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h - Suplemento do Hoje Macau #56

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GONÇALO LOBO PINHEIRO

ARTES, LETRAS E IDEIAS

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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2713. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

A LIÇÃO DE MARGARIDA


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IVO M. FERREIRA COMEÇA RODAGEM DE “PALÁCIO DE CRISTAL”

O CASTELO E A METÁFORA

O CINEASTA Ivo M. Ferreira foi recentemente convidado por GUIMARÃES 2012 – Capital Europeia da Cultura, para realizar um filme para o programa – Castelo em Três Actos, projecto inscrito no ciclo ‘Escalas e Territórios’ do programa Arte e Arquitetura de Guimarães 2012. O convite é da responsabilidade do curador Paulo Cunha e Silva. O tema do Castelo, no âmbito de Guimarães 2012, é uma poderosa metáfora para agarrar algumas das grandes questões contemporâneas. O Castelo é passado e futuro, raiz e utopia, origem e destino, fortaleza e palácio, unidade e diversidade. No imaginário nacional português, o Castelo de Guimarães corresponde ao mito da origem, pelo menos da origem da nacionalidade. Questionar todas estas flutuações dos conceitos neste momento Histórico, é não só oportuno, como indispensável – e pertinente quando Guimarães é Capital Europeia da Cultura.

CHINA+PORTUGAL+MACAU

“Palácio de Cristal” (nome provisório) esboça um desenho contemporâneo sobre as relações culturais entre China e Portugal, colocando Macau na génese desta relação. O filme passa-se nos dias de hoje, 2012, com um Portugal (e Europa) em crise, e uma China próspera. O filme vive no entanto de ressonâncias com o tempo passado – século XII – mas projeta-se, sobretudo, no futuro – quimera. “O meu trabalho é o de tentar que os meus filmes reflitam sobre os assuntos que me interessam, que me inquietam. É assim que a minha carreira internacional tem crescido: procurando uma cinematografia própria e universal.” Os protagonistas da curta-metragem são Margarida Vila-Nova e Siun Chong. O filme é o único filme produzido em Macau para GUIMARÃES2012 e tem o apoio do Instituto Cultural (Departamento de Promoção das Industrias Criativas) e conta também o apoio da Fundação Oriente e o apoio da TDM e da CUT. O filme é uma produção do território da recentemente formada produtora de filmes de autor Porto Interior Filmes em parceria com a Macau Closer. A Porto Interior Filmes está neste momento também a produzir um documentário sobre o pintor Mio Pang Fei realizado por Pedro Cardeira. “Palácio de Cristal” começa a rodagem na próxima semana na


China e tem estreia marcada para dia 1 de Dezembro em Guimarães e segue para a carreira de festivais de cinema.

A VIDA DE IVO

Ivo M. Ferreira nasceu em Lisboa, Portugal, em 1975, é residente no território de Macau desde 1994. Filho de actores, cresce no seio teatral, onde começa a carreira como actor com alguns dos mais importantes encenadores e coreógrafos portugueses. O gosto pelo cinema instala-se desde muito novo e rapidamente transita para a Realização em Cinema. A vida pessoal e profissional de Ivo M. Ferreira desde sempre se confundiu com Macau e com a China. Foi em Macau que se tornou adulto, que fez o seu primeiro filme e que criou os seus filhos. A sua obra esteve sempre ligada à ideia de diálogo entre Ocidente e Oriente: do “Homem da Bicicleta” (1996) um dos mais significativos documentários sobre a memória de Macau, passando por “Em Volta” (2002) longa-metragem de ficção que culmina na cerimónia do Handover, “Vai com o vento” (2007) documentário sobre a emigração chinesa para o Sul da Europa, passando por “O Estrangeiro” (2010) filme centrado nas memórias do autor sobre o território.

“Palácio de Cristal” esboça um desenho contemporâneo sobre as relações culturais entre China e Portugal, colocando Macau na génese desta relação. Ao longo de uma carreira celebrada em muitos dos mais importantes festivais Internacionais de Cinema do Mundo (Roterdão, Locarno, Cork, Florença – Dei Poppoli, Chile; Brasil; Estados Unidos da América; Paris -Essone, Indie Lisboa entre muitos outros), Ivo M. Ferreira nunca deixou a relação embrionária com Macau. É por isso que quando desafiado, por Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012, para produzir um filme em torno da ideia de “Castelo”, como pedra basilar para a construção do discurso identitário, escolheu Macau e o Sul da China como ponto de partida para esta viagem. Está neste momento a preparar “Cartas de Guerra”, uma longa-metragem de ficção adaptada da obra homónima de António Lobo Antunes. Este filme está já financiado e conta com co-produções da europa (França, Alemanha, Suécia) selecionado recentemente, entre 250 projectos do mundo inteiro, para participar em Julho de 2012 no PARIS PROJECTS, o maior fórum de co-produções francófono), Brasil e de Angola, onde será filmado. Este filme será uma das grandes produções europeias de 2013. Ivo Ferreira trabalha com simplicidade, empenho e liberdade, num cinema muito próprio e universal.

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SINOPSE Macau 21012. Dois repórteres da Televisão de Macau, uma jornalista portuguesa e um operador de câmara macaense, são convidados a fazer, juntamente com outros jornalistas Europeus, uma reportagem sobre o Guangdong Maritime Silk Road Museum. Este museu futurista tem, como peça central da sua colecção, um junco que naufragou no Sec. XII e que foi retirado do fundo do mar numa grandiosa operação. Este junco, Nanhai 1, foi transportado para o museu e colocado no interior de uma piscina gigante do PALACIO DE CRISTAL, salão nobre do museu. No sec. XII, o junco rumava a Ocidente, pela rota da seda, carregado de porcelanas. No mesmo momento em que misteriosamente naufraga o Nanhai 1, desaparece também a galé de

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Dom Fuas Roupinho - Almirante de Dom Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal. Por coincidência e ressonância. Estes naufrágios contemporâneos vão conduzir-nos por uma viagem mítica e perigosa onde se elevam as questões identitárias, as relações entre os dois países na forma romântica e política que se desenha a situação actual dos dois territórios: um Portugal em naufrágio, uma China e Macau em ascensão. Será nesta aventurada viagem que os dois personagens, afundados pelas suas Histórias, acabarão por se encontrar. Ao enfocar a história do Junco Nanhai 1 e a rota da seda, ao fazer um paralelismo com a embarcação de Fuas Roupinho, o filme aborda toda uma temática sobre a relação entre as duas culturas, mesmo antes do seu encontro.


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MARGARIDA VILA-NOVA “Não quero ser refém da minha profissão”

- O seu percurso artístico começou muito cedo, por volta dos seis anos. Pode-se dizer que não teve escolha, ou chegou a pensar fazer outra coisa qualquer? MV - Cheguei a pensar ser caixa de supermercado, educadora de infância... sempre sonhei com uma vida muito rotineira, normal, simples. Procurei sempre esse equilíbrio, ou essa ilusão de equilíbrio, durante a minha vida, durante o meu percurso.

filmagens. Sempre quis muito fazer cinema. Sempre me fascinou estarmos a trabalhar durante um dia para fazer um minuto, ou um minuto e meio de filme. São feitos dez planos para contar a história num minuto. Toda a envolvência que tem uma cena, o ambiente da rodagem, a concentração que existe no plateau...é um trabalho de equipa quase comovente.

GONÇALO LOBO PINHEIRO

José C. Mendes

- As relações humanas tornam-se mais intensas. MV – Sim, no teatro e no cinema as relações são muito emocionantes, as pessoas ficam muito unidas. Mas à parte desse lado romântico a mim fascinava-me o facto de estarmos a trabalhar para uma hora e meia de filme e que cada dia de trabalho era passado por uma equipa inteira em conjunto a trabalhar para fazer um minuto de filme naquele dia.

