ARTES, LETRAS E IDEIAS
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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2695. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE
A AMEAÇA
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A AMEAÇA DEMOCRÁTICA
Mica Costa-grande
Ezra Pound poeta e fascista americano, esteve encerrado durante 13 anos numa instituição psiquiátrica. Um jornalista perguntou-lhe quando tinha saído do manicómio, ele respondeu: “Nunca! Saí do hospital, mas continuei nos Estados Unidos, e toda a América é um asilo de loucos.” A PALAVRA FASCISMO, antes de chegar ao que hoje representa, foi um conceito positivo e revolucionário. Há 100 anos, alguns dos nossos melhores cidadãos, foram fascistas, modernistas e futuristas ao mesmo tempo. Hoje é apenas sinónimo de obscurantismo violento. Depois que os americanos vulgarizaram a tortura e os fins ilícitos e brutais em seu nome, é provavél que a palavra democracia pelas suas ligações à violência e manipulação da informação, siga o mesmo caminho. Hoje a ameaça democrática está em acção na Síria e paira perigosamente sobre o Irão. Um processo democratizador que tem sido alimentado a cadáveres e usa sempre o mesmo roteiro.
SINOPSE
A violência que satisfaz a avidez dos representantes económicos do império anglo-saxónico, é fruto natural da falta de imaginação. Desde Waterloo que as famílias transnacionais com base em Londres e Nova Iorque, donas de metade da riqueza do mundo, não sabendo o que fazer com ela, usam-na para abocanhar a parte que ainda lhes falta. Quando um cidadão, um tirano protegido pelo populismo ou simplesmente um nacionalista teimoso os rejeita como parceiros, lhes obstrui a passagem ou os expõe, caçam-no, invadem países. Para obter o apoio passivo da opinião pública mundial usam velhos scripts –bebés maltratados nas incubadoras do Kuwait ao sexo brutal de Kadhafi ou de Assange– cidadãos sem posição defenida e por vezes com um certo júbilo, vêm serem extirpados cidadãos malignos em países distantes.
ACTO UM
Para que a ameaça do ditador seja real ele deve ter algum poder. Preparando a invasão, o “império do dinheiro” estabelece sanções sobre os países com regimes não colaborativos. Fortalece assim o ditador,
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através de uma solidariedade nacional que, noutro contexto, seria talvez usada para o depôr. São treinados e armados grupos de cidadãos para desestabilizar e se necessário assassinar criando ao mesmo tempo uma sensação de luta pela liberdade e caos social e económico. Em poucos meses um país pacífico aparece na comunicação social internacional como uma terra sem lei.
ACTO DOIS
Concretiza-se a invasão, veremos aparecer as vítimas das inomináveis preversões e os seus vívidos testemunhos, que serão em tudo iguais aos que caracterizaram outros países-ditaduras desmantelados. Substituem-se os símbolos. Saqueiam-se os museus nacionais, Depois de alguns ataques fracticidas e supostos ajustes de contas étnico-religiosos o país envolto na poeira da destruição sai de cena. A máquina de informação global passa a ser lubrificada, menos a sémen de perversos ditadores e mais a sangue vermelho das veias da população e preto das profundezas da terra.
ACTO TRÊS
Finalizada a primeira parte da sinistra encenação e como se a pretexto de uma operação ao pâncreas se retirasse também o figado, os históricos e legítimos opositores do velho regime são desacreditados ou eliminados, sendo substituídos por funcionários dos invasores. O petróleo ou gás que continuaremos a consumir (sempre mais caro) paga, já não as sumptuosas residências e extravagâncias dos autocratas, mas as armas que destroem, dividem e traumatizam a população. De seguida financiará também a suposta reconstrução do país pelas centenas de corporações do invasor. Que funcionarão como cobradores de tributos do conquistador. Montam-se as barracas da junk food , privatiza-se tudo, vende-se tudo. Os cidadãos invadidos (que podem) passam a pagar um alto preço pela saúde, pela educação e pela segurança.
CASE STUDY
Tomemos o caso da Líbia. Kadhafi foi sistematicamente descrito como um excêntrico sanguinário e um predador sexual, com a população mergulhada na pobreza e no obscurantismo. Obviamente algumas destas afirmações são verdadeiras, no entanto... A independência da Líbia foi em 1951, o Reino Unido colocou no poder o rei Idris, que foi derrubado pelo jovem Kadhafi em 69. O país era um dos mais atrasados com uma literacia abaixo dos
10%, em menos de meio século chegou aos 90%. Poucos países combateram a ignorância a este ritmo. Não me surpreenderia ver escrito, na imprensa internacional, que o regime de Kadhafi promoveu um tipo de alfabetização que não leva à liberdade. Foi pela educação, seja ela incentivada ou simplesmente tolerada pelos governos, que as sociedades mais livres, se desfizeram gradualmente dos seus dirigentes mais autoritários. O que se desenrola hoje silenciosamente na Líbia, apenas fortalece os dogmas nacionalistas e religiosos, atrasando ou simplesmente anulando o desenvolvimento. À sombra do esquecimento internacional foram demolidos esta semana em Tripoli símbolos da diversidade e da tolerância. Que se saiba, uma biblioteca foi queimada e várias outras estão em perigo.
EPÍLOGO
Basta ler Eça de Queirós para perceber que há povos que teimam em não colaborar com os imperialismos. Há cem anos enfrentavam os ingleses, hoje continuam a resistir os seus sucessores. Os mesmos povos tentando, sem sucesso, defender os mesmos produtos. Nos países democráticos, até hoje a ameaça e o trabalho de bastidores têm sido suficientes para a tomada de poder. Veja-se o caso da Grécia e da Itália onde os funcionários da Goldman Sachs, consórcio que os empurrou para a ruína, logo depois de terem sequestrado os bancos, foram convidados a assumir o poder político. Ou ainda os Estados Unidos onde, de forma cinematográfica, Obama, através de uma monumental campanha de marketing usou a vontade de mudança e as lágrimas de alegria dos seus eleitores (e do mundo) para colocar à disposição dos ratos de porão de Wallstreet o imobiliário e a mão de obra do sul da Europa, deixando como estavam as conquistas do seu sinistro predecessor. Bush era bom!... porque os inimigos fortalecem-nos enquanto os falsos amigos abalam as nossas convicções. Nós cá estamos, antes como agora, quietos e calados, mais ou menos convencidos que existe a ameaça: da outra religião, do outro país, da falta de dinheiro. Acreditamos que alguém nos defende e pagamos o benigno vigilante com o nosso silêncio colaborador. Que tudo isto continue a funcionar para a opinião pública americana estereotipada e entorpecida, parece-me cada vez mais normal. Que (já) funcione com a mesma eficiência no resto do mundo, é que é espantoso. Agora que parámos de pensar, já nada nos incomoda e... se for pela Democracia, vale tudo!
Nós cá estamos, antes como agora, quietos e calados, mais ou menos convencidos que existe a ameaça: da outra religião, do outro país, da falta de dinheiro. Acreditamos que alguém nos defende e pagamos o benigno vigilante com o nosso silêncio colaborador.
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Pesadelo global Carlos Morais José Sigmund Freud sobre os EUA depois da sua primeira e única visita: “É um erro gigantesco” QUANDO OLHAMOS para o mundo hoje salta à vista que apenas um país mantém tropas espalhadas pelas suas sete partidas: os Estados Unidos da América. Com o fim da Guerra Fria e o desinteresse russo numa presença global, ao contrário do que acontecia com a União Soviética, os americanos não retiraram as armas que argumentavam proteger da ameaça soviética. Pelo contrário, têm sido o motor das guerras, que mantêm viva e de excelente saúde a sua indústria militar. Para além dos conflitos, ideologicamente impossíveis de defender, como é o caso do Iraque, os EUA são um permanente factor de desestabilização em todos os continentes, de África ao Médio Oriente, da Ásia à Oceania. Em toda a parte instalam bases, colocam milhares de soldados e, sobretudo, trabalham para que uma paz duradoura e o respeito mútuo entre nações não aconteça. Dividem para reinar, fomentam discórdias internas, sobretudo onde existem equilíbrios precários como é, actualmente, o caso da Síria, motivados aliás pelas divisões operadas no Médio Oriente pelos seus eternos aliados britânicos, como muito bem o sublinhou T.E. Lawrence, mais conhecido por Lawrence da Arábia.
