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Lições de magia

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ALICE HOFFMAN

Autora dos best-sellers As Regras do Amor e da Magia e Da Magia à Sedução

Lições de Magia Tradução

Denise de Carvalho Rocha

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Título do original: Magic Lessons.

Copyright © 2020 Alice Hoffman.

Copyright da edição brasileira © 2022 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. 1a edição 2022.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços conven­ ­cionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance são produtos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Não pode ser exportado para Portugal.

Editor: Adilson Silva Ramachandra Gerente editorial: Roseli de S. Ferraz Gerente de produção editorial: Indiara Faria Kayo Editoração eletrônica: Join Bureau Revisão: Erika Alonso

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Hoffman, Alice Lições de magia / Alice Hoffman; tradução Denise de Carvalho Rocha. – 1. ed. – São Paulo, SP: Jangada, 2022. Título original: Magic lessons. ISBN 978-65-5622-040-6 1. Ficção norte-americana I. Título. 22-115798

CDD-813 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção: Literatura norte-americana 813 Eliete Marques da Silva – Bibliotecária – CRB-8/9380

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP — Fone: (11) 2066-9000 http://www.editorajangada.com.br E-mail: atendimento@editorajangada.com.br Foi feito o depósito legal.

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Ame a todos, confie em alguns, não faça mal a ninguém. – William Shakespeare

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PARTE UM

i Transformações

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I. Ela foi encontrada num dia de inverno, em meio a um campo onde cresciam zimbros, enrolada numa manta azul com seu nome caprichosamente bordado com linha de seda. A neve recobria o solo com um espesso manto branco, mas o sol brilhava forte. Quem dera à criança o nome de Maria com certeza a amava, pois a manta de lã era de muito boa qualidade e grossa o bastante para mantê-la aquecida. Ela estava bem cuidada, sem parecer que lhe faltasse comida ou conforto. Maria era um bebê tranquilo, mas com o passar das horas começou a ficar agitada e se pôs a chorar, fazendo isso com grande vigor e determinação, até que finalmente um corvo foi se empoleirar na borda do seu cesto e olhou para ela com seus olhinhos pretos inquietos. Foi assim que a velha senhora descobriu a criança abandonada, fitando o pássaro quase do tamanho dela com um olhar desde o início destemido e curioso. Maria era um lindo bebê de cabelos negros como azeviche e olhos cinza-claros, um tom prateado tão incomum que a anciã se perguntou se ela não seria uma criatura do mundo das fadas, pois aquele era um lugar onde coisas estranhas aconteciam e o destino poderia ser uma bênção ou uma maldição. Fosse a criança uma fada ou

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não, Hannah Owens levou-a para a floresta, cantando uma canção enquanto caminhava, as primeiras palavras de que o bebê iria se lembrar. O rio é largo, não posso atravessar, Nem que eu tenha asas para voar Me dê um barco para levar nós dois E vamos remar, eu e o meu amor. Em vales verdejantes fui passear Para colher flores tão frágeis e belas Para colher flores, azuis e amarelas, Sem pensar do que o amor pode ser capaz. Nos primeiros dias da criança na cabana de Hannah, o pássaro insistente batia as asas contra o vidro embaçado da janela, como se implorasse para que o deixassem entrar. Foram inúteis os baldes de água e vinagre ou os gritos e as ameaças. Nada o fazia desistir. E quem seria capaz de atirar pedras numa criatura tão leal? Hannah permitiu que o corvo ficasse e lhe deu o nome de Cadin, porque Maria, em seus balbucios de bebê, o chamava de Cawcaw. Sempre que o tempo esfriava, ele se acomodava no poleiro de madeira ao lado da lareira coberta de fuligem. Ali limpava suas penas reluzentes e ficava de olho em Maria. – Suponho que ele seja seu – Hannah disse ao bebê em seu cesto, depois que sete dias já tinham se passado e o corvo ainda não dava sinais de que deixaria seu posto sobre a cerca do jardim, sequer para comer ou beber. – Ou talvez você seja dele. Hannah sabia muito bem que ninguém escolhe um familiar. É ele quem escolhe seu protegido, estabelecendo uma ligação com essa pessoa como nenhuma outra criatura jamais fará. A própria Hannah tivera muitos anos antes um animal de estimação que a seguia por toda parte. Era uma linda gata tigrada, com o pelo cor de caramelo, um familiar 10

