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h - Suplemento do Hoje Macau #42

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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2612. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

O EXÍLIO E A VIDA


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h A UM CERTO TIPO DE HOMENS 2

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Robert Louis Stevenson em Samoa. Wenceslau de Moraes em Adem

Enquanto os primeiros desejam sinceramente ver terminado o seu “cativeiro” e empreender o regresso à terra natal, os segundos perdem a vida por paragens remotas, encetando relações e práticas que põem em risco a sua própria identidade Carlos Morais José “A maioria dos marinheiros compunha-se de homens que, ali lançados como por acaso, tinham ficado na qualiddae de oficiais em navios da região. Tinham tomado horror às linhas da metrópole, com suas condições mais duras, seus serviço mais estrito e os azares dos oceanos furiosos. estavam acomodados à paz eterna dos céus e dos mares do Oriente. Amavam as curtas travessias, as moles chaises-longues, as grandes equipagens indígenas e seus privilégios de brancos. Estremeciam ao pensamento de rudes labores e levavam existências fáceis e precárias, sempre à mercê de uma despedida, sempre à véspera de um emprego novo. (...) Entretinham-se eternamente de golpes e contragolpes da sorte (...) em tudo o

que diziam, nos seus gestos, nos seus olhares, na sua pessoa, traía-se o ponto fraco, a corda sensível, o irrestível desejo de uma existência de ociosidade sem perigo.”

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Joseph Conrad Lord Jim

ESDE o grande êxodo europeu, iniciado com as Descobertas, que o mundo tem assistido ao aparecimento de homens cuja vida se caracteriza por uma deslocação radical do seu ponto de gravidade original para se disseminarem por regiões estrangeiras, sobretudo, estranhas. Muitos nomes lhes chamaram, desde “homens da fronteira” a “cavaleiros da fortuna”. Não os

podemos confundir com os “emigrantes”. Estes nasceram para satisfazer as necessidades dos regimes capitalistas e não existem enquanto indivíduos, somento como massa trabalhadora disponível a baixo custo. Com a imposição do ritmo próprio das sociedades capitalistas, estes movimentos de milhares de pessoas intensificaram-se durante todo o século XX e estão ainda longe de atingir o seu término. Já o mesmo não se poderá dizer dos outros, dos que não pertencem a nenhum movimento concertado e comandado por traficantes de pessoas e receptadores de trabalho desqualificado. São, aliás, bem claras algumas diferenças entre eles. Enquanto os primeiros desejam sincera-

mente ver terminado o seu “cativeiro” e empreender o regresso à terra natal, os segundos perdem a vida por paragens remotas, encetando relações e práticas que põem em risco a sua própria identidade, o que é como quem diz dificultam tremendamente a possibilidade de regresso, na medida em que o próprio chão étnico que os constituiu sofreu abalos consideráveis. Não é em vão que se habita a terra estrangeira e se partilham os seus frutos. Algo de muito interno vai conhecendo o definhamento e a morte, ao mesmo tempo que dessas cinzas vai renascendo uma nova personalidade, afeita à diferença e modulada pelas novas visões e experiências. Também não se trata de alguém absorvido totalmente por outro povo (caso muito


raro) mas da construção de uma identidade única, de um ser de características singulares. Devemos sublinhar este ponto: a única coisa comum entre estes homens ou mulheres é o seu despaisamento, a outra é serem radicalmente diferentes e, em geral, nem sequer se apreciarem, como se a visão do duplo trouxesse consigo, como dizem os mitos, o hálito perturbante da morte. Claro que para estes homens o regresso à terra natal é uma asneira e, normalmente, de pouca duração. Ao contrário dos emigrantes, sonham continuamente com novas viagens e com os ambientes exóticos que abandonaram. É como se a vida só fosse possível se mergulhados numa terra radicalmente estrangeira e o sossego unicamente atingido quando se tem um conhecimento imperfeito as línguas e os costumes, mesmo os mais abomináveis. Penso ser precisamente a distância face aos costumes predominantes que imprime no espírito a sensação de liberdade quase absoluta e quem não gosta de se sentir absolutamente livre? Daí que estes homens não adoptem os hábitos de nenhum povo, nem as práticas de nenhuma religião. Utilizam, é certo, determinados ensinamentos, mas sempre descontextualizados da cultura original e re-significados nesse emaranhado em que se vai tornando cada personalidade. Outro aspecto é que não falamos aqui de heróis mas, precisamente, do seu contrário. O herói existe ao serviço de um povo, estes seres são profundamente individualistas, narcisistas, actores do seu próprio teatro, no qual se tornam, a um tempo, intérpretes, público e autores de um texto cuja acção se desenrola no palco do mundo. Trata-se de gente em fuga, da reencarnação perfeita do homo mobilis, o homem em movimento, ou seja, o contrário dos sedentários que impõem as suas leis nas cidades. Quanto a eles, ficam satisfeitos por ditarem as leis no pequeno território que circunda o seu corpo e por usufruirem dos beneplácitos concedidos aos fantasmas. Estas considerações são feitas a propósito e de propósito. Um dos grandes problemas da realização da felicidade passa pela nossa própria capacidade de nos reconhecermos, de aceitarmos o nosso modo de ser, de vivermos em paz no labirinto dos nossos desejos. Há momentos na vida em que se tomam as decisões erradas. Por isto ou por aquilo, por nós mesmos ou pelos outros. Mas uma coisa é certa: seremos os únicos a estar connosco até ao fim, os últimos a aturar as nossas manias, excessos e defeitos. Finalmente, é triste não viver por medo de ter uma má vida. Tudo o que experimentamos deve ser traduzido em sabedoria, essa, a que, prudentemente, nos afasta do mundo. Sobretudo, do mundo que nos é mais próximo.

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DEBAIXO DE UM VULCÃO Q

UALQUER ser humano que se preze (ou despreze) ambicionaria viver debaixo de um vulcão. Que isto de ambições tem muito que se lhe diga. Mesmo muito. Afinal, quantos dos meus estimados leitores e leitoras não tiveram desejos que esqueceram e assim assistiram ao mirrar da própria vida e — pior ainda — por culpa própria. De nada valem as aspirações enquanto somos crianças, mas é grave esquecer a adolescência e os ideais aspirados como linhas brancas sobre um espelho. Nesse espelho reflecte-se a nossa cara, um carão que bem conhecemos e nos é relativamente familiar. Este relativamente surge porque — reparem bem — vemo-nos sempre invertidos: só os outros nos conhecem. Façam comigo o exercício de se lembrarem do que queriam, do que aspiravam conseguir e, em seguida, mirem-se outra vez, vejam-se ao espelho na solidão da casa de banho, aí onde mais ninguém nos vê, sobretudo ninguém nos julga, e não tenham medo de tirar conclusões. É isso, não é? Estas nossas carantonhas adormecidas no vai e volta de nada, esgotadas por responsabilidades alheias, por deveres sem sentido. Assim se passam as horas, os dias, as semanas, os anos, as décadas. Não fosse estarmos anestesiados pelo dever e a vida seria bem mais dolorosa mas fremente. Assim não. O tempo desempenha inexorável o seu papel, as carnes revoltam-se contra os excessos e os defeitos; do tempo — esse cão — sentimos-lhe os dentes bem afiambrados nos braços. Sem nunca largar, sem nos dar a hipótese de perder pitada. Algo que também nunca quis: perder pitada. Perder um só cheiro da vida que desfila por todo o lado, à nossa frente — a que vemos — e perder a que não sabemos, a que somente pressentimos como eventualmente nossa mas que não conseguimos descer à rua para, simplesmente, efectivar a colheita. Definitivamente, deixámos de ser agricultores. Resta-nos esse largo território de caça hoje conhecido por sociedade contemporânea. Reparemos que, antigamente, a aspiração da ruralidade era ter filhos médicos, advogados ou engenheiros. Em alguns casos sacerdotes. O que há de comum a esta gente? Simples: todos são obrigados a um juramento ético. Hoje a burguesia urbana ensina aos filhos que devem ser gestores, economistas, apresentadores de televisão, jogadores de futebol. O que há de comum a esta gente? A inexistência de ética.

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Uma amante Talvez tudo isto não passe de uma ilusão de quem ainda não partiu de Macau. Talvez no momento em que aterrar noutra terra um qualquer me pergunte como pude suportar anos e anais de mau clima, de mentalidades provincianas, de jet-foil ordinário, de comunidade basicamente cobarde. Talvez aí sinta outra vez como é bom ver o céu azul com nuvens brancas, usufruir dos prazeres do anonimato, comprar revistas, ver museus. Ou talvez não… Talvez me limite a percorrer espaços vergado a um estranho peso de saudade, transportando comigo uma ausência de sabor, as papilas desgastadas e os olhos liquefeitos. Mas ninguém me consegue explicar o que é deixá-la, deixar de sentir o seu insinuante fedor. A maior parte dos que partiu não diz coisa com coisa, não é capaz de esclarecer absolutamente nada. Estão ainda contagiados por esse balbuciar de coisas sem nexo, que aqui praticamos inconscientemente. Estão ainda sob o efeito deste ar opiado, com lembranças inelutáveis das mordomias e das patacas. Sobre não estar em Macau, sobre deixar Macau ainda não li nada, nem ouvi nada. Impõe-se normalmente um embaraçoso silêncio. Como se esta terra fosse algo doloroso de não ter, aquela amante de que estamos fartos e nos arrependemos de deixar. Até porque, não tenhamos ilusões, ela passa bem sem cada um de nós. Não sei o que me vai acontecer.