ACIMA DA JUSTIÇA E DA LEI
A hipocrisia, a duplicidade de critérios e a violência assente na mentira tornaram-se na prática comum da política externa norte-americana, sobretudo desde a guerra do Iraque, levada a cabo sob a bandeira das inexistentes armas de destruição massiva que por lá nunca existiram. O resultado está ainda hoje à vista num país que continua sobre a constante ameaça da violência sectária, se exceptuarmos os campos petrolíferos, sob controlo de companhias americanas e com a segurança garantida pela sinistra Blackwater, do ex-vice-presidente Dick Cheney. Por outro lado, apesar de nos discursos constantemente se referirem os direitos humanos, a liberdade e o primado da lei, os Estados Unidos não reconhecem o poder do Tribunal Penal Internacional, onde George W. Bush, o referido Cheney e Donald Rumsfeldt deveriam estar a ser julgados pelos variados cri-
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mes. Só o saque do museu de Bagdad daria para começar. A verdade é que as actuais administrações americanas, subordinadas aos interesses dos senhores da guerra, pouco se têm preocupado em conhecer profundamente a realidade dos países que ocupam ou desestabilizam.
DO SONHO AO PESADELO
Ao contrário do que fizeram no Japão depois da II Guerra Mundial, os EUA desprezam a cultura dos povos e propõem-se a exportação da sua própria cultural, quer em termos políticos, quer em termos estritamente culturais. Contudo, bastaria um olhar rápido para a própria América para se compreender que estão a exportar um pesadelo e um mundo monótono sem traços de diversidade estética ou cultural. Se o mundo adoptasse a cultura norte-americana estaria a transformar-se, por todo o lado, num espaço onde predominaria o ódio, a desconfiança, a impossibilidade de acreditar e confiar no olhar de um outro ser humano, ou seja, num verdadeiro império do Mal. Pergunta-se com que direito se arrogam do poder de estarem ameaçadoramente contra a existência de uma bomba nuclear no Irão (isto apesar de repetidamente os líderes iranianos dizerem que são contra esse tipo de armas) e ameaçarem bombardear um país que, até hoje, se limitou em termos miliatres a defender-se das agressões do então amigo americano Saddam Hussein.
A BOMBA IRANIANA
A própria revista conservadora Foreign Affairs, num número recente, defende a nuclearização do Irão como factor de equílibrio numa região onde o verdadeiro perigo vem dos radicais paquistaneses que têm feito explodir bombas atómicas nos desertos do Baluchistão e com isso causado inúmeros tremores de terra em território iraniano, para não falar de radioactividade. Bastará ler o livro de Bernard Henry-Levy “Quem matou Daniel Pearl?” para ter uma ideia do que é o Paquistão e de onde se escondem os terroristas jihadistas (mais uma criação norte-americana), tão convenientes aos EUA para a continuação da sua política de expansão militar e controlo financeiro do mundo. Segundo a argumentação da Foreign Affairs, que segue a lógica dissausora que tem evitado as guerras mundiais desde o aparecimento e disseminação dos arsenais atómicos, o facto de o Irão ter a bomba contribuiria para o equilíbrio regional e não o contrário. Apesar da histeria mediática sobre esta eventualidade, os EUA são o único país que detonou sobre outro povo duas bombas nucleares e possui um arsenal tão vasto que permitira a destruição de vários planetas. É também de sublinhar o silêncio sobre as bombas atómicas israelitas e, sobretudo, a não exigência de clarificação e transparência desta questão. A duplicidade de critérios é
O sonho americano está progressivamente a tornar-se num pesadelo global. por demais evidente e retiram toda a credibilidade à política externa norte-americana.
BLOQUEIO MEDIÁTICO
Os media internacionais sofrem de um verdadeiro bloqueio informativo. Recentemente, realizou-se no Irão uma conferência do Movimento do Não-Alinhados, que reuniu em Teerão mais de cento e tal Chefes de Estado e/ou Primeiros-Ministros. No encontro foi sublinhado que o mundo não quer e não suportará mais a actual ordem mundial e as constantes intervenções dos EUA em várias zonas do globo. Claro que a
imprensa internacional, apesar da grandiosidade do evento, pouco ou nenhum destaque lhe deu. O resultado da política externa norte-americana tem sido dramático para os cidadão estado-unidenses, quantas vezes inocentes em relação às políticas da suas sucessivas administrações. Hoje são basicamente odiados em toda a parte, sobretudo nos lugares onde existe a presença de tropas e bases militares. O desrespeito pelas culturas locais, pelos seus hábitos e costumes, a arrogância ignorante de um povo sem História nem memória, etnicamente dividido, a predominância do ódio nos quotidianos
têm sido fatais para a apreciação que deles é feita pelos outros povos. Quem viaja tem conhecimento destes factos em primeira mão: são dados inegáveis e verificáveis por toda a parte. Com o espalhar do império norte-americano, o mundo tem-se tornado progressivamente feio, desinteressante, monótono, revestido pelas mesmas lojas, os mesmos produtos e, sobretudo, as mesmas iniquidades, atentados éticos e estéticos, numa dimensão somente prevista por visionários do século XX como Sigmund Freud, por exemplo. O sonho americano está progressivamente a tornar-se num pesadelo global.
Fernando Baez NA CAPA da revista Life nº 97, de 29 de Maio de 1944, aparece uma imagem que sempre me perturbou. Refiro-me a cena frequente na Segunda Guerra Mundial: dois oficiais, um deles cabisbaixo, talvez sorridente, junto a uma pilha de folhas em chamas e o outro, tomando o desinteresse pelo dever, a deitar os olhos à correspondência. Ambos calcinam informação secreta num pequeno forno e a legenda da imagem estabelece de forma expressiva: “Oficiais da Base de Espionagem, que vigiam a espionagem do inimigo, queimam papéis confidenciais”. Falo de 1944, um ano de acções terríveis que provavelmente obrigaram a apagar dados de operações cruéis contra os nazis; o incrível é que se passaram quase sete décadas e os governos dos EUA continuam em guerra e a ocultar dados, sem se importar com a Lei da Liberdade de informação, de 1966, nem com a Freedom of Information Clearing House, organismo que protege cidadãos em busca de informação pública que seja recusada. Lugares como a prisão de Guantánamo são abóbodas sobre verdades ocultas, embora os cidadãos entusiastas e activos confiem que o fenómeno Wikileaks volte a pegar nos antecedentes dela e que derrube as aspirações dos manipuladores do mundo. O primeiro golpe duro contra os agentes da desinformação ocorreu em 1971 quando o jornalista Neil Sheeban, do New York Times, teve acesso a 7000 páginas, classificadas como segredo máximo de estado sobre a guerra do Vietname, e começou uma sucessão de reportagens sobre os custos duma tragédia nacional. Isso provocou demissões e reações violentas sobre os Dossiês do Pentágono e, apesar da oposição política, o Supremo Tribunal sentenciou que a segurança nacional não estava acima do direito à informação em todas as ocasiões, dado isso poder ser mais uma desculpa do que uma realidade. Nesse momento, o autor intelectual da fuga de documentos foi o analista militar Daniel Ellsberg, o qual destruiu a sua carreira por uma questão de consciência ao entregar o relatório Relações Estados-Unidos/Vietname, 1945-1967: um estudo preparado pelo Departamento de Defesa a 18 jornais diários, entre os quais o poderoso The Washington Post. O oficial que trabalhava na Rand Corporation foi espiado, difamado, inventaram-lhe mesmo cargos de espionagem para os soviéticos e uma mulher até advertiu que ele a violara. Um consumado e impune assassino como Henry Kissinger advertiu que Ellsberg “é o homem mais perigoso dos Estados-Unidos e deve ser detido a qualquer custo”. O mundo era na época tão absurdo como o actual e Kissinger,
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ASSANGE, WIKILEAKS e a censura no século XXI
Entre a difusão de material mais controverso está, talvez, um vídeo de 12 de Julho de 2007 onde se consegue discernir como tropas dos EUA asassinaram com desprezo o repórter da Reuters Namir Noor-Eldeen e, para não deixar testemunhas, mataram outras dez pessoas.
