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h - Suplemento do Hoje Macau #54

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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nツコ 2705. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

ZHENG BANQIAO

A ORQUテ好EA, O BAMBU E A PEDRA


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A VIA DOS AFECTOS DE

ZHENG BANQIAO Paulo Maia e Carmo ESCOLHER um caminho é perder todos os outros. A escolha é um raciocínio, uma opção. Porém, para quem está ciente de todos os outros caminhos, a decisão implica uma perda. Mas, se a percepção do que se perdeu pode ser enquadrada no domínio da razão, ela pesa sobretudo no sentimento. Aí, as palavras nada dizem e a solidão é ruidosa. Na história silenciosa da pintura tradicional chinesa, encontramos essas pessoas que estão conscientes de que se encontram numa encruzilhada, perante caminhos que se bifurcam. E é então que se dá o inesperado: quando têm que escolher um caminho, eles escolhem todos. Nalguns casos podemos suspeitar como, no seu coração, eles resolveram todos esses caminhos que perderam. É o caso do homem, objecto de conhecidas lendas populares, que significativamente seria conhecido tanto como o leal juiz Zheng Banqiao como o pintor Zheng Xie, um dos Oito Excêntricos de Yangzhou. Por detrás de uma existência banal e de uma posteridade que se pretendeu não muito relevante, passeando no seu jardim, na intimidade da sua casa, ele está percorrendo todos os caminhos. As suas pegadas leves deixam por vezes traços luminosos que nos permitem vislumbrar o percurso de uma existência pródiga, consciente do Outro e da natureza que o rodeia. A vida de Zheng Xie (hao Banqiao) decorre num período (1693-1765) particularmente cintilante da cultura da China. Ela abrange o reinado de três imperadores: Kangxi (1661-1722) Yongzheng (1723-1735) e Qianlong (1736-1796). Ultrapassada a guerra contra as revoltas provocadas pela imposição de uma dinastia estrangeira que reina a partir de 1644, os novos imperadores Qing podem dedicar-se de modo autoritário mas benevolente a cativar os espíritos vivos, portadores da brilhante cultura chinesa. De modo sistemático dedicam-se ao coleccionismo e classificação dos tesouros artísticos do país. Recuperam símbolos de orgulho nacional como as oficinas imperiais da indústria da porcelana de Jingdezhen, destruída pela guerra civil

em 1674, e promovem obras de melhoramentos no centro do poder da Cidade Proibida inaugurada por Yongle em 1420.

O JUIZ QUE JULGOU UMA PEDRA

Nascido no distrito de Xinghua, na província de Jiangsu, conheceu a pobreza e a orfandade. Adoptado desde muito novo, teve um início de carreira habitual num funcionário do Império. Após a obtenção dos sucessivos graus nos exames oficiais com o último, o chinshih, em 1736, é enviado a exercer a função de magistrado na província de Shandong. Aqui emergem as qualidades do seu carácter escrupulosamente íntegro, a sabedoria e o discernimento que fariam dele objecto de culto popular. Também a sua irrepri-

bilizada por um ruidoso ajuntamento de pessoas. Espreitando pela cortina, Zheng viu a multidão que se concentrava em crescendo frente à yamen, a porta dos edifícios governamentais. Ao vê-lo, um indivíduo alto fura por entre a multidão e grita as boas vindas ao senhor da terra. Ao ouvi-lo, um velho bufarinheiro, que vendia papas de farinha de trigo na rua, corre para se afastar do caminho. Mas ainda antes de o conseguir, o homem grande empurra-o e, ao cair, o seu pote de sopa cai ao chão, bate numa pedra e parte-se. O rufia agarra o velho e açoita-o invectivando-o por obstruir a passagem do magistrado. Quando este se apercebe da confusão gerada à sua frente, desce da cadeirinha para que lhe expliquem a razão daquele distúrbio. O homem grande

A vida de Zheng Banqiao decorre num período (1693-1765) particularmente cintilante da cultura da China. Ela abrange o reinado de três imperadores: Kangxi (1661-1722) Yongzheng (1723-1735) e Qianlong (1736-1796). mível excentricidade. Quando toma posse como magistrado no distrito Weixian, ordena a abertura de cem buracos na parede que se estendiam desde o seu escritório de magistrado até à rua. Quando alguém se atreveu a perguntar ao novo juiz a razão de tal procedimento ele respondeu, sarcasticamente, que se destinavam a arejar o mofo burocrático que por ali se acumulara durante o tempo dos seus predecessores. Noutra ocasião, quando se dirigia ao Tribunal, a sua cadeirinha foi imo-

desculpa-se e agarrando com força o velho vendedor, explica que ele foi a causa de todo o problema. O velho em desespero, explica a causa do incidente com o empurrão a que foi sujeito e clama justiça do magistrado. Antes porém de que este se pudesse pronunciar, surge um grande proprietário que explica que o velho foi rasteirado por um demónio. “Muito bem”, responde Zheng Banqiao, “já que temos uma testemunha diga-nos onde está esse demónio”. O proprietário apon-

ta para uma grande pedra, indicando o culpado. “E há testemunhas”, pergunta, e todos à volta confirmam. “Nesse caso”, diz o juiz, “levem esta pedra ao meu tribunal”. Perante a perplexidade geral, o juiz abre a audiência com uma questão para a pedra. Porque razão teria a pedra partido o pote de sopa do velho? Como esta não confessasse, o juiz ordena quarenta chicotadas à pedra. A audiência rebenta em gargalhadas mas o juiz não desiste e ao perguntar a causa de tanta gargalhada, respondem-lhe: “se a pedra não tem boca como poderia confessar? Nem que lhe dessem quatrocentas chicotadas”. “Ah sim?” responde o juiz, “se não tem boca também não tem pernas, como poderia então partir o pote de sopa do velho? Quando todos se ofereceram como testemunhas procuravam então enganar o juiz? Como punição são todos condenados a quarenta chicotadas cada um.” Apavoradas as testemunhas imploram perdão e o juiz, clemente, propõe em alternativa: encherem de dinheiro um grande cesto de bambu. Ninguém escolheu as chicotadas e quando o cesto estava cheio o juiz dirigiu-se ao velho: leva e alimenta a tua família. A partir desse dia, ninguém em Weixian se atreveu a provocar distúrbios por ninharias.

COMEÇAR DE NOVO COM SESSENTA ANOS

Mas a atenção ao Outro também se manifestava de modo erudito, recorrendo às consagradas formas de expressão dos homens de cultura do seu tempo como quando, ainda juiz, escreve o poema intitulado “No posto de magistrado em Weixian, pinto um bambu para oferecer ao meu superior, o governador Bao Guo”: Escreve: “No meu escritório de trabalho, descansando, escuto o rumor do lamento dos bambus ao vento/ Será o sofrimento do povo oprimido, pergunto-me? /Nós, funcionários menores que podemos fazer/ Senão figurar a nossa preocupação com este ramo único e esta folha sozinha?” Porém, assim como sua sensibilidade não lhe permite ignorar o sofrimento dos outros, o seu carácter vigorosamente justo também não lhe permite receber acusações de ânimo leve. Por isso, quando ouve o murmúrio que o acusa de corrupção ao mandar construir um abrigo para pobres, toma uma medida drástica. Afinal, já tinha completado doze anos como juiz e os sessenta anos de idade,


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dois números que segundo o oráculo Yijing, representam o fim de dois ciclos. No número doze, primeiro há obstrução e depois alegria – é preciso modificar o fio dos acontecimentos, tão fácil como virar a palma da mão. No número sessenta, diz-se que a disciplina deve reconhecer as fronteiras temporais. Como as divisões numa cana de bambu, cada segmento tem um limite, cada secção uma passagem. Em 1753 abandona a carreira oficial, alegando razões de saúde, e regressa à sua terra, Xinghua, onde ao longo dos anos tinha vindo a comprar terrenos. Não era uma reforma. Vinha encorajado por um encontro que tivera cinco anos antes no monte Tai com o imperador Qianlong, que então lhe conferira o cobiçado título de shuhuashi, pintor e calígrafo oficial, para o qual mandara logo fazer um selo comemorativo. À sua chegada, e de modo característico, afixa na porta da casa um pouco ortodoxo cartaz com uma lista de preços das pinturas

que se propõe realizar, distinguindo-as pelo tamanho da encomenda. Era uma forma chocante de se proclamar profissional de uma arte que desde Dong Qichang (1555-1636) estava claramente separada em dois caminhos: amadora, feita por espíritos eruditos, que só permitia a circulação das obras de arte em troca de favores sociais, e os profissionais sem cultura que trabalhavam por dinheiro.

