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Cultivar Grandes Culturas 321

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Eventos intensos de El Niño, como o previsto para os próximos meses, ampliam a variabilidade. No Sul, chuvas frequentes favorecem doenças dependentes de molhamento foliar. No Cerrado e no Centro-Oeste, a irregularidade hídrica, os veranicos e as temperaturas elevadas mudam a pressão sobre as lavouras. No Matopiba, o risco passa pelo estabelecimento e pela eficiência de controle. No Sudeste, altitude, relevo e chuva local pesam nas decisões.

Na soja, a preocupação recai sobre ferrugem-asiática, septoriose, cercosporiose, mancha-alvo e mofo-branco. No milho, doenças foliares, podridões e micotoxinas entram no cálculo. No trigo, a giberela ganha espaço quando chove no florescimento e no enchimento de grãos. O ponto central não muda: o manejo precisa sair da reação e caminhar para a probabilidade, o impacto e a mitigação. É o assunto de capa desta edição!

Em nematoides, o estudo sobre Meloidogyne enterolobii mostra que a escolha de plantas de cobertura pode proteger ou agravar o problema. Em sistemas soja-algodão, espécies suscetíveis elevam a população do patógeno na entressafra. Por outro lado, há materiais que ajudam a reduzir a pressão no solo.

No milho, urgências conhecidas. A cigarrinha cobra proteção nos estádios iniciais, quando a infecção pelos patógenos dos enfezamentos causa maior impacto. O tratamento de sementes ajuda, mas tem prazo.

A edição também olha para os herbicidas. A história do glifosato reúne sucesso e alerta. Ele transformou o manejo de plantas daninhas. Mas o uso isolado não se sustenta. A resistência avança quando há pressão de seleção e pouca diversidade. O futuro passa por rotação, práticas culturais, controle mecânico e prevenção.

No sorgo, a atenção começa na semente. A cultura ganha relevância por sua adaptação a regiões e janelas mais arriscadas. Mas o estande depende de germinação, vigor e qualidade fisiológica. Sementes fracas carregam um risco silencioso para o campo.

Isso e muito mais nas próximas páginas. Boa leitura!

08 Restrições de solo ao aprofundamento das raízes

11 Cigarrinhas sadias e infectivas e o tratamento de sementes

14 Tratamento de sementes para lagartas

18 A buva pode sobreviver à inundação em áreas de arroz

26 Plantas de cobertura quanto à reação a M. enterolobii

30 Trinta anos de resistência ao glifosato no Brasil

34 Tratamento de sementes de sorgo com bioestimulantes

38 Manejo da dessecação em trigo

Foto do caderno Gabriel Augusto de Andrade Rodrigues
Foto de Charles Echer

Bayer

Camila Corcino de Souza assumiu novo cargo na Bayer. Com mais de seis anos na companhia, a executiva passa a atuar como gerente de Planejamento, Desempenho e Transformação de CP para a América Latina. Anteriormente, ocupava a função de coordenadora de Operações de Atendimento ao Cliente. Ao longo da carreira, também teve passagens por empresas do setor agro, como Monsanto e Dow AgroSciences. Ela é engenheira agrônoma formada pela Esalq.

UPL

A UPL Brasil renovou parceria com o Rabobank. O acordo envolve uma operação de securitização de cerca de R$ 1 bilhão, consolidada ao longo de quase uma década. Segundo a diretora de Crédito e Cobrança da empresa, Vanessa Roberta Silva, a estratégia busca ampliar o acesso de produtores e distribuidores a recursos para aquisição de insumos, garantindo maior previsibilidade e liquidez ao longo do ciclo agrícola.

Lagarta-do-cartucho muda intestino após ingestão de vírus

A lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) apresenta resposta molecular rápida no intestino médio após ingestão do vírus SfMNPV. O estudo identificou mudanças na barreira intestinal, no metabolismo e em vias celulares nas primeiras 24 horas após a inoculação oral. Os dados indicam danos estruturais, ativação de mecanismos de estresse e início de reparo tecidual.

A pesquisa utilizou sequenciamento transcriptômico em larvas avaliadas após 1, 12 e 24 horas. A resposta variou conforme o tempo. O pico de alterações ocorreu em 12 horas.

Genes ligados à matriz peritrófica reduziram expressão na primeira hora. Componentes da lâmina basal reduziram expressão em 12 horas. Genes do citoesqueleto aumentaram expressão entre 12 e 24 horas. Esse conjunto indica remodelação da barreira física do intestino médio.

O estudo também registrou estresse no retículo endoplasmático. Vias de autofagia e do sistema ubiquitina atuaram entre 12 e 24

horas. Esses processos indicam resposta celular ao acúmulo de proteínas durante a infecção.

Na fase inicial, o inseto ativou transportadores ABC e UDP-glicosiltransferases. Depois, enzimas antioxidantes, como glutationa S-transferase e superóxido dismutase, ganharam destaque. A mudança indica transição de mecanismos de desintoxicação para resposta ao estresse oxidativo.

A resposta celular também envolveu apoptose na primeira hora. Em seguida, genes associados às vias Wnt, mTOR e Hippo aumentaram expressão entre 12 e 24 horas. Os autores relacionam esse padrão a reparo regenerativo do epitélio intestinal.

Foram identificados 499 genes diferencialmente expressos em 1 hora, 804 em 12 horas e 750 em 24 horas. A carga viral permaneceu abaixo de 0,002% das leituras totais nas fases iniciais. Mesmo com baixa presença viral, o hospedeiro apresentou resposta molecular intensa.