Não quero dizer com isto que os do primeiro grupo sejam gente porreira e os do segundo uns canalhas. Estou simplesmente a falar dos princípios ou da falta deles. Para mim, na realidade, a coisa põe-se noutros termos: cada indivíduo saberá de si e será responsável pelos seus actos. Isto não quer dizer que não exista uma voz que os instiga ou não, uma consciência profissional ou não, que os faz dizer que não podem ir por ali. É que isto de ser humano não é fácil. Precisamos da ajuda dos outros. Sozinhos vamos a algum lado, sobretudo vamos por onde nos empurram as circunstâncias e sem nos apercebemos disso. Hoje para estar vivo é quase preciso um milagre porque estar vivo é uma fé. É preciso uma força comparável à de um peregrino que esfola os joelhos e a alma a caminho de um santuário qualquer. É preciso ainda mais força porque a peregrinação não tem fim nem se resolve na adoração de estátuas. Toda a nossa vida deve ser entendida como um constante pagar de promessas: não a que se fazem aos santos mas a nós mesmos. Discordo dos que dizem que Deus está

em cada um de nós. Sinceramente, nunca me senti divino (bom... excepto quando me concedo acreditar em certas mentiras, hauridas em inconfessáveis momentos). Confesso também que não acredito na redenção dos pecadores mas sim no seu sorriso final, nesse que levam para a tumba e que por outras palavras, menos canónicas, significam papo cheio. Ou como dizia um padre personagem de Eça de Queirós “é o melhor que levamos da vida”. Eu, que tenho a veleidade de escrever, quero exercitar a vocação num lugar impossível. Ver índios subir e descer as escadas das pirâmides. Quero que a minha escrita se transforme numa mescaligrafia, num círculo somente arredondado mas progressivamente mais alto, um sítio em que as formas percam o sentido e reste um cheiro de enxofre e lava derramada. Quero que as palavras se elevem como lava, sim, e queimem cérebros alheios e incendeiem corpos abstrusos. Quero que as palavras se derramem e em sacões absurdos, precisamente contrários à sua natureza mais própria. Pouco vale uma vida. Menos vale se não for vivida debaixo de um vulcão. C.M.J.


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Mia Couto

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UERO, antes de mais saudar os professores. Durante anos, fui professor. E quando digo isto há uma emoção fortíssima que me atravessa. Eu não sei se há profissão mais nobre do que a de ensinar. E digo ensinar porque existe uma diferença sensível entre ensinar e dar aulas. O professor no sentido de mestre é aquele que dá lições. Os professores que mais me marcaram na vida foram os que me ensinaram coisas que estavam bem para além da matéria escolar. Não esqueço nunca um professor da escola primária que um dia leu, comovido, um texto escrito por ele mesmo. Logo na declaração da sua intenção nasceu o primeiro espanto: nós, os alunos, é que fazíamos redacções, nós é que as líamos em voz alta para ele nos corrigir. Como é que aquele homem grande se sujeitava àquela inversão de papéis? Como é que aceitava fazer algo que só faz quem ainda está a aprender? Lembro-me como se fosse hoje: o professor era um homem muito alto e seco e, nesse dia, ele subiu ao estrado da sala segurando, nos dedos trémulos, um caderno escolar. E era como se ele se transfigurasse num menino frágil, em flagrante prestação de provas. Parecia um mastro, solitário e desprotegido. Só a sua alma o podia salvar. Depois, quando anunciou o título da redação veio a surpresa do tema que parecia quase infantil: o professor iria falar das mãos da sua mãe. Éramos crianças e estranhámos que um adulto (e ainda por cima com o estatuto dele) partilhasse connosco esse tipo de sentimento. Mas o que a seguir escutei foi bem mais do que um espanto: ele falava da sua progenitora como eu podia falar da minha própria mãe. Também eu conhecera essas mesmas mãos marcadas pelo trabalho, enrugadas pela dureza da vida, sem nunca conhecerem o bálsamo de nenhum cosmético. No final, o texto acabava sem nenhum artifício, sem nenhuma construção literária. Simplesmente, terminava assim, e eu cito de cor: “é isto que te quero dizer, mãe, dizer-te que me orgulho tanto das tuas mãos calejadas, dizer-te isso agora que não posso senão lembrar o carinho do teu eterno gesto.” Havia qualquer coisa de profundamente verdadeiro, qualquer coisa diversa naquele texto que o demarcava dos outros textos do manual escolar. É que não surgia ali, em destacado, uma conclusão moral afixada como uma grande proclamação, uma espécie de bandeira hasteada. Aquele momento não foi uma aula. Foi uma lição que sucedeu do mesmo modo como vivemos as coisas mais profundas: aprendemos, sem saber que estamos aprendendo. Lembro este episódio como uma homenagem a todos os professores, a esses abnegados trabalhadores que todos os dias entregam tanto ao futuro deste país. Comecei por saudar os professores. Pa-

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DA CEGUEIRA COLECTIVA À APRENDIZAGEM DA INSENSIBILIDADE

Aula inaugural dada pelo escritor moçambicano Mia Couto para alunos da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, Moçambique.

interminável lição. Mandela é hoje uma bandeira mundial não apenas porque foi um político que dignificou a política, mas porque nos dignificou a todos nós, seres humanos. Deixem-me falar de Mandela. Este homem, que agora está doente e cansado, viveu encarcerado durante vinte e sete anos. Vinte e sete anos são mais do que o tempo de vida da maior parte dos presentes nesta sala. Vinte e sete anos de prisão é tempo suficiente para criar raiva, ódio e insuperáveis ressentimentos. Contudo, este homem converteu esse potencial negativo em força construtiva e reconciliadora. Um dos motivos de inspiração de Mandela foi ter encontrado num poema que se chama “Invictus”. Vou ler esse poema. Do ventre da noite que tudo cobre Negra como o fundo da cova escura Agradeço aos deuses de todos os céus Por quanto a minha invencível alma perdura Ante as garras do cruel acaso Nem eu tremi, nem o medo me turvou Sob o peso da ameaça e da desumana violência Eu sangrei mas a minha alma nunca se curvou Não importa se a passagem é estreita Não importa quantos castigos devo penar Eu sou o dono do meu destino Eu sou o capitão da minha alma.

Malangatana, Juventude

rece que me esqueci dos estudantes. Ou que os coloquei em segundo plano. Mas não. Todos somos professores, mesmo que não o saibamos. Perante os outros, perante os nossos pais, perante os amigos, perante nós mesmos, com bons ou maus exemplos, com tristes ou gratificantes lições, todos somos professores. Um dos

maiores professores do nosso tempo é um homem que nunca deu aulas. É um homem que ensinou a sermos mais humanos. Mais do que isso, é um homem que ensinou a ter esperança num mundo tão desesperançado. Esse professor de toda a humanidade, de todas as raças e credos, é um africano. Chama-se Nelson Mandela. A sua vida foi uma

Estes versos, meus amigos, foram uma espécie de suporte moral que deram força a Nelson Mandela. Vezes infinitas o prisioneiro 46664 da Ilha de Robin regressou a estes versos para não sucumbir. Como escritor e poeta, dá-me grande alegria saber deste poder da poesia. Neste caso, há qualquer coisa que deve ser acrescentada. Na verdade, este poema foi escrito em 1875. O seu autor não foi um poeta sul-africano, não foi sequer um poeta africano. Quem escreveu estes versos foi um britânico chamado William Ernest Henley. Estes versos viajaram para além de séculos e continentes e iluminaram a esperança de um homem que, em vez de se vitimizar e procurar a vingança, nos deu uma eterna lição da crença nos outros. Eu venho falar para a Escola de Comunicação e Artes. Por isso me demorei nestes episódios. Porque acredito que a comunicação e a arte são ferramentas de mudança tão importantes como a política. Mandela fez da política um instrumento de comunicação da verdade. Ele fez da política uma obra na arte da reconciliação, numa nação dividida pelo preconceito. Talvez a cultura seja o mais poderoso e duradouro instrumento de intervenção social. No nosso continente isso é bem claro. Vejamos um exemplo: Desde há 50 anos, quando começaram a acontecer as independências, o nosso continente conheceu mais de 210 presidentes. O desafio que vos faço é o seguinte: digam o nome de 10 (apenas 10) destes dirigentes que se tenham notabilizado como figuras humanas de referência. Terão dificuldade. Será muito mais fácil enumerarmos artistas e intelectuais