O DESAFIO DA LEALDADE

E no entanto, paradoxalmente, o gesto de Zheng Xie buscava sublinhar a sua integridade e a sua natureza bem intencionada. Mas naquele contexto social, não era uma decisão fácil. Assim, Zheng como que desafiava os seus compradores a desprezá-lo. No fim da lista de preços acrescentava: “se me apresentarem o vil metal então o meu coração inchará de alegria e tudo o que eu escrever ou pintar será excelente… doces conversas de antigas amizades e companhias passadas

serão apenas ventos frios de Outono passando pelas minhas orelhas.” Era o seu modo de inverter o snobismo intelectual associado à arte, uma contradição com a qual se debatia interiormente. Numa carta a um seu irmão mais novo escreve: “não será uma coisa vulgar para um homem que não pode prestar algum serviço ao seu país e melhorar a vida do povo, ocupar-se com pincel e tinta para diversão de outros?” Mas tinha que manter o respeito pelo caminho que escolhera, por isso escreve num poema provocatório: “Estudei versos para nada/ Por isso desisti e estudei caligrafia/ Estudei caligrafia para nada/ Por isso desisti e estudei arte. / Agora vendo o suficiente para ganhar cem moedas por dia/ Será considerado ganhar a vida, / E livre de uma pobreza abjecta/ Sob o elegante título de arte. / Agora escapei de todos os compromissos e encontros/ E pedinchices por favores oficiais. / Um ar fresco e limpo sopra-me pela casa/ E nem carruagens nem cavalos

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se juntam à minha porta.” A atitude, desafiadora no plano social, correspondia à liberdade com que recriava o modelo do pintor. É certo que reconhecia mestres. Falava de Gao Qipei, Xu Wei e, acima de todos, Bada Shanren e Shitao, todos eles de uma maneira ou de outra, rebeldes como ele. Homens que viveram fora da normalidade social para serem mais leais a si próprios.

ORQUÍDEA, BAMBU E PEDRA

Olhar o caminho dos outros permitia-lhe ver o seu. Escreve: “Shitao sobressaía em todos os géneros, incluindo na pintura de orquídeas e bambus, que para ele eram temas menores enquanto eu me especializei neles. Durante cinquenta anos não pintei mais nada. A arte de Shitao é universal enquanto a minha é especializada, embora a especialização não seja necessariamente inferior à universalidade. A maneira dele é abundante em transformações, estranhas e arcaizantes

Assim como sua sensibilidade não lhe permite ignorar o sofrimento dos outros, o seu carácter vigorosamente justo também não lhe permite receber acusações de ânimo leve.


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ou finas e elegantes. Quando comparado com Bada Shanren, Shitao não é só um seu igual como em muitos aspectos o ultrapassa.” E a especialização de que falava levou-o à escolha de três temas: orquídea (lan), a flor que nasce simples e tem uma conclusão complexa, o bambu (zhu), planta associada à modéstia e à rectidão de carácter, um dos três amigos do Inverno, e a pedra (shí), segundo o ditado: “a pedra e o terreno são as origens da natureza”. Se a similitude dos três temas com os traços do seu carácter obstinado é flagrante, o modo de execução das obras foi-se aos poucos aproximando do aspecto da caligrafia que acompanhava as pinturas. Da sua caligrafia, que era em si mesma um objecto artístico e original. Nela misturava os estilos: cursivo (xingcao), clerical (lishu) e o estilo conhecido por oito décimas (bafen) para criar um estilo próprio a que chamou seis décimas e meia (liufenban). E era admitida como parte do todo no espaço da composição, a impetuosidade do traço originado do mesmo pincel e da mesma tinta gerando uma surpreendente representação. O sentido poético, interveniente no mesmo plano, era a terceira componente na

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A especialização levou-o à escolha de três temas: orquídea (lan), a flor que nasce simples e tem uma conclusão complexa, o bambu (zhu), planta associada à modéstia e à rectidão de carácter, um dos três amigos do Inverno, e a pedra (shí), segundo o ditado: “a pedra e o terreno são as origens da natureza”.

sua obra: “Rogo-vos que não olheis para esta pintura apenas como uma pintura. / Há um sentido neste poema, /um sentido em cada carácter.” Numa pintura intitulada “Dois tufos de orquídeas” escreve: “Quem compra orquídeas frequentemente quer as raízes completas. / Porque de raízes enterradas profundamente em solo compacto novas raízes irão nascer. / Há muita conversa fiada este ano sobre o bem que sairão as flores. / E vereis, chegada a Primavera, um jarro cheio de flores.” E preocupava-se em notar o equilíbrio entre o que muda e o que permanece como no poema “Pedra”: “Nos degraus deste pátio nos seus musgos verde-jade/ Fica um teimoso bloco de pedra, /Alheio à chuva e ao orvalho, /Ignorando o gelo e a neve. /Quantas vezes não terá este bosquezinho medrado e secado, /E as flores e as árvores em ciclos mudado de lugar? /Basta perguntar à senhora pedra…/ Ela lembra-se de tudo.”

O POETA ZHENG BANQIAO

A poesia será a amiga fiel do seu pincel. Ela será o veículo que lhe permite manifestar a saudade da sua terra (“Sonho com Yangzhou e será que Yangzhou não sonhará


comigo?”), anotar as pausas na canção de uma jovem cantora (“sorrindo brevemente, a brincar com uma flor nos dedos”) e dizer o inconfessável para um homem na sua posição (“Que idade terá ela, pergunto-me… /Quinze, apenas quinze! /Tremo de vergonha. /As minhas patilhas já estão cinzentas e o cabelo nas têmporas já escasseia. /Como me atreveria a confessar o meu amor por ela?”). Mas no domínio poético a sua obra mais famosa seria o Daoqing, palavra composta pelos caracteres que significam “o caminho dos afectos”. Uma balada composta por dez poemas cuja métrica, ritmo, sintaxe e retórica emanavam dos Yuan chu, uma forma poética originária da dinastia Yuan (1280-1368). Os dois objectivos da balada são bem a imagem de Zheng Banqiao, nome que usa habitualmente para a poesia: expressão do desejo de escapar deste mundo, da sua falsidade e da hipocrisia e chamar a atenção do homem vulgar, distraído ou confuso, designação contida nos caracteres “hu-tu”, que indiciam uma disponibilidade. Para eles convoca figuras da vida do dia-a-dia, como o velho pescador, o velho taoista ou o pedinte, imagens de vidas que anseiam por uma realização mais completa dos seus ideais. Da vida nota a brevidade: “O mundo tem os seus sonhadores e homens lúcidos /Mas rapidamente as suas intenções ecoam sobre frias taças de sorgo”. Ele sabia que partilhava dessa ansiedade por isso, reflecte sobre a arte de três famosos pintores e monges Budistas: “Escrevo um poema numas pequenas paisagens de Shitao, Shishih e Bada Shanren”, “Com o país devastado, famílias inteiras sucumbiram, /O cabelo nas têmporas transformou-se-me em neve. /Abandonando o mundo, estes artistas, levando apenas os seus sacos de pinturas e poemas, /Tornaram-se monges Budistas. /Na horizontal, na vertical – borraram milhares de paisagens. /E no entanto todos esses pingos não são de tinta /São pingos de lágrimas.”