Outras informações em doi. org/10.3390/insects17040401

Bayer projeta cinco lançamentos por ano até 2030

A Bayer apresentou soluções de proteção de cultivos em Paulínia, em São Paulo. A empresa projeta cinco lançamentos por ano até 2030. O plano inclui 14 moléculas inéditas e seis novos modos de ação. A estratégia mira produtividade e manejo de resistência no campo.

O portfólio inclui três inovações em fase de registro. O fungicida Iblon traz uma nova carboxamida. O herbicida Icafolin atua no controle pós-emergente de plantas daninhas. O inseticida Plenexos inaugura a classe dos cetoenóis. As soluções atendem soja, milho, algodão e outras culturas no Brasil.

Segundo Tiago Santos, líder do negócio de proteção de cultivos da Bayer no Brasil, a companhia direciona investimentos para acelerar pesquisa e antecipar demandas do produtor. A empresa usa inteligência artificial no desenvolvimento de moléculas e combina modos de ação para manejo de resistência. O fungicida Iblon combina isoflucypram e tebuconazol. A formulação amplia o controle de doenças foliares, como mancha-de-bipolaris, diplodia, mancha-alvo e ramulária. Ensaios indicam níveis de eficácia de

controle superiores a 80% no manejo dessas doenças em relação a métodos convencionais, conforme a Bayer. A expectativa envolve comercialização na safra 2027/28.

Para a safra 2026/27, a empresa destaca Xivana Smart, com fluoxapiprolin e fluopicolida, e Valpura, com bixafem.

O inseticida Plenexos tem como princípio ativo o espidoxamato, molécula do grupo dos cetoenóis, classificada pelo Irac no grupo 23.

A Bayer espera registro ainda neste ano. A solução atende culturas como soja e algodão. A empresa também destacou Valient, com flupiradifurone, para controle de sugadores, cigarrinhas e pulgões.

Em herbicidas, Convintro Duo combina diflufenicam e metribuzim para pré-emergência. A solução amplia o controle de caruru e pé-de-galinha. O Icafolin tem lançamento previsto para 2028 e atua sobre plantas daninhas resistentes ao glifosato e a outros herbicidas.

No tratamento de sementes, a Bayer apresentou o conceito Guardião. A solução reúne proteção contra pragas, doenças iniciais e nematoides. O pacote inclui o nematicida Verango Prime, com fluopyram.

A Koppert anunciou a nomeação de Hans Peters como novo diretor executivo. A mudança marca uma nova etapa na estratégia da companhia, voltada à expansão global e ao fortalecimento de soluções em agricultura biológica. Peters chega ao cargo com experiência em liderança internacional e atuação em empresas como Unilever, NS e Eneco. Mais recentemente, ocupava o cargo de CEO da Priva.

CropLife

A CropLife Brasil empossou Ana Repezza como sua nova presidente. A executiva assume o cargo com o compromisso de ampliar o diálogo institucional, avançar em agendas regulatórias prioritárias e projetar o setor nos debates internacionais sobre inovação agrícola. À frente da associação, terá como missão articular os interesses dos quatro setores representados – defensivos químicos, biológicos, sementes e biotecnologia.

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Bayer

O agrônomo Matheus Palhano assumiu o cargo de diretor de Inseticidas da Bayer para a América Latina. O executivo destacou gratidão pela oportunidade, além de expectativa positiva para o novo ciclo. Ele soma quase oito anos de atuação na Bayer. Antes da nova posição, liderou a área de herbicidas não seletivos na América Latina, entre dezembro de 2022 e abril de 2026.

FMC

A FMC Corporation nomeou Jenny Moya como nova gerente global de Assuntos Regulatórios. A engenheira química está na companhia há mais de oito anos e anteriormente ocupava o cargo de diretora de Assuntos Regulatórios para a América Latina, função que exerceu por quatro anos a partir do Brasil.

Formigas aprendem mais rápido em colônias

Formigas treinadas em colônias aprenderam associações visuais com alimento mais rápido do que indivíduos mantidos isolados. A conclusão consta em trabalho avaliando o aprendizado associativo em Temnothorax rugatulus e comparando o desempenho de operárias sozinhas e em grupo.

Os pesquisadores treinaram as formigas para associar uma pista visual à presença de alimento. O experimento teve 17 sessões. Ele incluiu fases de aquisição e reversão. A equipe mediu o tempo gasto pelas formigas em corredores corretos e incorretos.

As colônias aprenderam mais rápido nas duas fases. Na reversão, as formigas precisaram ajustar a resposta após mudança na associação

entre pista visual e alimento. O desempenho superior em grupo indica efeito das interações sociais sobre a aprendizagem individual.

O comportamento de recrutamento contribuiu para esse resultado. Os cientistas registraram corridas em tandem, nas quais uma operária guia outra até o recurso. Esses eventos ocorreram com maior frequência no início do aprendizado.

Segundo o estudo, interações sociais, em especial o recrutamento, podem ampliar a aquisição de informação em colônias. Os pesquisadores apontam o aprendizado coletivo como mecanismo adaptativo em animais sociais.

Outras informações em doi.org/10.1098/rstb.2024.0442

Bicudo-preto-da-soja avança no centro da Argentina

O bicudo-preto-da-soja (Rhyssomatus subtilis) avançou para o centro da Argentina nas últimas safras. Registros do Inta e do Senasa indicam presença da praga em áreas sojeiras de Córdoba e Santa Fé. Durante duas décadas, o inseto permaneceu concentrado no noroeste argentino. Especialistas associam a expansão ao deslocamento de máquinas e veículos entre regiões produtivas.

