ARTES, LETRAS E IDEIAS
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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2700. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE
A URGÊNCIA DA POESIA ALGUMAS RAZÕES E DESRAZÕES PELAS QUAIS NOS FAZEM FALTA OS NOSSOS POETAS
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Carlos Morais José
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CAMILO PESSANHA
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A urgência de um novo olhar
UITO se falou em Macau de Camilo Pessanha, mas pouco se fez pela memória do homem e da obra. Basta pensar que a sua estátua foi erigida, à pressa e quase envergonhadamente, somente em 1999. Que não foi criado um pequeno instituto de estudos camilianos, talvez ladeado de um pequeno museu. E tudo isto faria sentido porque Camilo Pessanha é, sem dúvida, consideremos o português ou outra língua qualquer, o mais importante poeta que alguma vez viveu em Macau, sendo um magnífico símbolo desta cidade. Há ainda muito a fazer e a pensar sobre o poeta da Clepsidra e a sua obra. Distante em vida e em morte dos círculos literários da metrópole, Camilo Pessanha não teve a atenção de um Fernando Pessoa ou Mário de Sá-Carneiro, embora estes o tenham considerado seu Mestre. Em 1914, Sá-Carneiro respondia à seguinte questão do jornal Républica: “Qual a melhor obra de arte dos últimos trinta anos?” Passo a citar: “À minha vibração emocional, a melhor obra de Arte escrita nos últimos trinta nos é um livro que não está publicado – seria com efeito aquele, imperial, que reunisse os poemas inéditos de Camilo Pessanha, o grande ritmista. Ouvindo pela primeira vez os seus versos, fustigou-me sem dúvida uma das impressões maiores, mais intensas a Ouro e gloriosas de Alma da minha Ânsia de Artista. Rodopiantes de Novo, astrais de Subtileza, os seus poemas engastam mágicas pedrarias que transmudam cores e músicas, leoninas de miragem, oscilantes de vago, incertas de Íris. Pompa heráldica, sombra de cristal zebradamente roçando setim”. Esta extraordinária admiração que a poesia de Pessanha desperta nos expoentes literários da sua própria época é bem garante do interesse e alcance, quer formal quer temático, da sua produção poética. Escreveu o próprio Camilo Pessanha que a poesia é, antes de mais, étnica, no sentido em que – e cito – “A inspiração poética é emotividade, educada, desde a infância e com profundas raízes no húmus do solo natal. É por isso que os grandes poetas são em todos os países os supremos intérpretes do sentimento étnico”.
Ao levar-nos num trajecto em que o tempo, tal como em qualquer viagem, se suspende, Pessanha perpassa numa constelação de labirintos do pensamento, cujo fio de Ariadne é a sua própria poesia.
Camilo Pessanha refere, portanto, que a poesia encontra a sua seiva, a sua força de poesis (em grego, criação), nesse solo original, solo que deve ser entendido como cultura. Ora é precisamente o solo cultural, simbólico e também de ideais políticos, em que assenta a poesia de Camilo Pessanha, que se deve procurar, na busca de elementos arcaicos, fundamentais – se quiserem, arquetipais – cuja lenta maturação através da História encontram ressonâncias na obra do poeta. Seria uma viagem intemporal ao encontro de Platão, um dos fundadores da gnose Ocidental, ele próprio tão influenciado por um certo Oriente; mas também de Confúcio, do daoísmo e do budismo cuja influência em Pessanha se pode igualmente detectara. A influência de Platão em Pessanha; a intensificação, ou, se quisermos, o potencionamento do germe platónico pelo saber oriental; e como estas raízes gregas do solo Pessanha o aproximam do confucionismo e do conceito de “Li”. Ao levar-nos num trajecto em que o tempo, tal como em qualquer viagem, se suspende, Pessanha perpassa numa constelação de labirintos do pensamento, cujo fio de Ariadne é a sua própria poesia. É à luz da sua obra, como a candeia do filósofo, que a se pode percorre os meandros da filosofia ocidental, sem perder de vista esse saber do Oriente cujo conhecimento nos aproxima de uma perspectiva global da Sabedoria humana, na medida em que são mais os nódulos, os encontros, com o Ocidente, do que o caminhar em vias paralelas. A profundidade da sua obra remete cada um dos leitores para um exercício de pensamento também ele inevitavelmente profundo, constituindo um bálsamo para quem no mundo de hoje quase inevitavelmente respira um ar demasiado poluído de banalidades. Teremos de nos afastar da análise literária pura, das escolas e dos ismos, para entrar no campo mais claro dos conceitos. Camilo Pessanha foi, como se sabe, um poeta exilado, um desses que “vagueiam e se definham por longínquas regiões” , regiões estas que, da geografia ou do espírito, são o palco onde é traçada, a letras de ouro e sangue, a memória mais duradoura e profunda – para alguns, divina – do povo a que pertencem. Muitos de nós percorrem o mesmo território de exílio, espaço excelente de saudade e contemplação do lugar de origem mas, sobretudo, de lenta metamorfose cujo devir se profetiza, ainda hoje, envolto nesse mesmo luminoso manto de neblina.
SOBRE CAMÕES, MACAU, O JARDIM E A GRUTA
O mais que é tudo Fernando Pessoa A cada um de só três poetas, no Portugal dos séculos dezanove a vinte, se pode aplicar o nome de «Mestre». São eles Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. Concordo que (outros) se lhes anteponham quanto ao mérito geral; não concordo que algum outro se possa antepor a qualquer deles nesse abrir de um novo caminho, nesse revelar de um novo sentir que em matéria literária propriamente constitui a mestria. É mestre quem tem que ensinar; só eles na poesia portuguesa desse tempo, tiveram que ensinar. O primeiro ensinou a pensar em ritmo; descobriu-nos a verdade de que o ser imbecil não é indispensável a um poeta. O segundo ensinou a observar em verso; descobriu-nos a verdade de que o ser cego, ainda que Homero em verdade o fosse e Milton se em verdade o foi, não é qualidade necessária a quem faz poemas. O terceiro ensinou a sentir veladamente; descobriu-nos a verdade de que para ser poeta não é mister trazer o coração nas mãos, senão que basta trazer nelas os simples sonhos dele. Estas palavras que não são nada bastam para apresentar a obra do enorme poeta Camilo Pessanha. O mais, que é tudo, é Camilo Pessanha. 11 Nov. 1934
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ERÁ Camões estado ou não em Macau? E, em caso afirmativo, frequentaria a colina erma que hoje é coberta por um jardim? Certo é que essa colina tinha vista para um braço de rio, ficando do outro lado a inóspita ilha da Lapa, também ela pouco mais que um deserto. Não nos é difícil admitir que o vate gostasse de um pouco de solidão, que lhe permitisse fugir à cidade cristã e sua característica pequenez. Cidade de comerciantes, talvez a Macau do século XVI não fosse exactamente o que mais conviria a quem estava habituado a lidar com outros poetas, artistas e ladrões. Daí que Luís Vaz preferisse aquele ermo com vista, a protecção frígida das pedras, a solidão forçada mas recheada das vozes que trazia dentro da sua própria cabeça. De então para cá, terá mudado muito aquele espaço? A vista foi obstruída por prédios, embora ainda se vislumbre o tal braço de rio, significativamente diminuído pelos aterros, e a tal vista, essa da China ali ao lado. O próprio espaço em si foi completamente alterado, existindo hoje uma natureza domesticada em forma de jardim, por oposição às antigas árvores e ervas selvagens – o Jardim de Luís de Camões ou, segundo os chineses, o Jardim das Pombas. Estou certo que o poeta apreciava essa selvajaria, natural, apreciava a visão distante dos rebanhos do Tou San, talvez das jovens pastoras que por ali pululavam juntamente com as cabras. E estou certo disso porque Luís Vaz não era bicho de deixar os seus créditos por alheias manápulas. A História é histérica, no modo como transforma as coisas. Mas para além da beleza da paisagem, da quietude do lugar, da distância aos seus semelhantes humanos, existiriam outras razões que levassem o poeta a deslocar-se aos penedos, a pernoitar na gruta? Estamos em crer que sim, por razões que ainda hoje são fáceis de comprovar. É que determinados lugares estão de tal modo imbuídos de tradição que não bastam os acontecimentos históricos para os modificar. O tempo passa,
os homens sucedem-se, mas ele há coisas que continuam na mesma e não é como a lesma. Pelo contrário. Ora sabe-se, pela sua semi-vasta e confessional obra epistolar, que o poeta não desdenhava da companhia de quem ele próprio chamava de «ninfas de água doce» ou «damas de aluguer», e que as preferia mesmo aos chamados «mares nunca dantes navegados». E tanto era assim que não havia carta, escrita de remotas paragens a seus amigos de Lisboa, que não lhes referisse os trejeitos e as manias, específicas de cada local por onde se tresmalhava. Camões apreciava o género feminino e não era na sua vertente neo-platónica. Na sua romagem pelo Oriente são inúmeras as lendas que desabrocharam à passagem do poeta, esse mesmo que numa mão empunhava a pena e na outra a espada, não se sabendo hoje qual delas era efectivamente uma metáfora, fruto de sua esmerada e erudita educação coimbrã. Cidade, aliás, também conhecida pela local frutificação do belo, amável e acessível sexo. Não custa, portanto, acreditar que nesse tempo remoto em que o poeta ver-
sejava e ainda certos animais falavam, na famosa colina pululassem certas pombas. Está assim explicado o nome actual do jardim, porque não acreditamos que por ali tenha existido qualquer coleccionador de pássaros. Influenciados pela linguagem trabalhada de Camões, pelo seu amor confessado ao feminino sexo, sobretudo na sua vertente hedónica, terão os chineses transformado o seu reles e ordinário vocábulo «galinhas» (Kai) em delicadas «pombas» para nomear as moçoilas que por ali demandavam em busca de dinheiro e de prazer. E tanto assim deve ter sido que ainda hoje por lá esvoaçam, em bandos alegres e felizes, talvez na demanda da sombra desse Português generoso de Quinhentos. Quinhentos que hoje se transformaram em duzentos, trezentos e, por vezes, mil, mas isso é um pormenor de somenos, talvez tema de sonetos. E disto sabe quem não mete o carro à frente dos bois, animais que também não faltam, como nunca faltaram, na cidade do santo nome do senhor.
