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h - Suplemento do Hoje Macau #70

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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nツコ 2775. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

MACAU

A QUALIDADE DEVIDA


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O ENIGMA Macau e a Qualidade de Vida

Pedro Lystmann

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STÁ na moda fazer listas de qualidade de vida. Está na moda fazer listas sobre a qualidade de vida em cidades e em países e está na moda fazer listas sobre a felicidade. A revista Newsweek, há uns dois anos, elegeu a Finlândia o Melhor País do Mundo. Percebe-se muito bem a ideia e ainda se percebe melhor a irritação que estes exercícios causam junto de algumas pessoas. A revista Monocle é responsável por uma selecção anual das 25 melhores cidades do mundo. São muitos os detractores deste hábito e a Monocle, tenda-se a concordar, é uma revista irritante. Mas tudo isto não invalida que os critérios que nesta revista presidem à selecção anual da mais liveable city do mundo não possam ser usados para uma apreciação geral do que poderá constituir a qualidade de vida numa dada cidade. O que tem sido criticado é a propensão da revista para premiar cidades demasiado arrumadinhas, como Zurique, ou uma visão global que tende para elogiar cidades de países ricos, ocidentais ou ocidentalizados. Pessoalmente, sou sensível às críticas que apontam para a ausência de cidades vibrantes como Beirute ou Rio de Janeiro mas aceito que estas aqui não figurem por não preencherem critérios relativos a segurança ou qualidade da rede de transportes. Não existem aqui cidades caóticas, mas existe um espaço dedicado a certas cidades que, não preenchendo certos critérios importantes, exibem um charme e uma qualidade de vida próprias, como sejam as duas acima referidas, Istambul, Taipé ou uma ou outra cidade italiana. Existe ainda um outro aspecto que não parece ser lembrado com a frequência desejada, o de que muitas destas cidades têm um clima desagradável durante grande parte do ano. Seria despropositado esperar que uma cidade como Macau pudesse preencher muitos destes critérios de um modo brilhante (Paris tem mais de 200 ligações ligações aéreas intercontinentais e mais de 400 destinos aéreos) mas usar alguns deles como ideal poderá funcionar como modo de melhor identificar algumas das suas insuficiências mais brutais. De qualquer modo, existe, em relação a Macau, um misterioso enigma. Esta é uma cidade onde existe uma qualidade de vida muito difícil de identificar de modo preciso. Essa qualidade continua a exisir mesmo que sectores como os da saúde, educação, transportes, cultura, planeamento

George Grosz, O Eclipse do Sol. Na capa: George Grosz, Metropolis

Certos sectores vitais para a qualidade de vida de uma cidade são, na lista da Monocle, pouco referidos porque se parte do princípio que estão, em lugares com um nível de vida muito elevado, plenamente assegurados – o que em Macau não acontece. É o caso dos sectores da saúde, da educação ou do acesso a deficientes, em Macau profundamente insuficientes e incompreensivelmente desajustados ao nível de riqueza que a cidade consegue.

urbano, entretenimento ou acesso à natureza sejam extremamente deficientes, reveladores de um misto de falta de visão e ousadia, de ignorância, e de profundo provincianismo e infantilidade. Certos sectores vitais para a qualidade de vida de uma cidade são, na lista da Monocle, pouco referidos porque se parte do princípio que estão, em lugares com um nível de vida muito elevado, plenamente assegurados - o que em Macau não acontece. É o caso dos sectores da saúde, da educação ou do acesso a deficientes, em Macau profundamente insuficientes e incompreensivelmente desajustados ao nível de riqueza que a cidade consegue. Para manter alguma actualidade uso como exemplo as selecções dos anos de 2010 e 2012, encabeçadas respectivamente pelas cidades de Munique e Zurique. Listo os vários critérios apenas pela ordem em que eles aparecem, em esquema, junto da designação da cidade. Nem todas as cidades apresentam dados sobre todos os critérios. O primeiro diz respeito ao número de voos que se podem tomar dos seus aeroportos, na lista de 2010 sendo Paris a cidade que mais opções intercontinentais oferece. Convém lembrar que Macau continua a permitir um número muito limitado de voos, muitos dos quais apenas para cidades chinesas, através de uma companhia aérea local cuja reputação é tudo menos aérea. O segundo critério, o da segurança, é um dos poucos em que Macau poderia brilhar, não pela acção da sua polícia ou de qualquer política eficaz de dissuasão, mas pura e simplesmente porque a cidade tem pouco crime. Em 2010, a cidade que apresenta menos homicídios, apenas 4, é Lisboa, Tóquio 131. É surpreendente verificar que muitas cidades setentrionais registam um número médio de horas de sol não muito abaixo da média de Macau - 1966 horas por ano, visto na internet. (Segundo o SCMP, HK registou em 2012 um dos anos mais negros dos últimos tempos, com apenas 1550 h). Honolulu é a mais solarenga (3041 horas), Berlim a mais escura (1717 horas por ano), Munique a mais próxima (1907). Este será um dado difícil de melhorar pela administração local. Outro em que Macau brilharia, por razões óbvias, é o da taxa de desemprego (Madrid 18.65%, Singapura 2.1% na revista do ano passado nos extremos das 25 cidades escolhidas). Um outro critério importante, difícil de contabilizar, diz respeito à tolerância. Apontam-se como exemplos positivos um programa de integração cultural para


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integração de imigrantes (em Munique), ou os cidades onde é permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo, como Vancouver. Como exemplos negativos referem-se ataques a estudantes indianos (em Melbourne) ou a legislação de Singapura em relação à homossexualidade. Não é fácil falar sobre este assunto, que por vezes envolve aspectos muito pessoais. Este escriba pensaria que em relação à nossa cidade há bastante descriminação, por vezes certamente hostilidade aberta, em relação a alguns trabalhadores de outros países asiáticos, a pessoas portadoras de certas doenças ou a pessoas com orientações sexuais desviadas da norma estabelecida. Além disso persiste uma latente, e subtil, energia autocensória que impede as pessoas de exprimirem com total liberdade as suas opiniões. Em relação à qualidade da assistência médica (um critério que não é apreciado em todas as cidades) o concurso de 2010 elogia as cidades de Munique (45 hospitais e 4799 médicos diz-nos a revista de 2012), Copenhaga, Zurique (cara), muito especialmente Paris. Este critério, em conjunto com a qualidade do ensino sobressaem, em Macau, como uma enorme e feia nódoa no sistema, as duas maiores, de uma perniciosidade a curto, médio e longo prazo que é difícil de definir. São sectores cujas deficiências são pouco visíveis, ao contrário, por exemplo, da arquitectura ou dos transportes, mas que corroem subtilmente o tecido social. Munique, Helsínquia (o melhor sistema de ensino do mundo, dizem os especialistas, gratuito), Estocolmo (mais de 53% de habitantes com educação superior), Oslo (com uma população aparentada a Macau em termos de números) são algumas das cidades a que se estende um elogio ao seu sistema de ensino. Melbourne (na edição de 2012) conta com 8 universidades públicas. Em Tóquio, em 2011, 65,5% dos estudantes liceais acederam à universidade. Em Macau, como se sabe, a habilitação académica de muitos funcionários da administração é bastante baixa. O sistema de transportes será um dos que mais sistematicamente implica com a vida quotidiana. É possível viver uma vida inteira sem entrar num tribunal ou num hospital mas impossível, numa cidade, fugir à influência diária do seu sistema de transportes. O de Macau, como se sabe, tem sofrido um pequeno melhoramento mas permanece de uso muito inconveniente (e crescentemente perigoso) a todos os níveis da sua oferta, a de táxis comparável à de uma cidade de terceiro mundo. Munique investiu muito na implementação de infraestrutura que permita o uso da bicicleta, em Helsínquia existem mais de 1000 kms de vias para bicicleta, em Copenhaga mais de 350km e mais de 50% dos seus habitantes desloca-se de bicicleta para o trabalho. Em Macau, o clima, a densidade populacional e de tráfego, o relevo e a mentalidade viária não ajudam ao uso da bicicleta mas poder-se-ia certamente fazer mais no sentido de criar mais interligações, para peões

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George Grosz, Sem título

Macau precisava de pedonizar muitas ruas e introduzir medidas duras de desincentivo ao uso de carro próprio, utilizar autocarros eléctricos e regulamentar o uso dos autocarros dos hotéis.

e bicicletas, criando rotas entre os espaços verdes, em Macau, e de fomentar o seu uso nas ilhas (mesmo que com mais intenção lúdica que para deslocação diária). Em Estocolmo mais de 90% da população desloca-se a pé, de bicicleta ou de transportes públicos. Macau precisava de pedonizar muitas ruas e introduzir medidas duras de desincentivo ao uso de carro próprio, utilizar autocarros eléctricos e regulamentar o uso dos autocarros dos hotéis.