O EXCÊNTRICO DE YANGZHOU

A frequência da noite desorienta-nos mas, na escuridão, a liberdade leva-nos por caminhos inusitados. Quando Zheng escreve sobre o velho taoista, assinala a inquietação que provocam aqueles que seguem caminhos diferentes do habitual: “Diz-se que lá no alto junto a uma pedra proeminente/ Ele construiu o seu abrigo solitário. /Porém quem pode dizer, quem sabe onde ele se encontra?” E no entanto, inexoravelmente, ele seguiu, descobrindo e esquecendo e outra vez descobrindo, esse doce costume de observar os pequenos acontecimentos gratuitos da natureza. Não uma paisagem mas a beleza breve da flor da orquídea, a inusitada verticalidade do bambu, a forma caprichosa de uma pedra. Era um espanto breve, porém, o tempo longo dizia-lhe para o guardar com cuidado: podia ser a última vez. Era o mesmo método da atenção que dispensava às pessoas só que aqui era o papel que acolhia o olhar. Porventura sem interpretar mas mantendo a abertura para a hospitalidade. Zheng Xie deixou uma impressão viva na

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memória daqueles que o conheceram. Em Yangzhou os seus poemas nos diversos estilos, regulares (shi), isto é, com um número fixo de caracteres por linha, irregulares (ci), ou a balada daoqing, foram impressos e coleccionados com fervor e admiração após a sua morte por aqueles que cultivavam a poesia. Na próspera cidade, que frequentava desde a juventude e onde se juntavam o rio Yangtze e o Grande Canal, a posse de uma pintura de Zheng Xie era quase um pré-requisito social. A execução rápida e a escolha dos temas, associados aos elevados ideais de carácter dos cavalheiros, como o bambu que “dobra mas nunca se submete”, contribuiria para espalhar a sua fama junto de ricos mercadores da cidade que aspiravam à alta cultura. A preços que podiam pagar, já que em geral esse género de pintura era demasiado cara, senão inalcançável fora do contexto em que eram produzidas. Calcula-se que tivesse que vender duzentas e cinquenta pinturas por ano para alcançar o rendimento anual de mil liang de prata. A procura e a necessidade de ganhar a vida tê-lo-ão levado, como aconteceu a alguns dos seus contemporâneos, a usar assistentes que reproduziam o trabalho do mestre. Mais uma paradoxal e subtil forma de alargar as possibilidades da vida. Perduraria a lenda do homem que convivia com monges budistas, guardas manchus e herdeiros imperiais da última dinastia e se comportava de modo não convencional, manifestando compaixão pelos caídos e abandonados, juntamente com as suas ousadias artísticas que confundiam a pintura com a caligrafia. Já no século dezanove, na ambição de catalogar o passado, foi classificado, juntamente com Jin Nong, como um dos mais proeminentes representantes do grupo dos Oito Excêntricos de Yangzhou (Yangzhou baguai). Mas na verdade quem foi Zheng Xie? Foi um pintor, um poeta, um anónimo estudante que se preparou para servir o Estado, um juiz sagaz e justo, um estudioso do Dao? Ou um homem que entendeu o sentido último contido na palavra ren, que Confúcio achava a mais importante: uma pessoa e dois caminhos: partir e voltar, o que eu sou e o que o mundo é, o que eu dou e o que o mundo me dá. Ele foi tudo isso e muitos mais qualificativos se lhe poderiam atribuir, mas a tediosa enumeração não chegaria para revelar o mistério. A mecânica quântica mostrou-nos a existência microscópica de várias realidades que existem simultaneamente. A possibilidade de um tempo não sucessivo mas coexistente, com vários mundos que se desenrolariam no mesmo espaço, a nível macroscópico, é apenas uma conjectura. Porém, perante a história de Zheng Xie, a intuição sugere-nos essa possibilidade. Neste momento algures, alguém como eu estará construindo uma vida diferente da minha porque seguiu o outro caminho que se me deparou no cruzamento. Suspeito desses caminhos todos.


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ATÉ O MAR SE ESGOTAR E A PEDRA SE TORNAR EM PÓ DEPOIS DA CHUVA, o sol voltou a afastar as nuvens espessas e a brilhar no céu. As cigarras recomeçaram a cantar em competição, por entre a folhagem dos salgueiros. Xiao Wen não conseguia dormitar na hora da sesta. Os estudantes da Secundária Yucai moravam na escola e só regressavam a casa ao fim-de-semana. Tinham um horário muito exigente. Era obrigatório, por exemplo, fazerem a sesta durante hora e meia, mas não era obrigatório dormir. Xiao Wen não tinha sono nenhum, porque estava excitado com a leitura de um livro, cuja capa, contracapa e folha de rosto estavam esmaecidas devido à muita circulação de mão em mão. Disseram-lhe que se chamava Diário de Mana, um livro proibido por conter algumas descrições eróticas e que circulava em segredo. Era a década de 70 do século passado. A China ainda impunha ao povo uma grande austeridade ideológica e cultural. Uniformizar pensamentos e consciências de acordo com o espírito das instruções superiores de Mao era um slogan popular, repetitivamente divulgado. Ler livros com descrições eróticas era considerado um acto arriscado e poderia causar graves consequências. O pai de um colega de Xiao Wen, funcionário do Ministério do Comércio Exterior, voltou do estrangeiro com um exemplar da Playboy escondido no fundo da bagagem, mas não conseguiu fugir à supervisão da alfândega. A revista foi confiscada e o prevaricador foi preso, acusado de transportar e divulgar materiais de natureza pornográfica. Nas publicações editadas naquela época, o tema amoroso e erótico era tabu, embora em privado nunca tenha deixado de interessar às pessoas. Para os rapazes do segundo ciclo da Escola Secundária Yucai, com idades compreendidas entre os 14 e os 15 anos, as coisas entre homens e mulheres eram ainda misteriosas, o que lhes despertavam secretas curiosidades. As raparigas na escola, particularmente as mais bonitas, eram tema constante nas conversas deles. Na turma de Xiao Wen, um terço dos alunos eram meninas às quais tinham sido atribuídas, pelos rapazes, alcunhas conforme as características físicas ou de personalidade de cada uma: ‘bruxa’, ‘grande bunda’, ‘galinha torta’, ‘raposa’, ‘aeroporto’ (mulher com os seios rasos), etc. Apenas Yu Mei era excepção, sendo a única que não tinha alcunha pejorativa. Yu Mei, bonita mas

um conto inédito de Yao Jing Ming

também arrogante, assumia certa superioridade perante os rapazes que não tinham coragem de a desafiar. Era a mais falada nas conversas deles, sobretudo na hora de deitar, antes de serem apagadas as luzes às nove da noite. Na realidade, todos pretendiam aproximar-se dela ou dirigir-lhe algum piropo, mas tinham medo de a intenção ser descoberta por alguém mais atento. Raparigas e rapazes raramente trocavam palavras, excepto em situações inevitáveis, como, por exemplo, se o professor desse um trabalho que envolvesse a participação dos alunos de ambos os sexos. Quem fosse encontrado junto de uma rapariga com a qual estivesse a trocar dois dedos de conversa seria alvo da zombaria dos outros, podendo ser chamado de ‘Diabo Colorido’ ou seja, mulherengo. Havia sempre rapazes que utilizavam truques para se aproximarem de Yu Mei ou lisonjeá-la, de forma implícita, mas ela mantinha-se superior e distante, como uma princesa. «O fruto proibido é o mais apetecido”, lá diz o saber popular. Os livros interditos circulavam intensamente de mão em mão. O Diário de Manna chegara na véspera às mãos de Xiao Wen, que o teria de ler até ao dia seguinte, uma vez que já estava requisitado por outro. E depois dele haveria sempre outro e mais outro, a aguardar a chegada do livro como lobos esfaimados ansiosos por partilhar o naco de carne. Xiao Wen passou o tempo da sesta a acabar de o ler. Ele conseguia sempre maneira de arranjar livros proibidos. Como lia bastante, era razoavelmente culto e parecia mais maduro do que os colegas. Além da leitura, gostava de jogar voleibol, xadrez e praticava artes marciais.

