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h - Suplemento do Hoje Macau #58

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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2731. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

BARONESA PULP

TERÁ SIDO ANA SOFIA CASACA QUEM SUGERIU A IAN FLEMING A CRIAÇÃO DE UM ESPIÃO BOÉMIO E SEDUTOR?


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h A BARONESA QUE ESCREVIA PULP FICTION EM PORTUGUÊS 2

Luís Filipe Silva

in Os Anos de Ouro da Pulp Fiction à Portuguesa

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OACHIM Hunot não só foi contemporâneo dos prolíferos autores Guilherme Conde, D. Rudolfo de Vilares, Fred Kartas, O. Lobato Trilho, Gustavo Maler e outros, como partilhou com eles corpo, espírito e mente: são pseudónimos da Anne Sophie Adelaide Theresa Emma Petrisse Casaca Hildensheim von und zu Hadegg, baronesa austríaca e uma das mais interessantes e peculiares figuras do pulp fiction lusitano. Da vida de Ana Sofia (assumiu a versão portuguesa do nome quando se instalou de vez no nosso país) poderá dizer-se que se assemelha a uma das suas histórias de aventuras – algo que ela própria admitirá no texto autobiográfico A Expedição do Acaso (1975), embora considere que foram tantas as reviravoltas e as coincidências que nem os leitores da época teriam acreditado em tal ficção. Filha única do Barão Wolfgang von und zu Hadegg e da Condessa Anne Marie Casaca (ele pertencente à nobreza austro-húngara dos finais do século XVIII e ela descendente da casa real francesa), nasceu em 1901 para o que prometia ser uma vida de conforto e opulência. O destino rapidamente lhe trocaria as voltas, pois ainda antes de completar os quatros anos de idade estaria a atravessar com a mãe a fronteira suíça, a meio da noite, numa carruagem alugada sob anonimato – as relações do pai com o Arquiduque Franz Ferdinand e a casa real austro-húngara tinham-se deteriorado ao ponto de o barão recear pela sua vida e da família. Graças aos contactos da família da Condessa com a rainha D. Amélia, que ofereceu guarida, iriam passar algum tempo em Portugal, até o pai se lhes reunir e partirem para a segurança da distante África. Wolfgang, no entanto, nunca chegou a aparecer, e Anne Marie, depauperada e sem abrigo, pediu auxílio à rainha, que se terá apiedado da situação dela. O atentado contra o rei D. Carlos viria apanhar mãe e filha de surpresa: embora fossem convidadas quase permanentes do Paço Ducal de Vila Viçosa há anos, ali não chegavam todas as notícias sobre a agitação que se vivia na capital. Partiriam nessa mesma noite para França, destinadas à casa de uns primos afastados que viviam em Orléans. A família da Condessa, infelizmente, pouco abrigo podia dar. Arruinada em virtude do escândalo do Panamá de

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1892, encontrara no casamento de Anne Marie com o barão austríaco uma forma de salvar o nome e recuperar alguma solidez financeira. O trágico desenlace não só tinha contrariado as expectativas como o matrimónio germânico colocava a família francesa sob suspeita num cenário de crescente tensões políticas. Estava sobre os ombros de Anne Marie encontrar uma solução para si própria e para a filha, o que naquela época implicava encontrar um bom marido. Daí que a sua preocupação se concentrasse nas festas, nos solteirões e viúvos disponíveis, e deixasse a educação da filha aos cuidados da criadagem. Órfã de pai e desirmanada de terra e cultura, Ana Sofia encontrou nos livros uma forma de compensação. Não obstante a sua origem austríaca, a educação dominante fora – e continuava a ser – essencialmente francesa e logo descobriu os folhetins que encantavam França na época. Durante os poucos anos que permaneceria na residência de família, familiarizou-se com Alexandre Dumas,

Maurice Leblanc, Pierre Souvestre e Marcel Allain, e Jean de la Hire. Os livros estrangeiros que surgiram em tradução também eram do seu agrado, em particular os trabalhos detectivescos de Conan Doyle e Poe. Estará certamente neste primeiro contacto a origem do gosto pelos temas de dedução criminosa, à mistura com cenários exóticos e espiões de guerra, tão dominantes na sua futura produção literária. O idílio de leitura chegaria ao fim aquando do casamento da mãe com Joseph Herald, lorde inglês que visitava a região com a pretensão de investir no negocio vinícola. Os ventos da fortuna levaram-no a optar pelo Douro português, o que se verificou ser a decisão mais acertada: quando a Primeira Guerra eclodiu, Joseph conseguira já destacar-se na exportação de porto para as colónias britânicas. Para Ana Sofia, contudo, não foi uma mudança fácil. Afastada mais uma vez de um lugar estranho a que já se tinha acostumado, deparou-se com uma língua desconhecida, uma cultura bur-

A greve de 1926 precipita uma crise que levará ao encerramento da maior parte das revistas populares, obrigando-a a procurar trabalho como criada mas com pouco sucesso, dada a sua falta de inclinação e prática. A nível sentimental, as coisas não correm melhor.

guesa distinta dos hábitos de nobreza para os quais a mãe a educara e a falta daqueles livros que lhe compensavam o desânimo. Foi salva (segundo afirma) pelas capas coloridas e dinâmicas das revistas inglesas que passavam de mão em mão entre os rapazes da comunidade britânica nortenha. Aqueles que falavam francês explicavam-lhe as histórias, o que só lhe atiçava o entusiasmo. Ana Sofia queria poder lê-las sozinha, a seu prazer. Aplicou-se então como nunca a aprender inglês com os tutores particulares que o padrasto contrarara. A mãe ficou surpreendida e satisfeita, jamais sonhando que o propósito da rapariga era mergulhar o nariz em livros impróprios e indignos para jovens senhoras da época. A guerra chegou ao fim, mas a breve bonança rapidamente se tornaria num flagelo: a gripe espanhola disseminou-se pela Europa e Anne Marie não lhe foi imune. Morreira em 1919, deixando Ana Sofia a cargo do padrasto e sem um tostão de herança. A tristeza foi de mais para a jovem – começou a revoltar-se contra tudo e todos. O efeito intempestuoso convenceu Joseph a enviá-la para estudar em Inglaterra, residindo em casa de tios dele. Ana Sofia chegou contrariada a Londres mas em breve mudaria de ideias. Os tios tinham ligação ao teatro, e pela casa citadina passariam dramaturgos e actores famosos, como Shaw, Machen e Coward. Londres era um primor de cultura e revolução social: o movimento das sufragistas havia conseguido impor o direito de voto às mulheres (embora a princípio só para quem tivesse mais de 30 de anos), o socialismo percorria as ruas e as manchetes e a literatura de cordel enchia os escaparates – todas as semanas surgiam novas revistas e muitas delas pediam colaborações dos leitores. A jovem, que conseguia já ler e falar razoavelmente inglês, embora não escrevê-lo, acanhou-se a princípio, mas a tia, antiga e famosa actriz dos palcos londrinos, incentivou-a, oferecendo-se para rever os textos – e no que não pudesse ajudar, pediria a Shaw. Era da firme convicção que as mulheres eram capazes de fazer tudo, desde que, nas suas palavras, (passassem despercebidas ao ingénuo e obtuso olhar dos homens) (em linguagem da época significativa publicar com pseudónimo masculino). De Detective Wonder Stories não resta nenhum exemplar conhecido, e a revista sobreviveu apenas 6 números. Contudo,


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em Setembro de 1921 incluiria (The Gaping Hole) de um tal Patch Bedlam. Por este conto, Ana Sofia recebeu a quantia de 6 xelins – um incentivo óbvio para a jovem autora, não obstante o valor irrisório. De acordo com a sua autobiografia, teve início um período de intensa actividade (era capaz de produzir um conto por dia, indica) na qual tenta atingir todos os mercados possíveis: Pan, 20-Story Magazine, Blue Magazine, Hutchison´s... tudo é tema legítimo para a sua pena, desde as histórias de detectives às de aviadores, incursões nas selvas africanas, assombrações góticas e outras então populares. O nível de rejeições é elevado mas isso não a desanima. Só quando, perante insistência dos tios, começa a mostrar os seus textos alguns dos dramaturgos conhecidos e estes apontam problemas básicos de repetições e falta de ritmo e ingenuidade dos diálogos, é que Ana Sofia começa a desenvolver-se literariamente e a tornar-se presença habitual no mercado novelesco. Mas uma vez que submete as histórias numa variedade de pseudónimos, os editores ficam convencidos de que se tratam de autores diferentes – chegando ao caricato de uma revista, para a qual assinava como C.D. Collins, tentar aliciar o seu outro pseudónimo Basker Holmes a não colaborar mais com a revista rival, prometendo-lhe o dobro do que pagavam a Collis... Este período fértil foi alvo de estudo crítico por David Wellington, jornalista inglês radicado em Portugal, em Through The Windowscreen: The Many Lives and Faces of Baronese Anna Sophia (1983). Para efeitos da presente recolha, optámos por não avaliar nenhuma destas histórias, não obstante nelas se incluírem os primeiros traços do que viria a tornar-se o conhecido detective Malaquias (Markley na versão inglesa) e o Espectro da Noite, por estarmos apenas interessados em histórias relevantes para o espaço português; além disso, é de não esquecer que algumas das narrativas mais bem conseguidas desta fase seriam traduzidas e adaptadas por António Assunção e publicadas na Falcão Lusitano durante os anos 50. A veia criativa de Ana Sofia irá revelar-se um verdadeiro choque para Joseph, que viaja até Londres para a trazer consigo para Portugal. Naturalmente, a jovem insurge-se contra os desígnios do padrasto e acaba por fugir de casa. Os rendimentos da escrita já lhe permitem alguma autonomia, ao que ajudou o facto de manter uma relação secreta com um jovem comunista italiano – com quem começa a viver. Idealismo, amor e escrita – os ingredientes básicos da aventura que é a juventude... ...Que rapidamente azedam. A greve de 1926 precipita uma crise que levará ao encerramento da maior parte das revistas populares, obrigando-a a procurar trabalho como criada mas com pouco sucesso, dada a sua falta de inclinação

e prática. A nível sentimental, as coisas não correm melhor. Ana Sofia escreverá cada vez menos, e, por fim, abandona a escrita. Vários factores irão trazê-la de volta à família de adopção – o fim da relação, sem dúvida, o cansaço da vida que escolhera, a notícia que Joseph voltara a Londres à sua procura, e (hipótese avançada por Wellington), uma provável gravidez, que a teria forçado a abortar.

