Skip to main content

Cultivar Máquinas 271

Page 1

Cultivar Máquinas • Ano XXV • Nº 271 • ISSN - 1676-0158 setembro 2026

Expediente Grupo Cultivar de Publicações Ltda. CNPJ: 02783227/0001-86 Insc. Est. 093/0309480 Rua Sete de Setembro, 160 Pelotas – RS • 96015-300 revistacultivar.com.br contato@grupocultivar.com Assinatura anual (11 edições*): R$ 494,00 (*10 edições mensais + 1 edição conjunta em Dez/Jan) Números atrasados: R$ 55,00

FUNDADORES Milton de Sousa Guerra (in memoriam) Newton Peter Schubert Peter

• Diretor Newton Peter REDAÇÃO • Editor Schubert Peter • Redação Rocheli Wachholz Nathianni Gomes • Redator Rogério Nascente • Design Gráfico e Diagramação Cristiano Ceia • Revisão Aline Partzsch de Almeida

COMERCIAL

O mercado brasileiro de tratores entra em uma fase de mudança. A matéria de capa desta edição acompanha a chegada e o avanço de marcas chinesas, indianas e de outros países asiáticos. Algumas já montam, fabricam ou distribuem máquinas no Brasil. Outras procuram representantes. O movimento pressiona uma estrutura dominada, há décadas, por poucos grandes grupos. As estratégias mudam conforme a origem. Marcas chinesas aparecem com foco em volume, alternativas de eletrificação, hibridização e faixas médias e altas de potência. As indianas concentram parte da oferta em tratores menores, com simplicidade mecânica e aplicações ligadas à agricultura familiar, fruticultura e horticultura. O mercado brasileiro passa a conviver com mais opções e, junto delas, novas perguntas sobre durabilidade, suporte e permanência dessas empresas no país. Outra mudança chega pelo ar. Desde 1º de julho de 2026, a nova ICA 10040 reorganiza regras para o uso de drones no Brasil. O Sarpas ganha papel central na solicitação de acesso ao espaço aéreo. A norma alcança também aeronaves de até 250 g, salvo exceções previstas. No uso agrícola, planejamento e regularização passam a exigir atenção ainda maior. A edição também mostra a importância da atenção aos detalhes na manutenção. Limpeza, lubrificação, regulagem, armazenamento e inspeções reduzem desgaste e ajudam a evitar paradas. O mesmo princípio vale para tratores na entressafra. Combustível, pneus, bateria, óleos e proteção contra umidade e animais pedem cuidados antes e durante a inatividade. Na semeadura, a modernização não depende apenas da troca da máquina. Sistemas pneumáticos, atuadores hidráulicos, limpa-trilhos, tubos condutores e bandas cobridoras podem atualizar equipamentos em uso. A proposta busca mais uniformidade na deposição das sementes e na emergência das plantas. Tudo isso e muito mais nas próximas páginas. Boa leitura!

• Coordenação Charles Ricardo Echer • Vendas Sedeli Feijó Ariadne Fuentes Marília von Pfeil CIRCULAÇÃO • Coordenação Simone Mendes • Assinaturas Natália Rodrigues Nossos Telefones: (53) • Assinaturas 3028.2000

Editorial

• Comercial e Redação 3028.2075

Índice 04 Rodando por aí 13 Customização de semeadoras no campo 16 Limpeza de óleos lubrificantes 18 Cuidados com tratores na entressafra 22 Nova legislação para uso de drones 26 Capa - Tratores asiáticos no mercado brasileiro 36 Irrigação de precisão e seus benefícios

revistacultivar.com.br instagram.com/revistacultivar

40 Fatores que influenciam na colheita do café

facebook.com/revistacultivar youtube.com/revistacultivar x.com/revistacultivar

Nossa capa

44 Cuidados essenciais com implementos agrícolas

Montagem de Cristiano Ceia

Como a chegada de novas marcas chinesas, indianas e de outros países asiáticos começa a mexer com uma estrutura há décadas consolidada no mercado brasileiro de tratores


RODANDO POR AÍ

Massey Ferguson apresenta plantadora Série N nos EUA A Massey Ferguson apresentou, durante a Farm Progress Show 2026, nos Estados Unidos, a nova linha de plantadoras Série N, voltada ao plantio em espaçamentos estreitos e divididos. A linha utiliza tecnologias da Precision Planting instaladas de fábrica e oferece seis configurações: 23-15, 24-15, 3115, 32-15, 24-20 e 24-22. Entre os recursos estão 20|20 Gen3, vSet2, vDrive e DeltaForce, destinados ao controle da distribuição de sementes, profundidade de plantio e uniformidade de emergência. As máquinas contam ainda com dois reservatórios centrais de 45 bushels cada, opção para até 500 galões de fertilizante líquido e sistema manual de transferência de peso com ajuste a partir da cabina. A plataforma modular permite incorporar tecnologias opcionais, como WaveVision, SpeedTube, CleanSweep, EMHD e Pump Stack, possibilitando atualizações ao longo da vida útil da máquina. Segundo a Massey Ferguson, a Série N também utiliza unidades de plantio Heads Up, dispensa lubrificação e não exige assinaturas ou desbloqueios para uso dos recursos disponíveis.

Na feira, a marca também apresentou atualizações nos tratores MF 9S, com TIM e MF AutoHeadland, e na linha MF 5S, que passou a oferecer transmissão Dyna-VT.

LS Tractor anuncia nova série MT3 de tratores na Expointer A LS Tractor apresentou na Expointer 2026 duas séries voltadas a diferentes faixas de potência e aplicações no campo. A principal novidade foi a MT3, formada por modelos de 50 cv e 65 cv, desenvolvidos para operações que exigem tratores compactos e com boa capacidade de manobra. A série é direcionada principalmente a atividades em parreirais, pomares, aviários e outras áreas com limitações de espaço. Mesmo com dimensões reduzidas, os tratores incorporam recursos voltados ao conforto do operador e à eficiência operacional, ampliando as possibilidades de mecanização em locais em que máquinas de maior porte encontram restrições de acesso e circulação. Outro destaque foi a série Plus PRO, lançada no Brasil em 2026. Com modelos de 80 cv a 105 cv, a linha substitui a série Plus e utiliza motores Perkins combinados com transmissão desenvolvida pela LS Tractor. Com as duas séries, a fabricante amplia a oferta desde aplicações especializadas, que demandam máquinas mais compactas, até operações que exigem tratores de maior potência e capacidade operacional.

04 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271


Fendt lança três máquinas na Farm Progress Show 2026 John Deere divulga assistente de IA para análise de dados agrícolas A John Deere apresenta o JD, assistente de inteligência artificial integrado ao Operations Center, nos Estados Unidos. A ferramenta permite ao produtor consultar dados históricos de campo, máquinas e operações por meio de perguntas em linguagem natural. O sistema busca transformar essas informações em respostas aplicáveis à gestão agrícola. O JD pode comparar o consumo de combustível em operações de preparo do solo ao longo dos anos. Também pode avaliar a singulação entre áreas e relacionar os resultados à produtividade. Outras aplicações incluem análise do desempenho de operadores de pulverizadores e definição do período de colheita a partir de tendências históricas. Segundo a John Deere, o recurso reduz a necessidade de consultar diferentes painéis e relatórios. As respostas usam dados da própria operação agrícola. A empresa também divulgou o Farmer Data Commitment, conjunto de dez princípios para uso de dados. A política mantém o produtor no controle das informações e prevê transparência sobre o uso dos dados. A John Deere afirma não vender dados agrícolas nem utilizá-los para negociação ou especulação com commodities. O produtor pode escolher terceiros com acesso às informações e interromper esse compartilhamento. A companhia abriu um programa limitado de acesso antecipado para clientes agrícolas selecionados nos Estados Unidos. A previsão indica ampliação do acesso ainda em 2026 pelo Operations Center na web e em dispositivos móveis. A empresa também planeja disponibilizar o JD em interfaces de monitores instalados na cabina.

06 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

A Fendt apresentou na Farm Progress Show 2026, nos Estados Unidos, duas novidades em tratores: o 1100 Vario MT Gen2, lançado globalmente, e a nova geração 300 Vario Gen5, exibida pela primeira vez na América do Norte. O 1100 Vario MT Gen2 passa a ser o trator de esteiras de maior potência da marca equipado com transmissão VarioDrive. O conjunto recebeu uma transmissão reforçada para suportar o aumento de potência e trabalha associado ao conceito de baixa rotação Fendt iD, voltado à eficiência na transferência de potência e à redução do consumo de combustível. O modelo também incorpora suspensão SmartRide e barra de tração direcional ou engate de

três pontos com movimentação ativa conforme os comandos de direção, além de cabina com FendtONE, novos controles e sistema passivo de limpeza do filtro de ar. Já o 300 Vario Gen5 passa a contar com cinco modelos, incluindo o novo 310 Vario. A linha oferece de 113 cv a 152 cv com DynamicPerformance, sistema capaz de liberar automaticamente até 10 cv adicionais para demandas auxiliares. A série também traz FendtONE, orientação, Isobus, telemetria e gerenciamento automatizado de cabeceiras. Entre as atualizações estão as carregadoras Cargo e Cargo Profi com novo sistema hidráulico, iluminação GroundVision, capô redesenhado com luzes diurnas e novo assento giratório.


Massey Ferguson expõe trator MF 2700 para pequenos produtores

John Deere avança na autonomia de máquinas para pomares A GUSS Automation, subsidiária integral da John Deere, planeja integrar o lidar digital Rev8 OS0, da Ouster, à próxima geração de máquinas autônomas para pomares. O sistema pretende ampliar a percepção dos equipamentos em ambientes com vegetação densa, poeira, pulverização e variações de iluminação. O sensor oferece campo de visão amplo e gera nuvens de pontos tridimensionais. Esses dados permitem mapear troncos, linhas de cultivo e contornos do terreno. A tecnologia também apoia navegação e detecção de obstáculos. A GUSS busca reduzir limitações de sistemas tradicionais de GPS em pomares e vinhedos, nos quais a operação autônoma pode exigir precisão na escala de centímetros. O Rev8 OS0 usa a arquitetura L4 Ouster Silicon autônoma, a partir de um notebook. O controle inclui operações de pulverização realizadas pelos modelos Orchard GUSS e Mini GUSS em culturas permanentes. A empresa também avalia o uso da mesma abordagem de autonomia baseada em lidar em outras operações de pomares e vinhedos.

08 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

A Massey Ferguson apresentou na Expointer 2026 a nova série de tratores MF 2700, desenvolvida para pequenos e médios produtores e para atividades que exigem máquinas compactas e de operação simples. A linha amplia a oferta da marca em faixas de menor potência e é resultado de uma parceria com a fabricante SDF. Os tratores MF 2700 possuem potência entre 35 cv e 60 cv, motores mecânicos de três cilindros e transmissão de oito velocidades. O conjunto prioriza simplicidade construtiva, facilidade de operação e baixo custo de manutenção, características voltadas ao uso em propriedades de menor escala e em atividades especializadas.

Com plataforma aberta, os modelos são indicados para aplicações em horticultura, fruticultura, pecuária, produção de grãos e serviços gerais. As dimensões compactas favorecem o trabalho em áreas com restrição de espaço e em operações que exigem maior capacidade de manobra, ampliando as possibilidades de uso em diferentes sistemas de produção. Segundo a Massey Ferguson, a proposta da série é combinar robustez, versatilidade e facilidade de manutenção em um trator de menor porte, desenvolvido para as condições de trabalho encontradas no campo brasileiro e para diferentes rotinas de mecanização.


Na CNH, projeto Hytrac integra trator a hidrogênio e energia na fazenda A Steyr, em parceria com a Universidade Técnica de Viena (TU Wien) e outras empresas, iniciou na Áustria o projeto Hytrac, que avalia o uso de hidrogênio na mecanização agrícola a partir de um trator baseado no Steyr Expert. A máquina utiliza motor de combustão interna com injeção

direta de hidrogênio (H₂ ICE), desenvolvido para manter níveis de potência e autonomia próximos aos de um trator convencional, com redução das emissões no ponto de uso. O conjunto incorpora transmissão elétrica de divisão de potência eCVT, responsável pela transferência de potência às rodas e pela integração dos componentes eletrificados. O trator também conta com bateria de alta tensão, que pode fornecer energia aos implementos, ampliando as possibilidades de eletrificação das operações. Diferentemente do conceito FCTRAC, apresentado pela Steyr em 2024 com célula a combustível, o Hytrac utiliza combustão interna de hidrogênio associada a uma arquitetura híbrida. O projeto será avaliado em condições reais no Energy Hub Neusiedl, quando o trator trabalhará integrado a uma estrutura de produção, armazenamento, compressão e abastecimento de hidrogênio instalada na própria propriedade rural. A proposta é analisar o desempenho da máquina dentro de um sistema energético completo e verificar o potencial dessa tecnologia para futuras aplicações agrícolas.