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em vez de pagar pelos seus delitos, foi premiado com o Nobel da Paz. No segundo caso, foi Watergate a expor as mentiras do Presidente Richard Nixon e a obrigá-lo a sair a 8 de agosto de 1974: a história pode ler-se em “Todos os Homens do Presidente”, um memorável relato de Bob Woodward e Carl Bernstein em que fonte identificada como Garganta Funda, que hoje sabemos chamar-se W. Mark Felt, um diretor-adjunto do FBI, expôs a verdade sobre escutas ilegais e pagamentos de suborno por parte da equipa mais próxima do primeiro mandatário. Como pôde manter-se à margem da polémica, é difícil de imaginar, não fosse o excelente trabalho dos repórteres. Em anos recentes formou-se novo alvoroço conhecido como questão Wikileaks, cuja liderança o misterioso e polémico australiano Julian Assange detém, zangado hoje com os seus antigos companheiros de estrada. A hiper-inflação de arquivos que a era digital acelerou pode explicar que tenham sido difundidas 251.287 transmissões de documentos, entre novembro e dezembro de 2010, uns menos importantes que outros, contudo fundamentais para conhecer a atividade de 274 embaixadas dos EUA no mundo. Alguns documentos são entediantes, ultra-conhecidos; apenas 15.000 documentos têm relevância e justifica-se que as cadeias de média globais se interessassem repentinamente por divulgar o seu conteúdo no meio duma crise, como a fracassada ocupação do Iraque, o desastre do Afeganistão e a hecatombe económica, enfrentada por um Presidente Barak Hussein Obama, de origem tão havaiana como o próprio vocábulo Wiki. Em geral, as publicações da organização Wikileaks apareceram e continuam a aparecer, não sem conflitos crescentes, em prestigiosos meios internacionais como El País, Le Monde, Der Spiegel, The Guardian e The New York Times. Entre a difusão de material mais controverso está, talvez, um vídeo de 12 de Julho de 2007 onde se consegue discernir como tropas dos EUA asassinaram com desprezo o repórter da Reuters Namir Noor-Eldeen e, para não deixar testemunhas, mataram outras dez pessoas. Conspiração de silêncio que acompanhou também o crime contra o jornalista José Couso, condenado a ser símbolo sem significado pelos grandes grupos de média. “Assange é um terrorista da alta tecnologia”, assinalou o obscuro vice-presidente Joseph Biden, burocrata ao serviço de clubes e associações favoráveis às indústrias militares. O bloqueio à WikiLeaks, com certeza, passou por uma cibercensura violenta: a bondosa Biblioteca do Congreso, bastião conservador nas mãos de James Billington - especialista da era Reagan que continua no ativo nega a qualquer utilizador acesso aos documentos transmitidos, situação que causou problemas dado que a consulta
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da base-de-dados do próprio Congresso não se podia processar. O ceticismo e a surpresa não devem impedir que a leitora e o leitor tenham presente que dentro dos EUA há um pequeno grupo de poder cujos privilégios são intocáveis, como em qualquer outro lugar do mundo, seja a China, a Rússia ou a Suíça. Não há média, não há instituição ou espaço que não esteja sob o seu controlo, sobretudo desde o fortalecimento dos grupos de poder, pós-guerra fria e posterior colapso da União Soviética. O Pentágono possui uma Unidade para a ciberguerra capaz de assediar e reter informação sobre dados de segurança nacional, mas estranhamente não pôde impedir o fluxo de dados da Wikileaks. Não faz sentido não perder de vista onde começa a história. A fonte principal da fuga de informação foi Bradley E. Manning, jovem defensor dos direitos de homossexuais nascido em 1987, criado em Oklahoma, cidade onde o veterano Timothy McVeigh causou o enorme atentado terrorista de 1995. De Manning, treinado em Fort Huachuca, centro militar no Arizona, sabemos que tinha acesso à rede secreta de documentos e que era especializado em determinar as vulnerabilidades do adversário, analisar e preparar emboscadas. No Iraque, esteve em Contingency Operating Station Hammer, do qual, para além do amor pelo golfe dos seus oficiais, se conhecem as operações de guerra suja que levaram a cabo. Um belo dia, a repulsa reprimida ou a sensação de poder que a informação dá, ou ambas as coisas, levaram a que Manning preparasse um CD, que etiquetou com o nome da extravagante cantora Lady Gaga, e que descarregasse os dados que tinha à mão, ponta do icebergue do que poderia ser a Antártida dos segredos. Posteriormente contactou a organização Wikileaks e a sua acção custou-lhe prisão, isolamento e tortura, sem contar com o misterioso manto de negligência mal-agradecida que cobriu as suas ações, numa era de banalidade e farândola viciante. Tudo se encaminhava para passar a ser notícia sem público, entre 2010 e 2012, até o Equador conceder asilo diplomático a Julian Assange, que estava na Embaixada do Reino Unido, para logo se saber que a policía já contava com um Plano para violar qualquer acordo internacional e extraditar Assange para a Suécia, onde mulheres o acusam de fazer amor sem preservativo, desculpa perfeita para a Suécia poder cumprir com o pacto ignorado para entregar o jornalista aos EUA. EUA onde seria preso e onde eventualmente desapareceria em poucos anos quando os cidadãos estivessem distraídos por qualquer episódio duma das suas séries de televisão favoritas sobre a fama, a sobrevivência, ou o humor inócuo. Assim funciona o mundo de hoje, igual ou pior desde o instante em que a se-
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gurança nacional serviu para aniquilar os direitos humanos. Na versão de O Leopardo 2.0, tudo foi clonado para preservar a essência das mentiras: Guantánamo continua; o Iraque está à beira duma guerra civil; a Al Qaeda fortalece-se na África subsaariana; Bin Laden foi assassinado e atirado ao mar, e essa versão deve aceitar-se, sem provas, como única; o Afeganistão é um desastre; os banqueiros corruptos de Wall Street, criadores duma crise mundial, estão mais protegidos que nunca; e para manter tranquilos os média, que se queixam dos seus mortos – nunca dos mortos dos outros — desenvolveram-se veículos aéreos não tripulados (drones) que aniquilam silenciosamente centenas de pessoas no Paquistão e no Iémen – muitas delas inocentes. Não fora a Wikileaks, e o caminho que abriu, as falsidades teriam alibis perfeitos e por isso milhões de nós decidiram apoiar o labor de Assange e de quem, como ele, nos ajude a desmascarar os responsáveis pela crise global de que padecemos nestes inícios do século XXI. Aconteça-nos o que acontecer, prisão ou desaparecimento, os nossos filhos e filhas merecem um mundo melhor, mais transparente.
Não fora a Wikileaks, e o caminho que abriu, as falsidades teriam alibis perfeitos e por isso milhões de nós decidiram apoiar o labor de Assange e de quem, como ele, nos ajude a desmascarar os responsáveis pela crise global de que padecemos nestes inícios do século XXI. Aconteça-nos o que acontecer, prisão ou desaparecimento, os nossos filhos e filhas merecem um mundo melhor, mais transparente.
A questão financeira Carlos Morais José O CASO DO BANCO Delta Ásia foi exemplar. E Macau teve o azar de se ver envolvido numa exemplaridade de onde não sai bem, nem na fotografia nem na sua própria consciência. Com efeito, foi aqui, neste caso, que os Estados Unidos melhor demonstraram a sua pretensão/ vocação para polícias do mundo. Muito melhor do que nas intervenções bélicas efectivadas na Sérvia, Bósnia, Afeganistão ou Iraque. É que, enquanto nos casos citados os EUA foram obrigados a uma intervenção militar, a deslocar forças, pôr em risco as vidas dos seus soldados, largar bombas, etc., no caso do BDA bastou a emissão de um documento, a denúncia de uma situação alegadamente ilegal à luz da lei internacional (?), para que o governo de Macau tivesse imediatamente suspendido a actividade do banco. Na altura dizia-se, à boca cheia, que existiriam mais dois bancos envolvidos nas operações financeiras com a Coreia do Norte, mas o tal documento dos EUA não os referia e caíram no esquecimento. Resumindo, uma acusação americana foi o bastante para desencadear uma acção de um outro governo contra uma instituição bancária, pondo em causa os depósitos e a vida económica de milhares de pessoas que nada tinham a ver com os negócios de Pyongyang, isto par além de ter lançado uma sombra de permeabilidade e desconfiança sobre o sistema bancário de Macau, até aí inexistente sobretudo do ponto de vista do utilizador. Até que ponto isto é útil à RAEM ainda estão para me explicar, no meio do vasto manto de hipocrisia que cobre as operações financeiras internacionais, de Macau às Caimão, do Luxemburgo à Madeira, passando por Las Vegas, Monaco e Atlantic City. Na verdade, ainda estão hoje por provar as ligações do BDA à Coreia do Norte. No entanto, o caos instalou-se e não fosse o governo da RAEM possuir os fundos suficientes para cobrir a corrida ao banco e muita gente teria sofrido as consequências das acções. Recentemente, o ataque ao HSBC e ao Standart Chartered vêm provar que o sistema financeiro mundial deverá aos poucos subtrair-se à influência americana e criar canais paralelos ao dólar. Os americanos, na última década, têm sido os causadores das grandes crises mundiais, provocando fome, miséria e desgraca em numerosos países. É tempo do mundo encontrar uma alternativa e dar uma firme resposta.