continuará durante vários anos, até conhecer António Assunção, o jornalista transmontano que em poucos anos se tornaria numa das mais influentes figuras da pulp fiction lusitana. Já nessa época Assunção vivia de publicar revistas populares de grande tiragem, repletas de contos de autores nacionais. O mercado abrangia o Brasil e as colónias, e estava a ter tanto êxito que, quando Ana Sofia o encontrou, andava

Joseph informa-a que padece de uma doença incurável e que gostaria de tê-la por perto no tempo que lhe restava, em respeito e amor pela memória de Anne Marie. A rapariga, desta vez, acede. E regressa pela terceira (e definitiva) vez a Portugal. Quando Joseph morre, em 1931, Ana Sofia assume a liderança do negocio vinícola, que controla com disciplina. Não escreve há meia década e assim

ele atarefado com o lançamento do seu primeiro jornal, A Nortada. O espírito cosmopolita e internacional de Assunção teria agradado a Ana Sofia: casar-se-iam antes de a década terminar. E graças ao seu incentivo, ela voltaria a escrever. Este novo período seria, como o anterior, marcado por uma produção frenética, embora se note uma maestria superior da arte. Alguns dos textos mais me-

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moráveis seriam publicados entre 1938 e 1939, na Ás de Espadas (O Califa de Aljezur), Aventuras para Rapazes (Pietr e Cão Cego), Senda do Crime (Um Beijo Tarde De Mais) – revistas pertencentes a António Assunção, de vida curta e leitura rápida. A presença de Ana Sofia era praticamente ubíqua, atingindo o pico no ano de 1942, em que foi autora do conteúdo integral (recorrendo a vários pseudónimos) dos números de Maio, Setembro e Dezembro da Família Exemplar, que coligia artigos, conselhos e histórias para o bem viver das famílias lusitanas. O início da guerra e os pouco subtis movimentos de espiões no território nacional dão à baronesa a desculpa necessária para misturar fantasias literárias com a realidade da sua existência. Graças ao seu historial, pode movimentar-se entre britânicos e alemães com igual à-vontade. A autobiografia encontra-se repleta de detalhes deliciosos de subversão, descrevendo situações em que escondia debaixo da roupa recados que simpatizantes dos aliados lhe passavam para levar, disfarçadamente, aos camaradas; ou como expediu vinho do Porto para Londres, contendo provas fotográficas escondidas em garrafas; ou como escondeu nos contos referências geográficas ou temporais para comunicação com os grupos das colónias. É obviamente difícil acreditar que a pequena austríaca radicada no norte, embora de personalidade vincada, se tivesse envolvido num frenesi de contra-espionagem tão intenso, sem jamais ser posta em questão – em particular, sendo essa mesma pessoa autora de ficção rocambolesca bastante imaginativa. Terá sido verdade que conheceu Ian Fleming e que lhe surgeriu a criação de um espião boémio e sedutor, que ele mais tarde transformaria no conhecido 007? Terá recebido de Leslie Howard, na véspera do fatídico voo de regresso a Inglaterra, um pacote destinado pessoalmente a Churchill – um pacote que ela não seria capaz de expedir antes do final da guerra que presumivelmente nunca abriu? Estas e outras coincidências históricas deste período são analisadas em maior profundidade no nosso artigo, O Pimpinela De Cor Discreta: Ana Sofia Casaca e a Segunda Guerra em Portugal. Contra as fantasias restam-nos os factos e estes apresentam uma autora de inegável popularidade. As histórias sobre o Dr. Ozimandias ou passadas na terra misteriosa do Cabo das Tormentas atingiam a dezena de milhar de exemplares, o que era um feito num país tão marcado pelo analfabetismo. Ao contrário dos outros autores, Ana Sofia não precisava da escrita para fins de subsistência: escrevia porque queria, porque lhe dava prazer. E quando esse prazer desapareceu – mais explicitamente, quando Assunção se suicidou -, abandonou por completo a ficção e não voltou a publicar nenhum conto, não obstante as insistências dos fãs e dos editores. (...)


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LISBOA – DIA 1 Ela pensa que se não fosse tão profissional, estaria a rir-se da cara dele. Coitado. Sempre teve um ar baralhado, mas agora bordeja o ridículo. Está encostado a um candeeiro de rua, com um joelho levantado e outro flectido, a ver se não deixa voar os estratos do banco. Quando o chapéu de feltro lhe cai para a frente dos olhos, ela solta mesmo um risinho discreto. O seu precioso dinheirinho, o salariozito de professor, foi todo transferido para uma conta da Empresa. Da Empresa dela. Realmente, são uns meros amendoins na sua conta, mas de certeza que a ele, agora com dez escudos de saldo, lhe faziam muita falta. Se ele não fosse tão teimoso, não havia necessidade de tomar estas pequenas providências. Agora está desempregado e sem um tostão. Ela espera que ele não se desmanche quando descobrir que foi despejado e que a polícia anda atrás dele devido a uma dica anónima. Enfim, maravilhas da informação. O seu nome é Fiona. E o nome do seu alvo, agora falido, é Pedro Alves. O processo deste pobre diabo, deste português comum e invisível, não tem grande interesse. Mas a ela interessa-lhe precisamente por isso. Este homem é uma ode aos coitadinhos. Foi criado por uma tia que finalmente morreu o mês passado, o que ela considerou muito a jeito. E apesar de Sparks desconfiar que terá havido uma ligeira troca nos analgésicos para as artroses, ela até nem teve nada a ver com a morte da senhora. A primeira vez que Fiona olhou para a fotografia de Pedro Alves, agrafada a um envelope amarelo classificado, deu-lhe vontade de rir. Era uma foto dele a sair da faculdade e Letras de Lisboa, que logo desfez uma imagem pré-concebida mais abonatória do que a realidade. Quando leu na ficha exploratória que o sujeito tinha trinta e quatro anos, um metro e oitenta e oitenta e quatro quilos confessou a si própria uma certa curiosidade. Na foto viu um homem carregado de livros, óculos tortos no nariz e péssimo corte de cabelo. Está agora sentada numa esplanada em frente ao banco, a bebericar um chá e a apreciar o espectáculo em primeira-mão. Pensa que provavelmente não devia estar ali, mas Sparks já lhe falhara uma vez e ela queria as coisas bem feitas. Fiona espera que o Pedro Alves acabe de digerir o facto de que está na penúria. Como este homem é tão insonso e amorfo, calcula que depois de o fazer se sente algures à espera que o problema se resolva por obra divina. Mas em vez disso, vê-o a entrar muito rapidamente no banco. É uma pena. Esperava abordá-lo agora. Bebe da sua chávena e pede ao empre-

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Por Joachim Hunot

in Os Anos de Ouro da Pulp Fiction à Portuguesa

Que terrível segredo oculta o inofensivo professor lisboeta, pelo qual as duas agências de espionagem rivais estão dispostas a lutar... até à morte?!

gado, sempre a postos do seu calibre, um bolinho de arroz. O professor não deve demorar muito a sair. E quando sai, Fiona deixa escapar um sorriso. Está perdido. -Péssimas notícias, não é meu caro Alves? – pensa ela na sua língua materna. Durante todo este tempo, Fiona não o vê dirigir-se à cabina telefónica mesmo ao lado do banco. Pudera. Não tem um amigo no mundo. Uma alma caridosa que o socorra neste momento de aflição. Ela levanta-se e alisa a saia, coloca os óculos escuros e a malinha a tiracolo. Sabe que causa impacto visual. Que os homens levantam os seus chapéus ao vê-la passar, solitária e independente, rua acima. Mas duvida que Alves se impressione com a sua presença. O parvo está demasiado alienado para ver alguma coisa. Quando Fiona se prepara para abordá-lo, ele começa a andar e deixa-a para trás. Hesita. Sabe que isso não é costume, mas apanhou-a desprevenida. Obviamente não vai correr atrás dele nem chamá-lo. Então, fica pateticamen-