A praga teve o primeiro registro na Argentina na safra 2005/2006, em Santiago del Estero. Depois, avançou de forma lenta pelo NOA, com ocorrências em Tucumán, Catamarca e Salta. Entre 2022 e 2025, atingiu novas áreas produtivas no nordeste de Santiago del Estero. Em janeiro de 2026, apareceu no sudeste da província. No Chaco, houve registro no departamento Almirante Brown.

O alerta aumentou no fim da safra 2024/2025, após detecção no centro-norte de Córdoba. Na safra 2025/2026, técnicos do Inta confirmaram a presença nos departamentos Río Primero, Santa María e

Río Segundo. Também houve confirmação em Ceres, na província de Santa Fé.

Segundo María Guillermina Socías, do Inta Salta, o salto geográfico não segue padrão natural de dispersão. A hipótese técnica aponta relação com o trânsito de maquinários e veículos.

O inseto tem ciclo anual e acompanha a soja durante o desenvolvimento da cultura. Os adultos atacam brotos novos e podem reduzir o crescimento das plantas. As larvas causam o principal dano. Elas se alimentam dos grãos dentro das vagens. As perfurações favorecem a entrada de água e patógenos.

O manejo exige prevenção. Especialistas recomendam rotação com gramíneas e outras espécies não hospedeiras em áreas afetadas e lavouras vizinhas. Também indicam limpeza rigorosa de máquinas e veículos antes do deslocamento entre zonas produtivas. O monitoramento deve começar cedo, com inspeção de vagens, picadas, perfurações, larvas e danos nos grãos.

A UPL Brasil anunciou a nomeação do engenheiro agrônomo Giuliano Argenta Scalabrin para o cargo de diretor nacional de Vendas. O profissional está na empresa há 14 anos e durante sua trajetória participou de momentos importantes, como a criação da Natural Plant Protection (NPP) e da Orígeo.

A engenheira agrônoma Marília Romão assumiu um novo cargo na BASF. Após mais de sete anos em posições de liderança na Syngenta, a executiva passa a atuar como gerente de Marketing da marca de sementes Credenz. Ela é formada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz; possui MBA em Gestão Comercial pela Fundação Getulio Vargas.

Terreno propício

Aprofundamento das raízes possui relevância no estabelecimento das culturas; estudo avalia restrições impostas pelo solo que refletem no rendimento das lavouras

Aatividade agrícola sempre exigiu muita resiliência de quem nela trabalha. Secas, enchentes, pragas, doenças, oscilações de preços, escassez de mão de obra, legislações truncadas e inúmeros outros fatores historicamente impõem incertezas e inseguranças aos produtores. O conhecimento científico e a tecnologia têm avançado para minimizar essas instabilidades, por meio do desenvolvimento de cultivares mais tolerantes a estresses, defensivos mais eficazes e máquinas e equipamentos maiores e mais autônomos, entre outras inovações.

Ainda assim, as mudanças climá-

ticas aceleradas vêm desafiando a estabilidade da produção agrícola, inclusive em sistemas que dispõem de tecnologia mais avançada. O aumento dos episódios de enchentes, secas e ondas de calor nos últimos anos - com sucessivas quebras de safra e endividamento dos produtores, como visto no Sul do Brasil - impõe uma questão central: o que fazer para a produtividade das culturas ser mais estável diante das oscilações climáticas?

Papel do solo

Várias abordagens podem ser empregadas para aumentar a resiliência das culturas, mas analisar o

papel do solo nesse contexto é particularmente interessante, tanto pelo impacto que seu manejo exerce sobre a estabilidade da produção quanto pelos desafios envolvidos na implementação de práticas adequadas. Ambiente dinâmico sob os pontos de vista químico, físico e biológico, o solo pode ser compreendido, de forma simplificada, como reservatório de nutrientes e água para as plantas. Embora essa definição não abarque toda a sua complexidade, ela é útil para o manejo, pois destaca os fatores aos quais as culturas são mais sensíveis. Alterações no equilíbrio nutricional e na disponibilidade hídrica, portanto, afetam diretamente a produtividade.

Rodrigo Pivoto Mulazzani

Métodos anteriores

Os nutrientes e a água, antes da adoção do sistema plantio direto, eram predominantemente acessados pelas raízes na porção do perfil denominada camada arável, geralmente limitada aos primeiros 20 cm de profundidade. O revolvimento periódico promovia relativa homogeneidade química e física nessa faixa. O preparo mecânico incorporava calcário, fertilizantes e resíduos orgânicos, além de romper eventuais camadas compactadas. Abaixo desse limite, porém, o solo tornava-se restritivo ao crescimento radicular, devido à formação do “pé-de-arado” ou “pé-de-grade” e/ ou de limitações químicas, como elevada acidez, presença de alumínio tóxico e baixa fertilidade. Assim, desde que devidamente corrigida e fertilizada, a camada arável oferecia poucas restrições ao crescimento das raízes.

Mudança de sistema

Entretanto, essa mesma condição de baixa resistência física, favorável ao crescimento das raízes, também aumentava a suscetibilidade à erosão. Por isso, o revolvimento do solo foi gradualmente substituído por práticas conservacionistas ligadas ao plantio direto.

A ausência de mobilização do solo, reforçada pela manutenção da cobertura com biomassa, assegurou reduções drásticas nas perdas de solo e na degradação das lavouras. Em contrapartida, resultou na gradual estratificação química e física da antiga camada arável. A aplicação superficial de corretivos e fertilizantes - na linha de semeadura ou a lanço - aumentou significativamente a concentração de nutrientes nos primeiros centíme-

tros do solo, enquanto as camadas mais profundas passaram a receber menor reposição de nutrientes e menor correção da acidez.