Recentemente, o ataque ao HSBC e ao Standart Chartered vêm provar que o sistema financeiro mundial deverá aos poucos subtrair-se à influência americana e criar canais paralelos ao dólar. Os americanos, na última década, têm sido os causadores das grandes crises mundiais, provocando fome, miséria e desgraca em numerosos países. É tempo do mundo encontrar uma alternativa e dar uma firme resposta.
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UMA DEMONOLOGIA Carlos Morais José ELE NÃO há como as teorias da História. Como os relatos que nos dão conta do que vai acontecer e porquê. Uma delas — quiçá a mais famosa e actuante — vem-nos do século XIX e propõe um mundo ordenado, seja pelas leis do espírito (Hegel) ou pelas leis da matéria (Marx), e com uma finalidade. Agora fixou-se nas ideias de Francis Fukyama a respeito do fim da História. É como se as sociedades, tal como o resto do universo, fossem ordenadas segundo leis, passíveis de ser descobertas, e estivessem sujeitas a uma evolução, algo semelhante às espécies animais, a quem Darwin acabava de traçar o destino. Seja como for, estas teorias acreditam que a História tem um fim, que as leis naturais ou sociais acabam, de um modo ou de outro, por ditar o nosso futuro. É possível à razão, portanto, compreender a finalidade da História e trabalhar nesse sentido. Para Hegel, o supra-sumo da barbatana do tubarão era o Estado prussiano, a síntese política última e perto da perfeição. Para Marx, o socialismo a haver. Para Fukyama, a democracia americana. Ora para compreender e explicar essa evolução das sociedades nada melhor do que a economia, pensavam os nossos oitocentistas. E porquê? Porque a economia é, no conjunto das chamadas ciências sociais e humanas, a que aparenta maior rigor e dotou mesmo de inúmeras leis. A economia, também porque regula as actividades básicas, foi então considerada como a actividade humana na qual todas as outras se enraízam e da qual dependem, bastando considerar a sua evolução para saber como se desenvolverão os outros aspectos sociais e culturais. A sua proximidade à matemática permitia-lhe assegurar a máscara da cientificidade e do rigor, por oposição a outros saberes humanistas que não têm acesso, nem pretendem, quantificar o Homem por entenderem não ser por aí que o querem perceber. É foi nisto que se desenvolveram as teorias liberais e marxistas, que dominaram todo o século XX e que demoram a finar-se no século XXI. Os marxistas espantaram-se porque do novo sistema económico não surgiu o homem novo (a começar pelos que se sentavam nas cadeiras do Kremlim) e os capitalistas compreenderam que a sociedade da abundância para alguns insiste em ser a da escassez para outros, a grande e triste maioria. O regime nos países ditos comunistas raramente foi muito além de uma paródia do que Marx definiu como modo de produção asiático. O desenvolvimento capitalista acentua a exclusão social e eterniza intoleráveis bolsas de miséria e pobreza. A racionalidade económica revela-se fruste
para entender e muito mais para prever uma imprevista realidade e a sua fenomenologia. A moral da História parece portanto dar razão aos que não a encaram de um ponto de vista tão abrangente e, por exemplo como Maquiavel, dão à política, ou seja, às emoções e aos desejos, um papel primordial no desenrolar dos acontecimentos. É como se um lado irracional insistisse sempre em emergir no fluxo dos eventos e a transtornar os que pensam reger um mundo obediente a leis e relações constantes entre variáveis. Chamar-lhe irracional é pouco correcto, na medida em que a razão lhe serve igualmente de arma. É este uma espécie de daimon da política, o demónio travesso que estimula as lutas pelo poder, baseadas nos interesses individuais ou de grupos. Estamos pois perante uma demonologia, recuperando o termo de Leo Strauss. Tomemos, então, o que nos leva a reflectir neste artigo: o actual estado das relações China-Japão. Como todos sabem, os dois países atravessam um momento de relações difíceis como já não há memória, segundo a imprensa, desde 1972. E logo num momento em que a conjuntura económica a tal não aconselharia. Até porque não se trata de uma guerra económica subterrânea, a ditar o confronto politico, na medida em que os dois países se encontram em estádios bem distintos do seu crescimento, especialização e capacidade de produção de riqueza. Não. Trata-se mesmo de uma questão muito pouco relacionada com os interesses concretos quer da China quer do Japão, a nível de política internacional ou interna, nas quais lhes conviria ser cada vez mais complementares. Vale a pena por isso pensar um pouco no assunto, um pouco à luz do que acima referi. Tudo começa com as visitas sazonais de ministros japoneses ao templo onde jazem os restos mortais dos criminosos de guerra nipónicos, com o intuito de lhes prestar homenagem. Este turismo patriótico despertou protestos em todos os países que sofreram com as acções japonesas na II Guerra Mundial. Excepção: Estados Unidos. Como despertou protestos no próprio Japão, na medida em que muitos homens de negócios japoneses não compreendem porque é que o passado lhes há-de tornar a vida mais difícil no presente em países como a China, a Coreia ou as Filipinas. Estes actos encontram-se revestido de simbolismo, sobretudo dirigido ao presente, e por isso enerva tanto os outros países. À partida, em nada afectaria as relações económicas, mas os japoneses sabem que estão a jogar com emoções e pensarão eventualmente que as conseguem manipular sem fazer o vaso transbordar. Assim, piscam um olho à direita patriótica japonesa, a nível interno, e marcam uma posição no tabuleiro interna-
cional, num momento em que o Japão está cada vez mais em operações militares internacionais e existe um vivo debate sobre a militarização do país face ao desenvolvimento bélico da China. Depois surgiu a questão do manual escolar que apresenta, entre outras enormidades, o massacre de Nanjing como um “incidente”. (Imagine-se o que seria a chanceler Merkel vir dizer que o Holocausto foi um “dano colateral”). Aqui reside a diferença entre uma Alemanha que, a nível de Estado, não defende o seu passado hitleriano e um Japão que insiste em desculpabilizar-se dos seus erros no século XX, no apogeu do seu expansionismo militarista. Como explicar esta atitude nipónica? Dificilmente encontraremos a explicação numa racionalidade económica quando a China é já o principal parceiro. Aliás, a actual tensão entre os dois países, por causa das ilhas Dyaoyu está a deixar em pânico quem investiu na certeza de uma evolução benigna das relações. De que serve ao Japão, assumir e permitir estas atitudes que, sabem-no bem, não deixarão de ter consequências entre todos os que sofreram a ambição nipónica? Excepção: os Estados Unidos. Surpreendente ou talvez não, como o governo de Obama, tão lesto a defender os americanos interesses e valores, nada diga quando os japoneses desvalorizam as atrocidades cometidas na II Guerra Mundial. E como explicar a dimensão da reacção chinesa? As relações entre a China e o Japão sempre se pautaram pelo amor-ódio, sendo o sentimento negro o mais visível historicamente. Contudo, não podemos esquecer que a cultura japonesa é, na sua origem chinesa, que tal facto não é jamais esquecido pelos intelectuais nipónicos, que a China é considerada por muitos japoneses como o berço da civilização extremo-oriental e ainda hoje o lugar onde reside o mais profundo da sua cultura. Por seu lado, os chineses reconhecem e admiram a capacidade japonesa de organização e apreciam muitas das soluções encontradas, sobretudo a nível económico e talvez até político. Numa entrevista concedida nos anos 80, Deng Xiaoping referiu-se ao modelo de desenvolvimento nipónico, pré e pós II Guerra Mundial, de forma bastante positiva. E compreende-se. Se nos finais do século XIX, um espírito nacionalista e militarista impulsionou um extraordinário crescimento industrial, que permitiu ao Japão competir com as principais potências da época e derrotar a gigantesca Rússia; na segunda metade do século XX o país conseguiu desenvolver um regime semi-autoritário, baseado numa peculiar e bem sucedida economia de mercado, no qual o Partido Liberal Democrata se eternizou durante mais de 40 anos no poder, ganhando
sempre as eleições, mas com tiques claros de autoritarismo, um pouco como acontecia em Taiwan com o Kuomitang. Este modelo, que não desagradava totalmente a Deng Xiaoping, por motivos que se compreendem (economia bem sucedida num regime politico de, praticamente , partido único), só parcialmente se viria a desfazer nos anos 90 do século passado. O problema actual centra-se, contudo, no que distancia os dois povos e não no que os aproxima. E o que os distancia, muito claramente, são as feridas abertas pela História. Mas não só. O maior problema é que em ambos os países existe um fervor nacionalista crescente. Não acreditamos que seja do mesmo tipo do passado, muito menos que tenha tendências expansionistas. No entanto, o crescimento da China não pode deixar de assustar os seus vizinhos, como começa a preocupar o mundo. “Quando a China despertar...”, esta famosa frase corre o risco de se actualizar. Cada vez mais a China estará presente nos quotidianos de todos e em todo o mundo, como acontece hoje com os Estados Unidos, através das suas marcas e outros negócios. Também é isto que significa ser a maior potência económica mundial, estatuto para o qual a China caminha a passos largos. O crescimento da ideologia nacionalista, que no lugar do socialismo sustenta hoje o povo chinês, justifica a autorização de manifestações que tanto “surpreenderam” os japoneses. À China não basta ser o palco de eventos mundiais, como a exploração do espaço, os Jogos Olímpicos ou a Fórmula 1. Tem Taiwan cravado num pé e um século de humilhações para engolir. O país não está em condições psicológicas de sofrer afrontas internacionais. E os líderes japoneses deviam saber disto. Se calhar, sabem. Basta ver como o nacionalismo (ou patriotismo, se quiserem) é disseminado na China, não de forma sempre directa mas como algo omnipresente a todas as acções e algo que imbui, cimenta e justifica todas as medidas. Os nacionalismos têm riscos porque quando se joga com as emoções dos povos a vasilha torna-se difícil de controlar e por vezes transborda. Tanto chineses como japoneses estão convencidos que se trata de algo ainda passível de ser manejado, quer na política quer como escape social. Curiosamente ou talvez não, os Estados Unidos estão sentados a olhar. De facto, excelentes relações entre a China e o Japão alterariam para sempre os eixos dos interesses mundiais... Mais do que a razão, mais do que no fim da História, continuamos num mundo em que a demonologia continua a ser muito necessária para entender a política, essa mesmo que nos tira e põe o pão na mesa, e com o fumo das suas fábricas nos apaga e liga a luz do Sol.
