ARTES, LETRAS E IDEIAS
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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nツコ 2651. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE
MUSSOLINI, O LOUCO A OPINIテグ DE FERNANDO PESSOA
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MUSSOLINI É UM LOUCO Uma entrevista desconhecida de Fernando Pessoa com um antifascista italiano ficcionado
José Barreto in Revista Entre
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M 20 de Novembro de 1926, quase seis meses depois da instauração da Ditadura Militar, o diário lisboeta Sol, dirigido por Celestino Soares, publicou na primeira página um artigo não assinado intitulado “O ‘Duce’ Mussolini é um louco… afirma-o ao Sol um italiano culto que ama sinceramente a Itália”, contendo uma entrevista com um italiano de nome Giovanni B. Angioletti. Este era identificado como um elemento da “parte não oficial (chamemos-lhe assim) da colónia italiana”, sugerindo tratar-se de um exilado, que “há anos” residiria em Portugal. O entrevistado era descrito como um intelectual de relevo, “bem conhecido colaborador do Mercure de France”. Mas o que chamaria mais a atenção do leitor era o facto de o entrevistado ser também rotulado como um dos “inimigos de mais estatura” do regime fascista. Na entrevista propriamente dita, o italiano radicado em Portugal descrevia Mussolini como um “louco paranóico”, um “primitivo cerebral” que traíra a missão civilizadora e universalista de Itália, guiado apenas pelo “ideal morto” da “grandeza nacional”. Quanto ao fascismo, seria um caso de “loucura contagiosa” e era comparado à “loucura dançante da Idade Média” (um célebre caso de loucura colectiva em 1518, na cidade de Estrasburgo). No prólogo da entrevista, o repórter do Sol elogiava a inteligência e lucidez do entrevistado. Dois dias depois, a 22 de Novembro, o Sol publicou novo artigo de primeira página, intitulado “Fascistas italianos em Lisboa”, relatando reacções à entrevista por parte da imprensa portuguesa e do cônsul italiano em Lisboa, o qual declarara ao Diário de Notícias que o nome do entrevistado do Sol não constava dos registos do consulado. O articulista do Sol transcrevia, em seguida, uma carta entretanto enviada ao jornal, datável da véspera e assinada por “G. B. Angioletti”. Nesta, o italiano confirmava plenamente o teor das suas anteriores declarações, mas negava ser um colaborador do Mercure de France, alertando para o facto de poder existir em Itália um outro Angioletti, eventualmente colaborador daquela revista literária francesa, o que talvez tivesse originado a confusão do Sol. Acrescentava o autor da carta não desejar expor esse hipotético homónimo a “represálias criminais” e “violências sinistras” por parte das autoridades fascistas italianas. O redactor do Sol, porém, reafirmava o que dissera: o entrevistado “denominou-se Giovanni B. Angioletti” e “inculcou-se colaborador do Mercure de France.” Sobre a declaração do cônsul italiano, o autor da carta deixava entender que o seu nome não constaria dos registos consulares porque era um exilado.
Como tentaremos demonstrar, estamos perante uma ficção da autoria de Fernando Pessoa que, segundo todos os indícios, não só forjou a entrevista com um imaginário personagem denominado Giovanni B. Angioletti, como redigiu posteriormente o texto da carta que este teria enviado ao jornal Sol. Foi plausivelmente Pessoa o redactor de ambos os artigos do jornal, contando eventualmente no segundo deles com a colaboração (e, nos dois, com a cumplicidade) do director do jornal, Celestino Soares. Aparentemente, esta ficção terá servido a Pessoa para exprimir as suas próprias ideias sobre Mussolini, o fascismo e outros temas, atribuindo-as a um hipotético grande intelectual italiano (“uma das maiores figuras de Itália”) perseguido por Mussolini e residente em Portugal. Não era a primeira vez nem a última que Pessoa assumia uma identidade fictícia e escrevia um texto de conteúdo igualmente ficcional. Também não seria a última vez que Pessoa redigia integralmente uma entrevista, com as perguntas, as respostas e os comentários do entrevistador. Veja-se o caso da entrevista que Fernando Pessoa deu ao semanário Girasol em Dezembro de 1930, “which I myself wrote out in full”, segundo afirmou a Aleister Crowley, em carta de 13 de Fevereiro de 1931 (BNP/E3, 289 r). No caso da entrevista do Sol, o obstáculo da censura à imprensa instaurada meses antes pela Ditadura Militar, a aposta no sensacionalismo da entrevista com uma grande figura italiana, o desejo de anonimato de Pessoa e o seu iniludível gosto pela provocação, senão mesmo pela blague, tê-lo-ão feito optar por uma ficção. Adiante se fará referência a outras possíveis motivações do autor neste caso. Começando pela questão da identidade do suposto entrevistado, o nome correspondente à inicial B. de “Giovanni B. Angioletti” nunca foi revelado pelo jornal Sol. Acontece, porém, que vivia então em Itália um escritor e jornalista de nome Giovanni Battista Angioletti (Milão 1896-Nápoles 1961), colaborador desde o primeiro número da revista La Fiera Letteraria, fundada em Milão em 1925, e seu futuro co-director (com Curzio Malaparte, então ainda não desligado do fascismo), tendo a revista, publicada em Roma a partir de 1928, mudado de nome em 1929 para L’Italia Letteraria. Giovanni Battista Angioletti tinha começado por ser jornalista do órgão do partido fascista da cidade de Piacenza, La Scure, de que chegou a ser co-director em 1923. Residiu depois em Milão e Roma até 1932, abandonando nesse ano a direcção da revista L’Italia Letteraria e deixando, só então, o seu país, mas para ir dirigir em Praga o Istituto di Cultura Italiana. Deixou este cargo em 1935, continuando até ao fim do regime fascista a trabalhar no estrangeiro como professor, mas sempre a colaborar na imprensa italiana. Estes dados biográficos são, por múltiplas razões, incompatíveis com a descrição que
o redactor-entrevistador do jornal Sol fez do seu entrevistado, que alegadamente se encontrava “há anos” refugiado em Portugal. Vivendo sempre em Itália até 1932, o verdadeiro Giovanni Battista Angioletti não se destacou nem nesse período, nem depois, por quaisquer posições públicas antifascistas. Se as tivesse tomado, não poderia ter sido co-director (1928-1932) de uma importante revista literária, e muito menos nomeado director, em 1932, de um instituto cultural do Estado italiano no estrangeiro. O verdadeiro Angioletti poderia, eventualmente, ter passado por Lisboa em 1926, mas não é de todo crível que, identificando-se com o nome real, tivesse dado uma entrevista daquele teor, pois que, regressando a Itália, seria fatalmente alvo de duras retaliações. Note-se que um dos objectivos declarados da carta posteriormente enviada ao Sol pelo suposto Angioletti exilado em Lisboa era, justamente, prevenir que o verdadeiro Angioletti que vivia em Itália (de cuja existência Pessoa certamente sabia) fosse alvo da tortura do “óleo de rícino” e das “violências sinistras” dos fascistas. Passemos às provas, a nosso ver decisivas, existentes no espólio de Fernando Pessoa. O enigmático nome “G. B. Angioletti” tinha já sido detectado por Jerónimo Pizarro em dois escritos do espólio pessoano, dos quais deu conta em António Botto, Canções (edição, prefácio e notas de Jerónimo Pizarro e Nuno Ribeiro, Lisboa: Guimarães, 2010), reproduzindo e transcrevendo um deles (pp. 165-169). No primeiro, um rascunho da conhecida “Tábua Bibliográfica” que a revista Presença publicaria, sem nomeação do autor, em 1928, Pessoa acrescentou à mão, no final dessa lista de obras suas publicadas até 1926, o misterioso nome “G. B. Angioletti”, sem mais detalhes (tal referência não aparece, contudo, na “Tábua Bibliográfica” publicada pela Presença). Este rascunho indica, pois, que Pessoa associava uma sua publicação àquele nome italiano. O segundo escrito referenciado por Jerónimo Pizarro é a cópia dactilografada de uma carta assinada “G. B. Angioletti” a um jornal português não nomeado, redigida em francês e seguidamente traduzida para português. Sabemos agora que se trata exactamente da carta que foi publicada, nas duas línguas, pelo jornal Sol na edição de 22 de Novembro de 1926. Este segundo documento do espólio liga, pois, directamente Pessoa ao episódio da entrevista e da carta ao Sol. Note-se que não é uma mera tradução da carta, pois inclui um parágrafo inicial de apresentação aos leitores do diário, bem como o original da carta em francês. Para além destes dois testemunhos do espólio, já bastante elucidativos, Jerónimo Pizarro chamou-nos recentemente a atenção para um terceiro documento, inédito, do espólio de Fernando Pessoa, o projecto de uma colectânea sua, intitulada Episódios, em cujo sumário Pessoa incluía uma misteriosa “Entrevista publicada em SOL”. Não era, até agora, conhecida qualquer entrevista dada pelo próprio Pessoa a esse jornal. O exame aturado da colecção completa do Sol na Biblioteca Nacional veio confirmar essa inexistência, mas permitiu-nos descobrir a entrevista publicada pelo jornal com um enigmático, mas para nós já algo familiar, “Giovanni B. Angioletti”. Este terceiro documento reforça decisivamente a convicção de que a entrevista com o hipotético Angioletti é da autoria de Fer-
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Aparentemente, esta ficção terá servido a Pessoa para exprimir as suas próprias ideias sobre Mussolini, o fascismo e outros temas, atribuindoas a um hipotético grande intelectual italiano perseguido por Mussolini e residente em Portugal.
