUNDO DE LUTO
mente essa ideia. Os perigos que podem estar no horizonte, nomeadamente com o desenvolvimento da electrónica quântica que vai fazer com que o robot ultrapasse o ser humano, podem constituir um perigo”, comenta.
BREVE HISTÓRIA
Entre a sua obra publicada é impossível escapar a “Uma Breve História do Tempo”, um dos livros mais vendidos no mundo, uma fonte de inspiração para muitos futuros cientistas e uma forma de aproximação das grandes questões físicas a um público leigo na matéria. O livro é um bestseller vendendo mais de 10 milhões de cópias ao longo de duas décadas. Em 2001, “Uma Breve História do Tempo” tinha sido traduzido em 35 línguas.
“Uma das grandes contribuições do Professor Hawking foi a popularização destes temas junto do grande público. Eu sou de electrónica, mas as questões da física, e tudo o que se relaciona
“O seu falecimento deixa um vácuo intelectual, mas não um vazio. Pensem nisto como o tipo de energia em vácuo que atravessa o tecido de espaço e tempo, desafiando todas as medidas.” NEIL DEGRASSE TYSON CIENTISTA
com ciência, acompanhei porque li todos os livros dele”, confessa Rui Martins. “A obra dele, para além de ser bastante informativa para uma pessoa leiga na matéria, é espectacular em termos de qualidade”, comenta o vice-reitor da Universidade de Macau. O académico entende que “a ciência sem o conhecimento da sociedade não tem qualquer interesse, torna-se extremamente opaca”. Rui Martins acrescenta ainda que” é importante que esses resultados, para além das revistas científicas, apareçam noutros meios de comunicação e que sejam divulgados às pessoas”. Num outro livro, “O Universo Numa Casca de Noz”, Hawking explica conceitos como a super gravitação, singularidade nua e a
“Foi inspirador para qualquer pessoa que faça ciência, dotado de uma enorme capacidade para permanecer motivado e curioso acerca do universo e com vontade de trabalhar, apesar da doença debilitante que tinha.” DAVID GONÇALVES DIRECTOR DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS E AMBIENTE, DA UNIVERSIDADE DE SÃO JOSÉ
Stephen Hawking foi um daqueles poucos cientistas que consegue furar a barreira pop, tornando-se um ícone reconhecível no mundo interior. Como tal, as homenagens não se fizeram esperar. A NASA publicou no Twitter uma mensagem realçando o papel de Hawking como “embaixador das ciências”, destacando ainda “as suas teorias que destrancaram um universo de possibilidades que o mundo está a explorar”. A mensagem da NASA termina com uma citação do que o próprio Hawkings disse aos cientistas da estação espacial, em 2014: “Que continuem a voar como o Super-Homem na microgravidade”. Na mesma plataforma, Neil deGrasse Tyson escreveu: “O seu falecimento deixa um vácuo intelectual, mas não um vazio. Pensem nisto como o tipo de energia em vácuo que atravessa o tecido de espaço e tempo, desafiando todas as medidas”. Como figura transversal que foi, motivou também a reacção da cantora pop Katy Perry, que especificou que Hawking morreu no dia anual que celebra a constante matemática Pi, acrescentando que ficou com “um grande buraco negro no coração”. Stephen Hawking procurou respostas para as perguntas mais profundas com que o ser humano se tem deparado desde que ganhou o poder do pensamento e da análise. Questões, desde há séculos, apenas deixadas no domínio da superstição e das religiões. Assumido ateu, o físico dedicou a sua vida à busca das respostas às grandes questões cosmológicas: Como apareceu o universo, como é que se formam novas galáxias, como funcionam buracos negros. Para David Gonçalves, a busca deste tipo de conhecimento é outro dos legados deixados pelo físico, assim como “a utilização da abordagem científica, do pensamento lógico e racional para tentar explicar os fenómenos que nos rodeiam”. Stephen Hawking entra assim para um panteão de grandes mentes científicas, figurando entre os seus heróis Albert Einstein, Isaac Newton e, mais recentemente, Carl Sagan e Richard Feynman. Além da sede de conhecimento, Stephen Hawking deixa-nos um imenso exemplo de inabalável paixão e de força para ultrapassar contrariedades. “Sê corajoso, sê determinado, ultrapassa as probabilidades. Pode ser feito!”, disse o cientista em 2015 no Fórum Económico Mundial. João Luz
info@hojemacau.com.mo
4 política
15.3.2018 quinta-feira
NAÇÕES UNIDAS WONG KIT CHENG DEFENDE DIREITOS DAS MULHERES LÁ FORA
Uma mulher, dois discursos ano passado, em que reconhece que a maior parte destas trabalhadoras têm nacionalidade filipina. “A estabilidade salarial dos trabalhadores domésticos tem implicações importantes para os encargos económicos de muitas famílias. As autoridades devem tomar como referência a prática de Hong Kong e excluir os trabalhadores domésticos do âmbito de aplicação da lei do salários mínimo”, é apontado porWong Kit Cheng.
HOJE MACAU
A deputada esteve em Nova Iorque para discutir a igualdade de género. No entanto, defende que “os trabalhadores domésticos”, na maioria mulheres de nacionalidade filipina, não devem ter salário mínimo e que as não-residentes devem pagar mais pelos partos
A deputada termina o documento encorajando as mulheres a “irem à luta, criar oportunidades e transformar o seus sonhos em realidade”
A
deputada Wong Kit Cheng, representante da Associação Geral das Mulheres de Macau, está em Nova Iorque e participou na abertura da 62.ª Comissão da Condição da Mulher da Organização das Nações Unidas. Num comunicado emitido pelo gabinete da deputada, Wong Kit Cheng comprometeu-se a defender os direitos das mulher e escreveu: “Ninguém fica para trás, por um planeta 50-50 até 2030”. Contudo, o discurso adoptado pela legisladora lá fora entra em colisão com as ideias defendidas dentro de portas, nomeadamente em relação às trabalhadoras não-residentes. No estrangeiro, Wong Kit Cheng promete fazer todos os seus esforços para criar uma maior igualdade entre homens e mulheres em Macau: “Espero que este intercâmbio
com mulheres de diferentes países consiga aprender com a força das outras mulheres. Quero utilizar estes conhecimentos como uma referência no futuro desenvolvimento da igualdade de género em Macau”, afirmou a deputada. Em relação à situação do território, Wong diz que “houve uma melhoria significativa nos últimos anos”, mas que não é suficiente para que as pessoas “possam estar satisfeitas”. A representante da Associação Geral
Jorge Morbey, ex-presidente do Instituto Cultural e docente da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau, disse à Rádio Macau que a culpa pelo caso dos três escritores que não estiveram presentes no festival literário Rota das Letras é do secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam. “Contrariamente ao que circula por aí, o Gabinete de Ligação, se realmente comunicou com o Festival e desaconselhou [os escritores] a vir, eu penso que isto é de louvar, porque quando falha o Governo, se não há outra entidade para pôr mão nas coisas, acaba por ser o Gabinete de Ligação”. Na visão de Morbey, que lançou ontem um novo livro, “a situação que se criou
é da responsabilidade do Governo, concretamente do secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, porque é óbvio que o planeamento do Festival Rota das Letras é objecto de uma proposta, porque de outra maneira não fazia sentido o dinheiro que se gasta com isto e que é suportado pelo Governo”. “A assinatura que vale ouro aí é a do senhor secretário para os Assuntos Sociais e Cultura. Portanto, isto não lhe passou ao lado e se isto era mau, se o convite a estas pessoas era mau, devia ser um problema levantado por ele à organização do Festival, o que não levantou. Do meu ponto de vista, talvez por não saber quem eram as pessoas, o que é lamentável”, acrescentou à Rádio Macau.
GONÇALO LOBO PINHEIRO
Rota das Letras Jorge Morbey elogia Gabinete de Ligação
das Mulheres de Macau sublinha também que “é necessário estudar de forma mais aprofundada as causas das diferenças em termos económicos e estatuto social dos dois géneros, como por exemplo os salários”. Wong Kit Cheng declarou ainda que as trocas de experiências com pessoas do estrangeiros vão permitir “trazer para Macau questões relacionadas com as mulheres que marcam a agência internacional”. Por último, a deputada termina o documento en-
corajando as mulheres a “irem à luta, criar oportunidades e transformar o seus sonhos em realidade”.
PESADELOS EM CASA
Se por um lado, Wong frisa a necessidade de haver uma maior igualdade de salários entre os dois géneros, por outro, defende que os trabalhadores domésticos não devem ter salários mínimo. A posição foi tomada numa interpelação escrita, com a data de Novembro do
Também numa outra interpelação, com a data de Março de 2017, Wong mostrou-se preocupada com a utilização dos serviços de Macau de Ginecologia e Obstetrícia por parte de não-residentes. Nesse documento, a deputada sublinhava que era necessário garantir que os não-residentes “não sobrecarregavam” os serviços “destinados ao residentes de Macau”. De resto, terá sido esta corrente de opinião que levou mesmo os Serviços de Saúde a proporem medidas para penalizarem a utilização dos serviços pelas não-residentes. Assim, o Governo está a propor uma subida dos preços dos partos no hospital pública para as trabalhadoras não-residentes de 975 para 8 775 patacas. O HM tentou contactar a deputada sobre as eventuais contradições nos discursos, mas Wong Kit Cheng esteve incontactável.
Chefe do Executivo Chan Meng Kam nega candidatura
Chan Meng Kam negou ontem, em Pequim, ser um dos candidatos à posição de Chefe do Executivo, de acordo com o jornal Macau Daily News. Ao microfones do jornal, o empresário mostrou-se muito bem disposto e sorridente, mas negou a hipótese. Macau vai ter de eleger, através de um comité eleitoral, o sucessor de Chui Sai On em 2019, altura em que também se celebram os 20 anos da criação da RAEM. No passado, o líder da comunidade de Fujian em Macau tinha sido apontado como um forte candidato, mas sempre recusou a possibilidade. No pólo oposto está o presidente da Assembleia Legislativa, Ho Iat Seng. Se há uns meses atrás Ho recusava a hipótese, agora diz que não sabe se vai concorrer.
João Santos Filipe
joaof@hojemacau.com.mo
política 5
quinta-feira 15.3.2018
PARTOS ALEXIS TAM OUVE HOJE REPRESENTANTES DOS TRABALHADORES NÃO RESIDENTES
CCPCC Edmund Ho reeleito vice-presidente
O primeiro Chefe do Executivo da RAEM foi ontem reeleito para o cargo de vice-presidente do Comité Permanente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), em Pequim. Também os empresários de Macau Ma Iao Lai, Hoi Kin Hong, Leong Wa e Liu Chak Wan foram igualmente escolhidos, em Pequim, para também se sentarem no Comité Permanente. O CCPPCC foi criado em 1945, ainda antes da criação da República Popular da China e é um órgão com um carácter consultivo que não implica que os membros tenham de ser membros do Partido Comunista Chinês.
