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h - Suplemento do Hoje Macau #80

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PARTE integrante DO HOJE MACAU Nツコ 2824. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

artes, letras e ideias

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o fumo fatal


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Ópio e Hegemonia

O imperialismo britânico na China contemporânea Sara F. Costa

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abituados a observar potências europeias a escravizar e colonizar diversos espaços pelo globo, a totalitária China da dinastia Qing não estava interessada em negociações com os países ocidentais. Para além de querer manter distância em termos diplomáticos e relacionais, não sentia necessidade de importar nenhuma manufactura ocidental, ou seja, não dependia de nenhuma importação. Vários países europeus, contudo, faziam comércio com a China pois tinham interesse

em produtos chineses, principalmente no chá, porcelana e seda. Estes produtos eram particularmente apreciados pelos britânicos. A atitude chinesa não era bem vista por parte da Grã-Bretanha que se exibia perante a Europa como potência hegemónica dominante. Uma vez que a Grã-Bretanha importava da China grandes quantidades de chá, seda e porcelana, via a sua balança comercial bastante desequilibrada com vantagem para os chineses. Isto aconteceu até se aperceberem de um produto altamente lucrativo plantado na sua colónia Índia que podia vir a interessar aos chineses: o ópio. Para além de lucrativo, este produto tinha também o poder de enfraquecer em larga escala este país-continente que se afigurava tão interessante enquanto mercado para as potências europeias. Com a introdução e rápida propagação do ópio na

sociedade chinesa, o governo de Pequim decidiu proibir a comercialização do narcótico que estava a ser devastador e a constituir um dos mais graves problemas de saúde pública da história do país. Esta decisão é vista pelo governo britânico como uma afronta às suas liberdades comerciais. Após a introdução, comercialização e disseminação do ópio na China Em 1839 a Grã-Bretanha declara a Primeira Guerra do Ópio. A sua narrativa oficial recai na importância da abertura das portas da China ao comércio internacional, por uma questão de ordem, estabilidade e paz. Este ensaio pretende refutar a tese da paz pelo comércio aludindo a este contexto histórico. Quando analisada objectivamente a situação económica internacional da época, o interesse comercial da Grã-Bretanha na China era mais do que evidente. Cons-

O mandatário oficial para erradicação do ópio na China, Lin Ze Xu, chegou a pedir à rainha Vitória que esta se encarregasse de suprimir o comércio do ópio não só na China como nos territórios indianos da Grã-Bretanha.


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tituía um grande mercado e, se enfraquecido e dominado, mais uma colónia com muita mão-de-obra a explorar. Ou seja, por detrás de uma narrativa que desejava apenas uma ordem dita moderna, mundial e que, acima de tudo, conduzia à paz, existia um acentuado interesse material no mercado chinês que não fosse prejudicial como o era para os britânicos até à data. Para além do interesse material, o interesse soberano também estava presente, não estivesse ele representado naquela que viria a ser a colónia britânica de Hong Kong.

O Mandato do Céu e o Sistema de Cantão

O isolamento do governo de Pequim constituía um modelo económico paralelo ao modelo ocidental não se coadunava com a crença generalizada na Europa do séc. XIX de que a integração numa ordem internacional de direito e de comércio era a única possibilidade de um estado soberano ser reconhecido como civilizado e, consequentemente, como pacífico – já que se tornaria transparente, previsível e, segundo Palmerston, moderno (Palmerston, 1840). Contudo, o Império de Qing não partilhava esta crença. Por esta altura O Mandato do Céu[i] (天命, em Pinyin: Tianming)[ii] era ainda o modelo de governação seguido. De acordo com este modelo, a diplomacia e o

mercadores para atuarem como controladores das trocas comerciais com o estrangeiro. Estes mercadores formavam uma associação conhecida por Cohong, que respondia ao comando de um oficial especialista no comércio de Guandong, normalmente um manchu enviado da corte imperial em Pequim, conhecido pelos estrangeiros como o Hoppo. Os Cohong e o Hoppo tinham a tarefa de taxar as importações dos estrangeiros e especialmente as exportações de chá e seda. Até 1834, quando a Companhia Britânica das Índias perdeu o apoio real para monopolizar as trocas comerciais com a China, a Companhia tinha-se adaptado a este particular Sistema de Cantão. Durante as épocas de trocas, o conselho de diretores da Companhia Britânica das Índias em Londres vivia na “British Factory” (centro de comércio e residência), nos bancos do rio, fora da grande capital de Guangzhou, de Outubro a Março. Na época sem trocas de Abril a Setembro, eles retiravam-se para o único espaço chinês concessionado a europeus, a cidade portuguesa de Macau. Para os chineses, a acumulação de interesse europeu na costa sudeste exigia um método eficiente para lidar com os “bárbaros do mar ocidental” como eram oficialmente designados.

superioridade técnica e científica do ocidente, não conseguiu levar a cabo nenhuma das negociações que lhe tinham sido encomendadas. Esta atitude chinesa era particularmente ofensiva para a Grã-Bretanha mas o PIB da China era ainda mais ou menos sete vezes o da Grã-Bretanha e daí o imperador considerar que era Londres que precisava de ajuda e não o contrário (Maddison, 2006). As potências ocidentais em ascensão não tolerariam por muito mais tempo um mecanismo diplomático que se referisse a eles como “bárbaros” que pagavam tributo ou um comércio sazonal apertadamente regulado num único porto. Depois da missão Macartney a Grã-Bretanha do topo civilizacional do ocidente, ficara particularmente ofendida.

Uma única ordem mundial – Do comércio para a paz

Com a balança comercial desequilibrada face ao desinteresse chinês pelas manufacturas britânicas, a insistência na importação sem restrições de ópio para a China foi a solução encontrada por estes para conquistarem finalmente o mercado chinês. O ópio foi introduzido de forma ilícita e com o propósito claro de viciar a população chinesa no único produto que poderia apresentar lucros para a Grã-Bretanha. Quando o ópio começou a circular no país,

Lin faz um ultimato à Grã-Bretanha em que ameaçava acabar com a exportação dos produtos chineses caso os britânicos não acabassem com a comercialização do ópio.

comércio internacional eram formas de reconhecimento da proeminência chinesa. O mandato não implicava obrigatoriamente uma relação bélica com os povos vizinhos. Tal como os Estados Unidos, a China achava ter um papel especial na ordem universal e todos eram livres de usufruir dos privilégios que transmitia o contacto com a sua cultura. Contudo, em antítese aos Estados Unidos, nunca manifestou desejo de disseminar os seus valores pelo mundo: limitava-se a conseguir que os estados estrangeiros se considerassem Estados Tributários da China. O comércio internacional entre os chineses e os estrangeiros formou o primeiro local de encontro Sino-ocidental da era moderna. Ainda que o porto Xiamen em Fujian, tenha constituído a principal porta de trocas comerciais com o Sudeste Asiático e a costa chinesa, após 1759 Guangzhou tornara-se porta oficial para os encontros com europeus. O “Sistema de Cantão” como ficou conhecido no ocidente, foi organizado a partir de linhas tipicamente chinesas: o governo comissionava uma das famílias chinesas de

Habituados a observar potências europeias a escravizar e colonizar diversos espaços pelo globo, a atitude totalitária de Qing não estava interessada em grandes negociações com os “mercadores bárbaros”. Não era autorizada a concessão de um espaço de representação estrangeira na capital – embaixadas[iii] - e raramente eram admitidos à corte em Pequim representantes estrangeiros. Quando tal acontecia, era expectável que estivessem familiarizados com o ritual de prostração perante o imperador[iv]. Este ritual de prostração é um importante detalhe na missão britânica liderada por George Macartney em 1793 a Pequim para conhecer o imperador Qianglong. O seu objetivo era pedir que o império Qing respeitasse aqueles que eram na altura os direitos internacionais mínimos dos quais a Europa gozava em quase todo o resto do mundo: comércio livre, embaixadas permanentes e igualdade de soberania. Até então os europeus não tiveram outra opção a não ser reduzirem-se ao papel de suplicantes na ordem tributária chinesa – o comércio com os bárbaros era considerado não mais do que um tributo ao grande Império do Meio. A Missão Macartney foi um fracasso a vários níveis, uma vez que apelando e tentando demonstrar a

