Cultivar Grandes Culturas • Ano XXVII • Nº 325 • ISSN - 1516-358X setembro 2026
Expediente Grupo Cultivar de Publicações Ltda. CNPJ: 02783227/0001-86 Insc. Est. 093/0309480 Rua Sete de Setembro, 160 Pelotas – RS • 96015-300 revistacultivar.com.br contato@grupocultivar.com Assinatura anual (11 edições*): R$ 494,00 (*10 edições mensais + 1 edição conjunta em Dez/Jan) Números atrasados: R$ 55,00
FUNDADORES Milton de Sousa Guerra (in memoriam) Newton Peter Schubert Peter
• Diretor Newton Peter REDAÇÃO • Editor Schubert Peter • Redação Rocheli Wachholz Nathianni Gomes • Redator Rogério Nascente • Design Gráfico e Diagramação Cristiano Ceia • Revisão Aline Partzsch de Almeida
Editorial A matéria de capa desta edição começa com um alerta que pede atenção, não alarme. Pesquisadores confirmaram o primeiro registro mundial de Delia sanctijacobi atacando soja. Os focos apareceram em lavouras de Passo Fundo, Carazinho, Saldanha Marinho e Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, na safra 2025/2026. Nas áreas monitoradas, o ataque reduziu o estande em 30%. A mosca-da-raiz age onde o olhar demora a chegar. As larvas vivem associadas ao solo e atacam cotilédones, caule e hipocótilo. Formam galerias internas. Depois vêm o tombamento e a morte de plântulas. A identificação exige cuidado. As larvas lembram outras espécies de Delia. Por isso, o diagnóstico pode exigir análise de adultos e confirmação molecular. No sorgo, o pulgão-do-sorgo mostra como a escolha dos hospedeiros muda o risco. Milho e milheto não sustentaram o desenvolvimento e a reprodução da praga nos estudos apresentados. O capim-massambará percorreu o caminho oposto. Funcionou como hospedeiro favorável e pode manter a população entre ciclos de cultivo. A eliminação dessa ponte-verde entra no centro do manejo. Na soja e no milho do Cerrado, mais de 241 mil besouros nitidulídeos chamaram a atenção. A abundância, porém, não significa dano. Nas áreas avaliadas, o grupo pode participar de processos como decomposição de matéria orgânica e ciclagem de nutrientes. A constatação reforça o cuidado básico: presença de inseto não equivale a prejuízo. No milho, a associação com Beauveria bassiana alterou a emissão de compostos voláteis e aumentou a atração do parasitoide Telenomus podisi. O efeito apareceu com baixa colonização do tecido pelo fungo. O trabalho amplia a visão sobre o controle biológico ao mostrar efeitos que vão além da ação direta sobre a praga. A edição chama atenção ainda para a podridão salmão da espiga, causada por Waitea zeae. O diagnóstico pode confundir-se com outras podridões. A recomendação central passa pela confirmação antes do manejo. Resultados de laboratório não bastam para recomendar fungicidas no campo. Tudo isso e muito mais nas próximas páginas. Boa leitura!
COMERCIAL • Coordenação Charles Ricardo Echer • Vendas Sedeli Feijó Ariadne Fuentes Marília von Pfeil CIRCULAÇÃO • Coordenação Simone Mendes • Assinaturas Natália Rodrigues
Índice 04 Mundo Agro 08 Publieditorial - Bayer
Nossa capa
12 Milho e milheto neutralizam o avanço do pulgão-do-sorgo 15 Acúmulo de nutrientes no café 18 Capa - Mosca-da-raiz atacando soja no Brasil 22 Nitidulídeos em soja e milho 26 Manejo de nematoides em soja
Nossos Telefones: (53)
30 Fungo altera os voláteis do milho e atrai Telenomus podisi
• Assinaturas 3028.2000
34 Podridão salmão da espiga em milho
• Comercial e Redação 3028.2075
40 Percevejo-manchador em algodão revistacultivar.com.br instagram.com/revistacultivar facebook.com/revistacultivar
44 Coluna ANPII Bio 45 Coluna Agronegócios
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46 Coluna Mercado Agrícola
Foto do caderno Gabriel Augusto de Andrade Rodrigues Foto de Vladimir Bryukhov
Primeiro registro mundial de mosca-da-raiz atacando soja no Brasil acende alerta; saiba como reconhecer o inseto, os danos e proteger a cultura
MUNDO AGRO Divulgação
Vylor Roberto Hun assumirá a presidência da Vylor para a América Latina. Hoje, lidera a Corteva no Cone Sul e na região Mesoandina. Desde 2019, passou por cargos estratégicos, entre eles a liderança comercial de Brasil e Paraguai.
Herbivoria amplia atração de parasitoides
Corteva Na nova Corteva, após a cisão, Felipe Daltro assumirá a presidência para a América Latina. Atualmente, responde pela diretoria de Marketing e Eficácia Comercial para Brasil e Paraguai. Sua trajetória inclui funções em pesquisa e desenvolvimento, marketing, vendas e gestão de projetos.
A herbivoria foliar pode deixar no solo um legado capaz de aumentar a atração de parasitoides por plantas cultivadas após o ataque. Pesquisadores identificaram o mecanismo em Vigna unguiculata infestada pelo minador Liriomyza trifolii. A resposta envolve jasmonato, flavonoides radiculares, microbiota da rizosfera e compostos voláteis. No experimento, novas plantas cresceram em solos antes ocupados por exemplares submetidos à herbivoria. Essas plantas não tiveram contato com o inseto. Mesmo assim, atraíram mais o parasitoide Neochrysocharis formosa e acumularam mais biomassa aérea. O ataque elevou os níveis de ácido jasmônico e ácido jasmônico-isoleucina em folhas, caules e raízes. A sinalização hormonal aumentou a liberação das isoflavonas daidzeína e genisteína pelas raízes. Esses compostos alteraram
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a comunidade bacteriana da rizosfera. O tratamento favoreceu bactérias dos gêneros Bradyrhizobium e Bacillus. Três linhagens de Bradyrhizobium aumentaram a atração dos parasitoides após inoculação no solo. A presença de microrganismos vivos mostrou papel central no processo. A esterilização do solo eliminou a preferência dos parasitoides. A reinoculação da microbiota restaurou a resposta. O solo condicionado também levou plantas posteriores a emitir mais acetato de (Z)-3-hexenila. Ensaios comportamentais confirmaram a preferência de Neochrysocharis formosa pelo composto. Os resultados indicam uma sequência de defesa iniciada pela herbivoria, mediada pelo jasmonato e mantida por alterações na microbiota da rizosfera. Os pesquisadores apontam possíveis aplicações desse mecanismo no manejo sustentável de pragas (doi 10.1016/j.celrep.2026.117869).
Coberturas alteram mecanismos de defesa dobro de benzoxazinoides em relação aos demais legados. Esses metabólitos atuam na defesa química direta contra herbívoros. O legado também influenciou a preferência do predador. Em ensaio com possibilidade de escolha, adultos de Harmonia axyridis preferiram lagartas alimentadas em milho cultivado após ervilha. Essas presas receberam mais do que o dobro das escolhas, em comparação com lagartas dos tratamentos com triticale ou pousio. O experimento utilizou solo coletado em 2022 e 2023, na Pensilvânia, Estados Unidos. A área recebia manejo orgânico sem insumos químicos desde 2014. Os pesquisadores apontam nutrientes e comunidades microbianas como possíveis componentes desse efeito, mas o estudo não identificou um mecanismo específico (doi 10.1016/j.baae.2026.04.003).
Syngenta Carlos Piotto assumiu o cargo de “insecticides portfolio manager” da Syngenta. O engenheiro agrônomo atua na companhia há 12 anos e reúne experiência em desenvolvimento técnico de mercado, manejo de inseticidas e fungicidas e gestão de portfólio.
University of Georgia - Bugwood
O histórico de cultivo do solo pode modificar mecanismos de defesa do milho contra insetos. Experimentos com ervilha, rabanete, triticale e pousio apontaram diferenças na produção de benzoxazinoides e na emissão de indol após ataque de Spodoptera frugiperda. O efeito também atingiu a interação da praga com o predador Harmonia axyridis. Pesquisadores cultivaram milho em solos com legado de Pisum sativum, Raphanus sativus, triticale e pousio. Plantas cultivadas após ervilha apresentaram maior participação de indol entre os compostos voláteis liberados após a herbivoria. O composto participa da defesa indireta e pode favorecer respostas ligadas à atração de inimigos naturais. O pousio favoreceu outra estratégia. Após 48 h de alimentação da lagarta-do-cartucho, o milho nesse tratamento acumulou aproximadamente o
Bayer A Bayer nomeou Daniel Olivier para o cargo de gerente global de Estratégia de Soja. O executivo iniciou a função em agosto de 2026 e está baseado em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos. Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 05
William White - Bugwood
UPL O Grupo UPL anunciou que Mike Frank deixou o cargo de “chief executive officer”, após cinco anos. A liderança do negócio de proteção de cultivos, que inclui a UPL Brasil, passou a Jai Shroff, atual “chairman” e CEO global do Grupo UPL.
Fungo altera acasalamento da broca-da-cana
BASF Hendrik Disteldorf assumiu o cargo de vice-presidente sênior de Pesquisa e Desenvolvimento em Proteção de Cultivos da BASF Agricultural Solutions. Na nova função, passa a liderar atividades ligadas à descoberta, ao desenvolvimento e à entrega de soluções para agricultores em diferentes mercados.
A infecção da broca-da-cana (Diatraea saccharalis) por Fusarium verticillioides altera a comunicação sexual e a escolha de parceiros. Machos infectados e livres do fungo preferiram odores emitidos por fêmeas infectadas. Essas fêmeas também acasalaram com maior frequência com machos infectados. Os resultados levantam uma possível implicação para estratégias de manejo baseadas em feromônios. Pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, combinaram ensaios comportamentais, análises químicas e avaliações eletrofisiológicas. Em túnel de vento, machos escolheram com maior frequência o odor de fêmeas infectadas. A infecção não modificou o período, a latência nem a duração do comportamento de chamamento das fêmeas. Análises das glândulas pro-
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dutoras de feromônio apontaram maior concentração de Z9-16 nas fêmeas infectadas. Os cientistas não detectaram diferenças significativas para Z11-16 nem para Z9, E11-16, principal componente da mistura analisada. As antenas dos machos responderam aos três compostos nos testes eletrofisiológicos. Nos bioensaios de escolha, fêmeas infectadas preferiram machos com Fusarium verticillioides. Fêmeas livres da infecção não mostraram preferência. Os pesquisadores consideram duas hipóteses: efeito não adaptativo da infecção sobre a sinalização sexual ou manipulação do hospedeiro em benefício da disseminação do fungo. O estudo não avaliou efeitos em lavouras e recomenda pesquisas específicas sobre possíveis impactos no uso de feromônios contra Diatraea saccharalis (doi 10.1111/ een.70140).
Bayer divulga lançamentos A Bayer prepara lançamentos em sementes, biotecnologia e defensivos agrícolas, com projetos voltados ao mercado brasileiro. Entre as tecnologias mais próximas, aparecem a soja Intacta 5+, o inseticida Plenexos e o herbicida Icafolin. A empresa apresentou as informações durante o Bayer Innovation Showcase, realizado em Huxley, Iowa, nos Estados Unidos. A companhia mantém a previsão de comercialização da Intacta 5+ no Brasil a partir da safra 2027/2028. A biotecnologia já recebeu autorização brasileira, mas a chegada ao mercado depende de aprovações em países importadores. A oferta inicial deverá reunir pelo menos 13 variedades adaptadas às principais regiões produtoras. Nos dois primeiros anos, o portfólio poderá superar 200 variedades. A plataforma combina tolerância a cinco herbicidas: glifosato, dicamba, mesotriona, glufosinato e 2,4-D. O pacote contra insetos utiliza cinco proteínas e amplia o manejo para nove espécies de lagartas. A proposta busca aumentar as alternativas disponíveis para programas de controle de plantas daninhas e insetos.
Inseticida Plenexos
No segmento de inseticidas, a Bayer avança com o Plenexos. O produto já chegou ao mercado colombiano. Brasil, México e Estados Unidos figuram entre os próximos mercados. A plataforma contém espidoxamato e tem foco inicial no manejo de mosca-branca. O portfólio previsto inclui soja, algodão, citros, tomate, batata e feijão. Os alvos também abrangem pulgões e psilídeo-dos-citros. A Bayer destaca ação sistêmica, atividade sobre diferentes fases de ninfa e seletividade a organismos benéficos. Ensaios apresentados pela empresa indicaram redução de até 75% na quantidade de ingrediente ativo frente a outros tratamentos. A avaliação reuniu mais de 600 experimentos internos e externos conduzidos no Brasil entre 2021 e 2025. Em trabalhos com mosca-branca na soja, Plenexos utilizou 24 gramas de ingrediente ativo por hectare, ante 100 gramas por hectare no tratamento com imidacloprido.
Herbicida Icafolin
Outro projeto direcionado ao
Brasil envolve o Icafolin. A Bayer prevê lançamento em 2028 e já protocolou pedidos regulatórios no país. A molécula integra o Grupo 23 do Comitê de Ação a Resistência aos Herbicidas (HRAC) e atua sobre a organização dos microtúbulos das plantas daninhas. A empresa posiciona o produto como alternativa para manejo de populações resistentes ao glifosato e a outros herbicidas.
Inovação acelerada
A Bayer integra melhoramento genético, edição gênica, biotecnologia, proteção de cultivos e ferramentas digitais em sua estratégia de pesquisa e desenvolvimento. A companhia conecta essas plataformas por meio de dados e ciência para reduzir ciclos de desenvolvimento, ampliar ganhos genéticos e criar novos modos de ação contra pragas, doenças e plantas daninhas, explica Axel Trautwein, líder de ciência regulatória da companhia. A empresa apresentou a estratégia durante o evento. O sistema reúne quatro plataformas de pesquisa: melhoramento de precisão, edição gênica associada ao melhoramento, biotecnologia e desenho de moléculas.
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PUBLIEDITORIAL
Manejo de nematoides em soja e milho Na sucessão soja/milho, a presença de culturas hospedeiras pode favorecer a multiplicação de nematoides e elevar os danos ao longo das safras. O manejo integrado, com diagnóstico, genética, rotação de culturas e controles químico e biológico, é fundamental para proteger o sistema radicular e preservar o potencial produtivo
A
s culturas da soja e do milho ocupam posição estratégica na agricultura brasileira, sustentando importantes cadeias de alimen-
tos, rações, proteína animal, biocombustíveis e exportações. A sucessão soja–milho, amplamente utilizada nas principais regiões produtoras, permite intensificar o uso das áreas agrícolas, otimizar recursos e infra-
estrutura e aumentar a competitividade dos sistemas produtivos. Na safra 2025/26, a produção brasileira é estimada em aproximadamente 180 milhões de toneladas de soja e 143 milhões de toneladas de milho.