Jacto leva novos drones e tecnologia de pulverização à Expointer A Jacto apresentou na Expointer 2026 a ampliação de seu portfólio de drones agrícolas, com destaque para os modelos DJI T55 e T100 com bateria dupla. O T55 foi desenvolvido para pulverização, distribuição de sólidos e transporte de cargas, com tanque de 50 L, capacidade de 55 kg para sólidos e até 40 kg no sistema de elevação. O equipamento atinge 72 km/h, vazão de até 50 L/min na pulverização e descarga de até 400 kg/min. Também incorpora radar de ondas milimétricas, sistema de visão quádrupla e recursos de desvio de obstáculos para operação em diferentes condições de campo. O T100 com bateria dupla amplia em 50% o tempo de voo

10 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

para a mesma carga. Na distribuição de sólidos, suporta até 100 kg e vazão de 400 kg/min; no transporte, a capacidade chega a 80 kg. Na pulverização, utiliza tanque de 90 L e vazão de até 40 L/min, com possibilidade de duas configurações de sistema de aplicação. Nos pulverizadores automotrizes, a Jacto destacou o BalanceControl nos Uniport 3030 e 4530, sistema que ajusta as barras de 32 m ou 36 m ao relevo em tempo real. Já os Uniport 2030 e 2530 passam a contar com 11 seções de aplicação pelo MultiControl, sistema direcional Unitrack e ajuste de bitola entre 3,05 m e 3,6 m.


Claas demonstra Arion 5 CMATIC com transmissão continuamente variável A Claas apresentou na Innov-Agri, na França, a nova série de tratores Arion 5 CMATIC, formada pelos modelos 5.140, 5.160 e 5.180. A linha utiliza motor de quatro cilindros e 4,5 L, combinado à transmissão continuamente variável CMATIC. No topo da gama, o Arion 5.180 alcança 132 kW de potência máxima e 730 Nm de torque a 1.500 rpm. A transmissão incorpora gerenciamento adaptativo do trem de força e o recurso Auto Load Anticipation, que identifica aumentos de carga durante o abaixamento de implementos. O sistema eleva a rotação do motor e ajusta a transmissão antes do pico de demanda, reduzindo quedas de

12 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

rotação em variações bruscas de carga. A série pode receber o Cemos Dialog, que auxilia nos ajustes de lastro e pressão dos pneus, além do GPS Pilot Cemis 1200 para orientação e compartilhamento de linhas de referência. O Claas Connect integra dados de tarefas, frota e agricultura de precisão. Os tratores contam ainda com suspensão dianteira Proactiv, cabina com suspensão integral e terminal Cebius para controle hidráulico, levante traseiro e funções Isobus. O sistema hidráulico “load-sensing” fornece até 150 L/min e atende até seis circuitos, enquanto o engate K80 suporta carga vertical de até quatro toneladas.


ACESSÓRIOS Foto Precision Planting

Customização no campo Otimização do desempenho das semeadoras-adubadoras em uso pode resultar em aumento da produtividade nas lavouras, com mais eficiência, precisão e segurança

M

uitos produtores de grãos acreditam que a forma mais rápida de inovar na implantação de lavouras seja adquirindo novas semeadoras-adubadoras. Uma alternativa mais eficiente para otimizar o desempenho do maquinário em uso é realizar a atualização de peças e componentes desenvolvidos por fabri-

cantes independentes, que servem para repor ou modernizar os implementos ao focar diretamente na resolução de gargalos que as peças originais não conseguem suprir. Esse processo de modernização segue a linha da customização para solucionar problemas agronômicos específicos, além de oferecer compatibilidade ampliada para servir em modelos de di-

ferentes marcas e um forte foco em desempenho, visto que essas soluções entregam maior durabilidade e desempenho muito superior ao padrão de fábrica, consolidando o mercado independente como um fornecedor estratégico de tecnologia para as semeadoras-adubadoras de precisão e de fluxo contínuo em uso nas propriedades agrícolas.

Sistemas pneumáticos

Um dos maiores desafios técnicos na semeadura é garantir que todas as sementes sejam depositadas na mesma profundidade, o que permite uma emergência homogênea, com velocidade, e evita a competição com plantas daninhas, que disputam recursos, interferindo negativamente na produção das plantas. Tradicionalmente, as semeadoras adubado-

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 13


ras utilizam molas mecânicas para exercer pressão sobre as linhas de semeadura. No entanto, essas molas sofrem fadiga com o tempo e não conseguem manter uma força constante em terrenos irregulares. Para resolver isso, surgiram sistemas pneumáticos de pressão constante. Esses acessórios substituem as molas por bolsas de ar de alta resistência. A funcionalidade principal reside na equalização da força: quando uma linha da máquina sobe ao encontrar um obstáculo, o excesso de pressão é redistribuído automaticamente para as demais linhas; ao descer, ela recebe a pressão de volta instantaneamente. Esse ajuste é centralizado, permitindo que o operador altere a pressão de contato de todo o conjunto em segundos, sem interromper a operação.

Atuadores hidráulicos

Além desse sistema, existe um sistema automatizado de controle de força descendente linha a linha. A tecnologia emprega atuadores hidráulicos in-

tegrados que realizam ajustes instantâneos em cada linha de semeadura. Ao monitorar essas variações em tempo real, o sistema assegura que a semente seja depositada na profundidade ideal, evitando tanto a deposição da semente em profundidade excessiva em solos mais leves quanto superficial em áreas de solo mais firme. Em termos de resultados práticos e rentabilidade, o uso dessas tecnologias reflete-se diretamente na uniformidade da emergência das plantas e no aumento da produtividade.

Mecanismo “limpa-trilho”

Acessório primordial nas semeadoras no sistema plantio direto, o mecanismo “limpa-trilho”, instalado à frente da linha de semeadura, desloca a palhada lateralmente, removendo restos culturais, pequenas pedras e outros resíduos da superfície, exatamente sobre o local onde a semente será depositada. Favorece o funcionamento dos discos de corte e de deposição de sementes e fertilizan-

Foto Schavinski

Kuhn

Semeadora-adubadora equipada com sistema pneumático de pressão das linhas de semeadura PDFMax

14 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

tes; com isso, evita diversos problemas, como embuchamento, encestamento, falha na deposição de sementes, na germinação e na emergência. Os “limpa-trilhos” modernos permitem regulagens de pressão, profundidade, ângulo de ataque e intensidade de limpeza, possibilitando a remoção apenas da cobertura superficial necessária para a operação. Entretanto, a regulagem deve ser realizada corretamente, pois o excesso de pressão pode remover solo juntamente com a palhada, reduzir a cobertura vegetal na linha de semeadura e favorecer processos erosivos.

Tubos condutores

Outro componente para atualização são os tubos condutores de sementes especiais projetados para otimizar a semeadura, utilizando o dosador de disco horizontal, ao garantir um espaçamento uniforme e evitar falhas ou duplas causadas pelo ricochete das sementes, sendo aplicáveis em culturas como milho, soja, feijão, algodão, girassol e grãos finos. Seu principal objetivo é proporcionar uma deposição precisa no solo, através de um design com paredes internas lisas e caminhos suaves, além de contar com reforços de carboneto de tungstênio nas pontas para aumentar a durabilidade contra o desgaste causado pelos discos abridores e pelo atrito com o solo. Esses acessórios podem estar acoplados com sensores e ofertam informações sobre o estande extremamente confiáveis, ao utilizar tecnologias que evitam a interferência física na queda da semente, e, em versões mais avançadas, empregam ondas de rádio para


Foto Precision Planting

distinguir sementes de poeira, garantindo que o monitor da cabina reflita exatamente o que está sendo semeado.

Bandas cobridoras

Os limpa-trilhos modernos permitem regulagens de pressão, profundidade, ângulo de ataque e intensidade de limpeza, possibilitando a remoção apenas da cobertura superficial necessária para a operação

co e garante o contato íntimo da semente com a umidade do solo, gerando uma emergência rápida e uniforme em qualquer tipo de solo, desde arenosos até argilosos e com palhada densa. Compatível com a maioria das semeadoras do mercado e fabricada em polímero de alta resistência, a solução apresenta rápido retorno

Foto Schavinski

Após a semente ser conduzida pelo tubo e depositada na linha, o fechamento do sulco é onde muitas lavouras perdem seu potencial por falta de atenção aos detalhes. Uma semente de soja precisa absorver 100% de seu peso em água para germinar; se houver bolsões de ar ou sulcos mal fechados, esse processo é atrasado. Os acessórios inovadores nesta categoria são as bandas cobridoras especiais dentadas. Diferentemente das rodas cobridoras de borracha lisas convencionais, essas bandas possuem um design agressivo que força o deslocamento lateral do solo de baixo para cima. Essa funcionalidade expulsa o ar do sul-

sobre o investimento, entregando um ganho de estande de até 7%. Entretanto, a regulagem da pressão deve ser feita corretamente. Quando excessiva, pode provocar compactação do solo, dificultar a emergência das plântulas, reduzir a aeração e favorecer a formação de crosta superficial. Por isso, uma regulagem adequada da roda compactadora é essencial para garantir uma semeadura de qualidade.

Precisão e segurança

Assim, a utilização desses componentes contribui para uma emergência mais uniforme das plantas, melhor estabelecimento da lavoura e, consequentemente, maior potencial produtivo, tornando a operação de semeadura mais eficiente, precisa e segura. .M

Semeadora-adubadora equipada com bandas cobridoras Xingu®Pro

Gabriel da Paixão Santos, Antonio Duarte Neto, Bárbara Maria Silva Rocha Reis, Jorge Atila Silva da Rocha, Marcos Roberto da Silva, Maria Eduarda Santos Mota, UFRB

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 15


Fotos Arquivo

LUBRIFICAÇÃO

Danos evitáveis

E

Limpeza do óleo lubrificante influi na vida útil de mancais de rolamento e bombas em sistemas hidráulicos

m recente estudo de caso, as dimensões de material particulado sólido abrasivo foram controladas através de sistema de filtração e concluiu-se ter ocorrido um dramático aumento na vida em serviço de bombas de recalque em sistemas hidráulicos e de mancais de rolamento lubrificados por sistemas de circulação a óleo, quando a maior parte do material particulado sólido abrasivo com dimensões superiores a 3 mícron foi removida do óleo lubrificante.

Motivos principais

Vários motivos levam à diminuição da vida em serviço de mancais

de rolamento lubrificados por sistemas de circulação a óleo e bombas de recalque em sistemas hidráulicos. Entre eles, citamos como principais os dois a seguir. A abrasão causada por inserção de material particulado sólido abrasivo com dimensões de 3 a 5 mícron nas folgas dinâmicas separadas pelo filme de fluido lubrificante. A grande concentração de material particulado sólido abrasivo de pequenas dimensões em movimento de rolamento, sob pressão, contaminando o filme de óleo lubrificante. Esse processo leva, eventualmente, à fadiga de superfície do metal que compõe o elemento de máquina, provocando a

16 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

formação de “pitting” e, por fim, falhas catastróficas em mancais de rolamento lubrificados por sistemas de circulação a óleo e bombas de recalque em sistemas hidráulicos.

Casos analisados

Analisaremos, a seguir, duas situações monitoradas no presente estudo de caso. => Sistema hidráulico ou circulatório operando com óleo lubrificante em Nível Geral de Limpeza 23/21/18 (Código de Contaminação de Partículas Sólidas ISSO 4406:2021 (“Hydraulic fluid power - Fluids - Method for coding the level of contamination by solid parti-


Controle de contaminação de material particulado sólido através de melhoria no sistema de filtração do óleo lubrificante

cles”) - situação na qual, aproximadamente, 4.375 kg de material particulado sólido abrasivo passaram através da bomba de óleo lubrificante a cada ano (175 sacos plásticos de 25 kg de material particulado sólido abrasivo), sendo a vida útil em serviço estimada da bomba de óleo lubrificante próxima a dois anos. => Sistema hidráulico ou circulatório operando com óleo lubrificante em Nível Geral de Limpeza 16/14/11 (Código de Contaminação de Partículas Sólidas ISSO 4406:2021 (“Hydraulic fluid power - Fluids - Method for coding the level of contamination by solid particles”) - situação na qual, aproximadamente 25 kg de material particulado sólido abrasivo passaram através da bomba de óleo lubrificante a cada ano (um saco plástico de 25 kg de material particulado sólido abrasivo), sendo a vida útil em serviço estimada da bomba de óleo lubrificante próxima a 14 anos.

