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h - Suplemento do Hoje Macau #62

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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2746. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

LÚCIO PINHEIRO DOS SANTOS

O TERCEIRO HOMEM


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Lúcio Pinheiro dos Santos

O FILÓSOFO FANTASMA A OBRA DE PINHEIRO DOS

Também este texto desapareceu misteriosamente. Quem recorrer ao Google para saber alguma coisa sobre Pinheiro dos Santos, pouco encontrará. No entanto, se procurar por “rhythmanalysis”, em inglês, ou por “rythmanalyse”, em francês, terá milhares de páginas para ler entanto, se procurar por “rhythmanalysis”, em inglês, ou por “rythmanalyse”, em francês, terá milhares de páginas para ler, a maior parte delas relacionadas com o sociólogo e filósofo marxista Henri Lefebvre, cuja influente obra póstuma “Eléments de Rythmanalyse”, publicada em 1992, é assumidamente inspirada pelas páginas que Bachelard dedicou à tese de Pinheiro dos Santos. A Ritmanálise está hoje na moda em diversos domínios do saber, muito ao contrário do seu criador.

SANTOS, INVENTOR DA

PESSANHA E A FOTOGRAFIA

INFLUENCIOU O FILÓSOFO FRANCÊS GASTON BACHELARD E FOI CONSIDERADO UMA DAS MENTES MAIS BRILHANTES DA SUA GERAÇÃO. JUÍZO HOJE DIFÍCIL DE AVALIAR PORQUE

“RITMANÁLISE”, DESAPARECEU SEM DEIXAR RASTO. PEDRO BAPTISTA RECONSTITUIU O PERCURSO DO “FILÓSOFO FANTASMA”, NUM LIVRO QUE SERÁ APRESENTADO NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA, DIA 5 DE DEZEMBRO, NA FUNDAÇÃO RUI CUNHA. PELAS 18.30 HORAS.

Luís Miguel Queirós in Público

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M 1937, Álvaro Ribeiro sugeria, numa carta enviada a José Marinho, que Lúcio Pinheiro dos Santos “deveria talvez ocupar hoje o lugar de primeiro filósofo português”. Um juízo significativo, se tivermos em conta que Ribeiro e Marinho, discípulos de Leonardo Coimbra na Faculdade de Letras do Porto, começavam já então a ser vistos como as duas principais figuras do chamado movimento da filosofia portuguesa, cuja actividade se intensificaria a partir dos anos 40 em torno das tertúlias que ambos iriam animar em Lisboa. A convicção de Álvaro Ribeiro foi expressa um ano após ter sido publicado, em França, o livro “Dialectique de la Durée”, de Gaston Bachelard, cujo sexto e último capítulo constitui uma extensa introdução à “Ritmanálise”, de Lúcio Pinheiro dos Santos, da qual o filósofo francês as- sumidamente se serve para criticar, como já fizera em “L’Intuition de L’Instant” (1932), a no-

ção substancialista e continuista do tempo em Henri Bergson. Do que Bachelard escreveu, depreende-se que o que Pinheiro dos Santos propunha era, na verdade, um novo sistema de conhecimento, que se baseava na centralidade do ritmo e da vibração, e que o autor considerava virtualmente aplicável a todos os saberes, da física à biologia ou da psicologia à pedagogia. Se Pinheiro dos Santos tivesse sido um filósofo grego antigo, provavelmente teria postulado que o ritmo é a medida de todas as coisas. E a verdade é que há pelo menos uma circunstância que aproxima o pensador português de vários desses seus longínquos antecessores pré-socráticos: o que hoje conhecemos da sua obra resume-me, com poucas excepções, a comentários de terceiros. Que livros manuscritos há 2500 anos não tenham chegado até nós, compreende-se. Que

volumes impressos em pleno século XX, por muito confidencial que possa ter sido a respectiva tiragem, tenham simplesmente desaparecido, não sendo possível encontrá-los em qualquer biblioteca pública — nem, tanto quanto se sabe, em colecções particulares —, já é francamente estranho. Sabemos que Bachelard compulsou uma edição em vários tomos de “Ritmanálise”, cujo título considerou “belo, luminoso e sugestivo”. Segundo a informação bibliográfica fornecida em “Dialectique da la Durée”, a obra teria sido publicada no Rio de Janeiro, em 1931, com a chancela da Sociedade de Psicologia e Filosofia. O facto é que, depois de Bachelard, não há notícia de que alguém tenha tido nas mãos um exemplar desta obra. O filósofo francês elogia ainda um outro estudo de Pinheiro dos Santos, no qual este questiona as teses de Freud sobre Leonardo Da Vinci.

Lúcio Pinheiro dos Santos nasceu a 19 de Abril de 1889, em Braga, filho de um oficial do exército que, ao que parece, não nutria especial simpatia pela causa republicana à qual o filho iria aderir ainda adolescente. Era, sim, um apreciador de música, o que poderá ter influenciado a vocação da irmã de Lúcio, Conceição, que frequentou o Conservatório de Lisboa, esteve como bolseira na Bélgica e, regressada a Portugal, “exerceu actividade como pianista”. Conceição veio a casar-se com o célebre médico Francisco Pulido Valente, já então amigo do seu irmão, com quem participara na greve académica de 1907, que abalara o governo de João Franco. O casal teve cinco filhos, entre os quais se contam o engenheiro Fernando Pulido Valente, o arquitecto José Pulido Valente, e Maria Helena Pulido Valente, mãe do historiador Vasco Pulido Valente. Pinheiro dos Santos manteria sempre uma forte ligação a este seu cunhado. Nas vésperas da sua morte, gravemente doente no Brasil, é a ele que escreve a pedir aconselhamento médico e a ponderar um regresso a Portugal, que acabaria por já não se concretizar. Uma fotografia de 1908 mostra Pinheiro dos Santos entre Camilo Pessanha e Luís Amaro, o homem que fez chegar a Fernando Pessoa os poemas do futuro autor de “Clepsidra”. Enquanto estudava matemática e física na Escola Politécnica de Lisboa, Pinheiro dos Santos contribuía para a propaganda republicana, e terá mesmo estado directamente envolvido no 5 de Outubro de 1910. Já sob o novo regime, recebe, em 1912, uma bolsa para prosseguir os seus estudos de matemática em Mons, na Bélgica, e na Sorbonne, em Paris. Mas todas as sextas-feiras está entre os alunos que assistem, no Collège de France, às aulas de Bergson, frequentadas, entre outros, pelos poetas T. S. Eliot e Antonio Machado, e também por Bachelard, que decerto conheceu Pinheiro dos Santos nesta altura. Com o início da I Guerra, regressa a Lisboa e é nomeado professor numa secção do Liceu Central Passos Manuel, que em breve se tornaria um liceu autónomo: o Gil Vicente. Leonardo Coimbra é o bibliotecário da escola, a cujo corpo docente se junta, em 1917, Newton de Macedo. Pinheiro dos Santos dirá mais tarde que Leonardo “foi o primeiro a compreender, por volta de 1916, a significação filosófica dos primeiros


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trabalhos de Ritmanálise”. Terá sido neste mesmo ano de 1916 que se apaixonou por uma mulher nove anos mais velha, Maria Correia da Costa, então casada com o portuense António Serpa Pinto e mãe de duas filhas. Lúcio e Maria terão fugido para o Brasil, à boa maneira dos romances oitocentistas, em Dezembro de 1917. Mas o casal — que nunca o terá sido a título formal — regressa a Portugal em 1919, quando Leonardo Coimbra chega, pela primeira vez, a ministro da Instrução e nomeia Pinheiro dos Santos e Newton de Macedo para a Faculdade de Letras de Coimbra, atribuindo-lhes a missão de reformar os estudos filosóficos. Como nenhum deles tinha currículo académico na área, as nomeações foram violentamente contestadas. Leonardo acaba por colocar os dois amigos na Faculdade de Letras do Porto, que acabara de criar, mas Pinheiro dos Santos, agastado com a transferência, que via como uma condenável solução de compromisso, nunca terá chegado a exercer o cargo. Nesses anos, dedicar-se-á activamente à política, tendo sido por duas vezes eleito deputado nas listas do Partido Republicano Português. Em 1923, vai em comissão de serviço para Goa, tendo sendo detido, em Agosto de 1926, por se ter oposto a uma sublevação militar. Baptista admite que a dita sublevação possa ter sido “o 28 de Maio a instalar-se nos confins do Império com dois meses de atraso”.

O SUPOSTO ECLIPSE

Em Dezembro de 1916, regressa a Portugal e assume a cadeira de Psicologia na Faculdade de Letras do Porto, mas logo a 27 de Janeiro do ano seguinte ausenta-se do serviço, pretextando doença. Dado estar-se nas vésperas da revolta de 3 de Fevereiro, a primeira grande tentativa de derrube da recém-implantada dita- dura, Baptista não exclui que Pinheiro dos Santos tenha “metido baixa para fazer a revolução”. O certo, conclui, é que, derrotada a intentona, o pensador voltou a partir para o Brasil, e, desta vez, para nunca mais regressar. Até à sua morte, em 1950, irá ser professor do ensino livre. Um dos méritos do livro de Pedro Baptista foi ter investigado este período, que aparentemente correspondia a um completo eclipse do pensador enquanto figura pública. A verdade é que não foi bem assim. Os documentos que Baptista descobriu no Brasil (e que transcreveu na íntegra, como apêndices ao seu livro), mostram que Pinheiro dos Santos prosseguiu os seus estudos de Ritmanálise, escreveu e divulgou textos relevantes, foi entrevistado pelos jornais, conviveu com os grandes intelectuais e artistas brasileiros da época, e manteve-se durante anos como figura central da oposição ao salazarismo nos círculos da emigração portuguesa. O próprio Franco Nogueira lhe confere este estatuto na sua biografia de Salazar, acusando-o de se “multiplicar em panfletos anti-salazaristas” e de “dirigir apelos as partidos socialistas e círculos intelectuais da Grã-Bretanha, Estados Uni- dos, União Soviética, América Latina, França, Nações Unidas”. Salvo no final da vida, quando estava a morrer de um enfisema e admitiu regressar a Portugal com a mulher, Pinheiro dos Santos só terá ponderado deixar o Brasil no início da II Guerra. Em 1939, numa carta à irmã, escreve: “com estes 50 [anos] que já cá cantam (e cantam ainda), ofereci- me ao Ministro da Instrução de França, por intermédio do filósofo francês Gaston Bachelard (...); e se a guerra durar muito, é provável que ainda vá até uma universidade francesa”. Hipótese plausível ou piedosa ilusão, não se sabe. Em todo o caso, como lembra Baptista, o projecto dificilmente se poderia ter concretizado, já que, em Julho de 1940, os alemães entravam em Paris.