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nando Pessoa, que não só a juntou à referida bibliografia (datável de 1928), como também a projectava incluir na dita recolha de textos já publicados, sob o título Episódios, que reuniria estudos, prefácios, críticas, entrevistas e outros escritos da sua autoria, mas elaborados por “solicitação externa”, conforme o autor explica numa outra nota (BNP/E3, 144-38, cuja indicação igualmente aqui se agradece a Jerónimo Pizarro). O projecto de colectânea é datável dos anos 30, pois já incluía os prefácios para os livros Acrónios, de L. P. Moitinho de Almeida (1931) e Alma Errante, de Eliezer Kamenetzky (1932). Por fim, a análise do conteúdo da suposta entrevista de Giovanni B. Angioletti permitiu afastar a possibilidade de o texto publicado no Sol ter constituído uma entrevista real com qualquer outro personagem, italiano ou não, residente ou de passagem por Lisboa. Com efeito, as ideias expressas pelo imaginário entrevistado coincidem flagrantemente com o pensamento coevo de Pessoa, nomeadamente sobre o fascismo, a Itália, a sua história e o seu papel cultural e civilizacional na Europa e no mundo. Por exemplo, o conceito de “Império, no sentido mais alto do termo”, como “um foco de expansão de ideias e de melhorias que beneficiem todo o mundo”, em confronto com o “conceito bárbaro e primitivo” da nação ou Estado que existe “simplesmente para criar e manter a sua própria grandeza” – são ideias expressas pelo entrevistado que são caracteristicamente pessoanas, expostas por Pessoa naquele mesmo período em diversos escritos políticos, sociológicos ou proféticos, nomeadamente em textos sobre o “Quinto Império” e, em especial, na sua resposta ao inquérito “Portugal, Vasto Império”, publicada meses antes deste episódio no Jornal do Comércio e das Colónias (28 de Maio e 5 de Junho de 1926). Por outro lado, a convicção expressa pelo hipotético entrevistado de que o mundo seria dirigido por ocultas “forças especiais” remete-nos de imediato para os escritos coevos de Pessoa sobre os “300”. Igualmente nos remete para os escritos de Pessoa sobre génio e loucura a análise que o suposto Angioletti faz da loucura e do génio de Mussolini – e fá-lo reclamando-se de conhecimentos psiquiátricos que Pessoa realmente tinha. Tudo visto e considerado, o personagem Angioletti parece-nos, pois, configurar uma nova máscara ou desdobramento de personalidade de Fernando Pessoa. Oito dias antes de o Sol publicar a sua entrevista com o “antifascista” Angioletti, um facto sucedeu que visivelmente contribuiu com vários elementos para que Pessoa ficcionasse a sua peça. Na primeira página do Diário de Notícias de 12 de Novembro de 1926, o correspondente parisiense Jorge Guerner – pseudónimo do jornalista e escritor Paulo Osório (1882-1965), que residia em França desde 1911 e era adido de imprensa na embaixada portuguesa – publicou uma “Carta de Paris”, datada de 6 de Novembro e intitulada “As declarações de um anti-fascista”. Nela, Guerner dava conta de uma conversa havida na capital francesa com um “italiano anti-fascista”, de que não revelava o nome por uma alegada questão de segurança. O anónimo traçara a Guerner um quadro bastante negro da repressão em Itália, evocando as perseguições odiosas contra qualquer pessoa que esboçasse uma crítica, mesmo que benigna, da situação política, relatando o facto de os fascistas terem
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elaborado uma lista secreta de adversários do regime, que pagariam com a vida qualquer atentado que vitimasse o Duce. O anónimo alertara, ao mesmo tempo, para o facto de que a supressão pessoal de Mussolini não interessava, naquele momento, nem à Itália nem à França: “Suprimir hoje Mussolini seria criar na Itália uma situação mil vezes mais terrível que a actual” e “se amanhã um doido matasse Mussolini, seria na Itália toda uma nova S. Barthélemy”. O antifascista anónimo, desenvolvendo uma curiosa argumentação quase apologética de Mussolini, apontara o perigo de, em caso de morte do Duce ou de revolução, estalar uma guerra civil às portas da França, com a consequente anarquia generalizada em Itália, um país ainda recentemente reunificado. No fascismo italiano, supostamente dilacerado por facções e rivalidades internas, Mussolini seria, segundo o antifascista anónimo, “o elemento moderador, o único homem de Estado”. Chegara paradoxalmente a dizer: “Mussolini é, no fascismo, o menor dos males…”. Note-se que o correspondente Jorge Guerner, aliás Paulo Osório, era bem conhecido de Pessoa, que lhe escrevera dois anos antes, em 15 de Novembro de 1924, para lhe agradecer as referências elogiosas que em Les Annales ele fizera à Athena (revista de arte e literatura de Fernando Pessoa e Ruy Vaz, lançada em Outubro daquele ano) e que foram reproduzidas depois pelo Diário de Notícias. Pessoa prontificava-se a enviar para Paris os exemplares de Athena que Osório pedisse. Curiosamente, Pessoa dizia também, respondendo a uma sugestão de Osório de inserir na revista portuguesa uma crónica de Paris, que a Athena não procurava (ainda) ser uma revista do tipo de Mercure de France (F. Pessoa, 1999, 56-58). Em relação com a Mercure de France há que dizer também que o assíduo colaborador desta, Philéas Lebesgue, que em França divulgava há anos a literatura contemporânea portuguesa, era um velho amigo de Paulo Osório, de quem traduzira para francês a História d’um Morto (L’Histoire d’un mort, Paris: E. Sansot, 1904). Grande erudito, bom conhecedor do português e de Portugal bem como de outros países europeus, Lebesgue era, porém, um crítico conservador, o que o fazia taxar os principais romances de Eça de Queirós de “obra perigosa, por causa do espírito demolidor que a anima”, acusando-o ainda de barbarizar a língua e de rebaixar Portugal (Lebesgue, 1926, 477). No Mercure, Lebesgue não fez em 1924-1926 qualquer referência à Athena, embora esta tivesse durado apenas cinco meses, mas enaltecia ali a obra de Afonso Lopes Vieira, António Correia d’Oliveira, Teixeira de Pascoaes, António Ferro e uma série de nomes menores das letras portuguesas. Num rascunho de carta (não enviada) a Teixeira de Pascoaes datável da década de 10 (BNP/E3, 14D-8, que Jerónimo Pizarro gentilmente nos assinalou), Pessoa censura-lhe a sua generosidade crítica para com alguns autores, entre eles Lebesgue: “E o que a sua amizade e patriotismo grato tem dito de Philéas Lebesgue?” Note-se, a encerrar este assunto, que é difícil imaginar o que terá levado Pessoa a distribuir ao seu imaginário Angioletti o papel de colaborador do Mercure de France, já que o verdadeiro Angioletti nunca lá tinha colaborado, tanto quanto pudemos apurar. Em anos sucessivos da revista francesa, na década de 20, não se descortina, aliás, um único nome de colaborador italiano. Sabemos, porém, que o verdadeiro G. B. An-
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gioletti foi colaborador, precisamente a partir de Junho de 1926, da revista literária inglesa The Criterion, dirigida por T. S. Eliot, na qual publicou anualmente, até 1933, uma “Italian Chronicle” (Fortunato, 2004, 12 e segs). Terá sido na Criterion que Pessoa descobriu o nome de Angioletti? No momento preciso escolhido pelo jornal Sol para publicar a entrevista com um suposto intelectual antifascista exilado em Portugal, há que registar várias outras circunstâncias que lhe conferiam singular oportunidade. Acima de tudo, a presença em Portugal de um alto dirigente fascista italiano, o coronel Ezio Maria Gray, que chegara alguns dias antes à capital portuguesa para fundar o fascio da colónia italiana de Lisboa, acontecimento largamente noticiado pelo Diário de Notícias (vd. adiante as nossas notas aos textos publicados no Sol). O título do artigo do Sol de 22 de Novembro, “Fascistas em Lisboa”, aludia justamente a essa presença, que círculos oposicionistas viram como uma tentativa de ingerência na política interna portuguesa. Por outro lado, o Diário de Notícias, jornal ple-
namente sintonizado com a Ditadura Militar, começou a publicar em Novembro de 1926 uma série de entrevistas realizadas nesse mês pelo seu repórter António Ferro, primeiro em França (com o fascista francês Georges Valois e o antifascista italiano Luigi Campolonghi), e depois com um conjunto de personalidades da Itália fascista, incluindo Mussolini (que Ferro entrevistara pela primeira vez em 1923), o ministro das Colónias Luigi Federzoni e o ministro da Justiça Alfredo Rocco. Algumas dessas entrevistas de Novembro de 1926 seriam reeditadas pelo autor em Viagem à Volta das Ditaduras (Ferro, 1927). O jornalista António Ferro, ao contrário do jornal Sol e de Fernando Pessoa, era então um entusiasta do fascismo e de Mussolini. Refira-se, num parêntese, que por volta de 1925-1926 Pessoa escreveu uma crítica arrasadora, que não chegaria a publicar, ao livro de contos de Ferro “A Amadora dos Fenómenos” (Ferro, 1925), obra que qualificou de “abjecta”, sugerindo mesmo ao seu autor a possibilidade de internamento psiquiátrico por imbecilidade (BNP/E3, 14294 r, texto revelado por Pauly Ellen Bothe em Fernando Pessoa, Apreciações Literárias, no prelo). Esta opinião, possivelmente sincera, mas algo exagerada e demasiado veemente na sua expressão, é reveladora da antipatia, por vezes incontida, que Pessoa nutria então por Ferro, o antigo amigo do tempo do Orpheu, com quem manteria de 1915 até ao fim da vida um relacionamento distante, ainda que cortês (Barreto, 2010). O diário Sol, dirigido por Celestino Soares, publicou-se entre 30 de Outubro e 1 de Dezembro de 1926, ou seja, durante 33 dias (as colecções do diário Sol de 1926 na BNP e na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra cobrem exactamente esse período). O Sol era um jornal de tendência republicana e antifascista, que se publicou no ambiente político hostil da Ditadura Militar, instaurada em 28 de Maio do mesmo ano, e sujeito ao regime de censura prévia à imprensa recentemente instaurado. O diário Sol sucedera a um “bissemanário republicano” do mesmo nome, também dirigido por Celestino Soares, que se publicou entre Julho e Agosto de 1926 (seis números), em “edição da grande revista Contemporânea”, e do qual Augusto Ferreira Gomes, íntimo de Pessoa, foi secretário de redacção a partir do n.º 3. Desde o seu lançamento, em 30 de Outubro, que o diário Sol foi atacado pela imprensa apoiante da Ditadura, nomeadamente monárquica, mas nada fazia prever o seu desaparecimento súbito no começo de Dezembro. O último número do jornal, saído no dia 1.º de Dezembro, apenas anunciava que no dia seguinte o jornal não se publicaria por motivo do feriado. Nada conseguimos apurar ao certo sobre a causa directa da extinção do jornal Sol, mas a proximidade de publicação da entrevista “O ‘Duce’ Mussolini é um louco…” e do artigo “Fascistas italianos em Lisboa” e o facto da chegada a Lisboa, em 22 de Novembro, do novo ministro de Itália (até então representada por um encarregado de negócios) permite pensar que o desaparecimento do Sol pode ter tido a ver com a indignação da colónia italiana, do cônsul e do ministro de Itália pelo teor das afirmações sobre a “loucura paranóica” de Mussolini. A 2 de Dezembro, dia em que o Sol não se publicava em razão do feriado da véspera, o novo ministro de Itália, Carlo Galli, apresentou credenciais ao chefe de Estado português. No dia seguinte, 3 de Dezembro,