Do ponto de vista físico, o tráfego de máquinas e o pisoteio animal aplicam cargas cumulativas que aumentam a densidade do solo. Se antes ocorria descompactação anual com arado ou grade, no sistema sem revolvimento a ruptura restringe-se às linhas de plantio, formando o chamado “pé-de-semeadora” entre 7 cm e 10 cm de profundidade - camada mais superficial que a observada no sistema convencional.

Comparando os cenários

Comparando-se o atual cenário - marcado por um gradiente químico acentuado e pela presença de uma camada compactada abaixo de 10 cm - com o cenário anterior, caracterizado por homogeneidade até 20 cm, observa-se aumento na dificuldade para o aprofundamento das raízes. No sistema com revolvimento, as restrições ocorriam abaixo dos 20 cm; no plantio direto, ten-

dem a ocorrer aproximadamente à metade dessa profundidade. Para ilustrar esse contexto, apresentam-se dados de um levantamento da distribuição de raízes de soja até 80 cm de profundidade, realizado em nove lavouras sob plantio direto no Rio Grande do Sul, na safra de 2021/2022. Além da distribuição das raízes, foram determinadas as propriedades químicas e físicas do solo, com o objetivo de identificar os principais fatores limitantes ao crescimento radicular.

Em todas as áreas foram encontradas raízes até a profundidade máxima avaliada. Porém, em média, 63% concentravam-se nos primeiros 6 cm a 9 cm, enquanto somente 10% estavam abaixo de 40 cm.

A análise detalhada permitiu identificar três padrões distintos: distribuição uniforme, observada em uma lavoura (Cruz Alta); redução gradual da concentração de raízes, verificada em cinco lavouras (Barra do Ribeiro, Cacequi, Pinhal Grande, São Pedro do Sul e Bossoroca); e redução abrupta na concentração radicular, constatada em três lavouras

Figura 1 - padrões de distribuição de raízes de soja em lavouras do RS na safra 2021/2022. Adaptado de Mulazzani et al. (2024)

(Ibirubá, Cachoeira do Sul e Tuparendi) (Figura 1).

A existência desses diferentes padrões indica que as limitações do solo ao crescimento das raízes não são uniformes entre as áreas avaliadas, ainda que todas estejam sob plantio direto. Tomando-se como referência a lavoura com melhor distribuição radicular (Cruz Alta), a comparação das propriedades químicas e físicas entre os grupos pode ajudar a explicar as variações observadas.

As propriedades químicas que mais diferiram entre os grupos de lavouras foram o teor de fósforo, o pH, a saturação por bases e a saturação por alumínio (Figura 2). O gradiente dessas variáveis ao longo do perfil é mais acentuado nas lavouras com redução gradual da concentração de raízes (linha azul), enquanto se mostra menos pronunciado nas demais (linhas verde e laranja).

Quanto às propriedades físicas, as maiores diferenças foram observadas na macroporosidade e no grau de compactação (Figura 3). Nessas variáveis, a lavoura com raízes bem distribuídas (linha verde) apresentou valores semelhantes aos das lavouras com redução gradual (linha azul). Por outro lado, observou-se que o solo estava mais compactado e com menor macroporosidade nas áreas com redução abrupta da distribuição radicular (linha laranja).

Constatações obtidas

Esses resultados indicam que, em cinco lavouras, houve predomínio de restrições químicas - elevada acidez, toxidez por alumínio e baixa concentração de nutrientesenquanto, em três, predominaram restrições físicas - baixa macroporosidade e maior densidade do solo -, as quais limitaram o desenvolvimento das raízes abaixo de 10 cm de profundidade.

Além disso, as limitações físicas causaram elevada concentração de raízes na camada superficial, ao passo que as químicas resultaram em decréscimo gradual da distribuição das raízes ao longo do perfil (Figura 1).

Em síntese, a compactação tende a impor restrições mais severas ao

enraizamento; entretanto, problemas associados à acidez e à baixa fertilidade são mais comuns.

Considerações finais

O plantio direto representou uma revolução na conservação do solo e da água, consolidando-se como um forte aliado da resiliência dos cultivos. Contudo, a intensa estratificação química e a formação do chamado “pé-de-semeadora” configuram desafios relevantes nos sistemas sem revolvimento.

O confinamento das raízes nas camadas superficiais compromete principalmente o suprimento hídrico, reduzindo a tolerância das culturas a períodos de escassez de chuvas. Em um cenário de maior instabilidade climática, impõe-se a necessidade oposta: ampliar a resistência às estiagens, o que passa pelo estímulo ao aprofundamento das raízes.

Identificar os fatores restritivos, como no estudo aqui apresentado, é tarefa relativamente simples; mais complexo é definir estratégias de manejo capazes de corrigir limitações químicas e físicas sem comprometer os princípios conservacionistas. Mas essa é uma discussão para outro momento.