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SABRA E CHATILA
José Goulão
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ESSE verão de 1982 vivi duas semanas em Beirute, então uma cidade dividida fisicamente porque dividida estava militarmente e também religiosamente. Do lado que para mim era “de lá”, o lado oriental, estavam as tropas ocupantes israelitas e os seus aliados libaneses, as milícias cristãs falangistas; do lado “de cá”, com as suas lendárias e cosmopolitas corniches arrasadas, fazendo da esplendorosa marginal um escombro único, ruínas e esqueletos de edifícios pulverizando toda a área, um cheiro a morte que só a morte extinguirá, estava a resistência. Era Beirute Oeste. Beirute Oeste ficou para a história por ter resistido 82 dias a uma invasão e cerco israelitas, operação que o general Sharon – que a história também muito bem conhece – tinha previsto para 24 horas, no máximo 48. Viver duas semanas em Beirute Oeste era coexistir com essa resistência heterogénea impossível de definir, composta por uma pluralidade de grupos palestinianos, de milícias xiitas laicas como o Amal – o fundamentalismo não aparecera ainda na forma de Hezbollah, os ayatollahs tinham revolucionado o Irão apenas dois anos e meio antes – de agrupamentos sunitas como os Mourabitoun, de cidadãos árabes de vários países que tinham largado o seu quotidiano e pegado em armas, todos unidos na sua diversidade contra um inimigo único, a tropa israelita às ordens de Sharon.
Resistir parecia missão impossível. Israel tinha um objectivo prioritário, expulsar a estrutura política e militar da Organização de Libertação da Palestina (OLP), então sediada em Beirute e olhada como inimiga figadal pelas milícias feudais e fascistas cristãs da família Gemayel. Sharon tinha uma obsessão: liquidar Arafat. Por tudo isso, cristãos e sionistas uniram-se para uma ocupação conseguida por terra à custa de um argumento sem resposta possível, os F-15 da força aérea israelita. Tinham todo o céu da região para fazer o que quisessem e faziam-no logo desde a primeira luz da madrugada de cada dia, pontos brilhantes muito lá no alto largando fogo cego e a eito sobre um nicho territorial de menos de 20 quilómetros quadrados. Tentar fugir era inútil: no mar vigiava a marinha de guerra israelita; nas montanhas envolvendo a cidade em anfiteatro os canhões da aliança invasora e colaboracionista raramente se calavam; do outro lado da “linha verde”, em Beirute Oriental, aquartelavam-se as tropas sitiantes Mais do que uma guerra foi um massacre, de meia cidade, de uma população indefesa, principalmente naquele dia 12 de Agosto, em que céus e terra se abriram em fogo que parecia uma ofensiva final e irresistível. Chamaram-lhe “a horrenda quinta-feira”. A resistência resistiu, os invasores não passaram, nem assim, a “linha verde”. Visitei campos de refugiados palestinianos, Sabra, Chatila, alguns outros. Bairros precários e temporários tornados definitivos, mistura de pobreza, desalojamento, efeitos da guerra total. Cada dia de resistência era uma vitória para a vida
que, mesmo num quotidiano de horror e abandono, dava alento a quantos – e eram muitos, de todas as idades – continuavam a projetar o futuro entre as figueiras e as oliveiras da sua Palestina natal. Ao cabo de 82 dias – onde já iam as 48 horas de Sharon! – um mediador internacional, Philip Habib, ao mesmo tempo norte-americano e libanês, conseguiu um acordo: a estrutura da OLP saía do Líbano para a Tunísia; tropas internacionais ficavam a garantir que a tropa de Israel não entraria na zona cercada e começaria a abandonar o território, mais um, onde estava sem lhe pertencer. Assisti aos primeiros passos de aplicação do acordo. Único português em serviço, partilhei com camaradas brasileiros, espanhóis, franceses, italianos as emoções daqueles desfechos que sabíamos ser apenas de ocasião mas ainda assim serviam de escape à tensão e ao medo que vivêramos, às vezes disfarçados pelo ritmo frenético imposto pela dimensão da realidade e pela aventura que era tentar escrever e mandar trabalho todos os dias. Admitimos sem constrangimentos uns perante os outros, esmagados pela tragédia, o mito que é a “frieza” profissional do jornalista. Depois, porque um jornalista de bolsos vazios em cenário de guerra e em tempos sem portáteis, nem telemóveis nem internet deixa de poder trabalhar, apanhei uma boleia da BBC para Damasco. Não era fácil cruzar tantos e sucessivos controlos militares, mas o peso de algumas siglas ajuda. Chegou Setembro e havia eleições presidenciais no Líbano. Bachir, o primeiro varão do clã Gemayel, estava em cam-
panha e iria ser eleito quando um atentado brutal o matou e arrasou grande parte do seu séquito. O crime continua por esclarecer, mas sabe-se a quem aproveitou. Em 16, 17 e 18 Setembro, beneficiando da complacência das forças internacionais (francesas, italianas, norte-americanas…), acompanhadas e protegidas pelas tropas de Israel as milícias cristãs entraram em Beirute Oeste, invadiram os campos de Sabra e Chatila e chacinaram, enquanto tiveram energia e sede de sangue, mais de três mil pessoas, refugiados palestinianos, civis, principalmente mulheres, crianças, velhos. As imagens aterradoras e repugnantes ainda hoje correm mundo, mas nada aconteceu, nenhum responsável pagou pelo crime. O excelente filme israelita “Danças com Bachir” admite que esse episódio libanês abalou com o desencanto e a dúvida sectores de uma geração israelita. No entanto, Sharon tornou-se várias vezes primeiro ministro de Israel liquidando sempre, tal como Netanyahu, as hipóteses de paz; os massacres, as ocupações continuaram e continuam, o bloqueio de Gaza mais não é do que um lento assassínio coletivo. Muita violência presenciei na região desde então mas nenhuma ficou gravada como a daqueles dias tórridos do verão de há 30 anos. Foi uma aprendizagem em carne viva da essência dos problemas do Médio Oriente, tão actual nesses dias como agora. A impunidade da violência arbitrária e sem lei, do desprezo pelas normas internacionais, da perseguição aos direitos elementares de todo um povo persistem hoje como então. Tal como o cheiro a morte.