- Mas a escolha de ser actriz foi sua ? MV - Não sei se fui eu que escolhi ou se foram as circunstâncias da vida, o ambiente em que cresci. Sou filha de produtores, naturalmente o grupo de amigos são músicos, artistas plásticos, fotógrafos, realizadores, produtores, actores... Tenho uma grande admiração e respeito pelo teatro e pelo cinema, mas não sei se não tivesse crescido nestas circunstâncias se teria tomado as mesmas opções.

- O fascínio pelo cinema continua intenso? MV - Pois, era o que estava a pensar, se ainda tinha esse fascínio pelo cinema... e senti que o que me apetecia agora fazer era... teatro! (risos)

- Começar aos seis anos foi quase determinante? MV - Aos seis anos não temos maturidade nem sentido de responsabilidade sobre o que estamos a fazer, mas o facto de ter começado a fazer umas “brincadeiras” nessa altura, a primeira experiência foi um telefilme francês chamado “Dêde”, acabou por ser importante porque a seguir vieram outras coisas.

- Mas como actriz onde é que se sente mais confortável? MV - Em lado nenhum! (risos) - Talvez confortável não seja a melhor palavra... MV - Acho que o mais interessante é ter grandes desafios. É muito difícil termos permanentemente desafios que correspondam às expectativas que temos da nossa profissão. Nem sempre temos um grande texto, nem sempre temos a oportunidade de trabalhar com um grande realizador ou com um grande encenador.

- E quando é que chegou à conclusão de que era mesmo isto que queria fazer? MV - Para além do facto de sonhar com uma vida quase “burguesa”, com o 13º mês, ir ao supermercado e fazer o jantar quando cheguei aos 17 anos e estava a terminar o liceu, e já depois de ter feito várias coisas como os “ Jornalistas”, ou “A Falha”, do João Mário Grilo fui chamada para fazer “A Fúria de Viver”. Foi o meu primeiro grande papel em televisão. - A vida mudou depois disso? MV - Sim, aluguei uma casa, fui viver sozinha e passei a viver da minha profissão. Nessa altura fiz a minha escolha, consciente, assumida, responsável. - Desde sempre que fez Teatro, Cinema e Televisão. Onde é que se sente mais confortável? MV - É engraçado, ainda hoje estava a pensar nisso por causa do início das

MARGARIDA VILA-NOVA, ACTRIZ, 29 ANOS. A VIVER ENTRE MACAU E PORTUGAL, MAS COM A RAEM COMO BASE, A ACTRIZ PORTUGUESA É A PROTAGONISTA DO NOVO PROJECTO DO REALIZADOR IVO M. FERREIRA COM QUEM VIVE HÁ VÁRIOS ANOS. FALOU-NOS DAS SUAS VIDAS PARALELAS, DO SONHO ABANDONADO DUMA VIDA ROTINEIRA E DO DESEJO DE DEIXAR UMA MARCA EM MACAU

- Mas fazer teatro é completamente diferente de fazer cinema. MV – No teatro há uma questão...no teatro não podemos repetir a cena. Acho que há um lado assassino no teatro...(risos), subir para cima de um palco é quase um acto suicida. Quem já fez teatro pelo menos uma vez na vida nunca se esquece. Ninguém se esquece daqueles dois minutos antes de entrar em cena...mesmo que não suba ao palco nos próximos anos o teatro tem sempre uma presença muito forte na minha vida. Agora do que sinto mais falta não sei... - Há quanto tempo não faz teatro? MV - O último projecto teatral que fiz foi antes de vir para Macau. Foi um monólo-


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go no “Bando” há quase um ano e meio. Neste momento já tenho disponibilidade emocional para fazer qualquer coisa, seja teatro seja cinema. Há alturas na vida em que temos outras prioridades, pessoais familiares. Esta profissão é não só desgastante como esgotante. Consome-nos e esgota-nos até na nossa liberdade. - Quando aborda uma personagem, seja no teatro ou no cinema, como é que esse processo se desenvolve. Tem algum método próprio para construir as personagens? MV - Tento sempre primeiro perceber o que é que o realizador, ou o encenador espera. Mais do que a imagem que crio quando leio um texto pela primeira vez, ou daquilo que gostaria de fazer, procuro perceber o que é que o realizador ou o encenador espera dele. – Gosta de ser dirigida ? MV – Gosto mesmo e preciso mesmo de um director na minha vida... (risos) e o desafio é muito maior e muito mais interessante quando conseguimos ir de encontro a uma imagem que o encenador ou o realizador espera do personagem. Mais do que aquilo que eu acho ou aquilo que eu penso. - Os personagens estão em primeiro lugar? MV - Sim, tenho sempre a tendência de pôr os personagens à minha frente, de os considerar mais importantes do que eu,

mais inteligentes do que eu. A minha intenção é sempre servir os personagens, e não servir-me deles. E como cresci num ambiente de artistas habituei-me sempre a ver. Aprendi muito a ver, a observar. É muito importante ver um filme, ler um livro, ver uma exposição... - São fontes de inspiração ? MV- Claro. As ideias para criar personagens vêm de muitos lados...não preciso de ir ver uma actriz a fazer de jornalista para fazer este papel. Preciso é de imagens e de histórias que me inspirem e que me despertem. Esta profissão é uma profissão de alerta! Procuro nestas alturas estar alerta e disponível, mais do que passar muitas horas a olhar para o texto. – Sinto que a profissão de actor exige um estado de alerta permanente. No dia a dia, mesmo quando não se está a construir nenhum personagem. Saber ouvir,

saber ver... estar sempre atento ao que se passa à nossa volta. Concorda? MV – Sim, sim. E tenho sempre muita dificuldade em explicar os personagens quando me perguntam “Como é que ela é?” Se me perguntar como é esta jornalista do filme do Ivo Ferreira, não sei descrevê-la dessa forma. Acho que é muito limitadora, muito redutora. – Já houve algum personagem que a afectasse mais? Daqueles que se agarram à pele? MV – As pessoas às vezes dizem “Levas o personagem para casa...” Eu não levo o personagem para lado nenhum! Quando acabo de trabalhar, acabo. Gosto muito de sair de um espectáculo, ou de um dia de rodagem, cansada... – Há dias muito desgastantes... MV – Sim às vezes chegamos a estados de concentração emocional que saímos

Tenho sempre a tendência de pôr os personagens à minha frente, de os considerar mais importantes do que eu, mais inteligentes do que eu. A minha intenção é sempre servir os personagens, e não servir-me deles. E como cresci num ambiente de artistas habituei-me sempre a ver. Aprendi muito a ver, a observar.

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derreados dum dia de trabalho. Isso sim, já me aconteceu várias vezes ao longo da vida. Houve personagens e espectáculos que me deixavam abalada, porque exigiam um esforço emocional enorme. E podia chegar a casa e estar mais frágil, ou mais agressiva, ou mais doce...mas levar os personagens para casa não. Há é personagens que deixam mais saudades do que outros. – Houve algum ponto que tenha marcado o teu percurso profissional? O filme do João Botelho “Corrupção” ? MV – O “Corrupção” é um filme muito dúbio porque as expectativas que eu tinha em relação ao resultado do filme... nós plantamos para comer, não é? Temos a ilusão de que vai haver uma relação causa efeito. E posso dizer de que dos personagens que já fiz, esse personagem foi o mais complexo e o mais completo. Foi um trabalho rigorosíssimo e muito duro. Tive seis meses para me preparar para o filme... – Tanto tempo? MV – Sim, porque por razões diversas o filme foi sendo adiado e fui ganhando tempo. Olhando para os trabalhos que já fiz este foi um dos mais sérios. E no entanto o filme foi tão mal amado, que vendo as coisa à distância sinto que foi um trabalho desprezado. – Fica triste com isso? MV – Não me deixa triste... não surge


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em mim uma coisa ressabiada, ou revoltada, porque tento tanto a certeza do trabalho que fiz... e não podemos estar nesta profissão só à espera do resultado que tem sobre os outros. – Mas como vê o seu percurso no cinema? MV – Tenho alguma pena de não ter feito um percurso mais... mais... constante ou maior. – Ainda tem muito tempo...aliás está a

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moda. Tive momentos com mais protagonismo em várias alturas, mas sinto-me sempre uma outsider. – No teatro ou no cinema? MV – Tanto no teatro como no cinema. Trabalho muito com António Pires no teatro e fiz todos os últimos filmes do João Botelho, mas não faço parte de um “gueto”. Sempre me senti um bocado outsider. – E sente-se confortável com essa sensação?

vida em que devíamos tomar as nossas próprias decisões.

para nos reorganizarmos e avançar com o projecto de vir para Macau.