Pequim fez uma tentativa de regulação e venda do produto. Contudo, a destruição progressiva das populações e os problemas de saúde pública que rapidamente se tornaram visíveis um pouco por todo o país, levaram a corte a proibir a sua comercialização. Para uma Grã-Bretanha que começava a proibir a globalização da escravatura (da qual tinha sido, paradoxalmente, percursora) de forma a afirmar a sua superioridade moral perante o resto da Europa, a comercialização do ópio provocava aos ocidentais uma certa sensação de embaraço. Mas não era só do ponto de vista ocidental que a comercialização do ópio era vista como um embaraço. O mandatário oficial para erradicação do ópio na China, Lin Ze Xu, chegou a pedir à rainha Vitória que esta se encarregasse de suprimir o comércio do ópio não só na China como nos territórios indianos da Grã-Bretanha de onde os relatos de degradação profunda provocada pela massificação do uso da droga se faziam já ouvir um pouco por todo o mundo (Tse-hsu, 1839). Lin faz um ultimato à Grã-Bretanha em que ameaçava acabar com a exportação dos produtos chineses caso os britânicos não acabassem com a comerciali-

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A tese da paz pelo comércio defende que este reduz a probabilidade de conflitos armados entre estados numa lógica de interdependência em que o liberalismo comercial assume um papel central na condução à paz, ultrapassando desta forma a lógica conflitual defendida pelos teóricos realistas.

zação do ópio. Certo de que o grande império chinês não poderia sofrer retaliações de maior, a corte chinesa subestimou as capacidades militares estrangeiras já bem mais desenvolvidas que as chinesas – que nunca teve que travar grandes batalhas depois da unificação do império devido a formas mais requintadas de ligar com a guerra, como as que podem ser estudadas no clássico Arte da Guerra de Sun Tzu. Séculos de supremacia tinham distorcido o sentido da realidade da Corte Celestial. A pretensão de superioridade só acentuava a humilhação inevitável (Kissinger, 2011). O comissário britânico Palmerston escreve de volta para a corte chinesa e defende claramente o seu ponto de vista: os sistemas legais chineses tinham, de acordo com os princípios jurídicos ocidentais, caducado há muito tempo e, por isso, o próximo passo do Governo Britânico era o de enviar de imediato uma armada para bloquear os principais portos chineses, tomar «todos os navios chineses que possa encontrar» e tomar «uma parte conveniente do território chinês» até Londres obter satisfação. (Palmerston, 1840). [v] Os resultados da interação entre a esmagadora força ocidental e a gestão psicológica típica da China, resultou em dois tratados: o Tratado de Nanjing e o Tratado de Bogue. A China tinha que pagar à Grã-Bretanha seis milhões de dólares de indeminização, ceder Hong Kong e abrir cinco portos costeiros em que seria permitida residência e comércio ocidentais (Guangzhou, Ningbo, Shanghai, Xiamen e Fuzhou). Chegara ao fim o “Sistema de Cantão”. Os britânicos obtiveram ainda o direito de fazer comércio directo que não passasse por Pequim e o poder de exercer jurisdição sobre os seus nacionais residentes nos portos chineses do tratado. Isto significava que os comerciantes de ópio estrangeiros estariam sujeitos às leis dos seus próprios países e não da China. Este princípio de «extraterritorialidade» acabou por representar o declínio do poder imperial. A seguir às concessões permitidas à Grã-Bretanha, muitas outras potências ocidentais

quiseram vir reclamar o seu pedaço. O Mandato de Céu terminara e fora substituído pelo conceito ocidental de Soberania.

A tese da paz pelo comércio

A tese da paz pelo comércio defende que este reduz a probabilidade de conflitos armados entre estados numa lógica de interdependência em que o liberalismo comercial assume um papel central na condução à paz, ultrapassando desta forma a lógica conflitual defendida pelos teóricos realistas. A organização do comércio internacional (WTO) apresenta vários argumentos que fundamentam o facto de que o comércio entre estados soberanos conduz à paz, nomeadamente defende que os comerciantes têm menos tendência para gerar conflitos com os seus clientes (World Trade Organization, 2003: 2); o segundo argumento é o de que as disputas são tratadas de forma construtiva nos procedimentos das instituições e organizações. Os adeptos da paz liberal argumentam que a interdependência reduz o conflito porque o conflito reduz as trocas comerciais. Interdependência económica promove a paz porque o conflito é inconsistente com laços económicos que promovam o benefício mútuo (Polachek & Xiang, 2008). A tese foi, contudo, ao longo do tempo mudando de base empírica. Num primeiro tempo em que o conceito operativo essencial se chama “vantagens comparativas”. É o tempo da vida económica internacional que ficou conceptualizado nas teorias tradicionais do comércio internacional. Cada Estado explora as vantagens competitivas que tem no sistema internacional. Onde dantes tínhamos unidades políticas, temos agora unidades económicas. A partir dos anos 80 esta passa a ser uma malha de relações bilaterais sendo assim a globalização a perda desta referência nacional. A guerra anglo-chinesa foi apresentada pelo governo britânico como um processo necessário em que os fins justificavam os meios. Apesar do universalmente reconhecido fracasso ético e moral da disseminação ilícita de um narcótico com vista

à abertura forçada de um estado às legislações do comércio internacional, o pedido de desculpas oficiais pelo Reino Unido nunca foi formalizado, nem mesmo aquando da recuperação da soberania de Hong Kong pela República Popular da China em 1998. A imposição de uma única ordem mundial do comércio defendia um mundo mais pacífico mas neste episódio histórico podemos observar que após a abertura ao comércio livre, as invasões e tentativas de colonização por parte das potências ocidentais continuaram a fomentar a guerra na China numa lógica de expansão de poder e de soberania.

________________________________ [i] O Mandato do Céu tem as suas origens no pensamento confuciano desenvolvido por Mencius (372 – 289 a.C.) e foi seguido desde então como forma de justificar a legitimidade dos imperadores. [ii] Pinym e Wade-Giles são os dois sistemas de romanização da língua chinesa utilizados neste trabalho. [iii] Exceção feita à Rússia, já que os seus avanços no leste representavam uma ameaça iminente para a China. Em 1715 os Qing concederam a possibilidade da instalação de uma missão ortodoxa russa em Pequim. [iv] Conhecido como Cautau, o ato de prostração perante o imperador era uma forma de saudação ou de veneração ao imperador que implicava tocar com a testa no chão três vezes. [v] «Lord Palmerston to the Minister of the Emperor of China» (Londres, 20 de fevereiro de 1840) Consultado emhttp://www.chinaforeignrelations.net/node/247 [19 de Novembro de 2012]

Os britânicos obtiveram ainda o direito de fazer comércio directo que não passasse por Pequim e o poder de exercer jurisdição sobre os seus nacionais residentes nos portos chineses do tratado. Isto significava que os comerciantes de ópio estrangeiros estariam sujeitos às leis dos seus próprios países e não da China.