Figura 2 - média das propriedades químicas em cada padrão de distribuição de raízes de soja em lavouras do RS na safra 2021/2022. Adaptado de Mulazzani et al. (2024)
Rodrigo avalia restrições impostas pelo solo que refletem no rendimento das lavouras Rodrigo Pivoto Mulazzani, UFSM
Figura 3 - média das propriedades físicas em cada padrão de distribuição de raízes de soja em lavouras do RS na safra 2021/2022. Adaptado de Mulazzani et al. (2024)

Proteção antecipada

Experimento avalia como cigarrinhas-do-milho sadias e infectivas respondem ao mesmo tratamento de sementes

Um dos desafios encontrados para o manejo do complexo dos enfezamentos no campo está no fato de não ser possível identificar se uma cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) (Figura 1) está sadia ou infectada pelos patógenos causadores dos enfezamentos, nem estimar a proporção dessas infectadas nas lavouras. Esse conhecimento pode realmente afetar o posicionamento do controle (momento ideal de entrar com o manejo da praga) e o custo final da produção. Por isso, os produtos precisam ter alta eficiência, garantindo proteção principalmente na fase inicial da cultura, nos estádios vegetativos do V2 (desenvolvimento de duas folhas completamente formadas) ao V6 (seis folhas completamente formadas), que é a considerada mais crítica, pois quanto mais cedo a planta for infectada, maior será o impacto na produção. Sabemos que D. maidis é vetora dos molicutes (espiroplasma e fitoplasma) causadores do complexo dos enfezamentos e do vírus da risca, causador do raiado fino em plantas de milho. Esses patógenos se instalam no floema e comprometem a nutrição, o crescimento e o desenvolvimento das plantas. Entre os sintomas estão amarelecimento das folhas, encurtamento dos internódios, deformações das plantas e multiespigamento. Em situações severas, pode ocorrer morte das plantas e a perda na produtividade pode chegar a 100%.

Contudo, se tais patógenos agem negativamente na planta de milho, eles também podem alterar a “saúde” da cigarrinha que seria afetada de alguma forma. Os inseticidas te-

Foto Valquiria Andrade

riam a mesma eficácia para controlar cigarrinhas doentes e sadias?

Realização de experimento

Para entender essa dinâmica, foi conduzido um experimento na Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas. Os resultados desse estudo estão publicados em artigo na Revista Insects, 2025: “What is the relationship between efficacy of seed treatment with insecticides against Dalbulus maidis (Delong and Wolcott) (Hemiptera: Cicadellidae) healthy and infected with spiroplasm in the corn stunt control?”.

Os ensaios foram feitos em condições controladas, usando cigarrinhas sadias e infectadas com o espiroplasma (patógeno causador do enfezamento), infestadas em plântulas de milho tratadas com diferentes inseticidas indicados para tratamento de sementes.

Resultados apresentados

Como primeiro resultado, descobrimos que as cigarrinhas infectadas com o espiroplasma morrem mais rápido do que as sadias,

quando entram em contato com plantas oriundas de sementes tratadas com inseticidas (Figura 2).

O produto que se destacou foi o composto pela mistura imidacloprido + tiodicarbe. A mortalidade foi em torno de 85% para cigarrinhas infectivas. Outro resultado muito importante é que as plantas com esse produto não apresentaram sintomas de enfezamentos - nem houve comprometimento na produtividade (Figura 2).

Os inseticidas tiametoxam, fipronil + tiametoxam e imidacloprido apresentaram mortalidade inferior a 68% para cigarrinhas infectivas. Para as sadias, as taxas médias de mortalidade nas primeiras 24 horas foram de 0%, 2% e 17%, respectivamente. Considerando que o controle eficiente exige ação rápida, capaz de paralisar a alimentação do inseto e, assim, reduzir a transmissão do patógeno, observou-se que esses produtos podem não ser os mais eficazes (Figura 3). Entretanto, nos casos em que a paralisação da alimentação não ocorreu imediatamente, houve transmissão parcial do patógeno às plantas, resultando em sintomas leves, que não chegaram

a comprometer a produtividade.

O produto menos eficiente foi a mistura lambda-cialotrina + tiametoxam, que apresentou mortalidade em torno de 30% e ocasionou sintomas severos em todas as plantas avaliadas (Figura 3).

Estratégias de atuação

Ao planejar o manejo no campo deve-se considerar que as cigarrinhas que não morrem após o contato com o inseticida podem se infectar e tornar-se fontes de transmissão dos patógenos para o milho. O ideal, portanto, é aumentar a mortalidade dos insetos já infectados, reduzindo a disseminação dos enfezamentos. Paralelamente, a redução da população de cigarrinhas sadias também é importante, pois diminui a chance de novos insetos se contaminarem e propagarem a doença ao longo do ciclo da cultura.

Quando a eficácia dos inseticidas é menor, ocorre um aumento proporcional de plantas com sintomas de enfezamento. Nesse contexto, é relevante destacar que os produtos avaliados foram escolhidos por sua ação sistêmica. Além de promoverem alta mortalidade inicial, esses inseticidas reduzem o tempo de alimentação, contribuindo para diminuir a transmissão dos patógenos.

Prazo de validade

O tratamento de sementes foi eficiente em proteger as plantas até o estádio V2, o que equivale aproximadamente a 11 dias depois do plantio. Passado esse período, a eficácia reduz e as cigarrinhas sobreviventes podem continuar transmitindo a doença.

Figura 1 - um dos desafios para o manejo do complexo dos enfezamentos está no fato de não ser possível identificar se uma cigarrinha-do-milho está sadia ou infectada pelos patógenos causadores da doença

Figura 2 - mortalidade média de cigarrinhas-do-milho Dalbulus maidis, sadias e infectadas com espiroplasma, expostas ao tratamento de sementes com inseticidas químicos. *** indica a barra que difere das outras em termos de p ≤ 0,001

Esse resultado é consistente com o perfil de neonicotinoides, carbamatos e piretroides, inseticidas que geralmente apresentam período residual até 15 a 21 dias após a emergência das plantas, dependendo do solo, das condições climáticas e do método de aplicação. Após o V2, com a redução do efeito residual, os tratamentos via sementes não se mostraram eficazes, resultando na manifestação dos sintomas de enfezamento e em perdas de produtividade.

Tempo de multiplicação

O patógeno precisa de tempo para se multiplicar e atingir níveis capazes de causar prejuízos econômicos. Por isso, quanto mais cedo ocorrer a infecção nas plantas, maiores tendem a ser os prejuízos na lavoura.