Distinguia-se dos outros e era apreciado pelas raparigas. Nas partidas de voleibol com equipas de outras escolas, não faltava assistência feminina a torcer por ele. Mas Yu Mei nunca aparecia. Xiao Wen fechou o livro, mas continuou deitado na cama, mergulhado na evocação das descrições sobre a beleza da protagonista. Inconscientemente, associou a imagem à de Yu Mei. Ambas tinham o rosto oval e uma trança lisa e abundante, enrolada no pescoço de marfim, e eram parecidas em muitos aspectos, sobretudo na beleza e na altivez. A arrogância de Yu Mei era, talvez, justificável por ter sempre boas notas nos exames a todas as disciplinas. Era daquele tipo de pessoas que não necessitava de trabalhar muito para obter bons resultados. Xiao Wen sentia-se irremediavelmente atraído por Yu Mei. Quando jogava voleibol, desejava que ela estivesse presente para que pudesse ver os seus dotes desportivos. Mas Yu Mei nunca aparecia. O pensamento de Xiao Wen saltou do livro e ficou concentrado em Yu Mei. Tocou o gongo a anunciar a hora das aulas da tarde, mas Xiao Wen ficou sem vontade alguma de ir. Continuou naquele sonho, deitado preguiçosamente na cama, com os olhos a fitar a lâmpada ainda acesa, pendurada do tecto. De repente, sorriu para si próprio pela decisão que acabara de tomar. Na tarde de sexta-feira, na aula de desporto, o professor levou os alunos a correr três mil metros com uma mala às costas, atravessando uma série de obstáculos, um exercício semelhante aos treinos militares, uma vez que todos tinham de ser treinados para enfrentar um eventual ataque soviético. A corrida realizou-se em torno do campo desportivo. Finda a

A arrogância de Yu Mei era, talvez, justificável por ter sempre boas notas nos exames a todas as disciplinas. Era daquele tipo de pessoas que não necessitava de trabalhar muito para obter bons resultados. Xiao Wen sentia-se irremediavelmente atraído por Yu Mei.

aula, quando todos estavam a caminho da cantina para jantar, Xiao Wen aproximou-se de Yu Mei e disse-lhe em voz baixa, mas ainda arquejante: — Yu Mei, tenho uma coisa para ti. — Dito isto, meteu-lhe um papelinho na mão. — O que é isto? — Yu Mei pegou no papelinho, com ar espantado. — Lê-o depois! Xiao Wen afastou-se depressa com receio de ser apanhado por olhares vigilantes. Yu Mei, antes de chegar à cantina, contornou os colegas e foi a um canto do jardim onde abriu o papelinho. Era uma carta escrita a tinta azul no papel de caderno dos alunos. Yu Mei, Desde o dia em que aqui chegámos, reparei em ti. Com o decorrer do tempo, tenho vindo a alimentar uma paixão cada vez mais intensa. De dia sinto a tua respiração, o teu olhar, o teu sorriso, de noite fazes parte dos meus sonhos. Sinto-te sempre ao meu redor, não tenho dúvidas do meu amor por ti. Amo até o mar se esgotar e a pedra se tornar em pó. Xiao Wen A última frase era a citação de um verso famoso de um poeta clássico chinês. A carta era corajosa e não parecia ter saído da mão de um rapaz de 14 anos. Yu Mei leu a carta e as faces ruborizaram-se, simultaneamente impressionada com o conteúdo e com os dotes literários de Xiao Wen. Desde que entrara na mais famosa escola da cidade, sentira-se alvo de muitas atenções. Não desgostava disso, tinha até uma sensação agradável. Sabia que Xiao Wen era um desses admiradores, mas ela usava a máscara da indiferença, definindo uma fronteira entre eles, como fizera com todos. Talvez gostasse dele mas era vergonha uma rapariga mostrar interesse por um rapaz. Os pais sempre a tinham advertido sobre o correcto relacionamento com rapazes e, além disso, o regulamento da escola proibia o namoro entre alunos. Yu Wei meteu a carta no bolso e começou a ficar preocupada, com medo de que o caso se tornasse público. Não, isso não podia ser! Se os professores soubessem… Xiao Wen esperava com ansiedade a reacção de Yu Mei. Nas aulas lançava-lhe, de vez em quando, um olhar interrogador. Ela, porém, fingia nada perceber. Ele ansiava por lhe falar mas não encontrava


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Era a década de 70 do século passado. A China ainda impunha ao povo uma grande austeridade ideológica e cultural. Uniformizar pensamentos e consciências de acordo com o espírito das instruções superiores de Mao era um slogan popular, repetitivamente divulgado. Ler livros com descrições eróticas era considerado um acto arriscado e poderia causar graves consequências.

Cui Xiuwen, Angel (Detalhe)

oportunidade, uma vez que Yu Mei fazia o possível para se esquivar. Ao terceiro dia, a seguir à aula de História da Política, o professor Hao, responsável pelos assuntos estudantis da turma, um homem baixo e magro dos seus 40 anos e que usava chapéu, mesmo de Verão, para tapar a careca, chamou Xiao Wen ao seu gabinete. — Xiao Wen, o que queres tu da Yu Mei? — Nada. Não lhe fiz nada. — Nada? Sê sincero! Se não confessares, o teu erro agravar-se-á. — Não fiz nada, juro!

— Então o que significa isto? E o professor Hao tirou de uma gaveta da secretária um papelinho e mostrou-o a Xiao Wen que ficou calado com os lábios a tremer. Ele percebeu que o seu amor fora denunciado por Yu Mei. Xiao Wen pagou o preço pela sua declaração de amor. Foi obrigado a fazer autocrítica do seu pensamento considerado incorrecto perante os colegas do segundo ciclo e os seus pais também foram informados da conduta impura do filho. Tornou-se uma figura conhecida em toda a escola e ganhou a alcunha

de “diabo colorido” (quer dizer ‘mulherengo’). Yu Mei, por sua vez, mereceu os louvores do professor Hao, servindo de bom exemplo para todos os alunos da escola por ter conseguido resistir à sedução do estilo de vida da burguesia e mantido a posição determinante da classe proletária. A partir daí, Xiao Wen transformou-se noutra pessoa. Calado, não trocava palavra com ninguém e deixou de jogar voleibol e xadrez. Começou a faltar às aulas. No fim do semestre, todos estavam ocupados com os exames finais, mas Xiao

Wen não apareceu na escola durante uma semana. Sem notícias e curiosos, os alunos perguntaram por ele ao professor Hao, que disse que Xiao Wen devia ter tido algum problema e não viria mais à escola. Correram rumores entre os alunos de que Xiao Wen entrara secretamente num balneário feminino e espreitara, escondido atrás das tábuas com fendas, as mulheres a tomarem banho, pelo que fora apanhado e levado pela polícia e condenado a receber a reeducação ideológica num Instituto Educativo de Menores.


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C H I N A C

秦皇岛 António Graça de Abreu QINHUANGDAO talvez não merecesse razões para escrita, é mais uma das grandes cidades chinesas visitadas a que já perdi o número, igual a tantas outras, incaracterística e ostensivamente feia. Com um milhão de habitantes, situada no extremo norte da província de Hebei, logo abaixo da Manchúria, é de considerar o seu excelente porto de mar, diante das terras da Coreia, não longe do Japão, a trinta horas de distância, por navio. Qinhuangdao tem sido, desde há muitos anos, o lugar por onde se exportam milhares de toneladas de carvão provenientes das inseguras e perigosas minas do norte da China. Aqui o mar não separa. Pelo comércio, pela troca de produtos as águas do Pacífico unem estes diferentes povos do Extremo Oriente. Mas a cidade e porto de Qinghuangdao não reconfortam a alma. Bairros inteiros com arranha-céus que agridem a terra e as nuvens, mais um horizonte de guindastes, contentores, vagões carregados de carvão e cereais, navios, a azáfama incessante e necessária num grande entreposto marítimo. Logo ali, dez quilómetros a norte de Qinhuangdao, tudo muda. Estamos na passagem de Shanhaiguan da Grande Muralha da China, o lugar onde começa a Muralha que se estende por seis mil quilómetros pelo norte e noroeste do velho Império. Este troço inicial -- conhecido como a “cabeça do velho dragão”, data da dinastia Ming e foi construído por volta de 1430 --, entra por dentro do mar e depois avança sobre a terra, ondulando pelas montanhas, trepando imparável pela crista dos montes. 山海 关Shanhaiguan, que significa “passo entre a montanha e o mar”, era um local estratégico na defesa das fronteiras da China, face às ameaças dos povos bárbaros, sobretudo os tártaros, os manchus que viviam no nordeste, do outro lado da Muralha nas vastas regiões que se estendiam até à actual Rússia siberiana. No final da dinastia Ming, em 1644, com o império em convulsão e com as ameaças manchus tão próximas, a defesa do troço da Muralha no passo de Shanhaiguan, a “primeira passagem debaixo do céu”, foi entregue pelo último imperador Ming ao general Wu Sangui (1612-1678). Mas Wu acabou por abrir as pesadas portas da Muralha aos exércitos estrangeiros vindos da Manchúria, convencido de que os manchus entrariam no território chinês,