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DA SAUDADE AO PARAÍSO DO FUTURO* Pedro Baptista (…) EM LÚCIO Pinheiro dos Santos, o filósofo português contemporâneo mais conhecido no mundo, desenvolve-se esta constatação saudosista como elemento primordial. Na versão da Ritmanálise que nos foi transmitida por Bachelard, um mito lírico que, do ponto de vista do pensador francês, nunca transcrevendo a palavra saudade, se poderia chamar Complexo de Orfeu, aparece como uma antítese do Complexo de Édipo da Psicanálise. Ao contrário desta, a Ritmanálise é uma doutrina do reencontro de uma infância sempre possível, “abrindo sempre diante dos nossos olhos um futuro indefinido”. A genialidade de Leonardo da Vinci, ainda numa dissertação de Pinheiro dos Santos citada pelo filósofo da Borgonha, resultaria da obtenção de uma espécie de “infância eterna”, sendo pois o criacionismo – termo que Bachelard já transcreve – um método de perpétua volta à infância, fonte e impulso dos nossos ritmos criativos e formativos, que através do “conhecimento entusiástico”, permite a ascensão ao estado lírico1. Cerca de uma década depois do envio a Bachelard do texto referido2, Pinheiro dos Santos afirma que, na adolescência, a vida do espírito constitui-se numa mitologia, em que, cada um, vivendo a iluminação do sonho do que poderá vir a ser, dispõe do seu mito, que lhe oferece, através da imaginação, o outro lado de si próprio e que lhe parece ao alcance das “mãos ansiosas, como asas, dentro do sonho da criação humana”. No correr da vida, esse mito, à medida que vai ficando para trás ou que vai fugindo à frente, tornando-se cada vez mais distante e, portanto, inacessível, vai passando “para as novas infâncias do mundo”. Depois, “a infância eterna do mundo é recuperada no coração do sábio”. Se o homem vai, nas asas da metamorfose, do sonho para o futuro da vida, o sábio, por sua vez, “recupera para si a infância do mundo iluminada por uma nova luz”3. Esta luz é a “consciência comum” que as gerações vindouras, nos seus empreendimentos futuros, virão a tomar. Por isto, viver é uma arte poética, sendo nesta que se pode atingir a grande sabedoria, que consiste em abandonar o interesse pessoal pelos homens e pelo mundo e assumir “o supremo desinteresse de quem, em espírito, se coloca já no além da vida”. A vida do sábio é pois, na metafísica agnóstica ou ateísta de Lúcio Pinheiro dos Santos, a que procura o caminho da transcendentalidade, mormente o de uma imortalidade obtida pela concentração da actividade no terreno excedente da vida pessoal. É aqui que surge a expressão superior da saudade, transmutando-se e elevando-se na inversão da recordação: a saudade torna-se ânsia, “na fé e na esperança de um mundo melhor”4. Mas há outro sentido da saudade: a daqueles que em lugar de, com ela, se elevarem, pelo contrário, descem “das alturas humanas ao terreno da mistificação política”. Poderão ter resultados 1 Bachelard, Gaston – La Dialectique de la durée. Paris: Boivin. 1936. P. 169. 2 Segundo Bachelard “Ritmanálise” é título da obra que lhe foi enviada, editada pela “Sociedade de Psicologia e Filosofia”, Rio de Janeiro, 1931. O facto de Bachelard estar convencido de que a Universidade do Porto é no Brasil, resulta de Pinheiro dos Santos fazer acompanhar o seu texto por um cartão de visita com o endereço do Rio de Janeiro, onde habitava desde 1927, e com a apresentação de “Professor da Universidade do Porto”. 3 Santos, Lúcio Pinheiro dos – A Filosofia do Momento Actual, Comunicação ao Primeiro Congresso de Escritores, São Paulo, Janeiro de 1945. In Baptista, Pedro – O Filósofo fantasma. Zéfiro. 2010. P. 179. 4 Idem, ibidem.

práticos imediatos aparentemente vitoriosos, mas não passarão de agentes de um “saudosismo interessado”, dos que apenas pretendem a defesa das suas posições pessoais contra a “ascensão do povo a uma vida digna e livre”5. É na primeira perspectiva que se coloca, para o pensador bracarense, “a verdadeira saudade lírica e da epopeia portuguesa”, não “na intolerável choradeira do passado imperialista”6, ficando assim discernidos, com clareza, dois sentidos para o vocábulo saudosismo, em dois conceitos não só bifurcados e distantes, como tendentes a se afrontarem como antagónicos. Mesmo com consciência de que, a tendência para a arrumação dicotómica dos conceitos, ou das noções, em arquipélagos incomunicáveis, não será, muitas vezes, a melhor conselheira intelectual, a não ser para a urdição da sobressunção dialéctica, sendo sempre passível da enfermidade maniqueísta, parece ficar muito claro, por um lado, uma saudade nostálgica e revivalista, onanista e neurótica, infecunda e reaccionária, por um outro, pelo contrário, uma saudade animada e futurista, construtivista e criacionista, prolixa e inovadora. A primeira, de pendor emocional mórbido, sonha com o passado perdido em tempos ultrapassados pela história, deleitando-se nos umbros a rememorar e tentar reviver, muitas vezes inconscientemente, realidades que, vistas com o olhar reflexivo do nosso tempo, foram as diversas expressões da opressão. A segunda, de pendor emocional revivificante, também sonha a partir da lembrança de um passado perdido, que entenderá como castigo do pecado da opressão, no assalto, no extermínio e na escravatura, crimes maiores de fogo, de sangue e de cativeiro, procurando a expiação na construção social, no sentido utópico de um novo paraíso redimido do pecado ancestral, colocando a libertação no espaço vazio da derrubada opressão. É que, em cada história de cada povo, o pecado original é o pecado tido, no consciente ou no inconsciente colectivo, como principal. O Império é o paraíso passadista da saudade reaccionária; a Epopeia o Éden referencial e mobilizador de uma utopia universalista do portucalense, que não contenderá, nem contradirá, a utopia reconstrutora no próprio território originário, porque essa capacidade para estender a 5 Idem, ibidem. P. 180. 6 Idem, ibidem.

lembrança no tempo é, precisamente, a virtualidade da saudade. O homem faz-se a si mesmo, à imagem do desejo que tem de si, “contemplando-se nas águas dos olhares da sua figura de sonho”. Todavia, como tudo se degrada e tudo se inverte, o homem precisa de ser activo, para sustentar o carácter e combater a degenerescência, ”na busca incessante dos momentos generosos da vida”. É por isso que a alma humana requer incessantemente o “ascetismo entusiasta”, que permite a resistência nas mais difíceis condições, a luta pelo renascimento da vida e pela liberdade do espírito7. Também nas coordenadas de Leonardo de Coimbra de “O Criacionismo” de 1912, o sentido ancilosado da saudade resulta do “erro coisista” que complicando “todos os substancialismos emotivos a que anda ligada a ideia de tempo” a petrifica numa Substância8. E a lembrança de Raúl Proença é demasiado premente, para não ser assinalada. O ascetismo entusiasta de Lúcio Pinheiro dos Santos, o pensador bracarense, professor da Universidade do Porto, mundialmente estudado, por equívoco, como brasileiro, está muito perto da atitude heróica, essa audácia generosa proençana, do “navegante intrépido em busca de mais vida”9, chegando a usar, mais tarde, a expressão “ascetismo heróico”, entre aspas, a propósito da vida abísmica de Leonardo Coimbra que, todavia, enquanto pensador, nunca se teria despenhado10. Tal como o homem de elite de Raúl Proença, potencialmente “o artista, o poeta, o homem superior”, que adopta perante os problemas do mundo a “atitude heróica” do Excubitor, o “acordador” das “adormecidas consciências” que deveria sentir que “tudo está a gritar por uma santificação”11. Num caso ou noutro, a imortalidade conquista-se pela mística da acção social, nomeadamente política. Curiosamente, também em Proença, a mesma dicotomia é estabelecida entre aquele fóssil que “para o passado volve os olhos”, desejando “eternizar as coisas mortas, parar a vida, fazer da história uma repetição” e o revivificante que, pelo contrário, percebe “no progresso mesmo da vida a tradição mais iniludível – e a mais nobre…”12. “Quanto faltará ainda para que se chegue ao que se espera?”, pergunta Pinheiro dos Santos a propósito do pensamento de Leonardo Coimbra. “Não importa”, prossegue, “ outros, depois de nós, farão o que nós não chegamos a fazer, e o farão com certeza. Esta é a alegria de um pensamento certo que sabe que se continuará no futuro do mundo”13. E, noutro passo: ”Nada se pode esperar do que está; tudo há-de vir, para o futuro, do nosso esforço de renovação”14. (…) *Extracto de uma conferência proferida no IV Congresso Luso-Galaico sobre a Saudade, 2011 7 Idem, ibidem. 8 Coimbra, Leonardo – O Criacionismo. Renascença portuguesa. 1912. P. 132. 9 Proença, Raúl – A Coerência. In Alma nacional, nº 11, 21 Abril 1910. 10 Santos, Lúcio Pinheiro dos - Profundidade e perenidade do pensamento de Leonardo Coimbra. In Leonardo Coimbra – testemunho dos seus contemporâneos. Tavares Martins. 1950. P. 56 . Transcrito em Baptista, Pedro – O Filósofo fantasma. Zéfiro. 2010. P. 187. 11 Proença, Raúl – A Filosofia de Epicuro e a concepção heróica da vida. (1920) In Reis, António – Raúl proença – Estudos e antologia. Alfa. 1989. P. 177. 12 Idem, ibidem. 13 Santos, Lúcio Pinheiro dos - Profundidade e perenidade do pensamento de Leonardo Coimbra. In Leonardo Coimbra – testemunho dos seus contemporâneos.. Tavares Martins. 1950. P. 59 . Transcrito em Baptista, Pedro – O Filósofo fantasma. Zéfiro. 2010. P. 191. 14 Idem, ibidem.


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A RITMANÁLISE

Tradução do VII capítulo de “La Dialectique de La Durée”, de Gaston Bachelard, de 1936, conforme a edição das P.U.F. de 1963

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qualidades temporais, ou seja, como qualidades inteiramente caracterizadas pelos ritmos. A fotoquímica sugere já, neste sentido, substâncias verdadeiramente novas, onde o tempo vibrado deixa a sua marca. Pode prever-se que o químico fará brevemente substâncias, com o espaço-tempo simetrizado e ritmado. Por outras palavras, no espaço-tempo duplamente uniforme usual na era prébrogliana, o metafísico, que quer fundar as intuições conforme as necessidades metafísicas actuais, tem de substituir a simetria-ritmia. Como se vê, o realismo tem necessidade de uma verdadeira inversão metafísica para corresponder aos princípios do materialismo ondulatório. É um ponto ao qual nos propomos voltar numa outra obra em que possamos apresentar provas científicas. Também não discutiremos se o realismo assim invertido é ainda um realismo propriamente dito. De momento, pretendemos apenas esboçar as bases físicas da Ritmanálise e mostrar que esta doutrina, mais propriamente biológica e psicológica, procede de uma visão metafísica geral.

S estudos complexos e variadíssimos de Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos, tal como os pudemos conhecer, apresentam-se sob a forma de um conjunto de ensaios que o próprio autor considerada provisórios e sujeitos a revisão1. Não pretendemos dar o seu plano de conjunto nem desenvolver as linhas múltiplas do seu desenvolvimento. Pretendemos apenas fixar alguns temas gerais e examinar quais as ressonâncias que estes temas podem determinar na nossa tese das durações essencialmente dialécticas, construídas sobre as ondulações e os ritmos. Para ser exposta com a amplitude que merece, a obra de Pinheiro dos Santos precisaria de um trabalho muito mais vasto. Em muito domínios, a sua obra é extremamente sugestiva do que poderá ser a pesquisa dos trabalhadores em busca de ideias novas.