SUBSÍDIOS ZHENG ANTING DEFENDE ISENÇÃO PARA INCUMPRIDORES
Ouvir direito linhas tortas O Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura vai reunir-se hoje com representantes dos trabalhadores não residentes para ouvir o que pensam sobre a proposta de aumento dos preços dos partos no hospital público
A
LEXIS Tam vai fazer hoje o que não fizeram os Serviços de Saúde antes de apresentarem a proposta de aumento dos preços dos partos: ouvir representantes dos trabalhadores não residentes, um dos grupos penalizados pelo recém-proposto ajustamento. Duas associações – uma de migrantes filipinos e outra de indonésios – vão ser recebidas hoje, em encontros separados,
para falarem da proposta que carece ainda de ser aprovada pela tutela. Segundo revelou a secretaria dos Assuntos Sociais e Cultura ao HM, Alexis Tam vai receber na sede do Governo a Indonesian Migrant Workers Union e a Greens Philippines Migrant Workers Union. Contactados pelo HM, ambos os grupos afirmaram que pretendem primeiro ouvir o que tem o Governo a dizer. Benedita
Palcon, dirigente da Greens Philippines Migrant Workers Union, espera uma postura de abertura. “Espero que sim [que reconsiderem]. Estamos contra o aumento, porque é muito elevado, sobretudo atendendo aos baixos salários dos trabalhadores não residentes. Talvez possa, pelo menos, ser menor”, afirmou. O encontro do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura com as duas associações foi
O
deputado Zheng Anting quer que o Governo isente e impeça as empresas incumpridoras de serem obrigadas a devolver os subsídios recebidos no âmbito do Plano de Apoio Financeiro à Aquisição de Produtos e Equipamentos para a Protecção Ambiental e a Conservação Energética. Segundo o deputado de Jiangmen várias Pequenas e Médias Empresas (PMEs) locais receberam subsídios para comprarem lâmpadas de baixo consumo. No entanto, não houve instruções sobre o que fazer no caso das lâmpadas se fundirem e esta foram atiradas para o lixo. Por isso, quando a Direcção dos Serviços e Protecção Ambiental fez inspecções às empresas não encontrou as lâmpadas instaladas e exigiu a devolução dos subsídios. Zheng Anting veio agora dizer que a situação é “injusta” e, numa interpelação escrita, defende que as empresas não devem ser obrigadas a devolver os subsídios, caso se comprometam a comprar lâmpadas novas desse género. O deputado diz também que houve muitas empresas que estão falidas, mas que mesmo assim o Executivo lhes exige a devolução do subsídio. Neste caso, Zheng diz que estas empresas falidas deviam ser perdoadas ou ter, pelo menos, uma redução das dívidas. Finalmente, Zheng critica o plano por ter definido vidas úteis dos equipamentos demasiado longas, que não se adequam à realidade.
prometido, na semana passada, por Alexis Tam que lamentou o facto de os Serviços de Saúde não terem consultado previamente os trabalhadores não residentes, dado que apenas foram auscultadas duas organizações tradicionais (os Kaifong e a Associação das Mulheres), que não representam as trabalhadoras migrantes. Embora tenha sublinhado que “é preciso ponderar o interesse das trabalhadoras não residentes”, atendendo nomeadamente ao “grande contributo” para “o desenvolvimento de Macau”, Alexis Tam defendeu a necessidade de actualizar o valor das taxas de partos, dado que vigora há mais de duas décadas. Os Serviços de Saúde pretendem aumentar em nove vezes as taxas moderadoras a pagar pelas grávidas portadoras de ‘blue card’. Actualmente, uma trabalhadora não residente paga 957 patacas para ter o seu filho no Centro Hospitalar Conde de São Januário mas, se Alexis Tam aprovar a proposta, terá que desembolsar 8.755 patacas por um parto normal. Já caso necessite de uma cesariana, o valor sofre um aumento das actuais 3.900 para 17.550 patacas. Mais sorte têm as mulheres casadas com residentes, que ficam isentas do pagamento de taxas, à semelhança do que sucede com as portadoras de Bilhete de Identidade de Macau (BIR), que têm o direito a ter os seus filhos gratuitamente no hospital público. Dados facultados pelos Serviços de Saúde, indicam que, entre 2015 e 2017, houve uma média anual de 3.371 partos no hospital público, dos quais apenas oito por cento (ou 269) respeitantes a trabalhadoras não residentes.
Greens Philippines Migrant Workers Union “Estamos contra o aumento, porque é muito elevado, sobretudo atendendo aos baixos salários dos trabalhadores não residentes. Talvez possa, pelo menos, ser menor”
Diana do Mar
info@hojemacau.com.mo
TURISMO INICIADO PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE PROFISSIONAIS DOS PALOP
O
website Macauhub noticiou ontem que teve início, esta segunda-feira, um programa de formação destinado a funcionários governamentais de turismo de Países de Língua Portuguesa. Esta iniciativa conta com organização da Direcção dos Serviços de Turismo (DST) em cooperação com o Fórum Macau, de acordo
com informação oficial. A DST informou ainda que entre Março e Julho serão organizadas três sessões de estágios, com a duração de duas semanas cada, envolvendo um total de cerca de 30 funcionários governamentais de turismo de países de língua portuguesa. O primeiro grupo, que inclui participantes de An-
gola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, iniciou segunda-feira as actividades programadas para este ano, sendo que um segundo grupo deverá chegar a Macau em Maio próximo e um terceiro em Julho. O programa de estágio visa inteirar os formandos sobre a actividade diária da DST e o
desenvolvimento turístico de Macau, pretendendo a DST reforçar a aprendizagem mútua e o intercâmbio na área do turismo entre Macau e os países de língua portuguesa. Visa ainda contribuir para a formação e desenvolvimento dos recursos humanos do sector dos países envolvidos, em sintonia com o objectivo de transformar Macau num
centro mundial de turismo e lazer e numa plataforma de serviços para a cooperação comercial entre a China e os países de língua portuguesa. A DST assinou memorandos de entendimento para a cooperação em matéria de turismo com Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique, em 2010, com Timor-Leste em 2013 e com Angola em 2015.
6 política
15.3.2018 quinta-feira
Estão para ficar GONÇALO LOBO PINHEIRO
Éric Sautedé acredita que limitações do governo vão manter jovens ligados à política
O
académico Éric Sautedé não acredita que os mais novos virem às costas à política, mesmo que sintam que os candidatos em que votam para a Assembleia Legislativa não são tolerados pelo sistema de Macau. As afirmações foram feitas ao HM, ainda antes de ser conhecida a segunda investigação contra Sulu Sou, deputado que está suspenso devido a uma acusação da prática do crime de desobediência qualificada. Caso seja considerado culpado e punido com uma pena de 30 dias PUB
de prisão, o deputado pode mesmo ser expulso da AL pelos outros legisladores. “Não, acredito que aconteceria o contrário. O meu entendimento é que a geração mais nova de Macau está a ficar cada vez mais exigente, o que está relacionado com a subida do nível da riqueza e da educação, em contraste com as muitas limitações, para não dizer falhas, do Governo e dos seus ‘amigos’ na Assembleia Legislativa”, afirmou Éric Sautedé. “Existe uma descrença muito
clara em relação às capacidades do Governo”, acrescentou.
ACTO NOJENTO
Contudo, e mesmo que o deputado suspenso seja expulso, Éric Sautedé não acredita que haja grandes alterações nos resultados de eventuais eleições intercalares: “Mesmo em relação a Sulu Sou, se ele for expulso da Assembleia Legislativa, o que seria um acto muito nojento e poderia resultar numa reacção muito adversa do eleitorado mais jovem, não acredito que houvesse uma grande mudança no sentido dos votos”, considerou. “Macau é uma espécie de círculo eleitoral muito grande em que as forças Pró-Pequim já têm uma maioria muito confortável. Em 2017 os Democratas tiveram 32 por cento dos votos, incluindo as três listas próximas da Novo Macau, mais Agnes Lam e José Pereira Coutinho. Por isso, para que pudesse haver um resultado diferente, com uma vitória democrata, o campo pró-Pequim teria de estar altamente divido com dois ou três deputados”, justificou. Ao mesmo tempo, o também analista político defendeu que as eleições locais são ainda definidas pelo conluio de interesses: “Apolítica em Macau continua a ser muito mais definida pela relação entre patronos e clientes do que pela racionalidade...”, apontou. J.S.F.
SEGURANÇA COUTINHO PEDE CONSTRUÇÃO DE ARMAZÉM PARA SUBSTÂNCIAS PERIGOSAS
P
EREIRA Coutinho interpelou o Executivo a pedir explicações sobre o armazenamento de gases industriais perigosos. O deputado eleito pela via directa perguntou ao Governo sobre a calendarização da construção do depósito e armazéns para substâncias perigosas. Na passada segunda-feira, o Chefe do Executivo mandou publicar no Boletim Oficial um despacho para a regulamentar a importação, exportação e trânsito de substâncias perigosas, bem como o controlo e coordenação operacional no local de um incidente que envolva este tipo de substâncias. Para o efeito, Pereira Coutinho recorda que o Governo concedeu dois terrenos em Coloane, localizados na Avenida Marginal Flor de Lótus e na Estrada do Dique Oeste, com o objectivo de construir, provisoriamente, um depósito e armazéns para substâncias perigosas. A ideia é ter infraestruturas que possam fazer a gestão deste tipo de
matérias concentrando-as numa área específica fechada. O deputado revela que recebeu queixas de uma associação de gases industriais que disse que o Governo não procedeu aos trabalhos adequados para garantir a segurança da população, nomeadamente a construção de armazéns e depósito. Coutinho argumenta que é necessário atender à densidade populacional e ao contínuo aumento do volume de fracções habitacionais e minorar os riscos que uma explosão representa para uma cidade tão densamente povoada. Outro dos esclarecimentos pedidos por Pereira Coutinho prende-se com a definição de quais as entidades competentes para lidar com os gases perigosos. De acordo com a interpelação do deputado, nem o Corpo de Bombeiros, nem a Comissão de Segurança dos Combustíveis manifestaram ter as competências de jurisdição e executivas para tratar desta matéria. J.L.
sociedade 7
quinta-feira 15.3.2018
As voluntárias do projecto “Dress a girl around the world – Macau” foram à zona Mae Ai, no norte da Tailândia, entregar roupas e material escolar a tribos de refugiados, oriundos do Myanmar e China, que vivem sem documentos e numa situação de escravatura. Ana Cristina Vilas não esquece a enorme pobreza que viu
V
AGUEIAM por ali, com roupas velhas e chinelos nos pés. Não têm documentos que os identifique, não sabem a sua idade, e os pais, devido ao facto de não terem cidadania, vivem numa condição de quase escravatura, trabalhando a terra dos outros e vivendo daquilo que ela dá. Os vegetais são a base da sua alimentação. Esta é a vida das tribos que habitam na zona de Mae Ai, localizada entre Chiang Mai e Chiang Rai, no norte da Tailândia, composta por pessoas que saíram do Myanmar e China e que ali encontraram uma espécie de refúgio, sem possibilidade de fuga. Foi por estas crianças refugiadas que o grupo de voluntárias do projecto “Dress a girl around the world – Macau” se deslocaram à Tailândia. O objectivo foi levar vestidos, calções e material escolar a quem não tem quase nada. A acompanhá-las esteve Eliza Vilaça, da Casa de Portugal em Macau (CPM), que levou o teatro de marionetas a estas tribos. Ana Cristina Vilas, mentora do projecto “Dress a girl around the world – Macau”, voltou da Tailândia no domingo e as emoções ainda estão à flor da pele. Registou os rostos de cada criança perante os presentes dados, o primeiro contacto com um mundo de brincar que provavelmente não mais voltarão a ver. Tudo começou com os primeiros contactos com os missionários do projecto Tree of Life, que está presente na Tailândia, Cambodja e Laos. “Toda a gente me perguntava ‘Tailândia? Mas porquê? Há
TAILÂNDIA VOLUNTÁRIAS DE MACAU VESTIRAM CRIANÇAS REFUGIADAS
Filhos de ninguém lá pobres?’. É difícil explicar, não há palavras, não há fotografias, não há nada que explique o que vimos e sentimos ali. A Tailândia não é só praias, compras, tem outra parte, e há tanta prostituição por algum motivo. Fomos encontrar uma pobreza total, de pessoas, de crianças sem documentos, que atravessam as montanhas, que vivem de um lado do rio da vila Mae Ai, e vivem no máximo da pobreza”, contou ao HM.
QUATRO ALDEIAS, DOIS DIAS
Nos dois dias em que o grupo esteve no terreno foram feitas visitas a quatro aldeias. Na primeira mora a tribo La Hu, composta por pessoas que saíram da China e que atravessaram o Myanmar. “São pessoas muito fechadas, que não permitem que toquemos nelas. Havia uma senhora, sentada no meio, com a expressão muito fechada, e eu dizia que era a matriarca. As crianças eram de difícil acesso quando chegamos.” Com a apresentação do teatro de marionetas, tudo mudou. “Aí co-
meçamos a ver uns sorrisos e umas gargalhas e conseguimos quebrar a barreira da comunicação.” Seguiu-se a segunda aldeia, que serve de abrigo à tribo Palaung, oriunda do Myanmar, que tem seis mil pessoas a viver na Tailândia e 600 mil em todo o mundo. Na terceira tribo, que Ana Cristina Vilas descreve como sendo a mais pobre de todas, residem pessoas das tribos Chane e La Hu, também do Myanmar. Na quarta aldeia as voluntárias já encontraram uma ou outra casa, uma antena parabólica, telemóveis. São pessoas que pertencem à divisão da tribo Chan, que passou a chamar-se Thai Luuh.