o Sol deveria ter sido publicado, mas não o foi – nem nesse dia, nem nunca mais. Terá o Sol sido assunto de conversa entre Galli e o general Carmona? De qualquer modo, as autoridades da Ditadura Militar franziam o sobrolho ao jornal desde o seu aparecimento. A propósito, o n.º 6 do bissemanário Sol, de 4 de Agosto desse ano, incluía um artigo contra a censura à imprensa. Coincidência ou não, foi o seu último número. O director de ambas as versões do Sol, Celestino Soares (1898-?) era um jornalista, escritor, diplomata (em 1922 era adido à legação de Portugal em Washington) e empresário. Na revista Contemporânea publicou vários textos: “A Universidade Nova” (n.º 5, Novembro de 1922) e dois artigos sobre as relações ibero-americanas (n.os 1 e 2 da 3.ª série, Maio e Junho de 1926). No n.º 9 da Contemporânea (Março de 1923) era anunciado para breve “um grande magazine semanal sob a direcção de Celestino Soares”, que não chegou a ver a luz do dia. Com José Pacheco, Leitão de Barros e outros, Celestino Soares esteve envolvido na questão da Sociedade Nacional de Belas Artes, ocorrida em 1921, a propósito da qual escreveu “O Triunfo dos Novos” (Contemporânea - 1.º Suplemento, Março de 1925). Em 28 de Maio de 1926, quando foi instaurada a Ditadura Militar, Celestino Soares, membro do Partido Republicano Português, exercia desde Fevereiro as funções de governador civil de Portalegre. Em 1946 e 1947, Celestino Soares participará destacadamente em duas tentativas de derrubar o regime de Salazar (o golpe da Mealhada, em 10 de Outubro de 1946, e a “Abrilada”, de 10 de Abril de 1947), tendo sido condenado a pena de prisão. Celestino Soares, além de se relacionar, entre outros, com José Pacheco, Almada Negreiros e Augusto Ferreira Gomes, era também das relações de Fernando Pessoa, tendo sido por este listado, por volta de 1921, como possível subscritor do capital da Olisipo, juntamente com um quase homónimo, José Celestino Soares (144G-42 v). No espólio de Pessoa, os dados de nascimento de Celestino Soares, certamente para fins astrológicos, encontraram-se em 904-76 r, um cartão-de-visita pessoal, e 906-64 r, um cartão-de-visita de A Emprêza do Teatro NôvoBarreto Mussolini é um louco Pessoa Plural: 1 (P./Spr. 2012) 233 (o “Teatro Novo” foi uma iniciativa de António Ferro e José Pacheco em 1925). Dois horóscopos de Celestino Soares encontram-se (sem nome, mas com a data e a hora identificadoras) em 906-46, aparentemente elaborados em 27 de Agosto de 1926. Anotações a lápis no fundo da página, registam a data do seu casamento (29 de Outubro de 1921) e do nascimento de três filhos entre 1923 e 1926. Nas mesmas anotações, o período de 22 de Março a 15 de Agosto de 1919 tem a menção de “Prisão”. Fernando Pessoa publicou em 1926, tanto no bissemanário como no diário Sol, diversas colaborações assinadas: no n.º 6 e último do bissemanário Sol (4 de Agosto), o artigo “Organizar”, não assinado, mas reproduzido da Revista de Comércio e Contabilidade, e ainda, possivelmente, o texto também não assinado da p. 2, intitulado “Senhores reformadores! O individuo é que é gente”, um texto caracteristicamente pessoano tanto na forma como no conteúdo (ver aqui Apêndice, imagens 5 e 6); no n.º 1 do diário Sol (30
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de Outubro), Pessoa assinou o artigo “Um grande português”, com a sua versão da história do conto do vigário; no n.º 12 (10 de Novembro), o poema “Gazetilha”, de Álvaro de Campos (vd. neste número de Pessoa Plural a apresentação por Jerónimo Pizarro das publicações deste poema); no n.º 15 (13 de Novembro), o poema “Anti-Gazetilha”. Não foi possível encontrar, nem no bissemanário nem no diário Sol, o texto “Uma das palavras que mais maltratadas têm sido…”, que Clara Rocha (1996, 528) afirmou ter sido publicado no quarto número do “Sol (bi-semanário republicano)”. O diário Sol publicou também, com tradução de Fernando Pessoa, o folhetim policial “O Caso da 5.ª Avenida”, de Anna Katharine Green (The Leavenworth Case, 1878), interrompido no 28.º fascículo por o jornal ter deixado de se publicar. O último número distribuído do jornal, alusivo ao 1.º de Dezembro, rematava o título principal da primeira página com uma citação do “Mar Português” de Fernando Pessoa: “E outra vez conquistemos a Distancia – // Do Mar, ou outra, mas que seja nossa...”. Transcrevem-se abaixo os dois artigos publicados pelo diário Sol, seguidos das respectivas imagens. A transcrição é acompanhada de algumas notas contextuais alfabéticas, reunidas no final. Em apêndice, por fim, reproduzem-se imagens dos textos do espólio pessoano aqui referidos e do bissemanário Sol. Renove-se aqui um agradecimento pela preciosa colaboração prestada a este trabalho por Jerónimo Pizarro, que foi também o primeiro a assinalar o nome de Angioletti no espólio pessoano e a abrir, assim, esta pista de investigação. Um agradecimento também a Steffen Dix, pela sua informação sobre a carta de Fernando Pessoa a Aleister Crowley e a entrevista do primeiro ao semanário Girasol.
BIBLIOGRAFIA BARRETO, José (2010), “Fernando Pessoa e António Ferro: do espírito do Orpheu à ‘Política do Espírito’”. Comunicação ao II Congresso Internacional Fernando Pessoa, Casa Fernando Pessoa/Câmara Municipal de Lisboa, 23-25 de Novembro. BOTTO, António (2010). Canções. Edição, prefácio e notas de Jerónimo Pizarro e Nuno Ribeiro. Lisboa: Guimarães. FERRO, António (1927). Viagem à Volta das Ditaduras. Lisboa: Empresa do “Diário de Notícias”. ____ (1925). A Amadora dos Fenómenos. Porto: Civilização. FORTUNATO, Andrea (2004). La letteratura italiana sulle pagine di The Criterion 1922-1939. Tesi di laurea, Facoltà di Lettere e Filosofia, Università degli Studi di Milano. LEBESGUE, Philéas (1926). “Lettres portugaises”, in Mercure de France, n.º 680, Paris, 15 de Outubro, pp. 477 e segs. PESSOA, Fernando [2012]. Apreciações Literárias. Edição de Pauly Ellen Bothe. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda (no prelo). ____ (1999). Correspondência 1923-1935. Edição de Manuela Parreira da Silva. Lisboa: Assírio & Alvim. ____ (1988). “Os Trezentos”, apresentação de Yvette Centeno, in Revista da Biblioteca Nacional, s. 2, vol. 3, n.º 3, Lisboa, Setembro-Dezembro, pp. 25-42. ____ (1928). “Tábua bibliográfica. Fernando Pessoa”, in Presença, n.º 17, Janeiro, Coimbra, p. 10. ROCHA, Clara (1996). “Fernando Pessoa colaborador de revistas e jornais”, in Fernando Pessoa, Mensagem – Poemas Esotéricos. José Augusto Seabra, coordenador. Madrid: ALLCA XX, 2.ª ed., pp. 521 e segs. STRAPPINI, Lucia (1988). “Angioletti, Giovanni Battista”, in Dizionario Biografico degli Italiani, vol. 34. Acedido em: http://www.treccani.it/enciclopedia/giovanni-battista-angioletti_(DizionarioBiografico) Outras fontes impressas: jornais e revistas Contemporânea (1922-1926). Diário de Notícias (1926). Girasol, semanário (1930). Sol, diário (1926). Sol, bissemanário (1926).
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UM “CAMISA BRANCA” O “Duce” Mussolini é um louco... afirma-o ao “SOL” um italiano culto que ama sinceramente a Itália A VINDA do coronel Gray, delegado fascista, a Portugal, e os reparos, de vária ordem, que essa vinda levantou, levaram-nos a investigar se haveria em Lisboa, entre a parte extra-oficial (chamemos-lhe assim) da colónia italiana, algum representante dos princípios contrários com autoridade moral, e, sobretudo, relevo intelectual, para nos dizer sobre o fascismo duas palavras dignas de imprimir. Aquele caso propício que está sempre, devemos crê-lo, à espreita das pessoas bem intencionadas, trouxe inesperadamente ao nosso conhecimento a existência insuspeita, nesta capital atlântica, de uma das maiores figuras da Itália, e um dos inimigos de mais estatura das teorias e da prática (as teorias são várias e a prática uma) do regime do Fascio, o sr. Giovanni B. Angioletti, o bem conhecido colaborador do «Mercure de France» e que há anos habita entre nós. Conseguimos que nos levassem à sua presença, e pudemos trocar com ele as palavras precisas para reconhecer, primeiro, que estávamos diante de uma das inteligências mais lúcidas e mais precisas que nos tem sido dado encontrar; segundo, que era esse, em verdade, o homem que procurávamos. Mal fizemos a pergunta. Não poderemos dizer ao certo se chegámos a pronunciar o nome do coronel Gray. A resposta surgiu, mais em relação com o muito que pensávamos que com o pouco que chegámos a dizer. Os italianos não são ridículos... Nós, os italianos, temos – permita-me que o diga – grandes qualidades, mas o sentimento do ridículo não se inclui entre elas, nem nenhum dos numerososamigos, que a Itália tem sempre tido no estrangeiro, alguma vez nos atribuiu um humorismo de inglês ou uma graça de francês. Isto lhe explica, sem mais nada, missões como esta, que o paranóico genial que hoje impera através de escravos audaciosos, na minha pobre Pátria, arremessa, para uso de caricaturistas sem assunto, sobre um mundo que, devo dizer-lhe, o admira por o que conhece dele, e porque não o conhece a ele, nem á Itália. – V. Ex.ª disse «o paranóico genial»? Barreto Mussolini é um louco? – Sim – genial como paranóico. Isso não exclui que se lhe possa chamar um grande homem. A toda a gente que se destaca do
contra ele. Violências? É o que há de menos importância real no fascismo. Todos os partidos esforçadamente políticos as exercem desde que as circunstâncias sociais lhes garantam a facilidade de as exercer e a impunidade depois de as ter exercido. Não: as violências do fascismo não têm importância verdadeira. Iguais violências, ou quasi iguais, praticaram os seus adversários; iguais violências, se não maiores, praticariam amanhã, se o Destino os bafejasse com a ilusão chamada poder. O que há de verdadeiramente grave no fascismo não está nas suas violências... – Compreendo. Está nas suas doutrinas?... – Não, não está nas suas doutrinas. Está, essencialmente, na sua exaltação da Itália.