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Foto Ana Paula Santos Oliveira
Nesse cenário, os fitonematoides representam um importante desafio à manutenção do potencial produtivo dessas culturas. Na soja, destacam-se Pratylenchus brachyurus, Heterodera glycines, Meloidogyne incognita, M. javanica e Rotylenchulus reniformis. No milho, P. brachyurus, M. incognita e M. javanica assumem particular importância, especialmente pela capacidade de se multiplicarem na cultura e contribuírem para a manutenção ou o aumento das populações no solo. Em sistemas de sucessão soja– milho, a presença de hospedeiros favoráveis em ciclos consecutivos pode favorecer o incremento populacional desses fitoparasitas ao longo das safras. Ao parasitarem o sistema radicular, os nematoides comprometem a exploração do solo e a absorção de água e nutrientes, reduzindo o crescimento e o vigor das plantas e intensificando os efeitos dos estresses hídrico e nutricional. Os impactos econômicos podem ser expressivos: na soja, estudos conduzidos pela Embrapa relatam perdas de produtividade entre 18% e 56% em áreas severamente infestadas por nematoides-das-galhas. Levantamento coordenado em 2021, pela Sociedade Brasileira de Nematologia, estimou perdas potenciais de aproximadamente R$ 27,7 bilhões anuais na soja e R$ 11 bilhões no milho, dentro de um impacto estimado em cerca de R$ 65 bilhões para a agricultura brasileira. Diante desse cenário, o manejo deve ser planejado de forma integrada e contínua, uma vez que nenhuma ferramenta utilizada isoladamente proporciona controle consistente ao longo do tempo. O diagnóstico correto da área, por meio de amostragens representativas de solo e raízes, é o ponto de
O manejo integrado deve combinar diferentes ferramentas de acordo com as espécies de nematoides, sua dinâmica populacional e o sistema produtivo
partida para identificar as espécies presentes, determinar seus níveis populacionais e orientar a escolha das estratégias mais adequadas. O uso de cultivares de soja e híbridos de milho resistentes ou com menor fator de reprodução, associado à rotação de culturas e à utilização de plantas de cobertura não hospedeiras ou antagonistas, contribui para reduzir a multiplicação dos nematoides. O controle químico e o biológico complementam essas estratégias, principalmente durante as fases iniciais de desenvolvimento, quando a proteção do sistema radicular é determinante para o estabelecimento das plantas. Extratos vegetais, metabólitos e práticas relacionadas à qualidade do ambiente de produção também podem integrar o programa de manejo. Correção da acidez, equilíbrio nutricional, redução da compactação, manutenção da palhada e aporte de matéria orgânica favorecem o desenvolvimento das raízes e a atividade biológica do solo.
Assim, o manejo integrado deve combinar diferentes ferramentas de acordo com as espécies de nematoides, sua dinâmica populacional e o sistema produtivo. O objetivo não se restringe à redução das populações, mas envolve também proteger o sistema radicular, minimizar os danos e preservar o potencial produtivo das culturas ao longo das safras. Nesse contexto, nematicidas químicos utilizados de maneira estratégica podem desempenhar papel importante, especialmente quando integrados às demais ferramentas de manejo. Resultados experimentais demonstram o potencial de Verango Prime® (Fluopyran) como componente dessa estratégia. Em ensaio de casa de vegetação conduzido pela Agromax com soja, a dose de 0,5 L ha⁻¹ proporcionou reduções de 93,3% para H. glycines, 86,0% para M. javanica e 83,0% para M. incognita. Para P. brachyurus e R. reniformis, a dose de 0,3 L ha⁻¹ proporcionou reduções de 84,3% e 83,4%, respectivamente, demonstrando atividade
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sobre diferentes grupos de fitonematoides de importância econômica para a soja. Em condições de campo na soja, Fluopyran também apresentou resultados positivos no manejo de P. brachyurus. Quando associado ao Vinemco®, produto biológico à base de Bacillus amyloliquefaciens aplicado no tratamento de sementes, promoveu redução consistente da população do nematoide nas raízes. A associação com Verango a 0,5 L ha⁻¹ apresentou os menores níveis de infestação radicular até os 90 dias após a emergência. Em produtividade, a associação dos dois produtos a 0,3 mL ha⁻¹ proporcionou incremento de 8,08 sacas ha⁻¹ em relação à testemunha, evidenciando os benefícios da integração entre as ferramentas química e biológica.
Na cultura do milho, resultados de campo também demonstraram benefícios de Verango Prime® sobre nematoides, sanidade das plantas e produtividade. A dose de 0,4 L ha⁻¹ proporcionou 90% de controle de P. brachyurus, enquanto a associação Vinenco® + Verango Prime® a 0,3 L ha⁻¹ alcançou 91% de controle. Os tratamentos com Verango também apresentaram menor incidência de doenças foliares em relação à testemunha. Em produtividade, as três doses de Verango apresentaram resposta positiva, enquanto a associação com o produto biológico resultou em incremento de aproximadamente 8 sacas ha⁻¹ em relação à testemunha. Outro aspecto relevante é a compatibilidade do Fluopyran com produtos biológicos e microrganismos benéficos, característica
que favorece sua utilização em programas de manejo integrado. A possibilidade de combinar ferramentas químicas e biológicas permite explorar mecanismos de ação complementares dentro do sistema produtivo. Sua seletividade a organismos benéficos também favorece a integração com agentes de controle biológico e a preservação do equilíbrio microbiológico do solo. Dessa forma, os resultados apresentados reforçam que o manejo de nematoides em soja e milho deve ser conduzido sob uma perspectiva de sistema de produção, combinando diagnóstico, genética, rotação e cobertura do solo, controle biológico, controle químico e práticas que favoreçam a saúde do solo. Nesse contexto, Verango se apresenta como uma ferramenta para programas integrados de manejo, associando eficiência nematicida, compatibilidade com agentes biológicos e proteção do potencial produtivo, contribuindo para sistemas soja–milho mais equilibrados e C sustentáveis. Tatiane Cheila Zambiasi, Agromax (Primavera do Leste – MT); Fernando Godinho de Araujo, IF Goiano e FitoConsult (Pires do Rio – GO)
10 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325 Foto Fernando Godinho
SORGO
Hospedeiros definem riscos Milho e milheto neutralizam o avanço do pulgãodo-sorgo, enquanto capim-massambará age como perigosa ponte-verde
O
pulgão-do-sorgo, Melanaphis sorghi (Theobald, 1904) (Hemiptera: Aphididae) (Figura 1), consolidou-se como uma das pragas agrícolas mais ameaçadoras para a cultura do sorgo em escala global. Trata-se de um pequeno inseto sugador que possui um potencial reprodutivo elevado, caracterizado principalmente pela reprodução por partenogênese telítoca em regiões tropicais e subtropicais, ou seja, fêmeas gerando outras fêmeas sem a necessidade de cópula. Essa particularidade biológica permite que as populações do pulgão-do-sorgo cresçam de forma exponencial em curtos intervalos de tempo, criando colônias densas que rapidamente cobrem a face inferior das folhas e hastes das plantas hospedeiras.
Dispersão e adaptação
A biologia do pulgão-do-sorgo favorece uma rápida dispersão e adaptação em áreas agrícolas. Sob condições climáticas favoráveis, especialmente em temperaturas mais altas e com disponibilidade de hospedeiros adequados, o ciclo de desenvolvimento das ninfas até a fase adulta ocorre em apenas cinco dias, resultando em múltiplas gerações sobrepostas ao longo de uma única safra. Além disso, quando a densidade populacional atinge a capacidade de suporte da folha ou quando o alimento começa a se deteriorar, a praga passa a produzir indivíduos alados (formas migrantes). Esses adultos alados são dispersos colonizando novos cultivos e áreas marginais 12 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325 Foto Simone Martins Mendes
Foto Nathalia Damasceno
Danos variados
Os prejuízos decorrentes do ataque do pulgão-do-sorgo são diretos e indiretos, podendo comprometer severamente a produtividade dos grãos, da forragem e da biomassa. O dano direto primário ocorre pela sucção contínua da seiva elaborada diretamente nos vasos do floema. Esse processo drena água, açúcares e nutrientes essenciais da planta, provocando um forte estresse fisiológico e nutricional. Os sintomas visíveis começam com o aparecimento de manchas avermelhadas ou amareladas ao longo da nervura central e do limbo foliar, evoluindo progressivamente para o bronzeamento, a dessecação e a necrose dos tecidos. Em infestações severas e não controladas, o esgotamento nutricional pode levar ao colapso total da estrutura vegetal e à morte prematura das plantas. O ataque nas fases iniciais do desenvolvimento vegetal reduz a altura das plantas, o diâmetro do colmo e o número de folhas verdes retidas, comprometendo o acúmulo de biomassa. Como resultado do hábito alimentar e do alto volume de seiva processada, o pulgão-do-sorgo excreta grandes quantidades de uma substância açucarada e viscosa conhecida como “honeydew” (mela). Essa substância recobre a superfície das folhas e dos colmos, servindo de substrato para o desenvolvimento de fungos capnodiais, processo conhecido como fumagina. A camada escura da fumagina impede a passagem da luz solar, reduzindo drasticamente a eficiência fotossintética da cultura. Adicionalmente, a mela acumulada causa sérias complicações mecânicas durante a colheita, embuchando o maquinário agrícola, impregnando
Figura 1 - colônia do pulgão-do-sorgo (Melanaphis sorghi)
os componentes das colheitadeiras e depreciando a qualidade da biomassa e dos grãos colhidos.
Milho e milheto
Apesar da alta capacidade de dispersão do pulgão-do-sorgo, pesquisas comprovam que nem todas as gramíneas atuam como multiplicadoras do inseto (doi 10.1007/ s12600-026-01406-7). O milho (Zea mays) e o milheto (Pennisetum glaucum) não são hospedeiros viáveis para o pulgão-do-sorgo, sendo classificados como “não hospedeiros” com base em parâmetros biológicos. A incompatibilidade dessa interação é demonstrada pelo desempenho biológico do inseto. Em bioensaios laboratoriais com folhas de milho, a taxa líquida de reprodução foi igual a zero, indicando a interrupção do ciclo reprodutivo. Essa incompatibilidade também foi medida pela taxa intrínseca de crescimento no milho, que foi igual a zero. No caso do milheto, o colapso ocorreu igualmente, registrando
uma taxa de reprodução irrisória e uma taxa de aumento negativa, o que caracteriza em ambos os casos uma população sem capacidade de se autorregenerar e que declina até o colapso. Em populações iniciais de 50 ninfas, apenas um único indivíduo conseguiu atingir a fase adulta nas culturas de milho e milheto. Esse sobrevivente isolado exibiu longevidade e fecundidade reduzidas (reprodução de apenas um a dois dias, gerando de quatro a cinco ninfas), possivelmente por uma inadequação nutricional ou presença de barreiras constitutivas nessas plantas.
Em casas de vegetação
Em condições de casa de vegetação, o estabelecimento de colônias seguiu o mesmo padrão de não adequação ao hospedeiro. A população de pulgões no milheto manteve-se após 21 dias após a infestação, uma taxa de infestação de apenas 10% (colônias
Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 13
Figura 2 - evolução percentual da infestação do pulgão-do-sorgo ao longo de 28 dias após infestação, em plantas de sorgo (híbrido e linhagens), milho, milheto e capim-massambará em condições controladas
seto entre as safras agrícolas.
Hospedeiro silvestre
Por outro lado, o capim-massambará (Sorghum bicolor ssp. verticilliflorum), também conhecido como sorgo selvagem, uma planta daninha comum nas lavouras e áreas marginais, revelou-se um excelente hospedeiro para a praga. Os dados da pesquisa indicam que seu desempenho biológico é extremamente favorável ao inseto, superando inclusive os índices ob-
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Douglas G. dos Santos, Vinícius M. Marques, Kelly A. S. Rezende, Thaís F. Silva, Poliana S. Pereira, UFSJ; Nathan M. Santos, Bárbara L. Silva, Ufla; Simone M. Mendes, Embrapa Milho e Sorgo Foto Douglas G. dos Santos
pequenas com menos de dez indivíduos por folha). O milho também apresentou uma evolução tardia, atingindo infestação aos 21 dias, mantendo em torno de dez pulgões por folha. Em contrapartida, as plantas de sorgo atingiram índices superiores a 200 pulgões por folha, com a formação das colônias em menos de uma semana. A escala de danos tanto para o milho quanto para o milheto permaneceu sem danos (zero) em todas as avaliações, comprovando que ambas as plantas não sofrem injúrias decorrentes da tentativa de alimentação do inseto (Figura 2). Dessa forma, as culturas de milho e milheto não sustentam o desenvolvimento, a reprodução ou a perpetuação do pulgão-do-sorgo, constituindo-se em ambientes totalmente desfavoráveis à praga. Essa constatação traz implicações fundamentais para o Manejo Integrado de Pragas (MIP), pois assegura que o milho e o milheto não atuam como ponte-verde para a manutenção populacional do in-
tidos em algumas linhagens cultivadas de sorgo. Em condições de casa de vegetação, o sorgo selvagem atingiu a marca de 92% de sua área tomada pela infestação ao final de 28 dias, com o avanço acelerado da praga (Figuras 2 e 3). Por ser uma gramínea forrageira selvagem, o capim-massambará possui alta capacidade de perfilhamento (formação de brotos) e folhas estreitas. Isso cria uma folhagem densa, fechada e sombreada, gerando um microclima protegido que resguarda o pulgão contra ação externa do clima e de inimigos naturais. Dessa forma, a eliminação dessa invasora é vital para quebrar a ponte-verde e impedir a sobrevivência e a dispersão do pulgão-do-sorgo C entre os ciclos de cultivo.
Figura 3 - plantas de sorgo infestadas com o pulgão-do-sorgo. À esquerda, sorgo selvagem; à direita, sorgo granífero
CAFÉ
Nutrição distribuída
Estudos revelam padrões de acúmulo e partição de nutrientes nos frutos de Coffea canephora, com aplicações para o manejo da adubação e o aproveitamento da casca como subproduto
O
Coffea canephora (Conilon e Robusta) vem alcançando patamares cada vez maiores de produtividade, especialmente em áreas tecnificadas do Espírito Santo, de Rondônia e da Bahia. Esse avanço, entretanto, também aumenta a quantidade de nutrientes removida da lavoura durante a colheita, exigindo sua reposição para manter a fertilidade do solo e sustentar o potencial produtivo.
Conhecer a quantidade exportada pelos frutos e a distribuição desses elementos entre grão e casca é essencial para o planejamento da adubação. Essas informações permitem estimar com maior precisão as necessidades de reposição da cultura e ampliar o aproveitamento da casca como fonte para ciclagem de nutrientes, contribuindo para sistemas de produção mais eficientes e sustentáveis.
Este texto reúne resultados de três pesquisas, cuja análise integrada permitiu identificar padrões de acúmulo e partição nos frutos, fornecendo subsídios para o manejo nutricional e o reaproveitamento da casca do café.