“É difícil explicar, não há palavras, não há fotografias, não há nada que explique o que vimos e sentimos ali.” ANA CRISTINA VILAS VOLUNTÁRIA
Quem chega a este local dificilmente consegue sair, pois a escola acaba por volta do sexto ano. Não há posses para mais e a nova escola fica a quase uma hora de caminho. Ana Cristina Vilas descreve que não só as autoridades tailandesas nada fazem para dar cidadania a estas pessoas como as perseguem. “Sabemos que nestas aldeias os pais, quando há rusgas da polícia, pelo facto de não terem documentos, fogem para as florestas e as crianças ficam sozinhas nas aldeias, e são os mais crescidos que tomam conta dos mais novos. Às vezes são roubados, as raparigas são vendidas para prostituição e os rapazes para trabalhos escravos, desde pequenos. Não conhecia essa realidade e não estávamos à espera.” Ana Cristina Vilas conta o caso de um menino cuja origem todos desconhecem, incluindo os missionários do projecto Tree of Life. Os pais fugiram às autoridades e ele ficou numa das aldeias, sem lugar onde dormir, completamente sozinho. As crianças não sabem
que idade têm mas, ainda assim, foi fácil deixar uma peça de roupa para cada um. “Levamos também umas bonecas e uns carrinhos. Parte do coração ainda está lá e é difícil. Não podemos salvar o mundo, mas durante o tempo em lá tivemos, cerca de uma hora em cada aldeia, pelos menos levamos alguma coisa”, adiantou Ana Cristina Vilas, visivelmente emocionada. O grupo Tree of Life tem representações no Cambodja e no Laos e, para este ano, já está a ser pensada outra viagem do género. “Sei que o Laos é considerado o sítio mais difícil para entrar, a todos os níveis. O facto de eles [Tree of Life] quererem evangelizar parte da população, os que estão dispostos a isso, torna as coisas mais difíceis. Talvez o próximo destino será o Myanmar ou o Cambodja.” “Dress a girl around the world – Macau” existe em vários lugares do mundo, e no território celebra um ano de existência no próximo dia 4 de Abril. Nas instalações da CPM já foram costurados 280 vestidos e 110 calções. Em Junho está prevista uma nova campanha para recolha de materiais que vão vestir crianças pobres desta zona do mundo. Andreia Sofia Silva
andreia.silva@hojemacau.com.mo
8 sociedade
15.3.2018 quinta-feira
COMÉRCIO AUMENTA PROCURA NO SECTOR A RETALHO AUMENTA
Em busca de pessoas Há mais vagas por preencher no comércio a retalho, sinalizando um aumento da procura por recursos humanos num sector que paga, em média, 14.200 patacas
O
O
comércio a retalho tinha 2.781 vagas por preencher no final do ano passado, mais 319 em termos anuais homólogos, indicam dados divulgados pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC). No topo da lista de pré-requisitos figuram os conhecimentos linguísticos, em particular o domínio do mandarim (73,6 por cento dos postos vagos) e a experiência profissional (59,2 por cento). Em Dezembro, o retalho empregava 37.050 trabalhadores (mais 2,2 por cento), representando quase dois terços do total de mão-de-obra ao serviço do comércio. A remuneração média correspondia a 14.200 patacas, sendo que, à luz dos dados de Dezembro, os residentes ganhavam mais 4.830 patacas do que os portadores do chamado ‘blue card’. Já o sector dos transportes, armazenagem e comunicações empregava 11.360 trabalhadores – mais 1,6 por cento em termos anuais homólogos. Por preencher estavam 650 vagas (menos 84),
exigindo-se em metade habilitações inferiores ou iguais ao ensino secundário geral, com apenas duas em cada dez vagas a requerem ensino superior. A experiência profissional era o segundo critério mais valorizado na hora do recrutamento. A remuneração média correspondia a 21.470 patacas, mas no caso concreto dos condutores de veículos de passageiros ou de mercadorias dos transportes terrestres era 5.000 patacas mais elevada, de acordo com a DSEC. Num comentário aos dados, Lei Kit
Meng, da Associação dos Motoristas, defendeu que o sector tem visto menos desemprego, considerando que Macau conta actualmente com profissionais do volante suficientes atendendo à dimensão da cidade. Nas actividades de segurança laboravam 10.862 pessoas – mais 2,4 por cento face ao período homólogo de 2016. Ao contrário do comércio e dos transportes, a remuneração média diminuiu (2,1 por cento) para 13.250 patacas, sendo que os guardas em específico ganhavam, em média, 11.420 patacas. No total, existiam 1.023 vagas.
No tratamento de resíduos sólidos e líquidos públicos trabalhavam 862 pessoas, estando apenas disponíveis 41 vagas. A remuneração média era de 18.130 patacas, valor que traduz um aumento anual homólogo de 2,3 por cento. Segundo a DSEC, no quarto trimestre do ano passado, 28.812 pessoas dos quatro ramos de actividade económica frequentaram um total de 1.100 cursos. Mais de 60 por cento dos formandos frequentaram cursos pagos pelos empregadores.
ELEVADORES DA RUA FERREIRA DO AMARAL VÃO FUNCIONAR
S
EGUNDO comunicado da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transporte (DSSOPT), os elevadores da passagem superior para peões da Rua de Ferreira do Amaral entram em funcionamento no início de Maio Os serviços adiantam que a empreitada de melhoramento das instalações da passagem superior para
IDOSOS SERVIÇOS MÉDICOS EM LARES À EXPERIÊNCIA A PARTIR DESTE MÊS
peões na Rua de Ferreira do Amaral foi concluída, conforme previsto, no início do mês passado. No entanto, durante a vistoria a DSSOPT verificou defeitos de qualidade na execução da obra, tendo exigido ao empreiteiro o cumprimento das exigências estipuladas. A empreitada teve início a 7 de Fevereiro
do ano passado, com um prazo de execução de 300 dias para reformular as escadas existentes na passagem superior para peões, instalar elevadores nos dois lados da passagem superior e optimizar os arruamentos envolventes. Inicialmente, a data de conclusão prevista no contrato da empreitada era 27 de Janeiro deste
ano, mas a DSSOPT aprovou a prorrogação até ao dia 21 de Fevereiro devido à ocorrência de chuvas no decorrer da execução da obra. Posteriormente, concluída a empreitada no início de Fevereiro, o empreiteiro solicitou a vistoria. Durante a vistoria, a DSSOPT verificou defeitos nos acabamentos da passagem superior,
exigindo assim ao empreiteiro a realização de trabalhos rectificativos. Presentemente, o empreiteiro está a realizar os respectivos trabalhos e comprometeu-se a concluí-los até ao final de Abril. Segundo a estimativa, os elevadores poderão entrar em funcionamento no início de Maio após teste e vistoria.
S Serviços de Saúde e o Instituto de Acção Social vão lançar, este mês, um projecto piloto que prevê a introdução de serviços médicos em lares de idosos. Para a primeira fase do projecto foi escolhido o Complexo de Serviços de Apoio ao Cidadão Sénior “Pou Tai”. Ao abrigo do programa vão ser facultados cuidados a idosos que tenham sido atendidos nas Urgências ou tenham estado internados no Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ) em especialidades como Geriatria, Medicina Interna, Psiquiatria, Urgências e Medicina Física. No ano passado, aproximadamente 200 idosos recorreram ao serviço de urgência, enquanto 100 foram internados, afirmou ontem o chefe do serviço de Geriatria do CHCSJ, Lo Iek Long, em declarações à Rádio Macau à margem do programa Fórum Macau da Ou Mun Tin Toi. Após a fase piloto, os Serviços de Saúde e o Instituto de Acção Social vão avaliar a eficácia do programa, sendo o objectivo alargá-lo, de forma gradual, aos 11 lares financiados pelo Governo. “Depois de obter essa experiência é que nós podemos prever o futuro. Temos de prever de acordo com a prática, de acordo com a eficácia e também o investimento recursos”, afirmou. Segundo o mesmo responsável, existe uma equipa de quatro profissionais (dois enfermeiros e dois médicos) dedicadas em exclusivo a este serviço. Um eventual aumento dos recursos humanos, referiu, vai depender desta experiência.
MIECF Christiana Figueres é oradora principal este ano
A vice-presidente da “Global Covenant of Mayors for Climate and Energy” e exsecretária executiva Convenção Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, Christiana Figueres, vai ser a oradora principal da próxima edição do Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau 2018 (MIECF, na sigla inglesa), que decorre entre os dias 12 e 14 de Abril. Christiana Figueres “vai partilhar a sua visão sobre as linhas orientadoras da protecção ambiental e desenvolvimento sustentável a nível mundial, assim como abordar as principais tendências globais de desenvolvimento das cidades ecológicas e da Economia Verde”. O tema este ano da MIECF é “Construir Cidades Sustentáveis para uma Economia Verde Inclusiva”.
sociedade 9
TIAGO ALCÂNTARA
quinta-feira 15.3.2018
O
S juízes do Tribunal Judicial de Bases deram como provado que a operadora Wynn Macau transmitiu os dados pessoais de Rogelio Yusi Bangsil Jr sem autorização do visado e num acto que violou a Lei de Protecção de Dados Pessoais. Em causa está o diferendo em que o ex-regulador filipino exige uma compensação de 10 milhões de patacas à operadora devido a danos causados pela transmissão dos dados para a elaboração de um relatório sobre práticas suspeitas.
Ilegalidade provada Tribunal considera que Wynn Macau transmitiu dados de forma ilegal
A decisão não implica que Rogelio Bangsil Jr vai ter de ser compensado, apenas se relaciona com a matéria de facto provado. Agora, os deputados vão ter um prazo de 20 dias para se pronunciarem sobre os factos e só depois haverá uma decisão final. “O tribunal deu como provado que a Wynn Macau transferiu os dados pessoais
do senhor Bangsil contra a vontade dele, sem que tivesse havido uma autorização e em violação da Lei de Protecção de Dados Pessoais. A Wynn Macau foi inclusivamente punida pelo Gabinete de Protecção de Dados Pessoais por essa mesma infracção”, afirmou José Leitão, advogado do Rogelio Bangsil Jr, ao HM. “Não é a decisão final, mas
é uma decisão que, pelo menos neste aspecto, confirma o que sempre foi a nossa posição”, acrescentou.
DEFESA “NÃO ESTÁ INSATISFEITA”
Por sua vez, Rui Simões, advogado que representa a operadora, escusou-se a fazer comentários, mas recusou estar insatisfeito com a decisão: “Não comento,
por questões deontológicas, processos que se encontram a decorrer”, afirmou, ao HM. “Mas não estou insatisfeito com a decisão”, reconheceu. Os juízes confirmaram a versão do Gabinete de Protecção de Dados Pessoais, que logo em Março de 2012 tinha multado a operadora Wynn Macau em 20 mil patacas, por duas violações à Lei de Protecção de Dados Pessoais. No processo que agora decorre nos tribunais, Rogelio Yusi Bangsil Jr exige uma indemnização de 10 milhões
de patacas à concessionária Wynn por danos materiais e não-materiais. Em causa está um relatório publicado em 2012 nos Estados Unidos, em que consta que um dos accionistas da Wynn na altura, Kazuo Okada, teria feito ofertas suspeitas a reguladores filipinos. Entre os nomeados está Bangsil, assim como a esposa e a filha. O queixoso diz que o documento forçou a sua saída da Pagcor, regulador do jogo das Filipinas. J.S.F.
PUB
DIRECÇÃO DOS SERVIÇOS DE FINANÇAS EDITAL Contribuição Predial Urbana RECLAMAÇÕES
ANÚNCIO [N.º 32/2018]
Faz-se saber, face ao disposto no artigo 71.º do Regulamento da Contribuição Predial Urbana, aprovado pela Lei n.º 19/78/M, de 12 de Agosto, com nova redacção dada pelo Decreto-Lei n.º 19/87/M, de 13 de Abril, que, durante o período de 1 a 31 de Março do corrente ano, as matrizes prediais vão ser postas a reclamação dos contribuintes, podendo estes reclamar contra o rendimento colectável fixado para o exercício de 2017. O respectivo impresso é fornecido por estes Serviços, no Edifício “Finanças”, no Centro de Serviços da RAEM e no Centro de Atendimento Taipa, ou ser descarregado através do endereço electrónico www.dsf.gov.mo, podendo, ainda, o pedido de reclamação acima referido ser apresentado através do endereço electrónico desta Direcção dos Serviços.
Para os devidos efeitos, nos termos do n.º 2 do artigo 72.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 57/99/M, de 11 de Outubro, são por este meio notificados os candidatos a habitação económica abaixo indicados:
Aos, 5 de Fevereiro de 2018.