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BEIDAIHE,
北戴河
TERRAMO
António Graça de Abreu BEIDAIHE, com muita História à mistura, é uma estância balnear famosa (em termos de China!), duzentos quilómetros a nordeste de Pequim. A vila desdobra-se numa sucessão de pequenas baías no mar de Bohai -- águas interiores do grande Oceano Pacífico --, aconchegadas pela natureza, protegidas de ventos agrestes e inoportunos, as areias ao sabor de marés docemente recatadas. No Verão de 1978 viajei pela primeira vez para Beidaihe. Na ida e no regresso, desde Pequim, o comboio atravessou a cidade de Tangshan arrasada por um tremendo tremor de terra em Julho de 1976. Nesse inolvidável ano do Dragão, a China Comunista foi abalalada pela morte dos seus três maiores governantes, os rostos, as inteligências sinuosas, os homens que encabeçaram o longo processo revolucionário que, em 1949, culminou com a fundação da República Popular da China. Em Janeiro de 1976 faleceu o primeiro-ministro Zhou Enlai, o homem que assessoriou Mao e pôs em execução quase todas as medidas políticas que, para o bem e para o mal, modelaram a Nova China. Em Junho, chegou a hora final do marechal Zhu De (Chu Teh), o supremo comandante militar e estratega da revolução chinesa. Em Setembro, desapareceu para sempre Mao Zedong, o revolucionário determinado e implacável que levou a nau da revolução comunista a bom porto e depois, como timoneiro, foi protagonista de devastadores naufrágios. O terramoto de Tangshan, a setenta quilómetros das praias de Beidaihe, provocou 260.000 mortos numa cidade habitada então por um milhão de pessoas. 1976, Ano do Dragão, convulsões na terra, centenas de milhares de mortos, o desaparecimento dos três maiores dirigentes do Partido e do Estado, tudo sinais dolorosos da chegada ao fim de uma época. A China ia mudar de modo quase radical, Deng Xiaoping preparava o regresso triunfante aos lemes do poder e, com a sua equipa, engendrava as novas políticas “capitalistas” que alterariam a face da China. Em 1978, Tangshan mostrava-se ainda como um gigantesco amontoado de ruínas. Jamais esquecerei o lento caminhar do comboio ao longo de três ou quatro quilómetros, a linha ao lado do que haviam sido ruas, casas, armazéns e complexos industrais. Tudo devastado, destruído, paredes solitárias, escombros, estruturas retorcidas,
pedras e mais pedras amontoadas no sopé das habitações de um outrora recente, um horizonte diante dos olhos de catástrofe e de morte. Tangshan renasceu para a vida, foi reconstruída com edifícios anti-sísmicos e hoje, com três milhões de habitantes, volta a ser
um importante pólo industrial no norte da China. Chego a Beidaihe. Viajo com a minha danwei, a entidade de trabalho, as Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras. Trago a minha bicicleta que viajou no furgão do comboio e me foi entregue
impecavelmente protegida por tiras de cartão canelado. Sou alojado num complexo turístico destinado a quadros do Partido Comunista, coisa que me aconteceu várias vezes em jornadas pela China quando a viagem era a expensas dos meus patrões, a danwei, as Edições de
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OTOS, PRAIA E TRAGÉDIAS MAOISTAS baías, das bermas do mar, entreter-me a ouvir a conversa – horrível dialecto do norte de Hebei, não entendia uma palavra! --, dos pescadores locais que ao entardecer saíam para o mar nos seus pequenos barcos de madeira e depois, já de noite, pintalgavam a superfície do oceano com as luzes fortes suspensas dos lampiões dos barcos descendo sobre a água, para chamar o peixe. Tenho bicicleta e rodas para andar. Quilómetros e quilómetros a pedalar pelas estradinhas em volta de Beidaihe, para entrar por dentro de aldeias pobres de camponeses, por milheirais, campos de sorgo e milhete, para beber uma chávena de chá com a gente da terra, fotografar velhos e crianças, e continuar viagem. Subo ao pavilhão da Pomba Branca. Do alto, debruçado sobre o oceano, o sucessivo estriar das ondas, as águas avançando num rendilhado suave sobre as areias da praia, a imensidão do oceano e um poema que Mao Zedong escreveu exactamente aqui, neste torreão sobre o mar, no Verão de 1954. Traduzo: Beidaihe Cascatas de chuva nas terras do norte, ondas brancas sobem até ao céu. Os barcos de pesca, para além de Qinghuandao, desapareceram no imenso oceano. Navegaram para qual lugar? Há mil anos, Wu, o imperador de Wei brandiu o chicote, viajou para Jieshi, a leste. Da sua viagem permanecem apenas os poemas. Hoje, o vento de Outono ainda me entristece, mas como o mundo mudou…
Pequim. Deu para comprovar -- para o meu cada vez menos ingénuo espanto --, as mordomias e privilégios de que se rodeavam os homens importantes, ou tidos como tal, dentro do aparelho de Estado. Diante do espaçoso quarto, espartano mas confortável e funcional, tinha um jardin-
zinho, logo depois a praia de areia fina e tépida, e o mar.