dignos de serem lembrados. E é aqui que a figura de Mandela é tão importante para nós, africanos. Podemos não nos lembrar de muitos políticos africanos que nos dignifiquem. Mas o nome de Mandela basta para compensar toda essa ausência e devolver o orgulho de sermos quem somos. Caros amigos, vou entrar agora no tema central desta alocução. Todos os dias centenas de chapas de caixa aberta transitam por esta cidade que parece afastar-se do seu próprio lema “Maputo, cidade bela, próspera, limpa, segura e solidária”. Cada um destes “chapas” circula superlotado com dezenas de pessoas que se entrelaçam apinhadas num equilíbrio inseguro e frágil. Aquilo parece um meio de transporte. Mas não é. É um crime ambulante. É um atentado contra a dignidade, uma bomba relógio contra a vida humana. Em nenhum lado do mundo essa forma de transporte é aceitável. Quem se transporta assim são animais. Não são pessoas. Quem se transporta assim é gado. Para muitos de nós esse atentado contra o respeito e a dignidade passou a ser vulgar. Achamos que é um erro. Mas aceitamos que se trata de um mal necessário dada a falta de alternativas. De tanto convivermos com o intolerável, existe um risco: aos poucos aquilo que era errado acaba por ser “normal”. O que era uma resignação temporária passou a ser uma aceitação definitiva. Não tarda que digamos: “nós somos assim, esta é a maneira moçambicana.” Desse modo nos aceitamos pequenos, incapazes e pouco dignos de ser respeitados. O caso dos chapas é apenas um exemplo, uma ilustração de um processo que eu chamaria de “construção do inevitável”. E é simples: aos poucos, os passageiros do “chapa” deixam de ser visíveis. Na nossa sociedade essas pessoas já contavam pouco. É gente pobre, gente sem rosto, gente que não aparece na TV nem no jornal. Essa gente surgirá no jornal quando o “chapa” se acidentar. Mas aparecerá sem voz e sem nome. Um simples número para se contabilizar feridos e mortos. Em contrapartida, outras coisas ganharam brilho na nossa sociedade. Por exemplo, adquiriram toda a visibilidade os carros de luxo de uma pequena minoria. Deixamos de ver os “chapas” mortais, mas estamos atentos aos sinais de ostentação dessa minoria. O assunto que quero abordar convosco hoje é esta operação que banaliza a injustiça e torna invisível a miséria material e moral. Esta vulgarização faz perpetuar a pobreza e faz paralisar a história. Saímos todos os dias para a rua para produzir riqueza mas regressamos mais pobres, mais exaustos, sem brilho, nem esperança. De tanto sermos banalizados pelos outros, acabamos banalizando a nossa própria vida. Estamos perante uma espécie de formatação mental e moral. A mensagem é a seguinte: querem dizer-nos as nossas doenças sociais são incuráveis. Resta-nos viver de remendos e expedientes.

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O principal aliado dos tiranos é a cultura da aceitação. Visitou-me um escritor amigo da Nigéria. Ele percorreu as cidades de Moçambique e ligou-me de Pemba. A primeira coisa que ele disse: Estou maravilhado! Vocês têm estações de gasolina a funcionar! O seu espanto espantou-me a mim. Principalmente porque esse assombro provinha de um cidadão da Nigéria, o maior produtor de petróleo de África. Só depois entendi. O que passa na Nigéria - depois de 50 anos de exportação de petróleo é que as cidades nigerianas não possuem aquilo que para nós é comum: estações de gasolina vendendo gasolina. As bombas de combustível naquele país estão quase todas fechadas e a gasolina é vendida em

apoderou dos circuitos formais e desviou para os mecanismos informais a distribuição e venda do combustível. Uma vez mais, os ricos tornaram-se ainda mais ricos. Mas não é a questão politica que eu quero trazer aqui. A questão é que, para o cidadão da Nigéria, aquele sistema de venda, à maneira do dumba-nengue, se tornou normal. Ver bombas de gasolina a funcionar numa nação bem mais pobre como é Moçambique foi, para ele, um motivo de surpresa. Eu vejo muito africanos proclamarem que os mercados informais são a única maneira que África sabe fazer comércio. Que apenas nas barracas sabemos comer e beber. É men-

garrafas e jerricans nos passeios públicos. Para alguns esse é um processo natural em África. Mas não é. O que sucedeu foi o seguinte: o governo subsidiou os preços dos combustíveis mas não foram os mais desfavorecidos que lucraram mais. Foi uma parte da elite nigeriana que se

tira. A dumba-nenguização da economia é uma estratégia escolhida para fugir dos impostos, para escapar das obrigações para com o património público. Quando o meu amigo nigeriano voltou a Maputo ele disse-me o seguinte: - A minha surpresa não foi tanto o que eu

As dinâmicas de mudança confrontam-se com uma identidade feita de passado e tradição.

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vi em Moçambique. Foi sim o que já não sabia ver na Nigéria. O principal aliado dos tiranos é a cultura da aceitação. Talvez alguns de vocês sabem que sou um dos autores do Hino Nacional. Quando entregamos o Hino para aprovação na Assembleia da Republica nós não podíamos imaginar que alguns deputados se sentissem incomodados com a passagem da letra que diz: Nenhum tirano nos irá escravizar. É claro que a letra não fala do presente. Mas um hino é feito para durar. E quem pode garantir que um candidato a tirano não assaltará a nossa futura história? O melhor modo de prevenir esse risco não é apenas consolidar a democracia política. É investir numa cultura viva, numa cidadania de construção do futuro. O que me interessa falar aqui, numa Escola de Arte e Cultura é a dimensão cultural das nossas pequenas e grandes misérias.

A invocação da chamada “africanidade” é uma das armadilhas mais usadas pelos tiranos. No Malawi atacaram e rasgaram a roupa de mulheres pelo simples facto de andarem de calças. Mulheres de calças não é uma coisa africana - foi o que invocaram os agressores. Em nome de África se agrediram e mataram pessoas apenas porque eram homossexuais. Em nome da pureza africana se continua a impedir que, apenas por serem do sexo feminino, milhares de crianças não prossigam os seus estudos. Em nome de África se co-


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metem os maiores crimes contra África. O nosso continente é feito de passado e tradição, sim. Mas é feito de modernidade. É feito de mudança. Como todos os outros continentes. As dinâmicas de mudança confrontam-se com uma identidade feita de passado e tradição. Tudo isto tem a ver com o processo da construção do inevitável. Esse processo envolve o mecanismo da acomodação e o mecanismo da invisibilidade. A acomodação tem várias facetas. Sabemos que está errado, mas nada fazemos. Porque temos medo. Porque achamos que não tem a ver connosco. Ou porque fazemos cálculos. É melhor calar e ser promovido. É melhor recolher uns magros favores em troca do nosso silêncio e da nossa cumplicidade. O mecanismo da invisibilidade foi tratado por José Saramago no livro O ensaio sobre a cegueira. Nós estamos doentes, não porque os olhos tenham alguma deficiência, mas porque deixamos de saber olhar. Deixamos de querer ver. E deixamos de nos ver a nós mesmos. No fundo, este é o desfecho desse processo de alienação. Tornamo-nos cegos. Quem não vê, aceita que outros lhe digam como é o mundo. Eu rabisquei uma lista de fenómenos sociais que se tornaram invisíveis em Moçambique. A lista é bem extensa. Mencionarei apenas de alguns.

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A VIOLÊNCIA CONTRA OS MAIS FRACOS O primeiro desses fenómenos é a violência. Dizemos com frequência que somos um povo pacífico. Isso é verdade. Mas os povos todos, do mundo, são pacíficos por natureza. O que muda é a sua história. Assim, é verdade que somos um povo pacífico, mas também é verdade que foi esse povo pacífico que fez uma guerra civil que matou cerca de um milhão de pessoas. A guerra terminou em 1992, e essa data é talvez a mais importante da nossa história recente, depois da Independência Nacional. Terminou o conflito militar, mas não terminaram outras guerras silenciosas, invisíveis e perversas. Hoje somos uma sociedade em guerra consigo mesma. Os alvos dessa guerra são sempre os mais fracos. Estamos em conflito com as mulheres, com as crianças, com os velhos, estamos em guerra com os pobres, com aqueles que não têm poder. Somos uma sociedade obcecada pelo Poder. Quem não tem poder é como quem circula na traseira do chapa: não existe. Tudo tem uma leitura política, o mais pequeno detalhe é um recado, uma definição de hierarquias. Quem chega primeiro à reunião, onde se senta, quem não comparece à cerimónia, com que carro chegou, de quem se faz acompanhar, tudo isso são sinais de poder. Nas ruas sou chamado de patrão, sou chama-

do de “boss”, porque a minha cor da pele é tida como um sinal de Poder. O vendedor de viaturas insurgiu-se com a escolha de um carro que eu queria comprar. Deixe que escolho um carro compatível com o seu estatuto. Estamos em guerra connosco mesmos e o primeiro desses alvos é curiosamente uma maioria: as mulheres. Em Moçambique há mais um milhão de mulheres que homens. Mas ao nível das percepções, os homens dão pouca importância a essa verdade. Eles são chefes, os donos, e olham as mulheres como uma pertença privada. As mulheres, por outro lado, ainda pedem licença para existir. A maioria das mulheres que são objecto de violência dos maridos acha que isso não é um crime. Acham normal, acham natural. Ser agredida faz parte do seu destino, da sua imutável natureza. E conto-vos três episódios reais, que retirei da nossa imprensa apenas nas últimas semanas: Em Cabo Delgado 17 homens violaram uma mulher que se atreveu a atravessar o acampamento onde se praticavam os rituais de iniciação. Da parte das autoridades locais houve uma inaceitável passividade. Foi necessária insistência da família e de ONGs para que houvesse uma insuficiente resposta. Em Manica dois jovens violam sexualmente uma mulher no sétimo mês da gravidez.