rebanho humano se pode chamar grande, por isso mesmo que se destacou... Mussolini é um louco – desafio qualquer psiquiatra a negá-lo – mas a loucura, como muita gente não sabe, é contagiosa em muitas das suas formas, e é-o precisamente naquelas formas que mais perigo pode haver em se contagiar. O fascismo é um caso como o da loucura dançante da Idade Media, que atacou colectividades. No meu livro... – aqui o nosso entrevistado equilibrou, rápida, uma hesitação, e, ocultando o titulo da sua obra, reatou: – no meu próximo livro, eu explicarei... E aqui pairou outra vez um pequeno silencio... O PIOR MAL DO FASCISMO... O anti-fascista continuou, respondendo, com uma intuição quasi de bruxedo, a qualquer coisa que não havíamos perguntado: – Tem-se dito muito contra o fascismo. Mas o que se tem dito contra o fascismo é o que de menos importante se pode dizer
–? – Não me compreendeu? Eu não esperava que me compreendesse... Eu lhe explico, sem lhe tomar muito tempo; e, se quer saber o pior contra o regime fascista, vai agora ouvir o pior. Da Renascença para cá o conceito das funções externas do Estado evoluiu, e essa evolução é o fenómeno mais caracteristicamente determinante da evolução geral da humanidade. A Renascença, ao mesmo tempo que fechou a Idade Media, sintetizou a sua experiencia; e o nosso sublime Dante é o exemplo disso em carne, osso e alma...Ora na Renascença, como na Idade Media, o conceito do Estado, bárbaro e primitivo, era de que o Estado, ou a Nação, existia simplesmente para criar e manter a sua própria grandeza. O progresso humano – pense-se o que se quiser dele – destruiu este preconceito provinciano. Chegámos hoje a um novo conceito de Estado. Nenhuma nação tem direito a existir se não contribui qualquer coisa para o progresso geral da humanidade, se não é um Império no sentido mais alto do termo – um foco de expansão de ideias e de melhorias que beneficiem todo o mundo. É este o destino que a Renascença talhou para a Itália – a Itália mártir, dividida, mas grande. A Itália unificada tem falhado a esta missão. Podemos até pensar que a unificação foi um erro... Que tem a Itália unificada dado ao mundo? Nada. O que deu ao mundo a Itália dividida? Tudo. Ora o mal do fascismo é que é a ultima consequência da Itália unificada. Mussolini é, como todos os loucos, um primitivo cerebral. Reverte, por instinto nervoso, aos conceitos já extintos na humanidade civilizada. Não consegue elevar-se acima do ideal morto da «gran-
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deza nacional». A Itália para ele é tudo, mas como Itália só, e não como mestra e aperfeiçoadora do mundo. Mussolini traiu a Itália, e com isso traiu a civilização, porque a Itália e a civilização são sinónimos... ...O MUNDO É DIRIGIDO POR FORÇAS ESPECIAIS... Qualquer coisa no tom do nosso entrevistado – uma hesitação subtil, uma vaga indecisão – prende-nos de repente. E de repente perguntámos: – Mas Mussolini será tão louco como isso? Mussolini fará isso tudo por engano, inconscientemente? Pela face do anti-fascista passa qualquer coisa que foi quasi um sorriso. Passa... e fica uma expressão que é mais de preocupação que de tristeza. Ergue um pouco a cabeça, que descaíra, e diz: – O mundo é dirigido por forças especiais – muito especiais mesmo – de que o fascismo é apenas uma manifestação particular. Entre o que se passa hoje na China e o que se passa hoje na Itália há uma relação íntima, que, no fundo, e nos elementos verdadeiramente dirigentes – não me refiro agora ao pobre Duce – é perfeitamente consciente. Peço a sua atenção para o que
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lhe estou dizendo, e a sua recordação, de aqui a dez anos, de que hoje lho disse... V. é novo; não poderá deixar de ser vivo nessa altura. – Não percebo... O antifascista abriu uma gaveta, tirou de lá uma pasta, e, de entre os papéis que nela estavam, escolheu um recorte de jornal. Logo á primeira vista nos pareceu que era dum jornal português. À segunda vista vimos que efectivamente era. O recorte era de “A Informação”, jornal do sr. Homem Cristo Filho, da secção intitulada Ecos, e é, textualmente, assim: O GRANDE LIVRO DE MUSSOLINI A «Entente Internationale contre la 3.eme Internationale», prestimosa organização antibolchevista, expediu agora, do seu Secretariado Espanhol – Calle de Gaztambyde, 29, Madrid – a curiosíssima nota de que damos em seguida uma tradução rigorosamente literal: Mussolini é um louco «Está despertando uma grande curiosidade, na intimidade dos círculos diplomáticos europeus o livro que, a par das suas memórias, se diz estar escrevendo o sr.
Benito Mussolini, primeiro ministro da Itália, como uma nova «Monita Secreta» para os sub-chefes do movimento fascista. Intitula-se esse livro, segundo as melhores informações, «O Futuro da Anarquia», e destina-se, ao que por elas consta, a provar que o Grande Ditador italiano não pretende, no fundo, senão criar uma sociedade nova em moldes que diferem dos soviéticos apenas em dois pontos: 1.º, aquilo a que ele chama a «temporalidade do principio autoritário», que consiste em criar autoridade em qualquer coisa fictícia, para assim destacar a autoridade do organismo social; e 2.º, o que ele designa «a dissociação do elemento coercitivo», isto é, a criação duma «força pública» distinta do exercito e da armada, de modo a estabelecer, segundo as palavras textuais, «uma dualidade na essência coerciva do Estado». Estes espantosos e novíssimos princípios, que, mesmo enunciados assim em resumo, mostram a altura e a originalidade do altíssimo espírito do «Duce», são, ao que parece, os que têm norteado seguramente a notabilíssima política do maior chefe do nosso tempo. Pergunta-se apenas se não seria mais conveniente, e mais útil para todos, que o sr. Mussolini, em vez de conservar quasi secretos estes princípios, os publicasse francamente, abrindo assim uma nova era na
política europeia, já tão cansada de formulas e de falsas interpretações.» UMA NOTICIA QUE NÃO FOI DESMENTIDA... – Mas, perguntámos nós, o que quer isto dizer? Esta noticia foi desmentida? O anti-fascista encolheu os ombros. – Não foi, nem poderia ser, desmentida. E não foi desmentida precisamente porque o não poderia ser... – Mas V. Ex.ª diz que Mussolini... – Faça de conta que eu não disse nada... Ou melhor, faça de conta que lhe disse apenas aquilo que lhe vou repetir: O mundo é dirigido por forças especiais, de que o fascismo é apenas uma manifestação particular. – E a Itália? – A Itália é eterna. É a mãe sublime das artes e a fecundadora das ciências. O seu esforço arrancou a Europa da baixeza de si mesma e ungiu-a com o óleo sacro que dá o conhecimento da beleza e a luxúria da compreensão. A Itália está acima dos Césares que saem das alfurjas, dos Gracos de pífaro e tambor... A Itália foi grande, e a Itália tornará a ser grande... Deixe acabar o intervalo...
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A PRESENÇA DE EZIO GRAY O CORONEL Ezio Maria Gray, deputado fascista italiano, membro do directório nacional do partido (1924) e do Grande Conselho do Fascismo (1924-25), deslocou-se a Lisboa em meados de Novembro de 1926 com a incumbência de proceder à criação de um fascio local, isto é, um núcleo dos fascistas italianos residentes em Portugal. O Diário de Notícias noticiou os passos por ele dados na capital portuguesa, conseguindo entrevistá-lo em 17 de Novembro. A entrevista decorreu, curiosamente, no foyer do Teatro Trindade, no intervalo de uma revista da companhia parisiense Ba-Ta-Clan, que se encontrava então em Lisboa, espectáculo que o jornalista descreve como exibindo “girls” bailando “desenfreadamente” (vd. “Vamos ter ‘camisas negras’ em Portugal”, Diário de Notícias de 18 de Novembro de 1926, p. 1). No dia 19, o mesmo jornal publicava uma reportagem sobre a sessão de propaganda que o coronel Gray fizera na véspera no Palácio Pombeiro, futuras instalações da legação italiana (vd. “A propaganda política fascista pelo coronel italiano sr. Ezio M. Gray”, Diário de Notícias de 19 de Novembro de 1926, p. 1). Nessa sessão de propaganda, a que assistiram numerosos membros da colónia italiana e jornalistas seleccionados da imprensa portuguesa, o coronel Gray tentou tranquilizar o público português dizendo que ninguém se deveria alarmar com a constituição dum ‘fascio’ em Portugal” e prometendo que os fascistas italianos não se imiscuiriam na política interna de Portugal. A 21 de Novembro, o mesmo jornal noticiava (p. 4) a partida de Gray, na véspera, dia 20, para Madrid. A “entrevista” com um antifascista italiano publicada pelo Sol no dia 20 enquadra-se obviamente nestes acontecimentos, constituindo uma espécie de réplica às reportagens do Diário de Notícias dos dias imediatamente anteriores. Como se conclui do artigo que contém a entrevista com Angioletti, a primeira pergunta do entrevistador seria sobre a presença de Gray em Lisboa, ou seja, era esse o assunto imediato.