Estão as bombas de recalque dos sistemas hidráulicos ou dos sistemas circulatórios de nossas plantas industriais ou em nossos equipamentos móveis bombeando óleo lubrificante ou mistura abrasiva?

Conclusão do estudo

Segundo o estudo em questão, a vida útil em serviço em mancais de rolamento lubrificados por sistemas de circulação a óleo e bombas de recalque em sistemas hidráulicos aumentará significativamente com a melhoria no Ní-

vel Geral de Limpeza do fluido lubrificante (redução na concentração do material particulado sólido abrasivo). Em função do exposto, conclui-se que vale muito a pena investigar a situação dos sistemas de filtração de fluido hidráulico e circulatórios de óleos lubrificantes, com vistas à remoção do material particulado sólido abrasivo causador de avarias catastróficas e indisponibilidade de ativos móveis e .M industriais. Marcos Lobo, Qu4ttuor Consultoria

Sistema hidráulico: óleo em diferentes níveis gerais de limpeza

.M

Óleo em sistema hidráulico com diferentes níveis gerais de limpeza (Código de Contaminação de Partículas Sólidas ISO 4406:2021) Tamanho de Partícula

ISO 23/21/18

ISO 16/14/11

Partículas > 4 µm/ml

40.000 - 80.000

320 - 640

Partículas > 6 µm/ml

10.000 - 20.000

80 - 160

Partículas > 14 µm/ml

1.300 - 2.500

10-20

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 17


TRATORES

Cuidados na pausa

O

Armazenamento adequado evita desgastes e reduz custos de manutenção de máquinas agrícolas no campo

s tratores estão presentes em praticamente todas as etapas da produção agrícola e exigem atenção mesmo durante períodos de menor utilização. O armazenamento correto durante a entressafra ou em

momentos de inatividade é fundamental para preservar componentes, evitar desgastes prematuros e reduzir custos com manutenção. Embora muitos produtores estejam atentos às revisões e inspeções periódicas, os cuidados adotados

18 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

quando a máquina permanece parada por semanas ou meses também têm impacto direto em seu desempenho e vida útil. Exposição prolongada ao sol, chuva e umidade, por exemplo, pode acelerar processos de corrosão, comprometer sistemas elétricos e re-


Fotos Arquivo

duzir a durabilidade de peças e componentes.

Limpeza e local adequado

Algumas medidas simples ajudam a preservar o equipamento e garantir que ele esteja pronto para operar quando necessário, reduzindo riscos de falhas e despesas inesperadas. Entre as principais recomendações está a limpeza completa da máquina antes do período de inatividade. A remoção de resíduos de terra, palha, fertilizantes e defensivos evita o acúmulo de umidade e reduz o risco de corrosão em partes metálicas. Outro cuidado importante é escolher um local adequado para o arma-

Entre as principais recomendações está a limpeza completa da máquina antes do período de inatividade

zenamento. Ambientes cobertos, ventilados e protegidos das intempéries ajudam a preservar a pintura, os componentes eletrônicos e os elementos de borracha. Quando possível, a máquina deve permanecer protegida da incidência direta do sol e da chuva.

Pneus e fluidos

A conservação da máquina durante a entressafra também passa por cuidados com pneus e fluidos. A calibragem correta ajuda a evitar deformações causadas pelo peso do equipamento durante períodos prolongados de parada, enquanto a inspeção do óleo do motor, do fluido hidráulico e do líquido de arrefecimento permite identificar eventuais necessidades de manutenção antes que elas se transformem em problemas operacionais.

Ligar o motor

Outra medida sugerida é ligar o trator a cada 15 dias por aproximadamente 20 minutos. Esse procedimento favorece a circulação do lubrificante pelos componentes internos, ajudando a manter a proteção das peças e a preservar as condições de funcionamento do equipamento.

O fato de funcionar o trator faz, além de lubrificar as peças internas, circular o combustível presente no sistema. Hoje, temos uma mistura de 15% de biodiesel adicionado ao diesel fóssil. Sendo que já está em estudo o aumento para 20% nos próximos anos.

Conservação dos combustíveis

O biodiesel é uma fonte interessante de combustível renovável. Pode ser gerado através de várias fontes (soja, gordura animal, resíduos de óleos de frituras etc.). Ele, porém, se degrada muito rapidamente. Segundo as diretrizes de logísticas, seu consumo deve ser em até 45 dias após sua fabricação. Já a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) determina que o B100 seja utilizado em até 30 dias. Após ser misturado no diesel fóssil, o que chega nos postos é uma mistura física de 15% de biodiesel e 85% de diesel fóssil, e este, se armazenado em tanques limpos, protegidos do sol e chuva e bem vedados, pode durar de três a seis meses. Porém, em condições reais, onde há variação de temperatura e umidade, ele já começa a se decompor em 30 dias. Por esse fato, o agricultor que

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 19


Fotos Arquivo

S10 ou S500

A remoção de resíduos de terra, palha, fertilizantes e defensivos evita o acúmulo de umidade e reduz o risco de corrosão em partes metálicas

armazena combustível, independentemente do tamanho do seu reservatório, deve utilizar um aditivo para diminuir essa degradação.

Atenção aos aditivos

No mercado hoje existem vários aditivos, porém o agricultor deve estar atento, pois vários “milagreiros” não desempenham o papel que realmente é preciso. O principal aditivo que deve ser usado é um biocida. Como o biodiesel é higroscópico, ou seja, absorve água do ar, torna o ambiente muito favorável ao desenvolvimento de microrganismos. O biocida vai agir na eliminação e prevenção do desenvolvimento de fungos e bactérias nessa interface da água com o diesel, impedindo a criação da chamada “biomassa” ou “nata biológica”. Se isso não for impedido de ser criado, temos a formação de ácidos gerados por esses microrganismos, que acabam corroendo as partes metálicas do sistema de injeção, o que causa prejuízos de grandes montas. Outros aditivos interessantes de serem usados são os antioxidantes

ou estabilizadores que vão atuar para prevenir a quebra química gerada pelo calor e o contato com o oxigênio. Essa oxidação é o que dá um aspecto escurecido do combustível. A soma dessas duas consequências, oxidação e degradação por microrganismos, gera o que o produtor mais vê nas suas máquinas: o acúmulo de borra que acaba entupindo filtros, bicos injetores e, por muitas vezes, causando danos nas bombas injetoras.

Injeção eletrônica

Uma tecnologia que ajuda a proteger o sistema é o uso de motores com injeção eletrônica, pois a presença de sensores na linha de injeção de combustível consegue medir a presença de água (primeiro sinal de contaminação do sistema), gerando um alerta ao operador. Esse primeiro alerta, normalmente, não impede o funcionamento da máquina, mas informa que algo de errado existe. Se for tomada uma ação simples como drenar os filtros de combustível, pode ser o suficiente para se evitar uma quebra de todo o sistema de injeção (bomba injetora e bicos injetores).

20 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

Outro cuidado que podemos ter é o de manter o tanque de combustível sempre cheio, com isso diminuímos o espaço com ar e geração de umidade dentro do tanque. Muitas vezes, ficamos em dúvida de qual diesel usar, se S10 ou S500. Ambos possuem a mesma proporção de biodiesel, 15%, porém, devido às suas características, se comportam de maneiras distintas, tanto no armazenamento quanto no funcionamento na máquina. O S500 possui, como seu nome diz, 500 ppm (partes por milhão) de enxofre, quando S10 possui apenas 10 ppm. O enxofre possui uma característica de ser um “biocida natural”, dificultando o crescimento inicial de bactérias e fungos. Porém, ao ser queimado, ele se transforma em gases que reagem com a umidade e gera ácido sulfúrico, que vai acabar contaminando o óleo lubrificante do motor, gerando trocas em intervalos menores. Já o S10, por sua vez, é mais “limpo” e na sua queima gera menos resíduos carbonosos. Mas, como tem menor teor de enxofre, devemos ter um cuidado maior no seu armazenamento. Máquinas mais modernas, com o uso de injeção eletrônica, operam com tolerâncias microscópicas, por isso é sugerido que trabalhem com S10 para evitar a obstrução dos filtros e danos ao sistema de injeção. O diesel fóssil possui na sua estrutura compostos polares e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos que dão uma capacidade de lubrificação natural ao combustível. Lubrificação essa essencial para a durabilidade da bomba injetora e dos bicos. O processo de “remover” o enxofre (chamado de hidrodessulfurização) acaba destruindo esses hidro-


carbonetos, fazendo que o diesel perca essa capacidade de lubrificação.

Peso nos pneus

Quando falamos em cuidar de uma máquina que irá ficar parada por um tempo, outro ponto que devemos ter atenção é com os pneus. O ideal é que a máquina seja colocada sobre cavaletes, tirando, assim, o peso dos pneus. Essa atividade deve ser feita com muita atenção e cuidado para evitar acidentes com a queda da máquina. Se não for possível colocar a máquina sobre cavaletes, devemos colocar uma pressão maior do que a usual nos pneus e de tempos em tempos devemos rodar com a máquina, para evitar que o peso fique sempre no mesmo lugar, danificando o pneu.

Sujeira e insetos

Durante o armazenamento da máquina devemos buscar um local limpo, sem o acúmulo de sujeiras e outros materiais que possam ser locais para presença de insetos e animais, principalmente ratos, pois esses podem causar danos significativos, especialmente na parte elétrica. Também podemos usar tampões nos suspiros para evitar a entrada de insetos e poeira.

Eder Pinheiro explica quais são os principais cuidados na hora deixar o trator parado na entressafra

to, principalmente se já estiver próximo do período de troca. Óleos velhos contêm resquícios de matérias, devido aos desgastes das peças móveis, além de gerar ácidos, por causa de sua oxidação. Esses ácidos orgânicos, juntamente com a borra, acabarão causando corrosão nas peças, além de neutralizar os aditivos dos lubrificantes, destruindo sua capacidade de proteger. Se porventura a máquina for permanecer parada por seis meses ou mais, o ideal é que seja usado um lubrificante protetivo com aditivos inibidores de corrosão em fase de vapor (VCI). Esses óleos evaporam controladamente dentro do cárter ou da transmissão, criando uma névoa protetora nas superfícies metálicas que não estão submersas no óleo.

Antes da partida, outro cuidado que devemos ter é o de drenar a água que, por ser mais densa que os óleos, vai se acumular no fundo dos reservatórios. Para isso, abra os bujões de dreno de todos os reservatórios com cuidado para drenar a água acumulada no fundo.

Verificações periódicas

Inspeções periódicas em períodos de armazenamento também são recomendadas. Verificar possíveis vazamentos, sinais de corrosão ou a presença de animais em componentes da máquina pode evitar problemas que, muitas vezes, só seriam identificados no momento de retomar as operações. São pequenos cuidados que podem gerar ganhos significativos ao produtor. Além de contribuir para a disponibilidade operacional da máquina, ajudam a reduzir custos de manutenção e preservam o valor do equipamento ao lon.M go dos anos. Eder Dornelles Pinheiro, Massey Ferguson

xxx

Desligar a bateria

Desligar os cabos da bateria é uma forma interessante de se evitar curtos-circuitos e também que ela descarregue por uma eventual fuga de energia.

Óleos e água

Quanto aos óleos lubrificantes e hidráulicos, o ideal é que seja realizada a troca antes do armazenamen-

Biocidas, aditivos antioxidantes ou estabilizadores são fundamentais, pois vão ajudar a prevenir a oxidação e a degradação por microrganismos, que gera o que o produtor mais vê nas suas máquinas, o acúmulo de borra que acaba entupindo filtros e bicos injetores

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 21


DRONES

Disciplina no ar Nova legislação para uso de drones no Brasil otimiza o processo de algumas atividades e garante maior segurança naquelas que estavam mais “livres”

O

uso de drones deixou de ser uma aplicação experimental e passou a integrar a rotina operacional de diversos setores no Brasil. Na agricultura, as aeronaves não tripuladas são empregadas em mapeamento, monitoramento de lavouras, pulverização em área total, pulverização localizada, aplicação de insumos à taxa variável, semeadura, inspeção de falhas, estimativa de vigor vegetativo e apoio à agricultura de precisão. Fora do ambiente rural, seu uso também se consolidou. Operar drone no Brasil não é apenas ligar o equipamento e decolar. A operação envolve responsabilidades perante a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o De-

partamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e, quando se tratar de aplicação agrícola, também perante o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com piloto certificado pelo Curso para Aplicação Aeroagrícola Remota (Caar) O termo drone, uso popular, pode ser utilizado como expressão de uso geral e de fácil compreensão pelo público. Entretanto, em linguagem normativa e técnica, especialmente quando se trata de operações profissionais, agrícolas, comerciais ou institucionais, o termo correto é RPA - Aeronave Remotamente Pilotada (RPA, sigla de “Remotely Piloted Aircraft”). Desde de 1º de julho de 2026, a nova ICA 100-40 reorganizou parte relevante desse ambiente normativo, com impacto direto, principalmen-

22 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

te, sobre operadores recreativos e prestadores de serviço, dentre outros. A norma usa como termo técnico Aeronave Não Tripulada (UA).