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Otto Dix, Der Salon

A cidade de Quioto disponibiliza empréstimos a empresas para compra de veículos eléctricos. Um aproveitamento para fins recreativos dos aterros que se estendem do Centro de Ciência até à Torre de Macau, ou, pelo menos, de parte deles, seria um avanço imenso para a cidade. Penso em zona para peões, bicicletas, pequenos bares, esplanadas e restaurantes, mesmo piscinas à beira rio como existem hoje em tantas cidades europeias. Não é impensável, inclusivamente, combinar estas zonas públicas de lazer com a existência de prédios de habitação ou escritórios, fim para que os aterros terão sido concebidos.

BEBIDAS E COMPRAS

Estamos mal dos primeiros, especialmente no que toca a esplanadas (estamos mesmo muito mal) e à diversidade e qualidade de desenho dos bares e restaurantes. A subida das rendas, a dificuldade nos licenciamentos e uma atitude conservadora em relação ao lazer não permite o usufruto de bares e cafés que vemos, cheios de gente feliz, por todo o mundo. Macau deve ser a única cidade do mundo (talvez Riade) onde, no seu centro, boni-

to e único em toda a Ásia Extrema, não existe um único lugar, café, esplanada, bar ou restaurante aberto à rua onde um cidadão se possa sentar. Estadas recentes em Dresden, Frankfurt, Berlim, Lisboa, Kaohsiung, Hanói e Kuala Lumpur só fazem aumentar a incredulidade em relação a este estado de coisas. Por muitos exercícios que faça não consigo perceber a aversão local às esplanadas (inclino-me para o problema das rendas e dos licenciamentos). No segmento das compras, pelo menos, o horário de funcionamento das lojas permite um usufruto largo que inclui o fim de semana, mesmo que a qualidade do serviço e o nível de inglês seja baixo.

Fukuoka há 567 livrarias), escolas. Viena tem mais de 100 museus, 70 teatros e 4 óperas, um orçamento de mais de 300 milhões de euros em 2010 para a cultura, para além de uma nova biblioteca desenhada por Zaha Hadid. Berlim tem 450 galerias de arte, Geneva (uma cidade cara) dedica mais de 20% do seu orçamento à cultura. De Macau, a propósito desta área nem vale a pena falar. Está, basicamente, tudo mal, (ou inexistente) do ensino das artes à orientação dos festivais e da exibição de artes plásticas, da ausência de uma temporada decente de bailado e música ao incentivo à fruição artística da população em geral.

OS MEDIA

São muitas as cidades apreciadas nesta selecção onde se tem feito um esforço para adicionar à sua malha urbana edifícios modernos que mantenham a sua frescura e um diálogo equilibrado com os tempos como a Pinakothek der Moderne, em Munique, muitos edifícios novos em Fukuoka ou Tóquio. Macau, para além de um prémio, atribuído ao Hotel Novo Lisboa, de segundo prédio mais feio do mundo, tem pouco mais a ofere-

Macau vive sob a ditadura de um jornal apologético, mal escrito, pobrezinho e conservador. A televisão e a rádio parecem ter pouca expressão interventiva.

CULTURA

Um dos sectores onde as melhores cidades do mundo mais investem. Cinemas, teatros, museus, livrarias (em Macau não há nenhuma de dimensão aceitável, em

ARQUITECTURA

cer em termos de edifícios com grande impacto no rosto da cidade. De entre os novos complexos turísticos e de jogo não há nada definidor de qualquer diferença, imperando o lugar comum e o desenho bacoco. O edifício do Centro de Ciência continua subaproveitado e, com uma grande construção em fase de conclusão, o da universidade, teme-se o pior. Indecente é a maneira como hotéis de renome internacional, como o Conrad ou o Sheraton (ou mesmo o Four Seasons) se rebaixaram voluntariamente ao gosto local. Urgia fazer o que se tem feito na China, contratar arquitectos de renome (mesmo com o acompanhamento da sua máquina propagandística e de celebrismo pateta) para que Macau possa ter edifícios de que se fale lá fora e de que, especialmente, se usufrua cá dentro. Outro aspecto que deveria ser melhorado seria o da qualidade da construção, muito abaixo do standard internacional mínimo. A qualidade deve estender-se a toda a população e não apenas atingir os mais favorecidos. Neste particular se exibe, em toda a sua brutalidade e desrespeito, o esquecimento a que a administração local votou o meio milhão de pessoas que


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vive permanentemente em Macau, na obsessão venal de construir uma cidade para quem cá só passa 1 ou 2 dias. Neste momento, Macau é unicamente pensada como uma cidade construída para os outros, os turistas que cá deixam o dinheiro que vai para . . . onde ?

ACESSO À NATUREZA

Muito difícil de praticar num lugar tão compacto quanto a cidade de Macau. No entanto, a existência de algumas estruturas naturais e de prática desportiva poderia ser aproveitada de outra forma, nomeadamente tentando (repito) ligar alguns destes espaços. Não é preciso ir muito longe para se aprender como se faz, basta ir a Taiwan. Aí se fez um esforço imenso neste sentido, da criação de vias para bicicletas à criação de estações com bicicletas de aluguer automáticos. Muito teria Macau a aprender com o carinho e a atenção com que as autoridades em Taiwan têm tratado a sua população. Urge não construir mais em Coloane. Zurique tinha, em 2010, 116 metros quadrados de espaços verdes por residente, Honolulu 710. Zurique tinha, em 2010, mais de 4000 bancos de jardim ou bancos públicos, apenas na zona do centro, Estocolmo 10.000. 50% do espaço de Viena é verde. Se Copenhaga é frequentemente apontada como uma das cidades mais humanas do planeta, e a Dinamarca como o país em que os seus habitantes revelam maior índices de felicidade e satisfação, é certamente porque aqui se encontrou um equilíbrio entre as horas de trabalho e as horas privadas que permite uma imersão profunda na natureza e uma dedicação bastante à família.

AMBIENTE

Munique tem um plano de redução da emissão de CO2, em Helsínquia pretende-se que 20% das suas necessidades energéticas provenha de fontes renováveis até 2020, mais de 60% da electricidade consumida em Estocolmo provém deste tipo de fonte, em Vancouver todas as novas residências devem ter, de raiz, carregadores para veículos eléctricos. Macau seria o sítio ideal para a introdução de transportes públicos não poluentes. Em Helsínquia pensa-se instalar, até 2015, 700 postos para recarga eléctrica de veículos. A reciclagem local é de nível infantil, a população não sabe separar os lixos e o governo não quer ou não sabe reciclar. Outros parâmetros (para os quais não tenho dados relativos a Macau): celeridade dos serviços de emergência, tempo de resposta médio (ambulância, Munique: 1,5 minutos em 96% dos casos, Tóquio 6 minutos e 5 segundos em média em 2010); Facilidade e celeridade para registar uma empresa (rapidíssimo em Lisboa e Singapura, facílimo em Hong Kong).