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“Estamos todos no inferno. Não há solução; pois, não conhecemos nem o problema” In O Globo
cês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.
Você é do PCC? - Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... Vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez: alocou uma verba para nós? E nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas... Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão... - Mas... A solução seria... - Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psico-social profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível.Não há solução. - Você não tem medo de morrer? Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... Mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos
Marcola, líder do Primeiro Comando da Capital, associação criminosa de São Paulo, Brasil uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado n’uma vala... Vocês, intelectuais, não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... Mas, meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse País. Não há mais proletários ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês
não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo. - O que mudou nas periferias? Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$ 40 milhões, como o Beira-Mar, não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas”... ha, ha... Vo-
- Mas o que devemos fazer? Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... P’ra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? Ipanema radioativa? - Mas... não haveria solução? Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... Na boa... Na moral... Estamos todos no centro do insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... Não tem saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabe por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi che entrate!” Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.
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ALAIN DELON
Rui Martins In Pravda
O que pensa do cinema de hoje? Não sou um apaixonado pelo cinema de hoje, e acredito que não sou o único a dizer isso, tive a chance de ter vivido um outro cinema, dos anos 60 a 80, diferente do que se pratica hoje, um cinema que fazia sonhar. Algum filme recente que gostaria de ter feito ? Há um filme que vi recentemente que gostaria de ter feito o papel principal do filme “Os Intocáveis” (Intouchables). De onde veio sua vontade de fazer cinema? Um dia, no escritório do que seria o diretor do meu primeiro filme, vi o filme de Sacha Guitry e ali senti que queria fazer o cinema. Eu não entendia nada de cinema, tinha acabado de terminar o exército. E quando ouvi ele di-
“Sou difícil com os imbecis” Ao contrário do que dizem, não sou o actor difícil com os grandes directores, sou difícil com os imbecis. Com os grandes vou de olhos fechados, mas com aqueles que não sabem sequer onde colocar a câmara, sou terrível.
zer que ser actor de cinema era a mais bela profissão do mundo, pelo que ela dá aos outros, decidi – é isso que vou fazer, me disse a mim mesmo. Embora tenha trabalhado em Astérix, nunca fez comédia, por que ? Porque não é o meu estilo, não é o meu estilo e nem o meu género. O exemplo que dou sempre é o de um comboio que entra na estação e numa janela está Belmondo e na outra Delon. Quando Belmondo passa todo mundo ri, quando Delon passa ninguém ri. Então, deixei a comédia para Belmondo. Mas é verdade, quando as pessoas vêem a cara de Belmondo não podem deixar de rir, mas comigo é o silêncio. Eu nunca tiver o senso da comédia. No filme Astérix, o director viu que não conseguia fazer-me rir e me deu, então, o papel de Júlio Cesar. Há muito tempo que não fazia um filme e aceitei. Tem medo da velhice ?
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Não, não tenho medo, tenho medo da doença. Por respeito ao público que me viu, me fez e que me amou e seguiu, durante todos esses anos, decidi que nunca me mostrarei enfraquecido, desfigurado. Se eu viesse assim aqui, vocês não gostariam e não seria digno. O dia que isso acontecer não me verão mais. Não tenho medo da idade. Como é o homem Alain Delon politicamente ? A coisa que notei na vida é que os únicos serem que não têm reforma são os políticos e os atores. Serei bem em breve reformado. Não sou apaixonado pela política, mas é verdade que era amigo do ex-presidente da França. Sempre fui um homem de direita e não sou um militante socialista. Quais eram suas relações com Visconti? Primeiro devo dizer que não fiz filmes só com Visconti. As minhas relações com Visconti, no início, eram atenciosas, respeituosas e submissas porque Visconti era um mestre, mais um diretor de ópera que de cinema. Mas para se colocar as coisas no seu lugar, fiz um filme antes de Visconti, em 1959, Plein Soleil, de René Clement, e foi ao ver esse filme que Visconti decidiu que eu seria Rocco. Para mim essa fase foi importante e fiz cinema em Itália com Antonioni e outros, essa fase foi muito mais imporante. E como eu era um jovem, foi só mais tarde que descobri a minha sorte e o privilégio que tive. E é também por isso que digo não se tratar do mesmo cinema de hoje. Ao contrário do que dizem, não sou o actor difícil com os grandes directores, sou difícil com os imbecis. Com os grandes vou de olhos fechados, mas com aqueles que não sabem sequer onde colocar a câmara, sou terrível. Com esses diretores citados e com Melville, tudo tinha o seu lugar marcado, fosse o chapéu, o laço, o cachecol, os sapatos, tudo estava previsto. Esses diretores, como Clement, têm três qualidades essenciais ao diretor – primeiro, dirigem como o actor deve ficar, sentado com as pernas cruzadas ou não; a seguir , dizem o que o actor vai fazer, quando entra em cena. E, por fim, vai atrás da câmara. A maioria dos actuais diretores têm só uma ou duas dessas qualidades, nunca as três. Antes os realizadores também escreviam, agora raramente e o que fazem é mais pelo dinheiro. O director é como o chefe de orquestra. Naquela época poderia nomear facilmente dez, hoje teria dificuldade. Tem uma preferência pela tragédia ? É algo mais próximo de minha vida, como diria Pascal Jardin, são as lágrimas da minha infância, pois minha vida foi bastante trágica até o começo do cinema e depois foi transportada para o cinema. A minha infância foi difícil, mas isso é da minha conta. Em se-
guida, entrei cedo para o exército, com 17 anos, e fui aos 18 para a Indochina. E de regresso fiz coisas totalmente diferentes e provavelmente não estaria vivo hoje. E de duma maneira miraculosa e rara, o cinema veio-me buscar. E porquê ? Pelo meu físico, basicamente, mas que não correspondia ao que eu pensava ou tinha no meu interior. Talvez por isso minha relação com a tragédia. Mas eu, e sou um caso raro, não fui ao cinema, foi o cinema que me veio buscar. Faz-lhe falta hoje o cinema ? Não, porque nele tudo conheci e tudo vivi. Só pode faltar para quem não fez tudo com esses directores com os quais trabalhei. Hoje, prefiro viver das minhas lembranças com eles do que fazer outra coisa. Por que não fez cinema nos EUA ? Sou apaixonado pelo cinema e diante da câmara não há diferença. Fiz dois filmes nos EUA e disseram-me para eu ficar lá que me tornara um grande star. Mas eu não queria ficar nos EUA e não gostava de viver lá, embora gostasse do cinema americano. A França e Paris faziam-me um falta enorme e eu disse-lhes: quando quiserem fazer algum filme comigo chamem-me. E voltei a França e fiz a minha carreira em Itália e depois em França. O meu filho Anthony nasceu nos EUA. Como foi trabalhar com Burt Lancaster? Foi como trabalhar com Jean Gabin, dois mestres. Lancaster era um dos meus ídolos. Outro grande foi John Garfield. Certa vez disse a Marlon Brando que gostaria de fazer um filme com ele, nem que fosse para ser numa cena de criado. Mas não tivemos a oportunidade de fazer isso.
Quando Belmondo passa todo mundo ri, quando Delon passa ninguém ri. Então, deixei a comédia para Belmondo. Mas é verdade, quando as pessoas vêem a cara de Belmondo não podem deixar de rir, mas comigo é o silêncio.