QUINZE DIAS EM BEIDAIHE Mergulhos nas águas tépidas do Oceano Pacífico, caminhar ao longo do recorte das
As praias de Beidaihe estão ligadas à história recente da China. Lembram-se do marechal Lin Biao (1907-1971), um dos mais destacados comandantes militares e dirigentes da revolução chinesa? Foi nomeado sucessor de Mao Zedong no Congresso do Partido em Abril de 1969, mas rapidamente azedaram as relações com Mao e hoje não restam dúvidas (o tema tem sido alvo de muita controvérsia!) de que Lin Biao, com o seu filho Lin Liguo e a esposa Ye Qu, mais umas centenas de militares de sua confiança preparavam em Setembro de 1971 um golpe de Estado que passaria pelo assassínio de Mao. Lin Biao e a família encontravam-se exactamente em Baidaihe, fruindo as delícias do afamado lugar e elaborando planos inconsequentes para aniquilar Mao e mudar a história da China. O complot contra Mao foi descoberto graças à ingenuidade de Duoduo, a filha de Lin Biao que resolveu transmitir aos guardas pessoais de seu pai as actividades do progenitor, pedindo-lhes mais
proteçcão para o velho marechal. Perseguidos pelas tropas fiéis a Mao, na noite de 13 de Setembro de 1971, Lin Biao, com o filho e a esposa fugiram para Shanhaiguan, o aeroporto que servia Beidaihe. Aí, um avião Trident, de fabrico inglês, igual aos que então equipavam quase todas as linhas aéreas civis chinesas, voou com Li Biao e os seus em direcção à União Soviética. Em Beidaihe, na urgência da fuga, não houve tempo de reabastecer convenientemente o avião que largou com os depósitos de gasolina com menos de metade da sua capacidade. A tripulação de recurso era tambem reduzidíssima, apenas o piloto e três mecânicos. Após hora e meio de voo desde Beidaihe, o piloto do Trident com Lin Biao, a esposa e o filho a bordo, comprova que não tem gasolina suficiente para chegar à União Soviética. Tenta uma aterragem de emergência numa pradaria da Mongólia. O avião desfaz-se, incendeia-se e morrem os nove tripulantes e passageiros. Sem Lin Biao, a China iria mudar. Mao Zedong e sobretudo Zhu Enlai, o primeiro-ministro, põem em prática uma política bem menos radical, recuperam os quadros perseguidos durante a Revolução Cultural, reaparece Deng Xiaoping, concretizam-se as relações com os Estados Unidos da América (Nixon visita a China em 1972), no velho império respiram-se as primeiras brisas dos tempos diferentes que se avizinham. A estância de Beidaihe, as enseadas, as areias, as águas límpidas do mar, naturalmente insensíveis às maquinações e mil desvairos dos homens, continuaram, ano após ano, a abrir-se para receber as gentes da China e dos quatro cantos do mundo, inclusive a comunidade de diplomatas estrangeiros em Pequim que aproveitam férias, ou fins de semana, para o veraneio agradabilíssimo junto ao Oceano Pacífico. Beidaihe cresceu nos últimos trinta anos. Felizmente não enxamearam as praias com hotéis de quinze ou vinte andares, tipo Benidorm no Mediterrâneo espanhol mas, inevitavelmente, como símbolo de modernidade, levantaram-se três ou quatro torres a destoar na paisagem. As pessoas na China não costumam ter vontade de se bronzear ao sol de Verão. O ideal de beleza na mulher é um corpo alvo, de pele fina, imaculado e claro como jade. Mas os chineses gostam de praia, de mergulhar nas águas tépidas do Pacífico, e esquecem ou ignoram facilmente a História. Vale o simples prazer de viver. Calcula-se hoje que quatro milhões de chineses passam todos os anos pelas praias de Beidaihe.
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D E P R O F U N D I S
a revolta do emir
Pedro Lystmann
O BAR OZONE É difícil de olhar para o Bar Ozone como se apenas de um bar se tratasse. Fica incompleta, hoje em dia, uma visita a Hong Kong que não inclua o desejo vertiginoso de subir ao centésimo décimo oitavo do Hotel Ritz-Carlton, em Kowloon, para ver a vista que este oferece. Subir ao Ozone permite, de modo fácil e ágil, um exercício que de outro modo dificilmente se cumpre: perceber a geografia da Ilha de Hong Kong e da zona de Kowloon. Percebê-la equivale a ficar detentor de um pequeno poder sobre esta cidade financeira e enigmática, ainda adolescente e errática nos seus desígnios. O modo como a construção se ergueu ao longo da ilha, em destaque ao seu desenho natural e primitivo, parte de um conjunto vulcânico, é o maior elogio que se pode fazer ao poder magnífico da cidade e ao esplendor da construção. Não é preciso pedir nenhuma bebida (mas é aconselhável fazê-lo) para que nos deixemos invadir por um petulante orgulho de pertencer a esta utópica construção, recente, arrogante e operática, cidade bandeira extrema e invencível da superioridade da vida urbana, insubstituível, sobre a vida rural. Numa altura da história em que, pela primeira vez, mais de metade da população mundial vive em cidades, este é o quadro perfeito do triunfo móvel e mecânico sobre o imobilismo rural. Como se lê em O Homem sem qualidades,
de Musil, “Perdemos em sonho o que ganhámos em realidade. Já não nos deixamos ficar deitados debaixo de uma árvore a olhar o céu por entre os dedos dos pés, mas produzimos...”. Ao entender-se o espectáculo urbano, ao invés, como uma florescência efémera e porventura inútil, esta impressão terá de ser, actualmente, vivida na sua mais brutal existência antes que os séculos transformem esta cidade noutra Samarcanda ou Bagdade. Hong Kong é, hoje, um fenómeno brutal, como Nova Iorque, Tóquio ou Londres, diverso de gentes e rico de expressão artística. Ao topo do Ritz Carlton chega o odor fragrante deste extraordinário porto e desta extraordinária aventura. Por inícios do século XX desenvolveu-se uma ideia, que o futuro gloriosamente desmentiu, que punha em causa a capacidade regenerativa da cidade. Acreditava-se que as condições miseráveis em que vivia grande parte da população das cidades (o operariado) criariam uma população masculina debilitada fisicamente. Esta debilidade causaria uma incapacidade de reprodução que ditaria, mais tarde ou mais cedo, o autoengolimento da própria cidade. Esta crença partiu da constatação de que havia na cidade uma percentagem muito mais reduzida de homens aptos a cumprir o serviço militar que entre as comunidades rurais. Como exemplo, apenas 1000 homens aptos para o seu
cumprimento entre 11.000 na cidade industrial de Manchester. (ver Peter Hall, Cities of Tomorrow, Cap. 2). O espectáculo que se desenvolve em frente do olhar inspira uma recusa eufórica e metálica da tentação nostálgica que percorre, infecciosa e fedorenta, grande parte do jornalismo ocidental de hoje, viscosamente apegado ao tradicional e ao saudosismo. Promova-se esta impertinência humana de subir aos céus, tão alto, um transporte quase satânico na sua ousadia ascensional. Este ímpeto vertical não pode, no entanto, gerar desdém pelos que estão em baixo, mas, ao invés, um impulso democrático e generoso de elevar a população às alturas do desejo e da imaginação que permitiram esta obra. No interior do bar existem outros deleites. Pela sua geografia extensa e diversificada, mais tendente à exibição de um desenho ousado que à criação de um conforto tradicional, se pode apreciar a excelência da escolha de bebidas. Que outra coisa seria de esperar num sítio destes, que só uma megalopolis pode produzir? Neste momento o Ozone disponibiliza um grupo de 6 gins com água tónica que poderão ser objecto de um outro texto que acompanhará a descrição do bar no seu usufruto mais feliz, o nocturno. (continua ? talvez)
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T E R C E I R O O U V I D O
próximo oriente
Hugo Pinto
CONVITE À EVASÃO Foi uma coincidência feliz, que também as há. Quando a ideia de fazer um programa de rádio dedicado à nova música alternativa feita na Ásia começava a germinar na minha cabeça, veio parar-me às mãos um CD. “Evade”, lia-se em letras brancas sob uma árvore azul como o céu nocturno e limpo desse mês de Setembro de 2009, quando o trio de Macau (Sonia Ka Ian Lao, na voz, Brandon L, na guitarra, e Faye Choi, nas programações) editou o seu primeiro disco. Tratava-se de um EP com sete músicas feitas de melodias inseguras que ganhavam compostura entre vocalizações intimistas, arritmias, guitarras planantes e um ocasional manto de electricidade estática, elementos que juntos conspiraram uma bela surpresa musical que tanto devia à Dream Pop como ao Shoegaze, ao Dubstep e à música oriental. “This Day”, o segundo tema do EP, foi a primeira música a ouvir-se no programa “Próximo Oriente”, e deu o mote para a longa viagem “à procura de novos sons, novas inspirações, de um novo oriente... De um próximo oriente.” Em muitos aspectos, viria a aperceber-me