ACESSOS PARA DEFICIENTES

Não consta em nenhuma das apreciações que li mas numa visita recente a Taiwan (não Taipé) impressionou a profusão de equipamentos para permitir o

Otto Dix, À beleza

São razões difíceis de identificar (este o Enigma) as que fazem com que Macau mantenha uma certa qualidade de vida mesmo que sectores essenciais como os da saúde e educação sejam administrados de modo tão desastroso; que o sistema de transportes públicos e a qualidade da construção e da arquitectura dos edifícios mais marcantes da cidade seja tão baixa; que não exista planeamento urbano, vida cultural ou uma política eficaz de acesso à natureza; que a qualidade da água e do ar seja duvidosa; que se não recicle eficazmente... acesso a cadeiras de rodas: transportes públicos, casas de banho, restaurantes, etc. (curiosamente não vi ninguém de cadeira de rodas). Não quero nem pensar no que será a realidade infernal com que nesta cidade, que já foi tão cristã, os utilizadores de cadeiras de rodas se deparam diariamente. * Conclua-se com uma repetição. Seria muito ambicioso pensar que Macau pudesse alguma vez comparar-se com estas cidades maravilhosas. Mas Macau tem

a seu favor um charme e uma história muito próprios. São razões difíceis de identificar (este o Enigma) as que fazem com que Macau mantenha uma certa qualidade de vida mesmo que sectores essenciais como os da saúde e educação sejam administrados de modo tão desastroso; que o sistema de transportes públicos e a qualidade da construção e da arquitectura dos edifícios mais marcantes da cidade seja tão baixa; que não exista planeamento urbano, vida cultural ou uma política eficaz de acesso à natureza; que a qualidade da água e do ar seja duvidosa; que se não recicle eficazmente; que

permaneça uma mentalidade antiquada que valoriza demasiado as horas de trabalho em detrimento das horas de lazer e dedicação à família e às amizades; que existam tantas barreiras à deslocação dos deficientes; que não haja esplanadas e bares de jeito; que a polícia seja ineficaz e inactuante; que o aeroporto seja provinciano; que os condutores não parem nas passadeiras para peões (a maneira como um povo conduz diz muito sobre o seu nível de civilidade) e que ninguém tenha tido a coragem para dizer ao Chefe do Executivo que não se abotoa o botão de baixo do casaco.


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REPÚBLICA DO ORIENTE John Mateer

O LIVRO

e nós no sopé daquelas escuras escadas do templo que se erguem nevoeiro adentro teria tido, na ponta da minha língua, a minha não-existência.

O LIVRO DE ARTES NAMBAN Nascido do hiato negro entre aqueles lóbulos planos de folha d’ouro o navio absolutamente Europeu, velas enfunadas, chega ao presente, aqui, nas páginas coloridas que se desdobram do livro para replicar um dos Biombos Namban. No convés teatral, marinheiros e mercadores, escravos e missionários preparam-se mas eu, ajustando os meus óculos, não consigo ver a minha própria face no meio daquela gente. Teria esperado identificar um degredado ou descobrir o que está por trás da foto do meu passaporte? Aqueles Bárbaros do Sul num corrupio na praia, na vila, noutro biombo pintado, outra página brilhante, tagarelando e regateando com os Nativos, são assalariados do oceano aberto. Exilado e Judeu, estranho de pele azul e língua prateada, cheguei tarde demais: não há sinal do terramoto iminente, e aquele primeiro momento em que os alienígenas falam passou ao lado dos meus ouvidos. O VISTO E O OUVIDO Visto numa televisão num hotel em Nagano De plumagem prateada e brasileira esta deusa ousada no seu pedestral de saltos altos, no seu fato de samba e sorrisos de purpurina, trocando comentários sagazes em japonês com os três anfitriões sorridentes e engravatados que só podem gracejar quando confrontados com a sua resplandescência absoluta… Ouvido numa casa Geijin em Quioto Estão a foder no quarto ao lado. As paredes são – sim – finas como papel. O que faz a minha Fantasia mais disto do que dos sussurros abafados da viajante ouvida a masturbar-se no seu quarto minshuku em Hiroshima? Que este casal é brasileiro e a mulher está a incitar naquela língua que amo, de atropelos, rosnidos e ceceio? É isso que faz do que ouço poesia? NA MONTANHA Perguntar-me se falo português, como aquele velho em Dewa San-Zan fez com as folhas de outono rodopiando em nosso redor e as estátuas de Jizõ com as suas capas vermelhas e olhar censor

Nós os portugueses já não partimos nas nossas caravelas para descobrir Novos Mundos, em vez disso, por entre as nuvens, procuramos escadarias que permitam a nossa descida. REPÚBLICA DO ORIENTE JARDIM DE CAMÕES Uma pequena montanha oriental disfarçada de parque populada por anciãos jogando às cartas ou empoleirados imóveis nas rochas, vestes enroladas por cima das panças, as suas mulheres esticando-se para o Tai-chi, e eu, Camões, tendo visitado o recanto onde está a tua estátua, ali, sob um falso dólmen, também sou parcial e estou à deriva, gananciosamente escutando insinuações acerca de um MERCADO ONÍRICO, aqueles sussurros por trás da grande muralha do invisível. O Visto é a dívida que cobro. Também eu sou um Procurador dos Mortos e dos Ausentes. FADISTA Uma boca cheia de amargura, um quarto cheio de incenso, ambos são uma núvem opiária como a vulva escura e floral de uma amada ou o sabor da sua língua rápida e vascolejante sob aqueles olhos que se abriam como alçapões para o meu duplo e verdadeiro eu. Sob esta lua amoedada quando sou um fantasma esfomeado, o meu coração uma flute de champanhe esmagada e esmagada no punho, sou um homem do século XXI, percorrendo Macau, caíndo pelas calçadas romanas acima, desejando uma vida absolutamente oriental: aquele corno de rinoceronte de Viagra a Ecstasy e uma orgia grátis, almejando deixar de ser o verbo de Deus – DA GUERRA E DA REDENÇÃO Num bar Vocês, cabrões, estavam sempre a invadir o meu país, o angolano diz, inclinando-se sobre o meu rosto como o reflexo de algo morto. Eu digo, Essa é uma das razões pela qual deixei o meu país… SIM, MEU AMIGO: as suas palmadas nas minhas costas adivinham uma piada. As anfitriãs macaenses observam. Detrás delas, o espelho vivo com um porto cintilante.


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John Mateer é um poeta sul-africano, residente na Austrália, amante de Portugal e de Macau. Mateer publicou vários livros de poemas. Barefoot Speech ganhou em 2001 o C. J. Dennis Prize for Poetry and Loanwords foi nomeado para o 2002 Western Australian Premier’s Book Awards. As suas obras foram já traduzidas para Japonês e Português. Um dos seus últimos livros de poemas (Southern Barbarians) é sobre o império Português (Johannesburg: The Zero Press, 2007).

Numa mente Ele não descreveu o poema que escreveu enquanto descia o rio Mekong quando tinha em mente a fidelidade do nosso poeta épico cuja amada afogada encheu um soneto com aquela mãe tornada ausente pela imagem da Virgem. Agora estou a ver o corpo em desalinho flutuando de barriga para baixo num longo espelho clarividente, e estou a compor o poema que ele escreveu em lembrança esporádica. Há vários anos li esse soneto e também fui o nosso poeta salvo das águas por Á-Mà. DEPOIS DE VER A MINHA CARA TENUEMENTE REFLECTIDA NUM ESPELHO DA DINASTIA TANG, RECORDEI… ontem no Turbo Jet do Tejo para Macau, a explosão de névoa e as sampanas e os cargueiros e as caravelas eram aquela inalação que precede uma canção, anterior até à voz ideal, aquele suspiro invertido pelo qual o Ser se torna apenas numa frase, uma uterância, nascente, nunca pretendendo surpreender.