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Pedro Baptista Nietzschianismos, antinietzschianismos, pietismos e solidarismos…

No entanto, há cerca de dez anos, o brasileiro Massaud Moises, publicou um artigo1 que, embora em título se fique pela interrogativa, “Serão Inquieto: anti-Nietzsche?”2, no interior afirma, e peremptoriamente, que sendo o pensamento do autor de “O nascimento da Tragédia” o que considera que é, o “Serão inquieto” de Patrício será sobretudo uma obra antinietzschiana. Aventa no entanto que o terá sido sem querer, sendo que o autor pretenderia precisamente o contrário, porque, embora sem dúvida contagiado pelo pensador de Röcken, ou porque a sua decisão era meramente tangencial ou por motivos ligados à sua filiação simbolista, teríamos tido um “acto falho”, uma vez que o pensamento de Patrício se colocaria na “contracorrente do pensamento nietzschiano”. Contudo, o então professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de S. Paulo, tanto reitera o antinietzschianismo do escritor portuense, como se desdobra em hipóteses de entendimento oposto em que ele próprio assumidamente se contradiz. Do nosso ponto de vista, é indubitável a influência assumida e explícita do filósofo alemão, profusamente traduzido em francês e divulgado em Portugal, na obra de Patrício, nomeadamente em todo o “Serão inquieto”, mas isso não implica de forma alguma, para mais num escritor com uma idiossincrasia como a do poeta portuense, nem uma colagem ao pensamento filosófico de Nietzsche para nele se ver uma decorrência, nem tão pouco uma incapacidade para, no zeitgeist embora, desenvolver na sua obra literária e nos aforismos filosofantes que estudaremos, um livre pensamento filosófico, pessoal e criativo, explícita e militantemente adverso ao horror da inserção em qualquer “sistema”, ou “filiação”, o mesmo que dizer, em qualquer rótulo, mesmo que no da “escola” do assistemático autor do “Para Além do bem e do mal”. Mal estaríamos pois se fosse impossível descortinar “contradições” entre o desenvolvimento do pensamento do escritor portuense e qualquer matriz que se queira, de forma mais ou menos arbitrária, fixar do pensamento complexíssimo e quantas vezes metafórico e ambíguo do germânico arauto de Zaratustra! Só que isto significa isto e nada mais… De forma que o aludido antinietzscianismo de Patrício parece uma tese insubstante e sobretudo infecunda.

Aprofundando a inquietação do “Serão”…

Nada, todavia como continuar a mergulhar no âmago dos seus escritos até para clarear, se possível, este debate… Com “O Veiga”, o último conto que surge na calha deste inquieto serão… 1 Moisés, Massaud - “”Serão Inquieto’: antiNietzsche?”, Colóquio/Letras, 125-126. 1992

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ANTÓNIO PATRÍCIO

DA CONSCIÊNCIA DA MORTE AO SENTIDO DA VIDA -II o aludido antinietzscianismo de Patrício parece uma tese insubstante e sobretudo infecunda. Amarfanhado pelo burocrático emprego e pelo desfazer da quimera de uma paixão feminina, marcado pelos pontapés do proxeneta da galdéria, o Veiga rebela-se contra o mundo e contra o que tinha vindo a ser, virando-se para o militantismo anarquista onde pode encontra húmus para alimentar a vesânia da perseguição; revolta-se então contra a carinhosa e descoroçoada mãe, do que se viria a arrepender, decidindo-se, após a morte desta, num rompante aparentemente psicótico, à marginalidade social. É assim que o narrador o vai encontrar uma manhã, nos campos de Nevogilde, onde aquele, sendo o autor, por certo desceria para o mar… O Veiga inteiramente transfigurado… dormir, não dormia porque não tinha tempo, se por vezes se tinha deixado adormecer uma ou duas horitas ficava zangado consigo próprio pois não tinha tempo a perder, tinha-se decidido a ocupar integralmente o tempo a viver, tinha deixado de gastar o tempo em inutilidades como empregos, teatros ou cafés… Apareciam pessoas que o conheciam dos outros tempos, de quando ele ainda não sabia o que era a vida e ajudavam-no com pão, nada mais precisava do que pão e fruta, e muitas vezes lhe davam roupa nova mas ele deixava-se roubar por outros vagabundos porque tinha pena deles e a ele nada lhe importava andar bem vestido ou com as roupas rotas. E a verdade é que este novo Veiga guardava as migalhas para os pardais, aspirava fundo o perfume das roseiras que em certas manhãs de Outono lhe provocavam o choro, um autêntico “Bêbado de Deus”, diz o narrador, tal como Espinosa. E este naturismo metafísico, transcendental porque se levanta da natura e ultrapassa o próprio cosmo, ou o alarga, este “delírio ambulatório” daquele esqueleto andrajoso e movente que adora as árvores, o mar e a aurora, amante da terra é, na verdade, para Patrício, uma espécie de panteísmo cristalino em pureza que não quer ser tocado, nem obstaculizado, nem alienado, muito menos estragado, pelos valores ou pelos ostensórios com que a pobre sociedade se engana, escondendo de si própria a verdadeira a vida, esquecidos do que só se hão-de lembrar nos derradeiros instantes, já tarde, tal como o Doce Hebreu do “Diálogo com a Águia”, da vivência perdida da vida… E todavia, noite adentro, o Veiga, o homem sem sono, sem fome e raramente com dinheiro, ajudava quem precisava, com palavras e com atos, no caso do conto, uma operária carvoeira

despedida para as bandas de Massarelos, comprava aos ganapos um pássaro apedrejado para que não o matassem, e foi visto a adquirir uma boneca, na Rua de Cedofeita, no saudoso “Bazar dos Três Vinténs”, para uma filhita de uma pobre que até lhe chamava padrinho… E mais… Para Patrício, a morte da mãe foi o seu segundo parto, vindo da dor, desta feita iniciático, donde surgiu este panteísta vagabundo da mais misericordiosa das loucuras. Tínhamos esperança que Massaud Moises tivesse pegado neste aspeto misericordioso, por vezes, piedoso, para estender por aí a hipótese do antinietzschianismo de Patrício, pelo menos parcelar, mas não é o caso. Podia sempre sustentar-se na rutura do poeta do “Anti-Cristo”com o judaico-cristianismo e com o pietismo. Não seria suficiente até porque teríamos sempre Patrício a afirmar que a piedade é “um sentimento consolador só para os eunucos”. Mas não seria bastante sobretudo, porque em lugar nenhum, o Übermensch nietzschiano, depois de ter rompido, na montesa solidão, com todos os valores e morais do cristianismo, é apontado como indisponível tanto para a sociedade como para a solidariedade. Todavia parece-nos, a partir precisamente deste conceito de solidariedade, ser possível explorar a pista de uma pregnância neocristã muito própria de Patrício, ultrapassada a própria ultrapassagem nietzschiana, porque “a vida já não tem aos ombros uma Cruz/ o madeiro de Cristo floresceu”, provavelmente nos mesmos termos em que o “Doce Hebreu” confessa o seu arrependimento por não ter vivido, nos últimos momento do estertor. Um cristianismo muito mais próprio, muito mais sui generis, muito mais “pós-cristão”, do que meras “evidentes conotações cristãs – se bem que nem sempre inteiramente ortodoxas”3, como aventa Braz Teixeira com bonomia, que estende à presença da paixão, da ressurreição, e da santificação que marcaria a obra do escritor, em particular na peça “Pedro, o Cru” que trataremos em seguida, mas que não são elementos específicos da mitologia ou da liturgia cristãs, muito menos quando inseridos nos termos de recriação pagã, sensualista, erótica, carnal e de 3 Teixeira, António Braz - O Mito de Inês de Castro no teatro português. In Caderno-programa do espectáculo “Pedro, o crú”, de António Patrício, dirigido por Carlos Avilez. Lisboa: Teatro nacional D. Maria. 1982

pendor mais espiritista do que espiritualista, como acontece com os desenhos e com as palavras de Patrício… “Serão Inquieto” termina com “Words”, 20 páginas de aforismos atribuídos a um ex-condiscípulo, C.F., certamente ficcionado, um heterónimo ao gosto da época, na senda da dúzia de pseudónimos criados por Søren Kierkegaard para escreverem as suas obras sobre variados temas, 70 anos antes, onde talvez possa ser exageradamente pomposo vislumbrar um precursor da heteronímia ultraprolixa de Fernando Pessoa, como fazem Mourão-Ferreira e José Carlos Seabra Pereira, talvez menos se for para antever a do José Kertchy Navarro criado por Agostinho da Silva. Término um pouco inopinado em que Patrício parece querer deixar-nos não só as suas referências filosofantes, como ainda a indicação de que tanto a expressão literária, como a dramatúrgica e a filosófica são polidiscursivas, sendo na osmose desta diversidade das expressões que se manifesta não só o aprofundamento reflexivo como a criação literária e artística. E onde persiste, por vezes com recorte poético, e até erótico, a presença da mulher, bem mais consoladora e “bem melhor do que Marco Aurélio”, associada à aposta em não renunciar à vida que não passa de “uma doença do desejo”. Não falta a reflexão sobre o donjuanismo que “em nenhum amor matou a sede”, um apontamento para o futuro da sua biografia quando afirma que quando o artista chega a uma terra nova sente-se a “nascer segunda vez” ou o apontamento do génio como “a promessa falhada de outra espécie”. Viver intensamente porque afinal “a eternidade é a sensação de alguns instantes”… Meditando porque “meditar é viajar através de nós mesmos”. E para se firmar, na base, com o saudosismo portuense, de braço dado com Raúl Brandão e Pascoaes, “O que é o mar para o meu corpo, é a dor para a minha alma”… Bem ficaríamos se, agora mesmo, encadeássemos estas “Words” com os “Fragmentos poéticos”, ora publicados em Macau. Porque, não datados embora, são indiscutivelmente o seu prolongamento, para a frente, para trás ou nos dois sentidos. Mas porque a sua edição póstuma só agora, nos inícios de 2013, ocorreu, há ainda muito a dizer, neste ínterim, da vida, da obra e da morte de António Patrício entre o “Serão Inquieto” de 1910 e esta edição póstuma de 2013. (continua)