Três estudos, um panorama
Os três estudos foram conduzidos em importantes regiões produtoras de C. canephora no
Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 15 Foto Tony Oliveira
Figura 1 - ordem média de acúmulo de macro e micronutrientes nos frutos de C. canephora para a produção de uma tonelada de grãos, obtida a partir da compilação de três estudos. A área de cada setor é proporcional à média de acúmulo do respectivo nutriente. Valores expressos em kg/t para macronutrientes e g/t para micronutrientes (12% de umidade). Fonte: elaborado pelos autores com base em Rodrigues et al. (2023), Schmidt et al. (2023) e Silva et al. (2025)
padronizados por tonelada de café beneficiado, considerando 12% de umidade, possibilitando a comparação entre os estudos e a avaliação da quantidade acumulada no fruto e entre as duas frações.
Revelações dos estudos
Brasil: Vila Valério e Nova Venécia, no Espírito Santo, e Alta Floresta d'Oeste, em Rondônia. Foram avaliados 16, 42 e 20 genótipos, respectivamente, sob diferentes condições de cultivo. Apesar das particularidades de cada ambiente, as lavouras apresentavam elevado potencial
produtivo, eram irrigadas e conduzidas com manejo agronômico adequado. Em todas as pesquisas, os frutos foram colhidos no estádio de maturação cereja, secos e separados em grão e casca para determinação do acúmulo de nutrientes. Os resultados foram
Tabela 1 - lista dos municípios amostrados por estado, total de amostras analisadas, número de espécies identificadas e total de amostras com mais de uma espécie detectada por estado Nutrientes
N
P
K
Ca
Mg
S
Fe
Mn
kg/t
B
Cu
Zn
g/t
Rodrigues et al. (2023) - Vila Valério (ES) Fruto
38,1
2,39
32,8
4,69
2,14
2,56
33,0
29,2
24,0
12,9
15,2
Grão
29,3
1,79
17,0
1,65
1,68
1,65
19,1
19,4
10,4
9,42
9,10
Casca
8,86
0,60
15,8
3,04
0,46
0,91
13,9
9,83
13,6
3,48
6,12
Schmidt et al. (2023) - Alta Floresta D'Oeste (RO) Fruto
26,7
2,80
27,3
5,10
2,20
3,70
38,6
19,8
28,7
18,4
9,10
Grão
20,2
1,79
12,3
2,05
1,28
1,52
18,4
11,4
13,4
10,3
5,02
Casca
6,57
1,08
14,9
3,12
0,90
2,20
20,2
8,40
15,4
8,20
4,10
Silva et al. (2025) - Nova Venécia (ES) Fruto
34,6
1,70
27,1
4,30
2,40
1,90
73,7
130
43,5
18,2
7,90
Grão
24,1
1,26
13,5
1,85
2,02
1,56
43,3
49,2
14,8
12,1
5,16
Casca
10,5
0,44
13,6
2,45
0,37
0,34
30,4
80,6
28,7
6,06
2,74
16 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325
Os três estudos evidenciaram diferenças no acúmulo de nutrientes nos frutos de C. canephora, mas também permitiram reconhecer tendências comuns entre as regiões avaliadas. Entre os macronutrientes, nitrogênio (N) e potássio (K) apresentaram os maiores acúmulos, destacando-se como os principais componentes da exportação nutricional associada à colheita. Pode-se observar na Tabela 1 que a quantidade acumulada de cada nutriente variou entre os trabalhos. Em Vila Valério (ES) apresentou os maiores acúmulos de N e K nos frutos, enquanto Alta Floresta d’Oeste (RO) se destacou pelos maiores valores de fósforo (P), cálcio (Ca) e enxofre (S). Para os micronutrientes, as diferenças foram mais expressivas, com destaque para Nova Venécia (ES), que apresentou os maiores acúmulos de ferro (Fe), manganês (Mn) e boro (B). Entre esses elementos, o manganês apresentou a variação mais acentuada em relação aos demais estudos. Essas diferenças refletem a variabilidade observada entre os estudos e devem ser interpretadas considerando que as pesquisas envolveram diferentes condições ambientais, práticas de manejo e conjuntos de genótipos. Ainda assim, quando os resultados são analisados conjuntamente, observa-se um padrão geral quanto aos nutrientes que mais participam
Figura 2 - principais macronutrientes acumulados nos grãos e nas cascas de C. canephora após o beneficiamento dos frutos. Os valores correspondem às médias de acúmulo obtidas a partir da compilação de três estudos e estão expressos em kg/t de grão (12% de umidade). Fonte: elaborado pelos autores com base em Rodrigues et al. (2023), Schmidt et al. (2023) e Silva et al. (2025)
reciclados quando esse material retorna à lavoura. Nesse contexto, o reaproveitamento da casca como cobertura ou na forma de composto orgânico pode contribuir para a ciclagem de nutrientes, reduzir a necessidade de reposição por fertilizantes minerais e favorecer a manutenção da fertilidade do solo.
Considerações finais
xxx
do acúmulo mineral dos frutos. A Figura 1 sintetiza esse comportamento a partir das médias dos três trabalhos, permitindo comparar a participação relativa dos macro e micronutrientes contidos nos frutos ao produzir uma tonelada de café em grão a 12% de umidade, quantidades contidas no grão e na palha. A predominância de nitrogênio e potássio evidencia a maior participação desses nutrientes na exportação mineral pelos frutos, enquanto manganês, ferro e boro se destacaram entre os micronutrientes. Apesar das variações nas quantidades acumuladas entre os estudos, essa tendência geral reforça a importância de considerar a exportação de nutrientes no planejamento da adubação.
fruto (Figura 2). O nitrogênio (N) e o fósforo (P) apresentaram maior acúmulo no grão, enquanto o cálcio (Ca) se acumulou principalmente na casca. O potássio (K), por sua vez, apresentou distribuição mais equilibrada entre as duas frações. Essa partição evidencia diferenças importantes no destino dos nutrientes após o beneficiamento. Do ponto de vista agronômico, os nutrientes acumulados no grão representam a parcela efetivamente removida da propriedade, enquanto aqueles retidos na casca podem ser parcialmente
A análise integrada dos estudos amplia a compreensão sobre o acúmulo e a partição de nutrientes nos frutos de C. canephora em diferentes condições de cultivo. Apesar das variações observadas entre as regiões, os resultados revelam tendências comuns no acúmulo dos elementos e em sua distribuição entre grão e casca. Essas informações fornecem subsídios para o planejamento do manejo nutricional da cultura, ao reunir o conhecimento sobre a quantidade de nutrientes acumulada nos frutos e sua distribuição entre as frações após o beneC ficiamento. Jeniffer Ribeiro de Oliveira, Ivoney Gontijo, Fábio Luiz Partelli, Ufes
Distribuições diferentes
Além da quantidade total acumulada nos frutos, os estudos revelam diferenças importantes na partição dos nutrientes mais acumulados entre as frações do
Autores comentam sobre os padrões de acúmulo e partição de nutrientes nos frutos de Coffea canephora
Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 17
CAPA
Novo risco à sojicultura
Primeiro registro mundial de mosca-da-raiz atacando soja no Brasil acende alerta; saiba como reconhecer o inseto, os danos e proteger a cultura
18 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325 Foto Glauber R. Sturmer
A
família Anthomyiidae (Diptera: Calyptratae) compreende um amplo grupo de moscas, incluindo diversas espécies de importância econômica para a agricultura. Entre elas, o gênero Delia reúne espécies cujas larvas apresentam hábito associado ao solo e podem causar danos significativos em diferentes culturas. Nesse contexto, Delia sanctijacobi, popularmente conhecida como mosca-da-raiz (Figura 1), tem despertado atenção fitossanitária no Sul do Brasil após sua primeira detecção em áreas agrícolas de soja. De origem neotropical, a mosca-da-raiz é nativa da América do Sul e ocorre na Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Peru. Suas larvas apresentam hábito polífago e desenvolvem-se associadas ao solo, onde atacam raízes e outras estruturas subterrâneas das plantas. Esse comportamento dificulta a detecção inicial da infestação, o que resulta em danos durante as fases iniciais de desenvolvimento das culturas (Figura 2). Recentemente, em artigo científico publicado na revista Entomological Communications, pesquisadores confirmaram a ocorrência de D. sanctijacobi causando danos em lavouras comerciais de soja no Rio Grande do Sul, representando o primeiro registro mundial da espécie associada à cultura. A identificação foi realizada por meio de caracterização morfológica, complementada por sequenciamento de DNA. As sequências obtidas apresentaram identidade superior a 99,8% com registros disponíveis no banco de dados NCBI e foram posteriormente depositadas no GenBank, fornecendo suporte molecular à identificação da espécie.
Foto Glauber R. Sturmer
Figura 1 - larva isolada de mosca-da-raiz em destaque
O primeiro registro em soja amplia o conhecimento sobre a gama de hospedeiros da mosca-da-raiz e reforça a necessidade de monitoramento e pesquisas sobre sua distribuição, biologia, importância econômica e estratégias de manejo na cultura da soja.
Síntese da descoberta
• Espécie: Delia sanctijacobi (Bigot, 1885) (Diptera: Anthomyiidae) • Hospedeiro inédito: soja (Glycine max) - primeiro relato mundial na cultura • Localização: Planalto Médio do RS (Passo Fundo, Carazinho, Saldanha Marinho e Cruz Alta) • Validação molecular: sequenciamento de DNA, com identidade acima de 99,8% no NCBI/GenBank • Impacto observado: redução média de até 30% no estande de plantas
Diagnóstico e histórico
A identificação de espécies do gênero Delia pode ser complexa, devido à grande semelhança morfológica entre elas. A Figura 3 apresenta as principais fases do ciclo biológico de Delia (ovo, lar-
Foto Glauber R. Sturmer
Figura 2 - lavoura de soja atacada por mosca-da-raiz
va, pupa e adulto). Durante a fase larval, os indivíduos apresentam coloração branco-amarelada e medem aproximadamente 6 mm a 10 mm. Essas características dificultam sua diferenciação visual de espécies próximas, como Delia platura, uma vez que as larvas apresentam morfologia bastante semelhante. Dessa forma, a identificação segura da espécie pode exigir a análise de características morfológicas dos adultos, especialmente da genitália dos machos, associada, quando necessário, a técnicas de diagnóstico molecular. No Brasil, D. sanctijacobi teve seu primeiro registro formal em 2022, associado à cultura do brócolis, seguido por um novo registro em tomate, em 2024. A detecção posterior da espécie em lavouras comerciais de soja no Rio Grande do Sul, na safra 2025/2026, amplia o conhecimento sobre seus hospedeiros e reforça a necessidade de monitoramento da espécie em diferentes sistemas de produção.
Sintomatologia e locais de foco
Os primeiros focos de Delia sanctijacobi em soja foram
identificados no início da safra 2025/2026, em áreas comerciais dos municípios de Passo Fundo, Carazinho, Saldanha Marinho e Cruz Alta, no Rio Grande do Sul (Figura 4). As áreas afetadas haviam sido semeadas entre 9 e 11 de outubro de 2025, em sucessão a cultivos de aveia-preta e ervilhaca. As condições de solo e temperatura durante o período de implantação da cultura também devem ser consideradas como possíveis fatores associados à ocorrência da praga. Solos com elevada umidade e temperaturas mais baixas podem favorecer a ocorrência e os danos causados por espécies do gênero Delia. Nessas condições, a redução da temperatura do solo pode afetar a germinação e a emergência das plântulas, prolongando o período em que sementes e tecidos jovens permanecem suscetíveis ao ataque das larvas. Dessa forma, períodos de semeadura em condições de solo frio e úmido podem representar maior risco para o estabelecimento inicial da cultura. Os danos concentraram-se durante a emergência da soja
Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 19
Figura 3 - ciclo biológico da mosca-da-raiz, Delia sanctijacobi (Bigot, 1885) (Diptera: Anthomyiidae)
Créditos Glauber R. Sturmer
(estádios VE-VC), período em que as larvas atacaram inicialmente os cotilédones e, posteriormente, o caule e o hipocótilo, formando galerias internas nos tecidos. Como consequência, foram observados tombamento e morte de plântulas, com redução do estande final de aproximadamente 30% nas áreas monitoradas. Não foi observada diferença na intensidade dos danos entre as lavouras Bt e não Bt avaliadas. Esse resultado é consistente com a ausência de ação das proteínas Cry/Vip, atualmente expressas na cultura da soja sobre insetos da ordem Diptera.
Referência internacional
Como D. sanctijacobi ainda não possui um protocolo de manejo específico e consolidado para a cultura da soja, as principais referências disponíveis são de estudos realizados com Delia platura, espécie próxima que apresenta características biológicas e comportamento de oviposição semelhantes. D. platura possui histórico de ocorrência na América do Norte e é nativa da Europa, sendo utilizada como referência para compreender possíveis estratégias de manejo de espécies do gênero Delia. Com base nessas
20 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325
informações, algumas estratégias podem ser consideradas como referências para o monitoramento e para futuras pesquisas com D. sanctijacobi. Entre elas, as que citamos a seguir. Tratamento de sementes constitui uma das principais estratégias estudadas para a proteção das plântulas contra espécies de Delia. Ensaios realizados com D. platura indicam eficácia de ingredientes ativos dos grupos dos neonicotinoides, como clotianidina e tiametoxam, e das diamidas, como ciantraniliprole e clorantraniliprole, especialmente quando associados a fungicidas. Manejo da matéria orgânica e da palhada - a presença de matéria orgânica em decomposição pode influenciar o comportamento de oviposição de espécies de Delia. Palhadas verdes em processo de decomposição e a presença de esterco recente podem aumentar a atratividade das áreas para as fêmeas. Controle biológico - fungos entomopatogênicos, como Beauveria bassiana e Metarhizium spp., podem ser considerados ferramentas complementares no manejo de espécies de Delia.
Estratégias de manejo preventivo
O principal desafio no controle de D. sanctijacobi é o seu hábito endofítico: assim que a larva penetra no caule da plântula, pulverizações foliares ou de contato perdem completamente a eficácia. O esforço precisa se concentrar antes da penetração da larva, não depois. A seguir, indicamos medidas que auxiliam na prevenção. Gestão da palhada de inverno - evitar semear a soja muito
Táticas de manejo
Tática de manejo
Ingredientes / ferramentas
Fase-alvo
Situação no Agrofit
Diretriz prática
Tratamento de sementes
Neonicotinoides / piretroides
Cotilédones / hipocótilo
Sem registro específico para D. sanctijacobi
Proteção indispensável nos primeiros dez a 15 dias pós-emergência
Tratamento de sementes
Diamidas (ciantraniliprole)
Larvas mastigadoras
Sem registro específico para D. sanctijacobi
Oferece efeito residual e proteção sistêmica inicial
Controle biológico
Beauveria bassiana / Metarhizium spp.
Larvas e pupas no solo
Uso autorizado por alvo biológico / gênero
Ferramenta complementar; não substitui o tratamento de sementes
próximo da dessecação ou do manejo mecânico de coberturas densas de aveia e ervilhaca, dando tempo para que a decomposição avance antes da semeadura, já que é justamente a matéria orgânica fresca que atrai as fêmeas para oviposição. Tratamento de sementes priorizado - em talhões com histórico de cobertura densa ou ocorrência prévia da praga, priorizar o tratamento de sementes, já que o efeito é na janela crítica dos cotilédones.