I

Pinheiro dos Santos estuda a fenomenologia rítmica de três pontos de vista: material, biológico, psicológico. Traçaremos apenas um esboço em relação aos dois primeiros pontos de vista uma vez que, neste pequeno livro, são sobretudo as bases da psicologia da duração que nos interessam. Que a matéria se transforma em radiação ondulatória e que a radiação ondulatória se transforma reciprocamente em matéria, é um dos princípios mais importantes da Física contemporânea. Esta transformação facilmente reversível deve conduzir-nos a pensar que, sob certos aspectos, a matéria e as radiações são semelhantes. É o mesmo que dizer que tanto a matéria como as radiações devem ter caracteres ondulatórios e rítmicos. A matéria não está estendida no espaço, indiferente ao tempo; não subsiste como algo constante e inerte, numa duração uniforme. Também não vive como algo que se usa e dispersa. É não só sensível aos ritmos, como existe, em toda a força do termo, no plano do ritmo, e o tempo em que desenvolvem certas manifestações delicadas é um tempo ondulante, que só tem uma maneira de ser uniforme: a regularidade da frequência. As diversas potências substanciais da matéria, desde que estudadas em detalhe, apresentam-se como frequências. Em particular, desde que se acede às trocas energéticas detalhadas entre as diversas matérias químicas, percebe-se que as trocas se efectuam sob o modo rítmico, por intermédio indispensável de radiações com frequências determinadas. A energia, se grosseiramente apreciada, pode, sem dúvida, perder aparentemente os ritmos, baixando a proporção no tempo ondulante; apresentar-se-á então como resultado global, como um balanço onde o tempo perdeu a estrutura ondulatória: paga-se a electricidade em hectowatt-hora, o carvão à tonelada. Mas somos sempre iluminados e aquecidos pelas vibrações. As formas de energia mais constantes não nos devem iludir. A teoria cinética dos gases ensinou-nos que um gás encerrado no corpo de uma bomba mantém o pistão a um nível invariável por múltiplos cho1 Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos, professor de filosofia na Universidade do Porto (Brasil): A Ritmanálise, publicação da “Sociedade de Psicologia e Filosofia”, Rio de Janeiro, 1931.

II

ques irregulares. Não seria absurdo, sem dúvida, que um acordo temporal sobrevivesse entre os choques e que o pistão saltasse sob o simples efeito dos choques sincrónicos, sem qualquer razão macroscópica. Mas o físico confia: a lei dos grandes números guarda os seus fenómenos; a hipótese dum acordo temporal dos choques tem uma probabilidade negligenciável. Da mesma maneira, uma teoria cinética dos sólidos mostrar-nos-á que as figuras mais estáveis devem a sua estabilidade a um desacordo rítmico. São as figuras estatísticas duma desordem temporal; nada de mais. As nossas casas são construídas com uma anarquia de vibrações. Caminhamos sobre uma anarquia de vibrações. Sentamo-nos sobre uma anarquia de vibrações. As Pirâmides, cuja função é a de contemplar os séculos monótonos, são cacofonias intermináveis. Um encantador, chefe de orquestra da matéria, que poria de acordo os ritmos materiais, volatilizaria todas as pedras. Esta possibilidade de uma explosão puramente temporal, devida unicamente a uma acção sincronizadora sobre os tempos sobrepostos relativos aos diferentes elementos, mostra bem o carácter fundamental do ritmo para a matéria. Se estudarmos o problema ao nível dum corpúsculo particular, a conclusão será a mesma. Se um corpúsculo cessar de vibrar, cessará de existir. Donde, ser impossível conceber a existência de um elemento da matéria sem juntar a esse elemento uma frequência determinada. Pode pois dizer-se que a energia vibratória é a energia de existência. Porque não teríamos então o direito de inscrever a vibração no próprio plano do

tempo primitivo? Não hesitamos. Para nós, o tempo primitivo é o tempo vibrado. A matéria existe num tempo vibrado e apenas num tempo vibrado. Mesmo em repouso, tem energia porque repousa sobre o tempo vibrado. Seria pois esquecer um carácter fundamental considerar o tempo como um princípio de uniformidade. É preciso atribuir ao tempo uma dualidade de raiz pois a dualidade, inerente à vibração, é o seu atributo operante. Compreende-se agora que Pinheiro dos Santos não hesite em escrever2: “A matéria e a radiação só existem no ritmo e pelo ritmo”. Não se trata, como acontece tantas vezes, de uma declaração inspirada numa mística do ritmo; é uma intuição nova solidamente fundada sobre os princípios da física ondulatória contemporânea. Desde já, o problema inicial não é tanto de procurar saber porque a matéria vibra, mas querer saber de que forma a vibração pode tomar aspectos materiais. A doutrina das relações da substância e do tempo apresenta-se sob um raiar metafísico inteiramente novo; não podemos dizer que a substância se desenvolve e se manifesta sob a forma do ritmo; devemos dizer que é o ritmo regular que aparece sob a forma de atributo material determinado. O aspecto material – com a pseudo-riqueza da sua irracionalidade – é apenas um aspecto confuso. Estritamente falando, o aspecto material é a confusão realizada. O estudo químico dirigindo-se, não a uma matéria, mas a uma substância pura, conduzirá, mais tarde ou mais cedo, a definir as qualidades precisas desta substância pura como 2 Pinheiro dos Santos, loc. cit., t.II, sec. I, p. 18.

Também seremos breves quanto ao ensaio de biologia ondulatória tentado por Pinheiro dos Santos. A propósito de um número considerável de factos, obtidos sobretudo na homeopatia, o autor propõe a interpretação “ondulatória”, quer dizer, a explicação da acção substancial pela substituição, na substância, duma radiação particular. A diluição, sempre bastante grande em homeopatia, favorece em suma a temporalização vibrada da substância médica. Esta interpretação é plausível; mas não afasta completamente a tradicional interpretação substancialista. Seria preciso, sem dúvida, instituir experiências de discriminação – por exemplo, verdadeiras interferências medicinais, concebidas sobre o modo vibratório – para legitimar plenamente a forma ondulatória proposta por Pinheiro dos Santos. Tentemos apenas caracterizar metafisicamente os dois pontos de vista opostos e complementares da substância e do ritmo. A intuição substancialista habitual é antes de mais contraditada, de qualquer maneira, pela existência da homeopatia. Sob a sua forma ingénua, isto é, pura, a intuição substancialista desejaria que uma substância agisse proporcionalmente à massa, pelo menos até um centro limite. Compreende-se que haja doses ligeiras cujo excesso produziria perturbações. Mas não se admite facilmente uma eficácia das diluições extremas administradas pelos homeopatas. Desde que se considera a substância médica como uma realidade quantitativa, não se compreende facilmente uma acção substancial que resultasse, de qualquer maneira, de uma razão inversa da quantidade. Tanto assim que, geralmente, uma higiene racional implica que as substâncias alimentares sejam ministradas sob a dependência de um critério ponderal. O corpo humano é como um armazém de provisões em que nenhum lote pode estar vazio. É preciso absorver a dose quotidiana dos diversos elementos que devem, matéria por matéria, encontrar-se na economia. Mais uma vez, a intuição quantitativa passa para o primeiro plano. Neste momen-


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to, poderia empreender-se uma psicanálise do sentimento de ter. O sucesso fácil das anedotas dirigidas contra os homeopatas está ligado, sem dúvida, à preponderância do prazer na possessão, tanto claramente física, como claramente material, que resulta da consciência de digerir e engordar. É contra esta segurança maior e imediata que dá o prazer de devorar que a homeopatia e a higiene ondulatória devem reagir. Estas doutrinas da pequena dose têm contra si, não apenas a ideia de substância, mas ainda o evidente sentimento de força que se experimenta ao possuir uma substância, a armazenar reservas e capitais. Mas aceitemos, contra esta primeira convicção duvidosa, o facto homeopático e vejamos como Pinheiro dos Santos o interpreta ritmanaliticamente. Para ele, a assimilação é mais uma troca de energia do que uma troca de substâncias; e como a energia não pode escapar, na sua evolução detalhada, à forma vibratória, Pinheiros dos Santos propõe-se introduzir sistematicamente uma radiação entre a substância absorvida e a substância assimilada. O termo: substância assimilada, tem aliás pouco sentido. Trata-se duma simples reserva, como nas células adiposas, nada tem a ver com a acção vital anagenética. É no momento em que a substância se gasta, se destrói, que é preciso apreender a sua acção. (Não dizemos no momento em que a substância se transforma, porque o materialismo ondulatório pode considerar a destruição da matéria). Ora, do ponto de vista da biologia ondulatória, é impossível que uma substância aja verdadeiramente se não se temporaliza sob a forma vibratória, seguidamente à sua destruição. Posta na reserva, ela está bloqueada no espaço inerte. Só age onde está, ou seja sobre si mesma. Para ir para fora dela, será necessário que se propague e só se pode propagar ondulatoriamente. A acção externa é necessariamente uma acção vibrada. Aliás, seria preciso sempre a intervenção de uma ondulação para acordar e activar uma substância colocada na reserva. É preciso portanto voltar sempre a um período de activação para compreender a acção de um alimento ou dum remédio. Desde logo, é muito mais de ritmo a ritmo, do que de coisa a coisa, que as acções terapêuticas precisam de ser apreciadas. De que vibrações temos geralmente necessidade? Eis a questão propriamente vital. Quais as vibrações que se extinguem e quais as que se excitam? Quais as vibrações a avivar ou a moderar? Eis a questão terapêutica. Mas como vai esta visão geral, contribuir para explicar o facto homeopático? É porque a dose é ultradiluída que a substância médica pode propagar os ritmos. Com efeito, sob forma massiva, a substância absorverá de qualquer maneira os seus próprios ritmos; entrará em ressonância com ela mesma, sem preencher o papel de excitação exterior a si. Escapará à indispensável destruição, incapaz de jogar com o nada. Recuperar-se-á por si. De facto, a física das radiações mostra bem que as substâncias agem sobretudo através dos elementos superficiais e que as radiações das partes profundas são absorvidas pela própria matéria radiante. A diluição da matéria homeopática é portanto uma condição da sua acção vibratória. De maneira similar, os cheiros e os aromas têm uma acção digestiva tanto mais eficaz quanto mais delicados e raros. Com efeito, estas substâncias complexas e frágeis são facilmente decompostas ou neutralizados, facilmente destruídas. Ora, uma substância que volta ao nada ocasiona uma radiação. “A onda de destruição” será aqui particularmente penetrante e activa. O epicurismo superficial que atribui aos odores e aos sabores um simples valor apetitivo deve surgir, à luz dos factos, insuficiente. O prazer tem uma eficácia mais profunda. Podemo-nos

interrogar se uma teoria activa ritmanalítica da sensação não poderia vir a completar a teoria tradicional, passiva, receptiva. A excitação será então uma ressonância que se aparalherá a vibrações específicas produzidas pela destruição de substâncias particulares. É preciso, portanto, mudar todos os valores digestivos. Para um epicurismo profundo, a ambrósia e os divinos álcoois são necessidades primárias. Estas maravilhosas “tinturas” trazem-nos, sabiamente doseadas, as raras e múltiplas essências do mun-

bios, entre os quais o Professor Centani… crêem na existência de cargas eléctricas nas vitaminas; eles assimilam assim estas a iões e explicam a sua acção por fenómenos que seriam, na ordem biológica, o mesmo que são as radiações na ordem física. Rosenkeim e Webster mostraram que os raios ultra-violetas têm uma acção semelhante à da vitamina D. Os raios ultra-violetas fornecem fotões com a mesma frequência que os que podem ser emitidos pela vitamina D que os absorve do sol”. Donde, diga-se de passagem,