O REGRESSO CEMITÉRIO DA AJUDA Esperaríamos que houvesse famílias a viver nos jazigos, tantos são pequenas casas de pedra com portas pintadas e janelas cortinadas, os caixões suaves como espelhos e em beliches ao longo de duas paredes, e há menos que tenham sido abandonadas do que em qualquer rua de uma verdadeira cidade. Através de uma janela suja vejo uma prateleira como o parapeito de uma lareira com fotos emolduradas de uma mulher enquanto criança, como adolescente e depois de dama de honor. No chão limpo há uma fila de ursinhos de peluche amarelos e num canto escurecido, rodeada de pétalas caídas, uma jarra de rosas. Porque olho para esta tristeza? Noutro jazigo, em frente aos caixões cinzentos e empoeirados, prateleiras partidas; e noutra, um monocromático retrato de estúdio de toda a família como seria dependurado com orgulho por cima da cama de uma matriarca. Porque choro outra vez como nunca o faço no meu país adoptado? Porquê, enquanto vagueio pelas ruas de casas memoriais e cenotáfios, escondendo-me na sombra de ciprestes esturricados pelo sol da tarde? Quando me cruzo com três velhas mulheres embrulhadas no seu luto, elas não murmuram Bom dia. Para elas sou menos que os mortos, nem sequer um comissário de despojos, nem sequer um escritor-fantasma – um turista. Estou farto disto. Não consigo parar de chorar. ACERCA DO CANTO IX Impulsivamente quero virar-me para Luís de Camões, que está noutro lugar, e perguntar: O que é o Canto IX?

Todas aquelas jovens mulheres solitárias, perfumadas e atrevidas, esperando os marinheiros que voltavam de um mundo semi-conhecido? Porquê um bordel onírico como os prometidos nas sastras apócrifas, cheio de adolescentes com o cabelo ripado e olhos de câmaras ocultas, cujas virgindades podem ser renovadas por um comprimido engolido na manhã seguinte? Porquê a publicidade? Espero que não seja Tristão da Cunha, a ilha natal da minha bisavó! Estive entre o sarcófago de Vasco da Gama e o teu, Poeta Nacional, no Mosteiro dos Jerónimos, ouvindo o teu épico ser recitado, e sentei-me num banco na tua praça olhando para a tua silhueta gigantesca, os teus braços baixados resistindo a uma saudação, a cabeça presa sob a coroa de louro em bronze, e também sonhei visitar aqueles padrões que pontilham a costa africana, aquelas lápides que marcaram o teu transporte para O Oriente, não querendo questionar as motivações de um actor trágico. Mas com o Canto IX volto a ser um estudante hesitante, confuso, inseguro, procurando o anuir do Autor enquanto folheio para trás e para a frente o livro, rezando para que nem toda a história tenha que acabar na névoa púrpura da pornografia. NO COMBOIO DE CASCAIS PARA LISBOA O scripto continua dos graffiti nas paredes e casas ao longo da linha de comboio, como o burburinho de conversas portuguesas meio-ouvidas, é interrompido pelo meu despertar para ver de relance, entre os dentes de edifícios em colapso, sem telhados, e de mansões enegrecidas pelo tempo, um eucaliptal silencioso, e pelo espanto de se no meu esquecimento abrupto devia perguntar Onde estou eu? ou, sendo o poeta, Quem sou eu? DEPOIS DE VOLTAR DE UMA VIAGEM DE EXPLORAÇÃO Na almofada a cabeça sonolenta de John Mateer é um aquário às voltas com água veneziana e naquele galeão, aquele brinquedo luminoso, ele está ao leme, de telescópio no olho, jurando que não consegue ver a Austrália. E quando a sua caravela desliza Tejo adentro, tão colocada e cerebral como um cisne negro, ele pede um copo de porto e um pastel de nata, depois recolhe ao quarto num calmo hotel em Alfama, e sonha o sonho: que um dia haverá um poeta chamado John Mateer, tal como houve uma vez, para além dos limites dos mapas, um monstro chamado Austrália. Tradução de Andreia Sarabando


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C H I N A C

José Simões Morais O BARCO chinês Tek Sing (Tai Xing), que tinha partido em 14 de Janeiro de 1822 do porto de Xiamen para Java, carregado com duas mil pessoas, pelas fontes chinesas, ou segundo o capitão inglês Pearl, mil e seiscentas pessoas, transportava ainda um milhão de peças de porcelana. Ao desviar-se da rota normal, pois queria encontrar uma mais rápida, naufragou em Fevereiro desse ano. O barco “Indiana”, cujo capitão era o inglês Pearl, viajava com um carregamento de ópio e ao passar pelo local do naufrágio recolheu 198 pessoas e alguma carga, tendo para isso deitado borda fora parte da sua mercadoria. O capitão Pearl foi depois agraciado pela rainha da Holanda. Em 1970 é criada uma companhia australiana para recuperar tesouros do fundo do mar. Esta companhia, cujo dono, o inglês Mike Hatcher, em 1985 já tinha retirado de um barco naufragado durante a dinastia Qing, no Mar do Sul da China, um carregamento de porcelana “azul-branco” de Jingdezhen que, por ter sido muito bem acondicionado, se encontrava em perfeito estado. Quando no ano seguinte, 986 destas peças foram a leilão, o governo chinês enviou um seu representante com 30 mil US$ para comprar uma ou duas peças para estudo, já que as leis do Direito Internacional não deram razão à China, que reivindicava parte dos achados por crer que lhe pertenciam. No final, o emissário regressou de mãos a abanar pois o dinheiro não chegou para comprar nem um prato. Foi então que em 1999, a mesma companhia encontrou o barco Tai Xing Hao. Como era enorme o carregamento de porcelana e não tinham barcos para transportar tudo, dele retiraram 300 mil peças e as que ficaram no afundado barco, maldosamente foram destruídas. Em apenas nove dias, todas

O TITANIC DO ORIEN

Noventa anos antes do trágico naufrágio do Titanic, onde morreram 1503 pessoas, ocorreu um desastre ainda maior o barco Tai Xing Hao, com duas mil pessoas a bordo, nau entre a costa chinesa e as Filipinas.


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R Ó N I C A

NTE

e r, quando ufragou

as peças foram vendidas, tendo rendido 30 milhões de dólares. Em 2005, Mike Hatcher conjuntamente com um australiano e um neozelandês criaram a Fundação de Investimento Hatcher e divulgaram que tinham achado uma grande quantidade de relíquias no fundo do mar. Procuravam investidores e só no Japão responderam 13 mil pessoas, assim como conseguiram quem em Singapura e Austrália colocasse dinheiro. Mas, dois anos passaram e não havia notícias de nenhum achado e por isso, as pessoas sentiram-se enganadas. A Fundação foi processada. Para acalmar os investidores, Mike Hatcher publicou uma carta num jornal a dizer estar realmente a desenvolver um projeto no Mar do Sul da China e as pessoas deveriam ter paciência e confiança já que, mais cedo ou mais tarde, receberiam com juros o que investiram.

ARQUEOLOGIA SUBAQUÁTICA

Por não poder recuperar partes da sua História e farto das pilhagens deste e de muitos outros caçadores furtivos de relíquias, que constantemente vasculhavam o fundo do mar e ocultavam os seus achados, desde 1989, o governo chinês decidiu investir fortemente nas diferentes áreas ligadas à arqueologia subaquática. Tal impulso aconteceu após a descoberta em 1987 do barco do período da dinastia Song, Nan Hai I, que significa Mar do Sul e assim denominado por ter sido nesse mar que foi encontrado esse barco mercantil, com mais de 800 anos. Nessa altura, a China não estava preparada para tal empresa e por isso, durante mais de uma dezena de anos, criou equipas de mergulhadores especializados na recuperação de tesouros, que se encontram no fundo do mar, assim como teve um enorme desenvolvimento tecnológico, na indústria da navegação e no auxílio aos barcos em risco de naufragar. Em Maio de 2007, a grande plataforma flutuante Hua Tian Long, com um potente