mais tarde, os Evade definiam o espírito das bandas que passaram pelas 37 edições do programa: a vontade de fazer, de sonhar, de experimentar, a reverência pelas influências, o amor à música. Coisas simples. Três anos depois, tudo mudou e tudo está na mesma. Partindo de uma posição de “outsiders” originários de Macau, os Evade conquistaram o seu espaço na fervilhante cena electrónica do Extremo Oriente, preservando intacta a aura com que se lançaram ao mundo. “Destroy & Dream”, o primeiro disco de longa-duração da banda, editado este ano, tem o selo de uma das novas e conceituadas editoras asiáticas, a Kitchen, de Singapura. Como o título do álbum implica, e como os Evade me explicam, as canções deste disco “falam de destruição e regeneração”. Afirmam partir da perspectiva de “um observador distante” que, música após música, questiona (-nos) acerca dos grandes temas existencialistas, (vida, mundo, universo), mas “com a consolação dos sonhos, do isolamento e do abrigo”. Venha a música, então. “Forgetting”, o tema de abertura, é súbito
e misterioso. Evoca uns Massive Attack em fase lunar perdidos em 2046 no labirinto de Wong Kar-wai. Aqui, como no resto do disco, acumulam-se camadas de sons sustentadas por ritmos quebrados, secos, mas que nunca chegam a incomodar o estado geral de vigília. “Pavillion” e “Endless” estão entre o lote de temas mais experimentais, algures entre o ambientalismo abstracto e as bandas sonoras minimais, com texturas repletas de detalhes, mas que descambam por caminhos inconsequentes. Os melhores momentos são quando os Evade recolhem as peças dispersas e as rearranjam em torno de uma ideia de canção, como no já mencionado tema de abertura, em “Love” (dub cibernético, feito de colagens, mas inteiriço no “groove” hipnótico), ou em “Seeking For Mr. Freud” (digressão de travo oriental que substitui o divã por uma cama de ópio). Nota positiva também para as vocalizações de Sonia Ka Ian Lao que, em cantonense e em inglês, adensam o tom intimista do disco. Na cuidada edição da Kitchen (um dos traços característicos da editora é o design arrojado e as luxuosas embalagens “digipack”), os nove temas originais dos Evade são complementados com três remisturas, todas de nomes japoneses, para três temas diferente do disco: “Seeking for Mr. Freud” na versão “Okamotonoriaki Remix” (tratamento “downtempo” com tónica nos elementos orientais do original), “Pavilion” na versão “FJORDNE Remix” (bela reconstrução, a conferir uma inesperada nota jazzística ao disco), e, finalmente “Love” na versão “Seraph Remix” (um grande salto em frente cósmico). Quando lhes perguntei o que achavam de Macau enquanto ecossistema (dominado pela “cultura karaoke”, ausência de lojas de discos, etc., etc.) para uma banda com as características dos Evade, a resposta, ainda que breve, não deixa dúvidas de que o trio tem o enguiço bem resolvido: “Abre a mente que terás mais do que esperas”. Mandem pintar as paredes. “Destroy & Dream” Evade Kitchen Label, 2012
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perspectivas Jorge Rodrigues Simão
SISTEMA ECO-SOCIAL “A community is simultaneously a social system and a dynamic, open biophysical system. We need to build confidence in our ability to articulate viewpoints that have never had the opportunity to speak for themselves effectively. We need to learn that we can cope with far more open conflict of interests and values than we have in the past. We need to see that better decisions are made when all interests are truly represented, and that no single viewpoint can ever be either comprehensive or objective. We need to grow jealous of our right to speak for ourselves.” Talking Science: Language, Learning, and Values Jay L Lemke
A OBRA arquitectónica além dos elementos físicos, funcionais e estruturais, considera o processo social e individual incluído no desenho e posterior uso. A amplitude deste quadro implica um conjunto de conhecimentos apropriados, como sejam, a psicologia, sociologia ou semiótica. Trata-se de um sistema muito complexo que dificilmente pode ser compreendido na totalidade, tal como sucede com os sistemas estritamente naturais. A constatação de tal facto não deve limitar as tentativas de modelizar o sistema, ainda que de forma parcial, em benefício de um modelo construtivista do conhecimento. Os lucros teóricos de uma teoria da arquitectura com suporte numa concepção sistémica da natureza, dão-se pelo facto de a sociedade auto regular os acontecimentos e realidades, colocando-os no lugar mais correcto, à semelhança do que sucede e ocorreu em outros campos disciplinares. O aspecto mais problemático em termos de entendimento da obra arquitectónica, como sistema relaciona-se com o desenho e a sua avaliação. A pergunta basilar que ocorre, é a de saber se é possível estabelecer ligações entre quantidades estabelecidas em medidas derivadas de um método científico e as qualidades estéticas da obra, uma vez que estas dependeriam das valorações subjectivas dos indivíduos (sociedade), ou seja, a valoração estética é uma característica idiossincrásica e única de cada indivíduo, ou é um construção cognitiva individual, enquadrada numa formação semiótica da natureza social e histórica. O professor Jay Lemke, da Universidade de Michigan, tem vindo a desenvolver um vasto trabalho que se estende por vários campos do conhecimento, desde a “Educação Urbana”, “Pós-modernismo”, “Semiótica Social” até à “Dinâmica Eco-social”. O seu livro “Talking Science:Language, Learning, and Values”, revolucionou o método da investigação e prática do ensino das ciências. É sobre este excepcional trabalho e outros
correlacionados que temos vindo a imaginar soluções, enquadrar situações e a elucubrar conclusões. É de recomendar o seu estudo obrigatório nos cursos de “Arquitectura e Urbanismo”, mas também em outros campos disciplinares, com aqueles relacionados, em trabalho interdisciplinar tão necessário e pouco considerado. É no âmbito dos sistemas complexos que o professor Jay Lemke propôs o conceito de sistema eco-social. Esta perspectiva permite integrar as práticas sociais num contexto ecológico, considerando-as como o resultado de uma negociação de significados de natureza semiótica. Propõe ainda, que os sistemas humanos socioculturais são essencialmente sistemas de práticas sociais, unidas a formações semióticas de natureza histórica e cultural e que tomam um significado. Os processos de base material num sistema eco-social complexo, estão hierarquicamente organizados. O desenvolvimento dos processos e práticas sociais, fomentam o desenvolvimento e evolução do sistema eco-social. As relações dialécticas que se produzem entre as separações materiais e os conteúdos semióticos das práticas/processos constituem a base
Os lucros teóricos de uma teoria da arquitectura com suporte numa concepção sistémica da natureza, dãose pelo facto de a sociedade auto regular os acontecimentos e realidades, colocando-os no lugar mais correcto, à semelhança do que sucede e ocorreu em outros campos disciplinares
de uma dinâmica eco-social de carácter geral. A definição por extensão, do sistema eco-social, pode entender-se como compreendendo a comunidade humana e as suas interacções internas, bem como os elementos materiais que de alguma forma estão em relação com o homem. O conjunto material está conformado por um amplo agregado de elementos característicos dos ecossistemas naturais com os quais o homem está relacionado e tem coevoluído (alimentos, parasitas, organismos que vivem em simbiose, microrganismos e a rede de organismos interdependentes), bem como, os fluxos de matéria e energia implicados nestas relações. É de considerar como elementos materiais do sistema eco-social, os artefactos que o homem produz a partir dos recursos naturais e os espaços em que interage através das suas actividades sociais e produtivas, como são os edifícios, as cidades, os instrumentos de trabalho, as infra-estruturas, os campos de cultivo, a flora e a fauna. As interacções derivadas das práticas e processos sociais compreendem os sistemas terrestres e os impactos provocados em larga escala, os fluxos de nutrientes no mar, a circulação atmosférica ou a radiação solar incidente. É de ponderar que uma das características mais transcendentes do sistema eco-social, é o fluxo de informação, mediatizado por uma dialéctica de significados, que condiciona diversas organizações sociais como são a educação, política, conflitos, produção de recursos materiais e culturais, consumo ou a produção de resíduos sólidos, líquidos e gasosos. É evidente que face a esta descrição tem de se considerar, no entanto, que a organização e dinâmica do sistema eco-social se desenvolve não tanto a partir dos seus elementos, mas através dos seus processos, dependências e inter-relações (processos de produção, comunicação, depredação, intercâmbio, consumo). O sistema eco-social apresenta uma dinâmica social não destacável da dinâmica própria do conjunto material descrito, e rege-se inicialmente pelas propriedades que se atribuem ao resto dos sistemas complexos. O comportamento e a evolução do ecossistema social vêm modelados, por um segundo nível de organização, pelo modo como os processos materiais e as práticas sociais se estabelecem, em função das relações de significado social de natureza semiótica. O sistema eco-social considerado de forma genérica manifesta-se em concreto em sistemas específicos do mesmo tipo e natureza, que se desenvolvem em diferentes lugares ou momentos históricos.