O que é a ICA 100-40

A ICA 100-40 é a Instrução do Comando da Aeronáutica que estabelece os procedimentos e responsabilidades para o acesso seguro ao Espaço Aéreo Brasileiro por aeronaves não tripuladas. Em termos práticos, define como, quando e em quais condições que um RPA (drone) pode acessar o espaço aéreo sob jurisdição brasileira. Enquanto a Anac trata de requisitos de aeronavegabilidade, cadastro (Sistema de Aeronaves Não Tripuladas - Sisant), enquadramen-


to da aeronave e aspectos da aviação civil, e a Anatel trata da homologação dos equipamentos de radiocomunicação, o Decea regula o acesso ao espaço aéreo, por meio do Sarpas - Sistema para Solicitação de Acesso ao Espaço Aéreo Brasileiro por Aeronaves Não Tripuladas.

O que muda desde de 1º de julho de 2026

Desde 1º de julho deste ano, entrou em vigor a nova ICA 100-40, aprovada pela Portaria Decea nº 2.094/DNOR8, de 18 de março de 2026. A nova edição revoga a ICA 100-40/2023 e também consolida conteúdos antes tratados em manuais específicos, incluindo regras para uso recreativo e operações aéreas especiais. Ponto central é a obrigatoriedade de solicitação prévia de acesso ao espaço aéreo por meio do Sarpas para todas as aeronaves não tripuladas, independentemente do peso. Com isso, os drones de até 250 g, que anteriormente tinham tratamento diferenciado em determinadas condições, passam a exigir autorização Sarpas para acesso ao espaço aéreo, salvo exceções específicas previstas na própria norma, como operações recreativas realizadas em Espaço Aé-

reo Condicionado destinado à recreação. A nova norma também introduz com maior clareza a lógica das categorias operacionais, como citamos a seguir. Categoria aberta - operação de baixo risco, realizada com aeronave não tripulada de até 25 kg, em VLOS (“Visual Line Of Sight” - traduzido por “operação na linha de visão”), até 120 m de altura e sem interseção com EAC (Espaço Aéreo Condicionado) ou FRZ (Zona de Restrição de Voo). Categoria específica - operação que não se enquadra nas regras da

categoria aberta, como aquelas com PMD (Peso Máximo de Decolagem) superior a 25 kg, BVLOS (“Beyond Visual Line Of Sight” - traduzido por “além da linha de visão”), acima de 120 m ou com interseção com EAC ou FRZ. Categoria certificada - operação realizada com aeronave não tripulada certificada. A ICA 100-40/2026 também incorpora o conceito de Zona UTM (“Unmanned Aircraft System Traffic Management”), ou seja, Gerenciamento de Tráfego de Sistemas de Aeronaves Não Tripuladas, entendido como volume de espaço aé-

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 23 Foto Case IH


Foto Divulgação

de decolagem de até 250 g, a nova lógica operacional do Decea exige atenção adicional. Como o acesso ao espaço aéreo deve ser solicitado pelo Sarpas e as aeronaves civis são disponibilizadas nesse sistema por sincronização com o Sisant, o cadastro prévio da aeronave no Sisant torna-se, na prática, condição necessária para que o operador consiga solicitar o voo no Sarpas, inclusive nos casos de aeronaves leves.

Roteiro para regularização

A nova norma mantém a antecedência mínima de 30 minutos para operações de menor complexidade, para pedidos no Sarpas, como categoria aberta e algumas operações específicas de baixo risco

reo no qual há segurança e eficiência do acesso de UAS (“Unmanned Aircraft System”) ou Sistema de Aeronave Não Tripulada. A nova norma mantém a antecedência mínima de 30 minutos para operações de menor complexidade, como categoria aberta. Para operações que demandam maior análise, prevê quatro dias corridos. Para operações específicas ou certificadas de maior complexidade, o prazo mínimo passa a ser de até oito dias corridos. Na prática, a nova ICA aumenta a responsabilização do operador e reforça a necessidade de planejamento prévio. Para o uso recreativo, o voo deve observar altura máxima de 200 pés, equivalente a aproximadamente 60 m AGL (“Above Ground Level”), ou altura acima do nível do solo, e distância horizontal máxima de 300 m. Assim, embora a categoria aberta admita operações profissionais de menor risco com altura de até 400 pés ou 120 m AGL, esse limite não deve ser automaticamente aplicado ao uso recreativo. Para drones utilizados exclusiva-

mente em lazer ou hobby, prevalece o limite específico de 60 m AGL. A exceção expressa é apenas para operações recreativas realizadas em Espaço Aéreo Condicionado - EAC destinado à recreação. O EAC destinado à recreação deve ser entendido como uma área de espaço aéreo previamente definida e formalmente destinada à prática recreativa com aeromodelos ou drones. Essa condição não se confunde com qualquer área aberta, praça, parque, fazenda ou propriedade particular onde o operador deseje voar por lazer. Na ICA 100-40/2026, a dispensa de solicitação no Sarpas para o uso recreativo somente ocorre quando a operação for realizada em EAC especificamente destinado à recreação (Artigo 55, Inciso 2º). Fora desse ambiente formalizado, o voo recreativo deve seguir a regra geral de solicitação de acesso ao espaço aéreo pelo Sarpas. Embora a regulamentação da Anac historicamente tenha dispensado o cadastro obrigatório no Sisant para drones com peso máximo

24 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

Para operar um drone (RPA), é necessário atender às exigências do equipamento, do operador, da finalidade da operação e do espaço aéreo. Após o cadastro da aeronave na Anac, por meio do Sisant, o operador deve emitir a respectiva certidão de cadastro. Esse documento deve acompanhar a operação, em formato físico ou digital, e poderá ser solicitado pelas autoridades competentes. Recomenda-se, ainda, manter disponível a autorização de acesso ao espaço aéreo emitida pelo Decea, por meio do Sarpas, correspondente à operação realizada.

Regularidade específica para operação agrícola

Quando o drone for utilizado para aplicação aérea de agroquímicos, adjuvantes, fertilizantes, inoculantes, corretivos, sementes ou produtos afins, devem ser observadas também as normas do Mapa. Com a aeronave regularizada no Sisant, o acesso ao espaço aéreo deve ser solicitado no Sarpas. Na nova ICA 100-40/2026, a aeronave civil cadastrada no Sisant será disponibilizada aos perfis de pessoa física ou jurídica no Sarpas por sincronização entre os sistemas. Quan-


Resumo das principais mudanças Item

ICA 100-40/2023

Item

Entrada em vigor

Desde 3 de julho de 2023

1º de julho de 2026

Solicitação no Sarpas

Havia hipóteses de dispensa, para drones pequenos

O acesso ao espaço aéreo deve ser solicitado pelo Sarpas

Drones até 250 g

Podiam ser dispensados do Sarpas

Passam a seguir a regra geral de solicitação no Sarpas

Uso recreativo

Tratado também por manual específico

Regras recreativas incorporadas

Altura recreativa

Regras para aeromodelos e drones recreativos

Operação recreativa limitada a 200 pés, cerca de 60 m AGL

Operações profissionais

Em regra, até 400 pés para operações de menor risco

Categoria aberta mantém até 400 pés, cerca de 120 m AGL

do o operador for pessoa jurídica, o perfil deve ser vinculado a uma pessoa física, que atuará como administrador Sarpas da empresa. São de responsabilidade do piloto o correto planejamento e a avaliação criteriosa do espaço aéreo em que será executada a operação, para máxima segurança operacional. Além disso, operações aeroagrícolas destinadas à aplicação de agroquímicos, adjuvantes, fertilizantes, inoculadores, corretivos e sementes, sobre áreas desabitadas e sem interseção com EAC (TRA, TSA, área restrita ou FRZ), com PMD maior que 25 kg e operação em VLOS até 100 pés de altura (30 m) podem cumprir o prazo de antecedência de 30 minutos.

O que esperar da nova legislação

A nova ICA 100-40 sinaliza uma mudança: o eixo deixa de ser apenas o cadastro do equipamento e passa a ser o gerenciamento do risco operacional. Para o setor agrícola, prestadores de serviço que atuam com pulverização, mapeamento e aplicação localizada precisarão documentar detalhadamente suas operações e planejá-las com antecedência. Para o uso em imagens e filmagens, especialmente em áreas urbanas, eventos, propriedades próximas a aeródromos e locais sensíveis, mesmo drones pequenos passam a depender de autorização de acesso ao espaço aéreo no Sarpas.

Resumo dos prazos mínimos de antecedência para autorização de voo no Sarpas Categoria Aberta

Categoria específica ou certificada

30 minutos

4 dias corridos

8 dias corridos

-

-

• PMD ≤ 25 kg

• PMD ≤ 25 Kg

• PMD ≥ 25 kg

• VLOS

• VLOS

• BVLOS

• Até 400 pés (120 m)

• Até 400 pés (120 m)

• Acima de 400 pés (120 m)

• Sem interseção com EAC • Com interseção com EAC (TRA, TSA e área restrita ou FRZ) (TRA, TSA e área restrita ou FRZ)

Considerações finais

As principais mudanças são a centralidade do Sarpas para solicitação de acesso ao espaço aéreo e a exigência de maior atenção também para drones de até 250 g, além da incorporação das regras de uso recreativo e a redução de prazo para algumas operações de maior complexidade. As mudanças vêm tanto para otimizar o processo de algumas atividades quanto para garantir mais segurança e registros em ati-

• Com interseção com EAC (TRA, TSA e área restrita ou FRZ)

vidades que estavam mais “livres”. Para o operador rural e o prestador de serviço, a regra prática é simples: regularizar antes de voar e manter registro das atividades já desenvolvidas. Desde de 1º de julho de 2026, essa rotina se torna ainda mais importante, pois a autorização de acesso ao espaço aéreo pelo Sarpas passa a alcançar também aero.M naves de menor peso. Jorge Wilson Cortez, João Gabriel Ruppenthal, UFGD

Foto DJi

As mudanças vêm tanto para otimizar o processo de algumas atividades como para garantir mais segurança e registros em atividades que estavam mais "livres"

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 25


CAPA

Asiáticos pressionam

o mercado brasileiro A chegada de novas marcas chinesas, indianas e de outros países asiáticos começa a mexer com uma estrutura há décadas consolidada no mercado brasileiro de tratores. Com preços competitivos, diferentes níveis de tecnologia e planos de importação, montagem e produção local, esse avanço aumenta a pressão sobre os fabricantes já estabelecidos e abre uma série de questionamentos sobre seus efeitos na indústria nacional, na rede de concessionários e, principalmente, para o produtor no longo prazo

O

atual mercado nacional de tratores agrícolas é amplamente dominado por um oligopólio de marcas de três grandes grupos mundiais, John Deere, CNH (Case IH e New Holland) e AGCO (Fendt, Massey Ferguson e Valtra). Embora o “share” de cada uma das marcas seja um segredo, algumas informações indicam que mais de 80% das vendas a consumidor sejam repartidos entre estas seis marcas. Isto é apenas uma suposição, pois os dados de unidades vendidas não são públicos e sim, estimados. Algumas empresas, afora as pertencentes aos mencionados três grupos, estão presentes no país há alguns anos, como Agrale, Agritech, LS Tractor, Mahindra, Tramontini e Yanmar. Outros players, como Budny, Forza, Hanomag, Kioti, Kubota, Landini, Lovol, Preet e YTO, são frequentemente encontrados em feiras, expo26 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

sições, concessionários e, em algumas ocasiões, em trabalho no campo. Algumas destas marcas com pequena participação no mercado local são verdadeiras potências em seus países de origem e várias notícias recentes indicam a chegada ao mercado brasileiro, com diferentes estratégias. Algumas já possuem unidades de montagem e fabricação no país e outras informam a chegada em breve. Também existem fabricantes nacionais que utilizam componentes básicos como motores e transmissões vindas de países asiáticos. A oferta de novas tecnologias aplicadas aos tratores no país aumentou nos últimos anos, em particular nas últimas duas décadas. O uso de plataformas e cabinas se popularizou, minimizando esforços físicos e riscos ocupacionais, de exposição ao ruído e à vibração, e os


Montagem Cristiano Ceia

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 27


Foto Zoomlion

Fotos Charles Echer

Zoomlion estreou na Agrishow 2026 e lançou recentemente o trator híbrido de rodas mais potente do mundo, um modelo que combina motor diesel de 700 cv com motores elétricos para alcançar picos de até 1.200 cv e 4.500 Nm de torque

controles de emissões poluentes provocaram a introdução dos sistemas de injeção eletrônica de combustível, entre outras. Estas transformações, decorrentes de normativas nacionais, proporcionaram patamares de conforto e sustentabilidade, não encontrados em produtos das décadas passadas. Porém, esta evolução provocou um incremento no custo destes produtos.