– Macau foi uma decisão a dois? MV – Sim. E pensámos em muitas coisas. Mas uma das conclusões a que chegámos foi de que não podíamos ficar reféns das nossas profissões, não podíamos ficar à mercê das nossas profissões.

– E como se sente enquanto actriz em Macau? MV – Como actriz estou sempre um pouco limitada por causa da língua mas o Ivo pode desenvolver aqui como realizador um projecto muito mais ambicioso e audacioso do que o que poderia fazer em Portugal. E está perto duma atmosfera na qual ele se sente bem e gosta de filmar. Se eu posso fazer parte desse projecto, tanto melhor. Juntamos o útil ao agradável.

– E foi aí que apareceu a Mercearia Portuguesa, em Macau? MV – Sim, depois de pensarmos em muitas coisas. Depois de uma das viagens pelo Oriente, passámos por Macau. Foi aqui que o Ivo montou a sua primeira produtora, viveu aqui, e regressou sempre a Macau e à China para filmar. É aqui que ele encontra uma atmosfera e um ambienta com que mais se identifica. E onde quer desenvolver o seu cinema. – E a Margarida? MV – Naturalmente que eu tinha curiosidade de começar a explorar este territó-

– O lado familiar também beneficia. MV – Sim é bom ver os filhos crescer aqui e poder apanhar um avião e ver o mundo... – Portanto está cá para ficar? MV – Não sei se estou cá para ficar. Quando estava a sair de Portugal sempre disse que estava a viver duas vidas paralelas. Em Portugal e em Macau. Este ano já fui três vezes a Portugal. Mas a base é

Não considero a minha passagem por Macau nada leviana e gostava de deixar um trabalho feito aqui. Não sei como vai ser o dia de amanhã, se estou cá ou não. Não faço planos a longo prazo, mas a curto ou médio prazo gostava de deixar um trabalho feito em Macau. rio. Estávamos em 2010. Eu gostei imenso de Macau e decidimos desenvolver aqui a nossa segunda vida. A nossa vida paralela e fazer aqui o projecto que nos permitisse tomar as nossas decisões.

entrar na idade dos grandes papéis, dos grandes personagens... MV – Sim, sim, dizem que é agora que a vida começa! (risos). Seja como for o “Corrupção” marcou-me como um trabalho que gostei imenso de fazer, mas em termos práticos não teve grandes reflexos, não teve um efeito prático. A não ser a minha relação com o João Botelho com quem já tinha trabalhado e com quem continuei a trabalhar. – Não houve portanto nenhum trabalho que tenha sido um ponto de viragem na tua carreira? MV – Não. Posso estar muito enganada e a ser injusta, mas eu nunca estive na

MV – Hoje em dia o meu bem-estar passa muito pelo meu equilíbrio pessoal. Felizmente estou muito bem casada e tenho dois filhos maravilhosos. Não me sinto descompensada nem frustrada. Tenho outras coisas que me inspiram e que me preenchem. O que não quer dizer que não gostasse de fazer mais coisas... – Falando agora de Macau. Como veio aqui parar e o que a faz ficar por cá? MV – (risos) Eu e o Ivo Ferreira sempre quisemos ter uma vida independente das novelas, dos subsídios. Os actores têm uma vida muito precária. E gostamos os dois muito de viajar. E pensámos que tínhamos de chegar a uma idade da nossa

– Como é que surge a ideia da Mercearia Portuguesa? MV – Macau tem uma presença portuguesa com 500 anos. Continua a ter uma comunidade portuguesa muito grande. E em termos turísticos e culturais está na rota de muitos turistas ocidentais. Hong Kong, Taiwan, Singapura, Japão e China. Por isso fazia todo o sentido haver uma loja especializada em produtos tradicionais portugueses que representasse a nossa história e a nossa cultura e marcas que fazem parte do melhor que o nosso país produz.

sem dúvida aqui. E não estamos cá por acaso. Estamos em Macau porque a região reúne determinadas características. – Mas vai voltar a Portugal brevemente para trabalhar? MV – Sim, para trabalhar em projectos de que gosto. Mas dadas as circunstâncias actuais do país, não sei se isso vai acontecer muitas vezes. Para já irei trabalhar no ano que vem com o encenador António Pires na peça “O Público” de Lorca, que vai ser feito no Teatro S. Luiz.

– E assim foi criada a alternativa para não ficarem reféns da profissão. MV – Exacto. Tínhamos muitos compromissos em Portugal.

– Mas estar aqui não é mais limitativo em termos profissionais? MV – Eu percebo que o facto de estar em Macau pode trazer alguns constrangimentos em termos profissionais em Portugal, mas hoje em dia tenho muito mais disponibilidade para trabalhar do que há uns tempos atrás. Tinha muitos projectos e o próprio contrato de exclusividade com a TVI não me dava a liberdade de poder fazer isto ou aquilo...

– Ainda tinha o contrato de exclusividade com a TVI ? MV – Sim, entretanto já terminou. Também estava escalada para uma novela e tinha dois espectáculos de teatro para fazer. O Ivo tinha recebido o subsídio para “As Cartas da Guerra”, que deve arrancar para o ano. Tivemos portanto um ano

– Não há mais contratos assinados? MV – Não, a opção de estar aqui também passa por poder fazermos a nossa vida independentemente dos contratos de televisão. Não quer dizer que não queira fazer televisão. Há sempre projectos interessantes para fazer. Depende do projecto e das oportunidades.


– E projectos em Macau? MV – Enquanto estivemos a montar a Mercearia Portuguesa não houve tempo para mais nada. A Mercearia vai fazer um ano e agora já posso pensar noutras coisas. Dizem-me muitas vezes. “Estás ao lado de Hong Kong”, é verdade, existe um mercado enorme com muitas co-produções... mas também tive um filho entretanto. Só agora é que acho tenho disponibilidade e disposição para fazer as coisas. – Portanto a partir de agora podemos esperar ver mais a Margarida Vila-Nova enquanto actriz em Macau? MV – Não considero a minha passagem por Macau nada leviana e gostava de deixar um trabalho feito aqui. Não sei como vai ser o dia de amanhã, se estou cá ou não. Quando se perdem algumas pessoas na vida percebemos melhor a efemeridade da própria vida. Ganhamos outro peso e outra dimensão da vida. Não faço planos a longo prazo, mas a curto ou médio prazo gostava de deixar um trabalho feito em Macau. Um trabalho que faça sentido e que gostava de desenvolver com o Ivo Ferreira. – E como é que vês a actividade artística no território? MV – Acho que existe uma nova movida a crescer e a acontecer em Macau. Há dois anos atrás não sentia a mesma coisa. Agora há sempre qualquer coisa a acontecer. Claro que são projectos mais pontuais, muitas coisas vêem de fora e não são trabalhos desenvolvidos em Macau. Mas acho sobretudo que Macau tem condições para construir uma nova movida cultural. – Porque tem dinheiro... MV – Porque tem dinheiro, porque tem uma classe média alta intelectual e com vontade de ver espectáculos, exposições, teatro, cinema e com poder de compra. Ainda que as coisas não aconteçam à velocidade que gostaríamos, acho que há uma nova movida a começar. Vê-se muita gente nova ligada ao cinema, ao teatro, muita gente que também chegou de Portugal. Pessoas de som, de imagem, de produção com vontade de começar a fazer coisas. – Achas portanto que Macau tem potencial cultural ? MV - Sim, e também têm acontecido outras coisas. Produções de Hong Kong. Ainda há dois dias andavam à procura de uma actriz portuguesa para uma coisa de Hong Kong. Portanto há coisas de Hong Kong a acontecer em Macau. – E ter o marido como companheiro de trabalho? Não é complicado? MV – Já é a segunda vez que trabalhamos juntos. Desta vez está a ser mais tranquilo. A primeira vez foi explosiva... (risos). Mas acho que há uma cumplicidade muito engraçada que fomos construindo ao longo dos anos, e é muito engraçado ver isso no trabalho. - Que projectos para o futuro? MV - Está tudo em aberto.