do vegetal. São as fontes de uma homeopatia exaltante e guiam-nos no sentido da vida acrescentada. Será preciso, pois, colocar na base da higiene ritmanalítica o princípio: pequenas causas, grande efeitos; pequenas doses, grandes sucessos. Poder-se-ia então fundar uma arte da micro-alimentação, se quisermos empregar um termo tão bárbaro mas que sugere uma vida tão felizmente desmaterializada! Antes de tudo, será preciso desembaraçarmo-nos dos caracteres temporais desta micro-alimentação. Com um micro-alimento, absorve-se a duração e os ritmos, mais do que a substância. A substância não passa de uma oportunidade de um devir; a essência pura não é mais do que um tempo bem vibrado. Tomaremos como princípio fundamental a necessidade de sustentar os ritmos úteis e normais, de ajudar ao acordo dos ritmos pessoais e dos ritmos impostos pela natureza, de guardar a sinfonia das hormonas. Não deveremos nunca perder de vista que todas as trocas se fazem por intermédio dos ritmos. A Ritmanálise biológica deverá ter como função codificar todos estes ritmos e dar à totalidade orgânica e substancial o sentido “sinfónico”. Se as substâncias diluídas têm efeitos ondulatórios característicos, pode explicar-se facilmente o efeito directo de certas ondulações. Estas radiações particulares podem ser o substituto de substâncias particulares e Pinheiro dos Santos propõe exactamente uma teoria da reversibilidade das vibrações e das vitaminas3. “Certos sá-

uma explicação psicanalítica da acção médica de certos sais isolados. Vê-se de resto o carácter eminentemente reversível das radiações e das substâncias. Pode, pois, afirmar-se que certas substâncias químicas trazem ao organismo não um conjunto de qualidades específicas mas antes um conjunto de ritmos, ou, como muito bem afirma Pinheiro dos Santos, um “corpo de fotões”. Nada se opõe, de resto, a que uma substância homeopática, tendo tomado a forma de vibração pura, seja reconstituída em seguida sob a forma de substância. Há, com efeito, uma exacta reversibilidade da matéria em ondulação e da ondulação em matéria. O papel da micro-substância seria talvez simplesmente o de desencadear as vibrações biológicas naturais. Assim se explicaria também como a dose ultra-diluída se conserva mais integralmente do que uma dose massiva pois ela poderia restituir-se. Chegar-se-ia ao paradoxo de que o infinitamente pequeno bem estruturado e bem ritmado se perde com menos facilidade do que a matéria volumosa e inerte. Precisamente, a esta teoria rítmica das actividades substanciais, Pinheiro dos Santos junta uma hipótese inversa da concreção de certos ritmos. Tal é, por exemplo, a curiosa hipótese da formação ondulatória das toxinas: receberão certas células ritmos em frequências perigosas? Há então uma “retenção toxínica”4. Sem a formação das toxinas que vão concretizar e absorver a energia

3 Pinheiro dos Santos, loc. cit., t.I, sect.I, p. 26

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Pinheiro dos Santos, loc. cit., p.1.

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radiante nociva, uma pequena perturbação mórbida levaria à morte. Segue toda uma hipótese das relações microbianas que poderia constituir a base de uma bactereologia ondulatória e esclarecer muitos problemas. Mas, se a explicação de Pinheiro dos Santos é coerente e rica, não se vê que proponha experiências específicas que poderiam permitir contrastar a interpretação substancialista e a interpretação ondulatória. Todavia, é já de uma grande importância que a tradução ondulatória da bactereologia clássica seja possível. Qualquer que seja, aliás, a decisão do laboratório, o esforço de pensamento de Pinheiro dos Santos terá sempre o mérito de ter mostrado o carácter verdadeiramente primordial da vibração como base da própria vida. Se a matéria inerte entra já em composição com os ritmos, é seguro que, pela sua base material, a vida deve ter propriedades profundamente rítmicas. Mas é sobretudo por via da emergência que se introduzem as necessidade ritmanalíticas do processo vital. Uma vez que a vida é estritamente contemporânea de transformações materiais, já que é impossível sem o socorro incessante das transformações materiais, sem o jogo duplo da assimilação e desassimilação, é preciso que ela passe pela intermediação duma energia ondulatória. É nas suas velocidades estatísticas e globais que a vida parece seguir uma continuidade e uma uniformidade temporais. Ao nível das transformações elementares que a suscitam, a vida é ondulatória. Sob este prisma, relaciona-se directamente com a Ritmanálise. Ademais, se nos lembrarmos de que as matérias formadas pela actividade orgânica são particularmente complexas e frágeis, seremos levados a considerar a matéria viva como mais rica em timbres, mais sensível aos ecos, mais pródiga de ressonâncias, que a matéria inerte. Todas as destruições que a ameaçam, todas as mortes parciais que a arruínam, toda esta zona de nada activo que tenta o seu ser através de mil vertigens são ocasiões de oscilações. O mesmo se passa com a assimilação: toda a conquista de estrutura é acompanhada por uma harmonização de ritmos múltiplos. A via, nos seus sucessos, é feita de tempos bem ordenados; é feita, verticalmente, de instantes sobrepostos ricamente orquestrados; religa-se a ela mesma. Horizontalmente, pela justa cadência dos instantes sucessivos unificados numa função. Sentir-se-á melhor, aliás, a velocidade rítmica da via tomando-a nos seus cumes, estudando, como vamos fazer agora, a actividade ritmanalítica do espírito, esse mestre dos arpejos!

III

Poderíamos repetir aqui, termo por termo, tudo o que temos dito relativamente à emergência necessariamente ondulatória da vida. Com efeito, a vida consciente é uma nova emergência que se efectua nas condições de raridade, de isolamento, de desligamento, altamente favoráveis às formas ondulatórias. Em qualquer processo, quanto menos energia dispendida, mais clara será a forma ondulatória das trocas energéticas. A energia espiritual deve ser pois, entre as energias vitais, a que está mais perto da energia quântica e ondulatória. É aquela pela qual a continuidade e a uniformidade são as mais excepcionais, as mais artificiais, as mais trabalhadas. Quanto mais o psiquismo se eleva, mais ondula. Na passagem do material ao espiritual, da matéria à memória, poder-se-ia estabelecer um autêntico programa de pesquisas que permitiria tomar consciência da importância do factor repetição. Tal como um tratamento helioterapêutico, guiado pela Ritmanálise, aconselhará períodos alternativos de pigmentação e de despigmentação, uma pedagogia ritmanalítica instaurará a dialéctica sistemática da lembrança e do


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esquecimento. Como dizem os pedagogos indulgentes, os bons, só se sabe bem o que se esqueceu e reaprendeu sete vezes. Contudo, esses pedagogos, confiantes na reacção natural que defenderá, felizmente, o espírito das sobrecargas dos conhecimentos não assimiláveis, não conseguiram ainda, neste ponto, auxiliar a natureza trazendo métodos de esquecimento, métodos de “despigmentação”. As férias não foram suficientes para isso. Só a muito longo prazo teriam efeito. Não se incorporaram na cultura, no tecido temporal escolar. O ritmo escolar está desequilibrado: contradiz os princípios elementares de uma filosofia do repouso. É no tempo de trabalho que é preciso introduzir a oscilação. Podem fazer-se matemáticas no metrónomo. Eis uma maneira de aproveitar as oscilações da emergência espiritual. Mas não insistamos mais sobre o carácter cada vez mais claramente ondulatório das diversas emergências e concentremos a atenção num problema particular que dá bem a medida do alcance psicológico da Ritmanálise. É o problema das relações da Psicanálise com a Ritmanálise. Mais sistematicamente que a Psicanálise, a Ritmanálise procura os motivos da dualidade para a actividade espiritual. Ela encontra a distinção das tendências inconscientes e dos esforços de consciência; mas equilibra melhor do que a Psicanálise as tendências para os pólos contrários, o duplo movimento do psiquismo. Com efeito, para Pinheiro dos Santos, o homem pode sofrer uma escravatura de ritmos inconscientes e confusos que significam uma falta de estrutura vibratória. Mas pode sofrer sobretudo da consciência da sua infidelidade aos ritmos espirituais elevados5: “O homem sabe que pode superar-se” e tem necessidade e gosto em superar-se. A sublimação não é um impulso obscuro, é um apelo. A arte não é um tapa-buraco da tendência sexual. Pelo contrário, a tendência sexual é já uma tendência estética; está implicada profundamente num conjunto de tendências estéticas. Pinheiro dos Santos apoia a sua Ritmanálise sobre a filosofia criacionista, sobre uma sublimação activa de todas as tendências. É a falta de uma sublimação activa, atractiva, emergente, positivamente criacionista, que derruba o equilíbrio da ambivalência psicanalítica e perturba o jogo dos valores psíquicos. Não poder realizar um amor ideal é certamente um sofrimento. Não poder idealizar um amor realizado é um outro. Eis-nos chegados ao ponto mais delicado da doutrina de Pinheiro dos Santos. Tentemos precisar como o criacionismo impõe ao psiquismo uma ondulação afectiva. O ser vivo quer sair do seu estado? Submete-se ao seu impulso pessoal? Arrisca uma parte da sua potência, da sua energia? Logo, sente necessidade de se curvar sobre a sua conquista, de retomar um apoio para assegurar o seu impulso como bem viu Jean Nogué. Pelo contrário, o ser permanece no plano do adquirido? Consequentemente os ritmos monótonos que caracterizam este estado, mais vizinho da matéria, tendem a amortecerem-se cada vez mais e a reacção criacionista aparece como mais necessária e, ao mesmo tempo, como mais fácil. Sem esta reacção, o devir do ser vivo cairá no torpor. A evolução criadora, encontrada, não no resumo estatístico que é a evolução das espécies, mas em cada indivíduo, e sobretudo em cada indivíduo jovem, é uma evolução necessariamente ondulada. Em cada indivíduo, a evolução é um tecido de sucessos e de erros. A evolução das espé5

Pinheiro dos Santos, loc. cit.,t. II, secç. I. p.5.