guindaste, construída em Xangai durante três anos estava pronta para a grande operação de resgate do Nan Hai I. Também o grande batelão, com 530 toneladas, que iria albergar o contentor com o barco naufragado e levá-lo para terra, foi colocado no mar. Assim a China ficava preparada para a realização da grande odisseia, que foi o desenterrar o barco Nan Hai I, pois este estava coberto por um metro de sedimentos e a 24 metros de profundidade e para o transporte do barco para terra. A missão foi integralmente cumprida e com êxito total. Foi assim que a China, até então com poucos conhecimentos na área da arqueologia subaquática e na recuperação dos barcos e suas mercadorias, abriu as portas no campo da arqueologia subaquática e prometeu novos contributos para a História do mundo. Atualmente encontra-se entre os países mais bem preparados para realizar de tais operações. Através da experiência ganha na recuperação do Nan Hai I em frente da costa do distrito de Yangjiang, a China começou uma nova fase e atualmente, as descobertas de novos barcos naufragados sucedem-se. Estes, que durante séculos repousaram e estiveram guardados por sedimentos no fundo do mar, demonstram a importância que a rota marítima teve. Espera-se por isso, um mundo de novos conhecimentos que irão seguramente alterar a História da Rota Marítima da Seda pelo mar do Sul da China. Esta, no século II antes da nossa era, durante a dinastia Han do Oeste começava em Panyu (actual Guangzhou, Cantão para os portugueses) e chegava ao Oceano Índico. Os fantásticos produtos que por essa via eram transportados e a quantidade de mercadores e navegantes que vinham à China comprá-los podem agora, com os constantes achados, serem profundamente estudados. Todo este investimento chinês, mais do que comercial, tem acima de tudo um caráter cultural e civilizacional. São muitos

os novos conhecimentos devido aos constantes achados que se vêm fazendo e que permitem aos investigadores aprofundar as antigas relações comerciais estabelecidas pela rota marítima. Termina assim uma época em que os caçadores furtivos de tesouros submersos nos fundos do mar pertencentes à China impunemente os roubavam e destruíam. E foram muitos os achados que tiveram esse fim! Abre-se agora um novo ciclo e para além do Nan Hai I, já foi resgatado um outro barco, em frente a Shantou, o Nan Hai II, também conhecido por Nan Ao I de onde foram retiradas 30 mil peças dos tempos da dinastia Ming. Em 2009 foi encontrado outro barco naufragado em frente a Ningbo, do período da dinastia Qing, mas os trabalhos de recolha dos produtos só agora vão começar pois esteve-se à espera que terminassem os trabalhos empreendidos no Nan Ao I. Em 22 de Dezembro de 2012, a China e a Indonésia estabeleceram um protocolo de cooperação devido aos muitos achados feitos na costa da Indonésia. Em 2007 foi encontrado um barco com produtos chineses do período Tang e em Outubro de 2010, um barco de pesca indonésio trouxe nas redes objectos chineses do século XIII. Estão agora sinalizados à volta de 400 lugares no fundo do mar na área marítima da Indonésia onde se prevê haver barcos naufragados.

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P R I M E I R O B A L C Ã O

POEIRA Carlos Morais José He remembers those vanished years. As though looking through a dusty window pane, the past is something he could see, but not touch. And everything he sees is blurred and indistinct. Wong Kar-wai, In the Mood for Love

Quantas coisas deixámos assim no nosso passado, à mercê da poeira que indiferentemente se acumula? E de que vale recordar se não para sentir uma dor mortiça que desperta intocável, vinda de uma profundeza de nós que desconhecíamos? A memória é o mais traiçoeiro dos nossos mecanismos: capaz de nos abandonar quando mais dela precisamos e de surgir abrupta quando não é invocada. Recordar o que perdemos é o mais cruel dos exercícios, a mais inútil das paixões; contudo, nele mergulhamos por vezes com um sombrio deleite, doutras com a alma atafulhada de uma estranha noite de estrelas pardas. Ficaria muito quieto, sem me lembrar de nada, se o esquecimento fosse possível e eficaz, se nos sonhos não voltasse tudo, inesperadamente, como uma maldição. Se a memória não fosse, ela mesmo, uma

máquina maldita, a roçar o odioso. Acredito na verdade das coisas que não vivi e na mentira profunda dos acontecimentos pelos quais passei e que hoje mitifico. A memória é uma poderosa criadora de mitos. Quando se devia limitar a trazer-nos, uma e outra vez, o real, o racional, tudo o que não é absurdo e faz sentido, tudo o que não magoa e dá prazer, tudo o que se explana de belo pela nossa vida e nunca o que nos deu um inaudito sofrer. Pior é que disso não podemos falar. Temos de guardar distante, porque a memória é sempre aquilo que poderia ter sido e nunca o que é, sempre uma potência impotente, sempre aquele outro caminho que nunca palmilhámos, sempre o mar onde tivemos medo de nadar, sempre a rua que não atravessámos. Do outro lado, quedar-se-ão os jardins que elegemos como proibidos, cujos portões contemplámos para depois abandonar sem olhar para trás. O que terá mesmo ficado para além dessa fronteira? Que guarda exigiria a nossa memória e nos faria recitar livros de cinco mil caracteres? Mas afinal persegue-nos tudo o que não fizemos e não temos guarida em

qualquer fuga. Persegue-nos a cobardia de não entrar, de não querer saber, de deixar para algum outro viver a vida que era nossa por acaso. E refugiamo-nos nesse consolo: o consolo do acaso, da esquina seguinte, do acontecimento que aí virá, apesar de sabermos que também lhe voltaremos as costas. Sorrimos pela hipótese do novo, deliciamo-nos nos braços quentes da imaginação para depois nos satisfazermos sempre no frio das coisas banais, como acordar num estrépito de portas que se fecham e são apenas mais um pesadelo. Um desses tão óbvios pesadelos que, normalmente, sonhamos de olhos bem abertos... Restam-nos os passos perdidos pelo lugares habituais. Pelos modorra dos locais prazenteiros ainda que sem sol, pelas masmorras preferidas, somente por contornar outras vidas, sem nunca lhes tocar, passar, somente passar, sem um adeus, sem um remoque que alguém toque, passar somente passar, mas sem tremer, meu Deus... Hoje não estarei na procissão da luminosa Senhora, não lhe darei o meu óbulo. Ainda é cedo, quero acreditar, para tomar o navio que me há-de levar.


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T E R C E I R O O U V I D O

próximo oriente

Hugo Pinto

ENTER THE VOID A frase “a China mudou muito” é daquelas que, hoje, qualquer pessoa minimamente familiarizada com o Mundo e com essa coisa chamada “actualidade” está habilitada a dizer com toda a propriedade, ainda que nunca tenha posto pé na República Popular. É simplesmente evidente que a China mudou porque essa transformação foi tal que os seus efeitos chegaram a cada esquina de cada rua, por mais longínqua a distância. No entanto, quando o meu interlocutor diz que “a China mudou muito”, na verdade, refere-se a algo que quase todos desconhecem. O homem de copo de vinho tinto português na mão está a falar da cena “noise” chinesa, uma excentricidade que ele, Zbigniew Karkowski, polaco residente no Japão, acompanhou desde o princípio. A proximidade com o movimento alternativo chinês trouxe Zbigniew a Macau, pela primeira vez, em 2005, para uma actuação no Armazém do Boi onde, pelas suas contas, estiveram quatro pessoas. Sete anos depois, o artista polaco que é considerado um dos mais influentes compositores actuais de música electrónica regressou ao território para uma actuação breve, mas poderosa, na Live Music Assocation, numa noite (13 de Janeiro) dedicada a essa expressão radical, de extremos, despudoradamente chamada “noise”, que contou com mais duas actuações: e:ch, de Macau, e Sin:Ned, de Hong Kong. Antes de subir ao palco para testar os limites auditivos da plateia bem composta de curiosos e indefectíveis, Zbigniew Karkowski recordou os tempos “excitantes” da primeira década dos anos 2000 na China, quando “havia uma sede enorme de tudo”. Foi este o contexto em que surgiu o “noise” e outras músicas experimentais e alternativas, de resto bem documentado na compilação “An Anthology of Chinese Experimental Music”, já mencionada nestas páginas, e no ensaio que a acompanha, “The Sound of the Underground, Experimental and Non-Academic Musics in China”, da autoria de Yan Jun e Zbigniew Karkowski. Agora, “a China mudou muito”. A tal ponto que Zbigniew deixou de reconhecer até a própria cena musical que ajudou a nascer. “Fui convidado recentemente para tocar em Guangzhou, Foshan e Shenzhen. Nem sequer queria ir. Estive lá no ano passado. Muito poucas pessoas aparecem nos concertos. Os bares são uma espécie de poisos de ‘yuppies’, com os donos interessados apenas em fazer dinheiro. Tudo muito bonitinho e cervejas belgas importadas. Já não gosto.”