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querido que conhecia todos os pensamentos e desejos de sua dona. No dia em que libertaram Hannah da prisão, ela encontrou a gata pregada na porta da sua casa na aldeia. Obra dos vizinhos, que também haviam roubado, enquanto ela estava presa, o pouco que ela tinha: um colchão de penas, panelas e frigideiras, uma pena de escrever. Hannah levou a gata com ela para a floresta e enterrou-a no vale verdejante onde havia acampado antes de construir sua casa, uma clareira que ela chamava de Campo da Devoção, onde campânulas cresciam na primavera e as celidônias brilhavam com a última geada de inverno, num tapete de estrelinhas brancas e amarelas. A beleza daquela campina lembrava Hannah das razões para se viver neste mundo, e também para se desconfiar de quem via maldade nos outros, mas nunca em si mesmo. O mundo natural era uma parte importantíssima do seu ofício. Cada planta que crescia na floresta podia curar ou fazer mal, e era obrigação dela saber diferenciá-las. Isso fazia parte da antiga tradição nórdica, o Seidhr, uma prática levada para a Inglaterra em tempos muito antigos. Tratava-se de magia da natureza, visionária, que fundia a alma do ser humano com a alma da própria terra.

Magia das Árvores Deve-se queimar azevinho para anunciar o fim do inverno. A sorveira-brava, a árvore sagrada das bruxas, É usada para proteção e na fabricação de fusos. A aveleira indica onde existe água. O salgueiro é magia sagrada, pois transporta a alma. Teixo significa vida, morte e renascimento. É usado para fazer arcos. Mas cuidado: as sementes são venenosas. O freixo é uma árvore sagrada, com poder de cura. Com as folhas é possível fazer um bom tônico para cavalos. 11

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A maçã é a chave da magia e é usada como remédio e em feitiços de amor. Vidoeiro, escreva feitiços na casca dessa árvore e conseguirá o que quer. A seiva do pinheiro é um unguento para varíola e febre maculosa. Ferva as folhas do lariço para fazer uma pomada para cortes e feridas. A cicuta cura inflamações e inchaços. Foi realmente uma sorte que a criança tenha sido encontrada por Hannah e não por outra pessoa qualquer, pois havia muitos no Condado de Essex que teriam se livrado de um bebê indesejado com a mesma facilidade com que afogariam um gato. Hannah era uma alma boa e generosa, e não pensou duas vezes antes de dar ao bebê um lar e, como se viu depois, muito mais do que isso. Ela costurou um vestidinho azul para a criança, para lhe dar sorte e proteção, e também amarrou um fio de lã azul em volta do seu tornozelo. Os moradores das aldeias e cidades próximas acreditavam que, infiltrados no povo bom e decente, havia servos do mal que deixavam as crianças suscetíveis a febres e à varíola, e podiam amaldiçoar a terra, deixando-a infértil. O que o povo acreditava muitas vezes vinha a acontecer e a culpa era colocada justamente onde se tinha imaginado. Aquele foi o ano em que dois cometas cruzaram o céu por causas misteriosas e um vulcão começou a entrar em erupção no Monte Etna, na Itália, logo espalhando cinzas por toda a região. Até a própria aldeia ficou polvilhada de cinzas, dando aos moradores a impressão de que estava nevando em março. No espaço de um ano, duas pobres almas foram infectadas pela peste em Londres e cada vez mais gente foi adoecendo com o passar dos dias. As pessoas usavam máscaras e se trancavam em casa, mas a 12