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Chora-me um rio Agora dizes que estás só, que choraste a noite inteira. Bem, podes chorar-me um rio, eu chorei um rio por ti. Dizes que por ter sido tão falso, estás arrependido. Bem, podes chorar-me um rio, eu chorei, chorei um rio por ti Levaste-me... quase me levaste, à loucura e nem derramaste uma lágrima. Quero-te lembrar, que recordo tudo o que me disseste, disseste-me que o amor era muito vulgar, que eu para ti era um caso arrumado e agora dizes, dizes que me amas? Muito bem, só para provar que é verdade, vem, vem e chora-me um rio. Porque, podes crer eu chorei um rio, por ti, eu chorei um rio. Se o meu travesseiro falasse, imagina o que diria Seria um rio de lágrimas o que chorei naquela cama? Então? podes chorar-me um rio. Vá pai! Chora-me um rio Porque eu chorei (e como chorei!) por ti um rio Arthur Hamilton Tradução de Mica Costa-Grande
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鬼节 FESTIVIDADES AOS ESPÍRITOS ABANDONADOS José Simões Morais
Estamos no sétimo mês lunar, quando decorrem manifestações de atenção aos que não morreram em descanso
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R Ó N I C A
JOSÉ SIMÕES MORAIS
SE TODA a matéria tem espírito, nem todo o espírito tem matéria. Assim, o espírito, como corpo vivo do Universo, é energia que só pelo trabalho se enforma em matéria. Interpretado pelas mentais imagens das realidades na acção do vivermos, escapa às sensações que não o captam no mundo físico e é pela percepção que o espírito consegue fazer luz de existência. Envolvente, reunido em ligações covalentes ou iónicas, engloba ou apenas globaliza essa energia. Quando desta vida os seres se libertam do corpo material, em espírito respiram o sopro vibratório que dá a atmosfera ao universo. Há quem por morte violenta, afogamento, abandonado ou faminto na hora de morrer, fique com o seu espírito perdido, sem descanso, talvez entalado entre portas e é para eles que se celebra o Gui Jie. As festividades aos espíritos abandonados começam no primeiro dia da sétima Lua, quando os portões terrestres são abertos para que os espíritos, autorizados a circular livremente, se juntem a confraternizar com os seus vivos familiares durante todo esse mês. Tal festividade tem origem de um costume ancestral em oferecer num determinado dia sacrifícios aos antepassados. Venerados, apareceram mais tarde também os Deuses que, em conjunto com os Ancestrais e Antepassados, têm sempre quem lhes preste homenagem. Já os fantasmas, “gui” (kwai, em cantonense), são almas que morreram sem deixar descendência ou que não tiveram funeral adequado e, como Espíritos Famintos, não têm quem lhes faça sacrifícios. Merecem atenção especial pois formam uma classe desfavorecida; ressentem-se disso e são até capazes de represálias. Espíritos cujos corpos a que pertenciam foram mal enterrados e que não mereceram a atenção dos seus familiares e amigos, muitos tornaram-se famintos e aproveitam a possibilidade de voltar a vaguear por entre o mundo da matéria para espalhar problemas, desastres e doenças. Para aplacar estes espíritos e evitar que façam mal é necessário conceder-lhes atenções que normalmente são reservadas aos deuses e antepassados. Por isso, nesses 30 dias do sétimo mês lunar, sobretudo na primeira noite do mês, no dia 14 à noite e na vigésima nona noite, é habitual ver-se nos passeios da cidade de Macau e à frente das casas e lojas, pessoas a queimar pivetes e papéis dos mortos, com oferendas como fruta, vinho, chá e tudo o que pensam que os espíritos famintos gostam. O fumo, ao elevar-se ao Céu, transporta a mensagem, enquanto se derrama vinho chinês e se espalham algumas moedas pelo chão. Estranha visão que nos abre as portas ao mundo do inconsciente. São sobretudo as pessoas mais idosas que praticam esse ritual pelos passeios, não deixando de ser seguidas pelos netos. Divino lugar à cidade, que são dela os seus habitantes e nesses ritos apresentam-nos por percepções, imagens que ficam em memória, iluminadas com as silhuetas intermitentes de um fogo em papéis votivos.
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Cerimónias que se espalham por toda a cidade, com pessoas acocoradas pelos passeios das ruas de Macau entregando-se individualmente ao ritual na confraternização com os espíritos, o que faz desta festividade, algo que não pertence a um colectivo. Já nos templos, muitos feitos para guardar os corpos mal enterrados ou sem alguém para deles cuidar, durante o sétimo mês lunar, aos espíritos que não repousam em descanso, são-lhes concedidas cerimónias. Servem estas para permitir desamarrar as forças de tensão, que fora da matéria ainda se mantêm ligadas ao mundo do vivo, sem que a deusa do esquecimento, Meng Po, lhes tenha conseguido apagar da memória toda a sua vida anterior. Os daoistas realizam-lhes cerimónias de libertação entre 4 até 8 de Julho e os budistas, de purificação de 8 a 15 de Julho. Mas o dia mais importante é para o Daoismo 14 e para o Budismo o dia seguinte, 15 do sétimo mês lunar, com celebrações nos templos. A vibração do som para a purificação pelo branco a expandir-se pelo corpo, o vermelho na garganta e o azul do coração escuta-se da bonzaria. As cerimónias daoistas, com diferentes datas para certas celebrações se realizarem, diferem consoante são feitas pela linha Quanzhen, fundada por Wang Chongyang, ou pela Zhengyi, que transmite a via de Zhang Daoling. Para a escola Quanzhen, doutrina LongmenJiao, as cerimónias começam a 4 de Julho e durante os 5 dias das celebrações recita-se o Song jing (诵经). Foi esse som que nos captou para o templo onde se realizavam as cerimónias de libertação dos espíritos abandonados. Assistimos aos cânticos daoistas e ao benzer com água as oferendas feitas por pessoas para agradar às atormentadas almas. Estas não se conseguem libertar pois as energias encontram-se condensadas, mas sem matéria continuam a ocupar um espaço que já não lhes pertence e não as deixa volatilizar. Assim a cerimónia serve para permitir desamarrar as forças de tensão, que já fora da matéria se mantêm, libertando-as ao espírito do Universo. Lembra-nos os espíritos das águas, compostos pelas almas dos que pereceram no mar, a ser alimentados pelos habitantes dos barcos, que lhes oferecem sacrifícios, com arroz e vinho. De novo no templo, já com os Deuses a ocupar os seus lugares, o mestre daoista começa por fazer orações às cinco direções, pedindo permissão para chamar os espíritos que sem repouso vagueiam famintos. Concedida, os outros três dias servem para se conseguir desatar a corda que amarra os espíritos famintos à material vida e como final de libertação, quebram-se as telhas dentro de um círculo de fogo. Assim, alguns mais fantasmas, que andavam abandonados ou como espíritos famintos, consigam a paz e o descanso das suas almas na vida eterna, reunindo-se ao Espírito do Universo.