avançariam sobre Pequim e derrotariam o todo poderoso rebelde Li Zicheng, que entretanto conquistara e lançara fogo à capital. Li Zicheng foi mesmo vencido, mas os manchus rapidamente se instalaram em Pequim, derrotaram os Ming e estabeleceram a sua nova dinastia que se prolongaria até 1911. Os novos poderes manchus deram a Wu Sangui o título de “príncipe da paz do Ocidente” e outorgaram-lhe o governo da distante província de Yunnan. Em 1673, o “príncipe” e general Wu resolveu organizar o seu próprio exército e revoltou-se, sem sucesso, contra a dinastia manchu. Acabou por morrer de morte natural em 1678, não antes de se autoproclamar imperador de uma nova dinastia, os Zhou, rapidamente aniquilados pelos militares manchus. Wu Sangui é conhecido como um dos maiores traidores e oportunistas da História da China. Traiu os Ming, os chineses, em Shanhaiguan, e traiu os Qing, os manchus, em Yunnan. E ainda se proclamou imperador. Este passo de Shanhaiguan está também ligado a uma das mais conhecidas lendas da velha China, contada e recontada com versões díspares ao longo de muitos séculos. Qualquer criança chinesa a conhece. Trata-se de retratar por palavras o destino trágico da formosa Meng Jiangnu que terá vivido no reinado de Qin Shihuang, o unificador do império chinês em 221 a.C., mais conhecido no Ocidente pelos sete mil guerreiros de terracota que mandou modelar e enterrar próximo do seu túmulo em Xi’an, hoje um dos lugares mais visitados da China. Meng Jiangnu nasceu nestas terras do norte, não longe dos vales e montanhas por onde se construía a Grande Muralha. Bonita, capaz de provocar intensos fascínios no mais simples e complicado mortal, acabou por se casar com Fan Xilang, um esbelto rapaz que um dia descobrira escondido no pomar de sua casa. Fan fugira da vila onde vivia, nas regiões do sul, quando os emissários do imperador Qin Shihuang recrutavam e obrigavam pela força todos os jovens a partir para os trabalhos de construção da Muralha. Esse labor era devastador e equivalia quase sempre a uma morte certa, dadas as condições deploráveis dos trabalhadores, a alimentação escassa, a ausência de agasalhos, o frio permanente nas terras de fronteira. Ao esconder Fan Xilang da soldadesca do imperador, a formosa Meng Jiangnu come-

QINGHUANGDAO A MU

çou a guardá-lo também no seu coração. Os pais da donzela descobriram o namoro e decidiram casá-los. Após o banquete de casamento, os dois noivos preparavam-se para iniciar, a sós, os festejos da noite de núpcias. Eis quando os recrutadores imperiais irrompem de surpresa na habitação e levam Fan Xiliang. Havia sido descoberto graças à denúncia de um dos criados da casa, um tal Sun que alimentava uma pai-

xão secreta por Meng Jiangnu. O criado conseguia assim vingar-se do homem que ia tomar nos braços, e deitar num leito perfumado e fresco a sua apaixonada beldade. A formosa Meng chorou durante meses a sua desdita. Passaram-se dois anos e nenhuma notícia chegou vinda do esposo perdido nas paragens da Grande Muralha. Estávamos no pino do Inverno, gelado nas terras do norte, e Meng Jiangnu decidiu prepa-


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URALHA DA CHINA E HISTÓRIAS DE ESPANTAR

rar roupa acolchoada e quente e levá-la ao marido. Partiu de viagem em busca de Fan Xiling, mas porque a jornada era longa e perigosa, os seus pais decidiram que o criado Sun a devia acompanhar. Após dois meses de viagem, semi-perdidos por terras gélidas e inóspitas, Sun disse a Meng Jiangnu: — Jamais encontraremos o teu marido. Porque não regressamos às nossas casas e depois casas comigo?

Meng Jiangnu fez mais umas perguntas ao criado e foi-lhe fácil descobrir que ele estava por detrás da denúncia, da súbita aparição dos soldados que levaram o seu amado Fan para os trabalhos da Muralha. Decidiu aceitar a proposta de Sun mas para selar a decisão pediu-lhe que encontrasse uma grande flor e lha oferecesse, testumunho do início das suas novas vidas. Diante do lugar onde se encontravam, crescia uma flor selvagem

suspensa no interior de um barranco. Meng pediu a Sun que a colhesse mas era difícil chegar lá abaixo. Então a a menina disse a Sun que descesse atado a uma corda que ela própria seguraria, desde a berma do precipício. O criado assim fez, enrolando a corda em volta do corpo mas, a meio da descida, Meng Jiangnu largou a corda, levando Sun a despenhar-se da falésia e a morrer esmagado nas pedras do fundo do barranco.

A moça continuou viagem e chegou aos troços recém construídos da Grande Muralha. Perguntou a todos os trabalhadores que encontrou se conheciam Fang Xilang, o seu amado esposo. Ninguém sabia do rapaz. Por fim alguém se recordava dele, mas disseram-lhe que morrera de frio e exaustão, e havia sido enterrado na base da nova Muralha. Meng Jiangnu dirigiu-se para o local que lhe indicaram e diante do grande muro de pedra chorou, chorou durante três dias. Chorou tanto que as suas lágrimas acabaram por comover as pedras da Muralha que desabaram, se abriram e mostraram à infeliz viúva o cadáver intacto de Fan Xilang. Meng procurou arranjar uma tumba condigna para enterrar o marido mas entretanto o comandante militar da região deteve a donzela, acusando-a de derrubar um troço da Muralha. Face à formosura de Jiangnu, o capitão arquitectou um plano. Ganharia umas boas moedas se a entreguesse aos eunucos do serralho imperial. Foi levada para a corte e quando o imperador Qin Shihuang, que já possuía três mil concubinas, a viu quis de imediato possuí-la. A beldade concordou, mas colocou três questões para lhe conceder com prazer o “favor imperial.” Primeiro. Queria, uma sepultura digna para o seu falecido marido. Segundo. O imperador devia vestir de luto e estar presente nos funerais de Fan Xilang. Terceiro: Pedia um pequeno passeio de barco na companhia do imperador, exactamente em Shanghaiguan onde a Muralha entrava por dentro do mar. O todo poderoso Qin Shihuang aceitou as condições, com excepção da segunda, tendo nomeado um seu ministro para o representar nas cerimónias fúnebres de homenagem a Fan Xilang. Chegara o dia do passeio de barco. Meng Jiangnu apareceu radiosa, vestida de brocado vermelho e dourado. O imperador queria conduzi-la ao camarote real, mas a beldade pediu para viajar junto à amurada da nau que vogava serena nas águas azuis do Pacífico. Qin Shihuang fez-lhe companhia. De súbito, Jiangnu cingiu o corpo do imperador, levou-o até à borda do navio e tentou lançá-lo ao mar, mas o soberano conseguiu libertar-se dos braços da jovem viúva. Logo depois, Meng Jiangnu saltou da barca, gritou o nome do seu querido marido, e afogou-se no mar, tal e qual como a nossa Mariana do Amor de Perdição, de Camilo, ao atirar-se ao mar para morrer abraçada ao cadáver do seu amado Simão Botelho. Isto aconteceu há vinte e dois séculos, no mar de Shanhaiguan, em Hebei, no norte da China.