Dado que os candidatos acima indicados foram seleccionados da lista de ordenação, nos termos do artigo 26.º da Lei n.º 10/2011 (Lei da habitação económica), alterada pela Lei n.º 11/2015, é necessário realizar-se a apreciação substancial, pelo que este Instituto informou os referidos candidatos, através de ofícios, para se dirigirem pessoalmente ao Instituto de Habitação (IH) à hora fixada nos mesmos, para apresentarem os originais dos documentos comprovativos, no sentido de se efectuar a verificação das informações declaradas no boletim de candidatura; porém, os ofícios não foram recebidos, tendo sido devolvidos. Assim, os candidatos acima indicados devem dirigir-se pessoalmente ao IH (junto da Escola Primária Luso-Chinesa do Bairro Norte), sito na Travessa Norte do Patane, n.º 102, Ilha Verde, Macau, antes do dia 28 de Março de 2018, para apresentarem os originais dos documentos comprovativos, no sentido de se efectuar a verificação das informações declaradas no boletim de candidatura, sendo, em caso contrário, suspenso o procedimento de selecção durante 3 meses após a data acima mencionada; caso apresentem os documentos comprovativos necessários durante o período de suspensão, o respectivo procedimento será reiniciado por este Instituto; caso não os apresentem durante este prazo, os adquirentes seleccionados serão excluídos do concurso por este Instituto. Nos termos da alínea 2) do n.º 1 do artigo 28.º da lei acima indicada, caso os candidatos não apresentem os documentos indicados, dentro do prazo fixado, os adquirentes seleccionados serão excluídos do concurso. Para mais informações poderão dirigir-se pessoalmente ao IH, nas horas de expediente ou contactar através do telefone n.º 2859 4875.
O Director dos Serviços, Iong Kong Leong
Assine-o
TELEFONE 28752401 | FAX 28752405 E-MAIL info@hojemacau.com.mo
www.hojemacau.com.mo
Nome IONG WENG IAN LEONG CHON I
N.º do boletim de candidatura 82201303586 82201331385
Instituto de Habitação, aos 12 de Março de 2018. O Presidente, Arnaldo Santos
10 publicidade
15.3.2018 quinta-feira
eventos 11
quinta-feira 15.3.2018
Gerações em imagens
FOTOGRAFIA WEBSITE 1884.COM TRANSFORMADO EM GALERIA “Passado é o Futuro” (Past is Future)” é o nome da exposição que marca o arranque da Galeria 1884, ÃO imagens de mo- é inaugurada a Galeria 1884, que até agora mentos que estão na com a exposição “Passado é memória de muitos Futuro (Past is Future)”, uma funcionava mas que os mais ideia de Ben Ieong Man Pan, jovens já não conhe- director artístico, Yoyo Wong, apenas como cem. Do tempo em coordenadora de curadorias um website de que os riquexós serviam de de exposições e Kim Chan, transporte de moradores e não director de operações. fotografias. Ben apenas de turistas, do tempo Ao HM, Yoyo Wong falou em que nas Portas do Cerco dos objectivos primordiais Ieong Man Pan, havia multidões e em que deste projecto diferente, que director artístico, não as zonas antigas do território visa fazer com o que o passaestavam cheias de bicicletas do perdure no tempo. “Tudo aposta tudo na no fervilhar da cidade. começou quando o Ben [Ieong Há muito que as fotogra- Man Pan] teve a ideia de reunir primeira galeria fias disponíveis para venda no fotografias antigas de Macau. exclusivamente website 1884.com mostravam Ele começou por colaborar uma outra Macau, mas agora com o website 1884.com e dedicada podem ser observadas de per- também tem vindo a fazer o to na primeira galeria exclusi- trabalho administrativo com o à fotografia vamente dedicada ao mundo seu colega Kim Chan. Foram no território da fotografia em Macau. Hoje eles que desenvolveram o este é um marco histórico
S
Photo Macau Fair A primeira vez de Marina A primeira edição da Photo Macau Fair, idealizada pela artista Cecília Ho, promete trazer não apenas os melhores trabalhos de fotografia artística mas também revelar a obra de artistas internacionais que nunca viram o seu trabalho exposto no território. Um dos nomes mais sonantes da Photo Macau Fair, que acontece no Venetian entre os dias 24 e 26 de Março, é o de Marina Abramovic, uma artista conhecida pelas suas polémicas performances que esteve recentemente em Hong Kong. A colecção de vídeos de Mike Steiner, um dos percursores do movimento minimalista na Europa, nos anos 60, realizados em conjunto com Marina Abramovic, fazem parte do programa da exposição, que foi apresentado esta terça-feira. De acordo com um comunicado, tratam-se de “vídeos raros e icónicos” feitos na década de 70 que pouca ou nenhuma exposição pública tiveram. Na área da fotografia, a Photo Macau Fair vai destacar o trabalho de um dos primeiros fotógrafos de moda, Horst P. Horst, alemão que durante décadas trabalhou para a revista Vogue e que faleceu em 1999. Na exposição serão reveladas mais de 60 fotografias que mostram a diversidade do mundo da moda e das modelos da época, sem esquecer várias figuras do meio e da alta sociedade, como a estilista Coco Chanel. Ao longo da sua vida, Horst P. Horst fotografou nomes como Andy Warhol, Yves Saint Laurent, Salvador Dali ou Jacqueline Kennedy Onassis.
A cultura chinesa terá também destaque com a instalação de video intitulada “Corpo de Confúcio (Instalação 4), de Jeffrey Shaw, Peng Lin, Chang Tsong-Zung, Sarah Kenderdine. “Este projecto usa a última tecnologia digital para reeditar a ‘cerimónia de abertura, o ritual de etiqueta e o uso de vasos cerimoniais’ do Livro de Li (Etiqueta e Rituais) através de uma aplicação interactiva e três vídeos de de Paul Nichola, da Universidade Cidade de Hong Kong”. Este trabalho foi iniciado, pesquisado e produzido por Jia Li Hall da Universidade Tsinghua. Segundo a organização da Photo Macau Fair, este trabalho multimedia “reflecte as mudanças que afectaram a sociedade moderna chinesa bem como o papel da arte enquanto linguagem comum com vista à promoção da harmonia”. Durante a apresentação do programa oficial do evento, Cecília Ho revelou estar satisfeita por voltar à terra que a viu nascer e por conseguir trazer algo novo às suas comunidades. “Estou muito feliz depois de 35 anos de ter deixado Macau. Tive a oportunidade de voltar e quis fazer algo no lugar onde nasci. A única coisa que sei fazer é arte, porque sou artista. A ideia de fazer esta exposição é porque a Ásia e a zona da Grande Baia estão a desenvolver-se. A China é onde existem os maiores compradores de arte, e o mundo da arte inclui fotografia, escultura”, apontou. A.S.S./J.L.
website e já tinham reunido mais de 500 registos fotográficos de Macau e também de outros lugares, de mais de 30 fotógrafos que fazem parte das primeiras gerações de profissionais.” O ano de 1884 dá nome aos dois projectos por ter sido a data em que a fotografia chegou ao Oriente, tendo Macau como porta de entrada. A escolha acabou por ser consensual e óbvia. “Este foi o primeiro lugar a receber a fotografia vinda do Ocidente para o Oriente, então PUB
muito importante para Macau. Foi uma porta e explica como a fotografia se espalhou no Oriente através do território. Queremos enfatizar este ponto e trazer a história, é muito significativo e tem um grande simbolismo para nós, e também para os fotógrafos. Foi por isso que decidimos atribuir esta data ao nome do website e da galeria.” Segundo explicou Yoyo Wong, o extenso trabalho de recolha teve como objectivo mostrar imagens que continuavam guardadas em
gavetas. “Queremos que este espaço físico promova estes recursos e as fotografias que restaram das primeiras gerações de fotógrafos. A maior parte deles mantém colecções incríveis de imagens que nunca foram mostradas ao público. Então tivemos a ideia de promover o seu trabalho num espaço online e físico também.”
APOSTA DOCUMENTAL
A exposição “Past is Future” vai começar por ser uma mostra generalizada do trabalho de cada um dos fotógrafos que se
uniu a este projecto online, mas a ideia é fazer depois exposições mais focadas no trabalho que cada um deles desenvolveu ou tem vindo a desenvolver. “Esta exposição vai dar uma visão geral da sua obra. Alguns dos autores que temos no website nunca mostraram o seu trabalho ao público, e nos próximos meses vamos apostar nesse ponto”, adiantou Yoyo Wong. Ben Ieong Man Pan explicou ao HM que o objectivo não passa por mostrar apenas fotografias de época. “Queremos ser uma plataforma para mostrar o trabalho destes fotógrafos.Além disso, a galeria não visa apenas mostrar imagens contemporâneas, mas também fotografia documental.” Além disso, o território não será o único foco neste projecto. “Temos algumas colaborações com galerias na Ásia, então vamos mostrar fotografias de Macau e da Ásia também. Esta é a primeira galeria de fotografia em Macau mas não queremos que o nosso público seja apenas composto pelos locais, mas também por pessoas de fora”, frisou o director artístico da Galeria 1884. Andreia Sofia Silva
andreia.silva@hojemacau.com.mo
12 china
15.3.2018 quinta-feira
REFORMA INSTITUCIONAL DO ESTADO É “REVOLUCIONÁRIA”
Partido com paredes de vidro
A
decisão e o plano do Comité Central do Partido Comunista da China (PCC) sobre o aprofundamento da reforma das instituições do Partido e do Estado são revolucionários, escreveu um funcionário económico e financeiro de alto escalão da China num artigo publicado nesta terça-feira no Diário do Povo. “A reforma é revolucionária ao integrar os existentes interesses constituídos e remodelar novos padrões de interesse”, disse Liu He, membro do Gabinete Político do Comité Central do Partido Comunista da China e director do Gabinete Geral do Grupo Dirigente Central para Assuntos Financeiros e Económicos. A decisão e o plano foram revistos e adoptados na 3ª sessão plenária do 19º Comité Central do PCC, segundo um comunicado emitido após a conclusão da sessão no fim do mês passado. Face aos novos requisitos para diversas tarefas na nova era, a estrutura e funções actuais das instituições do
Partido e do Estado não são completamente apropriada, no sentido da implementação coordenada do plano integrado das cinco esferas e a estratégia abrangente de quatro pontos, nem para a modernização do sistema e da capacidade de governanção da China, diz o documento. Assim, a China divulgou nesta terça-feira um plano de reestruturação institucional para que o governo esteja mais bem estruturado, mais eficiente e orientado ao serviço. O plano de reforma institucional do Conselho de Estado foi submetido à actual primeira sessão da 13ª Assembleia Popular Nacional para deliberações.
Liu escreveu no artigo que fortalecer a liderança geral do Partido é um assunto chave para aprofundar a reforma das instituições do Partido e do Estado. “O Partido exerce a liderança geral em todo o Partido, governo, exército militar, organizações do povo e órgãos académicos em todas as partes do país”, escreveu. Atarefa primária de aprofundar a reforma das instituições do Partido e do Estado é fortalecer a liderança do PCC em todos os sectores, disse Liu, citando o comunicado. Devem ser feitos esforços para estabelecer e melhorar as instituições e os mecanismos pelos quais o Partido exerce a liderança sobre as principais tarefas, segundo a decisão do Comité Central do PCC. Liu também pediu que os comités do Partido e os governos em todo o país assumam as principais responsabilidades para implementar as tarefas de aprofundar a reforma das instituições do Partido e do Estado, e trabalhem para obter progressos de forma estável, ordenada e efectiva.
ANGOLA FOI O PAÍS AFRICANO QUE MAIS RECEBEU INVESTIMENTO CHINÊS
A
NGOLA foi o país africano que recebeu a maior fatia dos investimentos dos bancos públicos chineses no continente, recebendo quase 9 mil milhões de dólares desde 2000, segundo um estudo feito na Universidade de Boston. De acordo com o Global Development Policy Center, um centro de análise que funciona na universidade, o continente africano é o que mais recebeu, no ano passado, investimentos dos dois bancos de desenvolvimento chineses que funcionam como o braço financeiro da diplomacia da China, tendo sido receptor de 6,8 mil milhões de dólares, cerca de 25% do total de 25,6 mil milhões de dólares. Desde o princípio deste século, África já recebeu quase 35 mil milhões de dólares em investimentos
chineses na área da energia, o que, apesar de ser menos que os 69 mil milhões canalizados para a Europa e Ásia Central, os 62 mil milhões para a América Latina e os 60 mil milhões para a Ásia, mostra bem o interesse chinês neste continente. “A China está a tentar replicar o seu modelo de desenvolvimento em África para mostrar ao mundo que o modelo económico chinês funciona mesmo”, comentou ao Financial Times o analista Yu Jie, da London School of Economics. Os números divulgados pelo estudo da universidade norte-americana seguem-se ao compromisso assumido em 2015 pelo Presidente chinês, Xi Jinping, de canalizar anualmente 60 mil milhões de dólares em investimentos em África para sublinhar o “futuro comum”.