Hoje, lamenta, não restam muitos dos companheiros de aventuras sónicas do início, pois uma boa parte desertou do “noise” e das artes para enveredar por uma vida que nem sabe descrever. “Sempre fiz isto e não saberia fazer outra coisa”, revela entre um trago e uma passa do cigarro. Mas a experiência, no caso de Zbigniew Karkowski, não equivale exactamente a sabedoria. “Eu não sei o que faço”, confessa, quando lhe pergunto sobre a evolução do seu trabalho e a influência das várias geografias, particularmente a chinesa, na sua obra. Sabe apenas que faz o que faz pelo prazer e pela experimentação. Não lhe interessam objectivos ou finalidades, nem tão pouco justificações. O que é importante é “não parar”. Convém também, claro, nunca ceder, ou seja, não abandonar os princípios a troco de uma qualquer recompensa.

Na vida deste artista de 55 anos, a questão fundamental é o tratamento do som. E, ainda que despreze relógios (ou por causa disso), o tempo – o sentido e a noção de duração. Depois, pormenores técnicos: manipulação, “feedback”, estática, distorção, volume, acústica, electricidade, frequência, tudo triturado até que não haja harmonia, melodia, ritmo ou o que quer que seja senão “noise”, o ponto em que o som se torna impossivelmente “físico” e nos é infligido como um castigo severo (para os mais sensíveis) ou como a possibilidade de abstracção última, uma espécie de mergulho no vazio (para os mais audazes). Será essa coragem que falta agora aos cada vez (na sua óptica) mais escassos artistas radicais chineses? Zbigniew diz que não sabe. Ao fim de poucas perguntas percebo que não há respostas à espera. Mas a conversa continua. (continua)

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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

perspectivas Jorge Rodrigues Simão

A DESUMANIZAÇÃO DA MEDICINA ALTO RISCO GLOBAL “1.8 million people each year pick up infections in the hospital. These infections directly cause the death of 20,000 people each year and contribute to the death of 70,000 more. One out of every five hundred people admitted to the hospital is killed by a mistake. 35 to 40 percent of missed diagnoses result in death in United States.” Health Matters: 8 Steps That Can Save Your Life - and Your Family’s Health Taylor Grant

O “RELATÓRIO de Riscos Globais – 2013”, do “Fórum Económico Mundial”, é o resultado de uma sondagem anual efectuada a mais de um milhar de especialistas de diversas áreas desde a indústria, administração pública, mundo académico até à sociedade civil, que examinaram um conjunto de cinquenta riscos globais, publicado dia 8, sob o signo do pessimismo e do medo, prevendo um ano mais perigoso ou melhor incerto, devido ao comportamento dos mercados e às catástrofes naturais. Os riscos globais são o teste de fiabilidade mundial das formas de governo ou de sistemas políticos, económicos, financeiros e sociais, podendo ser interpretados como uma advertência, acerca dos tipos de doença de que padecem a merecer imediato tratamento. Os dois epicentros fulcrais dos riscos que o mundo irá enfrentar este ano, situam-se no prolongamento da crise financeira global que apresenta cada vez mais contornos ocidentais, e no surgimento de fenómenos meteorológicos de grande intensidade, fruto das alterações climáticas. Os sondados demonstram uma enorme preocupação com a evolução da dívida pública dos países em relação ao seu PIB, às diferenças salariais e às alterações climáticas. O risco global considerado, como o mais provável de acontecer nos próximos dez anos, é o das graves disparidades de rendimento, e o de maior impacto é o de colapso de todo o sistema financeiro, resultante do arrastar da crise financeira global. Os outros dois riscos que aparecem entre a lista dos cinco de maior impacto são os graves desequilíbrios fiscais crónicos, que os países terão de enfrentar nos próximos anos, e uma crise de abastecimento de água. Quanto ao passado ano, a nível ambiental, a primeira referência vai para o ciclone “Sandy” que assolou a costa leste dos Estados Unidos, a 29 de Outubro, tendo sido decretado o estado de emergência nos Estados de Nova Iorque, Nova Jersey e Long Island, paralisando várias cidades, em que milhões de pessoas ficaram sem energia eléctrica em dezoito Estados federados, tendo áreas densamente povoadas sido evacuadas, e afectado cerca de 80 milhões de pessoas e provocado 20 mil milhões de dólares de prejuízos, além quatro dezenas de mortos. Os cientistas atribuíram um nexo de causalidade entre o ciclone e as alterações climáticas, dado que a sua formação no Atlân-

tico Norte, se deve a uma variação natural da temperatura da água do oceano, a cada período de 50 anos. A área que se estende pelo litoral do Nordeste do Brasil, Caraíbas, (América Central) até à proximidade da Groenlândia e inclui a Costa Leste dos Estados Unidos, desde 1995, que tem vindo a registar aumentos na temperatura da água. A segunda referência a nível ambiental vai para as inundações na China, nomeadamente, as mais fortes chuvas das últimas seis décadas que caíram em Pequim, a 22 de Julho, causando cerca de seis dezenas de mortos e milhares de desabrigados. O terceiro lugar da lista dos riscos globais é dado ao aumento das emissões de gases de efeito de estufa. A falta de adaptação às alterações climáticas é considerada como um risco ambiental que pode ter efeitos devastadores no futuro próximo. A capacidade dos Estados de regressarem ao “status quo ante”, depois de sofrerem alterações graves e inesperadas, com forte impacto nas condições de vida dos seus habitantes, é um dos riscos globais mais preocupantes, e aos quais devem dar prioridade, elaborando e pondo em prática políticas que os previna antes da doença atacar e alastrar, ao contrário da malévola “Crise do Euro”, previsível e resultado da “má governança”, a nível nacional e regional, sem pena por inexistir culpa, (nulla poena sine culpa) ou seja a total inexistência de responsabilidade penal por desatinadas governações, que docemente descansam na falta de responsabilidade ético-social. Os três principais riscos globais resumidos recaem sobre a saúde e a altivez, uma vez que os enormes avanços da medicina fizeram o mundo cair numa perigosa auto satisfação, entendida como a doença do sucesso. A crescente resistência aos antibióticos poderia levar os sistemas nacionais de saúde (onde existam), que suportam uma carga excessiva (burocracia e absentismo representam, nalguns sistemas de saúde uma percentagem considerável), à quase ruptura (nalguns países entrou sem ter começado, pelo que inexiste preocupação governamental, que é louvável), num mundo cada vez mais globalizado, proporciona a propagação de pandemias. Tal risco baseia-se nas ligações existentes entre a resistência aos antibióticos, as doenças crónicas e as lacunas do regime internacional de propriedade intelectual, sendo recomendável uma maior colaboração ou cooperação internacional e novos modelos de financiamento. O relatório apenas por olvido, omitiu o princípio fundamental, que é o dos Estados membros da ONU, seguirem estritamente a declaração da “Constituição da Organização Mundial de Saúde (OMS)”, que entre muitos outros princípios constantes do preâmbulo, refere: “Os Estados partes nesta Constituição declaram, em conformi-