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五台山

C H I N A C

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CARÍCIAS DE


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SHANXI

TEMPLOS E MOSTEIROS António Graça de Abreu SÓ EM 2001 concretizei um desejo então com mais de vinte anos, subir até aos templos e mosteiros de Wutaishan, na província de Shanxi, suspensos numa das quatro montanhas sagradas do budismo chinês. As outras três são Emeishan, na província de Sichuan, Jiuhuashan na província de Anhui e a ilha de Putuoshan na província de Zhejiang, não muito longe de Xangai. Wutaishan, Património Mundial da Humanidade pela Unesco desde 2009, corresponde a uma sucessão dos montes, uma vasta cordilheira com cinco grandes picos situados entre as províncias de Shanxi e Hebei, o mais alto dos quais chega aos 3.150 metros, a maior elevação de todo norte da China. 五台Wutai significa exactamente “cinco terraços” porque nos cumes da serrania existem cinco pequenos planaltos ou terraços onde foram levantados os mais importantes templos da montanha. A região é verdejante e fresca no Verão, seca e fria no resto do ano. Foi este o lugar quase inóspito, desabitado, de excelente e avassaladora beleza escolhido pelos budistas chineses para, há dezanove séculos atrás, começarem a construir no Império do Meio os seus primeiros lugares de recolhimento e oração. O budismo vindo da Índia foi introduzido na China na dinastia Han, durante o reinado do imperador Ming Di (28-75) que, num sonho, viu um corpo dourado que irradiava luz, o próprio Buda. Os clássicos budistas começaram a ser traduzidos para língua chinesa e incorporaram alguma da terminologia utilizada nos textos confucianos e, sobretudo, empregue nos cânones taoístas. Registou-se uma gradual aculturação do budismo à cultura chinesa, com uma lenta infusão do pensamento taoísta nos ensinamentos budistas. Este “abastardamento” da doutrina original de Buda haveria de dar origem a diferentes escolas, quer no Império do Meio quer no Japão onde o budismo, via China e Coreia, só seria introduzido a partir do sec. VI. Entre estas escolas destaca-se a criatividade do

budismo禅chan ou zen (em sânscrito dhyana que significa meditação). Mas o que é o chan ou zen, amplamente praticado pelos monges de Wutaishan?1 Reconheço a minha avassaladora ignorância para responder a tal pergunta mas, na boa via budista, talvez seja possível pressentir que será a busca da sabedoria e da iluminação, através da meditação. Cada indivíduo traz um buda dentro de si e deverá chegar a estados mais desenvolvidos do conhecimento e da depuração da mente através da meditação, pelo isolamento, pela contemplação da natureza. É isso que pode acontecer nestas montanha Wutai, lugar de excelência para meditar e nos deixarmos embalar nos braços de Buda, na variante chan. Recordemos uma história exemplar: “Um dia um mestre chan estava tranquilamente sentado de pernas cruzadas. Aproximou-se dele um monge que lhe perguntou: - Em que pensas, nessa imobilidade absoluta? - Penso no que está para além do pensamento. - Como consegues pensar no que está para além do pensamento? - Não pensando”. Os primeiros templos de Wutaishan começaram a ser construídos por volta do ano 70 da nossa era. No século V, um monge indiano de nome Manjusri, “mão esquerda de Buda” e Buda da sabedoria, depois de longa viagem, fixou-se em Wutaishan e aqui alcançou a iluminação. Depois de Manjusri, o lugar cresceu em importância como centro do enraizamento e divulgação do budismo na China. Anualmente, no quarto dia do quarto mês -- no nosso calendário no início de Maio --, em todos os templos da montanha têm lugar cerimónias religiosas em honra de Manjusri, que terá morrido nesse dia. No ano 845, o imperador Wuzhong decidiu tomar medidas drásticas contra o budismo. A prática da doutrina de Buda crescera desmesuradamente e a sua influência económica e social começara a pôr em perigo o próprio poder imperial. Foram então encerrados inúmeros templos e mosteiros, foi ordenado o regresso à vida civil de 260 mil monges, centenas de milhares de hectares de terra foram confiscados pela corte.

Os templos de Wutaishan foram tremendamente afectados por esta perseguição e a montanha budista que chegou a contar com trezentos templos e dez mil monges, perdeu muito do seu fulgor. Hoje, ano 2012 restam ainda quarenta e sete templos. Durante as dinastias Ming e Qing (de 1368 a 1911), Wutaishan conheceu uma presença contínua de monges vindos do Tibete e da Mongólia e o budismo actualmente praticado nestes templos manifesta forte influência do lamaísmo tibetano. Os imperadores Kangxi (r. de 1662 a 1722) e Qianlong (r. de 1736 a 1796) tinham o bom hábito de viajar pelo império para melhor conhecerem as imensas terras que governavam. Ambos estiveram em Wutaishan, já no século XVIII, para render homenagem a Buda o que acrescentou mais fama à já muita fama dos lugares. Quem buscar tranquilidade e paz numa China superpovoada, afogueada, extenuada pela luta quotidiana por uma vida melhor, encontrará em Wutaishan, nos pequenos hotéis que bordejam as estradas que quase entram por dentro dos templos budistas, nos isolados trilhos de montanha, lugares de meditação e evanescente sossego. E terá ao lado o maior conjunto de templos budistas de toda a China, para falar com com Buda, limpar a mente e depurar o coração. No templo de Pusading, montanha Wutai, escrevi: A natureza protectora e mãe acaricia o fundo do vale, desenha rendas de bruma nos picos da montanha. A névoa branca flutua sob um céu azul e rosa, os montes verdes, húmidos de prazer, abrem os braços ao clarão do entardecer. A alma olha o céu, cerra os olhos. Depois descansa num terraço entre nuvens. 1 Depois de algum estudo e de muita meditação, o autor deste texto continua pouco capaz de entender as subtilezas, chamemos-lhe assim, do chan 禅 ou zen. Mas estou em boa companhia. O poeta Casimiro de Brito escreve: “Graças ao zen, o véu desprendeu-se do espelho: deixei de me ver, aprendi a ver. Mas ainda não vi nada.”, em Arte da Respiração, Lisboa, D. Quixote, 1988, pag. 118.