Em Tete um homem mata a criança de dois meses e esfaqueia gravemente a mulher porque a meio do dia ele chegou a casa e a mulher recusou fazer sexo com ele. O jornalista da televisão que entrevista o confesso culpado sugere uma quase legitimidade do acto ao perguntar: “o senhor devia estava necessitado não é verdade?”. Reclamamos a violência da rua, mas é mais provável uma mulher ser agredida dentro de casa do que fora de casa. É mais provável uma criança ser agredida e violentada no espaço da sua família. Esta tendência não sucede apenas em Moçambique, mas no mundo. As estatísticas são reveladoras e assustadoras: cerca de 70 por cento dos actos de violência contra a mulher acontecem dentro da casa. Mais de 60 por cento dos assassinatos de mulheres são cometidos pelos seus companheiros ou ex-companheiros. Em todo o mundo, uma em cada três mulheres ou já foi ou irá ser agredida ou violentada. Não é pois Moçambique que é afectado de modo particular. O que sucede é que para nós essa violência é legitimada por razões que se dizem culturais. Nós ainda banalizamos muito facilmente. É ainda prevalecente a ideia de que a mulher é que é culpada, porque ela é quem provoca a violência. Ainda achamos que este assunto não tem a ver connosco, que é para ser denunciado pelas ONGs. Isto é,


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desresponsabilizamo-nos. Mesmo sendo mulheres, achamos que este assunto tem a ver com os outros. Mesmo sendo homens, que têm mães, irmãs e filhas, achamos que isto não tem nada a ver connosco.

mim. Nessa altura, já não havia mais ninguém para reclamar.” O segundo texto é um apelo na forma de verso, escrito pelo dramaturgo Bertolt Brecht: “Nós pedimos-vos com insistência: Nunca digam - Isso é natural. Diante das barbaridades de cada dia, Numa época em que corre sangue Num tempo em que a arbitrariedade tem força de lei, Num momento em que a humanidade se desumaniza Não digam nunca: Isso é natural Se aceitamos as coisas como naturais este nosso mundo torna-se imutável

OUTRA GUERRA - AS VIÚVAS Sugiro que leiam o livro de Fabrício Sabat, chamado “As viúvas da minha terra”, para ficarem com uma ideia do crime generalizado que é cometido contra mulheres que vivem um momento dramático da sua vida. E nesse exacto momento de fragilidade, são assaltadas pelos próprios parentes. Levam-lhes os bens, os filhos, o sossego. CASO DAS VELHAS Acusadas de feitiçaria, roubaram-nas durante a vida, fizeram sumir a sua infância e juventude e, no final, roubaram a possibilidade de uma velhice tranquila, usufruída com os netos e as lembranças. Está longínqua a imagem de África como um lugar especial porque os velhos são respeitados. GUERRA CONTRA OS GAYS E AS LÉSBICAS Moçambique nem é dos países menos tolerantes. Há países que consideram formal e legalmente um crime o simples facto de ser ter uma orientação sexual diferente. Mesmo assim, há entre nós, uma enorme intolerância. CASO DOS DOENTES MENTAIS Nós estamos tão ocupados com outras doenças que esquecemos que não é apenas o HIV SIDA que tem implicações do ponto de vista do estigma social. As doenças mentais são outro mal não visível. Não creio que existam estatísticas da prevalência de doenças mentais em Moçambique. Mas a média em África é de 14 por cento da população. ALBINOS Vou contar-vos um episódio real. Conheci um pedreiro que chamarei apenas por Fabião, que certa vez executou uma obra para minha casa. Um dia, uma moça albina veio à minha porta pedir água. O pedreiro desceu do escadote onde trabalhava para me dar conselhos: “é melhor não dar, ou usar um copo que depois deita fora”. Quando lhe perguntei porquê, ele respondeu: “aquela tjidajna é alguém que tem muitos problemas”. E reproduziu os habituais mitos e preconceitos sobre os albinos. No final confessou: “ainda bem que na minha família nós não temos disso». Passaram-se anos e a semana passada o mesmo Fabião ligou para mim a perguntar se era possível entrar sem convite na exposição “Filhos da Lua”, na Fortaleza de Maputo. Ele ouviu na rádio que a exposição tinha por tema “os albinos” e estava muito interessado em levar a sua filha a esse evento. “É que a minha filha nasceu albina.” Fabião não podia nunca imaginar ser pai de uma tjidjana. Mas foi. E ele agora, por amor a essa menina, que-

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ria enfrentar junto com ela os preconceitos que ele mesmo guardava dentro de si. Chamei Fabião e ofereci-lhe que levasse para a sua filha dois discos. Um de Salif Keita, outro do nosso Aly Fake. E disse “esses são os melhores copos de água. Refrescam a alma”. Muitas vezes pensamos que essas diferenças vivem fora de nós. A diferença está dentro de nós. Um em cada 35 moçambicanos é portador do gene do albinismo. Um em cada 35 pessoas é portador dessa gente. Nenhum de nós sabe à partida se poderá ser pai ou mãe de uma criança albina. GUERRA COM OS MORTOS Até aqui falei de conflitos com mulheres, crianças, velhos. Mas todos esses segmentos sociais são compostos por gente viva. O mais triste é que a nossa sociedade entrou em guerra com os seus próprios mortos. Este é o sintoma mais grave da nossa patologia social: passamos a maltratar até os nossos mortos. O que acontece nos nossos cemitérios é um atentado contra os mais básicos princípios morais. As famílias enterram os seus entes queridos e são obrigadas a retirar o mais ínfimo valor que acompanhe o falecido. Sabem que no dia seguinte, o caixão foi assaltado, o morto foi despido. As próprias jarras de flores são quebradas antes de serem colocadas para prevenir que sejam roubadas e vendidas. Não contentes em assaltarem os

vivos, há gangs que se especializaram em roubar os mortos. Nem depois do último suspiro estaremos a salvo dos ladrões. Meus amigos Eu disse que estávamos em guerra connosco mesmos. Esta guerra doméstica compõe-se de duas violências. A violência daqueles que agridem. E a violência dos que se calam. Marthin Luther King disse O que me entristece não é apenas o clamor dos homens maus. É o silêncio dos homens bons. A lista das nossas guerras domésticas estende-se por mais domínios. Os exemplos que escolhi ilustram o facto de que não somos a sociedade pacificada que pretendíamos ser. Há um percurso enorme a percorrer e esse caminho é sobretudo uma viagem interior. Essa viagem só acontecerá se vocês souberem ver, souberem não aceitar. Tudo o que aqui disse pode ser resumido em dois textos pequenos de autores alemães. Peço-vos que escutem. O primeiro é uma parábola e diz o seguinte: “Um dia, vieram e levaram o meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram o meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram o meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e levaram-me

Caros amigos O nosso tempo também está em guerra contra os jovens. À nossa frente, e não falo apenas de Moçambique, se anunciam tempos difíceis. À nossa frente está um futuro magro em que parece que apenas alguns podem caber. O que nos sugerem é que briguemos uns com outros para ver quem cabe nessa estreita porta. Mas talvez seja possível criar um outro futuro mais amplo. Vão ser assediados. Por forças políticas que estão mais preocupadas com o Poder do que com a resolução efectiva dos problemas. Por forças que se lembram dos jovens quando se trata de colher votos. Por forças que falam aos jovens, não falam com os jovens. Vocês são jovens. Ser jovens é uma condição inerente, que se exerce sem esforço. Mais do que jovens, sejam diferentes. Tragam para o nosso tempo o inesperado, o que é novo, o que é historicamente produtivo. Uma nova classe está povoando o poder político em Moçambique. São os papagaios. Reproduzem o discurso dos chefes. A maior parte deles são jovens. Mas são jovens de alma envelhecida. Os papagaios podem pensar que o seu futuro está assegurado porque olham o país como se fosse um aviário. Mas o nosso futuro como nação não se constrói senão com ousadia, com vitalidade e um infinito respeito pelos outros. Ficamos muitas vezes à espera, ficamos à espera que o governo faça. Temos medo de tomar iniciativa. Achamos arriscado. Não agimos porque dizemos que faltam recursos, falta orçamento, falta autorização do chefe. Mas existem lições que parecendo pequenas podem tocar alguém para toda a vida. O professor primário que leu uma redacção sobre as mãos calejadas de sua mãe não imaginava que estaria marcando para sempre um aluno seu. O poeta William Henley não poderia imaginar que versos seus poderiam sustentar, cem anos mais tarde, a vontade de lutar de um africano que iria mudar o destino de milhões de pessoas. Fazemos o que fazemos não porque sejam grandiosas iniciativas mas porque necessitamos mudar as coisas e melhorar o mundo. Fazemos o que fazemos porque, como diz o poema, nós queremos ser donos do nosso destino e capitães da nossa alma colectiva.