Pesquisas em campo
Os pesquisadores do Laboratório de Manejo e Genética de Pragas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e da Agrum continuam mapeando novos focos de D. sanctijacobi no Rio Grande do Sul. O objetivo é conduzir ensaios de eficácia de produtos para embasar recomendações técnicas e registros específicos junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
são simples: monitorar de perto lavouras semeadas logo após aveia e ervilhaca com grande volume de palhada, priorizar tratamento de sementes nessas áreas e, diante de sintoma suspeito de redução de estande sem causa aparente, coletar larvas para identificação em laboratório
antes de definir o manejo da próC xima safra. Jonas André Arnemann, Jose Domingos Jacques Leao, Pablo Steindorff da Silva, UFSM; Glauber R. Stürmer, Agrum Agrotecnologias Integradas Ltda
Jonas, Jose, Pablo e Glauber falam sobre a observação do primeiro registro de mosca-da-raiz atacando soja no Brasil
Figura 4 - a mosca-da-raiz é endêmica nos países destacados em laranja no mapa, atacando outras culturas, como milho, feijão, melão, abóbora, trigo, cebola, alho, berinjela, alfafa, girassol e couve-flor. A praga foi encontrada nos municípios de Passo Fundo, Carazinho, Saldanha Marinho e Cruz Alta, destacados no mapa, atacando a soja pela primeira vez em nível mundial
Mensagem final
O primeiro registro de D. sanctijacobi atacando soja é um sinal de atenção, não de pânico: os focos identificados até agora estão concentrados em áreas específicas do Rio Grande do Sul e associados a um manejo de cobertura de inverno específico. As recomendações práticas
Crédito: Pablo Steindorff da Silva
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SOJA
Besouros encontrados Apesar de surpreenderem pela abundância em lavouras de soja e milho no Cerrado, besouros nitidulídeos não estão, necessariamente, associados à ocorrência de danos às culturas
22 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325
Fotos Equipe Regenera Cerrado
U
m grupo de besouros que geralmente não assume protagonismo no campo surpreendeu pela expressiva abundância em áreas de soja e milho conduzidas sob práticas de agricultura regenerativa no sudoeste de Goiás. Em levantamentos realizados pelo Projeto Regenera Cerrado, os nitidulídeos representaram 87% de todos os artrópodes coletados em armadilhas de solo. Esse resultado surpreende porque, apesar de cosmopolitas, os nitidulídeos raramente figuram entre os grupos mais abundantes em levantamentos agrícolas. Em muitos estudos, sequer são identificados até o nível de espécie, o que faz com que sua ecologia em agroecossistemas ainda seja pouco conhecida.
Sobre o inseto
Os besouros são pequenos insetos, medindo entre 0,9 mm e 15 mm, frequentemente encontrados em ambientes ricos em matéria orgânica e atividade microbiana. Como sistemas manejados sob práticas regenerativas tendem a apresentar maior cobertura do solo, aporte de resíduos vegetais e maior diversidade biológica, a elevada ocorrência desses besouros pode estar relacionada à maior disponibilidade de alimento e abrigo. Entretanto, essa hipótese ainda precisa ser investigada, uma vez que o presente estudo não comparou diretamente áreas regenerativas e convencionais. Os nitidulídeos habitam o planeta há milhões de anos, desde
Os insetos foram capturados em armadilhas de solo do tipo “pitfall”, que permitem amostrar organismos que se deslocam sobre a superfície do solo
a Era Mesozoica, período em que também surgiram os dinossauros. Ao longo da evolução, diversificaram seus hábitos alimentares. Enquanto muitas espécies ainda se alimentam de fungos e matéria orgânica em decomposição, outras passaram a explorar tecidos vegetais vivos, frutos, pólen, seiva e até mesmo a predar outros insetos. Atualmente, a família reúne cerca de 4.500 espécies distribuídas em praticamente todo o mundo. No cenário agrícola brasileiro, os nitidulídeos ainda são pouco co-
nhecidos. Algumas espécies são consideradas pragas em culturas como morango e maracujá ou podem infestar colmeias de abelhas melíferas. Em soja e milho, porém, sua presença geralmente é registrada apenas em levantamentos de biodiversidade, sem identificação das espécies e com poucas informações sobre sua função nos agroecossistemas.
Motivo de atenção
Foi durante os levantamentos
Gráfico dos nitidulídeos em soja e milho. Fonte: Equipe Regenera Cerrado
Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 23
Espécies de besouros nitidulídeos coletados
Colopterus truncatus, Urophorus humeralis, Stelidota geminata e Carpophilus dimidiatus. Todas ocorreram tanto na soja quanto no milho, porém a abundância foi significativamente maior na soja. Além disso, a composição das espécies variou entre as culturas, indicando que cada ambiente favorece diferentes espécies de nitidulídeos.
Resultados das análises
Métodos utilizados
As amostragens dos nitidulídeos foram realizadas nas safras de soja 2022/23 e 2023/24 e de milho safrinha de 2023 e 2024, em oito propriedades dos municípios de Rio Verde e Montividiu. Os insetos foram capturados em armadilhas de solo do tipo “pitfall”, que permitem amostrar organismos que se deslocam sobre a superfície do solo. Os nitidulídeos foram identificados por Juares Fuhrmann, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP). Ao todo, foram coletados mais de 241 mil nitidulídeos, distribuídos em quatro espécies:
Fotos Equipe Regenera Cerrado
realizados pelo Projeto Regenera Cerrado que esse grupo chamou a atenção pela elevada abundância nas áreas avaliadas. O projeto é uma iniciativa voltada à avaliação científica de práticas de agricultura regenerativa em fazendas produtoras de grãos no sudoeste de Goiás. Essas práticas contemplam, por exemplo, a manutenção da cobertura permanente do solo, o cultivo em sistema de plantio direto, a redução do uso de pesticidas com maior adoção de bioinsumos, a rotação de culturas, a compostagem, a utilização de adubação orgânica e remineralizadores, além da inoculação de microrganismos benéficos.
Na soja, Colopterus truncatus respondeu por aproximadamente 94% dos nitidulídeos registrados. O primeiro registro dessa espécie no Brasil foi publicado apenas em 2024, associado a árvores nativas de ingá (Inga marginata). Na América do Norte, é conhecida por transportar fungos fitopatogênicos em espécies florestais, especialmente carvalhos. Até o momento, porém, não existem registros de sua atuação como vetor de patógenos em culturas agrícolas. Este trabalho representa o primeiro registro de C. truncatus associada às culturas de soja e milho. No milho, a espécie predominante foi Stelidota geminata, responsável por aproximadamente 69% dos nitidulídeos coletados. Embora seja considerada impor-
Amostras da entomofauna armazenadas em laboratório (esquerda) e componentes da armadilha "pitfall" (direita)
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tante praga do morangueiro em algumas regiões dos Estados Unidos, não foram observados danos aos grãos nas áreas avaliadas. A espécie Urophorus humeralis foi a segunda mais abundante nas duas culturas. Em países como Estados Unidos, China e Quênia, é reconhecida como praga de algumas frutíferas e hortaliças, podendo causar danos pela alimentação e veiculação de microrganismos associados a podridões. No Brasil, entretanto, não existem evidências de prejuízos causados por essa espécie. Já Carpophilus dimidiatus representou menos de 1% dos nitidulídeos coletados. Apesar da baixa ocorrência nas áreas avaliadas, trata-se da espécie com maior potencial de importância econômica entre as registradas neste estudo. Na América do Norte, é considerada uma praga secundária de grãos armazenados e pode ocorrer em lavouras de milho próximas à colheita, principalmente quando as espigas já apresentam danos provocados por outros insetos. Além disso, pode transportar fungos como Aspergillus flavus, produtor de aflatoxinas que comprometem a qualidade dos grãos. Embora não tenha causado problemas nas áreas estudadas, seu histórico justifica atenção quanto à sua ocorrência em sistemas de produção de grãos.
Autores falam da presença de besouros nitidulídeos em lavouras de soja e milho no Cerrado
artrópodes em áreas de soja e milho, sem que isso esteja, necessariamente, associado à ocorrência de danos às culturas. Pelo contrário, considerando os hábitos alimentares das espécies registradas, é possível que desempenhem funções ecológicas importantes, contribuindo para a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e as interações com fungos e outros C microrganismos do solo.
Flávia Fagundes de Paula, IF Goiano - Campus Rio Verde; Jamilly R. Batista Barbosa, UFG; Leonardo Peres Sartori, Instituto BioSistêmico; Eliana M. Gouveia Fontes, Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia; Tavvs Micael Alves, IF Goiano - Campus Rio Verde; José Alexandre F. Barrigossi, Embrapa Arroz e Feijão
Funções ecológicas
Os nitidulídeos provavelmente sempre estiveram presentes nas lavouras, mas passavam despercebidos. Este levantamento mostra que esses besouros podem representar uma parcela expressiva da fauna edáfica de
Ao todo, foram coletados mais de 241 mil nitidulídeos, distribuídos em quatro espécies: Colopterus truncatus, Urophorus humeralis, Stelidota geminata e Carpophilus dimidiatus
Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 25
SOJA
Eficiência caso a caso
Experimento avalia efeito de diferentes tratamentos no controle de fitonematoides e seus impactos na cultura da soja
O
s fitonematoides representam uma das principais ameaças à agricultura mundial, destacando-se pela sua ampla distribuição, alto poder reprodutivo e difícil controle. Esses patógenos do solo têm se tornado uma crescente preocupação para os produtores rurais, devido ao seu impacto negativo direto sobre o sistema radi-
cular das plantas, comprometendo a absorção de água e nutrientes e resultando em expressivas perdas de produtividade. De acordo com levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Nematologia e parceiros, estima-se que uma a cada dez safras de soja seja perdida devido à ação de fitonematoides, o que evidencia a gravidade do problema e a necessidade de estratégias eficazes de manejo.
Dentre os principais gêneros de fitonematoides de importância econômica, destacam-se Meloidogyne spp., Heterodera glycines e Pratylenchus brachyurus, responsáveis por sérios prejuízos em diversas culturas agrícolas. Esses organismos atacam o sistema radicular das plantas, causando deformações, necroses e comprometendo a funcionalidade das raízes. Em áreas com alta infestação, as perdas de produtividade podem ultrapassar 30% (Lopes et al., 2018; Arieira et al., 2023). A situação é ainda mais alarmante em solos arenosos, como os predominantes nas regiões do Cerrado brasileiro, que, por possuírem maior porosidade e menor capacidade de retenção hídrica, facilitam a mobilidade dos nematoides e aumentam a pressão de infestação (Dias-Arieira et al., 2020).
Características das espécies
Estudos recentes apontam para um aumento significativo na incidência de Heterodera glycines e Pratylenchus brachyurus em áreas de textura arenosa, sugerindo uma adaptação desses patógenos a tais ambientes e elevando a preocupação com estratégias eficazes de manejo (Farias et al., 2023). O nematoide-de-cisto da soja, Heterodera glycines, possui um ciclo de vida particular, no qual as fêmeas adultas, após completarem seu desenvolvimento, morrem e se transformam em cistos. Essas estruturas de resistência podem abrigar centenas de ovos viáveis por vários anos, mesmo na ausência da planta hospedeira, o que torna seu controle extremamente desafiador (Yang et al., 2018).
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Fotos Suélen Moreira
Pratylenchus brachyurus, por sua vez, apresenta hábito migratório e comportamento endoparasita, provocando extensas lesões nos tecidos radiculares durante sua movimentação e alimentação, o que afeta diretamente a absorção e o transporte de água e nutrientes pelas plantas (Nicol et al., 2011). Já os nematoides do gênero Meloidogyne, conhecidos como nematoides-das-galhas, induzem a formação de nódulos nas raízes, que comprometem o desenvolvimento radicular e reduzem significativamente a capacidade da planta de absorver água e nutrientes, resultando em sintomas de murcha, clorose e baixo vigor, especialmente sob condições de alta infestação. Heterodera glycines, Pratylenchus brachyurus e Meloidogyne spp. possuem ampla gama de hospedeiros e elevada capacidade de reprodução, o que contribui para sua agressividade e relevância econômica nas principais regiões produtoras. No caso da cultura da soja, essas características tornam os danos ainda mais expressivos, visto que a leguminosa é altamente suscetível a esses nematoides. Heterodera glycines é considerado um dos principais fatores limitantes da produtividade da soja no Brasil e em outras regiões produtoras, devido à sua capacidade de persistência no solo por longos períodos e à dificuldade de controle. Pratylenchus brachyurus, ao comprometer a integridade do sistema radicular, prejudica diretamente o desenvolvimento da planta, reduzindo seu vigor e sua produtividade. Já Meloidogyne spp., ao deformar o sistema radicular, interfere na dinâmica hídrica e nutricional da planta, contribuindo para perdas significativas na produção.
Todos os tratamentos avaliados proporcionaram incrementos produtivos satisfatórios, o que ressalta a importância do uso de nematicidas como parte fundamental no manejo integrado de nematoides
Experimento realizado
Considerando a crescente incidência de fitonematoides e os impactos negativos na produtividade da soja, especialmente nas regiões em que atuamos, a Difusão Agrícola, atenta às necessidades de seus clientes e da realidade local, organizou um evento técnico em parceria com empresas do setor. A iniciativa teve como objetivo principal apresentar soluções de controle efetivo, com destaque para o uso de nematicidas e práticas integradas de manejo. Para enriquecer ainda mais o conteúdo e promover a disseminação de informações confiáveis, o evento contou com palestras de especialistas renomados na área da nematologia, como a doutora Cláudia Dias Arieira e o doutor Eduardo Freire, que abordaram os desafios, os avanços e as estratégias no enfrentamento dos nematoides nas lavouras. A ação reafirma o compromisso da Difusão Agrícola em levar conhecimento técnico de qualidade ao campo e apoiar os produtores rurais na tomada de decisões assertivas.
Implantação no campo
O experimento foi implantado no dia 18 de novembro de 2024, utilizando a cultivar de soja NS 8080, em área pertencente ao Centro de Pesquisa e Difusão de Tecnologia (CPDT
2), localizado na Fazenda São Judas Tadeu, município de Paraíso das Águas (MS). A área apresentava histórico de ocorrência dos nematoides Pratylenchus brachyurus, Heterodera glycines e, em pontos específicos, Meloidogyne spp., representando um cenário desafiador para o manejo fitossanitário. O delineamento experimental foi conduzido em faixas com parcelas compostas 364,5 m². Foram avaliados 17 tratamentos distintos, além de uma testemunha absoluta, todos utilizando como base o tratamento fitossanitário e inoculante padrão da Difusão Agrícola, composto por Cruiser® (tratamento de semente) + Standak Top® (tratamento de semente) + Bradyrhizobium (sulco de plantio), atuando como inseticida, fungicida e inoculante. As aplicações variaram entre tratamento de sementes, aplicação no sulco de plantio ou combinação de ambos, e via foliar, conforme as formulações e doses especificadas na Tabela 1. O experimento teve como objetivo avaliar a eficiência de diferentes soluções comerciais disponibilizadas por empresas parceiras como ferramentas no manejo integrado de fitonematoides. Para análise da população de nematoides, foram realizadas amostragens aos 30 e 60 dias após a emergência (DAE). A extração dos nematoides foi realizada no laboratório da Difusão Agrícola, seguindo os métodos clássicos de Coolen e D’Herde
Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 27
Em alguns tratamentos, não foi observada a presença de Heterodera glycines nas parcelas avaliadas. Nesses casos, de acordo com a fórmula de Abbott, a eficiência é considerada de 100%, sendo sinalizada em verde. No entanto, como a distribuição de nematoides no solo pode ocorrer de forma agregada em manchas, é importante considerar os valores médios apresentados na tabela, que evidenciam a ausência desse patógeno nas parcelas específicas. A coluna sinalizada em cinza refere-se às médias de Meloidogyne spp., cuja presença foi detectada apenas em uma única parcela (tratamento), e esteve ausente na testemunha. Dessa forma, não foi possível calcular a eficiência do controle utilizando a fórmula de Abbott (1925), pois esta requer valores de referência na testemunha para estimar a redução percentual.