te a vê-lo dobrar uma esquina. Faz sinal à equipa para se retirar. Vai apanhá-lo noutra ocasião. Às seis da tarde, já estando Lisboa envolta num invernoso negrume, Pedro Alves passa pela Chapelaria Costa e entra no café Brasileira, na rua Garret. Fiona entra logo atrás. Sparks aborreceu-a a sobremaneira quando ela lhe disse que continuaria a tratar do assunto, principalmente porque havia alguns idiotas conhecidos no mesmo estabelecimento. Em menos de nada, há operacionais espalhados pelas mesas, de ambas as equipas, a ver quem conseguem caçar primeiro este palerma. Pedro Alves pede uma sandes de presunto e um café preto e gasta parte do seu modesto pecúlio. Agora a abordagem complica-se a ele ou instalar-se-á o caos. Cairão operacionais mortos de cada uma das equipas – e quiçá um ou dois civis – e o último de pé reclamará para si os despojos. Pelo canto do olho, Fiona vê um seu duvidoso conterrâneo entrar no café. O cabelo muito louro e curto, de aspecto

militar, destoando do fato escuro impecável e sobretudo preto, por debaixo do qual está com certeza escondido um arsenal de artilharia. Philip, o seu invejoso arqui-inimigo, resolveu comparecer no jogo apenas porque constava a presença dela ali. Ele senta-se numa mesa, mesmo por trás do professor, e lança-lhe um olhar cheio de significado, que ela recebe e retribui com perfeito entendimento. Existe uma mensagem subliminar em cada gesto. Um recado de que não vale a pena instalar a confusão num lugar público, à hora da enchente, com as mesas repletas de testemunhas. A presença dele á apenas um aviso. Um aviso de que onde quer que ela esteja ele estará também. Alves vai-se escapulindo, mal sabe ele, nas brechas que cria esta competição. Paga e prepara-se para sair. Philip sorri a Fiona de soslaio quando Alves desaparece para a rua. Está ali apenas para a impedir de ter o que quer. Para lhe limitar as opções. Mais tarde vai de certeza tentar caçá-lo. O ambiente está muito volúvel, mas existe um frágil, controlo de acções. São profissionais. Ninguém fará nada a não ser que Fiona ou Phillip o digam ou que haja alguma atitude declaradamente hostil. Agora o alvo acaba de sair porta fora, deixando para trás duas funções num impasse. Discretamente, ela faz sinal a um dos seus operacionais, que está junto à entrada numa posição hesitante, para seguir Pedro Alves. Tem a certeza de que Phillip faz o mesmo, pois vê-o lançar um gesto semelhante. Porém, assim que ela acaba de dizer algumas palavras, ouve-se o ruído de pneus a chiar no exterior. E tiros. Fiona precipita-se para fora do café com Phillip quase ao seu lado, não parecendo um inimigo mas quase um colega. Lá fora, ela aponta-lhe a arma à cabeça e ele faz um ar surpreendido antes de se atirar para trás de um contentor do lixo. Fiona grita enquanto se esconde também, atrás de um marco do correio. - Bonito serviço, Phillip! Um dos carros da equipa de Fiona intercepta um Ford preto, travando com grande alarido à sua frente. Os carros que são apanhados na confusão, fazem rapidamente inversão de marcha e desaparecem. Não tarda chegará a polícia. Sirenes, mais confusão. Há atiradores nos edifícios, de ambos lados. Fiona sente-se exposta. Pensa que não devia ter-se metido naquilo tão abertamente. Ambos os carros sofrem uma chuva de projécteis mas por enquanto não há baixas. Sparks comunica-lhe que o alvo está dentro do Ford preto. Enfiaram-no lá dentro assim que saiu do café. E ela chama interiormente nomes a Phillip, por ser um verme tão rastejante. Com aqueles sinais todos de que não se ar-


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maria confusão, apenas para a atraiçoar pelas costas. De facto, e dadas as circunstâncias, traição não poderá ser propriamente incluída no role de ofensas levadas a preito, mas mesmo assim custa-lhe um jogo tão sujo. O Ford faz marcha-atrás e tenta evadir-se por uma lateral, queimando borracha. A coisa terá de acabar em cinco minutos, no máximo, de uma maneira ou de outra. Depois a rua permanecerá deserta. São essas as regras, Sparks encosta uma segunda viatura ao passeio e apanha Fiona. Se o Ford se meter à estrada vai ser o cabo dos trabalhos. O carro oeste tenha bloqueá-lo mas Phillip antecipou a cena com o tempo e uma quarta viatura embate violentamente na lateral da terceira, fazendo-a chocar contra uma parede. O Ford prega o fundo, passa um cruzamento e ouvem-se travagens e buzinas a protestar. Foram-se. Não vale a pena segui-los. As coisas não funcionam dessa maneira. Fiona e a sua equipa retiram-se calma-

mente cada um pela sua rua. Ao longe ouve-se o barulho de sirenes. Agora terá de negociar com Phillip. POLO PORTUGUÊS DA EMPRESA, LISBOA – DIA 1 Nessa mesma noite, a linha azul toca. É a linha reservada às comunicações entre a equipa de Fiona e a de Phillip. É certo que são inimigos viscerais, mas isso não significa que não se comportem como pessoas civilizadas. Ela surpreende-se que Phillip faça um contacto tão prematuro. Normalmente ele gosta de se fazer difícil, mas ela já sabia que ele acabaria por falar consigo. Fiona atende de pé, na sala de operações, com os outros a olhar para si. Ele fala, mesmo antes de ela dizer alguma coisa. Quase que se poderia dizer que conhece a sua respiração. - Saudades minhas, Fiona? E mesmo assim deixaste tocar três vezes – diz ele do outro lado da linha. - Sempre atento aos pormenores, não é Phil? - responde ela – Pensei que me fosses ligar só de manhã. Estás ansioso?

Ele solta um risinho, como um miúdo que acabou de fazer uma maldade. - Eu não gosto de fazer as mulheres esperar. - Então não me faças esperar, e entrega-me o que é meu. - O quê? Este pequeno maltrapilho? – diz ele. – Ao menos deixa o homem recompor-se primeiro. Ela faz a pergunta que se impõe muito calmamente, Phillip gosta de rodeios, Fiona nem por isso. - Então o que queres? Todos ouvem a voz dele ecoar na sala de operações. – O que te faz julgar que eu quero alguma coisa? Posso simplesmente estar a saborear a vitória de uma forma... digamos... mais sublime. -Se queres saborear vitórias, joga ao Monopólio. Não me faças perder tempo, idiota.

-Sim, eu sei. Eu pago-te o arranjo do Chrysler. As peças são caras. -Ou eu perdoo-te a dívida e tu devolves-me o alvo. Phillip ri-se. – Tentador, tentador. Mas não, obrigado. -Então o que sugeres? -Uma parceira. – responde ele – E um jantar. Pagas tu. Ao seu lado, Fiona olha para Sparks e vê-lo esboçar um sorriso. Aquele velho diverte-se com coisas sem graça. Volta a sua atenção para a conversa telefónica. - Muito bem. Mas vem sozinho. - Combinado. Desde que tu venhas também.

Fiona odeia Phillip de todo o âmago, até ao átomo mais insignificante da sua existência. Odeia falar com ele, odeia aquela linha azul. Ela não trabalha como ele, que se limita a enfiar num carro aquilo que bem entende. Ela dá-se ao trabalho de destruir a vida de Pedro Alves primeiro. E agora ele leva o troféu. - Ainda bem que me chamas idiota. Os idiotas estão cheios de ideias, o que é mais do que se pode dizer em relação a ti – responde ele. Fiona adivinha-lhe – responde ele. Fiona adivinha-lhe um estúpido sorriso nos lábios, e um monte de gente a rir-se na retaguarda. - Deves-me uma conta no mecânico. Quando se está em desvantagem pode-se fazer duas coisas. Tentar forçar o que se quer ou recuar e esperar por uma oportunidade. Fiona sabia que Phillip não podia ser forçado, e também que o seu contacto tinha um claro propósito. A negociação. E para Phillip, os rodeios estão para negociação como os preliminares estão para o sexo.

lisos até ao meio das costas, stilettos italianos. Esguia como um felino, atravessa as arcadas douradas e vê Phillip sentado numa mesa discreta, de fato e gravata, sobre a vista panorâmica da Baixa Lisboeta. Fiona olha discretamente em volta e não vê ninguém com aspecto de reforço. Phillip cumpriu a palavra. Para variar, veio sozinho. Porém, sente o olhar de caçador da sua própria equipa, dispersa em duas ou três mesas. Phillip não merece que respeite qualquer acordo. Senta-se lentamente na cadeira à frente dele, com cerimónia, e põe-se a olhar para ele em silêncio. Quando o anfitrião se afasta, Phillip faz-lhe uma pergunta seca. -Vieste sozinha? -Sim – responda ela. Ele sorri. – És tão mentirosa, Fiona. -Diz o roto ao nu. Ele encolhe os ombros.

O CHAVE DE OURO LISBOA – DIA 2 Nesse noite, entra uma mulher de vestido preto no piso do Chave de Ouro reservado ao restaurante. Cabelos soltos,

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– E injusta também. Não trouxe ninguém comigo. Fiona ergue uma pontinha do lábio. – Aqui ninguém fala russo? Phillip enfia uma mão no interior do casaco e Fiona ergue uma sobrancelha. Subitamente, fica rígida. Depois, ele retira um papel dobrado que coloca em cima da mesa e empurra com um dedo na sua direcção. É um cheque. - Para pagar os estragos – explica ele. Ela pega no papel, guarda-o dentro da mala e sorri falsamente. Não agradece. Aproxima-se um empregado e isso parece fazer Phillip calar-se. Enche os copos em silêncio. Quando ele se afasta, Phillip e Fiona trocam um olhar. Fiona fala com um tom de voz provocatório. - O que fazes em Portugal? Pensei que te agradavam os climas mais frios. Phillip sorri desinteressadamente, como se tivesse dado pouca importância à indirecta. - Venho oferecer-te uma parceria.