ORGANIZAÇÃO DISTINGUE ACTIVISTAS
A
organização não-governamental Chinese Human Rights Defenders (CHRD) distinguiu ontem as ativistas chinesas Li Xiaoling e Chen Jianfang pelo seu trabalho na promoção dos direitos humanos no país, apesar dos riscos e ameaças que enfrentam. O prémio é designado Cao Shunli, nome da activista que morreu em 14 de Março de 2014 sob custódia da polícia e sem acesso a tratamento médico, após ser detida quando se preparava para viajar até Genebra, para participar em encontros sobre os direitos humanos na China, organizados pelas Nações Unidas. A CHRD destaca Li e Chen pelo seu trabalho na protecção de grupos sociais vulneráveis e promoção da participação da sociedade civil em mecanismos internacionais de direitos humanos. Este reconhecimento inclui um prémio em dinheiro, para apoiar algumas iniciativas lançadas por aquelas activistas e ajudá-las face às represálias impostas pelo Governo. Durante a última década, Chen Jianfang, de 48 anos, converteu-se numa das vozes líderes na defesa dos direitos sobre terrenos e habitação
em Xangai, a “capital” económica da China, onde a apropriação de terrenos e a demolição de casas proliferaram para dar lugar a construções em altura. Segundo a CHRD, o Governo chinês impediu por várias vezes Chen, que trabalhou com Cao Shunli, de viajar para fora do país, para participar em encontros sobre os direitos humanos. “As autoridades tentaram, sem êxito, dissuadir Chen e reprimir a sua defesa, detendo-a em prisões ‘negras’ [instalações que funcionam à margem do sistema judicial]”, denuncia a CHRD. A organização distinguiu ainda Li Xiaoling, que foi detida em 4 de Junho passado por comemorar o 28.º aniversário do massacre de Tiananmen, pelo seu apoio a grupos sociais marginalizados e vítimas de perseguição governamental. Li, de 55 anos, foi detida após a polícia ter apanhado na Internet fotografias da activista com um cartaz que homenageava as vítimas do movimento pró-democracia de Tiananmen, esmagado pelo exército chinês. A CHRD adianta que Li foi submetida a maus-tratos pela polícia e que lhe foi negado tratamento médico.
ANP JORNALISTA REVIRA OS OLHOS E DESAPARECE
O
S gestos de impaciência de uma jornalista chinesa tornaram-se virais nas redes sociais ao quebrarem com a ‘coreografia’ em que normalmente consistem as conferências de imprensa no legislativo chinês, onde as questões servem a propaganda do regime. A situação ocorreu no sábado durante um encontro dos jornalistas com o chefe da comissão de ativos estatais da China, Xiao Yaqing, transmitido em directo pela televisão estatal CCTV, à margem da sessão anual da Assembleia Nacional Popular (ANP), o órgão máximo legislativo do país. Liang Xiangyi, que trabalha para um portal chinês de informação económica, surge a revirar os olhos quando a jornalista atrás de si, Zhang Huijin, do canal de televisão sedeado nos Estados
Unidos American Multimedia Television, que é transmitido em mandarim e tem ligações à CCTV, coloca uma questão. À semelhança de quase todas as questões levantadas durante as conferências de imprensa na ANP, a pergunta de Zhang, sobre os êxitos alcançados pela China desde que há 40 anos adoptou a política de Reforma e Abertura, obedece à propaganda do regime, que selecciona com antecedência as perguntas que podem ser feitas. Zhang Huijin é já conhecida por colocar questões ao serviço da propaganda do regime chinês.
As imagens rapidamente tornaram-se virais nas redes sociais do país e geraram vários ‘memes’ no Wechat, um aplicativo de mensagens instantâneas criado pelo gigante chinês da Internet Tencent. No Weibo, o equivalente ao Twitter na China, um internauta comentou: “Muito bem! Esse revirar de olhos vai da nossa parte!”. “Aplaudo a tua honestidade! Perguntas dessas são irritantes e não têm qualquer significado”, escreveu outro utilizador. Segundo informa o jornal de Hong Kong South China Morning Post, Liang terá já sido punida pelo gesto, tendo-lhe sido retirada a acreditação para cobrir a sessão anual do legislativo. A sua conta no Weibo foi também apagada e uma pesquisa pelo seu nome não dá qualquer resultado, indicando que foi alvo da censura do regime.
china 13
quinta-feira 15.3.2018
TRUMP ESTENDE O AUMENTO DE TARIFAS A PRODUTOS TECNOLÓGICOS E DE COMUNICAÇÃO
Pequim Queda de neve põe fim a 135 dias de seca A queda de neve numa região periférica de Pequim durante a madrugada de ontem pôs fim a 135 dias consecutivos de seca na capital chinesa, o mais longo período de sempre sem chuva ou neve na cidade. Desde 23 de Outubro passado que Pequim não registava precipitação em nenhum dos seus distritos. Trata-se do mais longo período de tempo seco na cidade desde que há registos, quebrando com o recorde de 114 dias sem chuva ou neve ocorrido em 1971. Em 2014, o Governo central inaugurou um rio construído artificialmente durante 11 anos, e com uma extensão de 1.400 quilómetros, visando bombear água do sul para o norte do país. Designado Projecto de Diversão de Água Sul-Norte, aquele canal leva quase dez mil milhões de metros cúbicos de água anualmente para o norte da China e chega a fornecer 70% da água usada em Pequim durante os meses mais secos. A sua construção obrigou à deslocalização de 435 mil pessoas, segundo dados citados pela imprensa local.
Electrónicos sob fogo
O
Presidente norte-americano Donald Trump está a preparar um novo pacote de tarifas de importação com a China como alvo, e com particular foco nos sectores da tecnologia e comunicação, cujas importações estão avaliadas em 60 mil milhões de dólares, noticia a Reuters. De acordo com uma das fontes citadas pela agência noticiosa, o anúncio oficial da decisão deverá acontecer “num futuro muito próximo”. A lista, que visa essencialmente a alta tecnologia e a electrónica de consumo, poderá estender-se a mais de 100 produtos. A medida segue-se a uma investigação a alegadas práticas comerciais abusivas por parte de Pequim, que obriga empresas norte-americanas a abdicarem dos direitos de propriedade intelectual para operarem na China. A investigação tinha sido ordenada por Trump ao seu conselheiro para o comércio, Robert Lighthizer, em Agosto de 2017. De acordo com o jornal Politico, a ordem para a preparação de novas tarifas foi dada por Trump na semana passada, durante uma reunião em Washington com conselheiros e membros da sua Administração. Para já, a Casa
Treinador é devorado vivo por tigre
Um funcionário do jardim zoológico de Fuzhou, identificado como Wu, foi comido vivo por um tigre que havia criado desde que era pequenino. Segundo o Daily Mail , o incidente ocorreu quando o homem estava dentro de uma jaula, junto do felino, para realizar um espectáculo de exercícios e treinos para o público. O caso aconteceu na província de Fujian, na China. Outros funcionários do jardim zoológico tentaram conter o animal, cuja subespécie não foi confirmada, mas não conseguiram evitar a morte de Wu. Finalmente, com uma vara de metal, afastaram o grande felino e chegaram até o corpo do treinador. Técnicas de ressuscitação foram aplicadas, porém ele já estava morto quando os paramédicos chegaram ao local do incidente. O felino foi criado pelo treinador Wu e era considerado um animal domesticado que sempre interagiu com humanos. Não há informações sobre o estado actual do animal.
Branca recusou prestar qualquer declaração à Reuters. Ao Politico, um conselheiro próximo de Trump ressalva que o governo “não comenta reuniões internas”, acrescentando no entanto que “não foram tomadas nenhumas decisões finais a respeito da quantidade [de produtos abrangidos pelo aumento de tarifas] ou da data de aplicação”. Os EUA têm um défice de 375 mil milhões de dólares nas trocas comerciais com a China e Trump disse várias vezes querer reduzir esse valor. O Politico acrescenta ainda que a Admnistração está a ponderar restringir os vistos atribuídos a chineses ou a apertar o controlo à exportação de produtos tecnológicos para uso civil e militar. O anúncio surge após a aprovação de novas taxas alfandegárias sobre o aço e o alumínio, às quais apenas escapam — por agora — Canadá e México. A taxa aduaneira será de 25% para o aço e de 10% para o alumínio. Na passada semana, o principal conselheiro económico de Donald Trump, Gary Cohn, anunciou que iria abandonar o cargo. Em causa estarão divergências sobre a política de comércio defendida pelo Presidente norte-americano. Já esta terça-feira foi a vez de o secretário de Estado, Rex Tillerson, ser despedido por Trump.
INTERNET WECHAT ATINGE MIL MILHÕES DE PERFIS DE USUÁRIOS
O
aplicativo chinês Wechat atingiu em Fevereiro passado mil milhões de perfis de usuários, segundo o presidente do gigante chinês da Internet Tencent, Pony Ma, que concebeu aquele serviço hoje indispensável no dia-a-dia na China. O Wechat, inicialmente lançado como um serviço de mensagens instantâneas, semelhante ao Whatsapp, funciona simultaneamente como rede social e carteira digital. Para chamar um táxi, pagar luz e água, ou comprar bilhetes de avião na China, é possível recorrer apenas àquele aplicativo. Vários hospitais chineses permitem paga-
mentos através da carteira digital do Wechat, enquanto existem já mendigos que aderiram à inovação tecnológica e têm consigo um código QR impresso para transferência directa de doações para as respectivas contas Wechat. Os utilizadores chineses frequentemente referem-se ao Wechat como um serviço público, ilustrando a difusão do aplicativo no dia-a-dia na China. Retalhistas fora do país estão também a despertar para a utilidade daquele aplicativo - o centro para pequenas e médias empresas da União Europeia lançou recentemente um
serviço para ajudar os empresários a abrirem lojas ‘online’no Wechat. Pony Ma anunciou aqueles dados durante a abertura da sessão anual da Assembleia Nacional Popular, o órgão máximo legislativo da China, no qual é delegado. Apesar de Ma ter referido “usuários”, um porta-voz da Tencent clarificou mais tarde que se tratam de perfis de usuários, sendo que um só individuo pode ter várias contas no aplicativo. A China censura redes sociais como o Facebook, Twitter e Instagram, ou o serviço de mensagens instantâneas Whatsapp, o que garan-
te o quase monopólio do mercado chinês ao Wechat. No ano passado, o número de chineses ligados à internet ultrapassou os 770 milhões, segundo o China Internet Network Information Center (CNNIC). A China é a nação mais populosa do mundo, com cerca de 1.400 milhões de habitantes. Pelas contas do Governo chinês, o montante gasto em pagamentos móveis, nos primeiros dez meses de 2017, superou o conjunto de 2016, fixando-se em 12,77 biliões de dólares. Outra importante carteira digital na China é oAlipay, do grupo chinês de comércio electrónico Alibaba.