A exposição precoce das plantas às cigarrinhas infectivas resultou em maior perda na produtividade. Isso porque o patógeno teve mais tempo para se multiplicar, colonizar o floema e comprometer o transporte de nutrientes. Entretanto, os tratamentos de

Figura 3 - mortalidade das cigarrinhas infectivas nas primeiras 24 horas em contato com as plantas tratadas (eixo Y1) e notas de severidade de enfezamentos do milho (Y2) (média ± EPM) por tratamentos de sementes no tempo 0 (após cinco dias da aplicação de inseticida)

sementes mais eficazes reduziram esse impacto, preservando o potencial produtivo.

Impacto na produção

Plantas sem sintomas de enfezamento apresentaram maior vigor e produtividade do que aquelas infectadas. As plantas protegidas nos estágios iniciais ficaram mais altas, com espigas maiores e sem sintomas. Já as que foram atacadas por cigarrinhas infectadas na fase inicial de desenvolvimento ficaram baixas, com espigas pequenas ou nem produziram espigas.

Recado ao produtor

O tratamento de sementes, bem como a escolha do inseticida mais eficaz, é fundamental para reduzir o risco de transmissão dos patógenos causadores dos enfezamentos para a planta. Contudo, como os resultados indicam que o efeito do tratamento de sementes tem ação apenas até o estádio V2, após esse período é preciso entrar com outras táticas de manejo, como pulve -

rizações de inseticidas químicos e/ou biológicos, resguardando as estratégias do Manejo Integrado de Pragas. É indicado evitar plantios escalonados próximos, pois isso facilita a migração das cigarrinhas de uma lavoura para outra.

Conclusões das análises

O tratamento de sementes é importante aliado no desenvolvimento inicial da planta e a escolha do produto tem impacto na eficiência de controle da cigarrinha-do-milho.

A descoberta de que as cigarrinhas infectadas morrem mais rápido abre novas possibilidades de estudo e manejo para reduzir o impacto dessa praga que tanto preocupa produtores de milho. C C

Ana C. M. Redoan, Embrapa Milho e Sorgo; Vinicius M. Marques, Universidade Federal de São João Del Rey; Isabel R. P de Souza, Ivenio Rubens de Oliveira, Simone Mendes, Embrapa Milho e Sorgo

Primeira barreira

Com o objetivo de proteger a cultura durante o período inicial de desenvolvimento, o tratamento de sementes surge como uma importante ferramenta de proteção preventiva, contribuindo para reduzir a pressão das lagartas sobre as plantas recém-emergidas

Omanejo de lagartas em culturas como soja e milho vem se tornando cada vez mais desafiador nas últimas safras. A sucessão intensiva de culturas, a permanência de palhada sobre o solo e a presença constante de plantas hospedeiras ao longo do ano têm favorecido a sobrevivência e a multiplicação dessas pragas em diferentes regiões produtoras. Nes-

se cenário, estratégias preventivas passaram a assumir papel cada vez mais importante dentro do manejo fitossanitário, principalmente durante os estádios iniciais de desenvolvimento das culturas.

A fase inicial da lavoura representa um período de elevada vulnerabilidade fisiológica. Nessa etapa, o sistema radicular ainda está em formação e a capacidade de recuperação das plantas frente

aos danos causados por insetos é limitada. Dessa forma, ataques de lagartas logo após a emergência podem comprometer diretamente o estabelecimento da cultura, reduzir o vigor inicial das plantas e provocar desuniformidade no estande, situação que frequentemente resulta em reflexos negativos sobre o potencial produtivo da área.

Além da redução direta da população de plantas, os danos iniciais

podem provocar atraso no desenvolvimento vegetativo, menor crescimento radicular e maior desuniformidade entre plantas da mesma área. Em situações de estresse hídrico ou baixa disponibilidade nutricional, os impactos tendem a ser ainda mais expressivos, dificultando a recuperação da lavoura e favorecendo perdas mais significativas.

Associadas aos danos iniciais

Entre as principais espécies associadas aos danos iniciais em soja e milho destacam-se lagartas do gênero Spodoptera, especialmente Spodoptera frugiperda, além de espécies como Agrotis ipsilon e Elasmopalpus lignosellus. Embora apresentem hábitos distintos, todas possuem elevada capacidade de comprometer plântulas e estruturas jovens das plantas logo após a emergência.

No milho, Spodoptera frugiperda permanece como uma das principais preocupações fitossanitárias da cultura. Apesar de tradicionalmente associada aos danos no cartucho, a espécie também pode iniciar o ataque ainda nos primeiros estádios vegetativos, promovendo raspagens, perfurações e destruição parcial dos tecidos foliares jovens. Em infestações mais elevadas, as lagartas podem comprometer significativamente a área fotossintética das plantas recém-emergidas, reduzindo o desenvolvimento inicial e prejudicando a uniformidade da lavoura.

Na soja, espécies de Spodoptera vêm apresentando importância crescente, principalmente em áreas com elevada quantidade de palhada e sucessão de culturas hospedeiras. O ataque inicial normalmente ocorre sobre folhas cotiledonares e tecidos vegetativos jovens, reduzin-

Elasmopalpus lignosellus, especialmente favorecido por períodos secos e solos arenosos, promove abertura de galerias na região do colo das plantas, comprometendo a condução de água e nutrientes

do a capacidade inicial de desenvolvimento das plantas. Em situações de maior pressão populacional, a desfolha precoce pode comprometer o crescimento vegetativo e favorecer a formação de estandes desuniformes.