Ela pousa o copo e passa a pronta da língua nos lábios húmidos de vinho tinto. – Tu não fazes parcerias com os Estados Unidos. Phillip pega num palito de pão e trinca-o sem grandes cerimónias. – No que se refere às minhas conveniências, não sou de fazer discriminações. - Às tuas conveniências? Ou às conveniências de quem te compra? Ele fica a olhar para Fiona, com uma bochecha cheia de pão. Mas não parece muito afectado. - Uma parceria igualitária. Cinquenta-cinquenta. Fiona recosta-se para trás e sorri com os olhos escuros. O olhar do operacional triangula na sua face. - Ah sim?


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Phillip bebe do copo sem desviar o olhar de Fiona. – Se queres o professor, não aceito menos que isso – diz ele secamente. Fiona repara que o agente deixa de sorri. Já conhecia a táctica dele. É sempre a mesma coisa. Conversa fiada ao início e depois acabam-se os sorrisos. É como ele quer, ou nada feito. -E se eu não aceitar? Sabes usar o homem? Sorri e abana a cabeça, divertida. Ele observa-a muito concentrado. Está à espera que o esclarecimento melhor. -Sem mim, o professor não te vale de nada porque não sabes o que eu ia fazer com ele – explica ela num tom coloquial. - Quem é que diz que não sei? Fiona lança-lhe um olhar enviesado. O bluff não pega. Ele devia saber disso, mas é teimoso. - Digo-te eu. - Não é verdade – responde ele, encolhendo os ombros. - Então prova-o. Prova que sabes o que quero fazer com o professor. Diz-me. Phillip ri-se mais uma vez. Se se está a rir é porque está a voltar atrás. Não está seguro. O seu olhar foge um pouco para o lado. Mas o de Fiona está perfeitamente direcionado ao seu rosto. - Não tenho de te provar nada. Eu tenho o professor. É meu. “É um miúdo. Um miúdo com uma arma grande” – conclui Fiona em pensamento. Ela inclina-se ligeiramente sobre a mesa, na direção do seu interlocutor. Os braços apoiados, esticados sobre a toalha, como se lhe fosse tocar. - Dá-me o professor e eu penso numa forma de te recompensar. Phillip reclina-se para trás, desconfiado. Ergue-se-lhe um sobrolho e Fiona vê um ligeiro reflexo nas suas íris azuis. - Essas promessas são muito vagas. – diz ele - E tu tens uma talento muito especial para brincar com as palavras. Fiona encolhe os braços bruscamente. Emborca o resto do vinho, pega na mala e levanta-se. -Então fica com o homem. – diz ela. – Diverte-se. Phillip não diz nada nem se mexe. O seu rosto é pedra, os sobrolhos carregados, escurecidos. - Senta-te. – pede ele. Fiona senta-se Xeque-mate. Aguarda que ele engula o orgulho, enquanto acaricia o queixo com os nós dos dedos. Já é difícil não deixar despontar um sorriso genuíno. - Muito bem. Baixo a minha participação nos lucros para quarenta por cento. - Vinte. - Trinta. Senão vou ter de mandar o professor para a universidade dos anjos. A ameaça era a sério. Phillip tinha uma

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veia no pescoço muito saliente, prestes a explodir. Fiona sorri. - Aceito. AERÓDROMO PARTICULAR DIA 3 O professor Pedro Alves está ligeiramente mal tratado. Os dois olhos negros, uma perna a coxear, nódoas negras nos braços. É o que se vê com ele vestido. É óbvio que Phillip já tentara arrancar a informação ao professor mesmo antes de jantar com Fiona. Mas a pancada não deu resultado, e quando passou aos químicos o resultado foi o mesmo. O homem não

sabia de nada. Não sabia o que queriam de si porque Sparks tinha sido suficientemente vago quando falou a primeira vez com ele, numa tarde ensolarada, no seu gabinete na Faculdade de Letras, com a proposta de uma expedição muito misteriosa. Foi por isso mesmo, por Sparks lhe ter parecido tão esquisito e cheio de segredos, que Alves fugiu dele como o diabo foge da cruz. Agora vê-se envolvido naquela teia de mistérios, com aranhas norte-americanas e russas, vestidas com fatos escuros e óculos igualmente escuros em cada intersecção dos fios. E há uma mulher que está constantemente a olhar para ele. Uma mulher alta, com um ar perigoso, que lhe causa uma sensação de estranha familiaridade. Dentro do avião tiram-lhe o saco preto da cabeça e as algemas, e empurram-no para baixo fazendo do carga num ombro. Bate com as nádegas com força num assento solitário ao pé da janela. Discretamente, empurra uma nesga da cobertura da vigia para cima e tenta espreitar o exterior. Não faz ideia de onde está e para onde o vão levar. Sente um medo súbito, um formigueiro no peito e

dá um salto no banco quando a mulher se senta ao seu lado e lhe sorri. Alves volta a fechar a nesga e vira-se para a frente, aborrecido. - Sente-se bem? – pergunta ela. Alves quer responder mas por estar tantas horas calado, a voz falha-lhe e sai-lhe um ridículo piar. Fiona retira de uma pasta encostada ao assento da coxia um ficheiro com papéis. Depois, abre uma bolsa dourada e retira lá de dentro uns pequenos óculos de aros borboleta. Coloca-os enquanto Alves a observa pelo canto do olho. Apesar de provavelmente tresandar a perfume francês, aquela mulher não lhe cheira nada bem. Causa-lhe mais receio do que os gorilas que o encheram de pancada. Como se fosse uma médica psicopata. Fiona dirige-lhe a palavra sem sequer olhar para ele. - É um voo comprido... Se quiser descansar há uma cama lá á frente. Alves vira o rosto para ela, estupefacto com a simpatia. Ela tem uma voz calma e baixa, feminina e quase meiga. Não condiz com o seu aspecto de víbora corporativa. Pensa se deve ou não encetar conversa. A última vez que tentou fazer perguntas acabou enrolado no chão e com o nariz torto. Aqueles tipos são mais do género

de fazerem eles as perguntas. Mas arrisca. - Pode dizer-me para onde vamos? Fiona tira os óculos e recosta-se no banco. Fecha os olhos e responde. - Índia. – murmura ela - Goa é linda nesta época. Ela dormita ao lado do professor percebendo o incómodo que isso devia causar ao homem. De vez em quando sente-o mexer-se no assento, irrequieto. Mas em vez de se aborrecer com isso, agrada-lhe sentar-se ao lado de uma pessoa normal. O ambiente no avião está tenso. Os passageiros parecem adeptos de clubes rivais aprisionados no mesmo autocarro por falta de verbas. Mas numa das vezes em que Fiona se levanta para beber um café, vê Amanda a conferenciar com um elemento desconhecido. Depois vê que é Phillip ligeiramente inclinado sobre si, como se ela tivesse algum problema de audição. Quan-

do Amanda repara que Fiona se dirige para lá, endireita-se e deixa cair o sorriso. Fiona passa por eles e agarra discretamente Amanda por um braço. A segunda não oferece resistência. O efeito seria o mesmo se Fiona a tivesse agarrado por uma orelha. - Não te quero a falar com ele. – sussurra ela perto do ouvido da outra. – Vai-te sentar e fica quieta. - mas... - Fala inglês? Ou preferes que fale em russo? - Não – titubeou Amanda. - Então esse “mas” é o quê? Burrice? – rosnou Fiona. – Faz o que te dizem. - Não é justo. Eu só estava... -Coisas da vida. Por isso cala-te. Troca um olhar com Phillip antes de lhe virar as costas. Ele ri-se. Pedro Alves está também a olhar por cima das costas do banco da frente, mas depois a sua cabeça desaparece num ápice. Quando Phillip se senta num banco mais à frente, Fiona vem sentar-se ao pé dele. Ele está distraído a olhar as nuvens fofas lá fora e não lhe dá atenção. Fiona olha para as costas do banco da frente e emite um som baixo. - Se não paras de falar com os elementos da minha equipa, acaba-se o acordo, ouviste? - Não sejas paranóica. Estava só a confraternizar. A viagem é aborrecida e tu ainda não paraste de dormir – volta a cabeça e sorri simpático. – Por isso tinha de falar com outra pessoa. Fiona assente hipocritamente com a cabeça. – Claro. Só não voltes a fazê-lo. Ah, deixa de ser mandona! – a voz dele aumenta de tom. Não era normal Fiona esquina-lhe um olhar desconfiado. - Enquanto estiveres no meu avião, sou eu que dou as ordens. - Então dá uma ordem a ti própria e desampara-me a loja. Fiona sente o coração a bater mais forte. – Baixa a voz. És patético. - Não. Tu é que és patética. Ela simula uma pequena reflexão e emite uma conclusão. - Não... não me parece. Tu é que és patético. Fiona modera um impulso defensivo quando Phillip aumenta de tamanho e se inclina quase totalmente sobre si. - Por favor, Fiona – diz ele – Tem algum amor próprio e desaparece. Agora, não tenho disposição para ti. Phillip diz isto propositadamente bem alto, e Fiona sente-se ficar vermelha. Vermelha de raiva e de vergonha. O despudor daquela figura! Sparks passa por ali e lança um género de interrogação muda. - Estás avisado! – retalia ela no mesmo volume. É o melhor que lhe ocorre para