Uma das oportunidades que os fabricantes de origem asiática estão vendo é a possibilidade de entrar no mercado brasileiro, com um custo de aquisição até 30% menor que a média do produto nacional, oferecendo um equipamento mais simples, com menor especificação, aproveitando o momento de instabilidade econômica dos produtores rurais. Atualmente, o mercado é concentrado e Foto Divulgação

Indiana Swaraj Tractors produz 26 modelos de tratores que variam de 15 cv a 70 cv

28 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

focado em alta tecnologia, inclusive oferecendo recursos de conectividade e agricultura de precisão. Por isso, alguns empresários estão vendo este momento, como a oportunidade asiática e estão investindo para a entrada de novas marcas no país, alcançando uma fatia deste mercado. Mesmo com essa promessa de baixos preços de aquisição, será necessária a oferta de crédito, de preferência oficial, disponibilizada apenas aos produtos nacionalizados, com fábrica e centro de distribuição no país. Portanto, será necessário tornar o produto local, pelas regras do Programa Finame/BNDES. Com isso, será possível obter linhas de crédito. Pelo que vemos, analisando os produtos que chegam ao mercado e que, inclusive, já tivemos oportunidade de testar, no campo, há duas vertentes que parecem ter origem na filosofia industrial dos países de origem das marcas. Parece ser que as marcas chinesas se concentram mais em entrar no mercado com quantidade de unidades vendidas, oferta muito rápida de alternativas de eletrificação, inclusive com hibridização, em média e alta potência de motor,


com preços altamente competitivos. Não se deve duvidar da capacidade da indústria chinesa em ocupar mercados. Alternativamente, a forma de trabalho das marcas indianas reside em oferecer um produto de menor potência, com durabilidade, simplicidade mecânica de uso e manutenção, mirando nos mercados de agricultura familiar, como a fruticultura e a horticultura. Os desafios que o mercado brasileiro enfrenta na nova realidade que há de vir, com a entrada destas novas marcas de tratores, residem, principalmente, na estrutura que será criada. Os tratores modernos, cada vez mais, estão inserindo a eletrônica para acionamento de diversos componentes, principalmente para a injeção de combustível e controle de emissões. É sabido que a eletrônica, quando produzida em massa e reduzindo preços, perde qualidade e durabilidade. Os tratores que chegarem irão utilizar eletrônica como os nacionais utilizam agora? Se não, eles cumprirão as normativas de emissões existen-

tes no país? No campo, a máxima é: trator parado é sinônimo de prejuízo irreparável. Na produção agrícola não se pode prorrogar uma operação, sem o respectivo prejuízo. Uma dúvida frequente reside sobre a durabilidade destes novos produtos. O baixo uso anual dos tratores, em média nacional de 800 horas ao ano, com durabilidade técnica de 10 mil horas, leva a uma vida útil aproximada de mais de 12 anos. Mas, sabe-se que em pequenas propriedades este número dobra, levando usuários destas máquinas a prolongarem o uso por mais de 30 anos. Estará o produto que chega preparado para este panorama? Por fim, o ponto mais preocupante, o pós-venda. Sabemos que várias destas novas marcas, que chegam e estão sendo ofertadas, estão construindo fábricas e nacionalizando seus produtos. Para elas, a oferta de componentes mecânicos, peças de consumo em manutenção e treinamento de mecânicos, espera-se não ser um problema. A chave do sucesso é uma efetiva logística de reposição, treinamento e assistência técnica. Mas o que pode acontecer com

um produto de um fabricante que chega apenas como exportador, trazendo lotes de máquinas e sem um suporte de manutenção? Podemos estar voltando à década de 1950 no país, quando tínhamos inúmeras marcas e era comum abandonar-se os tratores, por falta de componentes de reposição. Inclusive este estado caótico originou o Plano Nacional da Indústria de Tratores, que promoveu o crescimento da industrialização do setor. Neste momento de transição e instabilidade, devemos evitar generalizações e conviver plenamente com esta nova fase. Porém, é inegável a necessidade de separarmos o que é positivo do prejudicial. Várias novas marcas apresentarão todas as condições de suprir as necessidades dos produtores rurais brasileiros e é dessas que queremos ressaltar as qualidades e torcer pelo êxito. De outro lado, rechaçar aqueles que venham só pela oportunidade do momento e não tenham compromisso com a necessidade do produtor, nem da possível desindustrialização que se avizinha. Salvo melhor juízo, em relação à informação disponível, principal-

Foto Lovol

Considerada a marca número um da China, a Lovol conquistou espaço no Brasil com o argumento de utilizar motores com injeção mecânica e confiáveis, somados a cabinas modernas e transmissões continuamente variáveis

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 29


Foto Divulgação

YTO também é uma tradicional fabricante chinesa, que já comercializa tratores no mercado brasileiro

mente em páginas web e redes sociais, um número grande de empresas asiáticas está buscando representantes pelo país. Outras já estão instaladas:

Empresas chinesas já instaladas no Brasil

A chegada das fabricantes asiáticas ao Brasil ocorre em diferentes estágios, desde empresas que ainda avaliam o mercado até aquelas que já estruturaram importação, rede comercial ou projetos de produção local. Entre as chinesas, algumas marxxx cas já avançaram nesse processo e mantêm presença efetiva no país, embora com estratégias e níveis de implantação distintos.

Lovol (Weichai Lovol) Considerada a marca número um da China, conquistou espaço no Brasil com o argumento de utilizar motores com injeção mecânica e confiáveis, somados a cabinas modernas e transmissões continuamente variáveis (CVT). Sua base industrial está localizada em Weifang, Shandong (China). Ela produz entre 50 mil e 80 mil tra-

tores por ano e vende tratores utilitários, tratores estreitos para fruticultura e tratores de médio/grande porte, de alta tecnologia, assim como colhedoras. Já possui vários pontos de venda no Brasil. YTO Tradicional fabricante estatal chinesa chegou ao Brasil através da parceria com a BDG Máquinas, de Ribeirão Preto, SP. Seus tratores focam em motores com injeção mecânica e transmissões sincronizadas ou Powershift de baixo custo de manutenção. Na China, sua principal fábrica está localizada em Luoyang, Henan. Sua produção anual ultrapassa 100 mil unidades, tornando-a uma das maiores produtoras da Ásia. Fabrica tratores compactos e de alta potência (até mais de 300 cv).

Foto Mahindra

Zoomlion Estreou com forte destaque em

feiras, como a Agrishow. Surpreendeu o mercado com o modelo gigante de alta potência DV3504 (350 cv) e a aposta em motores híbridos. Anunciou a implantação de fábrica local no Brasil, em Indaiatuba, São Paulo. Na China, a sua fábrica de máquinas agrícolas está localizada em Wuhu, Anhui. Ela tem um volume de produção anual estimado em mais de 30 mil unidades e atuação mundial.

Duas indianas em momentos diferentes: a Mahindra possui fábrica há mais de dez anos no Brasil, consolidada entre os produtores b a Preet está entrando no mercado brasileiro, com fábrica em construção, também apostando no público que exige tratores robustos

30 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271


Fabricantes asiáticos com potencial para o mercado brasileiro

Empresas indianas já instaladas no Brasil

Entre as fabricantes indianas, a presença no mercado brasileiro também apresenta diferentes graus de estruturação. Enquanto algumas já contam com produção nacional e uma trajetória mais consolidada no país, outras avançam na formação da rede comercial e nos projetos para estabelecer uma base industrial própria no Brasil.

A

lém das marcas que já estabeleceram operações comerciais ou industriais no país, outros fabricantes asiáticos aparecem como potenciais participantes do mercado brasileiro. Nesse grupo estão empresas chinesas e indianas com diferentes perfis, desde grandes conglomerados industriais até marcas especializadas em tratores compactos, todas apoiadas em estruturas produtivas já consolidadas em seus mercados de origem e com linhas que poderiam atender a diferentes segmentos da agricultura brasileira.

Mahindra O maior fabricante de tratores do mundo em volume, já possui fábrica consolidada no Brasil, em Dois Irmãos, RS. Destaca-se por oferecer cinco anos de garantia e dominar o segmento de tratores compactos e estreitos de média e baixa potência.

Foto Charles Echer

Preet Tractors Com o distribuidor exclusivo para o Brasil, Nosso Campo, em Ponta Grossa, no Paraná, já está buscando concessionários e iniciando organização de uma fábrica em Arapoti, também no estado do Paraná, que terá o nome de CNT Preet, Companhia Nacional de Trato-

Swaraj Tractors Fundada em 1974, a empresa desenvolveu o primeiro trator totalmente nacional da Índia. Em 2007, passou a integrar o conglomerado Mahindra & Mahindra Group. Atualmente a marca produz 26 modelos de tratores que variam de 15 cv a 70 cv. Tem fábricas em Mohali e Punjab (Índia). Seu volume de produção ultrapassa 120 mil tratores por ano. Comercializa tratores

agrícolas de pequeno e médio porte (de 15 HP a 65 HP), muito populares na agricultura de pequena escala e em cultivos regulares. Sinomach Um conglomerado estatal com fábricas em várias regiões da China (historicamente associado à marca Dongfanghong). Seu volume de produção é de dezenas de milhares de unidades por ano, com foco em tratores pesados para construção e agricultura em larga escala. Avenger Tractors Uma marca fabricada pela Preet, na Índia (focada em exportação). Seu volume de produção está integrado às linhas de produtos da marca matriz e é especializada exclusivamente em microtratores compactos (20 cv a 30 cv) para jardinagem, estufas e pequenos pomares.

rasileiros. Já e simples

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 31


Fotos Divulgação

A sul-coreana LS Tractor tem fábrica no Brasil e está consolidada, com lojas em todo o território brasileiro, apostando num mercado de tratores com bastante acessórios e tecnologias

res. Sua principal fábrica está localizada em Nabha, Punjab (Índia). Produz entre 10 mil e 15 mil unidades por ano. Comercializa tratores agrícolas de média e alta potência, bem como colhedoras.

Empresas sul-coreanas já instaladas no Brasil

As fabricantes sul-coreanas também já estabeleceram presença no mercado brasileiro, mas adotam estratégias diferentes de atuação. Enquanto uma delas mantém estrutura industrial no país, outra participa do mercado por meio da importação de tratores produzidos na Ásia, atendendo a diferentes faixas de potência.

A chinesa Bada produz tratores agrícolas de esteiras, tratores utilitários econômicos para cultivo de arroz e terrenos alagados

LS Tractor Estabelecida com uma planta em Garuva, Santa Catarina, há mais de uma década, a LS já faz parte do grupo de fabricantes tradicionais no país. Produz tratores de 40 cv a 145 cv, com mão de obra e tecnologia brasileira. Na Coreia do Sul, a principal fábrica fica em Yongam-ri, Wanju-gun. Kioti Também da Coreia do Sul, a Kioti atende ao mercado brasileiro com produtos importados da Ásia. A potência dos motores varia de 22 cv a 140 cv.

Japonesa Kubota já atua no mercado brasileiro há alguns anos por meio de importação 32 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

Empresas japonesas já instaladas no Brasil

Entre as marcas japonesas, a presença no Brasil ocorre principalmente por meio de estruturas de distribuição, importação e pós-venda, com diferentes modelos de atuação. Em alguns casos, essa presença também envolve parcerias comerciais com fabricantes de outros países, ampliando a oferta de tratores em segmentos específicos do mercado. Kubota Marca japonesa que traz tratores e distribui através de Trato-

Hanomag atende o mercado brasileiro por meio do fabricante argentino


res Mercosul Importadora (TMI), que está em Linhares, no Espírito Santo. Há informação de que, tanto a TMI como outras empresas trazem peças e componentes para a marca e atuam no pós-venda para o mercado nacional. Yanmar (Solis/Sonalika) A Sonalika (que comercializa internacionalmente a marca Solis) distribui seus produtos no Brasil em parceria com a Yanmar. É líder global em tratores compactos sub-30 cv, aliando motores econômicos a um design moderno focado na agricultura familiar.