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doença mesmo assim se alastrava, deslizando por baixo da porta ou entrando pelas janelas, segundo se acreditava. A verdade, no entanto, é que a doença era levada de casa em casa pelos próprios médicos, que não sabiam da necessidade de se lavar as mãos. Em 1665, a cidade já tinha perdido 68 mil habitantes. Quando Maria fez 2 anos de idade, o grande incêndio de Londres destruiu setenta mil casas das oitenta mil que existiam na cidade e a fumaça ficou suspensa no ar durante todo o mês de setembro. Pássaros caíam do céu e as crianças expeliam um catarro preto ao tossir, sinal de que não veriam o próximo aniversário. O mundo era um lugar perigoso, onde as pessoas eram castigadas pelos seus pecados e a maioria acreditava que a sorte dependia, até certo ponto, da fé e da superstição. Foram anos em que coisas cruéis e inexplicáveis aconteceram ​​ e a bondade era um presente raro e valioso que Hannah Owens tinha a graça de possuir.

i Havia no condado mulheres conhecidas por praticar a Arte Sem Nome, feitiços e rituais transmitidos de geração em geração, por praticantes de magia e medicina popular que sabiam mais do que a maioria. Essas mulheres entendiam a natureza misteriosa da medicina e do amor e faziam o melhor para transpor o véu que separava homens e mulheres do conhecimento que poderia salvá-los da má sorte e do desastre. Elas podiam curar um coração partido com a mesma facilidade com que curavam uma febre, mas faziam isso discretamente, pois as mulheres eram responsabilizadas por grande parte dos problemas que havia neste mundo e todos sabiam que exitiam bruxas naquele condado. Mais de vinte anos antes, Matthew Hopkins, um jovem da aldeia de Manningtree, nas margens do rio Stour, no Condado de Essex, havia começado sua perversa caça às bruxas. Auxiliado pelos Condes 13

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de Warwick e Manchester, ele se tornou o maior caçador de bruxas da região e era regiamente pago para enviar mulheres para a morte. O des-

tino das bruxas estava nas mãos dele, como se sozinho ele pudesse ver através do véu espectral e arrancar da acusada a evidência do mal. Uma

mancha na mão ou na bochecha de uma mulher, um pássaro em sua ja-

nela, um cachorro ou gato ou outra criatura que não saísse do lado dela, um livro de magia encontrado num armário ou debaixo de um colchão

de palha, uma vizinha amargurada, cheia de rancor e uma história para

contar. Tudo isso era usado como prova, especialmente quando a acusada era uma pobre mulher sem família ou alguém que a defendesse.

Na época da caça às bruxas, acreditava-se que era possível captu-

rar uma pregando-se as pegadas dela no chão para que não pudesse

fugir e com armadilhas de ferro feitas para capturar raposas, pois sa-

bia-se muito bem que os poderes de uma bruxa diminuíam quando ela estava em contato com esse metal. Alguns caçadores de bruxas

pregavam de fato os pés das mulheres no chão e as deixavam ali, tentando escapar. Se conseguissem fugir dali, era preciso passar óleo de

alecrim no lugar onde o prego tinha entrado no pé da bruxa, ao mes-

mo tempo em que se lançava um feitiço de proteção e vingança: Neste

dia, isto não a travou. Quando andou, daqui se afastou. Quando voltar, pagará por quem prejudicou.

Ainda assim, era difícil garantir proteção. Trezentos suspeitos fo-

ram acusados. Cem dessas pobres almas foram para a forca, depois de

passarem pelo teste da cadeira. A mulher era amarrada a uma cadeira e jogada num rio ou numa lagoa. Se ela se afogasse, isso era sinal de

que era inocente. Se flutuasse, era a prova de que era de fato uma bruxa. Desse teste, nenhuma saía viva. Hannah Owens tivera a sorte de

escapar de um enforcamento porque os julgamentos foram interrompidos e a loucura passou assim como uma febre, de repente e sem ne-

nhuma razão aparente, a não ser pelo fato de que a lógica finalmente 14

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prevaleceu. As acusadas foram ​​ libertadas da prisão e saíram de lá agradecidas, mesmo sem ter recebido nenhuma desculpa ou explicação e, certamente, nenhuma reparação.