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C H I N A C

朱家角ZHUJIAJIAO, 周庄Z

Três pequenas ve

António Graça de Abreu ZHUJIAJIAO FICA situada ainda dentro do mapa urbano do grande município de Xangai, uns cinquenta quilómetros a oeste dos arranha-céus de Pudong, alguns deles os maiores do mundo. E que diferença!... É uma vila pacata e repousante encostada a nove colinas que cresceu, nobre e nostálgica, em volta do lago Dianshanhu, cruzada por pequenos canais, atravessada por trinta e seis pontes de pedra, cortada por nove ruas, tudo números auspiciosos de acordo com o fengshui, a geomância chinesa. Estamos num lugar com mil e setecentos anos de idade que, para bem do visitante, parece suspenso na roda, no carrocel da História. Que bom sair da confusão da megalómana Xangai e uma hora depois desaparecer por detrás das velhas casas da dinastia Ming encalhadas na berma do lago e dos canais, entrar no colorido do templo

taoista dos Deuses da Cidade, saudar de esguelha estas divindades onde quase tudo soa a falso, e depois deixarmo-nos conduzir por um gondolieri chinês, como os de Veneza, numa barca pelas águas verde pálidas que afagam o coração do burgo. Por aqui ficar, num hotelzinho barato mas decente, adormecer em paz e sonhar com a Zhujiajiao de mil e quinhentos, do tempo do nosso rei D. Manuel, povoada por gente laboriosa, pescadores, mercadores, camponeses e meninas de jade entre leques e lençóis de seda... Após curta viagem para norte, chegamos a Zhouzhuang, já na província de Jiangsu. Outra pequena cidade também mergulhada no alicerce dos séculos, entre lagos, rios e canais. Na primeira visita, no Verão de 2004, trouxe sete valentes portugueses. Viemos desde Xangai meio à aventura, num autocarro público cheio de chineses e, para alvoroço e prazer de todos, por aqui en-

caminhámos nossos passos no fascínio de mais um pedaço exemplar da China milenar. Fazia muito calor e prometi aos meus companheiros que, para o almoço, havia de descobrir um restaurante com ar condicionado e vista sobre os canais e o velho burgo. Junto a Shuangqiao, na Dupla Ponte que data da dinastia Yuan (1279-1368), lá estava uma simpática e vetusta casa de comidas. No primeiro e único andar, com janelas envidraçadas sobre um dos canais, existia uma sala só para nós, com um rudimentar mas funcional ar concidionado. A lista de iguarias estava toda escrita em chinês, os nomes eram arrevezados, wo pu tong, “eu não entendo”. Fui à cozinha escolher a comida. A especialidade do lugar são uns deliciosos pernis de porco assados temperados com especiarias da região, primos afastados dos eisbein alemães e dos pernis que conhecemos por terras lusas. Atabancámos e enchemos a mesa com perna de porco e mais uma dezena de capri-

chosos pratos de comida regional, delícias locais. Comemos como ricos mandarins em viagem, bebemos uma enormidade de cervejas bem geladas e limpámos uma garrafa de Wuliangye, uma aguardente obtida a partir da fermentação de cinco cereais, com 52 graus, famosa em toda a China. Não saímos todos do restaurante a cantar o “Bailinho da Madeira”, porque enfim, era preciso manter um certo decoro lusitano. Regressei a Zhouzhuang em 2009, para estadia mais prolongada. Deu para visitar serenamente o templo budista de Quanfu, da Felicidade Completa. Aí, reclinado no sorriso de Buda, esvaziei a mente iluminado pela brisa do vazio e deixei a alma levitar por estas terras planas do arroz e do peixe. Dormi num hotelzinho de três estrelas, bem enquadrado na arquitectura Ming e Qing da cidade, com as paredes das casas caiadas de branco e os telhados negros levemente revirados. Dentro das habitações, havia salões, quartos e uma sucessão de pá-


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ANTÓNIO GRAÇA DE ABREU

R Ó N I C A

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ZHOUZHUANG, 同里TONGLI

venezas chinesas tios e jardins. À noite fui assistir a um espectáculo de cantos e danças que teve lugar num palco enorme no cenário natural de um canal enquadrado pelas velhas casas de Zhouzhuang. Muita cor, barcos enfeitados, música estridente, quase duas centenas de pessoas em cena – aqui como em quase toda a China, a mão de obra é barata! – e o show terminou com um animado casamento à moda da terra. No final do espectáculo, fui tirar uma fotografia com a hong niang, a casamenteira, a imprescindível intermediária nos matrimónios tradicionais chineses, e com a formosa noiva. Tongli, a vinte e cinco quilómetros de Zhouzhuang, já muito perto de Suzhou, apresentou recentemente a sua candidatura a cidade Património Mundial pela Unesco. Será talvez a mais bonita destas três mini-Venezas, toda rodeada por canais e com mais um grande lago a seus pés. Visitada na Primavera de 2011, deixou-me o travo amargo de não poder permanecer ali du-

rante uma semana, como seria recomendável. Mas havia que continuar viagem rumo a Suzhou e a estada foi apenas de um dia, com almoço num restaurante velho de duzentos anos – a antiguidade estava escrita na fachada, mas pode ser mentira! O passeio curto por esta típica vila aquática, 水 乡 shuixiang em chinês, deu para sentir as ambiências da bonita Tongli, retratada na paleta de pintores e, no papel, nos caracteres sensíveis dos poetas. Na parte norte da terra existe um original museu da Antiga Cultura do Sexo que veio transferido desde Xangai e, pela sua raridade e originalidade, vale todas as penas visitar. As fotos falam por si e basta ver na fotografia o contentamento desta jovem chinesa diante do vigor e potência do macho acorrentado. Cinquenta e cinco pontes de pedra atravessam os canais em Tongli e três delas assumem-se como especialíssimas. Dão pelos nomes de Changqing ou da Longa

Vida, Jili ou dos Bons Auspícios, Taiping ou da Grande Paz. São sobejamente conhecidas porque, quando da realização de um casamento, os noivos devem-nas atravessar exactamente para garantir uma longa vida, bons auspícios e uma grande paz para os nubentes. O mesmo se aplica a uma criança que nasce e é ver o bebé nos braços da avó ou da mãe a atravessar as pontes. Na casa senhorial de Chongben, no meio de um harmonioso jardim, fui encontrar um conjunto de baixos-relevos em madeira com gravuras de “O Pavilhão do Ocidente”, a mais famosa peça de teatro da China escrita no século XIII e que foi a minha primeira tradução do chinês, já lá vão quase trinta anos. Como costuma acontecer nestes trabalhos, a publicação da peça passou ignorada e despercebida em Portugal.1 Depois caminhei em direcção ao grande lago e escrevi um poema:

As antigas vilas lacustres, água, pedra, jade mais o labor dos homens. Pontes ziguezagueiam ao acaso, canais e casas mergulham no alicerce dos séculos, templos, terraços, o canto das mulheres de Wu. Gentes da terra, os olhos acompanhando o fluir das águas, os corações batendo devagar, amando no beijo da brisa da Primavera, suando no calor húmido do Verão, recolhendo-se na noite luminosa de Outono, respirando a neve fria num Inverno triste. Em Tongli, um barco e um velho pescador, sereno a caminho do lago, príncipe das águas e da névoa.

1 - Wang Shifu, O Pavilhão do Ocidente, trad. António Graça de Abreu, Macau, ICMacau, 1985.