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D E P R O F U N D I S

a revolta do emir

Pedro Lystmann

HONG KONG CENTRAL Os bares de Hong Kong estão cheios mas os de Macau não - salvo raras excepções. Nesta cidade parece ter permanecido um costume que é definidor de um conforto e de uma confiança no futuro – o costume de conversar ao fim da tarde. Mas em Macau não. Ainda mais estranho é verificar que a Ilha de Hong Kong há pouco mais de 100 anos era um porto desinteressante e insignificante. Macau tem uma história de mais de 450 anos mas naquela alguns dos seus bares e hotéis parecem ter um sentido histórico enquanto que em Macau os seus bares e hotéis são … são o quê ? Alguém me consegue explicar ? Nos dois territórios se vivem momentos de entusiasmo. O de Macau parece prender-se apenas com a proliferação de hotéis e mesas de jogo. Os hotéis são grandes e são bons, dois ou três nem são muito feios, há restaurantes bons e muitas lojas. Mas no meio de tanto preto e dourado, no meio de tanta candelabra e no meio de tanto barulho e presunção, o futuro parece menos brilhante. Hong Kong, ao contrário de Macau, carrega uma bandeira de definição mais precisa e muito menos efémera. Ao mesmo tempo que a sua população mostra cada vez com mais voracidade a sua oposição à podridão do regime, esta habita um lugar privilegiado no que respeita à dissipação dos tempos livres e das fortunas e à qualidade dos tempos livres. Após a construção do complexo cultural de Kowloon, o West Kowloon Cultural District, nunca mais se poderá dizer que Hong Kong é apenas uma cidade de dinheiro. Mesmo agora seria um exagero fazê-lo. A revista Monocle deste ano coloca esta cidade na sua famosa lista das 25 melhores cidades do mundo - num honroso décimo terceiro lugar -

e esta elevação deve-se, essencialmente, a esta recente deriva em direcção às artes e ao entretenimento de qualidade. É, entre as cidades escolhidas, a única que não vive sob um regime democrático. Nestes últimos 3 ou 4 anos Hong Kong tornou-se na capital asiática (o mesmo é dizer não ocidental) da arte. O número de galerias de renome internacional que ultimamente ali se estabeleceram é prova suficiente de uma escolha que os seus responsáveis nunca deixam de sublinhar. Aqui é o centro, aqui é o núcleo. Outras cidades que poderiam ter recebido esta distinção, como Xangai ou Singapura, foram preteridas porque nelas se põem problemas de censura ou taxação. Este esforço tem resultado na gigantesca Feira de Arte de Hong Kong (comprada pela Art Basel), em exposições de grande envergadura, como a de Picasso, ou na chegada ao território de galerias como a Gagosian, a Ben Brown ou a White Cube. Estas três (e há mais) situam-se a menos de 5 minutos a pé umas das outras , em Central. O que elas fazem, além de vender, é permitir o acesso ao grande público de obras de alguns dos nomes mais vistosos das artes plásticas dos sécs. XX e XXI, algumas muito recentes. Anselm Kiefer, Picasso, Heinz Mack, Alighiero Boetti, Gilbert and George, Cy Twombly (extraordinariamente comovedor), vários fotógrafos alemães contemporâneos, Gursky, Damien Hirst, etc. Exposições como a de Picasso são oportunidades únicas para lembrar a brilhante capacidade celebratória e festiva que a arte contemporânea, em alguma da sua expressão, tem, com números de visitantes, de todas as idades e estações sociais, na ordem das centenas de

milhar (ou na ordem dos milhões como no exemplo barroco da exposição de Joana Vasconcelos em Versailles, após Koons e Murakami). A Ilha de Hong Kong é uma praça financeira mas está cada vez mais longe de ser só isso. Vão a Londres ou a Frankfurt a um domingo e vão perceber o que é que Hong Kong tem. É um privilégio viver tão perto de uma cidade com esta vibração. É, igualmente, a terceira cidade mais importante do mundo para o mercado de leilões, depois de Nova Iorque e Londres. É necessário perceber que numa cidade com ideias há pessoas nos bares ao fim da tarde a discutir, a repreender e a elogiar, a ser apresentada ou a apresentar-se a pessoas novas, a construir pontes, tuneis e arranha-céus. Central, em Hong Kong, será, hoje em dia, um dos lugares mais excitantes do planeta. Na malha insane dos seus vários níveis (deve ver-se, assim que saia, com a maior das urgências, o livro Cities Without Ground, de Adam Frampton, Jonathan D. Solomon e Clara Wong) de tudo se consegue encontrar, de tudo se consegue comprar, de tudo se consegue beber, e talvez mais importante, tudo se poderá imaginar. Este pedaço de cidade, axadrezada entre o ar-condicionado e o calor húmido, é a cidade que no passado quisemos habitar. Este é um pouco o futuro que o cinema nos prometera, um pouco de Metropolis, Berlin, Die Sinfonie Der Grosstadt ou Blade Runner. Mesmo no seu centro nevrálgico, no edifício do Hotel Mandarin, encontram-se quatro lugares onde o prazer e a imaginação poderão facilmente tomar asas. Podia ser um país independente, pensemos nele como um Templo Sibarita. Este magnífico enclave será objecto de futura atenção nestas linhas.


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À S U P E R F Í C I E

próximo oriente

Hugo Pinto

IN TRIAD GOD WE TRUST A globalização deve ser isto: Vinh Ngan nasceu em Inglaterra com ascendência chinesa e vietnamita, vive em Londres, onde faz hip-hop inspirado em Hong Kong (cidade onde nunca esteve), canta em cantonense e em breve lançará um disco com o selo de uma editora norte-americana. São os (poucos) dados que existem sobre o homem que no mundo da música assina como Triad God, o projecto que divide com o produtor Benjy Keating, e que recentemente despertou curiosidade na Internet, tendo atraído a atenção de gente bem relacionada nos meandros sempre insondáveis das vanguardas mais marginais. Tudo começou com uma “mixtape” de distribuição gratuita intitulada “NXB” (“New Cross Boys”, uma referência ao bairro do sudeste de Londres onde Vinh cresceu e do qual se diz ter sido o berço do movimento “rave”). São cerca de 25 minutos de música nocturna e urbana, cinemática, carregada de “synths” que acentuam ambientes gélidos – faz sentido, assim, falar em “chill wave” –, reminiscências dos anos 1980, ritmos que oscilam velocidades, ocasionais instrumentos chineses e, claro, a voz e as palavras de Vinh, o seu “rap” cantonense, quase inexpressivo (em regime “deadpan”). Depois do “gangsta rap”, o “triad rap”. Num ficheiro que acompanha a edição de “NXB” para “download”, dá-se a entender de forma telegráfica que o disco resulta de um somatório de experiências, pessoas e lugares: “South London New Cross, Peckham, China Town / Bar / Club / Casino / Temple/ 2pac & Edison Chen.” E mais Vinh não diz, deixando o culto adensar-se à sua volta num rumor de mistério. Vale o parceiro, Palmistry, que, em entrevista ao “site” The Fader, explicou o contexto em que surgiu esta música que, pelas referên-

cias que convoca e pelo imaginário que orienta é, mesmo no hiper-activo e sobrepovoado universo musical do nosso tempo, pouco comum. Reza então a história que, em 2007, depois de um problema com o vício do jogo, Benjy Keating chegou a Londres disposto a aprender e a enveredar por uma actividade na produção musical. Anos mais tarde, em 2011, quando voltou a frequentar casinos na Chinatown londrina à procura de um local para filmar um vídeo musical, Benjy conhece Vinh, que alimentava o sonho de vir a tornar-se um “rapper”. Ambos descobrem, logo, afinidades (Wong Kar-wai, Andy Lau, Hong Kong) e complementaridades (um queria ser “rapper”, o outro produtor). Imediatamente, começam a trabalhar em conjunto. Da colaboração, o primeiro resultado, conhecido ainda em 2011, foi o EP “Aym G 4 Life” (“my boys for life”), um trabalho entretanto desaparecido dos arquivos cibernéticos e praticamente impossível de encontrar “online”. É desse disco o tema (“Remand”) que está agora a ser utilizado pela editora norte-americana Hippos in Tanks (recomendável casa de James Ferraro – que, alegadamente, terá levado para lá Triad God –, Autre Ne Veut, Hype Williams, d’Eon ou Nguzunguzu) para promover a reedição de “NBX”, com lançamento público marcado para o dia 13 de Novembro. Para o próximo ano, entretanto, está agendado um novo disco. Abraçando a lógica (do tipo “psicologia invertida) que dita os acontecimentos nas margens das “independanças”, qual máfia protegida pela “omertà”, o “hype” viverá à custa de uma dieta rigorosa de informação e o silêncio será a palavra de ordem. Alas abertas para Vinh Ngan – já era tempo de o cantonense ser “cool”.