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P R I M E I R O B A L C Ã O
luz de inverno
Boi Luxo
SCHYGULLA, SUKOVA E ZECH
Die Ehe der Maria Braun, de Fassbinder, começa de forma surpreendente: um ideal de início e promessa de geração – um casamento – tem lugar numa situação de destruição e fatalismo – um bombardeamento de uma cidade alemã. Uma bomba destrói uma parede e um retrato de Hitler enquanto um excerpto da Nona Sinfonia de Beethoven (paradigma máximo da esperança alemã e europeia) mal se ouve em fundo. Em duas pequenas linhas se mostra como um início se pode ver atingido pela imagem do caos e do fim, e como um acontecimento final nunca é tão terminalmente determinado como pode parecer. A partir destes curtos momentos tudo é possível. O que parece impossível é fugir ao mal-estar a que Fassbinder nos obriga em todos estes quatro filmes que aqui serão referidos, em que se fala da guerra e das suas consequências (é o mesmo mal estar de Berlin Alexanderplatz, contemporâneo da trilogia da BRD). O filme termina com uma fórmula semelhante e estes dois momentos, os do seu início e do seu fim, são porventura os seus momentos mais surpreendentes e marcantes, os que o definem como objecto particular. Mas é o que se passa entre eles que enche o filme, um interior indefinido, mole e orgânico, marcado pelas incertezas da guerra e do seu final, um recheio onde há uma figura cujo corpo o domina. Este corpo é o de Hanna Schygulla. É através dela que se vai desenhando a incerteza e a sinuosidade do filme, trocista, calculista, manipuladora, voluptuosamente verdadeira. Os filmes que são aqui neste momento objecto
de atenção são como que uma figuração pouco dissemelhante de um corpo mole, abandonado a um destino incerto mas certamente funesto. Algo de parecido se passa em Lili Marleen. Schygulla é o corpo do filme, outro que se move por entre os escolhos a que a guerra obriga. Mas este filme, que se situa numa altura da carreira de Fassbinder em que a fama lhe permitira já algum desafogo financeiro, tem também no seu centro um grande vazio, uma ineficácia que parece ter origem num cansaço de contar. Continua a ser um filme mal amado (pelo menos na Alemanha), não pouco por ter sido visto como um adocicamento de alguns dos lugares comuns do nazismo. Eu gosto deste abandono da eficácia. Por largos momentos este filme parece que não serve para nada, a não ser que nos deixemos (precisamente) abandonar a uma possível eficácia do adocicamento e melodramatização da figura desta cantora fútil e desta canção popular melosa. À medida que a história se desenvolve, a figura de Schygulla/Marleen torna-se cada vez mais metálica, mais desumana, quase robótica. Para a eficácia do adocicamento e do kitsch como instrumentos para ridicularizar o mal, no cinema de Fassbinder e Werner Schroeter, veja-se o livro de Caryl Flinn The New German Cinema, 2004, particularmente centrado no tratamento musical no que a estes dois autores concerne. Estas linhas não pretendem chamar a atenção para qualquer cronologia no cinema de Fassbinder, mas num filme de 1981, Lola, acontece algo de semelhante.
Este filme não tem nazis mas tem outro tipo de mal. O corpo de mulher que ocupa o seu centro já não é o de Schygulla, mas o de Barbara Sukova. Por todo ele, e especialmente por trás da figura de von Bohm, existe um enorme vazio, um espectro cuja razão de existir não é clara mas que não que é menos histórica que nos dois outros filmes anteriores acima referidos. Na história desta cidade, por trás das malhas sinistras dos interesses da reconstrução, há um mal que é à noite, tecido num lugar fechado (o bordel da cidade) pelos importantes da cidade, o banqueiro, o construtor, o presidente da câmara, o chefe de polícia. Este é o retrato perfeito de um mal que medra quando tudo é menos claro que na guerra. Um mal-estar que obriga o filme a uma concavidade a que é difícil fugir, um lugar viscoso de que se não consegue sair. Como se fossem sempre 3 da tarde. Rosel Zech é a protagonista de mais um filme deste último período da carreira de Fassbinder, Die Sehnsucht der Veronika Voss, um outro em que o título nos remete imediatamente para uma mulher, depois de Maria Braun, Lili Marleen e Lola, este último esplendoroso e doentio nas escolhas cromáticas, Veronika Voss doentio e infinitamente sedutor no seu preto e branco impiedoso e vicioso. É o último filme da trilogia BDR (Bundesrepublik Deutschland). Há outros filmes deste autor com nomes de mulher, Martha, Effi Briest, von Kant, entre outros, e parece ser nos seus corpos - que Fassbinder mutila por vezes até ao irreconhecimento - que mais facilmente se inscreve a sua
angústia como autor. É um intento que se exibe de modo muito óbvio na utilização do corpo de Veronica Voss, uma ruína de um cinema ultrapassado (uma das suas referências nucleares é Sunset Boulevard), como objecto morfinómano. Assim, assume a ruína a três níveis: pessoal, profissional e nacional. É desta maneira que é nos corpos destas mulheres que a mutilação que a história causa se inscreve com mais nitidez. Die Sehnsucht der Veronika Voss será o simulacro mais desesperado, desenho de um mal menos obviamente histórico, mais melancólico e quase impossível de mudar, um mal de uma doce desistência inultrapassável, o mal do passado. Quando este filme começa já não há esperança alguma sobre o futuro de Veronika, completamente dependente da sua queda desde o início, criatura de um passado próximo que nos filmes alemães acaba sempre por aflorar. Pode dizer-se que quando este filme começa já acabou. O que em nenhum destes filmes aparece é uma promessa positiva de resolução do futuro, a figura baça e incompreensível de Krohn, o jornalista desportivo que se deixa envolver pela figura enigmática de Verónica, uma figura que não deixa prever qualquer solução para o bloqueamento que se vive no período da segunda metade dos anos 50. Curioso é que estes filmes do final da carreira de Fassbinder (depois só há Querelle), que continuam a ser vistos com alguma desconfiança quanto à sua eficácia e alguma reserva quanto ao seu valor estético, sejam ainda mais interessantes porque sobre eles permanece esta suspeita.
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À S U P E R F Í C I E
próximo oriente
Hugo Pinto
PUNK NA CHINA: “NO PUSSY RIOT BLUES” Foi um Verão quente. Meses após a detenção por terem entrado numa catedral de Moscovo e cantado uma “oração punk” na qual pediram à Virgem Maria para que corresse com Vladimir Putin do poder e, de caminho, para que a Mãe de Jesus se tornasse feminista, três elementos da banda “punk rock” Pussy Riot foram condenadas a dois anos de cárcere por vandalismo. Nesse mês de Agosto em que a sentença foi proferida, o mundo reviveu os tempos em que a cantiga era uma arma e percebeu que, afinal, ainda há “punks” como antigamente e regimes que, apesar de organizarem eleições, têm mão férrea. Mas, feliz e infelizmente, abundam exemplos dos respectivos casos. No mês de Março em que Nadejda Tolokonnikova, Ekaterina Samoutsevitch e Maria Alekhina foram presas, o jornal britânico The Guardian deu à estampa um artigo assinado por John Harris dando conta dos casos que mostram “a vitalidade de uma expressão musical que, nos países de onde é originária, apenas é, hoje, um motivo de paródia”. Além da Rússia, as histórias a que o autor se refere passam-se noutros países onde inusitados movimentos “punk” resistem num ambiente político e social altamente adverso a expressões de individualismo e de liberdade: Indonésia, Birmânia e Iraque. Não, a China não constava da lista dos países inimigos dos “punks”. Uma consulta ao excelente sítio www.freemuse.org (organização de defesa da liberdade de expressão dos músicos de todo o mundo) indica-nos que, na China, as preocupações do regime não usam cristas coloridas na cabeça, cadeados ao pescoço e alfinetes em vez de brincos. No que diz respeito à música, a preocupação do aparelho totalitário e repressivo de Pequim vira-se para outras direcções: os artistas tibetanos (só este ano, as autoridades prenderam, pelo menos, três cantores da região autónoma, onde, entretanto, foram implementadas medidas com o objectivo de restringir a publicação de música e outros conteúdos, sobretudo “online”); os “temas sensíveis” (em Outubro do ano passado, a estreia de uma ópera sobre Sun Yat-sen, o primeiro presidente da China, foi cancelada à ultima hora porque as autoridades consideraram que a música era “inapropriada”, de acordo com os relatos da imprensa oficial); e o “conteúdo vulgar e de mau gosto” (o que levou, por exemplo, em Agosto do ano passado, a que o Ministério da Cultura chinês tivesse posto a circular uma lista de cem canções proibidas, entre as quais temas dos “ocidentais” Lady Gaga, Backstreet Boys, Britney Spears, Katy Perry e muitas outras – a maioria –, de artistas de Hong Kong e Taiwan). Apesar de o “punk” ter consciência política desde os ingleses The Clash, na China, o caso parece ser outro.