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A LOUCURA DO “DUCE” Fascistas italianos em Lisboa
UM DESMENTIDO NO AR – OS PRIVILÉGIOS DE CERTA IMPRENSA – DE NOITE TODAS AS CAMISAS... SÃO NEGRAS... LEMOS NO Diário de Noticias de ontem, em 4.ª página, a propósito da saída para Madrid do fascista italiano (sic) Edgio Maria Gray (oh! o nacionalismo romano dos Grays!...), o seguinte: Do consulado de Itália em Lisboa escrevem-nos dizendo não existir nos seus registos nenhum italiano com o nome daquele que concedeu uma entrevista a um nosso colega da manhã, sobre fascismo. O «nosso colega» – somos nós. A entrevista intitulava-se O «Duce» Mussolini é um louco... O entrevistado denominou-se Giovanni B. Angioletti; inculcou-se colaborador do Mercure de France. Temos uma civilidade tradicional que nunca negou guarida ou réplica a quem a solicitar; temos uma Lei de Imprensa que dá o direito de resposta no próprio local onde o facto contestável se publicou. É isto ignorado no Consulado de Itália? Não teve o sr. cônsul ainda a oportunidade de conhecer os nossos costumes e as nossas leis? No Consulado nunca se leu o Mercure de France. Não nos compete a nós delatar aos agentes do «fascio» italiano a presença civil dos perseguidos do «Duce». Não será por via do nosso jornal que os «camisas brancas» se macularão de negro nem que o óleo de rícino se ministrará como ridícula arma a adversários que se acolheram á tradicional hospitalidade portuguesa. Esteve em Lisboa o sr. Gray. Deu-se o estranho facto de vir a Portugal em propaganda da política interna do seu país e de escolher para local dessa campanha o edifício onde se vai instalar a Legação de Itália. Anunciou-se essa conferência só para italianos; mas a ela assistiram, reportando o facto, os representantes da imprensa que merecia a confiança ou a consideração dos «camisas negras». Na entrevista por nós publicada o que valia à contestação do representante italiano não era o nome nem sequer a personalidade do
entrevistado. As afirmações subsistem incontestadas e sem discussão. Movam-se os prelos. Está concedido o direito de resposta. UMA CARTA DO DR. ANGIOLETTI Já depois de composto o artigo acima, recebemos do sr. dr. Giovanni B. Angioletti a seguinte carta, a que damos imediata publicidade, no original e na tradução literal que dela fizemos: Monsieur: – Revenu d’un de ces petits voyages que j’ai l’habitude de faire au Nord de votre beau pays, ce n’est que ce moment même que je viens de lire l’interview qu’un de vos rédacteurs m’a fait l’honneur de me demander. Je vous remercie vivement, tant des éloges, vraiment excessifs, dont vous avez entouré mon nom encore obscur, que de l’exactitude absolue – verbale même – qui est le trait saillant de la reproduction de ce que je vous ai dit. Je vous prie, toutefois, de rectifier une petite erreur, dont je ne m’explique pas l’origine. Je n’ai jamais collaboré au Mercure de France ; je le lis même très rarement. Je me hâte de vous signaler cette erreur et de vous en demander la correction, parce qu’il peut se faire qu’il y ait en effet un Angioletti, ou quelque chose de semblable, qui soit collaborateur du Mercure. C’est peut-être là l’origine de la fausse identification qui s’est établie dans l’esprit de votre rédacteur. Et ce serait faire un assez mauvais service à cet homonyme inconnu que de l’exposer – peut-être vit-il en Italie – aux représailles criminelles, aux violences sinistres dont se compose la logique essentielle des serfs du Cesar Borgia. Je viens de lire aussi, dans un journal qui n’est pas le vôtre, que le Consulat d’Italie a déclaré qu’il ne porte pas mon nom sur ces régistres.
Le Consul dit vrai, mais vous l’aviez déjà dit dans les tous premiers mots de votre article... Agréez, Monsieur, avec la réitération de mes remerciments, l’assurance de mes sentiments les plus distingués. G. B. ANGIOLETTI Eis a tradução : ...Sr. – De regresso de uma daquelas pequenas viagens que tenho por hábito fazer ao Norte do vosso belo país, é só neste momento que acabo de ler a entrevista que um dos vossos redactores me fez a honra de me pedir. Agradeço-lhe calorosamente não só os elogios, em verdade excessivos, com que cercou meu nome ainda obscuro, mas ainda a exactidão absoluta – verbal mesmo – que é o traço saliente da reprodução do que eu vos disse. Peço-vos, comtudo, que rectifiqueis um pequeno êrro, cuja origem não sei qual fôsse. Nunca colaborei no Mercure de France; raras vezes, mesmo, o leio. Apresso-me, porém, em vos indicar este êrro, e em vos pedir que o corrijais, porque pode dar-se o caso de haver, de facto, um Angioletti, ou qualquer coisa parecida, que seja colaborador do Mercure. Está nisso, talvez, a origem da falsa identificação que se estabeleceu no espírito do vosso redactor. E seria prestar um serviço bastante mau a esse homónimo desconhecido o expô-lo – talvez ele viva em Italia – ás represálias criminais, ás violencias sinistras, de que se compõe a lógica essencial dos servos do Cesar Borgia. Acabo de ler também, num jornal que não é o vosso, que o Consulado de Itália declarou que o meu nome não existe nos seus registos. O Consul diz a verdade, mas já V. a havia dito logo nas primeiras palavras do vosso artigo. Com a reiteração dos meus agradecimentos, aceite a afirmação da minha maior consideração. G. B. ANGIOLETTI
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C H I N A C
NAS CATARATAS DA ALDEIA DE António Graça de Abreu DEPOIS DO esplendor de falésias, picos e brumas por montanhas de Zhangjiajie e Wulingyuan, nada melhor do que viajar entre montes mais sossegados e vales recatados rumo a outras paragens da província de Hunan. Foram cento e dez quilómetros por estrada até à aldeia de Furong, conhecida pelas cataratas que a atravessam e por um filme do realizador Xie Jin, datado de 1986 intitulado “O Lugar dos Hibiscos”. 芙蓉Furong , o nome da terra, significa “hibisco”, uma bonita flor de vida breve e o filme de Xie Jin teve esta aldeia por cenário. Na altura foi um dos grandes êxitos do cinema chinês e colocou Furong no mapa turístico da China. Com o passar dos anos, o filme começou a cair no esquecimento, o lugar também. Com disponibilidade e tempo para todas as viagens, negociei com uma agência de turismo local o transporte desde Wulingyuan, a ida e volta até Furong. Depois, no regresso ao lar chinês, apanharia o avião directo Zhangjiajie-Xangai. Manhã cedo, lá estava uma carrinha à espera, à porta do hotel. Um motorista simpático, já entrado nos anos, levar-nos-ia até Furong no carro made in Hunan, China. O veículo, estreitinho e desconfortável, parecia-se com uma motorizada com quatro rodas e carroçaria de mini automóvel, com pneus quase de bicicleta, a fingir tratar-se de uma autêntica carrinha. Avançámos estrada fora por caminhos meigamente serpenteantes conduzidos por um afável cidadão chinês que terá talvez tirado a carta de condução nas areias do deserto de Gobi, algures na Mongólia. Eu viajava à frente, sentado no lugar do morto, as curvas e contracurvas eram feitas em segunda e terceira velocidade, uma emoção constante com um veículo que não ultrapassava os 60 kms. por hora a chiar por tudo quanto era motor e juntas da carroçaria. A carrinha, com apenas 15.000 quilómetros, era uma casquinha fina de chapa e alumínio e parecia prestes a desfazer-se. Com pouco sucesso, pedi ao motorista tento e calma na condução. Era verdade que as muitas lombas, curvas e buracos da estrada não facilitavam o rude engenho do condutor que de resto tanto guiava pela direita, como pelo centro, como pela esquerda, toda a estrada – felizmente havia pouco trânsito --, lhe pertencia. Foi um susto. Na China, segundo dados de 2012, morrem 300 pessoas por dia em acidentes de viação e a tendência é para este número crescer em termos mais significativos, dado o constante aumento de veículos automóveis por todo país. A carrinha por terras de Hunan foi mais um
sobressalto no já longo e alvoroçado tempo de jornadas pelas cem mil estradas do mundo chinês. Chegado a Furong, desde o alto da aldeia havia dois quilómetros e meio a fazer a pé, pela rua principal da terra, descendo para o rio ao lado das cataratas, entre as casas da povoação. Mais um lugar com singulares e velhíssimas habitações de madeira, para ir ao encontro de pessoas ainda muito pobres a viver da agricultura e do pequeno comércio, sobretudo a procurar vender quinqui-
lharia artesanal a turistas de passagem. A rua vazia, os turistas quase ausentes. E havia muito lixo espalhado por tudo quanto era canto e recanto. As gentes de Furong não primam pela limpeza, dado vulgar nas aldeias e no campo chinês. As cataratas no rio Mengdong estendem-se sobre socalcos de pedra com um desnível de cem metros ao longo de quase um quilómetros, apertadas entre as casas na margem direita e, depois do outro lado, meio suspensas junto a uma magnífica mansão em
芙蓉F estilo tradicional chinês outrora pertencente a um chefe local, um tal príncipe Yi que no século XIII mandou construir para sua residência um conjunto de pavilhões em madeira trabalhada, harmoniosos e requintados. Nesse Verão de 2009, a água não muito abundante descia em pequenas cascatas brancas de espuma, contrastando com o cinzento da pedra e o verde da vegetação luxuriante das margens, cantava com os pássaros, transformava as cataratas num da-
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R Ó N I C A
FURONG, PROVÍNCIA DE queles originalíssimos lugares criados pelos pequenos deuses para encantamento dos homens. Pena o lixo, mas a perfeição não faz parte do mundo chinês, nem de mundo nenhum. Se exceptuarmos as quedas de água, a aldeia de Furong tem algumas semelhanças com a nossa vila de Penacova. Só fiz esta descoberta, um tanto ou quanto ousada, depois de regressar a Portugal e olhar cuidadosamente no monitor do computador as muitas fotografias que tirei em Furong.
Penduradas nas escarpas, sobre estacas de madeira, construíram-se o mesmo tipo de casas com andares sobrepostos, aproveitando–se cuidadosamente todo o espaço. Logo abaixo das habitações, corre um rio semelhante, aqui chama-se Mengdong, em Portugal é o Mondego. Estamos porém numa aldeia da China profunda onde moram principalmente pessoas da minoria tujia, uma das cinquenta e cinco minorias nacionais que se distribuem por todo este vasto país. Os tujia são oito milhões de pes-
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湖南HUNAN
soas espalhadas pelas zonas montanhosas das províncias de Hunan, Hubei, Sichuan e Guizhou, com a sua própria língua e costumes únicos. Não têm escrita e adoptaram há umas centenas de anos os caracteres chineses, língua que também falam. Tal como acontece com muitas outras minorias nacionais, os tujia estão integrados na grande comunidade de chineses han. São excelentes artesãos e famosos pelo depurado fabrico de brocado. Em Furong não se diferenciam dos han, a não ser que vistam
os seus trajes típicos coloridos, sobretudo as mulheres com saias compridas, corpetes e aventais, e os chapéus, uma espécie de toucados com contas pendentes. A aldeia tem ainda o seu castelo tipo altaneiro, com um pavilhão e uma boa muralha de construção recente, mais um mirante para contemplar a paisagem. Não subi. Fiquei-me do lado de cá do rio, a beber uma caneca de chá no asseado varandim da mansão do príncipe Yi e a redigir umas tantas notas de viagem.