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A plural orgânica do verbo

Murnau, Faust

Amélia Vieira

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embro-me de que sempre tive um enorme fascínio pelo «Expressionismo» alemão, esse cadinho da poesia tão indefinida como o são as mudanças de século que ao contemplarem vertentes várias acabam por serem sínteses de tudo. A maioria dos seus autores, oriundos de classes médias burguesas, irá perturbar as formas de concepção, tanto revolucionária quanto da herança herdada, e partir em busca de um messianismo revolucionário oriundo talvez da sua origem judia, que predominava. Este modernismo andou em grande parte a par do nosso que, sendo fluído e escasso, teve a “lírica” dadaísta

sua especificidade. O início do século vinte promete um modelo idiossincrático absolutamente apaixonante na restruturação de um novo paradigma. É lançado o Futurismo de Marinetti, são formados os grupos vorticistas, que darão origem a um T.S. Eliot e a um Ezra Pound o Grupo «Orfeu» e Apollinaire no orfismo, António Machado e aquele que viria a ganhar mais tarde o Prémio Nobel de Literatura: Juan Ramon Jimenez. Wilhelm Klemm, um poeta expressionista tem este magnífico poema: Não queremos poesia de género algum, Queremos truques mágicos de saco, Procuramos tapar na existência um fatal buraco. E apesar de esforço insano não tapamos nenhum. Mas que sabeis vós outros do secreto aspirar,

escarpar nas novas pedras a Montanha de um tempo radical à escala humana. Estamos em plena Primeira Guerra Mundial, aquilo a que estes poetas chamariam” o declinar do dia Universal”, como agentes poéticos consagrados à vidência conseguiram ver a derrocada burguesa ao mesmo tempo que se debatiam com a ânima perdida de uma época que parecia abolir a alma. Esta é portanto a Poesia da urgência da Crise, do emblemático sonho de ficarmos sempre de fora dos nossos ideais e mais comprometidos do que desejaríamos com as nossas reservas. É um momento que bem poderia exemplificar cem anos após o ciclo das coisas a posição do poeta na grande vaga dos estilhaços da desintegração mundial em curso. Já dizia Holderlin : Para que servem poetas em tempo de indigência? Só que não há tempos fora da indigência,

Estamos então num reino da desconstrução idílica do ultra-romantismo mas não no rasurar dos mitos na sua busca da habitação dos “deuses”; está tudo lá, no local sagrado da poesia, mas revisto com as lentes progressistas das eras vindouras

e todo um propósito dado pela vanguarda dos tempos, importante para acelerar a desconstrução de uma arte que se queria ao serviço do ser e não do Homem, enquanto agente passivo da história. Foi a eles a que chamámos Modernistas. A obra de Arte participa activamente na construção do modelo histórico. Ela move-se na demanda da transformação e do corte por vezes abrupto com as eras antecedentes, elas reflectem a inquietação da natureza humana numa dialéctica de evolução permanentes ditadas muitas das vezes por situações imprevistas. Ela tende sempre a ultrapassar e a transpor a sua própria especificidade. A poesia é o agente literário-artístico a moldar toda a estrutura, ultrapassando sempre a

Dos soluços de divina histeria que em gargantas choram, Quando, plenamente absorvidos pelo haxixe da alma elementar, Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar Eoneamente os deuses moram? Estamos então num reino da desconstrução idílica do ultra-romantismo mas não no rasurar dos mitos na sua busca da habitação dos “deuses”; está tudo lá, no local sagrado da poesia, mas revisto com as lentes progressistas das eras vindouras, um pouco à maneira de: O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. E é neste acelerar de práticas, de conceitos, de viragem e novos ordens políticas que o lado visionário se completa com a criatividade poética. Vai ser preciso

porque ela está enraizada no modelo humano a partir da noção moral de organização social, eles apenas vão ter o dom de chamar a atenção para dois tempos distintos: o passado e o futuro. Sabendo-se herdeiros dos mitos preservam a sua originalidade, na Origem, querendo-se mediúnicos antecipam a visão dos tempos futuros. Eles conhecem melhor os amanhãs. Estão limpos de excesso de presente, e sabem, que nesse Limbo onde não morrem os sonhos estão mais disponíveis para serem um presente (?) muito singular. A favor do Homem e nunca contra ele, numa vigília que denota a responsabilidade que lhe é consagrada. Hoje, e porque Portugal é um país de grandes nebulosas, as grandes questões não se levantam. Em “nichos” de coisas várias e


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Murnau, Aurora

Com o triunfo da poesia filosófica e a despersonalização do «eu» Pessoano atingimos uma vertente até então inusitada. Pessoa agarra em tudo e com tudo faz a obra. É um construtor de quimeras, um grande ser do desdobramento da psique, alguém que por falta de um enredo de fundo ambiental vai encontrar na sua poesia uma Nação inteira.

numa ânsia de entretenimento que mais parece um acto alienado, há uma proliferação de sentimentos que resvalam num denominado “poema” mas que são esgares sombrios de coisas deixadas. Sem inovação não há Poema. Sem erro não há Poetas. Sem uma fissura em aberto na ordem das coisas elas tornam-se vãs. Não nos despertam do sono letárgico da morte, encaminhados por cantos de sereias que não têm Ulisses. Uma mulher precisa dos seus Heróis e ama-os por isso. As sereias são Fêmeas. Mas também o mar é outro. Por acaso neste movimento Expressionista como em outros da época dos «ismos» há poucas mulheres. Também é o tempo da descoberta da androginia como um fenómeno biológico. Esta imensa plasticidade deu-nos Pessoas, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros. Deu-nos Apollinaire, Poe, Éluard, T.S. Elliot…. assim, os mais sonantes, mas foram eles todos indispensáveis, estes «novíssimos» assim nomeados antes da guerra que parecem ter a particularidade dos Deuses que é a de nunca envelhecer. Se nos colocarmos no lado intransigente e poetizante da vida (porque electrizante) saberemos distinguir as letras para canções da complexa e fenomenal noção poética. É preciso que deixem de cantar e escutem a “Música” que o poema por inerência oferece na partitura feliz de algo que resultou e nos faz bem. Bem por dentro, transformando os órgãos num imenso espelho saudável do Cosmos. Porque o Poeta é a criatura mais saudável do Mundo. Um mistério vivifica. Esta era a era das grandes transformações, nada existindo como realidade estática, imprimida a dinâmica cria-se a urgência, a suplantação até da forma primeira. Esta permanente inquietação faz um nível de inventividade imprescindível a toda a criatividade. Não é já na contemplação que ela se vai focar. Lembrei-me assim de os focar, porque me parece o tempo presente falho desta mobilidade de urgência. Talvez que os poetas tenham ficado lá para trás….na memória dos homens como aqueles que pertenceram ao último baluarte humano, ou, é possível que ainda o seu tempo esteja para chegar na precisão das formas, na imanência de um ideal encarnado. Sendo uma poesia de cariz dialéctico, não rígido, é criticada por muitos movimentos marxistas que olham para a vanguarda modernista com inquietação. Para eles a poesia de carácter retórico era infinitamente mais importante. Seja o que for, encontraram-se neste momento as linhas de fundo da transformação ética, política e artística que viriam a mudar para sempre o mapa das nossas seguranças. Neste instante, a rede mundial do verbo que dança, pode poetizar o mundo. Mas,