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I D E I A S F O R T E S

sair dali ainda com alguma dignidade. Phillip solta uma gargalhada. – És brilhante! Antes de encerrar o assunto, Fiona passa por Sparks e comunica. - Vê-se manténs a Amanda debaixo de olho. Phillip andou sempre demasiado bem informado. CAMINHO PARA OS GATES OCIDENTAIS, ESTADO DE GOA DIA 4 Estação quente e húmida. As equipas partiram da cidade de Pangim, onde se abasteceram de mantimentos e contrataram uma guia e carregadores. O contacto goês da empresa de Fiona, numa infalível competência, tinha já providenciado transporte aos recém-chegados e , assim, uma procissão de jipes partiu do pequeno aeródromo na periferia na cidade. Para evitar que o aparato militarizado chamasse as atenções, utilizaram estradas secundárias. E em pouco tempo, estavam já embrenhados numa labiríntica rede de caminhos onde aparentemente só os elefantes teriam tracção suficiente para a avançar. Dois dos “jeeps” militares americanos estão atolados na lama há já uma boa meia hora. Um sol baixo, calor húmido escorrendo pela pele e empapando camisas. Bichos esvoaçantes no ar, poléns gigantescos, cheiro a terra. E comichões na pele, por todo o lado. O professor está branco e mal disposto. Ainda ninguém lhe disse o que está a fazer na Índia, num caminho de lama no meio do mato. Ali, nos confins rurais indianos, sente coisas que nunca tinha sentido antes. A cabeça prestes a rebentar, a pulsação em todo o lado, a borbulhar nas veias. Fiona está mais à frente, encostada a um jipe, a conferenciar com Sparks. Phillip está a olhar para uma das viaturas como se apenas pela força do pensamento conseguisse tirá-la do buraco de lama. Há operacionais e contratados locais a empurrar os carros. Até parece uma equipa unida, se não se soubesse a verdade. Alves sente uma súbita vontade de ir à casa de banho e fica atrapalhado. Quando Fiona se dirige para ele, com as botas de cano alto enfiadas na lama e preito generoso projectado na sua direção, ainda a vontade lhe parece mais urgente. - Venha para aqui – diz ela – Preciso de falar consigo. Alves titubeia. – Hum... não sei se posso. Tenho... Ela cala-se e fica à espera. - Preciso de ir à casa de banho – diz ele por fim. Fiona olha em volta, os braços cruzados à frente do peito. – Não há casas de banho aqui. Ainda não reparou? - Pois. Mas preciso de ir. A Natureza pede. Ela olha-o de alto e baixo, sem se mexer. – Então está à espera do quê? Faça o que tem a fazer. Alves encolhe-se no mesmo sítio. Que cruel que é aquela mulher. - Eu não consigo fazer aqui, não acha? - Pois, lamento. Mas neste momen-

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to não há ninguém disponível para o acompanhar numa excursão arborícola – descruza um braço e aponta com a mão para os jipes atascados. – Como vê, estamos todos ocupados. O professor sente a bexiga inchar dentro do ventre. Os nervos também não ajudam nada. Fiona continua à espera que ele resolva o problema sozinho. - Ouça – diz ele com um rasgo de coragem. – O inadiável - O tempo que estamos aqui a conversar já dava para eu ter ido ali atrás. É rápido. Se quiser venha comigo. Fiona fita-o, pensativa. Alves olha para ela, expectamente. - Muito bem. Mas que seja rápido. Empurra o professor para dentro da ve-

abertos. Ele não vê nada, mas corre como se não houvesse amanhã. Ouve a mulher a correr atrás de si, a ofegar. Ele salta por cima de arbustos e raízes, raspa em árvores camufladas por trepadeiras, salta supressões na terra. Ela faz o mesmo. Agora sente-se caça no seu exponencial. De repente, chega-lhe o som de gritos. Parar é impensável. Quando esfrega um olho com uma mão, colide com alguma coisa. Sente uma momentânea sensação de incredulidade e cai desamparado para trás. Há uma enorme árvore à sua frente. Acto contínuo, Fiona cai em cima de si como um gato em cima de um rato. Alves debate-se. Por sorte, Fiona não está armada. Mas

a cabeça de Alves contra uma raiz. Ele sente os lábios rebentados e a testa dormente. Sabe que está perdido quando ouve a voz de Phillip gritar pelo nome de Fiona. A folhagem, mexe-se e saem operacionais de todo o lado, com as armas apontadas e prontas a disparar. Phillip é o primeiro aparecer. Mas não vem armado. Antes viesse. Quando Fiona vê que os reforços chegaram, larga o professor e levanta-se. Tem um arranhão na sobrancelha por onde escorre um fio de sangue. O professor vira-se atarantado de barriga para cima e tenta respirar. Mas, vindo do nada, cai em cima de si um peso enorme que lhe faz expedir todo o ar dos pulmões.

getação. Ele continua a andar muito depressa sem dar sinais de parar. - Já chega – avisa Fiona – Não precisa de voltar a Pagim para fazer o seu serviço. Alves volta-se de costas e faz pontaria a uma árvore. Fiona baixa a cabeça, à espera. O professor faz o que tem a fazer e fecha a braguilha. No entanto, não se volta logo. Começa a ofegar. Não aguenta mais. É muito para ele. Já chega. A visão desfoca-se, o suor pinga-lhe do nariz. O sapato derrapa na terra e ele sai disparado selva adentro. Corre. Tem de correr e nunca mais parar. Sair dali. Ouve Fiona atrás dele e um insulto chega-lhe aos ouvidos. Não interessa. Vai fugir ou morrer na tentativa. Corre, desviando a vegetação com as mãos. Tudo o que vê é uma massa verde. Ramos espinhosos agarram-se-lhe às calças e aos braços nus. Folhas chicoteiam-lhe os olhos

é um osso duro de roer. Ela bate-lhe com força na cara. Enquanto levanta os braços para se defender. Alves vê-a a cerrar os dentes. O cabelo empapado em suor cai-lhe para o rosto. Os olhos fitam-no, muito abertos e brilhantes. Num esforço derradeiro, Alves vira-se sobre si e consegue atirá-la para o lado. Fiona faz um esgar quando cai de costas no chão. Mas o professor não a ataca. Levanta-se e prepara-se para continuar a corrida. Porém, o impulso é interrompido por um aperto na perna. Fiona está virada de barriga para baixo, com os dedos crivados no tecido das suas calças, e nalguma pele também. Puxa-o para si selvaticamente. O professor escorrega na folhagem fofa do solo e cai com o queixo no chão. Fiona aproveita e trepa para as suas costas como um aranhiço. Brutalmente, empurra incontáveis vezes

- Seu patife! – ouve Phillip berrar aos seus ouvidos. É esmurrado sucessivamente. E então fica tudo escuro... Ao ENTRAR NA SELVA INÓSPITA DAS GATES OCIDENTAIS, O GRUPO TEM APENAS UMA CERTEZA: NEM TODOS VOLTARÃO A SAIR. O QUE SABE O POBRE PROFESSOR? QUE SEGREDO TÃO TERRÍVEL LEVOU DOIS INIMIGOS DE LONGA DATA A COLABORAREM? PORQUE ESTÁ O MUNDO EM PERIGO? E A PERGUNTA MAIS IMPORTANTE: QUAL DELES VAI MORRER? NÃO PERCA NO PRÓXIMO NÚMERO A EMOCIONANTE CONCLUSÃO DE A EXPEDIÇÃO DOS MORTOS!


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U T O P I A S

O MAR DE LEITE Carlos Morais JosĂŠ


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F R Á G E I S

AS ILHAS Lacdivas formam um arquipélago a cerca de quinhentos quilómetros da vetusta cidade de Cochim, em pleno Oceano Índico. São trinta e cinco pontos de areia na vastidão do Mar Arábico, o maior dos quais não ultrapassa os três quilómetros quadrados. É possível imaginar que Vasco da Gama, na sua primeira viagem, aqui se tenha abastecido de água e cocos, já que pouco mais poderia encontrar. Os escassos habitantes são muçulmanos, orgulhosos e de poucas palavras. As mulheres evitam os estrangeiros. A ilha de Agatti é rodeada de uma barreira de coral que, estabelecendo um semi-círculo, ali criou uma laguna de dimensões consideráveis. Na praia, a areia é extremamente branca, produto dos corais mortos, desfeitos ao longo de milénios, por acção de um mar sazonalmente enriquecido pelas monções. Em Outubro, quando as estreitas línguas de terra começam finalmente a secar sob um sol por vezes inclemente, levanta-se ainda assim, de vez em quando, uma forte brisa que enca-

pela o mar. Nessa altura, as ondas revolteiam a areia e esta parece dissolver-se, ficando em suspensão. O resultado é uma água leitosa, onde a cor branca toma o lugar do verde ou do azul, consoante os caprichos do céu. Agora opaco, esse mar de leite surpreende o viajante incauto, ignorante do fenómeno.

-sol, habitado pela vergonha, a percepção da fealdade, a miséria do pensamento, o tormento da voz que não se cala, nem quando o sol muito vermelho mergulha no mar, fazendo tchhhhh... e acende o crepúsculo nesse abraço. Dormirá nas ondas e não acordará. Oiço ainda, ao longe, as canções rudes dos marinheiros. Eles cantarão noite fora e esse canto fará todos os dias renascer o mundo.