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cies não nos dá mais do que uma soma de sucessos, maiores ou menores, mais ou menos especiais, onde o erro só aparece sob aspectos teratológicos. Pelo contrário, a função do indivíduo é enganar-se. Que cada um faça sobre si a psicologia de um ensaio criador, duma tentativa inovadora; por mais modesto que seja esse ensaio, ou mesmo sobretudo se esse ensaio criador é modesto, a justeza da psicologia criacionista ondulatória aparecerá. O erro não pode ser contínuo sem prejuízo. O sucesso não pode ser contínuo sem risco e sem fragilidade. No seu detalhe, a evolução do indivíduo é ondulante. No plano mais especificamente moral, Pinheiro dos Santos nota que o recalcamento é libertado ou corrigido, como o indica Freud, pelo método catártico. Mas o método de Freud não vai suficientemente longe: ignora caracteres que a Ritmanálise sabe associar cuidadosamente ao exame catártico. Com efeito, quando o facto recalcado é trazido à consciência clara, parece, para a doutrina psicanalítica, que o doente vai imediatamente curar-se, que a consciência esclarecida vai perdoar a falta, longo tempo escondida, e que o “remorso” inconsciente vai ser apaziguado pela confissão consciente. Mas não é de temer que o processo doloroso se reconstitua no inconsciente? Esse processo doloroso não será, como confessa Freud, uma perturbação dinâmica, uma perturbação do devir mais do que uma perturbação de estado? Para estar protegido de uma repetição da neurose dever-se-á preparar no inconsciente o sistema claro do perdão íntimo. Então poder-se-á esperar que “o escrúpulo” não se reconstituirá mais. Este sistema de perdão sistemático e consciente, montado face ao automatismo da má consciência, em oposição à má inclinação do devir nocivo, deve formar o pólo claro da dialéctica moral. A psicanálise – tem-se assinalado numerosas vezes – subestimou a vida consciente e racional do espírito. Não tem reconhecido que é a acção vigilante e constante do espírito que dá forma ao informe, uma interpretação aos desejos e aos instintos obscuros. O método catártico será sempre pois um acto médico, realizado por um espírito hábil e instruído. É uma operação que pode ser necessária nas neuroses, nas grandes desgraças da vida criminal. A moral delicada tem necessidade dum método catártico mais frequente, mais flexível. Ela mostra uma ritmanálise mais adequada do que a psicanálise para seguir as tentações ondulantes. De resto, quando é preciso aceder a uma vida moral positiva e inventar o bem e não apenas fazê-lo, apenas a ritmanálise nos pode guiar. Apenas ela tem em conta o dualismo moral e Pinheiro dos Santos escreve6: “ O equilíbrio rítmico da inflexibilidade moral e da doçura do coração é a lei do amor e a sua própria expressão”. De uma maneira mais precisa, sob o nome de espírito de casal, a Ritmanálise trouxe à luz o motivo fundamental da dualidade moral. Como o egoísmo humano volta sempre finalmente ao desejo de se apropriar dos valores sociais, a sedução da conquista do outro mantém-se como objectivo do egoísta. A personalidade vive então sobre um ritmo de conciliação e de agressão “que vai dum pólo ao outro das duas atitudes contrárias do ritmo amor de si – amor do outro”7. Em parte alguma a ambiguidade das interpretações é mais visível do que na moral: todos os actos morais têm um duplo sentido. A moral tem uma reacção sobre o ser. Estimo para ser estimado. Amo para ser amado. Pratico o bem para ser 6 7

Pinheiro do Santos, loc. cit.,t.II, sec. II. P. 12. Idem, ibidem, p. 6

feliz. A comparação entre o eu e o outro é o princípio fundamental de toda a prova moral. A emoção moral é, de todas, a mais ondulante. A moral ritmanalítica propõe-se regular essa ondulação.

IV

Temos pois extraído dos longos desenvolvimentos da obra de Pinheiro dos Santos alguns exemplos desta polaridade essencial da vida espiritual que constitui a base fundamental da Ritmanálise. Limitando-nos assim, não podemos dar uma ideia da riqueza da obra que evocamos. Mas é suficiente que dêmos a impressão de que todos o esforço da vida se dialectiza, que toda a actividade espiritual é passagem dum nível a um nível mais elevado e que toda a emergência necessita de um apoio. Aceitar-se-ão, talvez de forma bastante fácil, todas estas polaridades que não são novas na filosofia; mas far-nos-ão, sem dúvida, a seguinte objecção: em que é que tais oposições psicológicas e morais contam para uma filosofia temporal? Não parece que a duração nada tem a ver com estes problemas e que se podem resumir todas as oposições no velho tema: os contrários ligam-se? Para responder a estas objecções, podem invocar-se dois tipos de casos seguindo que os contrários se lançam numa hostilidade decisiva quando existem apenas contrariedades mínimas. No primeiro caso, a duração dum estado vai precisamente condicionar a intensidade da reacção contrária. Eis uma observação feita muitas vezes pelos pedagogos e políticos; mas esta observação ganharia se fosse alargada a todos os domínios da vida. Então, seria reconhecido que toda a inibição severa determina acumulações energéticas que, cedo ou tarde, deverão reagir. A duração da reacção sucedendo a uma coacção de longa duração é alongada; donde a instalação de um ritmo simultaneamente poderoso e lento. Sem nos alargarmos sobre este ponto que permitiria fáceis desenvolvimentos, solicitamos aos nossos críticos que considerem exemplos onde os contrários sejam menos longínquos, menos hostis, que os contrários examinados por Pinheiro dos Santos. Ver-se-á então que entre estes dois pólos bastante vizinhos, a hesitação – forma indispensável do progresso – toma o aspecto duma oscilação tanto mais regular quanto melhor sincronizada com ritmos temporais precisos. Trata-se assim de uma ambivalência afectiva? Não peguemos mais em valores passionais ou dramáticos decisivos. Tomemos indisposições ligeiras, habitadas por desejos inconstantes; tomemos, por assim dizer, tentações que não tentam, desprezos indulgentes, recusas amáveis, alegrias verbais… e eis que o tempo se põe a oscilar, que todos os segundos se contradizem e coloram ligeiramente, ternos ou brilhantes. Os contrários casam-se, depois dissociam-se para se casarem de novo: Valsa melancólica e langorosa vertigem. Tal é a ambivalência menor onde veremos animar-se a Ritmanálise. Nestes estados de instabilidade superficial, é verdadeiramente o tempo que é o esquema da análise apropriada; a dialéctica da consciência e da vontade, bem separada dos interesses e das utilidades, tende a tornar-se temporal. As razões para continuar um estado são tão fracas que o gosto de interromper se afirma. Em toda esta doce vida livre, só o tempo comanda: então tudo cintila. As dores físicas ligeiras interessam também à Ritmanálise. Com um pouco de exercício, podemos, por exemplo, fazer vibrar uma dor de dentes. Basta através de uma atenção calma reconduzir às proporções precisas, evitar


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a impaciência geral, a agitação geral, que viria encher os intervalos da dor. As pulsações da dor local tomam então o seu ritmo regular. Uma vez aceite, esta regularidade apresenta-se como um alívio. A dor volta ao seu aspecto local porque foi bem determinado o seu aspecto temporal. Mas estas aplicações detalhadas, cuja eficácia constatámos pessoalmente, implicam um exercício bastante longo. Não são possíveis sem antes retomar o valor e a regularidade dos grandes ritmos naturais que sustentam a vida. Antes de tudo a respiração, lenta e regular cadência que marca profundamente, quando se libertou a nossa confiança temporal de qualquer preocupação orgânica, a confiança que temos no nosso futuro próximo, o nosso acordo com o tempo escandido8. Romain-Rolland transmite-nos, nestes termos, a primeira lição de Vivekananda9: “Aprender a respirar ritmicamente, duma maneira medida, por cada uma das narinas, alternadamente, concentrando o espírito sobre a corrente nervosa, sobre o centro. Juntar algumas palavras ao ritmo respiratório, para melhor o escandir, marcar e dirigir. Que todo o corpo se torne rítmico. Assim se apreende o verdadeiro domínio e o verdadeiro repouso, a calma do rosto e da voz. Por intermédio da respiração rítmica, tudo se coordena pouco a pouco no organismo. Todas as moléculas do corpo tomam a mesma direcção”. Por outras palavras, os ritmos regulares reforçam, pela sua ressonância, as simetrias estruturais. É preciso sublinhar também o conselho de assegurar o ritmo respiratório sobre uma cadência vocal mais lenta. A eficácia maior de tais ritmos menos frequentados é, com efeito, do nosso ponto de vista, essencial. Mostra que o ritmo grave, em pulsações lentas, pode sustentar e condicionar um ritmo agudo, com maiores frequências. Se um ritmo vital rápido é perturbado, será remediado pelo enquadramento dum ritmo mais lento, mais fácil de vigiar, mais fácil de impor. É por isso que a marcha escandida por um canto muito descontínuo, por um batimento de reunião de todos os dois ou três passos, é tão 8 Cf. Massom-Oursel, Les doctrines indiennes de physiologie mystique, Apud: Journal de Psychologie, 1922, p. 322. 9 Romain Rolland, La vie de Ramakrishna, p. 295

salutar para dar à respiração a calma e a regularidade. Uma conclusão muito rapidamente realista colocaria mais a eficácia inversa, imaginando que é o ritmo com numerosas frequências que traz, como incidentes suplementares, os acontecimentos de ritmo lento. Mas as experiências são demonstradoras: o espírito impõe o seu domínio sobre a vida por acções pouco numerosas e bem escolhidas, é por isso que uma arte do repouso se pode fundar sobre a segurança de algumas marcas referenciais bem distribuídas. Teremos aliás abundantes confirmações examinando, do ponto de vista da Ritmanálise, os longos ritmos que marcam a vida humana. Será preciso, por exemplo, lembrar o interesse que uma vida sábia e meditativa encontra para se regular sobre o dia, sobre a marcha regular das horas? Será preciso descrever a duração bem ritmada do homem dos campos vivendo de acordo com as estações, fazendo a terra consoante o ritmo do seu esforço? Que tenhamos um interesse físico em nos adaptarmos muito rigorosamente aos ritmos vegetais, é o mais evidente desde a descoberta das vitaminas: a hora do morango, a hora do pêssego e da uva são ocasiões de renovação física, de acordo com a Primavera e o Outono. O calendário dos frutos é o calendário da Ritmanálise. A Ritmanálise procura por toda a parte ocasiões de ritmos. Tem confiança de que os ritmos naturais se correspondem ou que podem se sobrepor facilmente, um puxando o outro. Previne-nos também do perigo que há em viver a contra-tempo, desconhecendo a necessidade fundamental das dialécticas temporais.

V

Mas o enquadramento da vida humana nos grandes ritmos naturais fixa mais a felicidade do que o pensamento. O espírito tem necessidade de marcos mais estreitos e se, como cremos, a vida intelectual deve tornar-se – fisicamente falando – a vida dominante, se o tempo pensado deve dominar o tempo vivido, é preciso entregarmo-nos à procura dum repouso activo que não se pode satisfazer com os dons gratuitos da hora e da estação. Este repouso activo, este repouso vibrado, corresponde, parece, para Pi-

nheiro dos Santos, ao estado lírico. A literatura brasileira conhece de muito perto a nossa literatura contemporânea. É um adepto de Valéry e de Claudel. Submete-se à grande torrente da frase claudiana e à hábil ambiguidade dos pensamentos de Paul Valéry. De Valéry, ele ama sobretudo a arte suprema de perturbar a calma e de acalmar a perturbação, de ir do coração ao espírito para voltar em seguida do espírito ao coração. Mas Pinheiro dos Santos não se contenta com esta tradução intelectual um pouco fria da vida lírica. Prefere guardar o lirismo sob a forma dum encanto físico, dum mito que embala, dum complexo que nos liga ao passado, aos impulsos de juventude. Propõe, para a Ritmanálise, um mito lírico que se poderia denominar o complexo de Orfeu. Este complexo corresponderia à necessidade primitiva de agradar e de consolar; ligar-se-ia à carícia caridosa e caracterizar-se-ia pela atitude em que o ser se compraz em agradar, por uma atitude de oferenda. O complexo de Orfeu formaria assim a antítese do complexo de Édipo. Veríamos traduções poéticas deste complexo de Orfeu no que Felix Bertaux chamou o lirismo órfico de Rilke, vivendo como um egoísmo o amor indeterminado do outro. É tão doce amar seja quem for, seja o que for, vivendo a partida, o jorro único das efusões! Eis a base de uma teoria do prazer formal que se opõe à teoria do prazer material, imediatamente objectivo, que, no complexo de Édipo, liga desgraçadamente a criança ao primeiro rosto que se debruça sobre o berço. A Ritmanálise oferece então, em oposição à psicanálise, como que uma doutrina da infância reencontrada, da infância sempre possível, abrindo diante dos nossos sonhos um futuro indefinido. Precisamente, numa dissertação especial, que se opõe ao trabalho de Freud sobre Leonardo de Vinci, Pinheiro dos Santos explica a actividade especial de Leonardo como uma infância eterna. O criacionismo não seria mais, com efeito, do que um rejuvenescimento perpétuo, um método de espanto sistemático que reencontra olhos maravilhados para ver espectáculos familiares. Todo o estado lírico deve fundar-se sobre o conhecimento entusiástico. A criança é o nosso professor, disse Pope. A criança é a fonte dos

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nossos ritmos. É na infância que os ritmos são criadores e formadores. É preciso ritmanalisar o adulto para o trazer à disciplina da actividade rítmica à qual deve o impulso da juventude.