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P R I M E I R O B A L C Ã O
luz de inverno
Boi Luxo
O DELFIM
Quanto tempo leva a ver desaparecer um homem? Pode ser cerca de hora e meia. Não sei bem se este filme de Fernando Lopes, outro filme sobre um homem que se quer mostrar duro, tem uma hora e meia. No cinema, no entanto, este tempo chega para ver de que têmpera é feita um homem, mesmo que neste filme não de trate da morte de Trotsky, apenas do desaparecimento de um homem que só não é vulgar num sítio pequeno. Num texto anterior, em que acabou por não se falar de O Delfim, como planeado, apontara-se como uma das marcas mais distintas de alguns filmes de Fernando Lopes uma tendência para o desvio. Desvios que se prendem com a liberdade de sair da ditadura da história e deixar vaguear o olhar. Não pode falar-se de abandono. Tivesse este sido praticado mais vezes (com mais arte seria difícil) e partes dos seus filmes ganhariam um apelo poético infinito. O desvio, neste autor, nunca vai para além de uma elegante decência rejeitando o excesso. O que Fernando Lopes fez em Belarmino ou em Uma Abelha na Chuva também aqui neste filme acontece um pouco, como se aquele nos atraísse ao labirinto de uma conversa de café, sem planos que não fossem os de praticar a certeza de que tudo pode acontecer ao virar de uma frase. Mesmo em Belarmino, o mais britânico filme que alguma vez foi feito em língua portuguesa, resultado, decerto, dos seus estudos na London Film
School. Mesmo que ele se espraie com essa referência para se tornar - num feito que espelha algumas das suas deslocações entre o som e a imagem - num exemplo nítido de uma nostalgia que não é inglesa nem portuguesa mas internacional. Será que Lopes viu This Sporting Life, de Lindsay Anderson? Está a acontecer de novo o que acontecera com o texto anterior. Os filmes de Fernando Lopes convidam à divagação. Acho que li algures que Belarmino foi o primeiro filme português a usar jazz no genérico (e durante o filme). Quem o revir não deixará de tentar imaginar o que na altura isto fez ao filme e aos seus espectadores daquela Lisboa fechada e provinciana. Redivago. O Delfim nem é um filme muito bom. Por vezes tem coisas a mais e algumas delas são transmitidas de um modo demasiado óbvio. Mas tem uma maneira própria de se concentrar numa figura e de a envolver. Eduardo Prado Coelho diz, a propósito de Belarmino e Nós por cá todos bem, que “(...) o realizador escolhe uma personagem e rodeia-a de cinema por todos os lados(...)“. Em O Delfim também. “Lá vai ele, o engenheiro, Palma Bravo, o infante, o dono da lagoa. O nosso dono. Com a gaja, o preto e o cão. Filho da puta”, diz o cauteleiro da aldeia, uma das figuras mais forçadas de um filme que não precisa muito dele. Neste retrato se prova que Fernando Lopes devia ter sido pintor, mostrando melhor que contando.
Percebe-se dolorosamente a sua hesitação em deixar demorar o seu olhar, por vezes, numa parede de uma aldeia, como fizera antes, mas fica a ideia do que poderia ter acontecido. Que o filme sobreviva àquilo que hoje já não interessa, que é um passado de que já ninguém quer saber, é a prova de que há nele um nível mais sedentário. Um nível que podemos chamar mineral porque ultrapassa o tempo mais próximo. É como as pedras de Uma Abelha na Chuva ou os monumentos de Belarmino. É como deixar falar os outros, como acontece em Nós por cá todos bem ou Matar Saudades. Falar de um homem que se torna desprezível porque despreza todos os que o rodeiam, até a sua criada, não pode ser um exercício de amor, apenas uma tentativa de mostrar a força e a ignorância. No meio de tudo isto, o Doutor, o único sobre quem o fel e o desprezo do infante se estende com algum afecto, parece só servir para criar uma agressividade também contra a sua passividade. Assim como acontece para com a passividade do criado e a impotência de Dona Mercês, sua esposa. A violência de Palma Bravo reside, para além dos maus tratos que inflige às vítimas que lhe são mais próximas, como a mulher ou o criado, na obrigatoriedade que lhes impõe de não progredir, uma imposição da estagnação. Se pensarmos em outros filmes de Lopes, e Belarmino é o primeiro que vem
à atenção, podemos concluir que várias das suas figuras dificilmente escapam ao enclosuramento. Poderá ser isto que seduziu o autor destas histórias. O desenvolvimento final, a possibilidade do adultério de Dona Mercês e a ignomínia que aquele lançaria sobre a odiada figura do fidalguinho da Gafeira, não o liberta dessa estagnação. Pode não ser muito natural dizer isto mas este filme precisava de mais tempo, de um tempo que levasse à exaustão a culpabilidade do infante e dos que se deixam apodrecer à sua volta. Ainda assim permanece como um produto paradigmático, um filme bem feito em que as suas ousadias infelizmente se envergonham mas onde um exercício sem arte o poderia, também, destruir. Aqui a única pessoa que está onde quer estar é Aninhas, a criada (Isabel Ruth) porque esta é uma figura que não precisa ou não deseja qualquer evolução. Isto leva-nos de novo à motivação inicial de tudo isto, que foram as criadas. O seu papel, de um aparente apagamento, pode ser comparado ao de um contrabaixo numa orquestra, essencial na criação de volume e uniformidade mas com uma presença difícil de detectar individualmente. Retirar os contrabaixos seria, no entanto, imediatamente notado. Retirar as criadas seria, igualmente, um acto que poderia levar ao desmembramento do filme. No fim, da criada nem se fala.
... À CERCA DOS JOGOS POPULARES E TRADICIONAIS Cândido Azevedo AO LONGO de toda a passada semana, o Instituto para as Actividades Cívicas de Macau e o Instituto dos Desportos de Macau presentearam a cidade com um grande encontro de Actividades Recreativas, dirigidas a todos os escalões etários. De entre estas actividades destacaram-se os diversos encontros de Jogos Tradicionais, com realce para as actividades decorridas no Jardim Camões, intituladas Jogos Populares e Tradicionais de todo o Mundo. Apesar de um tempo instável, foi com satisfação que vi centenas e centenas de pessoas acorrerem a este evento. Vi lá crianças construindo o seu cavalinho de pau, colocando o rabo ao burro, divertindo-se com os matraquilhos de prego, jovens correndo o arco, rodando o carrinho de rolamentos, saltando o avião, ou ainda idosos deliciando-se no jogo da malha, no tiro com a funda, no jogo da pesca, na dança das cadeiras ou na bola ao pirulito, num total de cerca de 40 jogos ao dispor de todos, dos 3 aos 80 anos. Pena foi que a participação de cidadãos portugueses fosse quase nula. Está de parabéns quem montou tal espaço, a Divisão de Actividades Recreativas do IACM. Mas se hoje a população portuguesa se ausenta da participação neste tipo de jogos, autêntico património a preservar, tempos houve em que a participação foi grande, pois várias fontes nos referem que desde meados do século XVI, eram muito participados os “jogos públicos” realizados pela edilidade, fossem nas festas de S. João, patrono da cidade, ou comemorativos de efemérides reais, como as populares cavalhadas, recriadas dos antigos jogos equestres praticados pelos fidalgos portugueses, ou a subida ao topo do “[…] mastro se achava untado de cebo
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À S U P E R F Í C I E
ou metidos em grandes e fortíssimos saccos atados na boca, corriam de pé ao mesmo tempo.. e produziam hilaridade nos espectadores” como refere Sampaio (1864)1. Felizmente que na historiografia de Macau, exista quem nos descreva tais práticas, qual riqueza cultural, como o escritor Luís Gonzaga Gomes, o Monsenhor Manuel Teixeira ou a investigadora Ana Maria Amaro, e hoje, cientes do seu valor patrimonial, o IACM e o IDM periodicamente as relembram, fazendo a sua animação em datas festivas. Na verdade, Macau foi ao longo de séculos um exemplo singular de diálogo e de encontro entre povos de culturas tão diferentes com predomínio para a chinesa e europeia. Estes povos, fosse na condição de navegadores, comerciantes, artífices, criados ou escravos, ao fazerem aqui uso dos seus valores culturais, não podiam omitir as práticas lúdicas atrás referidas, que lhes eram inerentes, apresentando as suas particularidades locais e que por aqui permaneceram. De entre estas, muitas desapareceram, outras modificaram-se, outras são ocasionalmente lembradas, outras muitas vezes erroneamente designadas por jogos tradicionais2. Tradicionais ou não, a importãncia destes jogos, que a tradição e a história nos dizem serem praticados há séculos em Macau, é um autêntico património do território, não só porque está na génese do processo lúdico-desportivo macaense, mas também por mostrar a memória secular desse encontro de culturas, logo, também séculos de coabitação lúdica. Daí que há muito e com insistência eu referir que a nossa cidade, de tantos e oportunos museus, carece de um Museu do Desporto, como muitos países o têm, alguns, mesmo aqui ao lado. Não, não é descabido este Museu do Desporto, não só por ser cultura, logo componente importante na vida e história
dos povos, mas também pelo fenómeno universal em que este se tornou a partir dos inícios do século passado, arrastando milhões de praticantes e biliões de espectadores. É que não me refiro a um museu como mausoléu de recordações desportivas, mas sim enquanto um espaço vivo, com dominantes didácticas, salvando a rica memória lúdico-desportiva de Macau, que pouco a pouco se esvai, definindo a sua “história desportiva”, aquele diálogo corporal e intercultural desde o século XVI, entre portugueses e chineses, independentemente da sua ligação a valores e interesses diferenciados. E, volto hoje a repetir, tal Museu teria também como tarefa enquanto espaço vivo (que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe para fins de estudo, educação e fruição, evidências materiais ligadas aos jogos e desportos), as seguintes tarefas: - ser um instrumento pedagógico, atraindo jovens para um desporto saudável e transparente de forte conteúdo ético; - desenvolver trabalhos nos campos da investigação e acção cultural, perante uma juventude que hoje se afasta dos campos desportivos e clubes, ganhando agora um grande “imobilismo adiposo”, pois a mobilidade agora existe apenas a nível do polegar e indicador: consolas vídeo, comandos de televisão, horas de “net”, dezenas de “sms” por dia, “facebook” permanente... Estes jovens desconhecem já que jogos e brinquedos enriqueceram a juventude dos seus pais e avós; - obrigar ao aparecimento de novas formas de cultura desportiva e de novas relações sociais entre os que gostam do desporto, em áreas como a Arte, Estética, Literatura, etc.; - ser mais um local de trabalho para aqueles cuja saída profissional condicionada está pela dimensão de Macau, e aqui refiro-me concretamente aos licenciados pela ESEFD do Instituto Politécnico de Macau. No meu último apelo, Manuel Silvério prometeu ouvir-me. Mas este já lá vai ... Conto nova atenção de mais alguém... 1- SAMPAIO, Manuel Castro, Memória dos Festejos que Tiveram Logar em Macau por Ocasião do Fausto Nascimento de Sua Alteza Real O Senhor D. Carlos..., (Macau, 1864) 2- Tenho por jogos tradicionais as práticas lúdicas e corporais, anteriores ao advento da revolução industrial, práticas essas propiciadoras de identidade cultural, realizadas umas vezes em estreita ligação à natureza, outras vezes associadas aos ritos ou ainda em comunhão com as ocupações laborais, e que, com maiores ou menores alterações, chegaram até aos tempos modernos, que, com as suas inovações as depreciou ou as remeteu para o arquivo do passado.