Análises dos resultados
Os resultados obtidos demonstram de forma clara que todos os tratamentos testados proporcionaram incremento de produtividade em comparação à testemunha, que apresentou o menor rendimento médio (71,92 sc/ha) por não contar com nenhuma forma de controle contra nematoides.
Foto Suélen Moreira
(1972) para raízes e Jenkins (1964) para solo, permitindo a identificação e a quantificação dos principais gêneros e espécies. A colheita das parcelas foi realizada no dia 2 de abril de 2025, de forma manual, utilizando como área útil duas linhas centrais de 4 m de comprimento por faixa, totalizando 8 m² por tratamento. Após a colheita, as amostras foram trilhadas mecanicamente para garantir a padronização. A produtividade foi calculada com base na massa de grãos, corrigida para 13% de umidade, permitindo uma análise comparativa da eficiência dos diferentes tratamentos nematicidas aplicados quanto ao seu impacto direto no rendimento da cultura. A tabela a seguir apresenta as médias populacionais de nematoides (indivíduos e ovos) por tratamento, estratificadas por época de avaliação (30 e 60 dias após a emergência - DAE) e tipo de extração (solo e raiz). As cores dispostas nos quadrantes indicam a eficiência dos tratamentos em relação à população de nematoides, calculada com base na fórmula de Abbott (1925). A classificação por cor é a seguinte: vermelho para controle inferior a 30%, amarelo para controle entre 30% e 70%, e verde para controle superior a 70%.
A ação reafirma o compromisso da Difusão Agrícola em levar conhecimento técnico de qualidade ao campo e apoiar os produtores rurais na tomada de decisões assertivas
28 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325
Os incrementos variaram entre 1,13 sc/ha e 8,70 sc/ha, evidenciando que a adoção de produtos nematicidas, sejam biológicos, químicos ou combinados, contribui significativamente para a redução dos danos causados pelos fitonematoides e para o aumento da produtividade da soja. Mesmo nos casos em que houve perda de eficiência ao longo do tempo, a proteção inicial ao sistema radicular foi determinante para melhores rendimentos, reforçando a importância de estratégias de manejo adequadas. Como podemos observar (na Tabela 1), os dados indicam uma alta pressão de Pratylenchus brachyurus na área experimental aos 30 e 60 dias após a emergência (DAE), com baixa eficiência da maioria dos tratamentos (inferior a 30%) aos 60 DAE, sugerindo efeito residual limitado. Para ovos no solo, houve desempenho mais consistente, com várias eficiências acima de 40%. Já em ovos na raiz, cinco tratamentos superaram 70% de eficiência, valor considerado eficaz. No caso de Heterodera glycines, onde presente, a maioria dos tratamentos obteve mais de 70% de controle, e em alguns casos não foram detectados indivíduos, indicando controle total. Esses resultados reforçam a importância de considerar os diferentes estágios e comportamentos dos nematoides, além da produtividade da cultura como indicador complementar. Destaca-se, ainda, que a distribuição irregular dos nematoides no solo e fatores ambientais podem influenciar a eficácia dos produtos, exigindo uma interpretação cuidadosa e avaliações contínuas.
Conclusões do experimento
Os melhores resultados obser-
Tabela 1 - eficiência (%) dos tratamentos, produtos comerciais (p.c.) e dose por hectare (L ou kg/ha) no controle de nematoides e ovos, quantificados aos 30 e 60 DAE. Fazenda São Judas Tadeu (CPDT-2), no município de Paraíso das Águas (MS). Safra 2024/2025 30 DAE
60 DAE
Modo de Aplicação
1
S
R
2
S
R
3
SP
55
265
115
Starfix + Lalrise Azos + Bioprotector + Onix + Lalnix Resist, 500 ml + 100 ml + 200 ml + 200 ml + 100 g/ha
SP3
43
155
Raiz F (TS) + Solus F, 0,2 ml/kg de semente + 2.000 ml/ha
TS4 + SP3
33
Elmo + Trichodermaiz, 150 ml + 50 g/ha
SP3
Trichodermil + Veraneio + Stingray, 100 ml + 50 g + 150 ml/ha Peregrino, 100 ml/ha
Tratamentos Verango, 500 mL.ha
-1
30 DAE
60 DAE
30 DAE
60 DAE
(Sacas/ha) (Sacas/ha)
S
R
1
S
R
2
1
S
R
2
1
S
R
2
1
S
R
2
*
*
250 72,5 3040
95
1310
0
0
0
0
0
0
0
0
77,16
77,16
183
558
45
495
118 3423
0
0
0
0
0
0
0
0
78,85
78,85
285
270
865
35
2128 253 4850
0
0
8
80
0
0
0
0
73,72
73,72
73
250
308 1088
93
883
180 5603
23
83
38
93
0
0
0
0
73,94
73,94
SP3
43
110
383 1083
35
493
165 4963
0
0
0
0
0
0
178
170
73,05
73,05
SP3
50
150
178
458
48
2915 148 3821
0
0
0
0
0
0
0
0
75,20
75,20
205
140
355
738
50
320
218 5703
0
0
0
0
1050 185 1750 1570
79,98
79,98
1
R
30 DAE 2
2
S
60 DAE 1
1
2
1° V3/V4 Leverage HLK, 100 ml (1°) + 50 ml/ha (2° e 3°) 2° V3/V4 + 15
3° V3/V4 + 30 Shocker (TS) + Profix (TS), 100 g + 100 g/ha
TS4
33
65
115
463
35
265
108 4328
0
0
0
0
0
0
0
0
77,42
77,42
Presence, 150 g/ha
SP3
25
63
188
520
28
278
165 5050
3
23
0
0
0
0
0
0
74,49
74,49
Biomagno, 200 ml/ha
SP3
40
120
195
495
53
563
170 4463
0
0
3
8
0
0
0
0
75,50
75,50
No-Nema + Tricho-Turbo + Bioenergy, 200 ml + 100 ml + 250 ml/ha
SP3
43
153
168
420
75
620
135 2588
0
0
0
0
0
0
0
0
76,08
76,08
Nitrosphera + Biostart + Bioaction-Power + Tricosphera, 500 ml + 300 ml + 150 ml + 100 ml/ha
SP3
25
68
273
525
25
230
208 3245
0
0
0
0
0
0
0
0
78,70
78,70
Nimaxxa (TS), 1,5 ml/kg de sementes
TS4
23
60
298
633
25
203
160 3113
0
0
0
0
0
0
0
0
80,62
80,62
Nimaxxa, 100 ml/ha
SP3
30
83
300 1008
23
325
235 5088
0
0
0
0
0
0
0
0
74,98
74,98
Ag-Dommon + Kit-Gammon, 75 g + 150 mL.ha-1
SP3
65
178
158
483
45
780
153 2760
8
50
30
10
0
0
0
0
77,28
77,28
Ilevo (TS) + Votivo (TS), 1 ml + 1 ml/kg de sementes
TS4
48
93
90
308
48
383
95
3130
0
0
0
0
0
0
0
0
76,64
76,64
Aveo Ez (TS) + EndoMaxx, 0,2 ml/kg de sementes + 150 ml/ha
TS4 + SP3
75
275
93
330
88
1198
65
2253
13
100
0
0
0
0
0
0
80,24
80,24
Testemunha
*
70
303
268
728
48
673
195 3433
30
145
165
240
0
0
0
0
71,92
71,92
0 a 30% de controle
30 a 70% de controle
vados foram obtidos via tratamento de sementes (TS), com destaque para o Tratamento 13 (Nimaxxa TS), com incremento de 8,70 sc/ ha, e o Tratamento 17 (Aveo Ez + EndoMaxx - TS), com 8,32 sc/ha. Além disso, o Tratamento 7 (Leverage HLK), aplicado via foliar em três momentos, também apresentou excelente desempenho, com 8,06 sc/ha de incremento, evidenciando o potencial dessa estratégia de aplicação. No cenário via sulco de plantio, destacaram-se o Tratamento 2 (Starfix + Lalrise Azos + Bioprotector
acima de 70% de controle
S1: Solo, R2: Raiz, SP3: Sulco de Plantio, TS4: Tratamento de semente.
+ Onix + Lalnix Resist) e o Tratamento 12 (Nitrosphera + Biostart + Bioaction-Power + Tricosphera), com incrementos de 6,93 sc/ha e 6,78 sc/ha, respectivamente, mostrando que, assim como o tratamento de sementes, a aplicação via sulco também se destaca com resultados positivos. Dessa forma, o estudo comprova que o produtor tem à disposição diferentes ferramentas de aplicação, todas com potencial de sucesso, o que amplia as possibilidades de escolha na tomada de decisão. De modo geral, todos os trata-
mentos avaliados proporcionaram incrementos produtivos satisfatórios, o que ressalta a importância do uso de nematicidas como parte fundamental no manejo integrado C de nematoides. Iryana Viana, Suélen Cristina da Silva Moreira, Guilherme Santana de Oliveira, Pricila Beatriz Oliveira Ferreira, Luiza Neckel Rufino, João Paulo Veríssimo, Marcelo Valentini Arf, André Luiz Juste Petenuci, Difusão Agrícola Consultoria e Pesquisa Agropecuária Ltda
Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 29
MILHO
Associação benéfica
O
Fungo entomopatogênico altera os voláteis do milho e atrai o parasitoide de ovos Telenomus podisi
uso de fungos entomopatogênicos no controle biológico de insetos é uma prática usada no campo há mais de 150 anos; a primeira produção massal e uso de um fungo (Metarhizium anisopliae) ocorreu no final do século XIX para o controle de besouros na Rússia. No Brasil, diferentes linhagens de Beauveria bassiana e M. anisopliae são utilizadas comercialmente para o manejo de importantes pragas agrícolas. Esses fungos são aplicados nas plantas na forma de suspensões
aquosas contendo esporos que entram em contato com os insetos-alvo, iniciando o processo de infecção. Entretanto, nas últimas duas décadas, estudos têm demonstrado que os efeitos desses microrganismos vão muito além do controle direto das pragas. Após a aplicação, algumas espécies podem colonizar os tecidos vegetais como endófitos, estabelecendo-se no interior da planta sem causar injúrias. Essa associação pode alterar o metabolismo vegetal, induzir mecanismos de defesa e aumentar a resistência das plantas
ao ataque de insetos e à infecção por patógeno. As plantas desenvolveram, ao longo da evolução, diferentes mecanismos de defesa contra herbívoros e fitopatógenos, classificados em defesas constitutivas e induzidas. As constitutivas estão presentes permanentemente nas plantas e incluem barreiras físicas (tricomas, espinhos, cutícula, arquitetura da planta) e químicas (compostos que reduzem a qualidade nutricional ou são tóxicos aos herbívoros e patógenos). Já as induzidas são desencadeadas por
30 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325 Foto Cecília Vieira
estímulos externos, como a herbivoria por insetos ou a infecção por microrganismos: após o reconhecimento desses estímulos, a planta desencadeia uma rede de sinalização que aumenta a produção de compostos de defesa, classificados em voláteis e não voláteis. Os compostos voláteis atuam como sinais químicos que medeiam as interações entre plantas e outros organismos, podendo alertar plantas vizinhas sobre a presença de herbívoros e atrair inimigos naturais, como parasitoides e predadores, contribuindo para o controle biológico das pragas. Já os não voláteis permanecem armazenados nos tecidos vegetais e exercem ação direta sobre os herbívoros. Dessa forma, as plantas empregam uma sofisticada combinação de defesas físicas e químicas, constitutivas e induzidas, para aumentar suas chances de sobrevivência. Na cultura do milho, os principais desafios fitossanitários relacionados a insetos-praga incluem o percevejo-barriga-verde (Diceraeus melacanthus), a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) e a cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis). O percevejo D. melacanthus migra das lavouras de soja para o milho safrinha em sistemas de plantio direto, onde encontra plantas jovens altamente suscetíveis ao ataque, principalmente nas primeiras semanas após a emergência. As injúrias causadas comprometem o desenvolvimento das plântulas e, em ataques severos, podem gerar perdas de produtividade superiores a 30%. O manejo dessa praga baseia-se predominantemente no uso de inseticidas químicos, embora existam também bioinseticidas comerciais à base de fungos entomopatogênicos, especialmente
Figura 1 - curvas de sobrevivência de Diceraeus melacanthus alimentado com plantas de milho submetidas à inoculação foliar com Beauveria bassiana (FF) e plantas de milho não tratadas (Controle), bem como com plantas provenientes de sementes inoculadas com B. bassiana (SF) e plantas não tratadas (Controle)
linhagens de B. bassiana e M. anisopliae, recomendados para seu controle. Assim, o trabalho recém-publicado por nossa equipe na revista científica Journal of Pest Science (Michereff et al. 2026) objetivou avaliar se uma linhagem de B. bassiana aplicada em plantas de milho seria capaz de colonizar os tecidos vegetais como fungo endofítico e alterar mecanismos de defesa direta ou indireta contra o percevejo-barriga-verde, D. melacanthus.
Estudos de laboratório
A partir de estudos preliminares com diferentes linhagens de fungos preservadas na Coleção de Fungos Agentes de Controle Biológico de Pragas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), foi identificado que a linhagem CG1105 do fungo B. bassiana apresentou potencial de infecção contra adultos do percevejo-barriga-verde, D. melacanthus, quando expostos a concentrações
altas de propágulos do patógeno. Após essa seleção, o fungo foi aplicado em concentrações mais baixas em plantas de milho por duas estratégias distintas: tratamento de sementes e aplicação foliar. No tratamento foliar, a pulverização foi realizada quando as plantas se encontravam no estádio vegetativo V3. Os resultados mostraram que a sobrevivência de adultos de D. melacanthus não foi afetada quando os insetos foram expostos às plantas tratadas com conídios do fungo, tanto nas sementes quanto nas folhas (Figura 1). Contudo, análises do tecido vegetal (folhas, raízes e haste) confirmaram a colonização endofítica da planta de milho pelo fungo. Ao analisarmos o perfil de compostos voláteis das plantas de milho submetidas aos diferentes tratamentos, observamos que as plantas inoculadas com o fungo apresentaram alterações significativas, emitindo níveis mais elevados de salicilato de metila, com-
Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 31
Figura 2 - perfil cromatográfico dos compostos voláteis de plantas de milho analisados por cromatografia gasosa acoplada ao detector de ionização de chama (CG-FID). 1. acetato de (Z)-3-hexenila, 2. limoneno, 3. linalol, 4. DMNT, 5. salicilato de metila, 6. indol, 7. ciclosativeno, 8. β-cariofileno, 9. (E)-β-farneseno, 10. α-cariofileno, 11. α-farneseno e 12. TMTT
Em contraste, as fêmeas foram significativamente mais atraídas pelos voláteis de plantas com inoculação foliar de B. bassiana, tanto isoladamente quanto combinada à herbivoria, em comparação ao ar limpo e às plantas não tratadas (Figura 5). A preferência do parasitoide pelas plantas infectadas com o fungo provavelmente está relacionada à produção de salicilato de metila, composto que vários estudos prévios já demonstraram ser atrativo a parasitoides e predadores.