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luz de inverno

Boi Luxo

SEDMIKRÁSKY (DAISIES), 1966, VERA CHYTILOVA

É sempre tentador, ao falar do cinema que na Europa de Leste se fez durante os anos 60, enveredar por uma introdução, admirativa, pela corrente de excentricidade e liberdade que lhe serve de base, citar nomes e exclamar elogios, hoje inevitavelmente um pouco paternalistas. É difícil não tentar partilhar o poder efusivo que deles se desprende. Apetece falar da Nova Vaga checa mas falar das Novas Vagas, sejam elas francesa, japonesa ou checa, além de possivelmente pedante, é démodé e, sobretudo, repetitivo e cansativo. Tudo isso se poderá ver nos livros ou na internet. Igualmente (prossegue o paternalismo), é difícil não lembrar que uma das expressões mais estúpidas dos regimes autocráticos é a censura e o manto de opressiva tristeza que aqueles lançam sobre os povos que oprimem. Este também foi um filme proibido imediatamente após a sua primeira apresentação. Mas hoje, para lá da tristeza, da opressão e do absurdo, o que neste filme sobrevive (no sentido do que tem para nos oferecer, no sentido da sua actualidade junto de nós) é a liberdade e a beleza das duas mulheres deste filme feito por uma mulher. Isto não devia ser um filme de 70 minutos mas uma série de

15 horas, uma série sobre a passagem do tempo e a inutilidade das palavras - além de uma série sobre a natureza cómica e ridícula do amor. Fica também a capacidade de invenção visual, uma montagem sinistra, histriónica e promíscua que lança este objecto em áreas de outras artes. As duas mulheres decidem ser más e destrutivas. Que o façam depois de mostradas imagens da Guerra, provavelmente a Segunda, e sendo provenientes de um país onde quase houve (mais tarde) liberdade, justifica perfeitamente a sua fúria. A um mundo estragado segue-se o desejo de uma autoestragação, uma autodestruição, e esta é a história do filme. Aparecem, a dada altura, símbolos óbvios da censura e da repressão, cadeados, portas fechadas e (muitas) tesouras. As imagens de clausura reflectem uma tendência que noto em outros filmes checoslovacos da altura, e em filmes checos posteriores: o seu rosto carrega uma permanente ironia e uma distância pequena mas quase violenta, uma opacidade de palco, muito teatral e opressiva. A engrenagem que une o filme ao espectador não trabalha com facilidade, nas suas rodas e roldanas está presente, de modo muito rude, um (deliberado?) ruído.

O genérico mostra-nos, precisamente, engrenagens que fazem recordar as que Jan Svankmajer anima de um modo também igualmente atraente mas rigoroso e tantas vezes assustador. Este filme também é um pouco um boneco de corda. Nele encontramos, como em Svankmajer, o mesmo staccato do ruído das madeiras, o mesmo amor pelos objectos e pela mecânica e pelos mecanismos metálicos. Staccato, que é um termo que conhecemos através da música, um termo italiano, quer precisamente dizer “separado de”... ou “desligado de...”, uma sucessão de notas de duração curta. Esta qualidade é omnipresente nas animações de Svankmajer e marca também neste filme um ritmo duro, militar, irritante, repetitivo, arrogante, muito rápido, adolescente e mimado – também terrível. Este filme esconde outras delícias. Uma delas actua, hoje em dia, com bastante actualidade e muito pouca correcção política - a do abandono ao excesso de comida, a do abandono ao esbanjamento, terrível, deliciosamente imoral. É o motivo mais recorrente, ligado ao das refeições com os homens velhos, anti-margaridas, mas, na sua expressão mais tonitruante, em re-

feições selvaticamente saboreadas pelas duas irmãs. É, mais do que uma desistência chocante da propriedade e do decoro, uma grande bouffe, quase insuportavelmente feminina e amusant, a espaços anti-fálicas (as cenas dos cortes, mais uma vez a tesoura, de salsichas, bananas ou pepinos de conserva) e sistematicamente violentas. O modo como estas duas mulheres tratam a comida e a bebida, ecoa, de maneira pouco subtil mas muito indecentemente atraente, o modo como a estupidez empurra os homens para a guerra, o obscurantismo e a interdição. Por vezes as bouffes combinam-se com refeições com homens velhos, adúlteros secundários, contrastes perfeitos à frescura e à mocidade das duas margaridas do filme. Que as duas frescas jovens tenham sucumbido à tentação de se deixarem “estragar”, à semelhança do mundo bombardeado que se lhes oferece como espectáculo, e que deixem exibir a sua incompreensão deste, só seria disfórico se elas não tivessem embarcado numa dança macabre de engolimento, num carnival apocalíptico. Os momentos líricos junto ao rio só vêm sublinhar aquela voragem.


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T E R C E I R O O U V I D O

próximo oriente

Hugo Pinto

COME ON, FEEL THE NOISE (II) “If something is boring after two minutes, try it for four. If still boring, then eight. Then sixteen. Then thirty-two. Eventually one discovers that it is not boring at all.” John Cage Em Outubro de 2007, o jornal The New York Times (NYT) trazia um artigo sobre a “música chinesa avant-garde underground”, dando conta de que o “submundo” estava em expansão e a fazer “barulho” (ainda o “noise”). No texto, assinado por Ben Sisario, usava-se a loja de música Sugar Jar (a única, em Pequim, a vender os discos que brotavam do “underground”), na altura escondida num dos recantos do complexo de galerias / atracção turística “798”, como a metáfora para o movimento musical mais “avant-garde” chinês: “Um nicho minúsculo na sociedade, ensombrado pelo maior e largamente mais lucrativo mundo das artes visuais contemporâneas”. Mas, há cinco anos, escrevia o NYT, o trabalho dos músicos chineses começava a atrair a atenção internacional (Brian Eno e Elliott Sharp faziam parte do rol de nomes que, recentemente, tinham visitado Pequim para abençoar a cena local). Sharp, figura omnipresente da vanguarda nova-iorquina, afirmava derretido ao NYT: “O pulsar da cena de Pequim é excitante e faz-me lembrar Nova Iorque em 1979. Há o mesmo sentimento de descoberta e transgressão”. Digamos que o homem sabe do que fala. Enquanto a cena nova-iorquina derivou (ou degenerou, dependendo da perspectiva) em inúmeros outros movimentos que, de um modo ou de outro, deram continuidade à transposição dos limites que vinham do tempo da “descoberta e transgressão”, em Pequim, a situação (ainda) não se alterou muito. Na maioria dos casos, os músicos continuaram a viver na sombra das artes visuais e plásticas, mesmo que a espectacularidade com que estas impressionaram tudo e todos pareça estar em declínio. Apesar de comunicarem na mais universal das linguagens (a música), o resto do mundo continua a ignorá-los hoje como ignorava há 5 ou 10 anos. É verdade que a sociedade chinesa tem vindo a revelar, progressivamente, uma maior abertura para as domésticas expressões artísticas, mas, em paralelo, o regime comunista tem reforçado o controlo e o exercício de influência na definição dos valores estéticos e morais “aceitáveis”, o que, invariavelmente, redunda na almejada uniformização e na eliminação de qualquer traço saliente de individualismo. Sintomático, no artigo do NYT de Outubro de 2007, Kenneth Fields, professor de música electrónica no Conservatório de Música de Pequim, lamentava a falta de criatividade e de pensamento livre entre os estudantes da sua universidade e de outras. Na China, dizia, a música mais vibrante vem do “underground”, onde a mão que domina todos os media, apa-

rentemente, não chega, e onde se reflecte a anarquia. “No topo não há inovação”, resumia Fields, “mas lá em baixo, no fundo, há imensas liberdades informais”. Sem ironias, dir-se-ia que, na China, os artistas vanguardistas estão condenados a ser livres, isto é, votados ao ostracismo e à indiferença que, quais “males que vêm por bem”, lhes granjeiam o (desas)sossego que os move. Paz podre do opróbrio? Talvez. Como no mito de Sísifo, onde um homem carrega uma pedra enorme até ao

cimo de uma montanha para, aí chegado, deixar que a pedra caia e role pela encosta abaixo, e todo o processo se inicie de novo, assim andarão estes artistas marginais (das margens) chineses, lidando em pleno com o quotidiano absurdo. Dizia Albert Camus: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Ou, como diz John Cage na epígrafe deste texto: “If something is boring after two minutes, try it for four. If still boring, then eight. Then sixteen. Then thirty-two. Eventually one discovers that it is not boring at all.”