14
h
15.3.2018 quinta-feira
não vai longe o rabo do leitão quando a tira de couro o prende
A Poesia Completa de Li He
洛妹真珠 真 珠 小 娘 下 青 廓,洛苑香風飛綽綽。 寒 鬢 斜 釵 玉 燕 光,高樓唱月敲懸璫。 蘭 風 桂 露 灑 幽 翠,紅弦裊雲咽深思。 花 袍 白 馬 不 歸 來,濃蛾疊柳香唇醉。 金 鵝 屏 風 蜀 山 夢,鸞裾鳳帶行煙重。 八 驄 籠 晃 臉 差 移,日絲繁散曛羅洞。 市 南 曲 陌 無 秋 涼,楚腰衛鬢四時芳。 玉 喉 窕 窕 排 空 光,牽雲曳雪留陸郎。
Pérola, Uma Beldade de Luo-yang A minha Dama Pérola desceu à terra Do vazio azul. Desceu devagar num vento perfumado Até um parque de Luo-yang. Ganchos oblíquos nas suas tranças frescas Brilho de andorinhas de jade, Canta à lua na sua alta torre, Marcando o tempo num pendente. Brisas de orquídea e orvalho de cássia Borrifam escuras folhas azuis. Música de cordas vermelhas escreve às nuvens, Soluçando seu desgosto. Jaqueta bordada e cavalo branco – Ele ainda não voltou. Sobrancelhas de mariposas escuras, duplos salgueiros, Lábios fragrantes de vinho.1
Ensopada de névoa.3 A luz do sol ofusca as oito janelas E suas pálpebras tremem. Os raios do poente se derramam Por cortinas de gaze. “Nos bairros alegres do sul da cidade4 Não é frio o outono. Cinturas de Chu, penteados de Wei, Fragrantes todo o ano. Vozes de cristal em gargantas de jade Roçam as luzes do céu. Puxando por nuvens, arrepelando neve, Detendo o Mestre Lu.”5
1 2
3
Gansos de ouro a defendem do vento, Ela sonha com a montanha de Shu,2 Saia de simurgue e faixa de fénix
4 5
“Mariposas” e “salgueiros” eram sinónimos das sobrancelhas arqueadas e pintadas de uma dama chinesa. Uma referência ao Monte Wu, no país de Shu, onde um tal princípe Xiang fez amor com uma deusa. “Um sonho com a montanha de Shu” é um sonho erótico. A deusa do Monte Wu controlava as nuvens e a chuva. Aqui, a névoa significa “um sonho amoroso”. As últimas linhas são cantadas pela própria rapariga. “Nuvens” e “neve” significam as vestes de um cavalheiro. Lu Yu era conhecido pelo seu gosto por mulheres e vinho.
Tradução de Rui Cascais • Ilustração de Rui Rasquinho Li He (790 a 816) nasceu em Fu-chang durante a Dinastia Tang, pertencendo a um ramo menor da casa imperial. A sua morte prematura aos vinte e sete anos, a par da escassez de pormenores biográficos, deixam-nos apenas com uma espécie de fantasma literário. A Nova História dos Tang (Xin Tang shu) diz-nos que He “nunca escrevia poemas sobre um tópico específico, forçando os seus versos a conformarem-se ao tema, como era prática de outros poetas [...] Tudo quanto escrevia era inquietantemente extraordinário, quebrando com a tradição literária.” Segundo um crítico da Dinastia Song, o alucinátorio idioma poético de Li He é a “linguagem de um imortal demoníaco.” A versão inglesa de referência aqui usada é a tradução clássica da autoria de J.D. Frodsham, intitulada Goddesses, Ghosts, and Demons, publicada em São Francisco, em 1983, pela North Point Press.
ARTES, LETRAS E IDEIAS 15
quinta-feira 15.3.2018
diários de próspero António Cabrita
D
URANTE a minha infância vivi com uma tia surda, que me levava à missa. O verdadeiro enigma, para mim, tornou-se o da distribuição da Palavra de Deus. Como é que o Sopro de Deus lhe chegava aos ouvidos? E, se ela lia nos lábios do padre, como mensurar o quilate da Palavra nessa comunicação semi-adivinhada? A partir desta minha experiência deixei de considerar o silêncio como algo de mítico para o qual toda a palavra conflui, ou de reduzir a palavra a um trampolim deficitário para a expressão do inefável. Eu tive uma educação pelo silêncio, como uma experiência material, inapelável, concreta, que ainda por cima se mesclava com o afecto, e essa relação fez-me perceber que existem modos de comunicação que estão fora da consciência, no sentido de prescindirem de verbalização, intuindo aí o que dizia o Bateson sobre a impossibilidade de existir a não-comunicação. O silêncio pode bem ser uma comunicação ainda sem mensagem, da mesma forma que há pensamentos que procuram os seus pensadores-veículos, e nele não se manifesta o oposto do som ou da palavra mas antes uma posição embrionária, que prepara e antecede a expressão. Por outro lado, a circunstância de ter vivido com alguém que fazia as consoantes com o corpo e as vogais com os olhos mas a quem poucas palavras saíam claramente articuladas, ensinou-me que a palavra é um luxo que não se pode desperdiçar, nem pela mentira, nem pela frivolidade, e que nos cabe a responsabilidade ética de não deixar por formular uma única palavra que seja necessária. A partir daí o que me interessa não é tanto o esforço de definir o silêncio, mas, de modo mais prático, como acomodar-lhe a cama, a transpiração e o trajecto que o silêncio faz em nós. O americano David Thoreau iluminou tudo o que eu desejaria dizer: «Não é a forma que o escultor dá à pedra que importa mas o que a escultura faz ao escultor». Até porque só há inefáveis relativos e não absolutos e como acredito que começamos de uma maneira e acabamos de outra impõe-se uma nova dimensão anteriormente indiscernível em cada ciclo da nossa evolução ontológica. Passamos da madeira, ao ferro, para usar uma metáfora, e nesta passagem, ao mudarmos de configuração atómica isso ocasiona que não reconhecemos as constelações, pelo que precisarmos periodicamente de uma nova carta astral. Falo metaforicamente, mas alvitro, como dizem alguns antigos, que o caos é quase sempre uma ordem por decifrar, a ventania que despenteia a estatística.
E LA NAVE VA, FELLINI
A palavra e o silêncio
E sublinho o «quase» porque, por uma questão de sanidade mental, devemos conservar uma margem de liberdade para o aleatório e para nunca nos esquecermos dos limites da racionalidade. Do que advém, no meu caso, que o silêncio seja o outro nome com que se nomeia o acto mediante o qual a concentração nos esvazia. Do mesmo modo que a dança se intensifica quando se apodera do corpo, ou a sonata soa mais expressiva quando o seu intérprete se esquece de si mesmo no acto, o silêncio é o acto de esvaziar, e de nos pôr à escuta, e a partir daí a palavra e o silêncio retroalimentam-se e todo o real potencia-se no processo desse engendramento recíproco, diria até, desse entusiasmo recíproco. Entusiasmo que gerou males-entendidos e que Platão escrevesse: «o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão». Confesso que só lhe perdoo porque quando vou ao talho, aponto a máquina do fiambre, e digo sempre a mesma piada, “corte-me cem gramas de Platão mal passado, por favor!”. Mas incompatibilidades com o Platão à parte, por muito que quisesse não posso
escamotear que sou agido pelo silêncio de uma forma concreta, fertilizadora, sendo que nesse estado de fluidez só existe o perigo de o entravar, quando, estupidamente, desato a perguntar pelo sentido do que estou a escrever. Para que nos continue a nutrir, o silêncio necessita de encontrar em nós um pouco de inocência e diria até de idiotia. Dado haver um kairos do silêncio, um sentido de oportunidade em relação ao momento de calarmos. Talvez não seja o melhor modo de acabar, reconhecer que às vezes se desprende uma tal bazófia, uma tal solenidade no uso e na evocação do silêncio que me vem logo à cabeça, em contraponto, um verso de Haroldo de Campos: “O redondo oceano ressona taciturno”. E por isso, para apalpar o território movediço do silêncio sem nos colocarmos em bicos de pés, lembremos que em todo o século XX houve uma valorização estética do silêncio, seja pelo lado da desconstrução como no movimento Dada, seja pelo inescapável fascínio que fazia da arte uma disciplina votada ao silêncio, condensando-se neste uma meta inatingível mas sempre almejada, como se fosse o silêncio o propulsor que nos
ejecta na região inefável. Em ambos os casos o silêncio é uma ferida em aberto. Talvez pelo facto de sermos portadores da palavra e de estarmos convencidos que o pensamento é linguagem, alheados de que não pensamos exclusivamente por palavras, embora pensemos às vezes em palavras, sendo estas arquipélagos flutuantes e esporádicos. Vezes há em que me interrogo como nos expressaríamos se não houvesse uma palavra para designar o silêncio e fico receoso. Pode aí o desejo libertar-nos destes embargos, tal como se deduz neste poema de Brecht: REMO; DIÁLOGO: «Fim de tarde. Passam deslizando/ duas canoas, dentro/ dois jovens nus. Lado a lado remando/ Conversam. Conversando/ Remam lado a lado.» Nada foi dito, tudo permanece na sombra do sugerido, na ambiguidade que o silêncio também requer e, contudo, que a minha tia surda desvie os olhos neste momento grave, imaginem os meus amigos, como se pega nos remos, e na pesada analogia de tal gesto, embora o poema explicitamente silencie o que mete em presença. E agora, se me permitem, vou andar à vela.
16 publicidade
15.3.2018 quinta-feira
ANÚNCIO CONCURSO PÚBLICO N.o 15/P/18 Faz-se público que, por despacho do Ex.mo Senhor Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, de 28 de Fevereiro de 2018, se encontra aberto o Concurso Público para «Prestação de Serviços de Aluguer de Equipamentos Para Sistema Automático de Diálise Peritoneal aos Serviços de Saúde», cujo Programa do Concurso e o Caderno de Encargos se encontram à disposição dos interessados desde o dia 14 de Março de 2018, todos os dias úteis, das 9,00 às 13,00 horas e das 14,30 às 17,30 horas, na Divisão de Aprovisionamento e Economato destes Serviços, sita no 1º andar, da Estrada de S. Francisco, n.º 5, Macau, onde serão prestados esclarecimentos relativos ao concurso, estando os interessados sujeitos ao pagamento de MOP34,00 (trinta e quatro patacas), a título de custo das respectivas fotocópias (local de pagamento: Secção de Tesouraria destes Serviços de Saúde) ou ainda mediante a transferência gratuita de ficheiros pela internet na página electrónica dos S.S. (www.ssm.gov.mo). As propostas serão entregues na Secção de Expediente Geral
destes Serviços, situada no r/c do Centro Hospitalar Conde de São Januário e o respectivo prazo de entrega termina às 17,45 horas do dia 10 de Abril de 2018. O acto público deste concurso terá lugar no dia 11 de Abril de 2018, pelas 10,00 horas, na “Sala Multifuncional”, sita no r/c da Estrada de S. Francisco, n.º 5, Macau. A admissão a concurso depende da prestação de uma caução provisória no valor de MOP70 400,00 (setenta mil e quatrocentas patacas) a favor dos Serviços de Saúde, mediante depósito, em numerário ou em cheque, na Secção de Tesouraria destes Serviços ou através da Garantia Bancária/Seguro-Caução de valor equivalente. Serviços de Saúde, aos 08 de Março de 2018 O Director dos Serviços Lei Chin Ion
ANÚNCIO CONCURSO PÚBLICO N.o 16/P/18 Faz-se público que, por despacho do Ex.mo Senhor Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, de 13 de Fevereiro de 2018, se encontra aberto o Concurso Público para «Substituição e Testes de uma Unidade Resfriadora de Líquido «Chiller» no Edifício da Clínica Médico-Cirúrgica», cujo Programa do Concurso e o Caderno de Encargos se encontram à disposição dos interessados desde o dia 14 de Março de 2018, todos os dias úteis, das 9,00 às 13,00 horas e das 14,30 às 17,30 horas, na Divisão de Aprovisionamento e Economato destes Serviços, sita no 1.º andar, da Estrada de S. Francisco, n.º 5, Macau, onde serão prestados esclarecimentos relativos ao concurso, estando os interessados sujeitos ao pagamento de MOP46,00 (quarenta e seis patacas), a título de custo das respectivas fotocópias (local de pagamento: Secção de Tesouraria dos Serviços de Saúde) ou ainda mediante a transferência gratuita de ficheiros pela internet na página electrónica dos S.S. (www.ssm.gov.mo). Os concorrentes devem estar presentes no Departamento de Instalações e Equipamentos do Centro Hospitalar Conde de São Januário, no dia 19 de Março de 2018, às 10,00 horas para visita
de estudo ao local da instalação dos equipamentos a que se destina o objecto deste concurso. As propostas serão entregues na Secção de Expediente Geral destes Serviços, situada no r/c do Centro Hospitalar Conde de São Januário e o respectivo prazo de entrega termina às 17,30 horas do dia 13 de Abril de 2018. O acto público deste concurso terá lugar no dia 16 de Abril de 2018, pelas 10,00 horas, na “Sala Multifuncional”, sita no r/c da Estrada de S. Francisco, n.º 5, Macau. A admissão a concurso depende da prestação de uma caução provisória no valor de MOP90 000,00 (noventa mil patacas) a favor dos Serviços de Saúde, mediante depósito, em numerário ou em cheque, na Secção de Tesouraria destes Serviços ou através da Garantia Bancária/Seguro-Caução de valor equivalente. Serviços de Saúde, aos 8 de Março de 2018 O Director dos Serviços Lei Chin Ion
desporto 17
quinta-feira 15.3.2018
Kim Leo-nel FUTEBOL BENFICA DE MACAU FOI À COREIA DO NORTE VENCER POR 3-2
TATIANA LAGES
As águias foram à Coreia do Norte carimbar a segunda vitória a contar para o Grupo I da Taça AFC. No império de Kim Jong-un, Carlos Leonel foi o ditador com dois golos e tem quatro tentos em duas jornadas
O
Benfica de Macau venceu ontem o Hwaepul por 3-2, em Pyonyang, na Coreia do Norte, somando a segunda vitória na Taça da Confederação Asiática de Futebol (AFC). Perante uma assistência de 22 mil pessoas, no Estádio Kim Il Sung, o avançado Carlos Leonel voltou a estar em destaque com mais dois golos. As águias entraram da melhor maneira no encontro e, logo aos 7 minutos, Carlos Leonel aproveitou a ocasião de golo para começar a fazer história e colocou os encarnados na frente. No entanto, poucos minutos depois, aos 13, o árbitro assinalou uma falta na área do Benfica de Macau, que originou uma grande penalidade. O capitão do Hwaepul, Jong Chol-Hyok, foi chamado para cobrar o castigo máximo e não deu hipóteses ao guarda-redes Batista. Este foi também o primeiro golo na competição da formação da Coreia do Norte, que na jornada inaugural do grupo tinha sido derrotada pelos conterrâneos do 25 de Abril por 1-0. A primeira parte daquela que foi a estreia de uma equipa de Macau como visitante
tempo para igualar o encontro. O autor do do 2-2 foi o norte-coreano Pak Chol-Song, aos 49 minutos do jogo. Apesar do golo sofrido, os jogadores orientados por Bernardo Tavares conseguiram manter a concentração e não se deixaram intimidar pelo empate. A boa resposta encarnada fica demonstrada pelo facto de terem mesmo conseguido vencer o jogo, apesar dos esforços da formação que tem à frente o técnico Il Mun-Ho. Foi quando o cronómetro indicava 75 minutos de jogo que o herói da primeira partida voltou a brilhar. Carlos Leonel não desperdiçou a oportunidade criada e apontou o 3-2. O avançado tem agora quatro golos em dois jogos na Taça AFC. Em vantagem, as águias já não deixaram fugir os três pontos e carimbaram um dos momentos mais altos da História do futebol local. Para se ter uma ideia da diferente dimensão das formações, a Coreia do Norte ocupa actualmente a 120.ª posição do Ranking Mundial FIFA, enquanto Macau não vai além do 186.º lugar do ranking. Uma diferença de 66 lugares, que ontem não ficou visível. No outro jogo do grupo I, o 25 de Abril derrotou, em Taiwan, o Hang Yuen FC por 5-1. Os golos da equipa vencedora foram apontados por Om Chol-Song (43’), An Il-Born (45+2’, 58’), Rim Chol-Min (55’) e Ri Hyong-Jin (88’). Para os taiwaneses marcou Liu Yung-Sheng (74’). João Santos Filipe
joaof@hojemacau.com.mo
na fase de grupos da Taça AFC foi disputada com uma grande intensidade. Foi por essa razão que não houve grandes surpresas, quando antes do intervalo o Benfica teve tempo para se colocar novamente em vantagem. O 2-1 para as águias foi apontado por David Tetteh,
internacional do Quirguistão, que permitiu aos encarnados chegarem ao intervalo na frente do marcador.