O poente sobre o mar

Já em Cochim, o professor Karmavicalum, responsável por um grupo de teatro tradicional de Kerala, conta que esse leite provém dos seios de Parvati, a divina esposa de Shiva, que tendo dado à luz um rapaz já crescido não teve necessidade de o amamentar. A deusa terá derramado o seu leite naquela ilha, tornando brancas as águas do mar. – Sabe, meu amigo – dizia o professor – há mulheres que ali procuram a fertilidade. Já os homens se devem abster de lá nadar, sob pena de adquirirem atributos femininos. E acrescentou com um sorriso: – Se lá nadar não beba café: é sabido que, misturado com leite, faz muito mal ao fígado.

Soletram os marinheiros, na sua língua muito própria, canções à morte do sol, sorvida de um navio em alto mar. Aqui neste pequeno atol, perdido no meio do Índico, as nuvens estriam o horizonte em cores e planos, naquela matemática natural que faz do mundo o lugar certo para nascer, amar e morrer. Quantas vezes nascemos, quantas amamos e quantas morremos? Nenhuma, respondem as nuvens avermelhadas. Há um segredo que as tintas extáticas escrevem no céu. Perguntei à venerável tartaruga se me podia responder mas ela mergulhou na laguna, indiferente ao tempo e ao poente. Fiquei sozinho, enquanto a lua adoentada não surgiu nos céus. Depois do pôr-do-

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D E P R O F U N D I S

a revolta do emir

Pedro Lystmann

O M BAR E O THE CHINNERY Consciente de que o exercício do serviço público, tão descurado em Macau, trará à sua população irrecusáveis avanços, mesmo que subtis, este jornal continua a enviar a Hong Kong o vosso fidelíssimo servo com o intento único de, no maior rigor, poder indicar aos seus estimados leitores os lugares onde com mais certeza poderá encontrar mixórdias cuja apreciação seja excelente. Do bar Ozone já se falou, mais a propósito do espírito de ousadia que anima o conjunto arquitectónico em que se integra, imune à punição das Erínias ou de Nemesis, que propriamente das suas bebidas. Um texto ser-lhe-á certamente dedicado que sobre estas se debruce. Nesta cidade só um tolo pode falhar e eu sei que posso ser acusado de facilidade ao escolher lugares onde um martini mal feito poderia ter implicações diplomáticas. Comparar Macau com Hong Kong mais do que cruel seria completamente despropositado. Macau é uma cidade única, com muitos encantos, mas a sofisticação urbana não se conta entre eles. Tem outros. Comparar os hotéis Mandarin dos dois territórios só convém a perceber quanto o de Hong Kong faz parte da história dos seus últimos 49 anos e quanto o de Macau reflecte uma florescência local que é recentíssima e que não deixa de ter o seu charme próprio. Esta pode ser uma das ironias da cidade, o de ter tido uma história tão rica e longa de contacto com povos de proveniências diversas mas não ter preservado qualquer relíquia hoteleira (mas isso será assunto para outra instalação). O autor destas linhas, sem propensão para nostalgias de quaisquer natureza, apresentem-se estas em forma de sabonete ou hotel, não rejeita a emergência do novo, apenas a emergência e a re-emergência da mediocridade.

Não é a primeira vez que aqui se fala do M bar mas outras prioridades têm-se insinuado de modo imparável no desejo de mais sobre ele me estender. Pretendia mostrar-se a excelência da oferta bebente deste hotel, tão central à vida da cidade. Falou-se já do vibrante Captain’s Bar, sito no rés-do-chão. O M bar encontra-se no vigésimo quinto andar. A sua lista de bebidas não é extensa, não estando constantes as misturas mais usuais – que serão feitas, no entanto, de modo impecável se o cliente a isso se dispuser. O que existe são outras misturas menos conhecidas. Por exemplo, a oferta de martinis está, no M bar, muito para lá das suas expressões mais clássicas. Não entro em minudências quanto às suas confecções porque não é aqui lugar para isso. No entanto obrigo, por exemplo, ao Earl Grey Mar-tea-ni ou ao Lime Quay. A punjência da bergamota aplicada ao gin (no primeiro) não é nada de novo, mas é uma excrecência que surpreende sempre, e que aproxima este trio do sublime. O gengibre, junto ao Galliano e ao rum, na segunda mistura, é inesquecível, um ataque triunfante de violino neste quarteto até aí de uma tranquilidade quase bucólica. Mas mais que a excelência dos mixordeiros o que eu gostava de ver reproduzido em Macau é a prática do encontro ao fim do dia. Não sei de onde vem esta incapacidade para a comunicação que se apercebe em Macau. Será uma característica epocal ou um traço mental local (mas tal não acontece em Hong Kong)? Estará relacionada com as novas tecnologias e a falta de tempo? Existem em Macau várias formas de convívio, algumas delas comoventes, como o hábito do iam cha familiar de fim de semana ou da sua forma mais informal durante a semana, barulhento, tremendamente afectuoso, de uma elegância popular em que a população local

é exímia, uma forma de comer que reflecte de modo perfeito a generosidade, a alegria de viver e a imensa vitalidade deste povo meridional. Como diz André Balazs no último número da revista Acne Paper, inteiramente dedicado a Manhattan, a essência de um bom hotel é ser o centro de uma comunidade e o Mandarin de Central assume exactamente esta capacidade. Nele se cruza uma estimulante multidão de bebentes e conversantes, no seu lobby, nos bares de que já nestas páginas se fez anúncio, ou nos inúmeros restaurantes que ele oferece. Um destes lugares é difícil de definir. É o The Chinnery. O Chinnery não é exactamente um bar mas serve os propósitos de um. Aqueles que mostrarem propensão para os maltes, por exemplo, têm à sua disposição uma vastíssima escolha (mais de 120 entradas). Foi, de início, um clube exclusivo para cavalheiros, só tendo começado a aceitar senhoras depois de remodelado (em 1990), um historial estúpido cujas inanidades felizmente já não se praticam. Mas permanece um ambiente semelhante. É uma pequena salinha, sem janelas mas muitas madeiras e cabedais, muito confortável, com um número de mesas que convida ao recolhimento ou à conversa. Não tem mesas grandes e é ideal para comer e beber sozinho ou em pequenos grupos. Tal como o Captain’s Bar nele se servem cervejas à pressão em recipientes de metal e comida indiana. Não consigo pensar em melhor seguimento a uns martinis no M bar que o usufruto confortável e informalmente exclusivo da sua suculenta ementa internacional, indiana e britânica. Basta abandonar o M bar e a sua gente feliz e descer uns andares para continuar uma conversa que pode, nesta altura, conter já rasgos de ousadia oh you, Sisters of Perpetual Indulgence.


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À S U P E R F Í C I E

próximo oriente

Hugo Pinto

CORNELIUS: A MÚSICA DOS SONS Com maior ou menor dose de melomania, quem ouve música com frequência certamente já se terá questionado, pelo menos uma vez, sobre qual o melhor sítio ou a melhor circunstância para dar azo a essa singular necessidade: escutar a “organização de sons com intenções estéticas, artísticas ou lúdicas”, como diz o dicionário para definir o substantivo feminino chamado “música”. Sabemos há muito que “o meio é a mensagem” e que o “estilo”, ou a “forma”, não apenas moldam como também transformam o “conteúdo”, mas tendemos a esquecer estas evidências que se manifestam nas mais pequenas coisas e que, afinal, fazem as maiores diferenças. Felizmente, temos Keigo Oyamada para nos ajudar a lembrar a importância dos detalhes e a nunca negligenciar o ideal. Desde que fez parte dos Flipper’s Guitar, banda que marcou o movimento “Shibuya-kei”, na viragem da década de 1980, Keigo Oyamada (mais conhecido por Cornelius) tem sido irrepreensível na tarefa dedicada a afirmar a sua música como, antes de tudo, arte e técnica de combinar, registar e reproduzir os sons, tornados entidades tangentes, sensuais, texturas que se confundem com ambiências angulares e, por vezes, vertiginosas. Pop, rock, jazz, electrónica e muito

mais, tudo isso é perceptível no caleidoscópio que Cornelius acciona aliando sagazmente tradição e vanguarda. A música deste japonês (descrito pela editora norte-americana Matador como o “mais inovador e respeitado” músico do País do Sol Nascente) funciona, pois, como um organismo vivo, com múltiplos tentáculos mexendo-se em diversas direcções e com intensidades diferentes. Um mundo de mundos. O exemplo mais eloquente de uma “trip à la Cornelius” talvez seja, ainda, “Fantasma”, disco de 1997 – uma montanha russa com passagens pelos anos 1960 dos Beach Boys ou pelos anos 1980 dos My Bloody Valentine, pelo hip-hop japonês, pela “spoken word”, pelos samples e pelas guitarradas. E tudo flui neste disco em que Keigo Oyamada, na altura com 27 anos, tocou cada instrumento ouvido no álbum, o terceiro assinado como Cornelius. Todavia, não há bela sem senão. Entre 1994 e 2006, Cornelius editou apenas cinco discos. Ou seja, passaram já seis anos desde o último. Demasiado tempo. Como nem tudo é mau (não poderia ser), Keigo vai entretendo as massas com remisturas avulsas que tem compilado numa série de edições a que deu o nome genérico de CM. No final deste verão saiu CM4, cerca de 4 anos depois do ter-

ceiro tomo. A mais recente colectânea colhe temas trabalhados entre 2005 e 2012. Ao todo são onze versões de nomes como Yoko Ono Plastic Ono Band, Tomoyasu Hotei, Maki Nomiya, Beastie Boys, MGMT, Lali Puna ou Arto Lindsay. Quem conhece a obra de Cornelius, na inadvertência de escutar este disco sem outra referência que não o nome que o assina pensaria tratar-se de um novo álbum de originais do japonês. Em CM4 estão preservadas as propriedades que remetem as músicas para os seus devidos autores, mas Cornelius consegue incutir cunho pessoal em cada nota, da desbunda “krautrock” de “Battle Without Honor Or Humanity”, original de Tomoyasu Hotei que abre o disco, até à “enka” (género tradicional de baladas sentimentais) dos tempos modernos de “Akatonbo”, de Haruo Minami, passando pelo techno pop refractário de “The Sun Is Down!”, de Yoko Ono. Ainda excluída destas antologias de remisturas continua a fantástica “Cue”, um original dos pioneiros Yellow Magic Orchestra que Cornelius incluiu no “single” Breezin’, extraído do álbum “Sensuous”, de 2006. Mas (e lá está, volto a um provérbio chinês já aqui trazido) as pérolas não se encontram na costa, é preciso mergulhar para as encontrar.