para tanto, é preciso que os seres não abandonem o código. Seria necessário saber transpor a barreira do preconceito do “décor” e da “performance” porque não tarda também as línguas acabarão tal como as formas de expressão vigentes. A linguagem tenderá ao telepático, ao formal progredido, a uma emanação em que o aparelho fonético se dissipará como órgão gasto. Nesse instante, e por incrível que pareça, só haverá Poesia. Quando expirar o último sopro que exprimir o indizível. Com o triunfo da poesia filosófica e a despersonalização do «eu» Pessoano atingimos uma vertente até então inusitada. Pessoa agarra em tudo e com tudo faz a obra. É um construtor de quimeras, um grande ser do desdobramento da psique, alguém que por falta de um enredo de fundo ambiental vai encontrar na sua poesia uma Nação inteira. Ainda agora, ele continua a escrever, a constatar pela enorme quantidade de frases que em todos os locais aparecem e lhe são atribuídas. É claro que algumas claramente não são dele, mas ele é como uma síntese nacional onde tudo o que para a nação faz sentido se revê. No fundo penso que isto esclarece a falta de conhecimento dos estilos de escrita e até das obras dos autores, mas elas têm uma necessidade que alguém em quem confiam as tivesse dito. Penso que o poeta ausculta uma verdade amarga neste silêncio que é a forma de ser português, só, algo que nunca saberá explicar o fará continuar. Ainda hoje, não há a observância nem a justa recompensa de um árduo trabalho. Porque, trabalho, na concepção maciça do “país dos poetas”, é o labor das funções outras, onde depositam confiança. Depois, há ainda uma velha mentalidade talvez não extinta, do S.N.I: poetas de fim-de-semana, ou reformados, para alimentarem não se sabe o quê de narrativa. E nestes disfarces sombrios se está neste início do séc. XXI, em que os fazedores se temem vivendo fechados nos seus efeitos sem que assumam uma atitude pública de resgate dos pilares morais e espirituais da sociedade. Em termos de inventividade também a situação é um logro! Perdidos em perfeccionismos de diáfano sentido, as suas vidas parecem uma montagem sem aquela centelha imprescindível de liberdade e sonho. Pessoa não morreu e era amante dos Simbolistas, uma espécie de Expressionismo alemão. O desintegracionismo foi uma sua corrente. A obra que os portugueses no fundo conhecem mal conhecem-na agora enquanto ele escreve algures em outros mundos. Para eles, tudo é indiferenciado. Tudo e nada existe… pois buscam o efeito, nunca a causa, e pode ser que nada do que estão observando seja real. A dialéctica dos que findaram o que era preciso dizer.


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c h i n a c

Gravura do artista tailandês Parichart Suphaphan, integrada na 1ª Trienal de Gravura de Macau, promovida pelo Instituto Cultural de Macau)

Qualquer ocidental cristão que observe com algum cuidado a gravura do artista tailandês Parichart Suphaphan, encontrará sem dificuldade ecos da mensagem bíblica. Ecos, mas não equivalência. Primeiro, a menina não está no jardim, é ela própria o jardim, quer dizer, uma força natural imersa na terra. Segundo, ela não é tentada pela serpente, mas atacada por ela. Onde se cruzam as tradições oriental e ocidental? Bom, a resposta parece ser: na força natural da serpente. Esta é o símbolo sexual mais forte e, por isso, nas filosofias yógicas indianas da linha tântrica, que se estendem por toda a Ásia e, em particular pelo sudeste asiático, ela é kundalini, como bem chamou a atenção C.G. Jung em The Psychology of Kundalini Yoga. Notes to a Seminar Given in 1932. Creio que a maior parte das filosofias orientais, sobretudo as mais telúricas e sexualizadas, colocam a questão com toda a exacti-

Bonio, Serpente

dão: ou se desperta a serpente adormecida em cada um de nós, domesticando-se o bicho por via da meditação sexual, mas também ascética, ou se é irremediavelmente atacado por uma força natural, estranha, que vem de fora, porque foi recalcada, sendo desconhecida de dentro. Os chineses são bem mais naturalistas do que os ocidentais? Sim e não. Eles até eram de início bastante espontâneos, tinham uma filosofia animista que evoluiu para o taoísmo popular, mas é preciso não esquecer que também desde muito cedo, a partir de Confúcio e do estabelecimento do Confucionismo, e de uma maneira sistemática desde os tempos Han, que tem havido na cultura chinesa um grande esforço para se dominarem as forças naturais. Esse impulso redobrou em energia com a aceitação e vivências budistas, muitas distantes da linha naturalista e tântrica. Durante os tempos da última dinastia Qing, as vivências religiosas ligadas ao budismo

intensificaram-se e, como tal, o conflito entre as forças naturais e espirituais tornou-se manifesto, abrindo uma guerra semelhante à que assistimos no Cristianismo, com Eva e Adão a serem expulsos do Paraíso por causa de uma supostamente famigerada serpente. A guerra aberta entre as forças naturalistas e religiosas organizadas seria registada também pela literatura chinesa, numa das histórias de amor mais pungentes, intitulada A Serpente Branca (Bái Shé Zhuàn《白蛇 传》), também conhecida pelo nome dos seus protagonistas Xu Xian (许仙) e Bái Niangzi (白娘子), que atingiu o apogeu da popularidade durante a dinastia Qing. Nela os amantes são irremediavelmente perseguidos por um bonzo budista, que lhes destrói a felicidade ao insistir para que Xu Xian (许仙) se afaste da Bai Niángzi ( 白娘子), já que ela era uma serpente encantada. Omitido pelo bonzo foi o esforço de medi-


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Ecos Naturalistas

Ana Cristina Alves*

A Serpente tação que levou a serpente a transfigurar-se em forma humana. O que o bonzo budista não via, bem como muitos outros religiosos não conseguem ver, é que na face exterior do que parece ser transgressão se esconde uma força natural e espontânea estreitamente ligada à mente de quem lida com ela. Para uma mente pura, a força natural nada tem de impuro, para uma mente turva, a força é, na versão ocidental, pecado, e na oriental força negativa e demoníaca. Qualquer força natural e espontânea sem meditação é perigosa. E aqui estamos todos de acordo. Veja-se o que sucede nas guerras, com a quebra das regras de conduta. Saques, mortes, violações. E isso também é a consequência da força natural a actuar. A força da serpente é completa em si própria. Nada há a acrescentar-lhe. A atestar a sua perfeita completude, há uma história proverbial famosa: Desenhar Pés à Serpente (Huà Shé Tian Zú畫蛇添足) , frequente-

mente encurtada na expressão Os Pés da Serpente (Shé Zú蛇足). Resumindo, o episódio passou-se na altura dos Reinos Combatentes (戰國), no Reino Chu (楚國), nos domínios de um senhor feudal, que resolveu recompensar os seus empregados com um jarro de vinho. Como o vinho não chegava para todas as bocas, organizou-se uma competição: desenhar uma serpente. O vencedor ficaria com o vinho só para si. Aquele que acabou primeiro, porque era muito rápido, entreteve-se a desenhar pés à serpente. Posto que foi vencido pela argumentação irrefutável do que terminou em segundo lugar: as serpentes não têm pés. Logo, o jarro é meu. Num equivalente estilístico para Português, o vencedor tinha borrado a pintura. Numa leitura ontológica, nada há a acrescentar a uma força completa em si mesma. E por isso este dito é usado para mostrar alguém a fazer algo de supérfluo. Quando a serpente pretende ser outra, tem

Miguel Ângelo, Genesis

aberto o caminho da metamorfose, semelhante ao do bicho-da-seda e da borboleta. Os chineses, bem conscientes do poder da Serpente (shé 蛇), o verme radicalmente outro, o bicho, a força antitética da civilizada, rebaptizaram-na como Pequeno Dragão (Xiao Lóng 小龙) para dar espaço a esta força natural de se cultivar e exercitar na vida espiritual, num percurso interior do corpo à mente, sem contudo perder as suas raízes telúricas. A serpente rasteja na terra, se conseguir voar como um dragão, realiza a união das duas forças primordiais do universo, a do Céu e a da Terra, no interior do corpo humano e no exterior do corpo cósmico.