VI

No que nos diz respeito, é a uma elaboração espiritual que quereríamos submeter o estado lírico, afastando-nos por consequência das potências inconscientes que nos encerram no complexo de Orfeu. É, pois, nas regiões elevadas dos tempos sobrepostos, nos tempos pensados, que procuramos as dialécticas mais claras e por consequência as mais empolgantes. Por exemplo, para sentir à nossa maneira toda a poesia de Valéry, aplicamos-lhe os esquemas da dialéctica temporal. Aí está, sem dúvida, uma imposição muito abstracta, muito pessoal, sugerida pelos hábitos da aridez filosófica. Mas reconhecemos, contudo, que este método pobre trazia alguns ecos bastante raros; sentimos, em particular, quanto o esquema temporal da ambiguidade nos ajudava a intelectualizar o ritmo sonoro, a pensar uma poesia que nos não transmite todo o encanto quando nos limitamos a falá-la e a senti-la. Então constatamos que eram as ideias que cantavam, que o jogo das ideias tinha os seus acentos próprios, e que estes acentos comandavam, no nosso ser profundo, murmúrios sufocados. A voz “muda”, deixando as imagens sucederem às imagens, vivendo na sobreposição das diversas interpretações, dávamos conta do que podia ser um estado lírico propriamente espiritual, propriamente intelectual. A realidade vestia-se, enriquecia-se em condicionais. A associação das ideias era substituída pela dissociação sempre possível das interpretações. O espírito divertia-se a recusar as adesões mais obstinadas. Experimentava um gozo poético em destruir a poesia, em contradizer as primaveras, em resistir a todas as seduções. Ascetismo, aliás, altamente epicuriano, porque, sob a sua forma condicional, o prazer parecia mais vibrante. A poesia, assim liberta das arrebatações habituais, voltava a ser um modelo de vida e de pensamento ritmados. Era assim o meio mais adequado a ritmanalisar a vida espiritual, a devolver ao espírito o domínio das dialécticas da duração.


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KUAI

ESTRANGEIRO, kuai, lao wai, são tudo nomes que me soam bem porque marcam uma distância. E algo que devemos sempre preservar é a distância. Em várias mitologias, só os estrangeiros podiam ser escolhidos para reis, precisamente porque não tinham nenhuma ligação aos interesses da terra. Não será o caso da China, mas dá na mesma. Quer dizer, não dá na mesma porque na China é ainda melhor. O estrangeiro é uma espécie de ser translúcido que mal se vê, que pode circular à vontade por todo lado, porque tem uma realidade extremamente rarefeita. É, inclusivamente, preciso ter cuidado ao andar na rua para que as pessoas não choquem com o estrangeiro. Simplesmente, porque não o vêem. E isso é bom: passar despercebido é uma das coisas mais importantes no mundo de hoje em que o anonimato é precioso. Pessoalmente, gosto muito de viver no meio de um povo tão preocupado consigo próprio que mal dá pela presença dos outros. Ou se dá não se interessa, porque não tem a ver com a sua vida. Todos sabemos que um estrangeiro nunca terá problemas na China, desde que não invada territórios alheios. Desde que não se imiscua onde não deve e não lhe é permitido. De resto, é livre de andar por todo o lado, de fazer o que muito bem lhe apetecer e, nos momentos mais difíceis, ainda gozará de um sorriso de compreensão: “pois, é um estrangeiro…, deixa lá, não ligues. São coisas de kuais”. Querem melhor que isto? Parece-me difícil. Ao contrário de outros povos, que são intrometidos, vendilhões sem vergonha e autênticas melgas, o povo chinês é reservado e não precisa de chatear os estrangeiros. Basta chatear-se a si próprio que já são muitos. O estrangeiro pode passear-se sem que ninguém se venha pendurar no seu casaco. Quando muito pode despertar um olhar de curiosidade por dois segundos. Mas depois a vida continua e continuará por mais dez mil anos. Tudo isto vem a propósito da palavra “kuai-lo” que maça alguma desta ínclita gente. Se é ofensiva ou não, se deve ser usada ou não, etc.. Cá para mim devia continuar a ser usada. Quem não gosta de ser um fantasma, com todas as suas prerrogativas?…

U T O P I A S


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a revolta do emir

Pedro Lystmann

BAR DO HOTEL MANDARIN ORIENTAL Confesso que este bar de hotel me coloca um grave problema. Não sei bem onde me sentar e não sei bem o que vou lá fazer. Os enormes pilares que o dividem em zonas quadradas, frias a uma primeira apreciação, não deixam que o olhar se estenda preguiçosamente e possa tentar adivinhar seja o que for sobre os outros frequentadores. Estes pilares fazem-me pensar numa espécie de disposição matinal faraónica que se não cumpre. A eles juntam-se uns enormes cilindros a cuja descrição me escuso mas que têm o seu não sei quê de ficção científica (ou serão os Brandies Alexander, como sugere arrogantemente alguém?). Numa noite de negronis estes cilindros assemelhavam-se a colunas de teletransporte de séries de televisão dos anos 70 mas por vezes não. Espero camelos e homens de turbante, criados núbios, porventura mulheres druzas, enigmáticas e de perfumes doces e intoxicantes mas só me chega mais um brandy e a sensação de que à vista que das suas janelas se desfruta falta também alguma coisa. Yet. Não consigo definir esta impressão mas há um médio orientalismo ou um norte africanismo neste sítio, talvez resultado da fusão de um excesso de ornamento com a frieza do chão própria aos climas quentes.

Não há em Macau uma imagética tropical que se aplique ao desenho dos bares, felizmente. Ao invés, aqui é onde nos sentimos mais árabes, ou persas, mais gordos e mais bem sentados. Nunca tendo estado no Egipto ou no Médio Oriente começo a concordar com a ideia de Edward Said de que os europeus, excessivement eurocentriques inventaram um Oriente, médio e próximo, de acordo com as suas necessidades de mistério e exotismo (ou libidinosas), ao qual impuseram posteriormente a sua vontade de domínio político – uma concepção exclusivamente europeia. Só existe uma intenção médio orientalista neste hotel - Mandarin Oriental por outro acaso - na imaginação de quem se atreveu a pedir um terceiro dry martini ou de quem já vem com estas opiniões formadas. Mas, repita-se, também porque a história não promoveu a criação de uma imagem extremo oriental que se tenha estendido ao desenho dos bares. A moda da chinoiserie, no século XVIII e XIX, assim como a da japonoiserie oitocentista, não criaram um corpus com a persistência das modas que se inspiraram no (médio) orientalismo, tendo permanecido bastante individualizadas. No que respeita ao desenho do bar, aos poucos as opiniões vão co-

meçando a (trans)formar-se, da perplexidade até ao elogio. Não me esquivo a pensar sempre assim sobre este lugar encravado no segundo andar do melhor hotel de Macau. A razão que continua a promover o meu patrocínio não é fácil de identificar, mas prende-se não só com a ideia médio oriental que se me introduziu teimosamente na maneira de o usufruir, mas igualmente com a qualidade do serviço, tanto do pessoal de mesa como do que se move por trás do balcão. Nele se fazem bem os coquetéis clássicos, os coquetéis de assinatura (cerca de 20, entre os quais se encontra um Oriental Punch), e também aqueles que sofrerem desvios por imposição dos nossos caprichos. A lista é bem composta e a esta poder-se-á juntar uma generosa lista de vinhos que serve também o restaurante contíguo. Este bar exibe uma vantagem útil, para além de ser em Macau e não obrigar a desvios excessivos: tem uma geografia bastante diversa. Existem zonas de sofás longos e de almofadagem própria ao descair dos corpos e à “pose orientalista” que a bebida ou o rumo lânguido das conversas pode conduzir. Existe uma zona central quadrada de chão marmoreado e pequenas mesas. Existem dois balcões, com respectivos

assentos, com vista larga para os lagos e a ponte velha, suficientemente próprios a uma bebida solitária. Existe o balcão propriamente dito (que neste caso, um pouco escondido, não ajuda às excursões e divagações que outros permitem) e, finalmente, há uma pequena zona recatada e fria, que se pode tratar como se fosse um pequeno reservado. Em todas estas zonas poderemos deixar o olhar perder-se na altura generosa do seu pé direito, porque olhar para cima nunca fez mal a ninguém e porque a elevação do olhar e dos espíritos é uma das consequências mais prováveis da frequência de um bar (e mesmo que no médio oriente raramente se olhe para cima). O acesso ao restaurante é muito agradável. Poder-se-á fazer através do bar, passando rasante ao balcão - o que é muito aconselhável. É quase como se de um pequeno labirinto se tratasse, especialmente quando este pequeno percurso se faz de copo na mão e com a confiança do iniciado condescente para com os préstimos demasiado industriosos dos empregados. Não conheço nenhum outro sítio em Macau, com a possível excepção de restaurantes que incluem um bar, em que esta transição se faça de um modo tão suave, tão esperado e (porque não dizê-lo ?) tão sumptuoso.


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À S U P E R F Í C I E

próximo oriente

Hugo Pinto

E TODOS OS SONS O VENTO LEVOU Na China, durante a dinastia Song, havia um jogo popular parecido com o que, hoje, chamamos de golfe: Chuiwan (捶丸). Mas, ao que parece, não foi aí que os Chui Wan (Yan Yulong, Wu Qiong, Liu Xinyu e Josh Feola) foram buscar inspiração. De acordo com a editora Maybe Mars, o nome do quarteto de “rock psicadélico e experimental” de Pequim que, numa noite destas, deu em Macau um memorável concerto para umas duas dezenas de pessoas, deve-se a Zhuangzi, especialmente a um trabalho místico do filósofo taoista, “Qi Wu Lun” (齐物论), acerca da relação entre a natureza e a vida humana. O espírito desta obra antiga consubstanciar-se-á numa expressão que reza mais ou menos assim: “Quando o vento sopra, todos os sons podem ser ouvidos nele”. Segundo a leitura da editora marciana, este conceito de “procurar o infinito a partir do mundano” serve de inspiração aos Chui Wan. Na linguagem da banda, “infinito” e “mundano” são, na verdade, duas dimensões da mesma tessitura, organizando-se em dialécticas que alternam improvisos e arranjos cuidadosamente compostos. É um diálogo a múltiplas vozes, mas não há aqui laivos de esquizofrenia. Ainda que o rumo possibilite várias direcções, a barca vai determinada e animada por uma míriade de sonoridades que se confundem, feitas de psicadelismo em arrebatado “flirt” com o “noise”, rock submisso em versão “shoegaze”, baixos ondulando em marés “surf rock”, ínterins minimalistas que se somem em reverberações distantes, e melodias que parecem querer apaziguar a sede de infinito, ou seja, de caos. E é sempre às portas de uma qualquer babel que a música dos Chui Wan nos deixa, sem que, todavia, nos leve a perdermo-nos completamente na confusão. Nunca se afastando demasiado de portos seguros, mas não fazendo concessões a lugares de conforto no ponto da anestesia, os Chui Wan colocam-se algures entre o rock pouco ortodoxo dos Carsick Cars e o experimentalismo académico dos White +. A síntese vem exposta no primeiro disco, editado este ano, e cuja apresentação serviu de pretexto para a digressão dos Chui Wan (com os norte-americanos Psychic Ills) que passou por diversas cidades chinesas, Hong Kong e também Macau (Live Music Association, no passado dia 25 de Novembro).