Outras empresas atuando no Brasil

Além das fabricantes asiáticas que vêm ampliando sua presença no país, o mercado brasileiro reúne empresas de diferentes origens e modelos de atuação. Há desde fabricantes nacionais com produção consolidada até marcas estrangeiras que operam por meio de montagem local, importação ou parcerias comerciais, atendendo a nichos que vão dos tratores compactos aos modelos de maior potência.

Empresas chinesas com potencial para o mercado brasileiro

A

lém das marcas chinesas que já mantêm operações estruturadas no Brasil, há um segundo grupo de fabricantes que acompanha o mercado nacional e pode ampliar sua presença nos próximos anos. São empresas com atuação internacional, linhas próprias de tratores e diferentes níveis de aproximação com o país, desde contatos comerciais e busca por representantes até a manutenção de estruturas de apoio e pós-venda. Oxplo Fabricante mundial de máquinas agrícolas. Informa ter mais de 400 pontos de serviço e armazéns de peças estrategicamente localizados espalhados pelo mundo, incluindo no Brasil. Seu portfólio compõe-se de 19 modelos de tratores com potências entre 25 cv e 180 cv, inclusive tratores para frutíferas. China Feichuang Group/Feichuang Empresa chinesa focada em ino-

vação tecnológica e nas necessidades dos clientes, com produtos exportados para mais de 180 países. Atualmente, produz 17 modelos de tratores, principalmente compactos (microtratores). Está localizada nos distritos industriais de Zhejiang e Shandong. LuGong Empresa de recente criação, entrou no mercado internacional com a Lugong International Trade Company. Está bem posicionada no mercado chinês e exporta para países na Ásia, no Oriente Médio, na Europa e recentemente entrou no mercado americano. Busca representantes no Brasil para seus 15 modelos de trator, com potências entre 25 cv e 220 cv. Weiwo Machinery/Woye/ Genius Machinery/Fotrak Estas são marcas de exportação ou divisões OEM de fábricas localizadas em Shandong e Jiangsu. Seu volume depende da demanda do comércio exterior. Elas vendem principalmente tratores compactos econômicos de plataforma (20 HP a 60 HP). As informações são de que já venderam mais de 10 mil tratores no mundo e seu mercado de exportação abrange mais de 30 países. Há anúncios de contatos com o mercado brasileiro.

Modelo da chinesa Oxplo

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 33


Fotos Divulgação

Fotos Charles Echer

A chinesa Sinomach fabrica tratores pesados para ​​ construção e agricultura em larga escala

Modelo da Weiwo Machinery, que possui ma ou divisões OEM de fábricas localizadas em

Agrale Empresa nacional, muito tradicional, atuando há mais de 60 anos no país. Tem unidade de fabricação em Caxias do Sul (RS) e na Argentina, mas está presente em muitos

em Içara, no estado de Santa Catarina. Fabrica desde 1990 quatro linhas de tratores, entre 25 cv e 145 cv.

outros países. Produz tratores agrícolas pequenos, desde 25 cv, e tratores maiores, com até 220 cv. Budny Empresa nacional instalada

Forza Utiliza motores YTO e Yuchai de origem chinesa, com potência máxima no motor de 25 cv a 155 cv. A fábrica, que originalmente produzia máquinas da linha amarela, produz agora tratores agrícolas em Palhoça, Santa Catarina. A linha de tratores é voltada para os segmentos utilitários e pesados para agronegócio e infraestrutura. Hanomag Uma das marcas mundiais mais tradicionais deste segmento, hoje atende ao mercado nacional por meio do fabricante argentino, na cidade de Granadero Baigorria, província de Santa Fé. Produz dois modelos, R35 e R55, para o mercado sul-americano.

Trator da Tecnofrutt, empresa gaúcha importadora e revendedora exclusiva de marcas especializadas, como BCS e Orizzonti

34 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

Landini A marca é muito tradicional na Europa e em particular na Itália, pertencendo ao Grupo Argo. No Brasil, ela fabrica e monta tratores de potência entre 49 cv e 240 cv, em Contagem, estado de Minas Gerais.


Fabricantes de Equipamentos Originais (OEMs) e marcas chinesas de exportação

E

rcas de exportação Shandong e Jiangsu

Tracforce Sua fábrica de montagem está localizada em Batatais, São Paulo. O volume de produção é regional (centenas de unidades anualmente). Importa e monta tratores pequenos e compactos especializados para terrenos, horticultura e agricultura familiar. Tecnofrutt Localizada em Farroupilha, Rio Grande do Sul. Não fabrica tratores em larga escala, mas é importadora e revendedora exclusiva de marcas especializadas (como BCS e Orizzonti), comercializando tratores compactos, articulados e de baixo centro de gravidade para vinhedos.

m um estágio diferente estão fabricantes chineses cuja atuação é fortemente direcionada à produção para terceiros e aos mercados de exportação. Muitas dessas empresas têm origem em outros segmentos de máquinas e passaram a incorporar tratores ao portfólio, geralmente com modelos compactos e utilitários. Embora ainda tenham presença limitada ou inexistente no Brasil, representam um contingente de fabricantes com estrutura industrial e experiência no comércio internacional que pode, futuramente, buscar espaço no mercado nacional.

Shandong Baolu Intelligent Equipment Co Localizada em Linyi ou Jinan, Shandong, China. Concentra-se em tratores agrícolas modernos de médio porte com cabinas avançadas e microescavadoras.

LuGong Fábrica em Yantai, Shandong (China). Sua força histórica reside em pequenas pás carregadoras, mas também comercializa tratores compactos articulados e multifuncionais.

BADA Máquinas Agrícolas Fábrica em Yancheng, Jiangsu, China. Produz tratores agrícolas de esteiras, tratores utilitários econômicos para cultivo de arroz e terrenos alagados.

Everun Machinery Fábrica em Qingdao, Shandong, China. Amplamente conhecida por suas pás carregadoras frontais, mas também comercializa pequenos tratores de jardim e tratores utilitários (de 25 cv a 50 cv) para mercados internacionais.

Tramontini Empresa brasileira, com fábrica em Venâncio Aires, Rio Grande do Sul, traz para o mercado os tratores da marca Antonio Carraro, especializados para o uso em região .M de montanha. José Fernando Schlosser, Natália do Nascimento Garcez, João Pedro Sala Gallina, Luísa Modesto Schoellkopf, Laboratório de Agrotecnologia - UFSM Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 35


IRRIGAÇÃO

Exatidão e eficiência Irrigação de precisão em pivô central possibilita a produção com alto rendimento em condições não possíveis antes

A

disponibilidade de água é um dos principais fatores que determinam o crescimento, o desenvolvimento e a produtividade das culturas agrícolas. Em condições de déficit hídrico, as plantas reduzem processos fisiológicos importantes, como a abertura estomática, a fotossíntese e o acúmulo de biomassa, o que compromete o desempenho produtivo, quando o problema não é identificado e corrigido em tempo adequado. Por ou-

tro lado, há escassez de água para atender toda a demanda. Nesse contexto, o monitoramento preciso da necessidade de água pelas plantas torna-se uma ferramenta essencial para orientar o manejo da irrigação e reduzir perdas no campo. O método tradicional de análise sensorial da umidade do solo onde é feita a coleta manual de amostras e a determinação empírica da friabilidade para verificar o estado de umidade e informar o sistema, a fim de definir a lâmina a ser aplica-

36 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

da, demanda energia, tempo e dinheiro, sem, contudo, apresentar boa precisão, muito menos considera as diferenças entre as áreas. A irrigação de precisão trata áreas diferentes de modo diferente. É uma tecnologia de monitoramento contínuo das plantas, do solo e do clima, integrando dados coletados no campo, em estações meteorológicas, sensores de solo, drones e satélites, associada a centrais de processamento com softwares de gestão e localização mui-

Foto Valley


Fotos Raí Saavedra Lemos

tas vezes conectados remotamente por diferentes tipos de sinais. O objetivo central é a aplicação de lâminas de água na quantidade necessária, não superando a capacidade de retenção do solo, na hora certa e em doses suficientes, conforme o local e as necessidades das plantas, sem que haja desperdícios tanto de água por percolação, carreando nutrientes, quanto de produtividade da lavoura, por sofrer déficit hídrico. Para exemplificar, cabe a frase bastante conhecida sobre o tema “aplicar a quantidade certa, no lugar certo e na hora certa”.

Pivô central

Um dos tipos de irrigação comuns no Brasil é o pivô central, que pode ser equipado com sistemas de comunicação tipo GSM (2G) ou OFDM (3G, 4G e 5G) ou rádio para transmissão de dados, programação, acompanhamento e acionamento da irrigação de forma remota, a partir de centrais de controle. Para a sua operação são importantes as informações técnicas e de dimensionamento do pivô em uso, em que, por vezes, o cálculo é ajustado de acordo com a disponibilidade de água da propriedade.

Transmissão dos sinais

A telemetria é uma tecnologia que possibilita o acionamento e o controle das operações de irrigação a distância, sendo possível comandar, acompanhar e verificar o seu funcionamento de outro lugar, usando dispositivos como computadores, notebooks, celulares e outros. Além disso, em pivôs localizados em áreas que não recebam sinal da antena central, é possível enviá-lo para antenas de outros pivôs que transmitem para aqueles, fun-

São relativamente frequentes situações como desalinhamento das torres, atolamento em solos excessivamente úmidos, quebra de caixas de transmissão, falhas em pneus e rodas, rompimento de juntas da tubulação, entre outras

cionando como receptores e repetidores, levando o sinal para toda a fazenda.

Influências do ambiente

As estações meteorológicas monitoram dados de chuva, velocidade do vento, umidade relativa, radiação solar, temperatura do ar e outros fatores do ambiente. Dados esses importantes para definir a lâmina a ser aplicada em cada local nos processos de cálculo. Já os sensores dos pivôs informam a velocidade de rotação da tubulação principal onde estão localizados os aspersores. Pela alteração da sua velocidade angular é possível aplicar diferentes lâminas de água.

Verificação do solo

São utilizadas sondas que detectam a umidade do solo, temperatura e condutividade elétrica em diferentes profundidades. Representam fatores importantes para estimar a necessidade de irrigação em cada área e, quando trabalham em conjunto, podem reduzir a necessidade de percorrer as áreas com frequência, a fim de verificar o estado de

umidade do solo de forma visual e manual. Neste sentido, quanto mais sensores forem instalados no campo, maior a precisão da predição da irrigação. Sistemas mais modernos utilizam sondas capazes de informar o nível de umidade do solo e, a partir desses dados, os programas indicam a quantidade de água a ser aplicada para suprir a necessidade das culturas, sem que haja perdas.

Volume de água

Além disso, os pivôs centrais podem ser equipados com tecnologia VRI (“Variable Rate Irrigation”), com aspersores controlados individualmente que ajustam o volume de água de acordo com o tipo de solo e a demanda da planta sob aquela área específica. Outra forma de controle é pelo tempo de aplicação numa determinada área. A irrigação em taxa variável torna-se ainda mais eficiente quando considera a variabilidade espacial dos solos dentro de um mesmo pivô. Em muitas propriedades, é comum existirem áreas com diferentes classes de solo, variando desde regiões mais argilosas até locais

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 37


Fotos Valley

Com base nos dados coletados e armazenados, os programas processam e indicam a lâmina a ser aplicada. Para tanto, os dados brutos são analisados e convertidos em informações, gerando previsões, relatórios e mapas que embasam a irrigação, conforme a necessidade de água em cada ponto da fazenda. A irrigação de precisão possibilita a produção com alto rendimento em condições antes não possíveis

com maior presença de cascalho, fragmentos de rocha ou mais arenosos. Essas diferenças modificam significativamente a infiltração, a capacidade de armazenamento de água e a disponibilidade hídrica para as plantas.

Satélites e drones

As imagens de satélite e drones fornecem mapas térmicos e índices de vigor vegetativo da lavoura, o que contribui para a análise mais detalhada da situação hídrica da área. Os drones podem portar câmeras especiais (multiespectrais, hiperespectrais e térmicas) e sobrevoar a área para identificar quais locais estão próximos a atingir o estresse hídrico, fornecendo dados para o cálculo de índices de vegetação, a exemplo do NDVI e o NDMI.

zar aplicações variadas, conforme a demanda do local. A fim de gerenciar tudo isso, são necessários softwares de gerenciamento, os quais, associados à inteligência artificial, analisam rapidamente o grande volume de dados gerados a partir de algoritmos e tomam decisões com mais rapidez e precisão que um operador humano. A integração dos sistemas digitais permite o acompanhamento em tempo real das condições operacionais, além de promover maior eficiência e padronização das atividades agrícolas.