* A autora lecciona nos Mestrados de Tradução e de Língua e Cultura do Departamento de Português da Universidade de Macau

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p r i m e i r o b a l c ã o

luz de inverno

Boi Luxo

A propósito de Puhdistus e outros filmes de 2012, ou 2011

Puhdistus é um filme finlandês de 2012 realizado por Antti Jokinen. Balladen om Marie Krøyer é um filme de Bille August, também de 2012. Ve Stínu, também é deste mesmo ano e foi realizado na República Checa por David Ondricek. Todos eles, com pequenas oscilações, são filmes muito bons. Todos eles têm uma cor própria, o checo mais insistente em tons escuros domésticos. O interior acanhado da casa do detective de polícia que é a figura central do elogio que o filme faz à sua integridade e coragem é filmado com uma segurança invulgar, as suas esquinas viradas com a desenvoltura possível dentro de uma casa pequena. Apenas uma sensibilidade apurada conseguiria filmá-la assim. Em Puhdistus, o mais assustador dos três, a noite e o odor a transpiração e medo são pintados num tom setentrional abrasivo mas frio, o frio do mal que se pratica sobre duas mulheres. O filme que fala do casal Krøyer, mais variado na sua paleta, celebra alternadamente (como tantas vezes acontece no cinema escandinavo) a explosão solar curta dos estios nórdicos de que algumas cenas de Smultronstället, de Bergman, são o paradigma perfeito, e os cinzentos longos do resto do ano e da demência de uma das suas figuras nucleares, um artista plástico dotado e reconhecido internacionalmente. Seria injusto ver estes filmes apenas como objectos de uma mediania luxuosa. São

mais do que isso. Conseguem, com um êxito limitado, de início, insinuar a suspeita de que se tratam de algo mais. Mas à medida que se aproximam do seus fins percebemos que, mais uma vez, tal não acontecerá. O desconforto ou as certezas que poderiam causar falham em se instalar. São, além de tudo o que se disse, tramas de inegável interesse. Em Puhdistus acompanhamos duas histórias que se relacionam através de uma das suas figuras. A que se prende com os anos da ocupação soviética da Estónia cria tensões que se transportam exemplarmente, sem qualquer ruído narrativo, para a história contemporânea brutal da exploração sexual de Zara. O filme retrata duas violências de origens muito diversas e dois tempos diferentes, mas que acabam por se conjugar num quadro único do mal que causam. Em Ve Stínu a violência tem igualmente origem numa situação política, a da influência também soviética sobre a antiga Checoslováquia. David Ondricek combina-a perfeitamente com a trama puramente policial e com a trama familiar. É difícil de isolar o que é que falta a este filme. Não é certamente o equilíbrio entre a simpatia que a sua integridade provoca e o retrato brutal de uma sociedade totalitária. Não será certamente a maneira como a claustrofobia que a casa inspira se transfere para a claustrofobia causada pelo sufoco da influência soviética, os jo-

gos de influência, a impotência dos que não são poderosos. O que pode acontecer é que, por vezes, a lembrança das ousadias que o cinema checo tomou durante os anos 60 crie um desejo de que estas se repitam. Tal não chega a acontecer e é a este jogo de aproximação do precipício, que no final se revela pouco perigoso, que estes filmes nos condenam. Balladen om Marie Krøyer pode ser a menos surpreendente destas histórias. Tal como acontece em outros filmes de Bille August, este é baseado num romance (Puhdistus também) e parte da sua falta de ousadia poderá estar ligada a esta dependência. É frequente no cinema escandinavo contemporâneo este encontrar formas subtis de nos enganar e de nos fazer crer que estamos em presença de algo de inesquecível (o próximo filme de August baseia-se num livro medíocre e banalóide, Night Train to Lisbon). Contudo, depois da operação química da análise e da aplicação do bom senso ficam 3 histórias muito convincentes e muito bem apresentadas mas, no fundo da retorta resta apenas uma porção não muito grande de cinema. Talvez porque estes filmes são demasiado próximos de fórmulas prosaicas do cinema, demasiado próximos de algo que nós vemos e sabemos sem que precisemos do cinema para no-lo mostrar. Mas há razões para não desmoralizar. Outros 3 (talvez 4) exemplos de filmes

recentes de larga circulação (não se fala aqui de filmes obscuros e de circulação restrita) permitem equilibrar, com estridente som de trombetas, a mentira em que aqueles (repito, excelentes e muito acima do lodaçal em que a maioria dos espectadores regularmente chafurda) filmes insistem. Tabu, de Miguel Gomes, Vous n’avez encore rien vu, de Alain Resnais, os dois de 2012, e Girimunho, um filme brasileiro de 2011, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr., (hesito em juntar-lhes Holy Motors, de Leos Carax), distanciam-se daqueles porque nos dão a ver histórias que apenas o cinema pode mostrar - ainda que o filme de Resnais repita, mas muito bem, vários dos seus tiques mais irritantes. Estes são portadores de um mistério que os anteriores não sustentam e junto do espectador avisado estabelecem uma relação contratual que o tempo dificilmente quebrará. No fundo, é isto que os distingue, a capacidade de construir uma sedução que é própria ao cinema e que se liberta de outras, sejam elas literárias ou não. Tabu é aquele que mais promete, aquele que faz querer ver mais, aquele que repõe um elevado grau de expectativa numa ida ao cinema. É aquele que promove a esperança num cinema comercial que se não instale, imóvel, numa mediania de alta qualidade que é, na minha opinião, o mais prejudicial dos cinemas, uma mediania turística que pouco tem de ver com o risco e a aceitação da imperfeição.


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próximo oriente

Hugo Pinto

Problemas de expressão “A case of the past catching up with the futurists”, resume, exemplarmente, o jornal inglês The Guardian. Foi notícia na semana passada: os Kraftwerk, o histórico grupo alemão de música electrónica (que, em larga medida, tal como a conhecemos hoje, foi por eles “inventada” no início da década de 1970), viram o ministério da Cultura da China rejeitar os pedidos de vistos para actuarem como cabeças de cartaz no festival de música “Strawberry”, agendado para o final deste mês, em Pequim e em Xangai, porque, em 1998, constavam da lista de bandas previstas participarem num concerto de angariação de fundos para a causa tibetana (“Free Tibet”), em Washington, nos Estados Unidos. Devido a uma forte tempestade, o espectáculo na capital norte-americana nunca chegou a realizar-se, mas isso não demoveu os censores chineses. A revelação de que o quarteto alemão é considerado “persona non grata” na República Popular foi feita à France Press por um responsável da editora de Pequim Modern Sky (organizadora do festival), que falou à agência noticiosa sob a condição de anonimato. O Global Times, um dos jornais oficiais chineses em língua inglesa, avançou que a banda britânica Travis vai encabeçar o alinhamento do “Strawberry” em substituição dos Kraftwerk, preteridos por “razões políticas” que o diário não especifica. No mesmo jornal, com uma franqueza de apreciar, aparece citado um executivo da Modern Sky, Zang Keyu, a dizer que “não estamos 100 por cento confiantes em ter os Travis como banda principal, mas é um facto que temos que aceitar”. Os Kraftwerk, e o público que, em vez deles, vai levar com os irritantes Travis, são ape-