Outra espécie frequentemente associada aos danos iniciais é Agrotis ipsilon, conhecida pelo hábito de cortar plântulas rente ao solo, causando morte imediata das plantas recém-emergidas. Os danos geralmente ocorrem de forma localizada, dificultando muitas vezes a identificação inicial da infestação. Em áreas com alta pressão da praga, as falhas no estande podem exigir até mesmo operações de ressemeadura.

Já Elasmopalpus lignosellus, especialmente favorecido por períodos secos e solos arenosos, promove abertura de galerias na região do colo das plantas, comprometendo a condução de água e nutrientes. As plantas atacadas normalmente apresentam sintomas de murcha, seca e posterior morte, reduzindo significativamente o estande inicial da cultura. Em muitas situações, os danos causados pela praga acabam

sendo confundidos inicialmente com sintomas fisiológicos ou estresse hídrico.

Após o estabelecimento das lagartas na área, o manejo tende a se tornar mais complexo, principalmente em função da elevada capacidade de consumo foliar e da rápida evolução populacional de algumas espécies. Em determinadas situações, o intervalo entre a identificação da infestação e a realização das aplicações pode favorecer o aumento expressivo dos danos, especialmente em áreas sob alta pressão populacional.

Tratamento de sementes

Diante desse cenário, o tratamento de sementes surge como uma importante ferramenta de proteção preventiva, contribuindo para reduzir a pressão inicial das lagartas sobre as plantas recém-emergidas. O principal objetivo do TS não é eliminar completamente as pragas presentes na área, mas proteger a cultura durante o período inicial de desenvolvimento, fase em que as plantas apresentam menor capacidade de tolerar injúrias.

Fotos Karen Helena de Andrade Rodrigues

A proteção proporcionada pelo tratamento de sementes ocorre, principalmente, durante os estádios iniciais de desenvolvimento da cultura, período considerado decisivo para a formação do estande e o estabelecimento uniforme da lavoura. Em culturas como soja e milho, falhas ou desuniformidade nessa fase podem refletir negativamente sobre o potencial produtivo final, mesmo quando as condições posteriores de desenvolvimento são favoráveis.

Além da proteção inicial, o TS oferece vantagens operacionais importantes, como distribuição mais uniforme do ingrediente ativo, proteção localizada na fase de emergência e redução da necessidade de aplicações imediatas logo após a implantação da cultura. Em muitas situações, o tratamento de sementes permite que as plantas atravessem os primeiros estádios vegetativos sob menor pressão de ataque, favorecendo melhores condições de desenvolvimento inicial.

Integração de estratégias

Outro ponto importante é a integração do tratamento de sementes

ao Manejo Integrado de Pragas (MIP). O uso dessa tecnologia deve ser entendido como parte de um conjunto de estratégias voltadas à redução das populações de pragas e à preservação do potencial produtivo das culturas. Nesse contexto, práticas como monitoramento da lavoura, rotação de culturas, manejo adequado da palhada e utilização de controle biológico continuam sendo fundamentais para obtenção de resultados mais consistentes ao longo da safra.

Apesar dos benefícios proporcionados pelo TS, sua eficiência pode variar conforme a espécie presente na área, a pressão populacional, as condições ambientais e a tecnologia empregada no tratamento. Em

situações de alta infestação, especialmente envolvendo lagartas com elevada capacidade de consumo foliar, o tratamento de sementes pode não ser suficiente para manter as populações abaixo do nível de dano econômico, tornando necessária a adoção de medidas complementares de controle.

Além disso, fatores como qualidade da cobertura das sementes, posicionamento adequado da tecnologia e condições climáticas após a semeadura podem influenciar diretamente no desempenho do tratamento. Dessa forma, mesmo em áreas tratadas, o monitoramento da lavoura permanece fundamental para definição do momento adequado de intervenção complementar.

Considerações finais

Em sistemas agrícolas cada vez mais intensivos, estratégias preventivas vêm assumindo papel central no manejo fitossanitário das culturas. Nesse contexto, o tratamento de sementes vem ganhando espaço como uma importante ferramenta para auxiliar na proteção inicial da lavoura, principalmente durante os estádios mais sensíveis de desenvolvimento das plantas.

Mais do que uma medida isolada de controle, o TS deve ser compreendido como parte de um sistema de manejo voltado à redução de perdas e ao estabelecimento mais uniforme da cultura. Quando associado ao monitoramento e às demais ferramentas do Manejo Integrado de Pragas, o tratamento de sementes contribui para maior estabilidade inicial da lavoura e auxilia na construção de sistemas produtivos mais eficientes e sustentáveis.

No milho, Spodoptera frugiperda permanece como uma das principais preocupações fitossanitárias da cultura
Karen Helena de Andrade Rodrigues, especialista em manejo de pragas
Lagarta Spodoptera frugiperda
Karen Helena de Andrade Rodrigues

Escala visual A

Método torna possível a avaliação da capacidade de sobrevivência da buva à inundação em áreas de arroz irrigado

buva (Conyza spp.) destaca-se como uma das plantas daninhas de maior importância nos sistemas agrícolas, devido à sua ampla distribuição, à elevada plasticidade fenotípica e à notável capacidade de adaptação a diferentes condições ambientais e práticas de manejo. Como resultado dessas características, tornou-se uma das principais espécies daninhas nos sistemas de produção do Brasil, impactando diretamente a produtividade e a sustentabilidade agrícola.