Hopkins morreu na casa dos 20 anos, de uma tosse que suposta-

mente contraiu depois de nadar. Muitos ficaram extremamente felizes ao saber que ele tinha sido condenado pela sua própria versão de afo-

gamento, com os pulmões se enchendo de água e puxando-o para a

morte, como se estivesse amarrado a uma cadeira imersa à força numa lagoa. No dia em que foi enterrado, muitas mulheres do Condado de Essex comemoraram dançando ao redor de fogueiras e entornando canecas de cerveja. Quanto à Hannah, ela tomou uma xícara de chá

naquele dia, feito de uma mistura preparada para lhe dar coragem du-

rante aqueles tempos terríveis, quando uma mulher não podia andar na rua sem correr o risco de ser acusada de alguma transgressão, especialmente se um livro fosse encontrado entre os seus pertences ou se ela soubesse ler e escrever o próprio nome.

Embora não houvesse mais perseguições às bruxas, as mães conti-

nuavam a amarrar seus bebês no berço, para ter certeza de que não

seriam roubados à noite, e tigelas de precioso sal eram colocadas no peitoril das janelas para proteger os moradores da casa. Os homens

pregavam ferraduras de cabeça para baixo acima da porta dos celeiros, para dar sorte, pois acreditavam que uma bruxa podia arruinar a saúde

de qualquer homem forte se colocasse uma mecha do cabelo dele ou aparas das suas unhas nos beirais de uma casa. As crianças eram

alertadas a nunca falar com estranhos. Se se perdessem ou fossem enfeitiçadas, deveriam gritar números de trás para a frente, para quebrar o encantamento. As infelizes crianças que desapareciam eram

procuradas com jarras de leite de cabra, considerada a bebida favorita das bruxas, e, muitas vezes, as que tinham sido levadas apareciam na porta de casa tarde da noite, com carrapichos nos cabelos e nenhuma 15

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justificativa lógica para dar à mãe que não fosse a desculpa de que tinham se perdido na floresta e não conseguiram encontrar o caminho de volta.

i Hannah Owens vivia longe das ilusões e das más intenções dos homens, nas entranhas de uma floresta, numa pequena cabana coberta por trepadeiras. Ela tinha sido construída por um carpinteiro da região, um sujeito que ninguém contratava devido a uma deformidade de nascença, um homem simples e honesto que, tempos depois, contou que a velha senhora o benzera e lhe dera um unguento preparado com as ervas do seu jardim e que fizera seu braço murcho crescer e ficar inteiro. O telhado da casa de Hannah era de palha e a chaminé, de juncos e argila, por isso sempre havia uma panela cheia de água perto da lareira, para o caso de uma faísca atear fogo nos juncos. O caminho até a porta era feito de pedras azuis irregulares e ficava escondido entre os arbustos. Isso vinha bem a calhar, pois a vegetação cerrada do jardim oferecia proteção contra os olhos de intrusos. E, apesar da caminhada difícil, as mulheres da cidade e das fazendas vizinhas ainda assim conseguiam encontrar o caminho até a porta de Hannah quando tinham necessidade, tocando o sino de bronze ao chegar. Hannah conhecia a floresta melhor do que ninguém. Ela sabia que era possível prever o número de ondas de frio que teriam no ano contando os nós do tronco de um arbusto de lilases. E que, se alguém acendesse um punhadinho de neve com isca de fogo e ela logo derretesse, isso era sinal de que a neve no chão também não tardaria a derreter. A noz-moscada abria o coração, o lírio combatia erupções cutâneas e a arnica podia fazer um homem arder de desejo. Quando um bebê custava a nascer ou não queria mamar, quando uma criança ficava doente e febril, quando um marido se afastava, quando uma vela 16