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perspectivas Jorge Rodrigues Simão

A ECONOMIA AZUL NA EUROPA “Everything comes from everything; everything is made of everything; everything turns into everything, for all that exists in the elements it’s made of these elements.” Leonard da Vinci Codex Atlanticus

O PARLAMENTO Europeu (PE) definiu as linhas gerais da futura estratégia europeia para a Região Atlântica por meio da resolução de 9 Março de 2011, aprovada com 589 votos a favor, 26 votos contra e 54 abstenções, e que propõe a sua execução a partir de 2014, em coordenação com o próximo quadro financeiro plurianual. Esta estratégia regional atlântica tem por objectivo estudar e encontrar soluções nas áreas da segurança, transporte marítimos, pesca, meio ambiente, turismo e investigação. Terá de estar ligada a um plano de acção definido a nível europeu que inclua uma lista de projectos estruturais. O PE pôs ênfase no forte vínculo com a “Estratégia Europa 2020”, que tem por fim a melhoria do uso dos fundos marinhos da União Europeia (UE), racionalizando os recursos de forma mais eficiente, tendo em vista reduzir os custos. O PE propõe ainda, que a estratégia para a Região Atlântica esteja relacionada com a política regional e marítima integrada da UE e que se alargue a todas as regiões situadas no litoral atlântico, incluídas as regiões ultraperiféricas de Macaronésia, ou seja os arquipélagos da Madeira, Canárias, Açores e Cabo Verde. A Espanha, Portugal, França, Reino Unido e Irlanda são os cinco Estados-membros da UE que possuem costa atlântica. No contexto da criação de um desenvolvimento equilibrado e sustentável do território europeu, trata-se de conseguir instrumentos e políticas que permitirão atingir o mencionado objectivo, respondendo aos grandes desafios que os territórios atlânticos têm de fazer face, nomeadamente em questões como as da acessibilidade, segurança marítima, mudança climática e energia, entre muitos outros. A Comissão Europeia (CE) publicou, em 21 de Novembro de 2011, o documento “Comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu, ao Conselho, ao Comité Económico e Social Europeu e ao Comité das Regiões”, intitulado, “Desenvolver uma estratégia marítima para a Região Atlântica” (Comunicação). A “Comunicação” da CE pretende estimular o crescimento e o emprego na zona do Oceano Atlântico, formulada no quadro da política marítima integrada da UE. O Oceano Atlântico, que delimita a fronteira ocidental da UE, é o segundo maior oceano do mundo. A “Comunicação” é a resposta ao pedido feito pelo

Conselho da UE e do PE, cujo seu conteúdo é coerente, equilibrado e compatível com a “Estratégia Europa 2020” e as suas iniciativas fundamentais promovem a coesão territorial e consideram a dimensão internacional. Ainda que, a abordagem proposta se centralize, em grande parte, na forma de ajudar as comunidades que vivem e trabalham na costa atlântica a fazer face às novas realidades económicas, reconhece também, que a UE partilha a responsabilidade pela gestão dos oceanos a nível mundial. A estratégia, em termos gerais, abrange o litoral, as águas territoriais e jurisdicionais dos cinco Estados-membros da UE com costa atlântica, bem como as águas internacionais que atingem as Américas, a Ocidente, a África e o Oceano Índico, a Oriente, o Oceano Antárctico, a Sul, e o Oceano Árctico, a Norte. Além das acções que, a nível nacional e local envolvem os cinco Estados-membros, é desejável que os restantes Estados-membros que utilizam este espaço e os parceiros internacionais que com ele fazem fronteira assumam igualmente compromissos neste domínio. É necessário também tomar em consideração as implicações de uma eventual adesão da Islândia à UE. Todas as acções propostas serão financiadas no âmbito de programas existentes e não terão um impacto adicional no orçamento da UE. A “Comunicação” indica os desafios e oportunidades na região e faz um balanço das iniciativas existentes que podem apoiar o crescimento e a criação de postos de trabalho. A CE propõe que a estratégia se aplicará através de um plano de acção a realizar em 2013, e pede às partes interessadas que ajudem a planear projectos concretos que possam enquadrar-se no financiamento da UE. O Comité Económico e Social Europeu propõe a constituição até ao final do ano, de um “Foro Atlântico” que acolha de forma adequada a participação de todos os actores implicados no desenvolvimento estratégico do Atlântico, como são os Estados-membros, instituições europeias, autoridades regionais e organizações da sociedade civil. Os ministros da UE, entre 7 e 8, realizaram uma reunião ministerial de carácter informal da “Política Marítima Integrada”, em Chipre, que detém desde 1 de Julho a presidência rotativa semestral do Conselho da UE, oito anos após a sua adesão realizada, em 1 de Maio de 2004 e quatro anos passados após a sua entrada na “Zona Euro”, em 1 de Janeiro de 2008. A pequena ilha mediterrânica com quase 800 mil habitantes continua dividida desde 1974, pertencendo 1/3 do seu território, a Norte, à Turquia que o ocupou,

constituindo a República Turca de Chipre do Norte, não reconhecida a nível internacional. A parte greco-cipriota, a Sul, sucedeu à Dinamarca na presidência semestral do Conselho da UE, com o mesmo peso das últimas presidências, ou seja, uma agenda densa e pautada pela crise económica. A reunião de ministros que se realizou na segunda cidade mais populosa da República de Chipre, discutiu as possibilidades de crescimento económico que oferecem os sectores que se enquadram no âmbito da política marítima, tendo sido adoptada a denominada “Declaração de Limassol”, para o desenvolvimento de uma política no sector que permita animar o crescimento e o emprego. A declaração tem por base a iniciativa sobre as possibilidades de crescimento na denominada “economia azul” adoptada pela CE, que aposta numa exploração sustentável dos oceanos e mares e estuda a forma pela qual a política marítima pode contribuir para a saída da crise económica, em particular nas possibilidades que oferece o turismo costeiro, as energias renováveis a partir das correntes marítimas, a aquicultura, a biotecnologia e a extracção de minerais nos fundos marinhos. A CE prevê que o turismo costeiro e marítimo, o sector com maior peso em termos de valor acrescentado e emprego dentro da política marítima, crescerá entre 2 e 3 por cento até 2020. A presidência cipriota fez da política marítima, uma prioridade durante o seu mandato e a organização da reunião de ministros em Chipre, inscreveu-se nesse quadro. A política marítima integrada, foi criada em 2007, tendo por finalidade facilitar a cooperação de todos os operadores europeus nos diferentes sectores e Estados-membros da UE. A CE e os Estados-membros apostam no apoio à investigação e conhecimento do meio marinho, formação marítima, cooperação rentável em matéria de vigilância marítima, melhoria da ordenação do espaço marítimo e na aplicação da A Directiva n.º 2008/56/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 17 de Junho, designada por “Directiva-Quadro da Estratégia Marinha”, para que seja possível o crescimento e a criação de emprego na “economia azul”. A “Directiva-Quadro da Estratégia Marinha” estabelece um quadro de acção comunitária no domínio da política para o meio marinho e tem como objectivo promover o uso sustentável dos mares e a conservação dos ecossistemas marinhos, incluindo o leito do mar, estuários e áreas costeiras, dando especial atenção aos locais com elevado valor em biodiversidade. A sua aplicação prevê o desenvolvimento de estratégias marinhas aplicáveis