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perspectivas Jorge Rodrigues Simão

ANIVERSÁRIO COM MUDANÇA DE LIDERANÇA “The goal of the state is to ensure its own long-term survival, meaning that it requires sufficient resources and reputation to remain in power. Resources include, for example, the financial, economic or natural resources at its disposal. Reputation is driven by the need to avoid any actions that may reduce the standing of the state in the view of Chinese people.” Banking in China Violaine Cousin

A REPÚBLICA Popular da China (RPC) comemora o sexagésimo terceiro aniversário da sua implantação, com a responsabilidade acrescida da realização do XVIII Congresso Nacional do Partido Comunista da China (PCC), na segunda quinzena do próximo mês, que se reúne pelo menos uma vez em cada cinco anos, e determinará a política chinesa da próxima década. A reunião reveste especial importância, pois serão eleitos os membros do Comité Permanente, que é a autoridade máxima do PCC, entre os congressos, e no qual será eleito o Politburo, liderado pelo Secretário-Geral do partido que depois, por aprovação da Assembleia Nacional Popular, que se realizará em Março de 2013, será o novo Presidente da República. Após uma década, dá-se uma nova transferência de poder na cúpula do Estado, com a entrada de uma nova geração de líderes, que serão o actual vice-presidente, Xi Jinping, que sucederá o presidente, Hu Jintao, e o actual vice-primeiro-ministro, Li Keqiang, que sucederá o primeiro-ministro, Wen Jiabao. Reveste interesse saber se o presidente, Hu Jintao, continuará a exercer o cargo de presidente da Comissão Militar Central, que controla o Exército Popular de Libertação, como fez o seu predecessor Jiang Zemin, que lhe permitiu exercer grande influência sobre os seus sucessores, até à sua retirada. Enquanto os dois cargos mais importantes estão decididos, antes da realização das eleições, os restantes dos 25 membros do Comité Permanente estão determinados, e 7 dos 9 membros do actual Politburo reformar-se-ão após o Congresso, sendo substituídos pelos novos 7 membros revelados, reduzindo em 2 o número de membros. Existem duas correntes de pensamento dentro do PCC, uma, a dos filhos de antigos dirigentes comunistas convictos de serem os herdeiros legítimos dos benefícios adquiridos pelos seus pais, que merecem governar a China e denominados de elitistas,

no qual se inclui o futuro presidente da República, Xi Jinping. O grande escândalo que quase coincide com o Congresso Nacional do PCC, aconteceu quando o ex-ministro do Comércio, Secretário Geral do PCC de Chongqing e membro do Politburo, Bo Xilai, foi afastado do partido por violar a sua disciplina interna e se encontrar sob investigação, por suspeita de ligações ao crime de assassinato de um empresário inglês, cometido pela esposa, a quem pediu ajuda para retirar grandes quantidades de dinheiro do país. A queda em desgraça de um dos líderes de maior poder e influência deu origem à segunda pior crise política dos últimos vinte e três anos. Esperava ser nomeado membro do Comité Permanente e organizou uma campanha de promoção da cultura vermelha, fazendo de Chongqing, um dos mais populosos municípios, com estatuto de província, um modelo de construção cultural. O líder em desgraça, defendia a necessidade de uma melhor distribuição dos rendimentos e enumerou a grande quantidade de erros que estava a cometer o partido, sendo a causa do seu desvio dos originais princípios fundamentais, correndo o risco de perder o poder e que representava o modelo de desenvolvimento interno. A outra corrente de pensamento, é encabeçada pelos denominados populistas, no qual se inclui o presidente, Hu Jintao e liderado pelo Secretário-Geral do partido da província de Guangdong, Wang Yang, que defende a resolução dos problemas económicos e sociais por recurso a politicas de reforma, tornando as regras de mercado numa economia cada vez mais livre, por forma a atingir a total globalização e que a vastidão de problemas sociais, não é mais que um desafio, posto à capacidade do partido de encontrar soluções, por meio de reformas políticas acertadas e melhorar a

transparência, para se manter no poder e aumentar o seu controlo. É o líder da ala liberal, a favor das regras livres de mercado no Politburo e representa o modelo globalizado. Ainda que sendo verdade, que a facção vencedora é a defensora das linhas gerais sobre temas ideológicos a que chegou o partido, deixam algum espaço para que os novos líderes construam um novo conceito ideológico, compreensível, não apenas para os chineses, mas também para o mundo, como o fez Jiang Zemin com a sua “teoria das três representações” ou Hu Jintao, com o seu “princípio da sociedade harmoniosa”. Os novos líderes

que irão governar na próxima década a China, que inclui na agenda temas tão importantes e diversos como os ideológicos e políticos do Estado, a administração económica e financeira, a política externa e as operações militares, não têm experiência de governação a nível nacional e irão enfrentar um conjunto de problemas até ao presente desconhecidos, quer a nível nacional, quer internacional. O PCC a nível interno será alterado pela distribuição dos cargos, entre as duas correntes de pensamento no Politburo e no Comité Permanente. Os membros do partido à espera de promoção, tentam consolidar o seu poder entre o grupo


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dominante, enquanto os membros que se irão aposentar tentam manter os seus protegidos, colocados à ascensão na estrutura do partido, e que terá efeitos sobre as prioridades económicas nacionais, estabilidade social, percurso político e relações internacionais e que dependem da idade, estudos e experiência dos novos membros dos dois órgãos máximos do partido. E, sobretudo, há que ter em conta, que a política chinesa é orientada por regras de conformidade e unidade, e que algumas rivalidades entre os novos membros dos órgãos de cúpula do partido, podem dar origem a conflitos ideológicos com os consequentes problemas

que tem efeito nas decisões sobre as matérias de carácter económico, político ou social. Se tais confrontos internos se mantivessem, levariam a lutas pelo poder no seio do partido que protelariam a implementação de políticas económicas e sociais e impediriam o governo de tomar decisões sobre os problemas mais delicados e complicados relacionados com as liberdades públicas. Existem temas que podem ter consequências preocupantes para o partido, em termos da sua legitimidade e capacidade futura para enfrentar problemas que soem ser fundamentais, como uma corrupção galopante e

uma separação cada vez maior entre os níveis de rendimento que têm produzido descontentamento social. A nova direcção do partido terá um problema de legitimidade distinto do que teve o actual Secretário-geral, Hu Jintao, que foi nomeado como sucessor de Jiang Zemin por Deng Xiaoping. Ao novo presidente Xi Jinping falta-lhe o mandato supremo do líder e precisará de outro tipo de legitimidade quando organize o Comité Permanente do Politburo. Por outro lado, a quinta geração de líderes nomeados no XVIII Congresso Nacional do Partido Comunista, terá de se concentrar nas soluções que respondam às questões demasiado sensíveis da reforma política, apesar de XII Plano Quinquenal, reconhecer a necessidade de uma sociedade mais igualitária e estável. Os novos líderes sentirão alguma insegurança, à medida que a sociedade chinesa se vá tornando mais multifacetada e as exigências por parte dos grupos de interesses aos líderes cresçam em número e origem, como será, por exemplo, a questão da separação do partido e do poder judicial, que não parece que vá ser um dos temas prioritários da nova liderança, pois eliminaria de uma vez determinados princípios aplicados tradicionalmente a nível judicial e lutaria contra a corrupção de maneira drástica. Não será fácil responder às imensas questões deste país hiperindustrializado e com presença global, que segundo as previsões do FMI será a primeira economia mundial em 2023 e que terá duzentas cidades com mais de um milhão de habitantes. Na realidade 20 das primeiras 50 cidades ordenadas pelo seu PBI estarão localizadas na Ásia em 2025. No novo cenário, Xangai e Beijing superarão Los Angeles e Londres. As implicações desta mudança são profundas, para as prioridades de crescimento das empresas, para as relações económicas dos países e para a estratégia de sustentabilidade do mundo. O enérgico crescimento económico da China está a agravar os desafios de política urbana. A migração