UM GOLOS PARA CADA LADO
No segundo tempo, os norte-coreanos entraram determinados em virar o resultado e não precisaram de muito
GRUPO I Equipa
Jogos
Vitórias
Empates Derrotas Golos
Pts
1.º 25 de Abril
2
2
0
0
6-1
6
2.º Benfica Macau
2
2
0
0
6-4
6
3.º Hwaepul
2
0
1
1
2-4
0
4.º Hang Yuen
2
0
0
2
3-8
0
Desporto Macau e Zhuhai pensam no futuro O Instituto do Desporto da RAEM (ID) e a Direcção dos Serviços de Turismo, Desporto e Cultura de Zhuhai assinaram um Protocolo de Cooperação de Desporto, com o objectivo intensificar o intercâmbio e cooperação entre as duas cidades. Em comunicado, o ID afirma ter estado “sempre preocupado o desenvolvimento da comunidade desportiva das zonas vizinhas, desejando que através das trocas e partilhar as informações na área de desporto, intensificar as relações entra as duas partes, afim de encontrar um área de desenvolvimento
conjunto sobre o desporto”. Por isso, dirigiu ontem uma delegação de dirigentes das Associações Desportivas locais “para efectuação de intercâmbio em Zhuhai”. Na reunião, ambas as partes apresentaram a situação de desenvolvimento do desporto da sua cidade e visitaram Centro de Desporto da Cidade Zhuhai, Escola de Desporto de Zhuhai e o Centro de Desporto de Vela de Jiuzhou. Esta actividade, programada pelo governo de RAEM e de Zhuhai, estabelece, segundo o ID, “uma excelente base para o desenvolvimento do desporto das duas cidades no futuro”.
6
26
7 18 (f)utilidades 4 5 6 1 3 7 2
6 1 7 5 4 2 3 4 1 3 2 7 6 4 5 4 T2 E M6 PO 3 AG 4U A5C E1I R O7S M I N 3 4 1 2 7 5 6 5 QUE 7 4 FAZER 3 2 6 1 O ESTA 7 2 SEMANA 5 6 1 3 334 3 Hoje
?
REFLEXÕES AO CAIR DA TARDE – OS FILHOS DA CIÊNCIA 28 Fundação Rui Cunha | 18h30
2 31
2 7 2 3 5 4 3 1 6 1 5 4 169 37M A5 X 2 3 1 5 4 2 4 6 7
33
3 6 4 7 1 2 5 3 1 7 4 1 3 6 5 2 5 24 1 PHOTOGRAPHY 2 5 ART4SPACE7 6 3 3 1 MACAU Rua do Infante, No. 17, Edf. Loi Fat, Lojas A e B, R/C | 18h30 6 7 2 5 3 1 4 5 6 Amanhã 2 DAS3LETRAS6| DEBATE1“CIDADES-RIO 5 4CRUZANDO 7 5 3 7 ROTA FRONTEIRAS: HISTÓRIA E ESTRATÉGIAS” Antigo 4 Tribunal 5 | 18h00 7 6 2 3 1 2 CONCERTO 5 1| MUSIC3SESSIONS 2 4 7 6 6 Pousada de Coloane | 20h00 EXPOSIÇÃO “PAST IS FUTURE: BLACK AND WHITE OLD MACAU PHOTOS” | 1844 MACAU PHOTOGRAPHY ART SPACE Rua do Infante, No. 17, Edf. Loi Fat, Lojas A e B, R/C | 18h30
Sábado 30 TOGETHER WE DANCE WITH JAMES WHAT Club Legend Macau | 22h00
35
7 7 6 62 4 3 1 5
5 72 1 5 7 4 6 3
2
6
32
4 1 6 5 3 4 7 2 5 4 2 7 2 7 3 6 1 6 32 3 4 H U2M 1 7 5 - 9 5 % 6• 6 5 4 7 4 1 6 7 3 5 5 3 1 2 34 7 3 1 3 16 2 5 7 4
4 7 3 1 6 5 2
6 5 7 3 2 4 1
O CARTOON STEPH 35
7 3 1 2 5 4 6 2 5 2 4 51 7 23 2 4 5 3 7 6 1 5 1 6 7 3 2 4 3 54 6 Domingo ROTA DAS LETRAS | CONCERTO COM ZHOU YUNPENG 7 6 D.Pedro 2 V4 5 1 7 3 7 5 1 Teatro 4 1 3 DAS7LETRAS2| PALESTRA 6 “A EUROPA 4 1AO ESPELHO”, 5 4 1 7 ROTA COM RUI TAVARES 2 46 3 2 1 Tribunal 5 | 19h00 7 4 6 3 2 Antigo 4 6 3 1 2 5 7 2 6 45 Diariamente
67 5 12 6 3 4 31
3 6 5 4 2 1 7
1 2 7 3 6 5 4
MULHERES ARTISTAS - 1ª BIENAL INTERNACIONAL DE MACAU MAM | Até 13/5
SOLUÇÃO DO PROBLEMA 35
11ª BIENAL DE DESIGN DE MACAU Museu de Arte de Macau (MAM) | Até 31/3
UM FILME HOJE
PARADA DE OURO - ARMAMENTO IMPERIAL DO MUSEU DO PALÁCIO MAM | Até Domingo
Cineteatro
C I N E M A
7 DAYS IN ENTEBBE SALA 1
TOMB RAIDER [C] Um filme de: Roar Uthaug Com: Alicia Vikander, Daniel Wu, Dominic West, Walton Goggins 14.30, 16.45, 19.15, 21.30 SALA 2
[B]
Filme de: José Padilha Com: Rosamund Pike, Daniel Brühl 14.30, 19.30, 21.30
TURN ARROUND [A] Filme de: Ta-Pu Chen
Com: Jay Shih, Yu-Chiao Hsia, Allen Chao, Lu Yi-Ching 16.30
5 2 4 6 1 3 7
DE
ROTA DAS LETRAS | FILME “POET ON A BUSINESS TRIP” DE JU ANQI Consulado | 20h00
7
6 4 1 2 5 7 3
34
62 5 7 3 1 4 6 1
36 36
4 5 25 3 3 6 2 7 1 1
PROBLEMA 36
5
4 5 3 15.3.2018 quinta-feira 4 5 1 2 7 6 1 7 4 3 6 5 1 4 5 6 3 4 2 7 AHT 0.25 YUAN 1.27 2E U1R O 7 9 .59 8 4 B 3 3 2 6 7 5 1 7 3 2 6 1 4 VIDA DE CÃO 6 4 5 1 3 2 ESTAÇÕES 7 COM SENTIDO Embora o apelo não seja visual, numa 2 terra onde a natureza escasseia, a chegada 3 6 7 5 4 1 da Primavera remete-me para flores. A 1 3 5 era Margarida. Praticamente não 7 4 3 2 41 6 minha sabia ler, mas ensinou-me a contar ainda de eu ir para a escola. Pelo menos 6 51 4 63 5 2 antes até 25. Era um quarteirão de sardinhas ou de carapaus. Quem sofria eram as 5 2 1 6 7 4 freguesas – coitadas – sempre com pressa, 5 7 com homens chegados do mar e o tacho 2 7 5 1 6 3 ao lume. Enquanto eu metia as mãos pelo cabaz adentro, esforçando-me por não 1 5 2 4 3 7 deixar escorregar o peixe a agitar-se no gelo, ela entretinha-as com dois dedos de Nada ou pouco sabia do mundo, 4 3 6 7 2 5 conversa. mas sabia tudo da vida. Incontáveis perío-
3 2 7 34 5 1 56
7 1 6 13 64 2 5
25 4 2 1 16 63 7
2 3 45 7 1 6 4
61 6 4 52 7 5 23
6 7 1 5 3 4 2
S U D O K U
3
dos de defeso tornaram-na numa mulher forte, no entanto, dócil. Era bem-disposta pela manhã, às vezes arreliava-se à tarde, mas rapidamente voltava ao normal estado de espírito. Embora com valores tradicionais (ia à missa sempre que podia) era muito liberal para o seu tempo. Durante o dia éramos muitos a correr pela casa centenária que herdara, mas à noite só as duas. Deixava-me fazer tudo, como todas as avós, mas era sobretudo cúmplice dos crimes praticados por uma adolescente à revelia dos pais. Riamos muito, de tontarias principalmente, mas também falávamos a sério, como amigas a confidenciar na calada da noite. Ela nasceu na Primavera e partiu no Inverno. Desde então, as estações do ano passaram a fazer todo o sentido. Diana do Mar
“PHANTOM THREAD” | PAUL THOMAS ANDERSON
“Phantom Thread” ou a “Linha Fantasma” passa-se nos anos 1950 em Inglaterra. O actor Daniel Day-Lewis encarna o estilista fictício Reynolds Woodcock que vestia membros da família real e figuras da alta sociedade britânica. Metódico, perfeccionista e obcecado faz tudo girar em torno do trabalho. As relações que mantém são passageiras até que chega a jovem Alma, primeiro como acessório, depois como musa, que rompe com o quotidiano padronizado do solteirão que sempre viveu para a costura e que, pela primeira vez, perde o controlo que estava habituado a ter sobre tudo e sobre todos. Diana do Mar
SALA 3
THE HURRICANE HEIST [C] Filme de: Rob Cohen Com: Toby Kebbell, Maggie Grace, Ralph Ineson, Ryan Kwanten 14.30, 16.30, 21.30
TURN ARROUND [A] Filme de: Ta-Pu Chen Com: Jay Shih, Yu-Chiao Hsia, Allen Chao, Lu Yi-Ching 19.30
www. hojemacau. com.mo
Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor João Luz; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; Diana do Mar, João Santos Filipe; Sofia Margarida Mota; Vitor Ng Colaboradores Amélia Vieira; Anabela Canas; António Cabrita; António Castro Caeiro; António Falcão; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; José Drummond; José Simões Morais; Manuel Afonso Costa; Michel Reis; Miguel Martins; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; David Chan; Fa Seong; Jorge Morbey; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo
opinião 19
quinta-feira 15.3.2018
bairro do oriente
C
À deriva (na sopa de letras)
ONFESSO que esta semana, e pela primeira vez nos quase seis anos que levo desta humilde contribuição para o Hoje Macau, tenho dificuldade em escrever um artigo. Isto porque não quero dar a entender que tomo uma posição em detrimento de outra, que me estou a sentar no muro que separa os dois lados da contenda, ou que estou a tentar branquear alguma coisa. Nada disso, e longe de mim querer dar sermões de espécie alguma a alguém, ou ter o desplante de tentar explicar o que seja. Cada um pensa pela sua própria cabeça, tem interpretações diversas dos factos, e não quer dizer que nenhuma delas esteja completamente certa ou errada. É tudo uma questão de perspectiva, e é apenas isso que vou tentar aqui fazer. Analisar um caso actual de uma perspectiva. Não necessariamente a minha, mas, e repito, UMA perspectiva apenas. O que se passou, afinal? O festival literário Rota das Letras, que este ano vai na sua 7ª edição, sofreu um duro revés depois de ter sido informado que não era garantida a entrada no território a três escritores convidados. Existe uma discussão paralela sobre a fonte dessa informação, ou de como foi obtida, mas não é disso que quero aqui falar. Os motivos da hipotética recusa prendem-se com “questões de segurança interna”, mais uma vez, ou trocando isto por miúdos, os escritores são considerados “persona non grata” pelo Governo Central, e sua vinda não seria “oportuna”, conforme a versão oficial. Jogando, e bem, pelo seguro, a organização do festival decidiu retirar o convite aos três escritores. Claro que isto teve um grande impacto na comunidade literária e em toda a gente que se interessa pela cultura, e mais do que isso, pela apregoada liberdade garantida pelo segundo sistema. Escutei e li nestes últimos dias algumas opiniões sobre o assunto, e que vão desde a (atendível) indignação, até a um “erro de cálculo” da parte da organização do festival. Outra vez, não adiro a qualquer uma das posições, e já agora, da imprensa em língua chinesa nem uma palavra sobre o assunto. Tudo normal. A juntar a isto, tivemos na última semana a passagem da lei que torna o número de mandatos do presidente chinês ilimitado, e aqui ao lado em Hong Kong o grupo pró-democrata foi derrotado nas eleições intercalares. Ou seja, juntou-se o que é preciso para que caia já aqui o Carmo e a Trindade. Ou as Ruínas de S. Paulo e as Portas do Cerco, vá lá. Voltou-se a ouvir um certo discurso que já não se ouvia desde os anos anteriores a 1999.