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CINECITTÀ
A HORA DO DRAGÃO
O FIM?
LUÍS CUNHA LANÇA LIVRO SOBRE A CHINA
SEGUNDA-FEIRA, OS trabalhadores da Cinecittà ocuparam os históricos estúdios italianos em protesto contra os planos de reestruturação da sociedade proprietária, a Cinecittà Studio Spa (IEG). Estão em greve, apoiados pela CGIL, a mais importante organização sindical italiana, para tentar impedir a transferência para outras empresas de várias funções asseguradas pelos estúdios. Afirmam que tal representará o seu fim enquanto centro de produção cinematográfica. Em França, realizadores como Costa-Gavras, Cédric Klapisch ou Claude Lelouch lançaram uma petição solidarizando-se com os trabalhadores. A agência francesa AFP avança que a ARP, a sociedade francesa de autores, realizadores e produtores, insta as autoridades europeias “a proteger e classificar este monumento histórico da cultura”. Antes, já a ANAC, a associação italiana de realizadores, demonstrara o seu apoio à greve em carta enviada ao presidente italiano, Giorgio Napolitano, e ao primeiro-ministro Mario Monti. “Os planos de reestruturação antecipam, por um lado, o desmantelar das actividades cinematográficas no local e, por outro, a construção de hotéis e ‘health-clubs’, pondo em movimento a política de betão na exploração da zona, discutida pelas grandes construtoras da região há algum tempo”, lia-se na carta, citada pelo Screen Daily. “É urgente destruir este local inseparável do cinema de Fellini, Visconti, Comencini, Lattuada, entre outros, para construir um centro de fitness? Emagrecer às custas do património e da cultura, todo um simbolismo: mesmo com Berlusconi, não o tinham ousado!”, escreve, por sua vez, a ARP, citada pela AFP. Nos anos 1950 e 1960, a Cinecittà e os seus técnicos proporcionavam um trabalho de qualidade a um baixo custo (para padrões americanos), o que atraía até si as grandes produtoras americanas, que ali filmaram Ben-Hur ou Cleópatra. Hoje, é a vez de a Cinecittà enfrentar a concorrência proporcionada pelos estúdios no leste europeu. Gangues de Nova Iorque e, mais recentemente, a série Rome, foram das últimas grandes produções a ter lugar nos 40 hectares da Cinecittà. As dezenas de trabalhadores em greve, muitos com décadas de ligação aos estúdios inaugurados em 1937 por Mussolini para estimular o cinema italiano e onde, décadas depois, Fellini filmaria A Doce Vida ou Satyricon, receiam ser obrigados a mudar de actividade e de empresa. Segundo o Screen Daily, a Italian Entertainment Group (IEG), maioritária na sociedade proprietária dos estúdios, planeará a transferência dos trabalhadores de pós-produção na Cinecittà Digital Factory para a Deluxe Entertaintment Services Group, sedeada em Hollywood. Vários outros técnicos passariam a trabalhar para a Panalight, empresa italiana de equipamento cinematográfico. Cerca de 50 operários de construção, responsáveis pela montagem dos cenários, seriam, por sua vez, transferidos para os terrenos onde nascerá o Cinecittà World, projecto inspirado no parque temático Universal Studios Hollywood, a instalar no local onde antes se erguiam os Roma Studios, fundados pelo produtor Dino De Laurentiis na década de 1960 e adquiridos pela IEG em 2004. A Cinecittà Studio Spa argumenta que, para assegurar o futuro dos estúdios, as mudanças anunciadas são indispensáveis. Para ser competitivo, cita a AFP, será obrigatório passar de “uma empresa integrada que cobre a totalidade dos serviços necessários” para uma “organização diferente da produção”.
O EIXO geopolítico global está a deslocar-se para o Oriente e a China, “com crescentes capacidades globais” é um ator internacional a ter em conta, defende o investigador Luís Cunha no livro “A hora do dragão”. A obra, com prefácio do professor Adriano Moreira, é o resultado de anos de estudo e trabalhos publicados sobre a ascensão geoestratégica da China, de que resultou uma tese de doutoramento, sendo também fruto de um interesse despertado por muitos anos a viver em Macau. “São oportunos, e claramente construtivos, trabalhos como o que vem assinado por Luís Cunha, que seguramente vai suscitar o interesse de todos os que se inquietam com a desordem do presente e não desistem de contribuir para uma reconstrução da ordem internacional” - refere Adriano Moreira no prefácio do livro a lançar quinta-feira. “A hora do dragão” que faz uma análise da política externa da China e a forma como o gigante asiático chegou aos principais centros de decisão mundiais, é lançado quinta-feira e sustenta que se não fosse o processo de abertura ao mundo delineado por Deng Xiaoping e colocado em prática desde 1978, a “China chegaria aos nossos dias como uma réplica da Coreia do Norte, isto é, um Estado-pária”. O livro que Luís Cunha lança no mercado aborda, como sustenta o autor, “a cultura estratégica colocada em campo pelas elites chinesas e o processo decisório subjacente” e equaciona e interpreta as grandes orientações da política externa chi-
ses, 15 dos quais têm fronteira física com o gigante asiático (?) tem capacidade nuclear capaz de atingir os territórios de todos os seus principais rivais geoestratégicos e gere uma economia transformada num dos grandes motores da globalização”, recordou Luís Cunha.
POLÍTICA EXTERNA VISA RECURSOS
nesa “designadamente no confronto interestadual entre potências e blocos regionais de primeira ordem com ambições geopolíticas de natureza global”.
DISSEMINAÇÃO DE UM MODELO
Luís Cunha salienta que a nova diplomacia chinesa “dissemina o modelo chinês desenvolvimentista ao mesmo tempo que divulga a mundivisão geopolítica da China pelos quatro cantos do mundo”. Mas a afirmação do “Império do Meio” não pode, como salienta o autor, ser dissociada do facto de ter uma massa crítica que não passa despercebida no cenário internacional. “É um país com 1,3 mil milhões de habitantes, reclama uma zona de fronteiriça de 32.000 quilómetros quadrados circundada por 29 paí-
O investigador do Instituto do Oriente (ISCSP) defende que grande parte da política externa da China, com o seu capital disponível, é orientada para a obtenção dos recursos necessários ao progresso económico da China. Mas neste jogo de diplomacia económica existe também um paradoxo como salienta Luís Cunha: “a maioria dos parceiros comerciais da China é, simultaneamente, aliada militar dos Estados Unidos”. Com um peso cada vez mais significativo no cenário internacional, a China não abdica, contudo, de incluir as “características chinesas” nos conceitos que vai adotando e procura agora “um espaço próprio no sistema internacional, a partir do qual poderá projetar o poder político reencontrado na esfera económica”. “A evolução da China e a sua cada vez maior intervenção no cenário internacional é inevitável, mas mais do que ter uma presença, mesmo que em grupos poderosos como o G20 ou no Conselho de Segurança das Nações Unidas, Pequim quer recuperar o estatuto e o espaço geopolítico de proeminência a que se julga historicamente com direito”, afirma o investigador.
ISLAMISTAS CONTINUAM A DESTRUIR TOMBUCTU OS COMBATENTES islamistas do Ansar Dine prosseguem na sua campanha para eliminar todos os traços de idolatria em Tombuctu, no Norte do Mali. Já tinham arrasado sete dos 16 mausoléus e a porta de uma das três mesquitas mais importantes da região. Ontem destruíram mais dois túmulos na famosa mesquita de lama de Djingareyber. Perante os avanços do grupo de rebeldes salafistas, a comunidade árabe de Tombuctu, cidade mítica do Sara, anunciou a criação de uma “brigada de vigilância” para tentar evitar que o Ansar Dine, apoiado por outros grupos islamistas, prossiga com os seus planos de destruição dos túmulos de santos de Tombuc-
tu, inscritos na tradição local sufista. “Para que ninguém toque” nos mausoléus que restam. Na interpretação do islão do Ansar Dine, a veneração de santos é idolatria e por isso não pode ser tolerada. “Não vamos deixar que pessoas que não sabem nada do que é o Islão venham destruir os nossos tesouros”, disse à AFP o chefe da brigada, Tahel Ould Sidy, que garante que estão armados e têm homens suficientes para fazer frente aos islamistas. “Eu estudei na Mauritânia e na Arábia Saudita. O Corão não diz que os mausoléus devem ser destruídos.” Dois terços do Norte do Mali ficaram sob o controlo dos rebeldes
islamistas depois do golpe de Estado de 22 de Março. O objectivo do Ansar Dine é controlar todo o território do Mali para aí estabelecer um califado. Os ataques aos monumentos sufistas começaram precisamente dois dias depois de Tombuctu, a cidade dos 333 santos, Património Mundial desde 1988, ter sido incluída na lista de património mundial em perigo da UNESCO. “Não há Património Mundial, isso não existe. Os infiéis não devem meter-se nos nossos assuntos”, disse à Al-Jazira um tunisino do Ansar Dine que se identificou como Ahmed. “Vamos destruir tudo”, prometeu. “Até os mausoléus que estiverem dentro das mesquitas.”