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P R I M E I R O B A L C Ã O

luz de inverno

Boi Luxo

WERNER SCHROETER

DER TOD DER MARIA MALIBRAN, 1972

Bald bist du ein engel im himmel (em breve serás um anjo no céu) Descrição : Maria Malibran foi uma cantora de ópera oitocentista nascida em Paris numa família de músicos de origem espanhola. Este filme de Werner Schroeter exibe, entre outros episódios, quadros relativos à vida e à figuração de Malibran, figura icónica da moda operática da época romântica. Da sua vida curta e excessiva e do seu temperamento colérico sai a cor vermelha que colora os lábios dos rostos do filme. Se este apenas a mais de meio se começa a debruçar mais directamente sobre a vida da famosa diva é porque ele, que é uma celebração aveludada da nobreza e da beleza da morte romântica, encontra outros modos de se apresentar que não sejam a narração linear. Curiosamente, alguns dos seus projectos mais radicais, de inícios dos anos 70, foram apenas possíveis graças ao apoio de um pequeno departamento experimental da ZDF. Terá a morte de Malibran sido causada pelo desenvolvimento das complicações que uma queda de um cavalo nela provocou, como se depreende da sua biografia? Ou terá esta origem na sua prodigiosa tessitura, como Schroeter insinua, uma espécie de morte causada pelo canto, uma espécie de morte causada por um excesso de arte? Os rostos que obsessivamente percorrem

esta história ilustram um ponto essencial do programa cinematográfico de Schroeter (que foi também, inevitavelmente, encenador de teatro e ópera): a exibição de um sentido do maravilhamento que não anda muito longe de uma ideia de uma arte “mais total” que a do cinema tradicional, a par da exibição de uma disponibilidade para o poder sugestivo do rosto. Assim fez Andy Warhol e assim fez o próprio Schroeter a propósito de um outro filme sobre a mais icónica de todas as cantoras líricas do século XX, outra Maria, outra figura excessiva, que a Malibran prefigura – Maria Callas. O filme é um filme de stills animados - Maria Callas Portrait (1968). Se outros autores alemães muitas vezes se utilizaram da ópera como elemento do excesso e do espectáculo, como Syberberg, Kluge, Straub e Huillet ou (mais conhecido) Herzog, nenhum é tão essencialmente operático como Schroeter. Nele, a ópera é essencial à gramática de toda a sua obra. Adjectivação : Der Tod der Maria Malibran é um filme musical insuportavelmente romântico, de um sumptuoso romantismo de sabor alemão, abandonado e desesperado, quase tribal. Nele assistimos a uma longa récita sobre os momentos (que podem ser toda uma vida) que antecedem a morte. Este é o filme que todos os realizadores desejaram fazer mas não ousa-

ram. Vejo um desejo idêntico em alguns instantes do doloroso As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Fassbinder, um dos muitos admiradores alemães do cinema de Schroeter. Uma sucessão bestialmente desorganizada de rostos acusadores da nossa falta de compaixão e compreensão, um canto desesperado à ausência e à falta, um exemplo perfeito da actualizção possível do sehnsucht alemão em imagens e música, uma tentação que encontramos deliciosamente desenvolvida num filme mais tardio, rodado em Portugal, Rosenkönig (não é o único). A falta deliberada de sincronia e o aparente desfazamento dos vários episódios que compõem o filme da Malibran, as mudanças bruscas de tom e de estilo, a diversidade das escolhas musicais - que varia entre a música séria e o exemplo kitsch ligeiro - ilustram a admiração por um outro génio animalesco e surreal, o de Lautréamont. Do encontro destes gostos - da disposição operática romântica (especialmente italiana) e da música ligeira, do gesto vampírico, do surrealismo primitivo de Lautréamont, do paisagismo gélido de Caspar David Friedrich - promana este produto lânguido e essencialmente bondoso cuja seriedade e delícia só poderão ser desfrutadas por aqueles com uma inclinação semelhante. Infelizes os que se não deixam tocar por este encantamento.

Conclusões : Este filme de Schroeter, recentemente chegado à disposição do público, pertence a um tipo de filmes extremamente necessários ao entendimento do papel do cinema actual. Nele se inscreve uma necessidade violenta de explorar o que nele deve ser puramente artificial e deliberadamente caótico. Nele se inscreve uma necessidade de entender o modo como a pura verdade pode ser inventada. Contra a ditadura do realismo e do seu cortejo de misérias. Depois de Der Tod Der Maria Malibran e Chronik der Anna Magdalena Bach, 1968, de Straub e Danièle Huillet, todos os filmes me parecem estúpidos e inúteis. A figuração da morte de Maria Malibran, que morreu tão nova, instiga apenas dois tipos de reacção ao cinema actual: o desprezo total ou uma militância violenta, a sua geometria poética de uma sinuosidade fluvial imparável. A sucessão sensual de tableaux vivants que Schroeter muito generosamente nos oferece (seria difícil imaginar realizador mais generoso) atravessa uma paisagem sentimental e natural inclementes. Com Der Tod Der Maria Malibran o realizador alemão condena-nos à busca da sua constante re-actualização. Este filme será sempre um anjo no céu. Ps: decorre presentemente, entre dia 11 de Maio e dia 11 de Junho, no MoMA, em Nova Iorque, uma gigantesca retrospectiva da obra de Schroeter.


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T E R C E I R O O U V I D O

próximo oriente

Hugo Pinto

UMA CONVERSA NO TEXAS COM A “INDIECHINA” EM FUNDO II No último texto, a conversa da conferência que tinha por título “Why the Global Music Industry Needs China”, no festival norte-americano South by Southwest (SXSW), ficou no ponto em que os intervenientes repetiam as palavras que ouvimos muitas vezes da boca de empresários ocidentais com olho posto no Império do Meio: o negócio da música, na China, “é um investimento e tem que haver uma visão de longo prazo”, pois “as coisas acontecem devagar”, observava Tony Ward, antigo executivo de várias editoras multinacionais sedeado em Hong Kong, cidade a partir da qual dirige a empresa de consultadoria e “marketing” musical Man On the Ground. Se é verdade que, na China, por regra, o retorno dos investimentos surge a passo de caracol, o mesmo não se pode dizer do ritmo de determinadas dinâmicas sociais. Tomemos o exemplo dos festivais de música. Há poucos anos, em toda a China havia uns três ou quatro – o primeiro inteiramente dedicado a música electrónica realizou-se em 2009. Actualmente, estima-se que haja cerca de 150 festivais organizados em cidades de todo o país. Esta verdadeira explosão é encarada de forma positiva tanto por parte das bandas chinesas como de bandas estrangeiras. Neste contexto, parece óbvio que a indústria da música precisa do país mais populoso do mundo. Li Si Si, fundadora da S.T.D. Promotions, uma das maiores empresas de promoção de eventos musicais da China, entende que qualquer indústria verdadeiramente global precisa da China, “um grande mercado de consumo”, para afirmar-se. Da perspectiva das bandas e das próprias editoras, acrescenta Tony Ward, “as actuações ao vivo são cada vez mais importantes” enquanto fonte de receitas, devi-

do à quebra das vendas de discos. Por isso, “fazer uma digressão na China representa uma grande oportunidade”. No país, observa Ward, há cerca de uma centena de cidades com mais de um milhão de habitantes. Em muitos aspectos, a China apresenta um crescimento inconsistente, ora pautando-se por mudanças bruscas sem impacto profundo ou duradouro, ora por mudanças de grande significado, mas que demoram demasiado tempo a tomar forma. Na opinião de Josh Feola, norte-americano que vive na China, onde trabalha na promoção da música experimental e “avant-garde”, há a reter duas mudanças essenciais: por um lado, pela primeira vez na história da música alternativa chinesa, há hoje bandas que reclamam influências de outras bandas chinesas – “um pólo geracional cativa mais jovens” –, algo que Feola considera “prometedor”. Por outro lado, uma mudança ainda mais recente, “com um ano ou menos”, nota Feola, está relacionada com o cada vez maior número de edições e iniciativas feitas de acordo com um princípio “sagrado” dos tem-

pos áureos do Punk, o DIY (“Do It Yourself”). O fenómeno, diz Feola, é novo, mas está por todo o lado: jovens que estabelecem editoras DIY, que vendem cassetes e discos de vinil que eles próprios editam. Para Feola, o movimento é um sinal de que “estes jovens entendem a música, sobretudo, como uma forma de arte. Valorizam o produto físico, produtos pensados, concebidos do princípio ao fim.” No limite, isto significa que as pessoas vão encarar e pensar na música “como uma forma de expressão”, o que irá atrair “pessoas criativas” para todo este processo. Esta espécie de regresso às origens que, na China, é transversal a outras expressões artísticas, é bem vista, também, por Charles Saliba, o moderador do debate, e um dos fundadores da editora Maybe Mars, sedeada em Pequim, considerada a segunda maior editora independente da China. Saliba é o primeiro a admitir que a editora “não dá dinheiro”. No entanto, diz, “a criatividade é incrível” e é isso que o faz mexer. Compara o que acontece na China com o que se passa na Europa e nos Estados Unidos, onde “os putos já não

olham para os 60 anos de cultura popular, de história do rock, mas apenas ouvem o que está a dar no momento, o que está na moda.” Isso, aponta Saliba, faz com que as bandas soem todas iguais. Na China, isso não acontece, e Saliba dá o exemplo da própria Maybe Mars, em que não há duas bandas com o mesmo tipo de som ou de influências. O optimismo acabou por ser o tom geral do debate, que contou ainda com a participação de Xi Chen, vocalista da banda Snapline, presente na mais recente edição do SXSW. Foi Xi que contou que “já há clubes com música ao vivo nos bairros universitários”, uma verdadeira revolução se tivermos em conta que nas universidades chinesas entra-se apenas para duas coisas: estudar e estudar. O vocalista mostrou-se convencido de que “a mentalidade dos jovens está a mudar no sentido em que estão mais interessados em melhoras, são mais críticos e mais participativos”. Mas, quando vão os putos americanos e europeus ter quatro ou cinco bandas chinesas nos seus leitores de mp3?