JOÃO VIEIRA, EPITÁFIO
LEOCARDO
E tal como nessa altura, quando resolvi ficar em Macau, aliás, não estou optimista nem pessimista. Estou na espectativa. Não acredito no Diabo, e quanto ao resto, só posso dizer que não sou uma pessoa de fé. Sou agnóstico, lá está. Hoje posso com alguma sobranceria dizer que passei a maior parte da minha vida em Macau, como alguns de vocês, compatriotas que vieram para estas para-
Escutei e li nestes últimos dias algumas opiniões sobre o assunto, e que vão desde a (atendível) indignação, até a um “erro de cálculo” da parte da organização do festival
gens já na idade adulta, e foram ficando até os cabelos embranquecerem. Algo que me ajudou a fazer este sacrifício de estar tão longe da pátria-mãe foi entender, desde o primeiro minuto, que esta é uma realidade diferente da minha. Da nossa, de alguns que estarão a ler estas linhas, certamente. Estamos todos conscientes de que na China o registo em termos de liberdade de expressão e de outras liberdades individuais não é o melhor, mas também sabemos que a razão disto é puramente política. É a política daqui, de cá. Podemos não gostar dela, mas é a que há. É como as leis: não concordo com todas elas, mas não me passa pela cabeça não as cumprir, e o melhor que posso fazer é ficar o mais longe possível delas. O próprio regime tem consciência de que isto é um problema. As últimas déca-
das fizeram emergir na China uma classe média educada, com poder de compra, e que certamente não olha com bons olhos para a censura dos conteúdos, assim como também não entende porque é que no seu país existem excepções a esta regra. Este é um mar atribulado onde o partido único não tem feito mais do que manter o barco à tona. É o mar revolto da política, e se algo que nunca mudou em cinco mil anos desta civilização é o facto de continuarem a existir duas facções; uma que detém o poder e o quer manter, e a outra que o quer tomar. E pela força, se necessário. Outra vez, sem estar a querer convencer ninguém do que deve pensar ou que posição tomar, só faço votos para que não aconteça um naufrágio. Era pena, até para nós, que aprendemos a amar esta terra e estas gentes.
Olhem para as estrelas e não para os vossos pés. Stephen Hawking
PALAVRA DO DIA
quinta-feira 15.3.2018
TIAGO ALCÂNTARA
FILIPINAS ABANDONAM TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL
O
PUB
presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, anunciou ontem que o país vai abandonar o Tribunal Penal Internacional “com efeitos imediatos” porque a instituição tenta investigar a “guerra contra as drogas” que terá causado sete mil mortos no arquipélago. “Declaro e aviso, como presidente da República, que as Filipinas abandonam com efeito imediato a ratificação do Estatuto de Roma, que vincula os Estados membros do Tribunal Penal Internacional”, declara Duterte num documento que está a ser divulgado pelos órgãos de comunicação social de Manila. No mesmo texto, Duterte acusa o Tribunal Penal Internacional de impor jurisdição sobre ele “violando o princípio da presunção de inocência”. Recentemente, o tribunal iniciou os trabalhos preliminares no sentido de investigar a campanha antidroga nas Filipinas. Rodrigo Duterte acusa também funcionários das Nações Unidas como autores de “ataques sem fundamento, sem precedentes e indignantes “contra o chefe de Estado” e o governo de Manila. Nos últimos meses Duterte ameaçou retirar o país do Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, e que conta com 123 membros. Países como os Estados Unidos, República Popular da China e Rússia não integram o organismo judicial. O Tribunal Penal Internacional recebeu em Abril de 2017 uma denúncia de um cidadão filipino que pediu o julgamento de Duterte por “assassinatos” alegadamente cometidos durante 22 anos - entre os períodos compreendidos entre 1988 e 1998 e também entre 2001 e 2010 - quando foi autarca de Davao, uma ilha a sul de Mindanao. A acusação compreende também um período que começou em Junho de 2016, em que Duterte, como chefe de Estado, deu início à campanha antidroga. O governo das Filipinas tem afirmado que o organismo judicial pode violar a soberania nacional caso venha a processar o Estado por causa da “luta contra a droga” acrescentando que a competência para julgar a matéria é da competência dos tribunais locais onde não existe qualquer processo. A “guerra contra as drogas” decretada por Duterte provocou quatro mil mortos durante operações policiais, mas organizações não-governamentais indicam que o número total de vítimas pode ser superior a sete mil mortos.
EPM AGRESSÃO ACABA COM ALUNO INTERNADO NO SÃO JANUÁRIO
Violência à portuguesa
Um desentendimento na cantina fez com que um aluno de 13 anos tivesse de ser internado no Hospital Conde São Januário com falhas de memória. A situação foi relatada ao HM pelo pai da vítima, Ricardo Pontes, que apresentou queixa na PSP. A direcção da escola esteve incontactável durante o dia de ontem
U
M aluno de 13 anos da Escola Portuguesa de Macau passou a noite no Hospital Conde São Januário, com lesões na cabeça e falhas de memória, após ter sido agredido por um colega de 15 anos. A situação foi relata, ao HM, pelo pai da vítima, Ricardo Pontes, que desconhece o que esteve na origem do desentendimento entre os estudantes. No entanto uma versão ouvido pelo HM aponta para uma situação que terá começado das redes sociais. “Hoje [Ontem] de manhã, no intervalo entre as 09h30 e as 11h50, na cantina, um colega mais velho e o meu filho trocaram verbalmente insultos. Depois, cobardemente, esse colega deu um soco ao meu filho, que estava de costas, e atingiu-o no maxilar inferior esquerdo”, começou por contar Ricardo Pontes. “Depois de levar um murro, perder os sentidos e cair no chão, o agressor ainda lhe deu um valente empurrão, o que fez com que batesse com a cabeça ainda com mais violência no chão”, acrescentou.
Após a situação, os dois alunos foram levados para o enfermeiro e, posteriormente à direcção da escola. No entanto acabaram por regressar às aulas. Só da parte da tarde, quando Rodrigo, o agredido, mostrou estar com amnésia, é que o encarregado de educação foi chamado à escola. “Recebi uma chamada da escola, porque a professora estava preocupada que o meu filho só lhe dizia que não se lembrava de nada. Fui buscar o meu filho e fiquei bastante assustado porque ele perguntava-me de cinco em cinco minutos o que se passava. Respondia-lhe, mas passados dois minutos ele fazia as mesmas perguntas e não se lembrava”, revelou Ricardo Pontes. Assim que chegou ao Centro Hospitalar Conde São Januário, o aluno de 13 anos foi imediatamente atendido e foi-lhe realizado um exame TAC (tomografia axial computorizada). “Foi-lhe feito muito rapidamente um exame TAC, que revelou a existência de lesões. Presume-se que sejam duas lesões e ele teve de ficar internado. Pelo menos uma noite
vai passar internado. Poderá ter de ficar outra noite no hospital, mas isso vai depender da reavaliação”, explicou o encarregado de educação. “Na parte exterior da face ficou com um grande hematoma e na parte interior no maxilar e no lábio, ficou ainda pior. A parte exterior da face apresenta melhorias significativas porque ele esteve a fazer gelo constantemente desde que deu entrada nas urgências às 13h50”, acrescentou.
QUEIXA NA PSP, ESCOLA INCONTACTÁVEL
Devido à natureza das lesões, Rodrigo Pontes decidiu apresentar queixa da Polícia de Segurança Pública. “Horas mais tarde, o agressor enviou mensagem ao meu filho a pedir-lhe os meus contactos. Mas recusámos qualquer contacto porque tendo em conta a gravidade das agressões, eu e a minha mulher decidimos que era melhor apresentar queixa na PSP”, revelou. “Vamos ver quais as consequência das lesões. Só o tempo dirá se haverá lesões permanentes. Não passa pela cabeça de ninguém que jovens desta idade
se comportem desta maneira. É importante haver um castigo”, defendeu o pai do agredido. Ricardo Pontes mostrou-se igualmente muito agastado por considerar que “havia uma relação de amizade” entre o seu filho e o agressor que chegaram a jogar na mesma equipa de futebol, na Escola Portuguesa. O HM tentou contactar a Escola Portuguesa de Macau que se mostrou incontactável. Por sua vez, a presidente da Associação de Pais da EPM, Valeria Koob, ainda não tinha conhecimento do caso. Mas prometeu que o problema vai ser abordado com a direcção. Por sua vez, Manuel Gouveia, ex-candidato à Associação de Pais, mostrou-se preocupado com o comportamento dos alunos e aponta o dedo à direcção da EPM: “Não há consequências, não há disciplina nem direcção na Escola Portuguesa de Macau”, apontou. “Um dia destes em vez de amnésia vai acabar um aluno ao cemitério. Depois há umas lágrima de crocodilo e palavras de circunstância”, acrescentou. João Santos Filipe
joaof@hojemacau.com.mo