Tais sistemas, devem ser considerados como sistemas equivalentes aos ecossistemas, pois, como estes, são complexos, abertos, dinâmicos, desperdiçam energia e apresentam capacidades de auto-organização, desenvolvimento e evolução. São sistemas epigenéticos, porquanto apresentam um comportamento muito previsível e uma organização hierárquica, sendo regulados pelo seu meio, super sistema no qual estão imersos e que é muito estável e adaptável às mudanças que se produzem no subsistema subjacente. Os sistemas eco-sociais, interiormente, não são homogéneos, apresentando uma
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estrutura em mosaico, com partes ou subsistemas do sistema eco-social que se encontram em diferentes níveis de desenvolvimento, com composição e padrões de relações diferentes dos característicos destes estados. É por meio da língua (comunicação) que se constroem as relações de significado que enlaçadas entre si, dão sentido às práticas ou processos sociais no modelo de uma formação semiótica. Assim, as formações discursivas construídas com a linguagem guiam as práticas das actividades sociais, da arquitectura, agricultura ou da indústria, entre todas as demais.
A linguagem, dentro do sistema eco-social, tem um papel idêntico ao do código genético, dado que tanto a linguagem, como o ADN, são os instrumentos básicos de expressão da informação. A informação, manifesta-se no sistema eco-social, como processos materiais ou com significados que ao concretizar as práticas sociais, expressam também, processos materiais. A teoria dos discursos culturais, como formações semióticas sociais proporciona a base do modelo de uma teoria geral sobre as formações sociais. A semiótica social menciona que os sinais, acções e práticas sociais apresentam uma
natureza semiótica. Este conjunto de recursos semióticos conforma a cultura de uma comunidade. Neste sentido, as culturas são sistemas sociais semióticos de natureza dinâmica, onde se manifestam um conjunto de sinais, factos e práticas sociais que se vão alterando no tempo. A partir de cada prática social surgem sinais ou sistemas de sinais (como recursos semióticos), que permitem executar uma determinada forma de comportamento, de determinar acções significativas (abrangidas a palavra e as declarações). A forma normal de desenvolver estas acções significativas num contexto ou
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numa comunidade de interesse comum é mediante uma formação semiótica adequada. Assim, cada formação semiótica reúne os padrões de recursos semióticos, que uma comunidade considera como adequados ou convenientes, segundo a sua tradição histórica e cultural, como por exemplo, um estilo arquitectónico e um tipo de construção associado, que é o resultado da utilização de uma formação semiótica, implicando um sistema de sinais, acções e práticas coerentes com a qual a arquitectura, política e os membros da comunidade envolvidos entendem dever ser a arquitectura.
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姜太公
O L H O S A O A L T O
gente sagrada
José Simões Morais
JIANG TAIGONG O Pescador sem anzol
Num dos decisivos períodos para a História chinesa, após os Xia perderem a soberania que em 1600 a.C. passou para os Shang, os governantes desta dinastia foram destronados pela união dos reinos, que fizeram da dinastia Zhou os seus representantes imperiais em 1046 a.C.. A luta contra a autoridade estatutária, pois no final da dinastia Shang, já sem a razão natural, o imperador Zhou só conseguia dominar a sociedade pelo despotismo, usando escravizar os povos conquistados e mesmo os seus. Nos combates dessa guerra participaram de ambos os lados guerreiros que, apoiados por seres sobrenaturais, conseguiram feitos transcendentes. Assim como Na Cha e o seu pai, que combateram pelo lado do reino Zhou, falamos já também do primeiro-ministro Bi Gan e do oficial militar Zhao Gongming, ministros da dinastia Shang.
Se os dirigentes enriquecerem à custa da pobreza do povo, o governo não dura muito Hoje cabe a vez a Jiang Tai Gong, o deus encarregado da canonização dos guerreiros mortos nessa guerra, distribuindo-lhes títulos e cargos celestes, mas que se esqueceu de si mesmo e quando reparou não havia mais lugares no Panteão. Já durante a vida, com o nome Jiang Shang, deixou de servir os Shang devido à malvadez do imperador Zhou, passando a ajudar o reino Zhou a conquistar o poder. Consciente do Dao, pois nele se tinha recolhido após abandonar as fileiras do exército Shang, seguiu os sinais que Lao Zi lhe tinha dado durante o seu isolamento e assim aparece a pescar no afluente do rio Wei, território Zhou. O rei Wen, que andava à procura de gente com talento pelos habitantes do seu reino, encontrou-se com Jiang Shang, ou Jiang Ziya como também era chamado, que entregue ao destino dos deuses, pescava sem no fio haver anzol. Consta que foi pelas carpas que o Dao lhe chegou e com o
lema “quem espera, sempre alcança” Jiang Shang chegou a estratega político e militar do reino Zhou, e pelos seus conselhos de “esperar pelo momento oportuno” levou à excelência dos primeiros imperadores da dinastia Zhou. Personagem idosa, Jiang Shang todos os dias pescava, num afluente do rio Wei, perto da actual Xian, na província de Shaanxi, quando foi ele pescado pelo rei Wen. Após uma abordagem pessoal conseguiu que o ancião servisse na corte como conselheiro estratega. Depois continuando nessas funções foi-o para o sucessor do rei Wen, o imperador Wu, que se tornou o primeiro da dinastia Zhou, após uma batalha sangrenta a cerca de 35 quilómetros de Yin, capital de Shang (actual Anyang, em Henan), onde Jiang Taigong ia à cabeça das tropas. Se era idoso já nos tempos a fio esperados com a convicção de que o “peixe” viria até ele, com 72 anos começa a servir de conselheiro estratega ao reino Zhou e depois já com 80 anos aos primeiros imperadores da dinastia Zhou, continuando por várias gerações até à morte aos 105 anos. Os seus pensamentos de estratega como: - um estado só pode tornar-se poderoso quando o povo é próspero; - se os dirigentes enriquecerem à custa da pobreza do povo, o governo não dura muito; - amar o povo, significa reduzir os impostos e dosear o trabalho, serviram para o rei Wen rapidamente fazer prosperar o estado Zhou. O rei nomeou Jiang Shang duque do Estado de Qi, na actual província de Shandong e é-lhe atribuída a redacção de um livro de estratégia militar, “As Seis Estratégias”, também conhecido por “Seis Capítulos sobre a Arte Militar”. Após a sua morte, o corpo de Jiang desapareceu misteriosamente do túmulo, onde apenas ficaram o chapéu, as vestes e o tratado militar Liutao. Ainda na dinastia Zhou em honra de Jiang Tai Gong foram feitos sacrifícios, sendo na dinastia Tang pela última vez considerado Deus da Guerra. Jiang Tai Gong é festejado no dia 6 da 6ª lua, que no ano de 2012 se celebrou a 24 de Julho e tem em Macau a sua estátua no templo de Shi Gandang, no bairro de San Kio.
14 9 2012
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L E T R A S S Í N I C A S
HUAI NAN ZI 淮南子
15
O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN
Aqueles que atingem a benesse do poder pouco têm em jeito de propriedade, mas têm muito em jeito de responsabilidade.
DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 15 O inefável calcorreia montanhas e nada o perturba; o inefável entra por oceanos e rios e nada o molha. Num lugar estreito nada o sufoca e, apesar de abranger todo o céu e a terra, nada o preenche. Aqueles que não compreendem isto até podem dispor de recursos materiais e de uma cultura artística repleta de esplêndida actividade intelectual e literária, não obstante, tal não os ajudará a governar o mundo [desprovidos desta noção]. *** Aqueles que nas coisas não vêem grande sentido desconhecem que a vida não vale ganância. Aqueles que jamais ouviram grandes palavras
não sabem que ter domínio sobre o mundo não vale ser tomado por vantagem. O dever significa fazer o que é apropriado – e de acordo com a razão. A cortesia significa que os sentimentos ganham corpo através de uma elegância controlada.
têm em jeito de propriedade, mas têm muito em jeito de responsabilidade – aquilo que se encontra ao seu alcance é muito limitado, mas é muito vasto o que sob o seu controlo se encontra. ***
*** Quando a vitalidade e o espírito estão sob pressão, se desintegram; quando ouvido e olho não têm governo, se exaurem. Como tal, os líderes a quem a Via impregna deixam-se de imaginações e livram-se de voluntarismo, permanecendo num estado de clareza e abertura. *** Aqueles que atingem a benesse do poder pouco
Altos terraços e pavilhões de múltiplos andares são deveras esplêndidos, mas um líder iluminado Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho
Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.
FERNANDA DIAS Uma leitura do
YI JING O SOL, A LUA
E A VIA DO FIO DE SEDA A nova tradução do livro que há milénios ilumina a civilização chinesa