nas as mais recentes vítimas da truculência censória do regime chinês. Nesta história, o festival “Strawberry” é repetente no papel de vítima depois de, em 2011, ter sido cancelado porque, nesse mesmo ano, na cidade de Suzhou, província de Jiangsu, nas mensagens enviadas pelo público que eram projectadas numa grande tela atrás do palco apareceu o nome de Ai Weiwei. O músico Zuoxiao Zuzhou, responsável pela façanha que evocou o artista proibido, foi temporariamente detido. Na China, pior do que referências ostensivas a Ai Weiwei em público, só mesmo proclamar a independência do Tibete. O “incidente” que fez redobrar a atenção das zelosas autoridades teve como protagonista a islandesa Björk. Em 2008, num concerto em Xangai, gritou “Tibet! Tibet!” no final da canção “Declare Independence”. O caso mereceu um comentário do ministro chinês da Cultura, Cai Wu, para quem “o espectáculo político não só violou as leis e regulamentos chineses, como também magoou os sentimentos do povo chinês, além de ter violado o código profissional de um artista.” Mais recentemente, depois de Elton John ter dedicado, em Novembro passado, um concerto em Pequim a Ai Weiwei, Cai Wu voltou à carga e, de acordo com algumas fontes, terá defendido que, no futuro, apenas estrelas com cursos universitários deveriam ser autorizadas a actuar na China. Licenciados ou não, o certo é que, na maioria, os músicos com hipóteses de tocarem na China têm a lição bem aprendida. Elton John que o diga. Interrogado pela polícia depois do concerto de Pequim, conta-se que as autoridades pediram ao “manager” do po-

pular artista que este assinasse uma declaração afirmando que a dedicatória do concerto a Ai Weiwei se devia apenas à admiração pela obra do chinês. Mas a paranóia continua. Liz Tung, editora da revista Time Out Beijing, conta ao Guardian que os organizadores dos concertos dos canadianos Godspeed You! Black Emperor em Pequim e Xangai tiveram problemas com o facto de a banda ter a palavra “God” no nome. Enquanto isso, em Março, actuaram na China sem quaisquer problemas os Gang of Four, a lendária banda do pós-punk britânico que foi buscar o nome ao “Bando dos Quatro”, o grupo considerado uma das maiores “forças contra-revolucionárias” pelo regime comunista chinês. E o que dizer do concerto de John Lydon e dos seus P.I.L., no último sábado, em Pequim? Aquele que, em tempos, foi Johnny Rotten, o anarquista com jeito para o negócio que esteve à frente dos Sex Pistols, censurados na rádio britânica, passeou-se livremente pela capital chinesa sem que os inspectores mostrassem o mínimo incómodo com o passado de agitador de massas. “It’s only rock‘n’roll”, de facto, e mais uma prova da arbitrariedade com que aplicam a censura, uma prática que apenas expõe a fragilidade de um regime preocupado sobretudo em preservar as aparências e esconder o quão desfasado da realidade, frágil e falível é, afinal. Como é mesmo a letra de “Showroom Dummies”?

Os Kraftwerk actuam no próximo dia 13 de Maio, em Hong Kong, no Kowloonbay International Trade & Exhibition Centre.

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Primeiros volumes da obra completa do padre António Vieira apresentados ontem

O gigante da língua Os primeiros três volumes da obra completa do padre António Vieira foram apresentados ontem, na Universidade de Lisboa, pelo bispo do Porto, Manuel Clemente, e pelo catedrático da Universidade de São Paulo, Adolfo Hansen. A sessão, que decorreu na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, ontou igualmente com a participação do secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier. O historiador José Eduardo Franco, um dos coordenadores da edição, com Pedro Calafate, disse à Lusa que este “é o maior projecto da história editorial portuguesa”, tendo em conta que, em dois anos, vão ser publicadas 15 mil páginas, em 30 volumes, distribuídos por quatro tomos. O historiador realçou que, “destas 15 mil páginas, cerca de um quarto são de inéditos ou textos parcialmente inéditos, nomeadamente de teatro e poesia, da autoria de Vieira, que até os investigadores desconhecem”, realçou Franco.

José Eduardo Franco afirmou que o jesuíta, que viveu entre 1608 e 1697, pode ser hoje visto como um “autor anti-crise”. “As soluções que ele apresentou para o país, os escritos dele sobre a nossa mentalidade e os nossos políticos [permitem] dizer que ele é um autor, uma figura histórica anticrise”, afirmou José Eduardo Franco, que acrescentou que Vieira “é mais do que um autor que ainda hoje nos ensina a bem falar, bem escrever e bem comunicar a língua portuguesa”. A apresentação dos primeiros três volumes, hoje, é seguida de uma encenação de um sermão do padre António Vieira, pelo Teatro Éter, com António Mortágua. Na sexta-feira, os primeiros volumes da Obra Completa de Vieira são apresentados às 18:30, na sala 2 da Casa da Música, no Porto. Entre estes títulos, encontra-se “a obra magna de Vieira, que morreu quando a escrevia, que se intitula ‘A Chave dos Profetas’, que corresponde a dois volu-

mes”, e o terceiro intitula-se “Cartas Diplomáticas”, disse Franco à agência Lusa. Os trinta volumes, que serão publicados de dois em dois meses, dividem-se em quatro tomos. O primeiro tomo é dedicado à “Epistografia”, o segundo, à “Parenética”, o terceiro, à “Profética” e o quarto reúne “Varia” do autor. A edição da obra, pelo Círculo de Leitores, é patrocinada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e inclui uma “selecta de 300 a 400 páginas dos melhores textos de Vieira, que será traduzida em mais de 10 línguas”, disse Franco. O historiador adiantou à Lusa que o plano editorial inclui “um dicionário multimédia sobre a obra de Vieira”. A Obra Completa de Vieira é um projecto luso-brasileiro, liderado pela Reitoria da Universidade de Lisboa, que envolveu 51 investigadores dos dois países, o que levou José Eduardo Franco a dizer “que, mais uma vez, o padre António Vieira é uma ponte entre os dois povos e as duas culturas”.

Máximas do Padre António Vieira Amar a quem me aborrece, é ser humano com quem o não é comigo: aborrecer a quem me ama, é ser cruel com quem mo não merece: o ser humano é ser homem; o ser cruel é ser fera: logo aborrecer a quem nos ama, tanto mais dificultoso é, quanto mais repugnante à natureza. Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma, Lisboa, no Convento de Odivelas, 1644, § III *** O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. Sermão do Mandato, Lisboa, na Igreja do Hospital Real, 1643, § V *** Sabeis porque vos querem mal vossos inimigos? Ordinariamente é porque vêem em vós algum bem que eles quiseram ter, e lhes falta. Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma, Lisboa, na Capela Real, 1649, § III *** Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra: para nascer, Portugal: para morrer o mundo. Sermão de Santo António, Roma, na Igreja de Santo António dos Portugueses, 1670, § IV *** A maior miséria da vida humana (outros dirão outras) eu digo que é não haver neste mundo de quem fiar. Sermão Terceiro – Confiança, § I *** […] os corpos se retratam com o pincel, as almas com a pena. Sermão Quarto – Pretendentes, § II

O maior jugo de um reino, a mais pesada carga de uma república, são os imoderados tributos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se por todos. Não há tributo mais pesado que o da morte, e contudo todos o pagam, e ninguém se queixa; porque é tributo de todos. Sermão de Santo António, Lisboa, na Igreja das Chagas, 1642, § IV *** Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso de razão. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afectos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos pintores do amor lhe vendaram os olhos. Sermão do Mandato, Lisboa, na Capela Real, 1645, § II *** Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera? Sermão do Mandato, Lisboa, na Igreja do Hospital Real, 1643, § III *** A mais poderosa inclinação, e o maior apetite do homem, é desejar ser. […] Não está o erro em desejarem os homens ser; mas está em não desejarem ser o que importa. Sermão de Todos os Santos, no Convento de Odivelas, em 1643, § II


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Vieira queimado em...“esfinge” Vasco Graça Moura Público