dade com a Carta das Nações Unidas (direitos humanos incluídos), que os seguintes princípios são básicos para a felicidade, as relações harmoniosas e a segurança de todos os povos: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de lesões ou doenças”. O que significa, que a medicina moderna dividiu o corpo humano, seccionando-o em especialidades médicas, continuamente mais super especializadas, que os médicos cada vez sabem mais de menor parte do corpo humano. Fizeram do homem um “quebra-cabeças”, esquecendo-se que ao juntar todas as peças, nunca resultará um ser humano. Sairá um corpo, mas o que está doente é a pessoa, não o corpo. Aos Estados que não possuem um “Sistema Nacional de Saúde”, tal como é entendido e prescrito na declaração constitutiva e documentos complementares da “OMS”, e para os que o implementaram bem ou mal, terão desde logo e atrasados vão, de humanizar a medicina. Que animal será este, parafraseando, Jacques Delors, acerca da União Europeia? A medicina humana é uma área do conhecimento, que considera a doença como parte da personalidade, alienada, coisificada de perturbações da vida presente e passada. Todo o fenómeno humano é sempre ao mesmo tempo biológico, psicológico e social. É nesse triplo aspecto que deve ser considerada a pessoa doente e não apenas no aspecto físico, objecto da aplicação de terapias, muitas das vezes como experimentações instrumentais ou para estudo de estagiários, com total desprezo pelo aspecto psíquico e social. O acordo a estabelecer com o ser humano sofredor não é apenas contra a doença orgânica, mas exige a reconciliação entre o orgânico e o psíquico. O médico deve ir ao encontro do sofrimento do doente, motivado por problemas orgânicos, psicológicos e sociais, ou seja, médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde, no qual incluo por razões óbvias, com as limitações inerentes, os assistentes sociais, não só devem conhecer as doenças orgânicas e as terapias correspondentes, mas também as psicológicas e as sociais. Se assim não for, não vemos que diferença exista, entre o médico e o veterinário no devido respeito que ambos merecem nas suas respectivas áreas de actuação. Assim, e no desenvolvimento futuro que faremos, a propósito ou a despropósito sobre este tema, mas supondo que sempre valha a pena, no sentido de o alargar e aprofundar “wider and deeper”, na consideração de que efectivamente um dos maiores riscos globais não apenas do corrente ano, mas do futuro, é o da desumanização da medicina, cujo combate imediato urge, que atrasado vai, resgatando o princípio fundamental constitutivo

da OMS, e subscrito pelos Estados membros da ONU. A declaração da “Constituição da OMS”, foi adoptada pela “Conferência Sanitária Internacional”, celebrada em Nova Iorque, de 19 de Junho a 22 de Julho de 1946, e assinada no mesmo dia, pelos representantes de 61 Estados, tendo entrado em vigor a 7 de Abril de 1948. Todos os nove princípios constantes do preâmbulo da declaração constitutiva da “OMS”, são de enorme importância, até para a “paz no mundo”, bem como todos os demais, e normas contidos nos 82 artigos que a compõem. A desumanização e a fragmentação da medicina moderna, muitíssimo tecnificada, a deterioração da relação médico – paciente que urge resgatar, os hospitais sem condições higiénico-sanitárias, a insatisfação e descontentamento dos utilizadores, que adquire uma especial importância em determinado tipos de pacientes, como os neurológicos, cancerosos, vítimas de doença coronária e os terminais, estes últimos, que raramente irão usufruir das vantagens da alta tecnologia, mas que no entanto sofrem todos os seus inconvenientes. A somar à desumanização da medicina existe o segundo risco global associado, que é o de saber qual o papel do direito na protecção dos doentes internados ou não, em particular determinado tipos de pacientes, como os neurológicos, cancerosos, vítimas de doença coronária, os de avançada idade e terminais e as suas famílias, face às perturbações de que muitas vezes são vítimas causados por terceiros, que de forma intencional e premeditada pretendem romper um equilíbrio emocional frágil que o doente e a família vivem e que inevitavelmente a ambos atinge, agravando a doença, quando não mesmo produzindo a morte. O internamento em termos culturais é sempre ligado a um agravamento do estado de saúde do doente e de proximidade da morte. A responsabilidade pelo tratamento do doente internado é partilhado pela equipa médica e família, que são os cuidadores do doente, e prestar assistência à família de um doente internado nos tipos referidos, é como assistir o doente, uma vez que em internamentos prolongados e aquando da revelação do diagnóstico e seu tratamento, a vida dos familiares com quem o doente vive muda radicalmente, assim como os sentimentos e comportamentos. A experiência e os estudos demonstram que a forma como o doente vive e a relação que mantém com os familiares é determinante para o tratamento e todas as fases sequentes. A maioria da legislação penal trata este tipo de situações, enquadrando-a na tipologia comum, quando deve revestir sensível e especial tratamento. Os dois principais e restantes riscos globais são a pressão exercida sobre a economia e o meio ambiente e as crises digitais.


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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

metrópolis

Tiago Quadros*

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“SALUTE, MR. TAUT” O LIVRO de artista nasce, no início dos anos sessenta, associado a dois nomes: um americano, Edward Ruscha (nascido em 1937), e o outro europeu, Dieter Roth (nascido em 1930). Enquanto que Ruscha assume-se, a partir do trabalho desenvolvido, como representante de uma estética minimalista, Dieter Roth demonstrará maior afinidade com a proliferação neo-dadaísta que viria a inspirar na época o movimento Fluxus. Embora o catálogo de livros de Dieter Roth contasse já, em 1979, com 96 números e a publicação das suas obras completas, num total de 40 volumes, não se pode dizer que, na sua essência, tenha produzido um trabalho tão inesperadamente original quanto o de Edward Ruscha. Para isso terá contribuído o facto de muitos dos seus livros terem permanecido demasiado tempo num estado de aparente hibernação – reduzidos a maquetas, cópias simples ou impressões muito pequenas. Com efeito, muitos dos seus livros esperaram vários anos antes de encontrarem forma e lançamento editorial definitivos. Ruscha, em contraste, com apenas 17 livros, desenvolve uma fórmula única cuja novidade foi imediatamente reconhecida. O autor americano estabeleceu as regras do género, sendo considerado o “criador do paradigma dos livros de artista.”1 O fenómeno da auto-publicação e da auto-difusão no livro de artista ajuda a compreender a característica essencial que o distingue do livro ilustrado: a importância secundária do editor, o personagem principal na história do livro bibliófilo. Os criadores dos livros de artista são sempre do princípio ao fim os seus únicos responsáveis, mesmo quando eles não são os editores. Estes últimos têm pouca influência sobre a concepção artística do livro. No máximo, poderão chegar a impôr um formato. Os livros de artista são um efeito da exigência de autonomia que, em todas as áreas e a todos os níveis, foi uma das principais exigências dos anos sessenta e setenta. Convém pois ultrapassar o ponto de vista que foi o nosso até aqui: a procura de uma descrição do livro de artista e das suas características editoriais distintivas. Tamami Iinuma expressa de forma clarividente a sua liberdade ao conceber “Salut, Mr. Taut”. O objecto, publicado em Julho de 2012 pela artista japonesa, a residir na Alemanha desde 2008, passa por uma interrogação sobre o livro como forma artística. Com “Salut, Mr. Taut”, Tamami Iinuma visita a obra do arquitecto alemão Bruno Taut (1880-1938). Em 6 de Maio de 1933, Bruno Taut chega ao Japão. Depois de ter atravessado a Europa e a Sibéria, Taut deixa para trás a fase mais dramática da sua carreira. Desde que concluiu a sua

formação com Theodor Fischer em Munique, esteve entre os protagonistas das experiências mais relevantes que um arquitecto europeu, nascido em 1880, poderia realizar. Ao chegar ao Japão, acompanhado por Erika Wittich, as decepções e as dificuldades enfrentadas nos anos anteriores tinham-no afectado, mas não derrotado a sua vontade. Desembarcado do navio que tinha partido de Vladivostok, é recebido e saudado afectuosamente por Shotaro Shimomura e pelo arquitecto Isaburo Ueno. Entre 1933 e 1936 Taut vive e trabalha no Japão. A Villa Hyuga não é apenas a única obra de arquitectura realizada por Bruno Taut durante a sua permanência, de dois anos e meio, no Japão. É também o seu primeiro trabalho depois de cinco anos