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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

metrópolis

Tiago Quadros*

O CAMPUS DE XIANGSHAN NUMA GRANDE área aberta de cerca de 530.000 m2, a sudoeste da cidade de Hangzhou, está implantado o campus de Xiangshan, uma extensão da Academia Chinesa de Belas Artes, projectado pelo Amateur Architecture Studio – colectivo liderado pelos arquitectos Wang Shu e Lu Wenyu. Um conjunto de edifícios cerca a colina arborizada, designada de Xiangshan (Montanha do Elefante), ponto central na organização do projecto do campus. O padrão original e secular de fronteiras agrícolas e canais ligados ao rio Qiantang, foram usados por Wang Shu como referência para a subdivisão dos lotes, enquanto que os canais ainda são utilizados para a irrigação e cultivo dos campos que envolvem o campus da universidade. A concretização do campus foi organizada em duas fases, temporal e tipologicamente distintas. A fase I (2001-04) e a fase II (2004-07) correspondem a duas áreas separadas, a norte e a sul da colina respectivamente, que Wang Shu equipara aos dois estilos de caligrafia chinesa: a fase I mais próxima do Kai Shu (escrita standard) com prédios e pátios compostos por volumes geométricos puros e regulares; a fase II com referências ao Cao Shu (escrita livre) em que cada edifício transmite a sua própria forma e linguagem. Os edifícios que integram a fase II definem-se como protótipos de novas tipologias arquitectónicas, revelam-se enquanto variações contemporâneas de modelos clássicos orientais, como pagodes, templos e pátios. Os volumes desenhados por Wang Shu são modelados sobre a natureza, por entre telhados inclinados, caminhos e escadas sinuosas, janelas que irrompem com contornos irregulares. As vistas sobre a paisagem, a partir do interior do campus, sugerem um estado de contemplação da natureza equivalente ao representado nas pinturas da Dinastia Song, outra referência fundamental no projecto de Wang Shu. Arquitecto e Professor, Wang Shu nasceu em 1963, em Urumqi, cidade situada na região de Xinjiang, a província mais ocidental da China. Em 1985 Wang Shu conclui a licenciatura em arquitectura, e em 1988 realiza o mestrado, ambos na Nan Nanjing Institute of Technology. Wang Shu e a sua mulher, Lu Wenyu, fundam, em 1997, o Amateur Architecture Studio, em Hangzhou, na China. O nome do atelier faz referência às abordagens construtivas baseadas na espontaneidade, nos conhecimentos artesanais e nas tradições culturais. Wang Shu trabalhou vários anos em estaleiros de obra, procurando aprender métodos construtivos tradicionais. O atelier utiliza métodos constru-

tivos tradicionais com vista a adaptar e transformar determinados materiais para projectos contemporâneos. É esta combinação única entre métodos construtivos tradicionais, técnicas experimentais e processos de pesquisa intensivos que define a base conceptual e de linguagem do

atelier Amateur Architecture Studio. O atelier de Wang Shu e Lu Wenyu defende uma leitura crítica das demolições que têm sido executadas em grandes áreas urbanas da China. A este propósito, em 2006, na Bienal de Arquitetura de Veneza, Wang Shu e Lu Wenyu apresentaram

“Tiled Garden”, uma instalação realizada a partir de 66.000 azulejos reciclados, recuperados de demolições. Ao invés de olhar para o Ocidente em busca de processos criativos alternativos, como muitos dos contemporâneos de Wang Shu, o trabalho do atelier Amateur Architecture Studio procura encontrar-se no contexto da história e cultura chinesas. O campus de Xiangshan é visto como um único organismo colectivo para a vida social: todas as construções são abertas e orientadas para a configuração natural envolvente e, ao mesmo tempo, contemplam uma rede de espaços intersticiais, mais reservados, destinados ao encontro entre pequenos grupos. As aulas podem suceder tanto dentro como fora das salas, ou ainda nos telhados dos edifícios. Os vários departamentos estão ligados por pontes que, ao transformarem-se em corredores e plataformas, ligam todos os espaços numa única solução. Cada edifício tem mais de uma entrada e, como acontece no jardim chinês, a multiplicidade de caminhos sobrepõe-se à ideia de caminho principal. Quase todos os edifícios construídos em betão no campus foram parcialmente cobertos com madeira ou alvenaria, tendo sido reutilizados, para o efeito, cerca de 7 milhões de telhas e tijolos de diferentes períodos, reunidos no decurso de demolições efectuadas na província de Zhejiang. A técnica tradicional de wa pan, ainda hoje utilizada pelos agricultores da região de Hangzhou, e adoptada por Wang Shu, consiste na montagem de telhas e tijolos de tamanhos e formas diferentes, em sequências irregulares e descontínuas. Wang Shu defende a ideia de que: “a arquitectura é espontânea pela simples razão de que a arquitectura é uma questão da vida quotidiana. Quando eu digo que eu construo uma ‘casa’ em vez de um ‘edifício’, estou a pensar em algo que está mais próximo da vida, da vida quotidiana. Quando eu decidi escolher o nome ‘Amateur Architecture’ para o meu atelier, foi com o objectivo de enfatizar os aspectos espontâneos e experimentais do meu trabalho, ao invés de ser ‘oficial e monumental’.” Wang Shu é actualmente Professor e Director da Escola de Arquitectura da China Academy of Art, em Hangzhou. Em 2011 tornou-se no primeiro chinês a ser Professor Convidado na Escola Superior de Design de Harvard, em Cambridge, no Massachusetts. Wang Shu recebeu este ano o Prémio Pritzker de Arquitectura. *Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa


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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

perspectivas Jorge Rodrigues Simão

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MAIS QUE A SOMA DAS PARTES “The overall trend of modern science and technology is to synthesize all areas of knowledge into a few major blocks. Another characteristic is that the esthetic standard of scientific workers has been changing constantly. General systems methodology is a theoretical methodology whose purpose is to realize the ideal model of a systems theory described by Bertalanffy, Quastler, and Zadeh - that is, to establish a general theory applicable to explain phenomena in various specific systems”. General Systems Theory: A Mathematical Approach Yi Lin

A VERTIGINOSA aceleração da história dos últimos cinquenta anos trouxe avanços imensos ao conhecimento humano, no que diz respeito à concepção sistémica do mundo material, que muito provavelmente é dos de maior transcendência. Ao longo da história do conhecimento científico, as ideias sobre a natureza da matéria e sobre a posição do homem no cosmos, foram sofrendo sucessivas revoluções copernicianas de descentração, relativização e assimilação em teorias convergentes. Os desenvolvimentos da teoria geral dos sistemas aplicada a diferentes contextos disciplinares tem possibilitado compreender o mundo e o homem, ao utilizar bases comuns de carácter interdisciplinar, adequando boa parte das antigas interpretações que partiam de quadros teóricos mais reduzidos. O biólogo austríaco Karl Bertalanffy, criador da teoria geral dos sistemas, publicou no final da década de 1970, o conhecido ensaio intitulado “General System Theory: Foundations, Development, Applications”, no qual expõe com excepcional antecipação, a aplicação da sua teoria às diferentes áreas do conhecimento. É de realçar as dificuldades em que se encontravam a biologia, psicologia, sociologia e a economia para explicar os fenómenos e a sua evolução com o passar do tempo. À data em que escreveu o dito ensaio, as diferentes disciplinas viviam um idílio de desenvolvimento algo endogâmico, fundamentado no positivismo dominante da época, segundo o qual o desenvolvimento do conhecimento só era possível a partir da especialização. Tal posição matemática positivista de natureza reducionista, teve as suas raízes nos métodos, resolutivo de Galileu Galilei e científico de René Descartes. Segundo as ideias destes dois pensadores, a resolução de um problema só seria possível a partir da fragmentação do todo nas suas partes e da análise pormenorizada das mesmas. Esta posição analítica predominou na ciência durante toda a idade moderna e parte da idade contemporânea, e fundamenta a especialização disciplinar. A limitação desta perspectiva foi evidente em diferentes campos do saber, como o da biologia. Foi necessário recuperar a