Considerações finais
Figura 3 - quantidade de salicilato de metila liberada pelas plantas de milho submetidas aos diferentes tratamentos. As plantas tratadas com aplicação foliar do fungo liberaram maiores quantidades de salicilato de metila
parado aos outros tratamentos (composto 5, Figuras 2 e 3). Esses resultados demonstram que a associação com B. bassiana modifica a sinalização química volátil das plantas de milho. Em bioensaios de olfatometria de dupla escolha (um equipamen-
to que mede a resposta de preferência de insetos a compostos voláteis) (Figura 4), o parasitoide de ovos Telenomus podisi, inimigo natural do percevejo-barriga-verde, não apresentou preferência pelos voláteis de plantas provenientes de sementes inoculadas com o fungo.
32 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325
Diversos estudos têm demonstrado que a associação de plantas com microrganismos benéficos pode alterar seus mecanismos de defesa, influenciando a interação com insetos-praga, inimigos naturais e até polinizadores. Neste trabalho, verificamos que plantas de milho inoculadas com o fungo entomopatogênico B. bassiana, tanto por tratamento de sementes quanto por aplicação foliar, foram colonizadas pelo fungo, no entanto de forma irregular e em baixos níveis, menos de 20% do tecido foliar. Esse resultado ajuda a explicar por que o fungo não afetou diretamente o comportamento reprodutivo nem a sobrevivência do percevejo D. melacanthus. Por outro lado, mesmo com a colonização em baixos níveis, a associação com o fungo foi suficiente para modificar a emissão de compostos voláteis pelas plantas e alterar o comportamento do parasitoide de ovos Telenomus podisi. Vale destacar que esse efeito é gradual, a atração do parasitoide só foi observada no quinto dia após a inoculação foliar, indicando que a planta leva alguns dias para mudar sua sinalização química.
Figura 4 - esquema do olfatômetro de dupla escolha utilizado para avaliar a resposta comportamental do parasitoide de ovos Telenomus podisi aos compostos voláteis emitidos por plantas de milho submetidas aos diferentes tratamentos: herbivoria por Diceraeus melacanthus, aplicação de Beauveria bassiana, combinação de herbivoria e fungo, plantas controle e ar limpo
Esses resultados mostram que os fungos entomopatogênicos podem oferecer benefícios que vão além do controle direto das pragas; isto é, ao modificar a comunicação química das plantas, eles favorecem a atuação dos inimigos naturais, fortalecendo as defesas naturais da cultura. Esses estudos receberam financiamento da Embrapa, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF).
Figura 5 - preferência (proporção da primeira escolha ± intervalo de confiança de 95%) de fêmeas do parasitoide de ovos Telenomus podisi em olfatômetro em Y, em resposta aos compostos voláteis emitidos por plantas de milho, 120 h após a inoculação com Beauveria bassiana. Os tratamentos foram: plantas de milho não tratadas (Controle), plantas submetidas à herbivoria por Diceraeus melacanthus, plantas com aplicação foliar de B. bassiana, plantas com aplicação foliar de B. bassiana e posteriormente submetidas à herbivoria e ar limpo. O asterisco indica diferença significativa entre as fontes de odor
J Pest Sci 99, 88 (2026). https:// doi.org/10.1007/s10340-02602057-7 Esta versão é uma adaptação em linguagem acessível do artigo original, publicado sob licença Creative Commons Attribution 4.0 International (CC BY 4.0). Foram feitas adaptações de linguagem, seleção de conteúdo e formato para divulC gação em revista técnica.
Mirian F F Michereff, Rogerio Biaggioni Lopes, Isadora Alexopoulos Quevedo, Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia; Clenilson Martins Rodrigues, Embrapa Agroenergia; Raúl A Laumann, Miguel Borges, Maria Carolina Blassioli-Moraes, Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia
Referência do estudo completo
Michereff, M.F.F., Lopes, R.B., Quevedo, I.A. et al. Association of Beauveria bassiana with maize alters volatile organic compounds and enhances attraction of the egg parasitoid Telenomus podisi. Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 33 Foto Cecília Vieira
MILHO
Podridão C salmão da espiga Doença, causada por Waitea zeae, é um novo desafio nos milharais brasileiros; reconhecê-la e saber o que ainda falta para manejá-la corretamente são medidas fundamentais
huvas prolongadas na safrinha 2025/26 favoreceram podridões de espiga em áreas de Rondônia, Mato Grosso e Pará. Pesquisas pioneiras demonstraram que, em amostras com sintomas inicialmente confundidos com os das podridões causadas por Stenocarpella spp. ou Fusarium spp., estava presente W. zeae. Esse fungo causa uma podridão caracterizada pela presença abundante de micélio de coloração rosa-salmão e formação de escleródios, denominada podridão salmão da espiga (PSE). O diagnóstico correto é importante para compreender como a doença se desenvolve e se dissemina e para orientar seu manejo integrado.
Um problema despercebido?
Na safrinha 2025/26, a ocorrência intensa de podridões de espiga chamou a atenção em lavouras da fronteira agrícola da Amazônia meridional. Devido à semelhança visual com doenças já conhecidas, os sintomas foram inicialmente atribuídos a espécies de Stenocarpella, causadoras da podridão branca ou de diplodia, ou a espécies de Fusarium, associadas a podridões de coloração rósea. A análise de amostras coletadas ou encaminhadas a laboratórios, porém, indicou a presença de W. zeae em municípios de Rondônia, Mato Grosso e Pará (Figura 1). Entretanto, esses registros não significam que o fungo esteja restrito a esses locais, nem que todas as podridões observadas no campo sejam causadas pelo mesmo patógeno. O mapa representa pontos de detecção em amostras examinadas, e não um levantamento sistemático de prevalência ou distribuição.
Por que o fungo mudou de nome?
O fungo foi descrito pela primeira vez causando doença em milho nos Estados Unidos, em 1934, sob o nome Rhizoctonia zeae. Naquela época, sua identificação baseou-se principalmente nas características das colônias, das hifas e dos escleródios. Estudos filogenéticos posteriores demonstraram, contudo, que o organismo 34 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325 Foto Robson de Paula
Mensagem central
Figura 1 - locais com ocorrência de W. zeae em amostras de milho analisadas em 2026. Ocorrência baseada em análises realizadas no Laboratório de Genética e Genômica de Interações Planta-Patógeno/Universidade Federal de Viçosa (UFV), no Instituto Federal de Rondônia (IFRO) – campi Ariquemes e Colorado do Oeste (RO) - e na Fundação Rio Verde (MT). O mapa indica ocorrência, não prevalência municipal ou regional
A
cor rosa-salmão nas espigas ajuda no diagnóstico, porém a diagnose correta deve ser baseada no somatório de sintomas e sua associação com os sinais do fungo. Em casos duvidosos, é necessária a confirmação laboratorial.
não pertence ao gênero Rhizoctonia. Em 2021, a adoção do nome W. zeae passou a refletir mais adequadamente sua posição taxonômica. O uso correto do nome do patógeno evita associar indevidamente conceitos, doenças, ciclos biológicos e estratégias de manejo relacionados a organismos distintos. O emprego genérico do termo “rizoctoniose”, por exemplo, pode levar à interpretação equivocada de que as doenças anteriormente atribuídas a R. zeae apresentam o mesmo comportamento daquelas causadas por espécies de Rhizoctonia. Essa equivalência é equivocada e incorreta, com implicações impactantes no manejo. Por exemplo, espécies e isolados de Waitea e Rhizoctonia podem apresentar diferentes perfis de sensibilidade a fungicidas. Isso reforça sobremaneira a importância da identificação correta do agente etiológico.
Figura 2 - conjunto de sintomas e sinais característicos para a diagnose da PSE. A) Manchas na palha e bainhas (setas). B) Escleródios na palha. C) Linha avermelhada nos grãos. D-E) Espigas com a presença visível do micélio fúngico no campo. F) Diferenças visuais entre grãos infectados e sadios
Como reconhecer a doença?
A identificação no campo deve considerar o conjunto de sinais e sintomas. Nenhuma característica isolada é suficiente para um diagnóstico conclusivo. Os sintomas mais característicos da PSE incluem manchas irregulares e descontínuas nas brácteas da espiga e nas bainhas foliares, com bordas marrom-avermelhadas bem Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 35
Quadro 1 - quadro comparativo de sintomas e sinais associados com a PSE e outras doenças em milho
Doença/Patógeno
Sintomas
Podridão salmão / W. zeae (Figura 2)
Manchas descontínuas na palha da espiga e nas bainhas. Linha avermelhada nos grãos
Podridão branca / Stenocarpella spp. (Figura 3A e 3C)
A doença começa na base da espiga e progride em direção à ponta. As espigas apresentam grãos marrons, enrugados e com micélio branco entre as fileiras de grãos.
Micélio branco-calcário sobre os grãos na espiga. Picnídios negros nos tecidos infectados.
Sintomas variam com ambiente e estádio de desenvolvimento da planta
Podridão rósea / Fusarium spp. (Figura 3B e 3D)
Grãos isolados ou em grupos, deteriorados. Grãos com estrias esbranquiçadas
Micélio branco a rosado nos grãos apodrecidos
Várias espécies podem estar envolvidas
Doenças causadas por Rhizoctonia spp. (Figura 4)
Manchas ocorrem de forma ascendente em faixas contínuas, iniciando nas bainhas e folhas próximas ao solo.
Escleródios grandes e marrons
Não confundir “rizoctoniose” com a PSE
definidas e centro mais claro (Figura 2A); uma faixa avermelhada nos grãos que, quando observada em seção transversal da espiga, forma um círculo. Em algumas situações a linha avermelhada pode estar restrita a área colonizada (Figura 2C); grãos descoloridos, opacos e deteriorados, com perda visível de qualidade quando a colonização é intensa (Figura 2F). Entre os sinais do patógeno, destacam-se pequenos escleródios rosa-alaranjados a marrom-avermelhados, formados principalmente nas faces interna e externa das brácteas (Figura 2B), e o crescimento denso de micélio rosa-salmão, que pode recobrir parcial ou totalmente a espiga em estádios avançados da doença (Figuras 2D e 2E).
Por que diferenciar?
Em algumas situações, a PSE foi
Sinais
Cuidado na interpretação
Micélio rosa-salmão sobre a palha e grãos na espiga. A cor rosa-salmão do micélio isoladamenEscleródios pequenos rosa-alaranjados a marrom-avermelhados. te não confirma a presença de W. zeae.
confundida com a podridão branca /podridão de diplodia causada por Stenocarpella spp. e com a podridão rósea causada por Fusarium spp. e, em casos mais isolados, com sintomas de doenças causadas por Rhizoctonia spp. O quadro comparativo (Quadro 1) e as imagens das Figuras 2, 3 e 4 ajudam na diferenciação a campo. Em casos duvidosos, recomenda-se, também, a confirmação laboratorial. Isso é importante, pois o diagnostico orienta decisões de manejo, análise de qualidade de grãos e pesquisa.
Como o fungo W. zeae chega à espiga?
Os escleródios produzidos nos tecidos colonizados retornam ao solo com os restos de cultura e contribuem para a sobrevivência do fungo entre safras. Em ambiente favorável, essas es-
Figura 3 - sintomas característicos da podridão branca e da podridão rósea: A e C) podridão branca causada por Stenocarpella spp.; B e D) podridão rósea causada por Fusarium spp. A identificação visual serve como diagnóstico. Casos duvidosos, porém, exigem confirmação laboratorial
truturas podem germinar e produzir micélio que coloniza os restos culturais. As bainhas próximas ao solo podem ser infectadas pelo crescimento do micélio proveniente desses resíduos. A infecção de espigas localizadas bem acima da superfície do solo sugere, entretanto, o envolvimento de propágulos transportados pelo vento. Uma das possibilidades em investigação é a participação de basidiósporos produzidos em basidiomas formados sobre os restos culturais. A contribuição relativa dos escleródios, das sementes, dos hospedeiros alternativos e dos resíduos de diferentes culturas para a sobrevivência e a disseminação do patógeno também precisa ser esclarecida. A Figura 5 apresenta o ciclo proposto para a PSE e destaca as etapas que ainda requerem estudos adicionais e comprovação experimental. O ciclo evidencia a possível necessidade de coincidência temporal entre as condições ambientais favoráveis à produção e dispersão do inóculo capaz de alcançar as espigas, e a janela de suscetibilidade destas à infecção.
Testes em placas
O crescimento de isolados de W. zeae, S. macrospora, S. maydis e B. maydis foi avaliado em placas com meio de cultura suplementado com diferentes ingredientes ativos, nas concentrações de 10 mg/L, 50 mg/L e 100 mg/L. 36 • revistacultivar.com.br • Cultivar Grandes Culturas 325
Lacuna epidemiológica
Figura 4 - sintomas e sinais associados a Rhizoctonia spp. em milho. A, B) Colonização iniciada em tecidos próximos ao solo. C, D) Avanço pelas bainhas e folhas, com formação de escleródios visíveis a olho nu. E, F) Colonização generalizada de bainhas, brácteas e folhas, com detalhe dos escleródios na superfície dos tecidos. Esse quadro não deve ser confundido com a podridão salmão da espiga
A
inda não foram definidos o período crítico de infecção das espigas, a principal fonte de inóculo do fungo, a distância pela qual ele pode se dispersar nem as condições de temperatura e umidade necessárias para a ocorrência de epidemias. A mensuração do crescimento micelial permitiu comparar a ação fungitóxica direta desses ingredientes ativos sobre os fungos avaliados. Os resultados evidenciaram diferenças importantes entre espécies, ingredientes ativos e isolados. Entre as carboxamidas testadas, bixafem apresentou maior fungitoxicidade contra as diferentes espécies, enquanto ciclobutrifluram e pidiflumetoem foram mais fungitóxicos contra S. maydis do que contra S. macrospora. Os triazóis e o tiofanato metílico inibiram fortemente o crescimento dos isolados testados. Nas condições do ensaio, piraclostrobina apresentou maior fungitoxicidade do que azoxistrobina (Figura 6). Os isolados de W. zeae provenientes de Mato Grosso e Rondônia apresentaram respostas distintas aos ingredientes ativos. Os triazóis e a piraclostrobina exibiram maior fungitoxicidade contra os isolados avaliados, enquanto tiofanato metílico, azoxistrobina, fluopiram e ciclobutrifluram apresentaram baixa atividade (Figura 7). As carboxamidas, o difenoconazol e o mefentrifluconazol apresentaram elevada fungitoxicidade contra os isolados de B. maydis. Protioconazol, azoxistrobina e tiofanato metílico, por sua vez, proporcionaram níveis moderados de inibição do crescimento micelial. O aumento da concentração de piraclostrobina resultou em incre-
mento da fungitoxicidade, embora a magnitude desse efeito tenha variado entre os isolados (Figura 8). Esses resultados demonstram a atividade fungitóxica dos ingredientes ativos in vitro, mas não comprovam, isoladamente, sua eficiência agronômica no controle das doenças em condições de campo.