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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

metrópolis

VILLA HYUGA O DIÁRIO japonês de Bruno Taut contém a seguinte entrada para 20 de Setembro de 1936: “Domingo, com um grupo de amigos e o escritor, e fotógrafo, da “Asahigraph” (“revista ilustrada de Tóquio”) fomos a Atami, a casa de Hyuga. Finalmente, também aqui, depois de cinco anos, o que tantas vezes tivemos o prazer de fazer em Berlim: revelar uma construção acabada ao olhar crítico de amigos e pessoas queridas... Eu também estava cheio de curiosidade, animado e feliz por me encontrar lá, perante o meu trabalho, concluído em todos os seus detalhes ... “. O projecto para a conclusão da Villa Hyuga não é apenas a única obra de arquitectura realizada por Bruno Taut durante a sua permanência, de dois anos e meio, no Japão. É também o seu primeiro trabalho depois de cinco anos de inactividade, após as dificuldades em Moscovo, e a sua última obra a ser concluída em detalhe. No mesmo período, durante o qual Taut trabalhou no projecto da Villa Hyuga, entre meados de Abril de 1935 até finais do mês de Julho de 1936, Taut também havia concluído sucessivas fases de trabalho na fachada e projectado o mobiliário e tapetes da Villa Okura. Este edifício havia sido desenhado pelo seu amigo, o arquitecto Gonkuro Kume. A habitação do casal Hyuga, localizada na cidade de Atami, na costa do Pacífico a oeste de Tóquio, tinha sido projectada, em 1934, pelo seu proprietário com base em critérios de funcionalidade e bom gosto. O Senhor Hyuga tinha sido capaz de combinar, com grande clarividência, pavimentos de madeira para cadeiras e plataformas elevadas a 35 cm para tatamis, fazendo com que os dois estilos de vida japonesa fossem possíveis na mesma sala: pessoas sentadas em tatamis e outras sentadas em cadeiras. Taut foi surpreendido por esta

conjugação quando pela primeira vez visitou a casa: “Que invulgar… na casa do Senhor Hyuga, ele e a sua mulher sentam-se em tatamis, enquanto que nós nos sentamos em cadeiras, de frente para eles” (18 de Abril de 1935). Fazer uma casa japonesa moderna significava alcançar uma espécie de síntese entre uma linguagem arquitectónica “ocidental” e um estilo arquitectónico japonês. Em resultado da utilização de cadeiras e também de mesas mais elevadas, do que os habituais 25-30 cm usados com os tatamis, Taut sentiu, por exemplo, a necessidade de propôr tectos mais altos. A Villa Hyuga está situada numa encosta íngreme, beneficiando de uma impressionante vista do Oceano Pacífico. Com vista a criar espaço para um relvado, em frente da casa, Hyuga tinha construído uma plataforma artificial, com cerca de 8 metros de altura e 25 metros de largura, assente numa base em betão armado delimitada por uma parede de um metro de altura e coberta com telhas. A missão de Taut era completar o longo espaço criado como uma subestrutura após a inserção da fundação. A encomenda da obra chegou através de um admirador de Taut e amigo de Hyuga que também contribuiu para o financiamento da obra, Tokugen Mihara. Os espaços por baixo do “jardim suspenso” não deviam ser espaços de vida do dia-a-dia, mas antes salas para festas e entretenimento, também adequadas a actividades tradicionais, como a cerimónia do chá. Taut desenhou três salas, duas “ocidentais” e uma japonesa. A primeira sala, para dançar e jogar pingpong, é composta por duas secções quadradas. O efeito é agradável, apesar da estrutura rígida do ângulo recto. Uma porta de correr separa e une a sala de entretenimento “barulhenta” e um segundo espaço, mais intimista. O tecto cinza

claro é mais alto do que nas outras salas, recebendo iluminação indirecta a partir de uma cornija que se projeta para baixo. A sala japonesa é mais abstracta e austera. Está separada da “zona de estar” por grandes portas de correr cobertas com papel, enquanto que a parede superior, permeável ao ar, é coberta com uma grelha muito fina inserida numa armação de madeira. A sala japonesa pode ser completamente aberta para o mar e para uma varanda lateral, parecendo estar suspensa como uma ilha sobre o piso inferior dos quartos vizinhos. Numa carta ao seu colega Martin Wagner, que se tinha mudado para Istambul em Junho de 1936, Taut não esconde um certo orgulho a propósito da sua condição nos três anos anteriores: “Eu construí um grupo de espaços em estilo clássico japonês, extremamente austeros na sua simplicidade e proporções, e ao mesmo tempo eu organizei-os por forma a que a grande parede com portas de correr se abrisse para as duas salas modernas, espaços com pavimento em madeira. Eu ficaria feliz se você pudesse ver a obra realizada”. Certamente que Bruno Taut não foi capaz de aplicar todo o seu conhecimento nesta pequena obra de arquitectura, mas o arquitecto germânico tinha que se sustentar, projectando todo o tipo de objectos de consumo. Taut tinha esperanças que Martin Wagner o pudesse ajudar a sair do Japão. E foi precisamente graças a Wagner que, em Novembro de 1936, Taut foi capaz de assumir o cargo de director do Departamento de Arquitectura da Academia de Belas Artes, e de director do Departamento de Escolástica e da Universidade de Construção do Ministério da Cultura de Instambul. *Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa

Tiago Quadros*


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À S U P E R F Í C I E

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O ATAQUE AO ENSINO PÚBLICO Noam Chomsky In Truthout

O ENSINO público está sob ataque em todo o mundo e, em resposta, realizaram-se protestos estudantis recentemente na Grã-Bretanha, no Canadá, no Chile, em Taiwan e noutros países. A Califórnia também é um campo de batalha. O The Los Angeles Times informa sobre outro capítulo da campanha para destruir o que foi o maior sistema de ensino superior público do mundo: “Funcionários da Universidade Estadual da Califórnia anunciaram planos para congelar as matrículas na próxima primavera, na maioria dos campus, e para pôr em lista de espera todos os candidatos no próximo outono, dependendo do que for decidido sobre uma iniciativa fiscal na eleição de novembro.” Cortes de financiamento semelhantes estão a ocorrer em todo o país. “Na maioria dos estados”, diz o New York Times, “são os pagamentos de propinas, não o dinheiro do estado, que cobrem a maior parte do orçamento”, de forma que “a era dos quatro anos nas universidades públicas a preços acessíveis, pesadamente subsidiadas pelo Estado, pode ter acabado”. As faculdades comunitárias enfrentam cada vez mais problemas semelhantes – e os cortes de financiamento chegam ao ensino secundário. A ideia de que beneficiamos, como nação, de uma educação superior, foi substituída pela crença de que são aqueles que recebem a educação que se beneficiam dela em primeiro lugar e por isso devem pagar a conta”, conclui Ronald G. Ehrenberg, administrador do sistema da Universidade Estadual de Nova York e diretor do Cornell Higher Education Research Institute. A descrição mais precisa, penso eu, é “Erro de projeto” [Failure by Design], o título de um estudo recente do Economic Policy Institute, que desde há muito é uma importante fonte de informação confiável e de análise do estado da economia. O estudo do EPI reexamina as consequências da transformação da economia, há uma geração, da produção doméstica à financeirização e à transferência da produção para outros países. Por projeto; sempre houve alternativas. Uma primeira justificação para o projeto é o que o prémio Nobel Jospeh Stiglitz chamou de “religião” que afirma que “o mercado leva a resultados eficientes”, e que recentemente enfrentou mais um revés esmagador com o colapso da bolha imobili-

Os cortes de financiamento, os aumentos das propinas, a empresarialização das universidades, a instituição do ensino para o teste e outros mecanismos que pretendem destruir o interesse dos estudantes e moldá-los, são exemplos deste ataque ária, ignorada por princípios doutrinários, desencadeando a atual crise financeira. Houve também denúncias de alegados benefícios da expansão radical das instituições financeiras desde os anos 70. Uma descrição mais convincente foi dada por Martin Wolf, correspondente económico sénior do Financial Times: “Um sector financeiro fora de controlo está a devorar a moderna economia de mercado desde dentro, tal como uma larva da marabunta come o hospedeiro onde foi depositada.” O estudo da EPI observa que o “Erro de Projeto” tem uma base de classe. Para os projetistas, foi um clamoroso sucesso, tal como revela a espantosa concentração de riqueza no 1% de topo, de facto no 0,1%, enquanto a maioria foi reduzida à virtual estagnação ou ao declínio. Em resumo, quando têm oportunidade, “os Senhores da Humanidade” aplicam a sua “máxima vil” – “tudo para nós e nada para os outros”, como há muito explicou Adam Smith. O ensino público massificado é uma das grandes conquistas da sociedade americana. Teve muitas dimensões. Um objectivo foi preparar agricultores independentes para a vida de trabalhadores assalariados que tolerassem o que encaravam como virtual escravidão. O elemento coercivo não passou despercebido. Ralph Waldo Emerson observou que os líderes políticos defendem a educação popular porque temem que “Este país está a encher-se de milhares e milhões de eleitores, e é preciso educá-los para os manter longe das nossas gargantas.” Mas educados de forma correta: limitando as suas perspetivas e compreensão, desencorajando o pensamento livre e independente e formando-os na obediência. A “máxima vil” e a sua implementação provocaram regularmente uma forte resistência, que por seu lado despertou os mesmos temores entre a elite. Há 40 anos, houve grande temor de que a população se estivesse a libertar da apatia e da obediência.