visão geral dos fenómenos naturais para interpretar a realidade, uma vez que a resolução pormenorizada apresentava certas dificuldades de explicação. A leitura geral dos fenómenos aponta que o todo é mais do que a soma das suas partes. Este aforismo, tinha sido proposto por Aristóteles, como uma primeira formulação holística de ordem cósmica. A primeira metade do século passado, caracterizou-se pelo aparecimento de diferentes teorias, que contradiziam a posição reducionista e que prepararam o caminho para a formulação da teoria geral dos sistemas, evidenciado pelos desenvolvimentos da biologia organísmica, da psicologia da forma ou “gestalt”, da cibernética, da teoria da informação ou pelo conjunto de outras teorias correlacionadas, como a dos autómatos, do controlo, de conjuntos, de grafos e de redes, do jogo e da simulação e a matemática relacional. Actualmente, a teoria geral dos sistemas é reconhecida nas diferentes áreas do conhecimento, e é aplicada a diferentes disciplinas, desde as ciências puras às humanas. A maior parte das ciências naturais e humanas, lidam com sistemas complexos, em que a análise estritamente disciplinar é insuficiente para interpretar a sua dinâmica interna e evolução. Alguns benefícios em determinadas disciplinas, apontavam na direcção da existência de propriedades gerais que se repetiam em diferentes sistemas, pelo que apresentavam uma validade heurística. O autor da teoria geral dos sistemas, revelou com base numa das suas primeiras constatações na biologia, que os sistemas de diferente natureza, apresentam um conjunto de propriedades comuns de tipo estrutural e funcional. Estas propriedades gerais são justamente o objecto de estudo da teoria geral dos sistemas. Os isomorfismos estruturais são visíveis entre diferentes tipos de sistemas. Em todos se reconhece um conjunto de elementos de aspecto diferente, mas que têm a propriedade comum de apresentar um conjunto de relações de dependência, como circuitos estáveis de relações, que se repetem em diferentes tipos de sistemas. Segundo a teoria geral dos sistemas, a natureza destas relações explica o funcionamento e a dinâmica do sistema como um todo. Ao desenvolvimento do conceito de sistema parece ser de interesse descrever algumas das suas propriedades fundamentais, em forma de enunciados simples. No entanto, a generalização destes princípios a todos os sistemas deve relativizar-se ao modelo adoptado de sistema dinâmico e aberto que serve de referência. Em outros sistemas, algu-

mas destas propriedades não são totalmente aplicáveis ou necessitam de outra interpretação. O sistema é definido com frequência, como um grupo de partes que interagem funcionando como um todo, que é distinguível do seu meio, através de marcos reconhecíveis. O funcionamento de um sistema depende da forma como estão relacionadas as suas partes, e se for adicionada, suprimida ou modificada uma delas, é de esperar que o seu funcionamento seja diferente. É considerado como sistema, dois objectos que apresentem uma relação si. Uma esfera em movimento suspensa no tecto por um fio, é um sistema simples de natureza física que apresenta um conjunto de propriedades funcionais, caracterizado por movimento, velocidade angular ou um período. Os sistemas mais comuns, em geral, contêm um conjunto de elementos de igual ou diferente natureza material, como átomos, objectos, células, organismos, pessoas, grupos sociais ou instituições, ou também de natureza imaterial, como conceitos ou símbolos. O número e as características dos elementos constitutivos do sistema informam-nos sobre a sua dimensão espacial

e temporal, simplicidade ou complexidade. Os sistemas podem conter elementos de diferentes classes ou natureza. A maioria dos sistemas não é homogénea, apresentando uma assimetria funcional, espacial e temporal. Os sistemas podem conter subsistemas, que apresentam uma relativa autonomia, devido à existência de relações muito estreitas entre os seus elementos e mais fracas com os restantes. Assim, por exemplo, um organismo apresenta determinados subsistemas como é o caso das suas células, em que cada uma é um subsistema com um funcionamento muito autónomo, mas que não está completamente separada do sistema de que é parte. A definição das propriedades dos elementos do sistema depende dos objectivos determinados pelo analista para explicar o seu funcionamento. É possível ignorar certos níveis hierárquicos do sistema ou subsistema porque não são importantes, como por exemplo, não é necessário saber como é o metabolismo dos glúcidos do gerente de uma empresa, ou se gosta mais de chá ou de café, uma vez que o pretendido é descrever o sistema de relações estabelecidas na empresa, por forma a explicar os resultados económicos da sua gestão.


9 11 2012

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康公

O L H O S A O A L T O

gente sagrada

José Simões Morais

FESTIVIDADES A HONG KUNG EM MACAU há dois templos dedicados ao Deus Hong Kung; o mais antigo junto ao Kun Iam Tong, na rua Coronel Mesquita, que reabriu em Agosto de 2012, após quase 50 anos encerrado e o do Largo do Pagode, na Rua 5 de Outubro. Foi neste último templo, conhecido por Hong Chan Kuan Miu, mas também denominado Templo de Hong Kung que, sem haver grandes cerimónias, se realizou no sétimo dia da sétima Lua, as festividades em honra do deus guerreiro Hong Kung. Uma das margens do rio do Oeste antigamente passava junto ao terreno, que era conhecido por Pak Van (baía do Norte), onde hoje se encontra o templo do Bazar ou Pagode de Hong Kung. Os barcos das tancareiras ai estacionavam e como nesse cais as casas eram de madeira, o local era constantemente devorado por incêndios. Em 1855, devido aos inúmeros fogos que aconteceram nas casas de madeira, as pessoas locais resolveram aí construir um templo para as proteger. A dificuldade era escolher um deus para ser o protector do lugar. Pensou-se no deus do Fogo. Outros queriam o deus da Água. No ano seguinte ainda não tinha sido decidido quem seria o deus quando, uma grande inundação aconteceu no Xijiang (rio do Oeste). Flutuando nas águas apareceu uma estátua de madeira, que por ali permaneceu sem se mover. Os habitantes recolheram-na e colocaram-na debaixo da árvore aí existente, apesar de não saberem quem ela representava. Um dos negociantes de madeira, que aí tinha o seu armazém, foi quem reconheceu ser Hong Kung. O comerciante ofereceu então dinheiro para a construção do templo, que começou a ser edificado em 1856. Devido à falta de dinheiro, o templo só foi terminado em 1860 com a oferta monetária de outro negociante. Quem era o deus Hong Kung? Quase nada se sabe sobre a sua pessoa e para nos tirar as mui-

tas dúvidas tivemos a graça de contar com a ajuda do senhor Lou, que toma conta do templo do Largo do Pagode. Hong Kung era um general da dinastia Sui, cujo nome era Li Lie. Grande estratégia saia sempre vitorioso das muitas batalhas em que participava. Mas veio um dia, a sua sorte mudou. A batalha, que durava já sete dias e sete noites, passou a pender para o lado do adversário e, perante a eminente derrota, Hong Kung viu-se obrigado a fugir. Desfez-se da sua pesada armadura e começou a correr campo fora, sendo perseguido pelo inimigo. Mesmo contando com a ajuda do deus Sai San Hau Vong, Hong Kung estava quase a ser capturado, não fosse ter surgido um bando de patos, que apagaram as pegadas do fugitivo general e este conseguiu escapar. Outra história conta que durante a fuga do Norte da China a caminho do Sul, o general Li precisando de atravessar um rio teve a ajuda de um bando de patos que, pegando nele, o transportaram até à outra margem. Quando o general Li Lie foi promovido a deus Hong Kung, como forma de agradecer aos seus salvadores, proibiu que nesse dia se comesse carne de pato. No panteão tauista, ele é o Capitão da Esquerda, ajudante do Imperador de Jade. Na província de Guangdong, nos tempos antigos, quando se criava uma nova povoação, o primeiro templo a ser construído era em honra do deus Hong Kung. As Festividades a Hong Kung celebram-se no sétimo dia da sétima lua e são organizadas pela Associação de Mútuo Auxílio do Bairro, que abrange a rua Cinco de Outubro, pela Associação de Mútuo Auxílio dos Moradores da Marginal e pela Associação de Mútuo Auxílio dos Moradores de Lou Sek Tong. Este ano as celebrações foram modestas, tendo havido, como sempre acontece, um jantar de confraternização dos habitantes locais.


9 11 2012

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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Os vivos não têm onde se apoiar; os mortos não têm funeral.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 22 No governo de tempos mais recentes, há pesados impostos sobre a caça, a pesca e o comércio. Os viveiros estão vedados; não há lugar para lançar as redes, não há onde arar. A força do povo desgasta-se em trabalho forçado; a sua riqueza desgasta-se em impostos autárquicos. Quem fica em casa não tem de comer; quem viaja não tem mantimentos. Os vivos não têm onde se apoiar; os mortos não têm funeral. Os homens vendem as esposas e filhos para satisfazer as exigências do governo, mas nem assim lhes conseguem fazer face. Uma sociedade degenerada se caracteriza por expansionismo e imperialismo, iniciando operações militares contra nações inocentes, matando gente inocente, destruindo o legado de antigos sábios. Os grandes países se lançam à ofensiva; os países pequenos se tornam defensivos. O gado é levado do povo; as crianças são tiradas ao povo; os altares do povo são destruídos; os bens mais estimados do povo são apoderados. O sangue corre por milhas sem fim e os esqueletos pejam os campos – e tudo isto para satisfazer os desejos de líderes e governos gananciosos. Não é para isto que os exércitos realmente servem. Uma milícia deve servir para prevenir a violência, não para a causar. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.

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