O padre António Vieira nunca foi “imperador da língua portuguesa”. Essa é apenas uma das muitas mistificações engendradas por Fernando Pessoa, que nem sequer percebeu que a língua não é um império mas sim a principal base identitária de uma comunidade humana. De resto, se fosse realmente reconhecido como “imperador” e o seu império fosse deste mundo, a sua obra não poderia deixar de ser estudada, e muito a sério, nas nossas escolas… Vieira foi, sim, um dos maiores escritores de todos os tempos da nossa língua, num quadro barroco em que soube fazê-la extravasar dos cânones e dos códigos parenéticos, teológicos, humanitários, oratórios, retóricos, argumentativos, políticos, diplomáticos, epistolográficos, proféticos, sociais e tantos outros em que a utilizava, assim como foi um mestre na maneira e no virtuosismo com que tão destramente se servia dela (e a servia) para a interpretação literal, analógica, tropológica e anagógica da palavra divina e das suas caleidoscópicas refracções. Nessa razão de ser da sua longa vida, soube implantar uma dimensão fundamental que podemos considerar da ordem do estético, e que é expressiva e dinâmica, capaz de conjugar razão, emoção, erudição, conhecimento e mito, aproximação do real e flagrância, suspense e teatralidade, convicção e persuasão, chegando a estádios de um vigor estilístico, de uma energia verbal e de uma beleza retórica incomparáveis. Engendrou assim uma “estética pragmática”, posta ao serviço de Deus e apostada na conversão e salvação das almas e hoje, mesmo para aqueles a quem não seja o reino de Cristo neste e deste mundo aquilo que propriamente mais interessa, a preocupação de Vieira com o homem e o seu destino e a sua orientação espiritual da vida prática dos cristãos a quem se dirigia para a dimensão da escatologia em nome da qual falava, proporcionam-nos páginas em que o verdadeiro prazer da leitura se combina com a descoberta de análises extraordinárias da natureza e do comportamento humanos. Quando penso em Vieira, penso em Miguel Ângelo. E ocorre-me também que, um pouco à maneira do Deus bíblico, Vieira nos modela a nossa própria humanidade na argila da língua que falamos. Ele soube utilizar a palavra, enquanto massa estruturante e fluidez sonora e semântica em movimento, na genialidade de um pensamento dialéctico que é também encenação constantemente transfigurada em acção, numa

distribuição de volumes, equilíbrios, pontos de fuga, tensões e resoluções, em que nos restitui também um mundo enquanto arquitectura verbal e representação metafísica. Bastante estudado por especialistas, mas pouco lido pelo grande público e nunca editado em toda a extensão de uma obra que promete continuar a revelar inéditos e variantes numa profusão desvairada de arquivos nacionais e estrangeiros, Vieira vê chegada a hora do projecto mais ambicioso de edição de tudo quanto escreveu e que envolve, como principais entidades responsáveis pela saída dos trinta volumes projectados, a Universidade de Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia e o Círculo de Leitores, além de muitos outros apoios e colaborações. Os objectivos desse projecto, na sua reunião de cartas e documentos portugueses e latinos, do sermonário, da obra italiana, da obra profética, da intervenção política e diplomática, dos dispersos, de tudo o mais que importa dar a lume e até dos apócrifos, estão bem explicitados nos textos introdutórios e oxalá possam ser levados a cabo com as metodologias e os calendários previstos. Nas páginas de apresentação notabilíssimas que já pude ler, seja das Cartas, seja da Chave dos Profetas, não só encontrei percursos fascinantes, quase “de romance”, da história das ideias, como apanhei também fios condutores preciosos que guiam o leitor num labirinto emaranhado de conceitos teológicos e situações históricas de que hoje estamos muito distantes. A escrita dos apresentadores é rigorosa, sabedora e eficaz. E consegue nunca aborrecer o leitor apesar da por vezes derrotante rarefacção da matéria. Ficamos a compreender melhor o mundo, este mundo, o de Vieira e o nosso, o que vem dele até nós, o que passará além de nós… Esta magna edição é de saudar entusiasticamente, mas tem um grave problema. Digo isto com a reserva de que não sou especialista, mas sim o tal leitor comum a quem a edição expressamente se dirige (p. 33) e é apenas nessa qualidade que falo. O grave problema está em que a edição pretende pautar-se pela norma ortográfica em vigor e afinal aplica uma norma que não está em vigor nem nunca esteve, e que é a do Acordo Ortográfico. Sabe-se bem que esta questão tem feito correr rios de tinta. Mas entidades tão científica e economicamente poderosas como as mencionadas, tão responsáveis económica, cultural e socialmente, pela missão que desempenham, dispondo de estruturas institucionais que comportam faculdades, departamentos, conselhos científicos, sei

lá que mais, não poderiam e não deveriam, antes de se lançarem a este portentoso empreendimento, pedir pareceres científicos e jurídicos abalizados na matéria? Viverão num mundo nefelibata? Ignoram a polémica e os problemas? Não sabem que há hoje três grafias divergentes a serem aplicadas no mundo da língua portuguesa? Quem tem medo do Estado de direito? Quem tem medo da aplicação da Lei? Quem tem a desvergonha de, num caso destes, evitar fazê-lo, sem um escrúpulo, sem um prurido de consciência, sem uma forma, ao menos esboçada, de se isentar de responsabilidades pela opção tomada? Que autoridade científica, jurídica ou cultural assiste aos directores da edição para falarem, a p. 33 (vol. Cartas), numa “actualização linguística no quadro das normas vigentes do português”? Ou à dr.ª Aida Lemos para aí afirmar, a p. 35, que as grafias foram “normalizadas segunda a norma em vigor”? Se o tivessem sido, nunca poderia ser aplicado o AO porque ele não constitui norma vigente… Vieira e a sua obra incomparável saem desfigurados dessa irresponsabilidade de lesa-cultura que mancha indelevelmente um trabalho tão digno e de tão grande envergadura e que se fica a dever a tantos nomes

importantes, em que sobressaem os dos directores da iniciativa, professores José Eduardo Franco e Pedro Calafate. Estive na sessão de apresentação pública e de lançamento desse projecto ainda não há muitas semanas e regozijei-me ex corde com ele, como português, como escritor, como cidadão com algumas responsabilidades na cultura. Confesso que nunca me ocorreu que as coisas iam ser assim. E também não me passou pela cabeça que alguns problemas de revisão tornariam relativamente caricata a apresentação, sendo de esperar que outros não ocorram no texto do grande jesuíta. Aponto dois, ambos do Tomo I/Volume I: a pp. 27/28 escreve-se “apesar de Teófilo Braga (…) ter despeitado a qualidade literária dos textos oratórios de Vieira (…)”. Não me parece que o verbo “despeitar” como transitivo faça grande sentido nesta acepção. Mas há pior: diz-se, a p. 25, que “os estudantes de Coimbra, instigados pela Inquisição, o tinham queimado em esfinge na praça de universidade, como herege e inimigo da pátria”. Em esfinge??? Ora aproveitem lá a esfinge para mudar de revisor, guilhotinar estes três volumes inimigos da pátria e tratar da edição de Vieira como ela merece ser tratada…


5 4 2013

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l e t r a s s í n i c a s

Huai Nan Zi 淮南子

15

O Livro dos Mestres de Huainan

Aqueles que usam as suas capacidades para lutar pelo poder começam ao sol e acabam na sombra.

Do Estado e da Sociedade – 41 Quando o prazer e a ira se formam no coração, e os desejos se tornam visíveis externamente, aqueles que desempenham cargos públicos afastam-se da rectidão e procuram obter favores dos seus superiores; os administradores corrompem a lei e seguem as modas. As recompensas não são adequadas ao desempenho e os castigos não correspondem aos crimes. Superiores e subordinados sentem-se alienados; os soberanos e os ministros guardam ressentimento em relação uns aos outros. Assim, quando aqueles que detêm cargos políticos procuram o favor dos soberanos, nunca são culpados por seus erros ou punidos por seus crimes. E, como tal, a desordem se instala na governação, ao ponto de nem a sabedoria a conseguir resolver. Calúnia e elogio florescem, ao ponto de nem a inteligência os conseguir clarificar. A menos que haja uma rectificação de base e um regresso ao que é natural, os líderes encontrar-se-ão sob uma pressão cada vez maior e os administradores tornar-se-ão cada vez mais negligentes. *** Aqueles que usam as suas capacidades para lutar pelo poder começam ao sol e acabam na sombra. Aqueles que usam a sua inteligência para governar países começam com ordem e acabam com caos. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


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