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em massa para as cidades provoca a perda de terras cultiváveis, o aumento da procura de energia e recursos naturais, além de contribuir para o desafio de prestação de serviços sociais. Mais de 600 milhões de chineses vivem em cidades, representando apenas 45 por cento da população, comparada com mais de 80 por cento da população nos Estados Unidos, pelo que as cidades chinesas provavelmente tenham ainda muito para crescer. As previsões apontam que em 2025, as cidades chinesas conterão cerca de 330 milhões de pessoas, sendo 235 milhões de pessoas que migraram do campo para a cidade. Seguindo a actual tendência, a população urbana do país chegará aos 930 milhões de pessoas em 2025 e ultrapassará os mil milhões em 2030. Essa rápida urbanização contribuirá para o crescimento do PIB, mas também enfrentará sérios desafios e riscos. A procura de energia nas áreas urbanas será mais do dobro da actual e a procura de água pode aumentar 100 por cento. Prestar serviços sanitários e educação aos novos habitantes acarretará um encargo adicional às finanças municipais. Segundo a forma como a China adopte a urbanização, a mais concentrada ou dispersa, perder-se-á entre 5 por cento e 20 por cento da terra cultivável do país. A disseminação de cidades, enormes vilas, miséria, poluição e congestão de trânsito, são alguns dos problemas que enfrentam as cidades, quando as infra-estruturas e os serviços municipais não conseguem avançar ao ritmo da chegada e fixação de pessoas. As decisões que tomem os funcionários públicos chineses no presente determinarão se as suas cidades conseguem suportar o crescimento. A enorme transformação realizada na China criou um conjunto de fenómenos únicos e extraordinários, que surpreende quer os ocidentais como os orientais. Ouve-se falar do milagre económico chinês pela compra dos seus produtos que invadiram o mundo, mas desconhece-se a outra face da moeda, que é a admirável cultura da China, que potenciou a sua imaginação e as suas contradições, com a promoção da economia de livre mercado e a ocidentalização no meio de uma milenar cultura oriental. É na nas contradições, desafios, responsabilidade de sérios problemas e dificuldades internos, escalada da guerra fria com os Estados Unidos pelo domínio do Pacífico e das graves tensões com o Japão, que a China comemora o 63.º aniversário da Implantação da República Popular da China e elege os líderes que a irão governar na próxima década. Jorge Rodrigues Simão


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O L H O S A O A L T O

gente sagrada

洪圣王

José Simões Morais

HONG SHENG WANG, DEUS DO MAR DO SUL QUANDO NANHAI shen, o deus do Mar do Sul, veio à Terra procurando um lugar para fazer o seu templo, Qianli Yan, com três olhos (um na testa entre as sobrancelhas) que conseguiam ver tudo o que se passava até a uma distância de 10 mil li (5000 km), ofereceu-se para o acompanhar. Juntou-se ao grupo, Shunfeng Er, que ouvia um pequeno barulho a uma distância de 10 mil li, e por isso era responsável por escutar as mudanças do vento e das condições climáticas. Iam enviados pelo imperador do Céu para ajudar Nanhai shen a controlar o Mar do Sul e diz-se que quando um barco se encontrava em apuros podiam os seus ocupantes contar sempre com a pronta ajuda de Qianli Yan e Shunfeng Er. O aniversário do Deus do Mar do Sul (Nanhai Shen) comemora-se no dia 13 de Fevereiro do calendário lunar e é uma festividade com mais de 1400 anos. Ao Deus do Mar do Sul, na dinastia Sui, foi dado o título de Marquês e ficou decretado que no Lixia (Princípio do Verão), a 6 de Maio pelo calendário solar do Agricultor, se devia oferecer sacrifícios ao Deus do Mar. Na dinastia Tang, reinava o imperador Xuan Zong (712-755) quando durante muito tempo não choveu. Vendo não haver comida no seu país, sem soluções, o imperador resolveu no ano 726, enviar emissários para fazer sacrifícios nas cinco montanhas sagradas e nos quatro templos dos deuses do Mar (do Oeste, do Sul, do Leste, e do Norte). Sendo a capital em Chang’an (Xian) era preciso enviar um alto oficial à zona de Lingnan, quando o imperador se lembrou ser esta a terra natal do primeiro-ministro Zhang Jiuling. E assim, pela pri-

meira vez um alto oficial foi enviado ao sul para fazer sacrifícios a um deus e esse era o do Mar do Sul (Nanhai shen). Depois das cerimónias realizadas, a bonança e a prosperidade voltaram ao país. A chuva apareceu, as terras tornaram-se extremamente férteis e por um período de 10 anos tudo correu muito bem, não havendo mesmo necessidade dos habitantes pagarem impostos. No ano 751, o imperador Xuan Zong agradecendo aos deuses, deu aos que tinha mandado fazer sacrifícios o título de wang (rei) e por isso, o deus do Mar do Sul ficou com o título de Guang Li wang. Durante esta dinastia (Tang), o governo central decretou que três vezes ao ano, no Lichun (Princípio da Primavera) a 4 de Fevereiro, no Lixia (Princípio do Verão) a 6 de Maio e no Liqiu (Princípio do Outono) a 8 de Agosto, o governador da prefeitura de Guangdong, em representação do imperador, devia oferecer sacrifícios ao Deus do Mar. Na dinastia Han do Sul (917-971) foi dado ao Deus do Mar o título de Imperador Zhaoming e muitos outros lhe foram conferidos durante a dinastia Song do Norte. No período Yuan teve o título de Ling Fu Wang. Torna-se o deus Nanhai na dinastia Ming e na Qing, o deus do Mar do Sul adquire o título de Rei-Dragão de Zhaoming. Proveniente da dinastia Song, o título Hong Sheng Wang (Imortal Rei da Grande Água), foi talvez o mais importante que lhe foi dado, podendo-se ainda hoje encontrar em Macau, no altar do templo de Seng Vong, onde a sua imagem está conjuntamente com o Deus da Cidade e Zhang Zhidong.


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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

A lei dos antigos reis proibia os caçadores de dizimarem as manadas ou de matarem as crias.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 17 A lei dos antigos reis proibia os caçadores de dizimarem as manadas ou de matarem as crias e proibia, também, os pescadores de esvaziarem os lagos. As armadilhas e redes não podiam ser montadas antes de um período específico; a madeira não podia ser colhida antes das folhas caírem; os campos não podiam ser queimados antes dos insectos hibernarem. Os animais prenhes ou a amamentar não podiam ser abatidos; os ovos não podiam ser tirados dos ninhos; os peixes de menos de dois palmos não podiam ser apanhados.

*** Aquilo que assegura a sobrevivência de uma nação é a benevolência e a justiça; aquilo que assegura a vida das pessoas é a virtude prática. Uma nação sem justiça perecerá, mesmo que seja vasta; um povo sem boa vontade será ferido, ainda que seja corajoso. *** O líder é a mente da nação. Quando a mente é ordeira, a calma reina em cada nódulo; quando a mente está perturbada, há distúrbio em cada nódulo. Em alguém

cuja mente é ordeira, os membros do corpo se esquecem uns dos outros; quando um pais é ordeiro, o dirigente e os ministros esquecem-se uns dos outros. *** O humanitarismo é a expressão de benevolência acumulada; o dever social consiste em partilhar sentimentos humanos e segundo aquilo que é apropriado para a comunidade. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


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