“Há muitos temas que o ‘punk rock’ não tem abordado na China. Abuso de menores, violência doméstica, racismo, direitos dos trabalhadores, eleições. Temas globais como a Coreia do Norte, o belicismo, o petróleo, o planeta.” David O’Dell em discurso directo numa entrevista publicada no página electrónica da editora de Pequim Genjing Records, especializada em discos de vinil. Texas David, como é conhecido na China, lançou este Verão o livro “Inseparable – the Memoirs of an American and the Story of Chinese Punk Rock”. A obra segue o movimento “punk” desde os primeiros dias, em 1995, até que o norte-americano abandonou definitivamente Pequim, em 2002. Se, actualmente, as bandas “punk” chinesas são algo assépticas em termos políticos ou ideológicos, o mesmo não se pode dizer das que estão na génese do movimento (Underbaby ou Catcher in the Rye, por exemplo). Na mesma entrevista, O’Dell recorda que havia uma “mensagem nas letras cheias de calão, sarcasmo e histórias de pressões políticas que retratavam uma vida urbana e chinesa, única”. Ora, é precisamente a especificidade das “características chinesas” (para usar a expressão oficial do regime) que leva o investigador holandês Jeroen De Kloet a usar a expressão “paradoxo” para descrever o “rock” na China. Num artigo publicado em 2010, no sítio www.norient.com, De Kloet argumenta que “a mitologia rock viajou bem até à China, dada a insistência das bandas em fazerem música que vem directamente do coração.” Mas, continua, “o que se passa no rock chinês não é tanto o lado político, mas sim a noção do pró-
prio rock e a construção de uma identidade rock chinesa”. Para o autor, as bandas “teimam em fazer música internacional, desafiando as especificidades locais.” Contudo, acrescenta, “esse desejo de alargar o mercado do rock chinês além das fronteiras do país ecoa a vontade do Partido Comunista de voltar a colocar a China no mapa da política mundial”. Ou seja, o “punk rock” na China desdobra-se em dicotomias: simultaneamente ocidental e chinês, rebelde e obediente, global e local. E, conclui Jeroen De Kloet, “só quando conseguirmos reflectir sobre estes paradoxos poderemos perceber o poder do rock, um poder que é bastante mais ambíguo do que a mitologia que o acompanha nos faz crer”. Para citar de novo o investigador holandês, “é tentador analisar o rock na China nos termos de uma rebelião política.” No entanto, “por mais romântica que seja essa leitura, o mundo do rock na China não é unívoco.” No passado dia 19 de Agosto, Xangai recebeu o seu primeiro festival de música “punk”, algo que Pequim acolhe há já nove anos. Na capital económica da China, num domingo de Agosto deste ano, tocaram bandas de Pequim, Nanjing, Changsha, além de Xangai e outras japonesas, que atraíram centenas (milhares?) de “punks” chineses em romaria. Não houve detidos e não houve palavras censuradas nos motores de busca chineses. Mais brado houve quando uma islandesa com ares de ser mitológico e inofensivo, na mesma cidade de Xangai, num concerto uns anos antes, gritou “Tibet! Tibet!”, no final de uma canção chamada “Declare Independence”. Este país não é para “pussy riots”.
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metrópolis
Tiago Quadros*
A VILLA IMPERIAL DE KATSURA 4 DE Maio de 1933: é o seu aniversário e daí a dois dias Bruno Taut chegará ao Japão. Depois de ter atravessado a Europa e a Sibéria, Taut deixa para trás a fase mais dramática da sua carreira. Desde que concluiu a sua formação com Theodor Fischer em Munique, esteve entre os protagonistas das experiências mais relevantes que um arquitecto europeu, nascido em 1880, poderia realizar. Ao chegar ao Japão, acompanhado por Erika Wittich, as decepções e as dificuldades enfrentadas nos anos anteriores tinham-no afectado, mas não derrotado a sua vontade. Desembarcado do navio que tinha partido de Vladivostok, é recebido e saudado afectuosamente por Shotaro Shimomura e pelo arquitecto Isaburo Ueno. Como presente para o seu aniversário, os dois amigos tinham obtido a permissão para Bruno Taut visitar a Villa Imperial de Katsura, em Quioto. De regresso da visita à obra de Katsura, Taut anota no seu diário: «Foi provavelmente o melhor aniversário de sempre.» A partir deste momento, Katsura preencherá os dias da estadia japonesa de Taut, que se prolongará até 1936, e a ele será reconhecido o mérito de ter «descoberto» a Villa Imperial. «Kobori Masakuzo de Enshu! Admiramos o teu edifício: a simplicidade reduzida à simplicidade essencial e portanto à liberdade», escreve Taut no ano seguinte, em Gedanken nach dem Besuch Katsura (1934), notas confiando um hino em homenagem ao arquitecto com o mérito de ter feito da Villa uma «grandiosa totalidade», usando exclamações semelhantes aos que a Catedral de Estrasburgo havia sugerido a Goethe. Para explicar o significado desta «visão que faz arrepiar e comove até às lágrimas», Taut compõe uma página que regista e explica o seu espanto perante a maravilha que a Villa - com os espaços transparentes que a animam, a casa de chá, as salas e a soberba elegância dos detalhes construtivos, a incrível variedade do jardim – comunica a todos aqueles que tiveram a sorte de a visitar. Em 1953, o fotógrafo Yasuhiro Ishimoto, que estudou com Mies van der Rohe, em Chicago, fotografa a Villa. Mais tarde, as suas imagens serão utilizadas num livro dedicado a Katsura, composto por dois ensaios, um de Walter Gropius e outro de Kenzo Tange. A composição gráfica do livro, publicado em 1960, é da autoria de Herbert Bayer, o requintado designer gráfico que havia ensinado na Bauhaus. Cada página, graças às fotografias de Ishimoto e à inteligência de Bayer, assume-se como um projecto que confirma que a Villa de Katsura, apresentada através de uma série de fragmentos eloquentes, é feita de formas atemporais que poderiam ter na ori-
gem exemplos de arquitectura produzida nos anos vinte, as pinturas de Mondrian ou Klee, ou ainda as esculturas de Brancusi ou Arp. Nos seus ensaios, nem Gropius nem Tange mencionam tais analogias, mas ambos observam e interpretam Katsura, da mesma forma e com a mesma finalidade que Taut, considerando a obra do arquitecto japonês como um trabalho de liberdade, afirmando que um mestre zen tinha sido revelado: “A energia cultural que começou a florescer em Katsura pode ser trazida à plena floração na época actual”, escreveu Tange, “nesse sentido, eu incluo-me na tradição de Katsura”. A maravilhosa Quioto chega até nós através do filtro, sobre o qual estas palavras medem a espessura. Em Junho de 1954, um cartão postal enviado do Japão é entregue a Le Corbusier, no número 24 da Rue Coli Nungasser, em Paris. O remetente era Walter Gropius. Podemos imaginar que Gropius, pensando no seu amigo, enquanto se encontrava em Quioto, teria procurado um postal com a reprodução da Villa de Katsura. Mas é provável que a Villa, desde sempre propriedade do Imperador, nunca tivesse sido fotografada para ser difundida num cartão postal. Assim, Gropius escolhe um postal com uma reprodução do jardim do Ryoanji, outro paradigma zen de Quioto. Depois de comprar o cartão postal, usando estranhamente o inglês, Gropius cai em imprecisões e comparações fúteis, atirando: “Caro Corbu, tudo por aquilo que temos vindo a lutar tem paralelo na cultura japonesa antiga. Este jardim de rochas, feito para monges zen do século XIII - pedras redondas e seixos - poderia ter sido desenhado por Arp ou Brancusi - um inebriante lugar de paz. Estou certo de que ficarias tão entusiasmado quanto eu, neste lugar, envolto de sabedoria clássica de dois mil anos! A casa japonesa é a melhor e mais moderna que eu conheço e é realmente pré-fabricada. Espero que estejas bem. Saudações para ti e para a senhora. Teu Gropius”. Agora é o momento para se dedicar nova atenção a Katsura. A Villa Imperial é uma obra de enorme relevância e merece a atenção dos estudos livres de preconceitos que permitiram que os arquitectos modernos a transformassem num mito. Àqueles que revelaram Katsura, no entanto, não só os arquitectos devem gratidão: o terem “descoberto” para nós o que nós não conseguíamos ver, o sentimento que nos invade ao observarmos o lago, no centro da Villa Imperial de Katsura. *Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa
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perspectivas Jorge Rodrigues Simão
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ECOLOGIA SEMIÓTICA “Understanding life will never be an easy task. But it is always a fascinating exercise. .. to understand the life processes has led us, as biologists, to a semiotic view. Life processes are not only significant for the organisms they involve. Signification, meaning, interpretation and information are not just concepts used and constructed by humans for describing such processes. We conclude that life processes themselves, by their very nature, are meaning-making, informational processes, that is, sign processes (semioses), and thus can be fruitfully understood within a semiotic perspective”. Towards a Semiotic Biology: Life is the Action of Signs Claus Emmeche and Kalevi Kull