Que fazer na lavoura?
Enquanto não houver recomendações validadas especificamente para a PSE, as prioridades são produzir informação confiável e reduzir decisões baseadas apenas na aparência da espiga. Portanto, sugere-se: ● Mapear os talhões, os híbridos, as datas de semeadura, a sucessão
de culturas, as condições de chuva e temperatura, o estádio de aparecimento da doença e a distribuição dos sintomas. ● Coletar espigas representativas, incluindo diferentes níveis de severidade, e confirmar a diagnose por análise laboratorial. ● Evitar recomendar fungicidas com base apenas em cor do micélio ou em resultados de laboratório. ● Evitar a utilização de híbridos que nas condições locais e na mesma época de semeadura tenham apresentado maior incidência e severidade da PSE (Figura 9). ● Avaliar separadamente a produtividade, qualidade dos grãos, a germinação das sementes e possível presença de outros fungos produtores de micotoxinas, evitando con-
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Figura 5 - ciclo hipotético da podridão salmão da espiga (PSE) causada por W. zeae. As linhas pontilhadas e interrogações indicam etapas que ainda precisam ser comprovadas em condições controladas e no campo
fundir doenças diferentes e outros fungos responsáveis por cada uma delas.
Evidências e dúvidas
O surgimento da PSE abriu caminho para diversas pesquisas, desde estudos básicos até trabalhos voltados à solução do problema no
campo. Embora já tenha sido comprovado que o fungo W. zeae causa a doença, ainda há questões importantes sobre onde ela ocorre, como se desenvolve e se dissemina, quais prejuízos pode provocar e como pode ser manejada. Atualmente, os estudos avançam em seis frentes principais: • Confirmação da causa da do-
Figura 6 - inibição do crescimento micelial de S. macrospora e S. maydis por diferentes ingredientes ativos e concentrações. Cores mais intensas indicam maior inibição in vitro
ença - Já foi comprovado, em condições controladas e no campo, que W. zeae é capaz de causar a PSE. Também está claramente estabelecido que esse fungo pertence ao gênero Waitea e não ao gênero Rhizoctonia, no qual era anteriormente classificado. • Distribuição geográfica - Na próxima safra, serão realizados levantamentos amostrais planejados para identificar onde W. zeae está presente e avaliar a ocorrência e importância da PSE nas diferentes regiões produtoras. • Desenvolvimento e disseminação da doença - Os estudos buscam identificar onde o fungo sobrevive e de onde parte a infecção, quais plantas podem hospedá-lo, em que período as espigas são mais vulneráveis, como o fungo se dispersa e quais condições ambientais favorecem a produção do inóculo e a infecção das espigas. • Impacto econômico e qualidade dos grãos - Serão avaliadas as perdas de produtividade e os efeitos da doença sobre o peso e a qualidade dos grãos. Também será investigada a possível presença de outros fungos nos grãos e de micotoxinas produzidas por eles, evitando atribuir à W. zeae efeitos causados por outros fungos. • Resistência genética - O comportamento de híbridos comerciais será avaliado em diferentes ambientes e épocas de semeadura, com o objetivo de distinguir a resistência genética de
O que não se pode concluir
A
fungitoxicidade em placas não comprova o controle da PSE na lavoura. É necessário avaliar, em ensaios de campo, a época e a dose de aplicação, a capacidade do fungicida de atingir a espiga, sua persistência e retorno econômico. Esses estudos devem considerar o manejo integrado das podridões da espiga e das manchas foliares predominantes no sistema de produção.
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escape fenológico. Avaliações em condições controladas de inoculação serão necessárias para confirmar as diferenças observadas em campo. ● Manejo integrado da doença - Serão avaliadas diferentes medidas para reduzir as fontes de inóculo, o efeito da época de semeadura sobre a ocorrência da doença e o momento mais adequado para a aplicação de fungicidas. Os ensaios de campo deverão verificar não apenas se essas medidas reduzem a doença, mas também se o benefício obtido compensa o custo de sua adoção.
Figura 7 - inibição do crescimento micelial de isolados de W. zeae. A diferença entre isolados reforça a necessidade de ampliar o número de isolados analisados antes de extrapolar os resultados
Diagnóstico antes do manejo
A principal contribuição desta publicação é chamar a atenção para uma podridão da espiga que pode estar sendo confundida com outras doenças ou problemas. W. zeae não é um fungo recém-descoberto, mas sua importância nos sistemas intensivos de produção de milho no Brasil ainda não é bem compreendida. Reconhecer os sintomas da PSE e os sinais de W. zeae é o primeiro passo para o seu correto manejo. Entretanto, como esse quadro sintomatológico pode ser semelhante ao de outras podridões, a análise laboratorial é necessária para confirmar o diagnóstico e o patógeno envolvido. O desafio agora é compreender como W. zeae sobrevive e se dissemina, como a infecção ocorre e quais condições ambientais favorecem o desenvolvimento da doença no Brasil. Enquanto essas questões não forem esclarecidas, a conduta mais responsável não é aumentar preventivamente o uso de fungicidas, mas combinar o diagnóstico correto, o acompanhamento das lavouras, o plantio de híbridos menos suscetíveis e a realização de ensaios de manejo com fungicidas nos híbridos mais suscetíveis. Medidas de manejo devem ser recomendadas quando os resultados obtidos em laboratório e em condições controladas forem confirmados, de maneiC ra consistente, no campo.
Figura 8 - inibição do crescimento micelial de isolados de B. maydis. Cores mais intensas indicam maior fungitoxicidade in vitro
Figura 9 - elevada incidência de PSE em espigas de um híbrido comercial. Essa reação foi consistente em diferentes regiões do MT e de RO, demonstrando uma elevada suscetibilidade. Os asteriscos (***) destacam uma espiga com sintomas causados por Fusarium sp.
Jaisson Branco, Carlos A. K. Utiamada, Mariana S. R. Lima, Arthur R. Queiroz, Iris Fernanda N. Oliveira, Emanuelle B. Rozaes, Bruna Deiss, Rafael P. Dalonso, Augusto Carvalho, Sérgio H. Brommonschenkel, Departamento de Fitopatologia/Bioagro - UFV Cultivar Grandes Culturas 325 • revistacultivar.com.br • 39
ALGODÃO
Monitoramento necessário Mesmo como praga secundária, Dysdercus spp. precisam continuar sendo observados, pois mudanças no sistema de produção podem alterar sua importância
N
a maior parte das lavouras empresariais de algodão do Brasil, encontrar um percevejo-manchador não costuma ser motivo para intervenção. Insetos do gênero Dysdercus estão presentes em diferentes regiões produtoras, mas geralmente em baixa densidade. A destruição dos restos culturais reduz a disponibilidade de alimento e abri-
go, enquanto as aplicações dirigidas ao principal inseto-praga do algodoeiro, o bicudo-do-algodoeiro, Anthonomus grandis, atingem suas populações de forma incidental. No Cerrado, percevejos migrantes da soja também exploram o algodoeiro como alimento alternativo e podem ocupar esse espaço antes do manchador. Mesmo como praga secundária, o percevejo-mancha-
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dor precisa continuar no radar do monitoramento, pois mudanças no sistema de produção podem alterar sua importância. Vermelho, gregário e de fácil reconhecimento, esse percevejo é um antigo habitante das lavouras de algodão. Pertencente à família Pyrrhocoridae, permanece como praga secundária na maior parte das regiões produtoras, com populações baixas e ocor-
Fotos Bruna Mendes Diniz Tripode
B
A
C
Detalhes do aparelho bucal de Dysdercus sp.: (A) vista ventral; (B) vista lateral, evidenciando o rostro perfurador-sugador alongado, utilizado pelo inseto para penetrar as estruturas do algodoeiro e alcançar as sementes; (C) casal em cópula, com detalhe da região ventral do abdome
rências localizadas. Cerca de 15 espécies do gênero Dysdercus são registradas no Brasil. D. peruvianus, D. maurus e D. ruficollis estão entre as de maior importância econômica. A história da cotonicultura mostra, entretanto, que esse cenário não é igual em todos os sistemas de produção. Em áreas de agricultura familiar, com menor uso de inseticidas e manejo distinto daquele adotado nas grandes propriedades, o percevejo-manchador pode alcançar densidades capazes de causar prejuízos. A expansão do algodão para novas regiões, as alterações climáticas e uma eventual redução das pulverizações contra o bicudo também podem modificar o espaço ocupado por essa praga. Mais importante do que registrar sua presença é entender em quais condições a população pode aumentar e causar danos.
Qualidade das sementes
Adultos e ninfas introduzem o aparelho bucal nas maçãs e nos capulhos para alcançar as sementes. Esses insetos alimentam-se principalmente de frutos e
sementes de plantas da ordem Malvales, podendo reduzir o teor de óleo e a viabilidade das sementes. Os lipídios são essenciais para os insetos sugadores de sementes, principalmente em períodos de maior demanda energética. A preferência de Dysdercus pelo algodão tem relação com a composição das sementes, que contêm entre 14% e 25% de lipídios. Estudos com Dysdercus maurus mostram que essa composição faz diferença. Sementes com menor teor de óleo reduziram a sobrevivência das ninfas, sobretudo nos primeiros estágios. Quando alimentadas com sementes mais ricas em óleo, as fêmeas atingiram maior peso e algumas características corporais dos adultos também se alteraram, como o comprimento do corpo e a largura da cabeça. O teor de óleo não deve orientar sozinho a escolha de uma cultivar, que depende principalmente da produtividade, da qualidade da fibra e da adaptação regional. Os resultados indicam, contudo, que a composição das sementes interfere no desenvolvimento do inseto e pode ajudar
a explicar diferenças observadas entre genótipos e plantas hospedeiras.
Hospedeiras e alimentação
O algodoeiro é um hospedeiro importante, mas espécies de Dysdercus utilizam várias outras plantas. Entre os registros estão quiabo, hibisco, guanxuma, guaxima, paineira, barriguda e outras malváceas. A literatura também menciona alimentação em milho, milheto, sorgo, trigo, berinjela e citros. Muitos desses registros correspondem a diferentes espécies de Dysdercus e condições geográficas distintas. Portanto, essas plantas não apresentam necessariamente o mesmo grau de adequação ao inseto nem representam o mesmo risco para a cotonicultura brasileira. A oferta de frutos e sementes muda ao longo do ano. Assim, o inseto pode se deslocar entre hospedeiros que entram em frutificação em épocas distintas, permanecendo no ambiente quando as estruturas reprodutivas do algodoeiro não estão
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Adulto de percevejo-manchador, Dysdercus sp., sobre maçã de algodoeiro
disponíveis. A presença dessas plantas no entorno merece ser registrada durante os levantamentos, mas isso não implica recomendação de retirada da vegetação, especialmente quando se trata de espécies nativas. Também há registros de consumo de néctar, exsudatos de plântulas e substâncias açucaradas produzidas por outros insetos, além de saprofagia, canibalismo e predação. A importância desses comportamentos para a manutenção das populações brasileiras do inseto ainda é pouco conhecida.
Comportamento gregário
A formação de agregações é comum em Dysdercus e ocorre de forma mais pronunciada nos primeiros estágios ninfais. Ninfas mais desenvolvidas e adultos tendem a se dispersar. A vida em grupo pode conferir vantagens, como proteção contra predadores, maior eficiência no acesso ao alimento, facilitação da reprodução, contribuição para a termorregulação e redução da perda de água. Temperatura, umidade, luminosidade, idade e espécie interferem nesse comportamento. Em estudos realizados com dife-
rentes espécies de Dysdercus, o aumento da temperatura elevou a atividade dos insetos e reduziu as agregações. Os agrupamentos foram mais intensos nos períodos escuros e frios e menos frequentes nos períodos claros e quentes. A resposta à umidade é mais complexa; há registros de maior agregação durante a estação chuvosa e sob alta umidade relativa, mas também de efeito inibitório da umidade do substrato em estágios ninfais mais avançados. Essas variações recomendam cautela na interpretação de observações isoladas. Uma população distribuída em focos pode passar despercebida quando poucos pontos são examinados. Ainda faltam estudos que permitam transformar temperatura, umidade e horário em um protocolo de amostragem para as espécies de importância econômica no Brasil. Enquanto isso, é útil registrar as condições da inspeção e observar estruturas reprodutivas, possíveis pontos de agregação e bordaduras.
Injúrias no algodoeiro
Os ataques concentram-se nas estruturas reprodutivas. Quando o inseto se alimenta das
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sementes de maçãs jovens, as perfurações feitas pelo aparelho bucal podem provocar queda prematura ou deformação da estrutura, conhecida como “bico-de-papagaio”. Quando o ataque ocorre em estruturas mais desenvolvidas, pode haver abertura defeituosa dos capulhos, redução do vigor e da viabilidade das sementes e diminuição do teor de óleo. Na fibra, a consequência mais conhecida é o manchamento, que reduz a qualidade e o valor comercial do produto. Esses danos não decorrem de uma única causa. A alimentação pode favorecer o extravasamento do conteúdo das sementes, e as perfurações abrem caminho para fungos e bactérias. Entre os microrganismos associados está o fungo Eremothecium gossypii, que contribui para o manchamento da fibra e o apodrecimento dos capulhos. Como parte dos sintomas só se torna evidente mais tarde, com a abertura dos capulhos, avaliar apenas a presença de adultos não basta. É preciso relacionar a população observada à fase da cultura e procurar sinais de dano em maçãs, sementes e capulhos.