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C I D A D E S I N V I S Í V E I S
metrópolis
Tiago Quadros*
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NOCTURNOS QUAL É a preocupação de um realizador quando filma a preto e branco? Provavelmente criar contrastes cromáticos de modo a que o branco se recorte no escuro, o escuro se recorte no claro. E, desse ponto de vista, transpondo para a arquitectura, o que temos, é por vezes, necessidade de marcar planos com determinadas impressões cromáticas mas que poderiam, em abstracto e em limite, ser reduzidas à paleta do preto, do branco e dos cinzentos, ainda que se utilizem os vermelhos, os amarelos ou os verdes. O que está em causa são mais os contrastes e os encostos de tonalidade do que propriamente cada uma das cores. Qual é a cor duma fotografia a preto e branco? Qual é a cor de Marienbad (filme em que a arquitectura aparece tão presente)? Qual é a relevância que a cor tem para “atravessar” uma fotografia a preto e branco? E, realmente, ela tem alguma relevância – não quero diminuir com isto a importância da cor na arquitectura –, mas acho que ao compararmos precisamente com o cinema ou com a fotografia no seu registo de não cor, de preto e branco, apercebemo-nos que é possível emocionarmo-nos com uma imagem que nos é traduzida por esse filme ou essa fotografia sem sabermos qual é a sua cor original. Vem isto a propósito das duas imagens que ilustram o artigo desta semana – uma fotografia de uma obra (pintura) de René Magritte e uma fotografia de uma obra (arquitectura) de Kengo Kuma. Entre o pintor belga e L’Empire de la Lumière , pintado em 1954, e o arquitecto japonês e Plastic House, construída em Tóquio, no ano de 2002, estamos perante dois nocturnos. Apesar das duas obras se apresentarem, no seu estado original, coloridas, por razões que têm a ver com a concepção gráfica do suplemento h, surgem aqui a preto e branco. E é esta opção editorial que nos permite abordar imagens, que aprendemos a conhecer a cores, a preto e branco. A noite passa a ser a questão fundamental e com ela a luz. Quer no preto e branco, quer na cor é a luz. Sempre foi. Mas isso é evidente nas imagens que resumem L’Empire de la Lumière e Plastic House. Na forma como pintor e arquitecto concebem a luz. Quando vemos – e este é um exemplo que eu gosto de referir – uma fotografia de um edifício da Baixa Pombalina (há muitas fotografias a preto e branco do Rossio, do princípio do século ou final do século XIX, em que se vê que um conjunto de edifícios está pintado de uma cor escura, provavelmente um vermelho escuro, cor de tijolo) percebe-se o encanto que é a cantaria branca do lioz das janelas a recortar-se contra essa superfície mais escura. Nós não temos a certeza se se tratava exactamente dum vermelho, vamos imaginar
que era um vermelho escuro – uma cor, na altura, relativamente popular –, também poderia ser um verde escuro ou outra cor qualquer. O que é importante ali é percebermos, e nisso o resumo que a fotografia a preto e branco nos dá é fascinante, que aquela cor, qualquer que fosse, funcionava bem porque demarcava com muito rigor a cantaria das janelas. Se por hipótese usássemos o branco ou um cinzento muito claro, o efeito que iríamos obter seria mais pobre porque não conseguiríamos, daquele modo, valorizar a marcação das janelas. Isto autoriza-nos, ao fazermos, uma reconversão, a não usarmos o verde garrafa mas, por exemplo, um cinzento escuro porque o que é preciso é que na passagem da pedra para o aro haja uma espécie de acumular de sombra artificial que é dado pela pintura numa tonalidade mais escura. Apesar da luz se afirmar mais naturalista em L’Empire de la Lumière do que em Plastic House, a grande questão que se observa nas duas fotografias a preto e branco é a luz em cena. É o cinema a regressar, novamente, ao seu princípio. Ao princípio da pintura. E isso é extraordinário. Há, nesse sentido, um trabalho visual de pintura mas que não é pictórico. É uma luz, digamos, de flashback de memória.
*Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa
13 7 2012
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财神
O L H O S A O A L T O
gente sagrada
José Simões Morais
CHOI SAN, O DEUS DA RIQUEZA Tchoi Pak Seng Kuan (em mandarim Cai Bo Xing Jun), mais conhecido por Choi San (Cai Shen), é o deus responsável por toda a abundância e riqueza que existe no mundo, a quem os chineses crentes muito impetram e tem representação em todos os templos de Macau. Em tempos antigos, quando o Deus da Riqueza estava ainda ligado às características dos diferentes negócios e estes relacionados com um dos Cinco Elementos, eram os pedidos feitos ao deus relativo ao Elemento com que os crentes trabalhavam. Os pescadores, ligados com a água, faziam os pedidos de bons negócios aos deuses da Água, os padeiros e quem trabalhavam com o fogo, aos deuses do Fogo e assim sucessivamente. As profissões tinham o seu particular Choi San, como Lu Ban era para os marceneiros, ou Lao Jun para os alquimistas e pessoas que trabalhavam, o ferro ou a porcelana, nos fornos. Por isso, encontravam-se inúmeros deuses da Riqueza; para cada profissão e em cada província eram diferentes os representantes que davam a imagem ao Deus. Por exemplo, os comerciantes de Zhejiang veneram Fan Li, em Anhui prestam homenagem a Guan Zhong, em Shanxi é Bai Gui quem o representa e para os de Fujian, Han Xin. Com tantas personagens como Deus da Riqueza, chegou uma altura que foi necessário passar a ser uma entidade abstracta e assim foi unificado. Para o Daoismo há dois tipos de deus da Riqueza, o civil e o militar. O Deus Civil da Riqueza, também conhecido pelo Deus do Sol da Riqueza, inclui Qing Di (o guarda que toma conta da Primavera), Bi Gan (lendário oficial da Dinastia Shang), Fan Li, lorde da estrela de Cai Bo (alguns dizem ser ele Liu Hai)... Já como Deus Militar da Riqueza apresenta-se Zhao Gongming ou Guan Yu. Em Macau, o Deus Civil da Riqueza é representado por Pei Kón (em mandarim Bi Gan), servindo os crentes que apelam a Choi San para lhes propiciar riqueza. Bin Gan, o Deus sem coração, era ministro do imperador Zhou da dinastia Shang (1600-1046 a.C.). A História conta como o tirano, o imperador Zhou, se divertia a ser cruel
e mais requintado se tornou para agradar à preferida das suas belas esposas, a raposa Da Ji. Uma das histórias refere estar Bi Gan em casa e pela janela escutou um pregão de alguém que queria comprar um coração. “– Quem quer vender o coração? Venda-o! Venda-o!” À procura de quem queria adquirir tão estranha mercadoria Bi Gan foi ter com o comprador e questionou o alcance que aquele pregão representava já que, quem o vendesse, sem coração não conseguia viver! Retorquiu-lhe a sapiência de um ancião: “- Sem coração consegue-se viver, pois ele é a fonte do bem e do mal, da verdade e da mentira. Não importa que o teu coração seja bom ou mau, vai ser afectado pelas acções humanas que à tua volta se deparam. Sem coração, não há mais bem, nem mal, estando aí o sentido equilibrado da justiça que tornará o mundo harmonioso e equilibrado. Tenho aqui um comprimido que, mesmo que não tenhas o coração, te tornará um deus.” Pouco tempo depois, o imperador manda chamar Bi Gan e este por precaução tomou o comprimido antes de chegar à presença de Zhou, que logo lhe pediu emprestado o coração, pois era a única forma de salvar a rainha Da Ji. Então Bi Gan abriu o peito e dele retirou o coração e, após apontar as crueldades do soberano, saiu do palácio. Pouco tempo depois, as tropas comandadas pelo rei Wu, que unia muitos reinos, aproveitando os exércitos Shang estarem a combater em Shandong os Dong Yi, atacam a capital e assim terminam com a dinastia Shang, suicidando-se o imperador Zhou, que deitou fogo ao palácio. Foi Jiang Taigong, o deus que atribuía títulos de canonização aos seres que durante a sua vida se distinguiam e os elevava a divindades do panteão chinês, que deu a Bi Gan o título de Deus da Riqueza. Representante da parte civil, passou Bi Gan a servir os crentes que apelam à sua divindade para lhes propiciar riqueza. Bi Gan usa o tigre (o guardião dos tesouros celestes) como montada e tem o seu templo em Wei Hui, Henan, tendo Confúcio confirmado ser aí o túmulo.
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L E T R A S S Í N I C A S
HUAI NAN ZI 淮南子
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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN
Quando a natureza das pessoas muda, estas esquecem-se da origem e se conformam a uma natureza aparente.
DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 13 A natureza dos homens comuns é serem descontrolados em jovens, violentos quando adultos e gananciosos na velhice. Se mesmo um indivíduo passa por uma série de transformações, não nos espantemos que os líderes mudem as leis amiúde e que, amiúde, os países mudem de líderes. Se as pessoas usam os seus cargos para fazer valer os seus gostos e as suas aversões, então aqueles que se encontram em posições subordinadas de responsabilidade temerão ser incapazes de gerir com sucesso.
*** Na criação de maneiras, bastará apenas assistir realidades e clarificar intenções. Na criação de música, bastará apenas harmonizar o desfrute e exprimir ideias. Numa nação desordeira, as palavras e as acções são mutuamente contraditórias; os sentimentos e as expressões se opõem. As maneiras são elaboradas ao ponto de serem fastidiosas, a música é elaborada ao ponto de ser licenciosa. *** Governar um país é como limpar um jardim de ervas daninhas; livra-
-te apenas dos rebentos das plantas maléficas – é tudo. *** As modas, maneiras e costumes não constituem a natureza das pessoas, mas aquilo que absorvem a partir do exterior. A natureza humana é inocente; quando é embebida em costumes por longo tempo, muda. Quando a natureza das pessoas muda, estas esquecem-se da origem e se conformam a uma natureza aparente. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho
Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.
Lê os verdadeiros escritores, lê Balzac, Han Shan, Shakespeare, Dostoieveski. Jack Kerouac
O homem que um dia se chamou Han Shan, ninguém sabe quem foi. Quando alguém o via, considerava-o um doido, um pobre diabo. Vivia retirado na montanha Tiantai, sete léguas a oeste do distrito de Tangxing, num lugar chamado Han Shan (Montanha Fria), entre rochas e falésias. Daí descia frequentemente para o templo de Guoqing, ao encontro do seu amigo Shi De, encarregado da limpeza da cozinha do mosteiro que lhe guardava restos de comida em malgas feitas com cana de bambu. Lu Qiuyin, prefeito de Taizhou (Séc. IX)
Quem gosta de poesia, quem deseja abrir a mente para as mil subtilezas do budismo chan ou zen, quem procura a simples inteligência do saber encontrará em Han Shan um mestre, um confrade, um amigo. António Graça de Abreu
POEMAS DE
HAN SHAN edição bilingue
TRADUÇÃO, PREFÁCIO E NOTAS DE ANTÓNIO GRAÇA DE ABREU