Tratamentos específicos

O Sistema de Informação Geográfico (SIG) fornece as coordenadas de cada local da área, normalmente em forma de grid ou teia de pontos, uma técnica que divide a lavoura em uma grade georreferenciada, possibilitando identificar/regionalizar de onde vieram as amostras, interpretar os dados, definir as taxas a serem aplicadas por região e reali-

Com base nos dados coletados e armazenados, os programas processam e indicam a lâmina a ser aplicada

38 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

Logística de informação

A fim de levar as informações até o ponto de aplicação, são utilizadas torres de comunicação multiportadoras, ou seja, que transmitem sinais de diversas operadoras de telefonia e podem abrigar outras antenas. Outro fator importante é a necessidade de internet de qualidade. Atualmente, sinais via satélite têm se mostrado mais estáveis e alcançam lugares remotos. Estes sistemas, em conjunto, fazem com que haja comunicação entre os equipamentos por toda a fazenda. Fato essencial para a aplicação da irrigação de precisão.

Cuidados com a estrutura

Embora a irrigação de precisão apresente elevado nível de automação, a confiabilidade do sistema depende diretamente da qualidade da infraestrutura de comunicação e da manutenção dos equipamentos. Entre os principais problemas operacionais observados em campo, destacam-se falhas de comunicação entre pivôs e a central de controle, ausência ou baixa intensidade do sinal de internet ou rádio, interrupções na transmissão de dados, falhas em antenas repetidoras, defeitos em controladores eletrônicos, sensores descalibrados ou danificados e oscilações no fornecimento de energia elétrica. Além das falhas eletrônicas e de


comunicação, problemas mecânicos representam importante causa de interrupção da irrigação. São relativamente frequentes situações como desalinhamento das torres, atolamento em solos excessivamente úmidos, ruptura de redutores, desgaste de motores elétricos, quebra de caixas de transmissão, falhas em pneus e rodas, rompimento de juntas da tubulação e acionamento dos sistemas de segurança quando ocorre desnível excessivo entre torres. Esses problemas podem provocar elevados custos de reparo, além de causar déficit hídrico localizado durante o período em que o equipamento permanece inoperante. Por essa razão, programas de manutenção preventiva, inspeções periódicas dos componentes mecânicos e monitoramento remoto em tempo real constituem práticas fundamentais para garantir elevada disponibilidade operacional dos sistemas de irrigação de precisão.

Retorno vem do investimento

Em campo, as principais falhas ou áreas com baixa produtividade podem revelar erros mecânicos na aplicação, competição por água por plantas invasoras, presença de pragas agrícolas ou até mesmo de-

ficiências nutricionais que resultem em baixa absorção de água. Telecomunicações e redes sem fio são a base para redes móveis e internet rápida. Em vez de enviar os dados por um único canal, a tecnologia divide as informações em centenas ou milhares de pequenas frequências. Como exemplo de uso temos o formato OFDM (“Orthogonal Frequency-Division Multiplexing”) presente no Wi-Fi, 4G e 5G. Dessa maneira, a irrigação de precisão possibilita a produção com alto rendimento em condições antes não possíveis. A coleta de dados relevantes, atuais e representativos do estado das plantas permite que os índices cientificamente validados sejam aplicados e convertidos em mapas que refletem a verdadeira necessidade do cultivo, permitindo que a irrigação seja feita sob medida, principalmente suprindo pontos em que sejam identificadas falhas. Já existe tecnologia para fazer o controle da irrigação em pivôs por aspersor. Contudo, os custos dessa técnica ainda são proibitivos. Por isso, o mais comum é fazer a aplicação em taxa variável apenas por setores, fechando seções da tubulação principal. Evidentemente que tudo isso tem custos, iniciando pelo de instalação, com a aquisição de senso-

res, controladores, atuadores, estações meteorológicas, equipamentos de informática, antenas e sinais digitais, passando pela necessidade de suporte técnico com acompanhamento e monitoramento diário do sistema e de manutenção, a fim de corrigir eventuais problemas operacionais para garantir o seu funcionamento.

Ferramenta estratégica

Compreender a importância da irrigação de precisão e usá-la como ferramenta estratégica para o manejo da água é o caminho para uma agricultura eficiente e moderna. Contudo, ela deve estar atenta a diferentes etapas do sistema produtivo, integrando dados, tecnologia e tomada de decisão. Assim, ela contribui para termos sistemas produtivos mais eficientes e sustentáveis. O uso dessas tecnologias tende a se expandir, sendo cada vez mais essencial para a competitividade no agrone.M gócio. Francisco Faggion, Brenda Jhully Alves Moreira, Juliano Vilardi Gavoci Tenente Perondi, Maria Eduarda Ribeiro Fonseca, Raí Saavedra Lemos, Victória Linhares, Lamagri/FAL/UnB

A integração de sistemas digitais permite o acompanhamento em tempo real das condições operacionais, além de promover maior eficiência e padronização das atividades agrícolas

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 39


Foto Jacto

MECANIZAÇÃO

Nem a mais nem a menos Força de desprendimento dos frutos influencia na colheita mecanizada do café; conhecer sua dinâmica pode auxiliar produtores e técnicos na tomada de decisão, contribuindo para maior eficiência ao colher e redução de perdas

A

colheita mecanizada do café é uma etapa decisiva para a eficiência operacional, a qualidade dos frutos colhidos e a viabilidade econômica da produção. Em sistemas voltados à colheita seletiva, essa operação depende da interação entre o estádio de maturação dos frutos, as condições ambientais da lavoura e a regulagem da colhedora. Nesse contexto, a força de desprendimento dos frutos (FD) destaca-se como uma variável técnica importante, pois indica a força necessária para separar o fru-

to do ramo e auxilia na definição do momento e da intensidade de derriça. A FD está diretamente associada à resistência mecânica da ligação entre fruto e planta e varia conforme o avanço da maturação. De modo geral, frutos verdes apresentam maior resistência ao desprendimento, enquanto frutos maduros, especialmente no estádio cereja, exigem menor força para serem removidos. Essa diferença é fundamental para a seletividade da colheita, uma vez que permite ajustar os mecanis-

40 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

mos vibratórios de derriça da colhedora para remover preferencialmente os frutos maduros e reduzir a derriça indesejada de frutos imaturos. Além da maturação, o regime hídrico da lavoura pode modificar o comportamento fisiológico das plantas e as propriedades mecânicas do sistema fruto-pedúnculo. Em áreas irrigadas, a maior disponibilidade de água pode favorecer o desprendimento dos frutos, enquanto lavouras de sequeiro tendem a apresentar maior resistência à remoção. Essa característica, atrelada ao ambiente produtivo, interfere diretamente na FD e, por consequência, nas definições de regulagem da colhedora. Além das condições da lavoura quanto ao fornecimento de água para a cultura, diferenças de radiação entre as faces da planta podem alterar o microclima do dossel, influenciando temperatura, umidade, ritmo de maturação e na resistência dos frutos ao desprendimento. Desse modo, em um trabalho desenvolvido pela equipe do Laboratório de Máquinas e Mecanização Agrícola da Universidade Estadual Paulista


Fotos Luis Alberto Rocha Rodrigues Junior

(Lamma/Unesp), constatou-se a existência de variações da FD em função do período do dia, do estádio de maturação e da face de exposição solar, indicando que esses fatores devem ser considerados no planejamento da colheita seletiva. Desta forma, entender o comportamento da FD na lavoura torna-se importante sob o ponto de vista da colheita mecanizada seletiva, pois pode fornecer subsídios importantes no que diz respeito a ajustes operacionais, definição de zonas de manejo e desenvolvimento de sistemas de colheita inteligente. A seguir, veremos características específicas em relação aos cultivos realizados em áreas irrigadas e aos que ocorrem em sistemas de sequeiro.

Café cultivado em áreas irrigadas

Em áreas irrigadas, os frutos tendem a apresentar menor resistência ao desprendimento, evidenciando que o estado hídrico da planta altera as propriedades mecânicas dos tecidos que conectam o fruto ao pedúnculo. Em outro trabalho desenvolvido pela equipe do Lamma/Unesp,

Dinamômetro para mensurar a força de desprendimento necessária para destacar o fruto do café

a maior disponibilidade hídrica em áreas irrigadas pôde favorecer o desprendimento dos frutos de café, principalmente no estádio cereja. No estudo, lavouras irrigadas por gotejamento, mantidas próximas a 80% da capacidade de campo, apresentaram menor força média de desprendimento em comparação às áreas de sequeiro. Esse efeito foi expressivo nos frutos cereja, cuja força de desprendimento foi aproximadamente 49% menor no sistema irrigado, evidenciando que a irrigação tende a reduzir a resistência mecânica do sistema fruto-pedúnculo, facilitando a remoção dos frutos maduros durante a colheita mecanizada. Entretanto, esse benefício deve ser analisado com cautela. Embora a irrigação possa favorecer o despren-

dimento dos frutos maduros, ela também tende a reduzir a força de desprendimento de forma mais ampla, incluindo frutos em outros estádios de maturação. Com isso, a diferença entre a FD dos frutos cereja e verdes pode se tornar menor, estreitando a chamada “janela operacional” da colheita seletiva. Em outras palavras, quando os valores de FD entre frutos maduros e verdes ficam mais próximos, a regulagem da colhedora passa a exigir maior precisão: uma vibração ligeiramente acima do necessário para remover os frutos cereja pode também desprender parte dos frutos verdes; por outro lado, uma vibração muito baixa pode preservar os verdes, mas deixar frutos maduros remanescentes na planta. Assim, em áreas irrigadas, a menor resistência ao desprendimento pode favorecer a eficiência da colheita, desde que a vibração das varetas e a velocidade de deslocamento sejam ajustadas com maior critério, considerando a maturação predominante e a seletividade desejada.

Café cultivado em sequeiro

Em sistemas de sequeiro, a me-

Estudos mostram que a diferença entre a força de desprendimento dos frutos verdes e cereja foi cerca de 40% maior no período vespertino em comparação ao período da manhã

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 41


dar maior força para se desprender, a colheita mecanizada tende a exigir maior intensidade de vibração das varetas ou ajustes na velocidade de deslocamento para atingir níveis satisfatórios de eficiência. Vibrações insuficientes podem resultar em elevada quantidade de frutos maduros remanescentes na planta, enquanto vibrações excessivas aumentam o risco de danos aos ramos e de derriça indesejada de frutos verdes. Dessa forma, considerar apenas o estádio de maturação dos frutos pode ser um fator limitante para definir regulagens que conferem maior eficiência na colheita seletiva. Como observado, as condições hídricas da lavoura também podem ser um fator determinante para a variação da força de desprendimento, o que pode influenciar diretamente na eficiência da colheita seletiva.