Experiência australiana
O Guia Australiano de Manejo de Pragas do Algodoeiro 20252026 inclui duas espécies de percevejos-manchadores: Dysdercus sidae, considerada praga ocasional nas regiões do Sul, e Dysdercus cingulatus, encontrada no Norte, onde seu status ainda não está totalmente confirmado. O guia trata esses insetos juntamente com outros percevejos que atacam as estruturas reprodutivas e utiliza critérios objeti-
do percevejo-manchador nas grandes áreas brasileiras e não indicam a necessidade de pulverizações preventivas ou da eliminação de plantas hospedeiras no entorno das lavouras. Conhecer a biologia do inseto é importante justamente para reduzir o risco de confundir sua simples presença com a necessidade de controle. É necessário identificar corretamente o inseto, distribuir bem as amostras pela área, registrar as condições do levantamento, examinar bordaduras e possíveis fontes de infestação e procurar danos nas estruturas reprodutivas. Para avançar, ainda são necessários ensaios de campo,
levantamentos regionais e estudos sobre o comportamento de agregação, capazes de melhorar a interpretação das ocorrências e apoiar o estabelecimento de critérios de decisão para as condições brasileiras. Enquanto esses critérios não são estabelecidos, conhecer o histórico da área e interpretar corretamente os sinais observados no campo são o melhor caminho para decidir se é necesC sário intervir. Bruna Mendes Diniz Tripode, Carlos Alberto Domingues da Silva, Gabriela Souza Silva Goulart, José Ednilson Miranda, Embrapa
Fotos Bruna Mendes Diniz Tripode
vos para transformar a amostragem em decisão de manejo. Durante o desenvolvimento das maçãs, a contagem é convertida em “equivalentes de adultos” do percevejo-verde Nezara viridula, principal espécie do grupo naquele sistema. Na conversão adotada pelo guia, cada indivíduo de D. sidae corresponde a 0,33 adulto de N. viridula. Como o limiar por pano de batida é de um adulto equivalente por metro, aproximadamente três indivíduos de D. sidae por metro atingiriam esse valor. Depois da abertura do primeiro capulho, se houver percevejos-manchadores e manchamento da fibra, o guia considera como referência 30% de capulhos afetados. Também recomenda abrir maçãs de diferentes idades para procurar danos internos, que podem demorar cerca de uma semana para se tornar visíveis. Esses números não devem ser transferidos diretamente para o Brasil, pois foram estabelecidos para outras espécies, outras condições ambientais e outros sistemas de produção. Mais do que fornecer um número para comparação, a experiência australiana mostra a importância de identificar corretamente os insetos, considerar a fase de desenvolvimento das ninfas, associar a população observada aos danos e trabalhar com critérios de decisão validados. No Brasil, ainda faltam limiares de ação estabelecidos para D. peruvianus, D. maurus e D. ruficollis nas diferentes realidades de produção.
Monitorar melhor antes de decidir
As informações apresentadas não mudam o status atual
Agrupamento de adultos de Dysdercus sp. observado no solo, evidenciando o comportamento gregário característico do gênero
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Coluna ANPII Bio
Disponibilização de bioinsumos eficazes
A
agricultura brasileira alcançou elevados níveis de produtividade, combinando genética, manejo, tecnologia e defensivos agrícolas. Entretanto, a resistência de patógenos e a redução da eficiência de algumas ferramentas químicas reforçam a necessidade de ampliar as estratégias disponíveis ao produtor. Nesse contexto, bioinsumos não devem ser vistos como substitutos dos agroquímicos, mas como ferramentas complementares dentro de programas de manejo integrado. A ferrugem-asiática da soja, causada por Phakopsora pachyrhizi, demonstra a dimensão desse desafio. Na safra 2003/2004, as perdas foram estimadas em 4,6 milhões de toneladas, equivalentes a aproximadamente US$ 1,22 bilhão. Somados os custos de controle, o impacto econômico chegou a cerca de US$ 2,08 bilhões (Godoy et al., 2016). Uma meta-análise baseada em nove safras brasileiras também confirmou a relação direta entre o aumento da severidade da doença e a redução da produtividade da soja (Dalla Lana et al., 2015). O controle químico continua fundamental, mas a pressão de seleção sobre o patógeno torna indispensável diversificar o manejo. Uma análise de 250 experimentos conduzidos durante dez safras apontou redução da eficácia de diferentes fungicidas ao longo do período. O trabalho, publicado em 2018 na Plant Disease, foi posteriormente identificado como “withdrawn” no repositório da Louisiana State University e, por isso, deve ser considerado apenas como evidência complementar, e não como sustentação central desta análise. É justamente nessa diversificação que os bioinsumos podem assumir papel estratégico. Santos et al. (2022) avaliaram durante dois anos um produto à base de Bacillus subtilis aplicado em soja. A integração do biológico ao manejo químico reduziu a severidade da
ferrugem-asiática em 82% em relação à testemunha, enquanto tratamentos contendo o biológico apresentaram produtividade 25% superior à testemunha. O estudo mostrou, ainda, que o momento da aplicação importa: fungicidas aplicados simultaneamente reduziram o crescimento da bactéria, enquanto a aplicação anterior do Bacillus apresentou melhor compatibilidade. Resultados posteriores reforçaram essa possibilidade. Santos et al. (2024) avaliaram o produto durante três safras consecutivas e observaram redução de pelo menos 75% na severidade da ferrugem, além de aumento de produtividade quando o biológico foi seguido pelo manejo químico. Os resultados não significam que bioinsumos substituirão agroquímicos nem que esses percentuais serão reproduzidos em todas as lavouras. Demonstram que diferentes mecanismos de controle podem ser integrados para tornar o manejo mais robusto e contribuir para preservar a eficiência das tecnologias existentes.
Quanto custa o tempo?
É fundamental separar resultado experimental de projeção econômica. O ganho de produtividade de 25% observado por Santos et al. (2022) ocorreu em condições específicas e não pode ser extrapolado para toda a agricultura brasileira. Mas um exercício conservador ajuda a demonstrar a dimensão econômica da oportunidade. Considerando uma produtividade de referência de 61,3 sacas por hectare, preço hipotético de R$ 146,70 por saca e os 47,4 milhões de hectares de soja projetados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra 2024/2025, uma recuperação hipotética de apenas 5% da produtividade em 10% dessa área representaria aproximadamente 14,5 milhões de sacas - ou 872 mil toneladas adicionais de soja -,
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equivalentes a cerca de R$ 2,13 bilhões em valor bruto. Essa é uma simulação econômica de escala, não uma estimativa de ganho proporcionado pelo Bacillus subtilis. Ela demonstra que mesmo pequenas recuperações de produtividade, quando aplicadas à dimensão da agricultura brasileira, podem representar centenas de milhares de toneladas e bilhões de reais. É aqui que a discussão se torna também regulatória. O Brasil já possui um marco legal específico, a Lei nº 15.070/2024, e o desafio está em sua regulamentação e operacionalização. Tecnologias sem comprovação de qualidade, segurança e eficácia não devem chegar ao campo; mas tecnologias cientificamente validadas também precisam encontrar um caminho regulatório eficiente para chegar ao produtor. Agilidade regulatória não significa menor rigor técnico. Significa fazer com que rigor científico e eficiência regulatória caminhem juntos. O produtor precisa ter acesso a todas as ferramentas disponíveis: agroquímicos, bioinsumos, genética e manejo integrado. A experiência da ferrugem-asiática mostra que depender de poucos mecanismos de controle aumenta a vulnerabilidade do sistema produtivo, enquanto a integração de tecnologias amplia as possibilidades de manejo. O tempo também possui valor econômico. Cada período em que uma tecnologia eficaz, segura e cientificamente validada permanece indisponível pode representar produtividade que deixa de chegar ao campo. Por isso, regulamentar bioinsumos não é apenas discutir registros. É discutir quanto o Brasil pode produzir, quanto pode deixar de perder e quanto valor pode ser gerado quando ciência, regulação e agricultura avançam no C mesmo ritmo. Larissa Bonotto, diretora de operações da ANPII Bio
Coluna Agronegócios
Boas práticas para integrar abelhas e agricultura
A
o alvorecer do século XXI ocorreram diversos casos de mortalidade de colônias de abelhas, devido à aplicação de agrotóxicos. Esses incidentes chamaram a atenção de técnicos e de entidades, públicas e privadas, de associações e das empresas produtoras de agrotóxicos. Afinal, os pesticidas foram desenvolvidos para proteger culturas e não para afetar negativamente a biodiversidade. No início, os principais problemas se concentravam nos canaviais e pomares de citros. No entanto, justamente nessa época, os apicultores começaram a descobrir que a soja poderia ser um excelente pasto apícola. Apicultores pioneiros migraram seus apiários para a borda dos cultivos de soja. As excelentes colheitas de mel confirmaram o potencial da cultura como planta apícola. Mas, como toda inovação, alguns problemas não tardaram a surgir, incluindo casos de mortalidade de colônias de abelhas.
O sojicultor também se beneficia
Era necessário tomar atitudes para resolver a situação. Os pesquisadores verificaram que a presença de abelhas na lavoura de soja redundava em ganhos de produtividade. Com polinização suplementar por abelhas, a produtividade da soja aumenta entre 10% e 20%, um índice apreciável. Assim que os agricultores perceberam que se protegessem as abelhas nas imediações de suas lavou-
ras, também seriam beneficiados. Não apenas com ganho de produtividade, mas, também, de sustentabilidade, já que na COP-30 foi demonstrado (bit.ly/4ziL5WJ) que o uso de polinização suplementar na soja diminui a emissão de gases de efeito estufa - que causam as mudanças climáticas - em mais de 25%.
Boas práticas
Para que tanto agricultores quanto apicultores se beneficiassem, foi organizado um grande esforço, fruto de uma parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a BASF, para identificar, testar e validar boas práticas, que permitissem uma integração harmônica entre abelhas e agricultura. Foram mais
As boas práticas foram publicadas em forma de cartilha pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), disponível para download em bit. ly/3UDEEgJ, com múltiplos acessos. Também existe um curso de ensino a distância para treinamento de interessados (bit. ly/4qnmCeI)
de cinco anos de trabalho, envolvendo pesquisadores, professores, apicultores, agricultores e diversos técnicos, até obter um conjunto de boas práticas (apícolas, agrícolas e de comunicação), com comprovação no campo de que, com o seu uso, não ocorriam casos de mortalidade de abelhas. As boas práticas foram publicadas em forma de cartilha pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), disponível para download em bit.ly/3UDEEgJ, com múltiplos acessos. Também existe um curso de ensino a distância para treinamento de interessados (bit.ly/4qnmCeI). Além disso, diversos cursos presenciais estão sendo oferecidos pelo Senar e por órgãos de assistência técnica. Essa cartilha também serviu de base para um protocolo de boas práticas, adotado pelo governo do Paraná. A cartilha acima descrita é um verdadeiro caso de sucesso, sendo muito bem recebida por técnicos, agricultores e apicultores. O desafio agora é expandir sua implantação no campo, pois onde seus ensinamentos estão sendo adotados elimina-se a mortalidade de abelhas por agrotóxicos, permitindo que apicultores e agricultores se beneficiem financeiramente e o Brasil tenha mais um exemplo da sustenC tabilidade de sua agricultura. Décio L. Gazzoni, ABCA; Maurício do C. Fernandes, BASF; Aldo Machado dos Santos, apicultor
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Coluna Mercado Agrícola
Safra começa e novo recorde de plantio é esperado
O
s produtores estão plantando as primeiras áreas da safra brasileira, com algumas lavouras de arroz, milho (no Sul) e soja. Grande parte do setor produtivo se preocupa com o clima. Os meteorologistas continuam apontando para o Super El Niño e seus riscos. Há dúvidas sobre como tocar a safra. Alguns produtores fizeram redução de investimento e outros esperam para ver como se resolverá a questão. Isso poderá comprometer o potencial produtivo da nova safra. Apesar da situação preocupante, pelo que tem sido visto, há indicativos de crescimento novamente da área total da primeira safra, com expansão da soja e queda para o milho e
o arroz. O feijão poderá apresentar um pouco de crescimento. No global dessa primeira safra, há possibilidade de avanço, podendo passar de meio milhão de hectares plantados. Persiste, contudo, a preocupação sobre o resultado que será alcançado. Os custos cresceram, o que gera impacto nos investimentos dos produtores, que já estão muito endividados. Com as novas regras que entrarão em vigor no mercado internacional, será um ano de negociações difíceis para o setor. No restante do quadro, porém, há previsão de melhora nas cotações médias, apontando para uma safra de valor maior. Melhor ainda será, se ocorrer uma produção maior.
Milho
Feijão
O milho está colhido, com atraso. Veio novamente uma grande safra, com mais de 111 milhões de toneladas da safrinha. São mais de 140 milhões de toneladas da produção total e com demanda total forte, com mais de 100 milhões de toneladas no consumo interno e mais de 40 milhões de toneladas para exportação. Será um ano apertado, com consumo de estoques. Os indicativos já mostravam alta em agosto e devem continuar em crescimento, a partir de setembro.
O mercado do feijão teve altas cotações neste meio do ano. Depois, queda forte em julho e começo de agosto. Mostrou reação no final de agosto e deve ter vazio de ofertas em setembro e outubro. Assim, as cotações deverão melhorar novamente, com o plantio da primeira safra em andamento e indicativos de que poderá ter crescimento da área. O produtor espera vender melhor neste mês de setembro e em outubro o feijão que restar. Com expectativa de boa demanda.
Soja
O mercado do arroz do Brasil teve em agosto forte reação nas cotações. Houve grande crescimento na demanda do varejo que voltou pesado às reposições. Isso fez as indústrias buscarem matéria-prima junto aos produtores. Temos um ano apertado, com safra de 11 milhões de toneladas. A demanda interna poderá ser igual ou maior do que a produção. A importação e a exportação ficam como balança para equilíbrio. Como a exportação é muito maior do que a importação, ocorrerão aperto e queda nos estoques. O arroz poderá avançar mais e superar bem a casa dos R$ 80 no Rio Grande do Sul, que teve níveis abaixo dos R$ 60 e agora está esperando no final do ano atingir níveis próximos dos R$ 90.
O Brasil está com o plantio começando neste mês de setembro. Sinais indicam que há crescimento da área, causado pela alta ocorrida no mercado em julho e agosto. As cotações mais atrativas e rentáveis levam os produtores para avanço no plantio, que poderá passar de 50 milhões de hectares. Poderá ocorrer novo recorde de produção. Como a comercialização está atrasada, com muita soja sendo ofertada na colheita em março e abril, há riscos de queda das cotações no pico da oferta. É necessário que os produtores fujam deste período que normalmente é desfavorável para o vendedor.
Arroz
Curtas e boas TRIGO - o mercado continua com pressão de alta no cenário internacional. Está sendo esperada a escassez do produto. As safras da Rússia e da Ucrânia estão parcialmente comprometidas e há queda forte na qualidade e na produção dos EUA. Isso gera um quadro de produção mundial menor do que o consumo e cotações em alta. No Brasil, as geadas atingiram parte das lavouras do Sul no mês de agosto. Ocorreu queda forte no plantio. A produção ficou muito baixa, o que causa grande necessidade de importação para 2027. Com cotações em crescimento no longo prazo.
EUA - os produtores estão começando a colheita da safra e tiveram problemas com calor e pouca chuva no começo e muita chuva no final, com inundações causando perdas na produtividade. Há expectativa de que a soja poderá não chegar a 120 milhões de toneladas e o milho não ultrapassar 400 milhões de toneladas. Desse modo, haverá queda nas ofertas local e mundial. CHINA – o governo chinês continua comprando forte no Brasil, mas em agosto voltou a comprar nos EUA. Existe expectativa de que importe mais de 115 milhões de toneladas este ano. ARGENTINA - está com a safra co-
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lhida e as exportações crescendo, principalmente do milho, que veio em bom momento, em que a Europa teve perdas que superam 10 milhões de toneladas e terá que aumentar a importação em volume igual a esse ou maior, e com outros países comprando porque não estão conseguindo se abastecer no Mar Negro, devido à guerra entre Rússia e Ucrânia. Nesse quadro, existe possibilidade de boa demanda do grão argentino. C Vlamir Brandalizze Brandalizze Consulting Instagram: @brandalizzeconsulting