de inactividade, após as dificuldades em Moscovo, e a sua última obra a ser concluída em detalhe. Tamami Iinuma realiza o percurso inverso. Ao chegar à Alemanha, em 2008, é confrontada, pela primeira vez, com a obra de Bruno Taut, com o contraste entre as cores vivas dos conjuntos habitacionais do arquitecto alemão e o branco da neve. É desse encontro, entre a artista japonesa a residir na Alemanha e o arquitecto alemão que outrora residiu no Japão, que nasce “Salut, Mr. Taut”. O projecto de fotografar a obra de Taut começa a tomar forma em 2010. E o pequeno livro de Tamami Iinuma é um aceno, um cumprimento, um abraço a um velho amigo. Para Tamami Iinuma a cidade não é um fim

em si, mas um lugar de onde emergem símbolos, reflectindo os mais variados estados de espírito. A arquitectura de Taut constitui-se enquanto mapa, enquanto entidade que parece reagir segundo leis próprias. Nas fotografias de Tamami Iinuma o tecido urbano e os lugares são produtos, espelhos das acções humanas, ou campos paradigmáticos de uma certa ideia de desenvolvimento. Os conjuntos habitacionais de Taut surgem como espaços de acção multidisciplinar, das acções e das reflexões dos homens. Fotografar a cidade é fotografar o lugar, é fotografar as constatações óbvias sobre o campo do real. Tanto para Taut como para Iinuma, a cidade não é um simples espaço depositário de movimentos humanos. Tamami Iinuma nasceu em Tóquio, reside e trabalha em Leipzig. A artista japonesa licenciou-se em 2006 na Musashino Art University. Em 2008 concluiu o mestrado na Tama Art University e em 2010 obteve uma bolsa da Pola Art Foundation. Entre outras exposições, Tamami Iinuma viu o seu trabalho apresentado em Guimarães, na Capital Europeia da Cultura. A partir de “Salut, Mr. Taut” é possível descobrir uma concepção singular da arquitectura na sua relação com a cidade. Tamami Iinuma mostra que cada um de nós parte, sempre, de um lugar. De um lugar que nos acolhe, de um lugar que nos conquista, que nos protege e que nos guarda como refúgio.

1- PHILLPOT, Clive, “Some Contemporary Artists and Their Books, in Artists’ Books: A Critical Anthology and Source Book, op. cit., p. 97.

*Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa


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O L H O S A O A L T O

gente sagrada

文昌

José Simões Morais

WEN CHANG

DEUS DOS LETRADOS E DA LITERATURA

ORIGINARIAMENTE Wen Chang era uma constelação de seis estrelas situada acima da primeira estrela da Ursa Maior, como Sima Qian faz referência no Shiji e, segundo os astrólogos, poderia conferir dignidade, poder e posicionamento social. Tornou-se um deus popular sobretudo porque a sexta estrela da constelação, Si Lu, controlava o sucesso, a fama e concedia um alto estatuto às pessoas e por isso, era a ela que a maioria das pessoas explicitamente se dirigia. Quando na dinastia Sui foram criados os Exames Imperiais para seleccionar os candidatos a oficiais civis, as cerimónias de sacrifícios feitos à constelação Wen Chang ganharam importância, tornando-se ainda mais comuns na dinastia Tang. As celebrações do aniversário do deus dos letrados eram feitas pelos governadores locais no terceiro dia do segundo mês lunar, mas também durante todo o ano, sobretudo nas alturas próximas da realização dos exames, quando os templos em sua honra se enchiam de estudantes e aspirantes a um lugar de oficial civil. A figura humana que deu origem ao deus Wen Chang era de Zitong, em Sichuan, e dava pelo nome de Zhang Yazi. Viveu no período da dinastia Jin (265-420) e foi um comandante que se sacrificou no campo de batalha, sendo a 73ª reincarnação de outro ser, que vivera durante a dinastia Zhou do Oeste. Há muitas versões para a história sobre Zhang Yazi, que na dinastia Tang era conhecido como o espírito de Zitong. O sétimo imperador da dinastia Tang, Xuan Zong (712-755), já idoso, apaixonou-se por uma das suas concubinas, Yang Guifei e começou a negligenciar os assuntos de Estado. Numa instabilidade crescente, com intrigas e lutas internas, o general An Lushan tomou conta do Nordeste da China em 750. Em 755, An Lushan avança para a capital, o que fez a corte fugir para Sichuan. O exército que acompanhava o imperador revoltou-se e vendo que o proble-

ma estava na concubina, obrigou o imperador a entregá-la e assim foi morta à sua frente. Quando o imperador Xuan Zong chegou a Sichuan, o espírito de Zitong veio à ponte dar-lhe as boas vindas. Então o imperador teve um sonho onde o espírito Zitong lhe revelou que o seu filho Li Heng seria o próximo imperador. O general An Lushan foi depois derrotado e a profecia realizou-se. O imperador encantado, promoveu-o a primeiro-ministro do esquerdo. Outra história também da dinastia Tang, agora com o imperador Xi Zong (873-888) ocorrida em 881, fala da batalha de Huang Chao, quando o imperador teve que fugir para Sichuan. A primeira coisa que fez quando aí chegou foi ir ao templo do espírito Zitong. Aí pediu-lhe ajuda para conseguir manter o país e ofereceu a sua espada ao templo. Após vencer a batalha, deu ao espírito de Zitong o título de Ji Shun Wang. Como está referido no “Livro do Imperador Zitong”, já à nascença Zhang Yazi tinha uma mente esclarecida. A sua mãe amamentava-o apesar de se encontrar extremamente doente e fraca e à noite, o filho cortava lascas da sua própria coxa que lhe dava a comer. Assim ela ficou curada. Mais tarde, ajudava os que se encontravam em apuros, perdoava a quem cometia erros e espalhava paz e compreensão por onde passava. Foi durante a dinastia Song que o imperador de Jade promoveu o espírito Zitong ao lugar de Presidente do Gabinete dos Letrados, com a responsabilidade na promoção dos oficiais civis, passando assim a ser o Deus dos Letrados e da Literatura. Há um ditado que diz: no Norte da China as pessoas vão pedir ajuda a Confúcio no Templo Wen, mas no Sul recorrem aos templos onde se encontra Wen Chang. Em Macau, este deus tem estátuas nos templos Lin Fong, Pao Gong e Lin Kai, este junto ao cinema Alegria.


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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Abala-as com medo e poderás saber da sua disciplina.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 32 Existem limites físicos e mentais àquilo que alguém pode fazer. É por isso que alguém com um corpo ocupa uma certa posição e alguém com uma certa especialidade executa uma determinado ofício. Quando as forças são adequadas a uma tarefa, ninguém a considera um pesado fardo. Quando o que sabem se adequa a um ofício, ninguém o considera difícil.

serem diferentes em cada um dos casos, o destino é o mesmo. Gente bem parecida não tem toda corpos idênticos; nem as beldades as mesmas caras – embora sejam todos agradáveis de olhar. Peras, laranjas, tâmaras e castanhas não têm o mesmo sabor, mas são todas boas de comer. Existem pessoas que se tornam ricas através do roubo, mas nem todos os ricos são necessariamente ladrões. Existem pessoas que são pobres devido à sua integridade, mas nem todos os pobres são necessariamente íntegros.

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Pode-se ir a um certo lugar de barco ou de carruagem; e apesar das rotas

Existem modos de avaliar as pessoas. Se estão em elevadas posições, ob-

serva aquilo que promovem. Se são ricas, observa aquilo que oferecem. Se são pobres, observa aquilo que recusam aceitar. Se são de baixa posição, observa aquilo que recusam fazer. Se são invejosas, observa aquilo que não tomarão. Vê-as dar a volta a dificuldades e saberás da sua coragem. Comove-as com alegria e felicidade e poderás observar o seu auto controle. Confia-lhes bens e dinheiro e poderás saber da sua humanidade. Abala-as com medo e poderás saber da sua disciplina.

Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.

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