“White Night” abre com “Swimming”. A “surf guitar” acentua, desde logo, uma toada “retro” e exótica, que vai sendo dissipada ao longo dos oito temas sem, contudo, se perder por completo. “Black Cat, White Cat” traz uma descarga de distorção, vozes espectrais reminiscentes dos negros anos 1980 e também as primeiras doses fortes de substâncias com princípios activos lisérgicos. “Refute”, o terceiro tema, é talvez o que deve mais ao período pós-punk, como se estivessmos perante uns The Fall perdidos em Chongqing. “Another Kind of Love”, espécie de canção de amor “under the influence”, devia ocupar os topos de tabelas de “singles” mais vendidos deste mundo. O apelo “pop” estende-se até “Dan Ding He”, que, no entanto, se revela um remoinho de guitarras elípticas. “White Night”, o tema que dá nome ao álbum, é o ponto alto. Convocando melodias orientais, em jeito das ragas in-

dianas, os Chui Wan constroem aqui um portento do psicadelismo, com direito a crescendo e delírios de saxofone. “Excuse me while I kiss the sky”, como diria o outro. “Berber”, que começa com o que parece ser o som de uma porta a abrir, serve como interlúdio, suspenso e tenso, ao tema que encerra o disco: “Tomorrow Never Knows”, um longo desvio pelos caminhos da experimentação, passando por diversos estados, umas vezes explodindo, outras implodindo, e fazendo-nos crer que os quase 40 minutos de “White Night” duraram mais do que o tempo real nos mostra. A transcendência também é isto: perdermo-nos no tempo. Depois, o vento, que tudo trouxe, tudo levará. “White Night” Maybe Mars, 2012 Chui Wan

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GUIMARÃES ROSA REVISITADO Adelto Gonçalves*

Rosa teria entranhado em personagens como Zé Bebelo, um Rui Barbosa (18491923), em Hermógenes e Ricardão, um Hermes da Fonseca (1855-1923) e um Pinheiro Machado (1851-1915), respectivamente, e em Joca Ramiro, o Barão do Rio Branco (1845-1912). Para Roncari, a novela “Buriti” também teria sido construída a partir de modelos vivos. Assim, toda a primeira parte da novela é composta praticamente pelas lembranças de Miguel, que compartilham as informações e versões que Guimarães Rosa recebera de nhô Gualberto Gaspar, um fazendeiro, sobre o Buritim Bom e pessoas do lugar com quais ele pôde conviver.

In Pravda

AINDA QUE não tenha sido comemorado com a efusão que merecia, o centenário de nascimento de João Guimarães Rosa (1908-1967), em 2008, ano que marcou também o centenário do falecimento de Machado de Assis (18391908), ao menos serviu para a publicação de importantes estudos críticos-literários sobre a obra do autor. E o melhor exemplo disso é o livro A poética migrante de Guimarães Rosa (Belo Horizonte, Editora UFMG, 2008), de Marli Fantini (organizadora), doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora de Guimarães Rosa: fronteiras, margens, passagens (São Paulo, Senac/Ateliê Editorial, 2004), que obteve o Prêmio Jabuti de 2005. Não se pode dizer que a obra rosiana não tenha sido estudada em profundidade, até porque há estimativa que supõe a existência de mais de 1.500 trabalhos sobre o romance “Grande sertão: veredas”. Até porque, como diz Marli Fantini na apresentação, baseada nas observações de Italo Calvino (1923-1985), trata-se de uma obra considerada clássica, que por isso mesmo está destinada a provocar “incessantemente uma nuvem de discursos sobre si”. Mas Guimarães Rosa não é só Grande sertão: veredas - e, se o fosse, já seria muito. Pelo contrário, na obra do escritor mineiro há uma série de textos que também estão condenados a cada geração a receber novas e distintas formas de recepção. II Um estudo que se destaca nesta reunião de 20 ensaios e artigos, dividida em nove partes, sobre a temática rosiana é «Alegoria e política no sertão rosiano», de Maria Célia Leonel e José Antonio Segatto, professores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autores de «Política e violência no Grande sertão de Guimarães Rosa”, ensaio publicado na revista Estudos Sociedade e Agricultura (Rio de Janeiro, Mauad/UFRJ, v. 13, nº 1, pp.75-93, abril de 2005). Segundo o estudo de Maria Célia e Segatto, Guimarães Rosa teria um projecto literário, quiçá político-ideológico, como pressuposto na elaboração de “Grande sertão: veredas”, que permite que a obra seja lida não só como recriação do passado, ou seja, a vida no Brasil profundo nas décadas de 1920 a 1930, como iluminador do presente, já que o mandonismo daquela época ainda hoje está presente em várias regiões brasileiras marcadas pela grande propriedade latifundiária, embora hoje o protótipo do latifundiário tenha

sido substituído por grandes empresas agrícolas, pelo patriarcalismo, pelo clientelismo, pela violência, pela ausência de Estado e justiça, o que se verifica inclusive no Estado de São Paulo, pretenso exemplo de modernidade. Nesse sentido, os autores contestam estudiosos que, atribuindo a Guimarães Rosa uma qualidade de ensaísta que ele nunca buscou, definiram “Grande sertão: veredas” como um retrato da vida rural naquela época, observando que o autor, por sua inventividade, aponta tendências que viriam a ganhar cristalização mais nítida na realidade do País pós-1930. III Outro texto de grande valia para os estudos rosianos - e de outro grande especialista na área - é «Patriarcalismo e dio-

nisismo no santuário do Buriti Bom», de Luiz Roncari, professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor de “O Brasil de Rosa: mito e história no universo rosiano: o amor e o poder” (São Paulo, Unesp/Fapesp, 2004). Como observa Marli Fantini, o trabalho de Roncari procura as chaves para o entrelaçamento da história com o mito. O ensaio - cujo título forma um oxímoro - é uma condensação de extenso trabalho de Roncari sobre a novela «Buriti», que faz parte do livro “Corpo de baile”, de Guimarães Rosa. Em “O Brasil de Rosa”, o autor já havia procurado mostrar como Guimarães Rosa usara modelos que Oliveira Vianna (1883-1951) utilizara para representar a vida política brasileira na segunda metade do século XIX e também na Primeira República (1889-1930). Assim, Guimarães

IV Como curiosidade histórica pode-se apontar a nona parte do livro que traz o ensaio “Memória da leitura e rememoração da viagem: cartas de João Guimarães Rosa para Aracy de Carvalho Guimarães Rosa”, elaborado por Elza Miné e Neuma Cavalcante a partir da correspondência (inédita) trocada pelo autor no período de 1938 a 1960 com aquela que seria sua segunda esposa. Esse arquivo que compreende 107 cartas, 44 cartões-postais, bilhetes e telegramas foi passado pela família de Aracy de Carvalho (1908-2011) às pesquisadoras, que estão para publicar uma biografia dessa poliglota que prestou trabalho ao Ministério das Relações Exteriores e teve o seu nome inscrito no memorial Yad Vashem (Museu do Holocausto), em Jerusalém, por ter ajudado muitos judeus a entrarem ilegalmente no Brasil ao tempo do governo Getúlio Vargas, livrando-os da prisão e da morte sob as botas do nazismo. A essa época, ela era chefe da seção de passaportes do consulado brasileiro em Hamburgo. Guimarães Rosa, como cônsul adjunto, sabia das manobras arriscadas que Aracy fazia para ajudar os judeus e nunca se opôs. Pelo contrário. Se para o leitor comum esse tipo de correspondência pode parecer curiosidade histórica, para os especialistas, por certo, é uma oportunidade rara, pois revela, mais que a obra completa do autor, a sua individualidade, seus gostos e paixões. De passagem, fica-se sabendo que Ara, como o marido a chamava, acompanhou muito de perto tanto a escritura de Grande sertão: veredas como de Sagarana, inclusive, com sugestões e correções.

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).


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perspectivas Jorge Rodrigues Simão

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A CIMEIRA DE DOHA “The Governments of Singapore and China are jointly developing the 30 km2 city into an environmentally friendly, socially harmonious and resource efficient city. This project involves putting in place key infrastructure to support sustainable development, such as a lightrail transit line to link the Eco-city to Tianjin City and surrounding districts, a pneumatic waste collection system, a new wastewater treatment plant, and major rehabilitation works for existing water bodies.” Zero-Carbon Energy Kyoto 2010 Takeshi Yao

A CONFERÊNCIA sobre as Alterações Climáticas (COP17) da Convenção das Nações Unidas Contra as Alterações Climáticas (UNFCCC), que se realizou em Durban entre 28 de Novembro e 11 de Dezembro de 2011, terminou com um importante e inesperado acordo, que foi o de prolongar a vigência do Protocolo de Quioto para além de 2012. Intitulada como a Cimeira do Clima do Planeta e dos dramas climáticos que se prolongam indefinidamente, encerrou com grandes oposições, senão mesmo contradições de interesses e visões, dada a falta de consenso entre os 195 países participantes, acerca da definição de um calendário para a criação e implementação de um novo tratado internacional que sucedesse ao Protocolo de Quioto, igualmente, tendo como objectivo, reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, considerado como sendo o maior dano causado ao planeta, e cujas consequência são as conhecidas e maléficas alterações climáticas. Uma das razões do dissenso, foi a tese defendida pelos Estados Unidos de pretender findar com a distinção entre países desenvolvidos e não desenvolvidos, sendo que os últimos para se desenvolverem ficaram isentos de reduzir as suas emissões, como é o caso da China e da Índia. Os Estados Unidos representam 17,6 por cento das emissões, em termos de consumo energético mundial e que não ratificaram o Protocolo de Quioto assinado em 1975. A China considerada a segunda economia mundial representa 26,3 por cento das emissões, em termos de consumo energético mundial. A Conferência de Durban conseguiu que 190 países, se comprometessem a formalizar uma agenda, no sentido de reduzir as suas emissões de gases de estufa. O acordo inclui a implementação do Fundo Verde para o Clima, idealizado na Cimeira de Cancun de 2010, cujo mecanismo de funcionamento prevê ajudas de 100 mil milhões de dólares anuais, a partir de 2020 aos países em desenvolvimento, para poderem adaptar-se às consequências das alterações climáticas e promover projectos para a protecção do clima. O acordo global para reduzir os gases de efeito de estufa deve ser adoptado em 2015, e entrar em vigor em 2020, sendo uma condição imposta pela União Europeia (UE), funcionando como um segundo pe-