UM RITUAL religioso reúne tipos de sinais, actos e declarações que têm o seu sentido no contexto em que se produzem e, portanto, constitui uma formação semiótica específica. Cada formação semiótica possui um tipo característico de sinais, de actos que devem ser realizados e de práticas sociais que devem ser observadas, por serem significativas e adequadas aos membros da comunidade. As formações discursivas ou os discursos são também semióticas, dado que, os recursos linguísticos vinculados a outras formas de expressão, como o gesto ou os recursos gráficos adquirem um papel predominante. A realização gráfica de um projecto arquitectónico constitui um recurso semiótico discursivo, tão importante como a descrição oral ou escrita do projecto, pois, significa a síntese gráfica do discurso do arquitecto. É de considerar que nas formações discursivas a organização e a sequência na apresentação das ideias representa um estilo ou género característico para cada contexto. A utilidade das formações semióticas é dupla, havendo por um lado, um nível de análise que se situa num plano intermédio entre os fenómenos micro-sociais (actuações, textos, declarações) e macro-sociais (dialectos, instituições, classes e ideologias), permitindo a sua interligação conceitual, por outro lado, porque o seu carácter dinâmico permite descrever as relações entre o micro e o macro-social como um conjunto de acções determinadas ou de factos (ou processos), independente dos indivíduos ou das instituições que os executam e que são solicitações variáveis e substituíveis. Existem semelhanças nos sistemas ecológicos, relativamente ao duplo carácter intermediário das suas entidades, entre os níveis microscópico e macroscópico. A ecologia afirma que um conjunto de espécies pertence ao mesmo tipo ecológico se apresentar funções ecológicas parecidas, ou que ocupem indistintamente o mesmo nicho ecológico. É de realçar que esta definição faz referência a uma estrutura funcional, o nicho ecológico, que se define para cada uma das populações do ecossistema, sem importar se está ocupado por uma ou outra população. Tal, não quer dizer que a ecologia não se
interesse por saber que espécies concretas ocupam os nichos, aspecto estudado por uma das suas áreas, a “Autoecologia”, mas que a um nível geral ou holístico, a teoria ecológica prescinde desses detalhes a não ser que sejam necessários ou para ilustrar um determinado fenómeno de carácter geral. Assim sucede, quando se citam os níveis tróficos de um ecossistema (produtores primários, herbívoros, carnívoros e decompositores), faz-se referência a níveis ou entidades que exercem uma função ecológica, como a de fazer circular e consumir a energia e de circulação de matéria no ecossistema, independente de se tratar de um lago, onde os produtores primários são algas, ou de uma floresta, onde esta função é realizada basicamente, pelos vegetais superiores. Os sistemas sociais não são homogéneos, pois convivem diferentes grupos sociais, complementares e em conflito, apresentam distintas ideologias e valores que evidenciam uma heterogeneidade organizada, e cada grupo tem formações semióticas características, com discursos e recursos linguísticos diversos, cujo o fenómeno é designado por “heteroglossia”. Assim, esta diversidade manifesta-se em diferentes actuações ou práticas sociais características, cujo fenómeno é designado por “heteropraxia”. O aparecimento de movimentos opostos aos efeitos negativos da globalização da economia, ou o movimento de ocupação de habitações, edifícios e superfícies desabitadas ou abandonadas das cidades dos mais diversos países e em todos os continentes, sem autorização com vista a criar centros de vivência anarquista e cultural, sem intenção lucrativa e que ficou conhecido por “Okupa”, oposto à propriedade privada e à restrição do direito à habitação digna, reúnem-se em grupos sociais que mostram formas de expressão e práticas diferentes das realizadas por outros grupos sociais. O conjunto de grupos sociais e as suas formações semióticas configuram o sistema
cultural que apresenta uma natureza dinâmica. Este sistema faz parte do sistema eco-social como um nível mais amplo que inclui outros processos materiais. Os diversos fenómenos que têm vindo a ser falados e descritos relacionados aos sistemas em geral são claros no sistema eco-social. Uma das tendências é a distinção, segundo a qual, um sistema aumenta em complexidade porque as suas partes se diferenciam no tempo ou no espaço. Os fenómenos de autonomia que se observam nas últimas fases de sucessão nos ecossistemas terrestres, têm como resultado, que umas partes do sistema se diferenciem das outras, dando lugar a uma miscelânea de tipos que apresentam diferentes estados de maturidade. Este fenómeno é patente também no sistema eco-social, onde determinados grupos sociais fazem progredir uma diferença semântica de forma progressiva utilizando novos recursos linguísticos, palavras ou palavras existentes com significados alternativos, práticas e estilos de acções e, novas formações semióticas alternativas às existentes no sistema. Esta diferença do sistema eco-social implica uma rotura da sua simetria, tal como ocorre em outros sistemas, produzindo maior complexidade e dá lugar a um aumento do conteúdo de informação do sistema. Os sistemas eco-sociais estão organizados hierarquicamente, não no sentido da hierarquia derivada da autoridade das organizações sociais, mas por referência à tendência dos subsistemas a integrarem-se num super sistema ou meta sistema que exerce um controlo, e que muda mais lentamente. Os sistemas eco-sociais são de natureza material e apresentam intercâmbios de matéria, energia e informação, tanto a nível dos processos materiais destinados à produção de bens como nas práticas sociais que se produzem no contexto de uma formação semiótica. Estas formações condicionam o tipo de relações que o sistema eco-social estabele-
ce com o mundo e o seu comportamento ecológico. A forte vinculação entre estes aspectos materiais e sociais permite definir um sistema único que, em definitivo, está submerso num meio material ou meta sistema mais geral que controla o sistema eco-social. O entendimento por parte do sistema eco-social da forte dependência relativamente ao nível hierárquico superior do meta sistema é fundamental para que as formações semióticas, que se traduzem em práticas sociais determinadas, incorporem novos significados relativos à dependência do sistema eco-social em relação com o seu meio. Estas mudanças dariam lugar a uma nova cultura de relações de significados, como resultado da mutação das formações semióticas apoiadas num novo estilo de práticas sociais (e materiais) no conjunto dos diferentes grupos sociais, objectivo que parece ser fundamental num momento de mudança ambiental global. O meta sistema, antes ou depois, exercerá o controlo sobre o subsistema eco-social, estabelecendo novas relações, o que dará lugar a novos meta estados, seja na direcção de regressão ou na de reorganização. Estas propostas referidas às mudanças da cultura com respeito ao tipo de relações que estabelece com o sistema, parecem indicar um controlo do subsistema eco-social de dentro para fora. Este controlo de dentro não é possível, porque os sistemas hierarquicamente organizados apresentam grandes diferenças de escala entre os diferentes níveis. No entanto, a comunicação entre os subsistemas subjacentes e a sua reorganização, pode modificar as respostas possíveis do meta sistema e o tipo de controlo que se exercerá. . O estabelecimento de novas relações entre os subsistemas ou as partes do sistema eco-social é possível de dentro do sistema, onde se produzem novas relações entre processos que não existiam, desfazendo outras relações antes existentes; em definitivo, estabelecendo novas características que reconfiguram o sistema eco-social. Esta proposta não pressupõe que a tendência deva ser a da indiferenciação ou homogeneidade das partes do sistema eco-social, uma vez que a existência de partes diferenciadas significa uma reserva de diversidade que é fundamental para a evolução do sistema ao exercer uma função reguladora e, prevenir a rigidez para poder assim, adaptar-se às eventuais mudanças ambientais que ocorram. As palavras de Jay Lemke, nunca foram tão oportunas no presente, quando afirmou que “a grande tarefa intelectual deste século, ainda está por chegar, que é desfazer as culturas que negam a unidade dos sistemas eco-sociais e refazer as culturas que a defendem”.