às águas marinhas sob soberania ou jurisdição nacional, as quais integram a região marinha do Atlântico Nordeste e as sub-regiões da Costa Ibérica e da Macaronésia, com vista à obtenção ou manutenção de um bom estado ambiental no meio marinho, através da prevenção da sua deterioração, da valorização equilibrada dos recursos e sua utilização sustentável, da recuperação de áreas degradadas, bem como da prevenção e progressiva redução da poluição marítima. As estratégias marinhas a aplicar às águas marinhas serão desenvolvidas de acordo com um plano de acção composto por uma fase de preparação e uma fase de programa de medidas. O programa de medidas destinadas à consecução ou à manutenção de um bom estado ambiental deverá ser elaborado até 2015, estando o início da sua execução previsto para 2016. A CE publicou no passado mês um relatório sobre as possibilidades de desenvolvimento das economias vinculadas ao mar e estimou em cerca de 5,5 milhões o número de postos de trabalho, criados pelos sectores ligados ao meio marinho. O número de postos de trabalho pode ascender a mais de 7 milhões até 2020, se for aplicada uma estratégia apropriada. O turismo de cruzeiros poderá criar mais de 100 mil postos de trabalho na UE. Para tanto, é necessário eliminar barreiras à inovação e à investigação nos sectores marítimo e marinho. A assinatura da “Declaração de Limassol”, fez a CE iniciar os trabalhos no sentido de apresentar propostas concretas nas áreas fixadas e identificadas nos próximos meses, centrando-se em medidas que impulsionem a criação de postos de trabalho. É de considerar de extrema importância e potencial a energia renovável marítima e a aquicultura. A aquicultura é o sector de produção de alimentos que cresce mais rapidamente a nível mundial. A produção aquícola, desde 1984 tem aumentado numa média anual de cerca de 10 por cento, relativamente aos cerca de 3 por cento de carne bovina e de 1,6 por cento da pesca. A aquicultura apareceu como um meio de fornecimento de alimentos e uma das principais contribuições para a segurança alimentar. A aquicultura produz mais de uma quarta parte da pesca total mundial. A criação de peixe é milenária e actualmente a aquicultura produz uma vasta variedade de plantas e animais. A aquicultura de água doce (peixe de escamas sobretudo), em 1997, compreendeu mais de 45 por cento da produção aquícola mundial. As plantas e os moluscos marinhos totalizaram entre 20 e 25 por cento, respectivamente. A aquicultura de água salgada proporciona menos de 5 por cento do total mundial, mas dado que esta produção é sobretudo de camarão, pelo seu valor, representa cerca de 15 por cento.


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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

Noam Chomsky

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“QUEREM VENCER ASSANGE PELO CANSAÇO”

Nesta entrevista ao site equatoriano GkillCity, o linguista e filósofo norte-americano defende que Assange não teria hipóteses de ter um julgamento justo nos Estados Unidos. Chomsky acrescenta que do ponto de vista de quem ama a democracia, o fundador do Wikileaks merecia “uma medalha de honra” em vez de um julgamento. “A sombra que paira sobre todo este assunto é a expectativa de que a Suécia envie rapidamente Assange para os EUA, onde as hipóteses de ele receber um julgamento justo são virtualmente zero”. José Maria León In Gkillcity

O governo norte-americano emitiu uma nota em que declara que este assunto Julian Assange é um problema de britânicos, equatorianos e suecos. Você acha esse argumento honesto? Os EUA estão interessados no destino do criador do Wikileaks? A declaração não pode ser levada a sério. A sombra que paira sobre todo este assunto é a expectativa de que a Suécia envie rapidamente Assange para os EUA, onde as hipóteses de ele receber um julgamento justo são virtualmente zero. Tudo isso é evidente a partir do tratamento brutal e ilegal dado a Bradley Manning [o soldado norte-americano acusado de ter vazado as informações mais importantes que o Wikileaks publicou], e a histeria geral com que o governo e os media vêm tratando o caso. Além disso, do ponto de vista de quem acredita no direito dos cidadãos a saber o que seus governos planeiam e fazem - ou seja, de quem tem afeto pela democracia - Assange não deveria receber um julgamento, mas uma medalha de honra. Numa entrevista com Amy Goodman para o Democracy Now!, você afirmou que a principal razão para os segredos mantidos pelos Estados é protegerem-

-se da sua própria população. É a primeira vez na história em que o mundo vê as verdadeiras cores da diplomacia? Qualquer um que estuda documentos cujo prazo de sigilo expirou, percebe que o segredo é, em grande parte, um esforço para proteger os políticos dos seus próprios cidadãos - e não o país dos seus inimigos. Sem dúvida o segredo é por vezes justificado, mas é raro - e no caso dos documentos expostos pelo Wikileaks, eu não vi um único exemplo disto. Esta não é - de maneira nenhuma - a primeira vez que as verdadeiras “cores da diplomacia” foram expostas por documentos divulgados. Os Pentagon papers são um caso famoso. Mas a questão é que se trata de um tema recorrente. As informações contidas inclusive nos documentos desclassificados oficialmente são, em geral, muito impressionantes. Porém, muito raramente estas informações tornam-se conhecidas pelo público - e até pela maior parte dos académicos. Sobre o asilo oferecido pelo Equador para Assange, aponta-se uma ambiguidade na atitude do governo de Rafael Correa. Por um lado, manteria confronto retórico constante com os media (estando em disputa judicial com o diário El Universo e o jornalista Juan Carlos Calderón e Christian Zurita, autores do livro Big Brother). Por outro, defende Julian Assange. Você também vê uma contradição nisso? Pessoalmente, acho que só em circunstâncias extremas o poder do Estado deveria limitar a liberdade de imprensa - não importando, a esse respeito, quão vergonhoso e corrupto seja o comportamento dos media. Não há dúvida que houve vários graves abusos - por exemplo, quando as leis de difamação inglesa foram usadas

por uma grande empresa mediática para destruir um pequeno jornal dissidente, que publicou uma crítica a uma de suas notícias sobre um escândalo internacional. Ocorreu há alguns anos, e não despertou praticamente nenhuma critica. O caso do Equador tem de ser analisado pelos seus méritos, mas qualquer que seja a conclusão, não há qualquer influência em dar asilo ao Assange; assim como a supressão vergonhosa da liberdade de imprensa, no caso que mencionei, não deveria pesar, se a Grã-Bretanha concedesse o direito de asilo a alguém que teme perseguição estatal. Nem ninguém afirmaria o contrário, no caso de um poderoso Estado ocidental. Já que estamos falando de ambiguidade, haveria um duplo padrão na aplicação das leis pelos britânicos, já que no caso de Pinochet o pedido de extradição solicitado por Baltazar Garzón foi negado? O padrão reinante é subordinado aos interesses de poder. Raramente há uma exceção. Qual é, na sua opinião, o futuro imediato no caso Assange? A polícia britânica invadirá a embaixada equatoriana? Assange será capaz de deixar a Inglaterra? Mais tarde, estará em perigo, mesmo recebido pelo Equador? Não há praticamente nenhuma possibilidade de Assange sair do Reino Unido, ou da embaixada. Duvido bastante que a Inglaterra invada o território, uma violação radical do direito internacional - mas esta hipótese não pode ser descartada. Vale a pena lembrar o ataque contra a embaixada do Vaticano, por forças norte-americanas, depois da invasão no Panamá, em 1989. As grandes potências normalmente

consideram-se imunes à lei internacional; e as classes próximas ao poder costumam proteger essa postura. Ao meu ver, a Inglaterra tentará vencer Assange pelo cansaço, esperando que ele não consiga suportar o confinamento num pequeno quarto na embaixada. Num aspecto mais amplo, Slavoj Zizek disse que não estamos a destruir o capitalismo, mas apenas a testemunhar como o sistema se destrói a si mesmo. Seriam os movimentos do Occupy, a crise financeira na Europa e nos EUA, a ascensão da América Latina e outros países marginais ou o caso Wikileaks sinais deste desmoronamento? Longe disso. A crise financeira na Europa poderia ser resolvida, mas está a ser usada como uma alavanca para minar o contrato social europeu. É basicamente um caso de guerra de classes. A atuação do banco central dos EUA (o Federal Reserve) é melhor do que a do europeu, mas é muito limitada. Outras medidas poderiam aliviar a grave crise no EUA, principalmente o desemprego. Para a maior parte da população, o desemprego é a principal preocupação, mas para as instituições financeiras, que dominam a economia e o sistema político, o interesse está em limitar o déficit, para permitir que prossiga o pagamento de juros. Em geral, há um enorme abismo entre a vontade pública e política. Este é apenas um caso. A ascensão da América Latina é um fenómeno de grande significado histórico, mas está longe de estremecer o sistema capitalista. Embora o Wikileaks e os movimentos Occupy sejam irritantes para os que estão no poder - e um grande apoio para o bem público -, não são uma ameaça para os poderes dominantes.