ríodo do Protocolo de Quioto, que expira em 31 de Dezembro de 2012. A UE atingiu a meta oito anos mais cedo que o previsto, que era de reduzir em 20 por cento as suas emissões até 2020. A Rússia, Japão e Canadá anunciaram a sua intenção de não renovar o Protocolo de Quioto, não entrando no segundo período de compromisso do único tratado em vigor sobre redução de emissões, que obriga apenas as nações industrializadas, com excepção dos Estados Unidos, cujo reeleito presidente Barack Obama promete um empenhamento pessoal nas questões climáticas, com um Congresso que lhe é desfavorável neste tema, e a braços com os devastadores efeitos do ciclone Sandy e da terrível seca que destruiu a colheita de cereais do Verão, e está a originar a subida de preços dos alimentos. A posição do Canadá é de total irresponsabilidade, ao afirmar que abandona o Protocolo de Quioto, porque não conseguirá cumprir os objectivos a serem assinados em 2015 e implementados em 2020, que levaria o país a ser sancionado e a pagar multas exorbitantes, dando como exemplo, a proibição de circulação de todos os automóveis pelo período de um ano como um dos meios ao cumprimento. Assim, quase predizem que saem porque o Protocolo de Quioto não terá forma de funcionar adequadamente, pelo que levanta a grande questão de saber qual seria o futuro com obrigações assumidas pelos países, se a qualquer momento um deles abandonar os compromissos a que se obrigou, para não ser responsabilizado pelo seu incumprimento? Todavia, o acordo nunca teria sido possível se os países desenvolvidos tivessem colocado os seus interesses em primeiro plano, e se os países em desenvolvimento não entendessem que o espírito que subjaz ao Protocolo de Quioto, é o da responsabilidade colectiva pela conservação da vida no planeta, ainda que se apresente diferenciada na luta contra as alterações climáticas. A Conferência de Durban fixou a data de início do segundo período de compromisso de Quioto para 2013, que será decidida na Cimeira sobre o Clima de Doha, que teve o seu ínicio no dia 26, evitando-se dessa forma um vazio no direito internacional do ambiente. A Cimeira de Durban foi considerada como sendo um quase compomisso para um tratado global, mas a presente situação é a caminho de um aumento de temperatura no planeta de 4 ºC, em relação à era pré-industrial. Acima de 2 ºC que é o limite, as alterações climáticas poderão ser de autênticas catástrofes. As conversações entre os países, devem criar as condições para que a temperatura média do planeta não seja superior a 2 ºC até 2100, em relação aos valores dos fi-

nais do século XIX. O C02 emitido para atmosfera atingiu tal volume, que se prevê um aquecimento do planeta de 4 ºC em 2060, que transformará o mundo em que vivemos, em algo bem diferente e impossível de ser descrito, com cataclismos em série, em que as secas por exemplo, não serão apenas na África Subsariana, mas estender-se-ão aos Estados Unidos e Europa, bem como a propagação a nível mundial de doenças como a malária ou a febre de dengue. Os objectivos de redução de emissões para os diferentes países, devem ser fixados nos próximos anos. A UE e os países que aderiram ao Protocolo de Quioto, geram apenas 15 por cento das emissões globais de gases poluentes. Quanto à protecção das florestas não foram dados passos significativos, no sentido de chegar a um consenso que possibilitasse a elaboração de um acordo para a sua protecção, não tendo sido previstos no Fundo Verde para o Clima, montantes destinados a atingir tal desiderato. Assim, ganha consistência a ideia de ser possível que tal financiamento para a protecção das florestas, seja proveniente das centrais eléctricas e indústrias, que não teriam que reduzir tão drasticamente as suas emissões, uma vez que as florestas absorvem muito dióxido de carbono, embaratecendo os direitos de poluição. A Conferência de Durban, apesar de todos os males que lhe são apontados, conseguiu elaborar uma agenda de temas a serem seguidos e propostos pela UE, no sentido de adoptar um novo acordo global vinculativo de redução de emissões de gases de efeito de estufa, aplicável a todos os países, ao contrário do Protocolo de Quioto, que só inclui os países desenvolvidos. A UE, após um acordo difícil com a Índia que se recusava a assumir compromissos vinculativos, fez prevalecer no documento final a recomendação de que as negociações até 2015, devem apresentar como resultado final a adopção de um documento com força legal para todos os países. A ambiguidade do texto conclusivo transfere para posteriores cimeiras a verdadeira negociação, que estabelecerá o quadro legal e as obrigações que os países que ratificarem o novo tratado terão de cumprir. O novo acordo global terá de ser elaborado antes de 2020, período em que terminam os compromissos voluntários de reduções efectuados pelos países na Cimeira de Cancun. A Cimeira de Durban não só foi a mais longa da história, como é considerada como uma nova rota no sistema de luta contra as alterações climáticas, tendo com grande esforço conseguido alcançar consensos para a segunda fase do Protocolo de Quioto, abrindo a porta a um sistema mais alargado no futuro, legalmente aplicável a todos os países, e criado instrumentos para

que os países desenvolvidos possam ajudar os países em desenvolvimento. A XVIII Conferência das Partes da ONU sobre Mudança Climática (COP18/ CMP8) ou Cimeira de Doha, que termina em 7 de Dezembro com a participação de dezassete mil pessoas, e tem como fim avaliar os progressos dos diferentes países na redução da emissão de gases de efeito de estufa e de continuar as negociações nos termos conseguidos na Conferência de Durban. Um dos temas principais é a necessidade de seguir a rota traçada na anterior Conferência de Durban, com a visão de 2020 e conseguir fundos para fazer face às alterações climáticas. A Cimeira de Doha tem a grande responsabilidade, mas também a oportunidade de ser um marco histórico na luta contra as alterações climáticas, tendo um desafio adicional, uma vez que assinala o final do primeiro período de compromisso do Protocolo de Quioto, que deve continuar por forma a enfrentar o desafio comum da humanidade e fazer o possível para assegurar um futuro melhor para a presente geração e para as vindouras. Os 194 países presentes baseados nos princípios da transparência, da participação e do fortalecimento do papel das partes como suporte de negociação, têm a possibilidade e obrigação de dar a resposta urgente que o mundo e o planeta necessitam para a sua existência, valorizando tudo quanto foi feito até ao presente. É a primeira Cimeira sobre mudança climática que se celebra no Médio Oriente e a maior que tem lugar na história do Qatar. A Cimeira de Doha implementará o programa PaperSmart da ONU, sendo dado aos participantes cópias digitais de todos os documentos permitindo que imprimam apenas os que necessitam, e através da Expo Sustentabilidade serão mostrados os projectos de tecnologia verde das empresas internacionais e locais, providenciando toda a informação acerca das consequências desastrosas das alterações climáticas. A Cimeira de Doha será neutra em carbono, pois todas as emissões de carbono produzidas serão compensadas pelo investimento na sua redução. Enquanto os representantes políticos negoceiam na Cimeira de Doha os compromissos que assumirão para reduzir o impacto das alterações climáticas, os cientistas constatam como o aumento das temperaturas está a começar a afectar a agricultura em todo mundo, reduzindo a produção de alimentos. As alterações no clima estão a ter consequências graves, quer na agricultura de bens alimentares essenciais de milhões de pessoas em todo mundo, quer em produtos “gourmet” que nas últimas décadas impulsionaram a economia de algumas zonas rurais do Mediterrâneo.


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达摩

O L H O S A O A L T O

gente sagrada

José Simões Morais

BODHIDHARMA MUITOS ERAM os monges, tanto vindos da Índia como partindo da China, que desde a dinastia Han circulavam pelos caminhos conhecidos hoje por Rotas da Seda. Para os monges chineses, que empreendiam tão dura jornada, o objectivo era seguir o trilho de Sakyamuni, ou ir à procura de textos budistas antigos, que esclarecessem os ensinamentos de Buda. No sentido inverso, os indianos vinham ajudar nas traduções e mais tarde outros chegaram à procura do Grande Veículo, Mahayana. Por isso, todos traziam para a China as Escrituras Sagradas, transportando também imagens e antigos textos budistas. Mas, no século VI, da Índia chegou ao Sul da China pela Rota Marítima um monge já idoso, conhecido por Bodhidharma. Não trazia livros, nem imagens, já que como o nome revela era um Ser Iluminado (bodhi) complementado com dharma, para ajudar os outros a despertar ainda nesta vida, através da meditação profunda. A tradição budista na China não vinha da transmissão oral dos que se reconhecem pelo Estar, mas era antes sustentada pelo recitar dos mantras e na leitura e análise dos Sutras, em vez de dar ênfase à meditação. Talvez conhecedor dessa realidade, o então 27º Patriarca Prajnatara enviou Bodhidharma para a China. Pretendia-se passar o Dharma pela transmissão oral que vinha como herança desde Mahakasyapa. Este desperto foi escolhido como primeiro Patriarca do Budismo pelo sorriso com que leu a flor na mão do Buda Sakyamuni. Bodhidharma era oriundo da Índia, de uma família Hindu da casta brâmane e se uma fonte indica ser da parte Noroeste, outras dão-

-no como sendo de Tamil. Foi o terceiro filho de um rei dessa região e na Índia, o vigésimo oitavo patriarca do Budismo. O mestre Da-Mo, como na China é conhecido Bodhidharma, após três anos de viagem, aportou em Guangzhou em 526, onde foi construído o templo Xilai no ano seguinte. Aqui ensinou o caminho dharmaparyaya, a transmissão fora das Escrituras, que através da meditação permite despertar. Como foi o Primeiro Patriarca do Budismo Chan, no templo Xilai mais tarde estiveram os terceiro e sexto Patriarcas, Sengcan e Huineng. Bodhidharma, partindo para Norte em viagem até Nanjing, atravessou Shaoguan e junto a uma fonte predisse a vinda de um Ser Superior, que por aí passaria daí a cem anos. Por sua sugestão, para acolher esse Ser desperto deveria no lugar ser construído um templo. Seguiu para Nanjing, nessa altura chamada Jinling, e em 527 foi parar ao templo de Shaolin, nas montanhas Song. Aí, numa caverna, passou nove anos em meditação virado para a parede. Transmitiu o seu conhecimento ao discípulo Huike e também oralmente quatro volumes do surangama-samadhi-sutra, que se tornou um livro sagrado para o Budismo Chan. O Budismo Chan, que significa meditação profunda, no Japão é conhecido por Budismo Zen. Bodhidharma morreu nos anos 30 do século VI, com uma idade muito avançada, havendo quem diga ter atingido mais de 150 anos. Em Macau encontramos a estátua de Bodhidharma no templo Kong Tac-Lam, perto do Seminário de São José.


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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Confia na inteligência e o povo a contestará; confia no poder e o povo contra ele lutará. DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 25 Os olhos e ouvidos dos líderes iluminados não se cansam; a sua vitalidade e espírito não se exaurem. Quando as coisas se dão, observam as suas mutações e quando os eventos sucedem, respondem aos seus desenvolvimentos. Quando não existe confusão nas imediações, há ordem na distância. *** Os líderes de nações desordeiras esforçam-se por expandir o seu território, não se esforçam pela humanidade e justiça. Esforçam-se por elevar o seu estatuto, não se esforçam pela virtude da Via. Isto é o abandono dos meios de sobrevivência e a criação das causas da destruição. Por este motivo, os antigos déspotas que eram depostos e aprisionados não repudiavam as suas acções ou reviam os seus erros, lamentavam apenas não ter morto os seus sucessores quando tinham tido a oportunidade para tal. *** O mundo pode ser ganho, mas não tomado; a liderança pode ser aceite, mas não procurada. Confia na inteligência e o povo a contestará; confia no poder e o povo contra ele lutará. Não é possível tornar as pessoas completamente ignorantes, mas é possível torná-las incapazes de usarem a sua inteligência contra ti. Não é possível tornar as pessoas completamente impotentes, mas é possível torná-las incapazes de usarem o seu poder contra ti. Estes duas coisas fazem sempre parte de uma visão a longo prazo. *** Os ardilosos são bons a calcular; aqueles que sabem são bons a antever. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www. ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


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