Influência do horário e da exposição solar

Estudos conduzidos em lavouras comerciais de Coffea arabica pela equipe do Lamma/Unesp demonstraram que os frutos cereja apresentam menores valores de FD durante o período da tarde. Em determinadas situações, a diferença en-

tre a força de desprendimento dos frutos verdes e cereja foi cerca de 40% maior no período vespertino, em comparação ao período da manhã, criando uma condição mais favorável para a colheita seletiva. Esse comportamento está associado, principalmente, à influência da temperatura e da radiação solar sobre o metabolismo vegetal. Durante as horas mais quentes do dia, ocorrem alterações fisiológicas relacionadas à produção de etileno e à redução da resistência mecânica dos tecidos responsáveis pela retenção dos frutos, facilitando seu desprendimento. Os frutos verdes, por outro lado, apresentam menor sensibilidade às variações diárias de temperatura e radiação, mantendo níveis de FD relativamente estáveis ao longo do dia. Essa diferença de comportamento entre frutos verdes e cereja amplia a oportunidade para uma colheita mais seletiva durante o período da tarde. Por outro lado, a exposição solar também exerce papel importante. Em lavouras implantadas em linhas orientadas no sentido Leste-Oeste, é comum que um dos lados da planta receba maior quantidade de radiação solar ao longo do ciclo produtivo. Nesses casos, os frutos localizados na face mais iluminada tendem a apre-

Fotos Luis Alberto Rocha Rodrigues Junior

nor disponibilidade hídrica tende a aumentar a resistência dos frutos ao desprendimento. Os resultados obtidos pelo Lamma/Unesp indicaram que a força média de desprendimento dos frutos em condição de sequeiro foi de 4,54 N, enquanto em área irrigada foi de 2,35 N, ou seja, o sistema de sequeiro apresentou valores aproximadamente 48,2% superiores, indicando que a disponibilidade de água interfere nas propriedades mecânicas do sistema fruto-pedúnculo, tornando os frutos de lavouras sob sequeiro mais resistentes à remoção. Esse comportamento também foi observado no estádio cereja, que é o principal alvo da colheita seletiva. No estudo, os frutos cereja cultivados em sequeiro apresentaram força média de desprendimento de 5,47 N, enquanto os frutos cereja de área irrigada apresentaram 2,79 N. Portanto, mesmo com o avanço da maturação, quando ocorre naturalmente a degradação das estruturas celulares da região de abscisão e a consequente redução da FD, os frutos cultivados sob restrição hídrica frequentemente mantêm maior resistência mecânica, quando comparados aos de áreas irrigadas. Do ponto de vista operacional, essa condição exige maior atenção na regulagem da colhedora. Como os frutos maduros em sequeiro podem deman-

Detalhe de lavoura de café irrigado

42 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

Sensor proximal CropCicle (Holland Scientfic) utilizado para mensurar a reflectância


Foto Jacto

sentar menor força de desprendimento, em comparação aos frutos da face mais sombreada, como demonstrado nos estudos do Lamma/Unesp. Essa diferença pode estar relacionada tanto às alterações microclimáticas quanto à distribuição da carga produtiva na planta. Faces mais expostas à radiação frequentemente apresentam maior produção de frutos, condição que pode favorecer a redução da resistência individual de retenção dos frutos. Além disso, análises de variabilidade da FD ao longo do dia mostram que no período da tarde apresenta comportamento mais estável e menor sobreposição entre os intervalos de força de desprendimento de frutos verdes e cereja. Em termos práticos, isso significa maior previsibilidade para ajustes nos tempos de exposição e vibração das hastes, além de menores riscos de erros durante a operação, como descrito anteriormente.

Regulagem da força de desprendimento

As informações relacionadas à FD podem ser traduzidas diretamente para a tomada de decisão no campo. Quando a diferença entre a FD dos frutos cereja e verdes é elevada, a colhedora pode operar com menor intensidade de vibração, removendo preferencialmente os frutos maduros e preservando os verdes. Essa condição reduz perdas de qualidade, minimiza danos às plantas e diminui o desgaste dos componentes da máquina. Estratégias podem contribuir para aumentar a eficiência da colheita seletiva, entre elas: priorizar a colheita seletiva no período da tarde, quando os frutos cereja apresentam menor força de desprendimento e maior diferença em relação aos frutos verdes; considerar as condições hídricas da lavoura ao definir a intensidade de vibração das varetas; avaliar a exposição solar pre-

Quando a diferença entre a força de desprendimento dos frutos cereja e verdes é elevada, a colhedora pode operar com menor intensidade de vibração, removendo preferencialmente os frutos maduros e preservando os verdes

dominante das linhas de cultivo, especialmente em áreas irrigadas por pivô central; ajustar simultaneamente vibração e velocidade de deslocamento para adequar a energia transmitida à planta às condições de desprendimento dos frutos; e utilizar informações de maturação e força de desprendimento como ferramentas auxiliares para o planejamento operacional da colheita.

Perspectivas para a colheita inteligente

O avanço das tecnologias de Agricultura Digital abre novas possibilidades para a utilização da força de desprendimento como parâmetro operacional em tempo real. O implemento de sensores embarcados capazes de monitorar continuamente características relacionadas ao desprendimento dos frutos durante a operação de colheita poderá permitir ajustes automáticos da vibração e da velocidade da colhedora em função das condições específicas de cada talhão. Nesse cenário, a força de desprendimento deixa de ser apenas uma variável de pesquisa e passa a assumir papel estratégico na construção de sistemas de colheita mais

eficientes, seletivos e sustentáveis, contribuindo para a obtenção de cafés de maior qualidade e para a redução dos custos operacionais da cafeicultura moderna.

Considerações finais

A força de desprendimento dos frutos constitui uma variável estratégica para o sucesso da colheita mecanizada do café, pois influencia diretamente a eficiência operacional e a seletividade da derriça. Fatores como disponibilidade hídrica, horário de colheita, exposição solar e estádio de maturação alteram significativamente a resistência dos frutos ao desprendimento, exigindo ajustes específicos na regulagem da colhedora. Dessa forma, o conhecimento da dinâmica da FD pode auxiliar produtores e técnicos na tomada de decisão, contribuindo para maior eficiência da .M colheita e redução de perdas. Luis Alberto Rocha Rodrigues Junior, Breno dos Santos Silva, Rafael Henrique de Souza Silva, Rouverson Pereira da Silva, Unesp

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 43


MANUTENÇÃO

Atenções diárias Limpeza, lubrificação, regulagem e manutenção preventiva ajudam a reduzir o desgaste dos implementos e evitam paradas durante as operações no campo

M

anter os implementos agrícolas em bom estado é muito mais do que uma questão de aparência ou organização; é uma estratégia essencial para reduzir custos, aumentar a produtividade e garantir segurança no campo. Tratores, plantadoras, colhedoras, pulverizadores e demais equipamentos representam investimentos significativos, e cada máquina bem cuidada significa mais eficiência, menor risco de paradas inesperadas e maior retorno financeiro para a propriedade.

A vida útil de um implemento depende tanto da qualidade da máquina quanto da forma como ela é utilizada, armazenada e mantida. Equipamentos mal cuidados desgastam mais rapidamente, apresentam falhas frequentes e podem até comprometer a qualidade do trabalho agrícola. Por outro lado, pequenos cuidados diários podem prolongar a vida útil do equipamento e otimizar o retorno sobre o investimento, garantindo que cada máquina esteja pronta para operar na hora certa.

Limpar regularmente

A limpeza regular é um dos pontos mais importantes para prolongar a vida útil dos implementos. Resíduos de terra, sementes, restos de adubo ou defensivos podem acelerar o desgaste de peças móveis e sistemas hidráulicos, além de favorecer a corrosão. Após cada uso, é recomendável lavar as partes externas do implemento, tomando cuidado para não forçar água em pontos elétricos ou rolamentos. Equipamentos de pulverização e colhedoras exigem aten-

44 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271 Fotos Charles Echer


ção especial, pois resíduos de produtos químicos ou restos de grãos podem entupir bicos, filtros ou engrenagens, comprometendo o funcionamento. A limpeza também é uma oportunidade para inspecionar o equipamento, identificar sinais de desgaste, rachaduras, folgas ou vazamentos antes que se tornem problemas maiores.

Cuidar da lubrificação

A lubrificação é outro cuidado essencial. Graxas, óleos e lubrificantes específicos ajudam a reduzir o atrito entre peças móveis, evitando desgaste prematuro e prolongando a vida de engrenagens, juntas e rolamentos. É importante seguir as orientações do fabricante, utilizando os produtos corretos e respeitando os intervalos recomendados. Equipamentos que trabalham com mais esforço, como arados e colhedoras, demandam atenção redobrada, pois o atrito intenso pode causar falhas mecânicas. Lubrificar rolamentos, articulações e peças móveis regularmente garante que o implemento funcione de forma suave, evita esforço excessivo do motor, diminui o consumo de combustível e reduz a possibilidade de danos inesperados.

Armazenar adequadamente

O local de armazenamento influencia diretamente a durabilidade dos implementos. Deixar máquinas expostas ao sol, à chuva ou a mudanças bruscas de temperatura acelera o desgaste de tintas, borrachas e partes metálicas, podendo comprometer sistemas hidráulicos e elétricos. Sempre que possível, os implementos devem ser guardados em galpões ou coberturas, protegendo-os

A limpeza regular é um dos pontos mais importantes para prolongar a vida útil dos implementos. Resíduos de terra, sementes, restos de adubo ou defensivos podem acelerar o desgaste de peças móveis e sistemas hidráulicos

da exposição direta. Além de prevenir ferrugem e corrosão, o armazenamento adequado evita deformações em pneus, lâminas e engrenagens. Quando não há espaço coberto disponível, o uso de capas protetoras, óleos anticorrosivos e ventilação adequada ajuda a prolongar a vida útil dos equipamentos. Levantar o implemento do solo com apoios, despressurizar sistemas hidráulicos e evitar contato prolongado com umidade são pequenas ações que fazem grande diferença.

Operação consciente

A operação consciente do implemento também é fundamental. Evitar sobrecarga, respeitar a capacidade máxima de operação e conduzir o equipamento com atenção reduzem o risco de falhas e acidentes. Operar em velocidades adequadas, principalmente em terrenos acidentados ou com vegetação densa, diminui o impacto sobre engrenagens, pneus e sistemas hidráulicos. Transportar máquinas com cuidado, evitar manobras bruscas e não for-

çar implementos em solos muito compactados ou irregulares ajudam a reduzir o desgaste prematuro.

Calibração correta

Outro ponto essencial é a calibração correta. Plantadoras, pulverizadores e adubadoras precisam estar ajustados conforme o tipo de solo e cultura. Equipamentos calibrados não só aumentam a eficiência do trabalho, mas também evitam esforços desnecessários nos componentes mecânicos, melhorando a precisão da aplicação de insumos e reduzindo desperdícios de sementes, fertilizantes ou defensivos.

Manutenção preventiva

A manutenção preventiva é o grande aliado do produtor. Trocar filtros, verificar correias, inspecionar mangueiras, revisar sistemas hidráulicos e elétricos antes que apresentem falhas são medidas que evitam paradas inespera-

Cultivar Máquinas 271 • revistacultivar.com.br • 45


Fotos Charles Echer

das e gastos maiores com consertos emergenciais. Manter um registro detalhado das manutenções ajuda a identificar padrões de desgaste, planejar substituições e prevenir emergências. Pequenos reparos feitos no momento certo podem economizar muito mais do que consertos corretivos, além de valorizar os equipamentos, caso seja necessário vendê-los ou trocá-los futuramente.

Capacitação dos operadores

Capacitar a equipe que opera os implementos também é essencial, garantindo que todos conheçam os cuidados básicos, saibam identificar sinais de desgaste ou funcionamento anormal e operem os equipamentos de forma correta.

Gestão da frota

A gestão da frota é outro fator que impacta diretamente a durabilidade dos implementos. Planejar o uso das máquinas, evitando que algumas fiquem sobrecarregadas enquanto outras permanecem subu-

A limpeza também é uma oportunidade para inspecionar o equipamento

tilizadas, contribui para equilibrar o desgaste e prolongar a vida útil de todos os equipamentos. Avaliar o ciclo de trabalho, as condições do terreno, a distância percorrida e o tipo de cultura ajuda a distribuir a carga de forma inteligente, evitando que máquinas maiores sofram esforços desnecessários ou que implementos menores sejam submetidos a tarefas para as quais não foram projetados. Além disso, é importante pensar na economia de recursos e na sustentabilidade. Implementos bem mantidos consomem menos combustível, têm menos desperdício de insumos e oferecem maior produtividade. Por exemplo, uma seme-

A operação consciente do implemento também é fundamental. Evitar sobrecarga, respeitar a capacidade máxima de operação e conduzir o equipamento com atenção reduzem o risco de falhas e acidentes

46 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 271

adora calibrada garante distribuição uniforme de sementes, evitando áreas com superposição ou falhas, enquanto um pulverizador regulado corretamente evita desperdício de defensivos e protege o solo e o ambiente. Pequenos ajustes e cuidados diários não só prolongam a vida dos implementos, mas também contribuem para reduzir custos, aumentar a rentabilidade e tornar a produção mais sustentável.

Para fazer a diferença

Prolongar a vida útil dos implementos agrícolas não exige soluções complexas, mas sim atenção diária, organização, operação consciente e planejamento estratégico. Limpeza, lubrificação, armazenamento adequado, uso correto, manutenção preventiva, gestão da frota e calibragem precisa são práticas que fazem a diferença na produtividade, segurança e rentabilidade da propriedade. Ao adotar essas estratégias, o produtor protege seu investimento, garante que cada máquina esteja pronta para trabalhar no momento certo, evita interrupções que possam comprometer a safra e melhora a eficiência de toda a operação agrícola. Cuidar bem dos implementos é cuidar da própria propriedade, reduzir custos, aumentar a produtividade e garantir que cada safra seja realizada com qualidade, economia e tranquilidade. Pequenas ações diárias resultam em grandes benefícios ao longo do tempo, e um equipamento bem mantido é sinônimo de segurança, durabilidade e suces.M so no campo. Ricardo Aparecido Santos, Andréa dos Guimarães de Carvalho, UFG


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Cultivar Máquinas 271 by Grupo Cultivar - Issuu