No extremo internacionalista liberal, a Comissão Trilateral – um grupo político não governamental a partir do qual foi desenhada em grande parte a administração Carter – tornou públicas em 1975 sérias advertências de que havia demasiada democracia, em parte devido a erros das instituições responsáveis pela “doutrinação dos jovens”. Na direita, um importante memorando de 1971, assinado por Lewis Powell, dirigido à Câmara de Comércio dos EUA, o principal lóbi empresarial, lamentava que os radicais estavam a tomar tudo – universidades, média, governo, etc. – e apelava à comunidade empresarial para que usasse o seu poder económico para reverter o ataque ao nosso apreciado modo de vida – que ele bem conhecia. Como lobista da indústria do tabaco, conhecia bem o Estado paternalista para com os ricos ao qual chamava de “mercado livre” Desde então, muitas medidas foram tomadas para restaurar a disciplina. Uma é a cruzada pela privatização – pondo o controlo em mãos confiáveis. Outra foi o grande aumento das propinas, até perto de 600 por cento, desde

1980. Este aumento produziu um sistema de ensino superior com “muito mais estratificação económica do que em qualquer outro país”, segundo Jane Wellman, ex-diretor do Delta Cost Project, que monitoriza estas questões. Os aumentos de propinas empurram os estudantes para a armadilha das dívidas de longo prazo e, assim, a subordinação aos poderes privados. Dão-se justificativas de base económica, mas muito pouco convincentes. Em países ricos e pobres, incluindo o vizinho México, as propinas mantêm-se gratuitas ou simbólicas. Isto era assim também nos Estados Unidos, quando eram um país muito mais pobre, depois da Segunda Guerra Mundial e muitos estudantes conseguiam entrar nas universidades sob a lei GI1 – um fator de crescimento económico singularmente alto, mesmo pondo de lado o significado em termos de melhoria de vida. Outro dispositivo é a empresarialização das universidades. Esta levou a um dramático aumento das camadas da administração, muitas vezes recrutadas fora em vez de serem oriundos da faculdade, como antes; e a imposição de uma cultura empresarial da “eficiência” – uma noção ideológica, não apenas económica. Um exemplo disto é a decisão das universidade estaduais de eliminar os programas de enfermagem, engenharia e ciências da computação, porque são caros – e acontece que são profissões onde há falta de mão de obra, como informa o The New York Times. A decisão prejudica a sociedade, mas está de acordo à ideologia empresarial dos ganhos de curto-prazo sem consideração pelas consequências humanas, de acordo com a máxima vil Um dos efeitos mais insidiosos afetam os professores e monitores. O ideal das Luzes na educação era plasmado na imagem do ensino como uma corrente que os estudantes seguiam a seu modo, desenvolvendo a sua criatividade e independência de espírito. A alternativa, a ser rejeitada, é a imagem de derramar água num vaso – muito furado, como todos sabemos da experiência. Esta última abordagem inclui o ensino para o teste e outros mecanismos para destruir o interesse dos estudantes e procurar moldá-los, de forma a melhor controlá-los. Hoje, isso é tudo muito familiar.


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O L H O S A O A L T O

gente sagrada

神农

José Simões Morais

O ANCESTRAL SHEN NONG Os sacrifícios a Shen Nong fazem-se no dia 26 da quarta Lua, que este ano aconteceu a 16 de Maio e apesar de no templo de Lin Fong haver uma estátua, poucos são os que o reconhecem. Um dos três Ancestrais, que viveram no terceiro milénio antes da nossa era, foi Shen Nong que, como chefe de uma tribo, ficou com o nome de Yan Di. Oficialmente é dito que nasceu em Suizhou, hoje província de Hubei, mas outros reclamam ter sido em Baoji, em Shaanxi. Terá vivido entre 2852-2737 a.C. e era chefe da tribo Jiang. Shen Nong, como deus da Agricultura e Medicina, representa o período em que a agricultura e os conhecimentos sobre as plantas têm um grande desenvolvimento e por isso é considerado que deu uma nova visão à sociedade desse tempo, já virada para o comércio. Impulsionador da agricultura, criador de instrumentos agrícolas e da confecção de roupas, Shen Nong descobriu o chá há cerca de 4750 anos, pois tinha o hábito de ferver a água antes de a beber. Ingeria plantas selvagens para classificar quais as comestíveis e as venenosas. Conta‑se que num só dia foi envenenado 72 vezes, mas foi salvo por umas verdes folhas tenras, de um arbusto com flores bran-

cas. Segundo a história, a sua barriga transparente permitia observar o que se passava dentro dos seus intestinos e estômago. Utilizou as ervas medicinais e ensinou ao ser humano as artes de curar, por isso se tornou também o Deus da Medicina. Está também ligado à tecelagem e à cerâmica. Shen Nong é o terceiro dos três Ancestrais, sendo Fu Xi o primeiro e Nu Wa o segundo, casada para salvar a humanidade com o seu irmão Fu Xi. E é a partir de Fu Xi e Nu Wa que se abarca Shen Nong, que pelas suas acções fizeram a transição dos arquétipos para o Neolítico. Com eles consciencializa-se um ciclo que fechou e definem-se os novos espaços, esses que chegaram até aos nossos dias, apesar desse ciclo já também ter terminado. Conhecido em cantonense por San Nong é também denominado o Imperador Terrestre e um dos cinco Imperadores do Céu, o Vermelho, que se localiza a Sul, com a virtude do Fogo, simbolizando o Verão. Nasceu em Suizhou, o seu mausoléu encontra-se no concelho de Yanling, na província de Hunan, e foi construído antes da dinastia Han, sendo renovado e ampliado em 1986. Shen Nong também é comemorado no dia 15 do primeiro mês lunar e nas festividades do duplo 9.


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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Aquilo em que outrora assentava a ordem é hoje a base do caos.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 5 Quando os líderes políticos arruínam seus países e destroem as suas terras, indo eles mesmos morrer às mãos de outros e sendo motivo de troça para todo o mundo, tal sempre sucede por causa dos seus desejos. *** Em tempos antigos, os governos exigiam pouco e as pessoas tinham o suficiente. Os soberanos eram benévolos e os seus ministros eram leais. Os pais eram gentis e os filhos obedientes. Todos agiam por amor e não existia ressentimento entre ninguém.

*** Nas guerras antigas não se matavam os jovens ou capturavam os velhos. Porém, aquilo que na antiguidade se considerava justo é hoje tido por risível. Aquilo que era considerado honrado outrora é hoje considerado vergonhoso. Aquilo em que outrora assentava a ordem é hoje a base do caos. Os chefes da mais alta antiguidade não ministravam castigos ou recompensas e, ainda assim, o povo não praticava o mal. Mas aqueles que hoje estabelecem governos não conseguem passar sem a lei para governar o povo. Um certo líder antigo subjugou as tribos desordeiras apenas através de uma dança marcial; porém, aqueles que hoje se encarregam

de acções de policiamento são incapazes de controlar os fortes e violentos sem recorrerem às armas. No espaço de uma geração, aquilo que é cultural e marcial pode mudar em termos de significado relativo, desde que hajam ocasiões em que cada um seja útil. Porém, hoje em dia, os que seguem uma abordagem marcial desprezam a cultura e os cultos desprezam o que seja marcial. Os adeptos das artes marciais e culturais rejeitam-se uns aos outros, ignorando as suas funções assim como exigidas pelos os ditames dos tempos.

Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

HUAI NAN ZI (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


FERNANDA DIAS Uma leitura do

YI JING O SOL, A LUA

E A VIA DO FIO DE SEDA A nova tradução do livro que há milénios ilumina a civilização chinesa


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