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張之洞
O L H O S A O A L T O
gente sagrada
José Simões Morais
ZHANG ZHIDONG NO TEMPLO de Seng Vong em Macau existe a imagem de uma pessoa que, ainda em vida, já estava representada no altar. Zhang Zhidong nasceu em 2 de Setembro de 1837, na actual província de Guizhou, onde o seu pai, que era de uma família de Hebei, estava destacado como oficial. Como criança assistiu ao período iniciado pela I Guerra do Ópio, em que a China teve de pagar as exorbitantes quantias que os britânicos exigiam como vencedores das guerras que eles mesmos provocaram. O governo manchu dos Qing ainda cobrava mais impostos aos já depauperados camponeses e na miséria completa, começaram as revoltas a alastrar tanto contra os senhores feudais, que iam ficando com a terra aos camponeses, como contra a discriminação que a dinastia manchu fazia às outras etnias e sobretudo aos Han. A miséria na China começara em 1839 com uma guerra comercial criada pelos europeus que queriam a seda, a porcelana e o chá e como nada mais tinham de interessante para trocar, trouxeram o ópio e os canhões para negociar. A recusa em aceitar o ópio, pelo governo imperial da dinastia Qing, levou a que as costas marítimas chinesas fossem fustigadas pelos canhões dos navios de guerra britânicos, durante a I Guerra do Ópio (1839-42), ficando a China ocupada pelas oito potências invasoras após a II Guerra do Ópio. Aluno precoce, Zhang Zhidong aos 13 anos tinha feito a primeira série de exames para poder concorrer ao exame provincial e aos 26 anos, terminou o último dos exames, o do Palácio, em presença do imperador. Como jinshi (mandarim doutorado), entregou-se desde 1862 ao ensino e em 1882 tornou-se oficial provincial em Shanxi, sendo em 1884 governador de Guangdong-Guangxi. Em ascensão, é nesta etapa da sua vida que Zhang Zhidong, como mandarim, fica relacionado com Macau. Escreveu uma carta ao imperador explicando que na aldeia chinesa de Mong Há se tinha criado uma associação, “Chi Sau Yi”. Sendo muito unida e forte, sem medo das mudanças políticas no interior da China e dos acontecimentos ocorridos em Macau, vivendo com os portugueses sem terem nenhum magistrado chinês para os ajudar, deveriam estar protegidos por alguma poderosa divindade que os não fazia desviar dos seus costumes sociais. Mesmo nos tempos antigos, os sábios governantes necessitavam do apoio das divindades para se fazerem aceitar pela população. A proposta ao imperador de permissão para a construção em Macau do templo ao Deus da Cidade pelo confucionista Zhang
Zhidong era estratégica e aplicava poderes governativos, tanto temporais aos portugueses como do Céu aos chineses. Assim se tentava reconciliar a comunidade chinesa e a portuguesa, num conflito que começou em 1846, após a chegada do governador João Ferreira do Amaral a Macau e que se avolumou com o seu assassínio em 1849. Os graves acontecimentos que levaram a uma grande crispação por parte das duas comunidades aconteceram quando em 1847 o governador de Macau Ferreira do Amaral ordenou que se rasgassem três estradas no campo, fora da muralha da cidade. No mesmo ano, mandou tributar os chineses e aboliu o Hopu, ou alfândega chinesa da Praia Grande e, em 1849, mandou encerrar à força o Hopu grande da Praia Pequena. A cidade cristã abria os muros e tomava posse da península de Macau, aproveitando-se Portugal de poder ter Macau sem pagar o foro, devido aos cinco portos abertos ao longo da costa chinesa, uma das exigências dos vencedores britânicos. A China ocupada por oito países estrangeiros, que através de guerras contínuas foram criando grandes crises e depenando os cofres chineses até já não haver nem prata nem ouro, para pagar as indemnizações de guerra. Percebendo que havia de modernizar e aprender com a Europa, mantendo o sistema chinês, Zhang Zhidong preparou a ponte para a aprendizagem com o estrangeiro, tal como fez a mudança dos exames imperiais para um novo sistema de educação. Na sua vida de oficial civil, Zhang Zhidong teve o suporte da imperatriz Cixi, que o guindou a oficial nacional e em 1907, dois anos antes de morrer, foi nomeado Grande Conselheiro. O novo templo de Seng Vong estava já em construção, sendo concluído em 1908, no local sugerido pela Associação “Chi Sau Yi” onde, em meados do século XVIII, os mandarins de Mong Há tinham a sua sala para reunir na companhia do seu homólogo deus. As contribuições vieram das famílias que habitavam Mong Há, a mais antiga povoação de Macau, que gratas a Zhang Zhidong (em cantonense Cheong Chi Tong) por este ter intercedido por eles, em carta ao imperador Qing, dedicaram-lhe o templo de Seng Vong. Uma das particularidades foi estar Zhang Zhidong ainda vivo quando a sua imagem passou a ser venerada no nicho do altar-mor, que se encontra à esquerda da imagem do deus da Cidade, Seng Vong. Zhang Zhidong foi canonizado com o título de Wenxiang, Governador Civil Geral.
21 9 2012
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L E T R A S S Í N I C A S
HUAI NAN ZI 淮南子
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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN
Os líderes sem princípios tiram do povo sem medir a força do povo; dos seus súbditos exigem sem aferirem o quanto seus súbditos têm.
DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 16 Os líderes sem princípios tiram do povo sem medir a força do povo; dos seus súbditos exigem sem aferirem o quanto seus súbditos têm. Homens e mulheres não se podem dedicar ao lavradio e à tecelagem por terem de suprir às exigências de quem manda; suas energias são levadas ao limite e os seus bens exauridos. E, assim, líderes e súbditos se odeiam. *** No esquema geral das coisas, três anos de
cultivo resultam em um ano de excedentes de alimentos. Nove anos produzem três de excedentes, dezoito anos produzem seis de excedentes e vinte e sete produzem nove de excedentes. Assim, mesmo que ocorra uma cheia ou uma seca, o povo não se vê reduzido a aflição. Se um país não dispõe de excedentes bastantes para nove anos, dele se diz que está em falta. Se não dispõe de excedentes para seis anos, dele se diz que sofre de tensão. Se não dispõe de provisões para três anos, dele se diz que é pobre. Como tal, os líderes humanos e os líderes esclarecidos limitam aquilo que tiram a seus súbditos e são moderados no viver.
*** Os líderes gananciosos e os líderes duros oprimem os seus súbditos e sangram o povo para satisfazer os seus intermináveis desejos. Assim, a plebe não têm maneira de beneficiar da harmonia do céu ou de caminhar sobre as bênçãos da terra. *** A comida é a raiz do povo; o povo é a raiz de um país; o país é a raiz de um líder. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho
Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.
Lê os verdadeiros escritores, lê Balzac, Han Shan, Shakespeare, Dostoieveski. Jack Kerouac
O homem que um dia se chamou Han Shan, ninguém sabe quem foi. Quando alguém o via, considerava-o um doido, um pobre diabo. Vivia retirado na montanha Tiantai, sete léguas a oeste do distrito de Tangxing, num lugar chamado Han Shan (Montanha Fria), entre rochas e falésias. Daí descia frequentemente para o templo de Guoqing, ao encontro do seu amigo Shi De, encarregado da limpeza da cozinha do mosteiro que lhe guardava restos de comida em malgas feitas com cana de bambu. Lu Qiuyin, prefeito de Taizhou (Séc. IX)
Quem gosta de poesia, quem deseja abrir a mente para as mil subtilezas do budismo chan ou zen, quem procura a simples inteligência do saber encontrará em Han Shan um mestre, um confrade, um amigo. António Graça de Abreu
POEMAS DE
HAN SHAN edição bilingue
TRADUÇÃO, PREFÁCIO E NOTAS DE ANTÓNIO GRAÇA DE ABREU