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pegava fogo por conta própria, indicando a presença de um espírito por perto, as mulheres batiam na porta de Hannah e, em troca de alguns ovos ou uma jarra de leite de cabra, ou, nos casos mais difíceis, um broche ou anel, podiam levar um remédio para casa.

i Maria cresceu assistindo a essas transações, sempre após o cair da noite, pois ninguém queria ser visto na porta de uma bruxa. Numa das paredes da cabana, Hannah tinha pendurado uma Mão da Sorte, um amuleto no formato de cinco dedos, feito de musgo preservado na véspera do solstício de verão com a fumaça de uma fogueira ritual e que protegia a casa do azar e do infortúnio. As mulheres que procuravam Hannah sentavam-se à mesa da cozinha, onde o pão era sovado, as galinhas abatidas e os bebês trazidos ao mundo, muitas vezes após um parto difícil. Aos 5 anos, Maria já tinha aprendido a virar um bebê no ventre da mãe, a moer os ossos de um pássaro, a fazer um pó para combater insônia e a identificar os sintomas da febre ou da varíola. A mãe adotiva já tinha lhe dado instruções precisas sobre quais as melhores ervas para se colher e ela as levava para casa num cesto ou aninhadas na saia do avental comprido. Erva-benta dos bosques para curar dor de dente, marroio-negro para náuseas e cólicas menstruais, cebolas ardidas para cobrir e curar mordidas de cachorro, casca de sabugueiro e de cerejeira para tosse, sementes de endro para acabar com os soluços, espinheiro para dispersar pesadelos e acalmar um coração inquieto, e urtiga, com a qual se podia fazer uma sopa excelente para tratar queimaduras, infecções e inflamações. Maria só teve que tocar numa touceira de urtigas sem luvas uma vez para aprender a lição. Mesmo depois de Hannah ter esfregado na mão da filha um punhado de folhas de baunilha-dos-jardins para acalmar a pele, Maria nunca mais chegou perto daquelas 17

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plantas que pinicavam. Desde cedo, a menina aprendia rápido. Ela não precisava se machucar duas vezes para ser cautelosa e sabia desde cedo que o amor poderia ser uma bênção ou uma maldição.

i A maioria das mulheres que percorriam a floresta até a casa de Hannah faziam isso por um único motivo. E esse motivo era sempre o amor. Amor eterno, amor de juventude, amor deteriorado, amor que causava dores e sofrimentos, amor que deixava hematomas e vergões, amor desejado com desespero ou do qual precisavam se ver livre o mais rápido possível. Muitas vezes, Hannah escrevia o resultado desejado num pedaço de pergaminho e o guardava na sua caixa de feitiços. Ela lançava seus feitiços enquanto acendia uma vela. Branca para a saúde, preta para levar embora a tristeza, vermelha para o amor. Picar o terceiro dedo da mão esquerda com uma agulha de prata podia trazer um amante de volta. O poder de um feitiço aumentava com a lua crescente e diminuía com a lua minguante. A época em que se lançava um feitiço era importante, o tempo dedicado a ele também, mas acreditar que surtiria efeito era o que mais fazia diferença. Maria se sentava perto da lareira, que era tarefa sua cuidar, pois ela tinha sua própria caixa de fogo e podia provocar um incêndio num piscar de olhos. A partir desse lugar quente e aconchegante, ela observava Hannah consultar as páginas do seu livro de remédios e feitiços, tomando cuidado para anotar as poções e pós que eram prescritos: amuletos de sementes de maçã e sangue menstrual; doses de meimendro que podiam unir um casal ou, se usados ​​em excesso, causar delírios ou a morte; o coração de um veado ou pombo, que incutia lealdade até mesmo no homem mais leviano e mal caráter; e a perfumada verbena, que, dependendo do seu uso e do que a cliente desejava, podia trazer um homem de volta ou deixá-lo impotente. 18

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