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孙悟空

Buda riu-se quando o macaco lhe disse ter atravessado o Universo. Apontando para a palma da sua mão mostrou-lhe que a montanha onde ele tinha chegado era a base dos seus dedos da mão.

O L H O S A O A L T O

gente sagrada

José Simões Morais

O REI MACACO, DEUS DA CONTENDA VITORIOSA SUN WUKONG, o macaco que representava a natureza humana e a sua propensão para o mal, sem respeito pela lei e ordem, nem medo algum pela autoridade, foi libertado da prisão em que Buda o tinha colocado, pois Guan Yin por ele intercedeu para acompanhar Tang Seng na sua peregrinação para Oeste. E foi este monge que lhe deu o nome de Sun Wukong (Consciência do Vácuo). Assim conta o livro Xi you ji (Peregrinação ao Oeste) escrito no século XVI por Wu Cheng’en, que recria a história da viagem feita à Índia entre 629 e 645 pelo monge Xuan Zang, na procura de textos budistas para os trazer para a China. Este relato de uma viagem simbólica, com ligações ao mitológico e lendário, sobre a introdução do Budismo na China, é feito com a linguagem comum da rua e cheia de peripécias que lhe dão grande colorido. Viagem em que o monge Tang Seng foi acompanhado por Sun Wukong e Zhu Bajie, um espírito de porco, representante dos aspectos mais rudes do espírito humano. Mas até ao macaco acompanhar o monge, é uma longa história. Nascido de um ovo fertilizado na pedra pelo vento no cimo de uma montanha, do lado oriental do Oceano, ainda jovem denotava já uma propensão para o mágico. Certa vez encontrou-se com um imortal que, para além de lhe dar o nome de Descobridor de Segredos, ensinou-o a voar e a mudar de forma sempre que o desejasse. Entusiasmado com os seus poderes, logo reuniu todos os macacos num reino, e aí viveu como rei. Do rei Dragão dos Mares Orientais recebeu o Pilar de Ferro, uma arma mágica que lhe permitia mudar de tamanho. Numa festa em sua homenagem, o macaco embebedou-se e adormecido foi capturado pelos ajudantes do rei do Inferno. Facilmente se libertou e roubando o Livro dos Julgamentos, dele apagou o nome de todos os macacos. Convocado ao céu pelos distúrbios causados, o macaco dali saiu como Supervisor dos Estábulos Celestes. Mas, ao descobrir o verdadeiro motivo da sua nomeação, começou a destruir o Céu e depois retirou-se para o monte Huaguo. O exército celeste organizou um cerco à montanha mas foi repelido, proclamando-se o macaco Governador do Céu e Grande Santo. Só foi possível chegar a um entendimento e concordar em se submeter às leis divinas, quando o nomearam Superintendente-Chefe do Celestial Pomar dos Pêssegos. Com o poder de descobrir os segredos,

soube que não iria ser convidado para a festa dos Pêssegos e vingou-se. Além de comer os pêssegos do pomar que conferiam a imortalidade, ainda ajavardou toda a comida e bebeu todo o vinho destinado à festa. Não satisfeito, foi a casa de Lao Zhun (Lao Zi, o poderoso feiticeiro) e roubou-lhe as pílulas da imortalidade, ficando assim duplamente imortal. Após mais estes distúrbios retirou-se para o monte Huaguo. Os deuses, extremamente zangados, fizeram-lhe um cerco que demorou muito tempo pois o macaco utilizou todos os seus poderes mágicos para evitar ser capturado. Por fim derrotado, foi levado à presença do Imperador de Jade que o condenou à morte. Protegido pela dupla imortalidade da pílula e dos pêssegos, a sentença não pode ser realizada e nem os 49 dias no forno alquímico o derreteram. Levantou a tampa e saiu, ameaçando destruir o Céu. O Imperador de Jade, sem outra alternativa, chamou Buda. Este perguntou-lhe porque é que ele cria governar o Céu. O macaco respondeu que era poderoso para o governar, pois era imortal, invulnerável, capaz de tomar 72 formas diferentes e podia voar e saltar 108 mil li. Então Buda pediu para o macaco provar tal afirmação e se fosse verdade teria direito a governar o Céu. Num salto voou através do céu até às mais longínquas regiões da Terra, onde ficou a repousar no sopé de uma grande montanha. Aí urinou para demarcar o seu território e depois regressou ao ponto de partida. Buda riu-se quando o macaco lhe disse ter atravessado o Universo. Apontando para a palma da sua mão mostrou-lhe que a montanha onde ele tinha chegado era a base dos seus dedos da mão. Então Buda criou uma montanha mágica e encerrou-o lá, só saindo 500 anos depois quando Guan Yin o indicou para acompanhar Tang Seng. Após jurar protegê-lo de todos os perigos, Tang Seng colocou-lhe um capacete na cabeça, que se contraía causando-lhe uma imensa dor cada vez que pela maldade o macaco se desviava do bom caminho. Após passarem 81 perigos e já no final da viagem, o macaco pediu ao monge que lhe retirasse o capacete pois era um esclarecido. Tang Seng respondeu que se tal fosse de verdade, o capacete tinha desaparecido. Então o macaco levou a mão à cabeça e nada encontrou. O comité celeste presidido pelo Futuro Buda nomeou o macaco deus da Contenda Vitoriosa e, por isso, aparece a sua imagem em alguns templos de Macau, entre eles o I Lem Miu, na rua da Figueira.


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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Os costumes de uma sociedade decadente usam o ardil e o engano para encobrir o inútil.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 19 Esta é a forma de governar um país: os líderes não são duros; os oficiais não são incomodativos; os intelectuais não são hipócritas; os artistas não são decadentes. ***

são inconclusivas, sem benefício para a ordem social.

sia e a justiça; quando pelejam, emergem a violência e a desordem.

***

***

Os costumes de uma sociedade decadente usam o ardil e o engano para encobrir o inútil.

Não se vende lenha junto a uma floresta, nem se vendem peixes à beira de um lago, pois existe uma superabundância. Assim, quando há muito o desejo diminui; quando as necessidades são mínimas, a peleja termina.

***

Numa sociedade incoerente, os activistas promovem-se uns aos outros através do elogio mútuo, enquanto que os homens de cultura se honram uns aos outros hipocritamente.

Nunca ninguém ouviu dizer de alguém que evitasse quebrar a lei e arriscar castigo quando simultaneamente com frio e fome.

***

***

Os escritores enganosos são deliberadamente prolixos e confusos de modo a parecerem sábios; competindo como sofistas, as suas reflexões intermináveis

Quando as pessoas têm mais do que o suficiente, são deferentes; quando têm menos do que suficiente, pelejam. Quando são deferentes, nascem a corte-

*** quando a sociedade é ordeira, o povo comum é probo e não pode ser seduzido pelo lucro. Quando a sociedade é desordeira, a elite é criminosa e não pode ser detida pela lei. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


FERNANDA DIAS Uma leitura do

YI JING O SOL, A LUA

E A VIA DO FIO DE SEDA A nova tradução do livro que há milénios ilumina a civilização chinesa


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h - Suplemento do Hoje Macau #56 by Jornal Hoje Macau - Issuu