A introdução da soja (Glycine max L.) em terras baixas surgiu como alternativa de manejo integrado de plantas daninhas em terras baixas, favorecendo a cultura do arroz irrigado (Oryza sativa L.). A rotação de culturas com a soja possibilitou a melhoria do manejo de arroz-daninho (O. sativa f. spontanea), promovendo redução de sua infestação. Entretanto, essa mudança no sistema de cultivo, para viabilizar a produção de soja nessas áreas, também favoreceu a ocorrência de buva, resultando no aumento da infestação dessa planta daninha em ambientes de terras baixas.

Produtores, frequentemente, adotam um conjunto de práticas com o propósito de suprimir ou eliminar a buva antes da implantação da cultura do arroz. O controle prévio dessa espécie é considerado etapa importante no planejamento da lavoura, uma vez que a competição com o arroz pode ocorrer quando a cultura emerge em áreas com a presença de plantas de buva estabelecidas. Embora a lâmina de água constitua uma ferramenta essencial no manejo de buva, essa interferência pode persistir mesmo após seu estabelecimento, pois a mortalidade da espécie pode não ser imediata e varia conforme as condições ambientais. Entretanto, ainda são relativamente escassos os estudos científicos que avaliem de forma aprofundada a capacidade de sobrevivência da buva sob condições de inundação, típicas do sistema de arroz irrigado.

Nesse contexto, devido à necessidade de investigações que esclareçam o comportamento da buva em ambiente alagado, típico do cultivo de arroz, foi realizado estudo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com o objetivo de desenvolver e padronizar uma escala visual para avaliação da injúria causada pela inundação em plantas de buva, e analisar a adaptação da buva ao excesso hídrico a partir da escala proposta.

Metodologia utilizada

Um experimento foi realizado em casa de vegetação na UFSM, em delineamento inteiramente casualizado

(DIC), com três repetições, entre os anos de 2022 e 2024. A inundação foi estabelecida quando as plantas de buva atingiram aproximadamente 15 cm de estatura, mantendo-se uma lâmina de água de 4 cm acima da superfície do solo nos vasos, por um período contínuo de 15 dias. Essas condições foram definidas com base em experimentos preliminares (dados não apresentados). Foi observado que algumas plantas apresentavam sintomas considerados irreversíveis de recuperação, o que permitiu avaliar o nível de adaptação de diferentes acessos da planta daninha ao excesso hídrico (inundação).

A avaliação da injúria visual

das plantas foi baseada em uma adaptação da escala proposta por Cornelious, et al. (2005). Na escala adaptada para buva, o 0 corresponde a plantas sem sintomas de injúria; números entre 1 e 8 representam níveis crescentes de danos, equivalentes a 10%, 20%, 30%, 40%, 50%, 60%, 70% e 80% de injúria na planta, respectivamente; e a nota 9 é atribuída a plantas que apresentam 90% ou mais de injúria e/ou que se encontram mortas (Figura 1). Esse método possibilitou a quantificação padronizada dos danos causados pelo estresse hídrico nos diferentes acessos de buva. Um total de 37 acessos de buva, provenientes de diferentes

Figura 1 - escala de avaliação visual de injúria à inundação da buva proposta por Puntel et al. 2026 (adaptada de Cornelious et al., 2005). Onde 0 corresponde a plantas sem sintomas de injúria; números entre 1 e 8 representam níveis crescentes de danos, equivalentes a 10%, 20%, 30%, 40%, 50%, 60%, 70% e 80% de injúria na planta, respectivamente; o 9 corresponde a 90% ou mais de injuria e/ou morte

Figura 2 - diferenças observadas no sistema radicular ao final do experimento, evidenciando, à esquerda, raízes de um acesso com menor sensibilidade, e, à direita, de outro acesso mais sensível ao estresse por inundação. Em ambas as imagens, as raízes localizadas na parte superior foram expostas à inundação, enquanto as da parte inferior permaneceram sem inundação

localidades do Rio Grande do Sul, foi avaliado nas condições experimentais descritas anteriormente, utilizando-se a escala. Para cada acesso, foram conduzidas três repetições (plantas) em condições normais (irrigação diária por aspersão), para fins de comparação (tratamento testemunha). Os acessos foram classificados em três grupos, de acordo com a região de origem: o Grupo 1 correspondeu à região Norte, em áreas de terras altas; o Grupo 2 à região Sul, também em áreas de terras altas; e o Grupo 3 à região Sul, em áreas de terras baixas. Todas as cidades de origem dos acessos foram representadas em um mapa, indicando os locais de coleta e a resposta das plantas de buva à inundação, avaliado com base na escala citada acima.

Achados e perspectivas

Os resultados evidenciam que a inundação exerceu influência direta, contínua e consistente sobre o crescimento, o desenvolvimento e a intensidade dos danos observados nas plantas avaliadas. A redução do crescimento vegetativo, associada ao aumento das notas de injúria ao longo do tempo, demonstra que a

inundação compromete processos fisiológicos fundamentais, como a respiração radicular, a absorção de nutrientes e a atividade fotossintética, refletindo-se tanto no sistema radicular quanto na parte aérea (Figuras 2 e 3, respectivamente).

A inundação do terreno provoca rápida redução da disponibilidade de oxigênio nos poros do solo, levando à formação de condições hipóxicas ou anóxicas. Nessas circunstâncias, ocorre limitação da respiração aeróbica nas raízes, redução da produção de energia pela planta e acúmulo de metabólitos tóxicos, que contribuem para os sintomas observados.

Dos 37 acessos provenientes de diferentes localidades do Rio Grande do Sul, nenhum apresentou nota 0 na escala de injúria. Observou-se que 5,4% dos acessos apresentaram notas de injúria inferiores a 3, indicando baixo nível de dano. A maior proporção, correspondente a 51,3%, apresentou notas de injúria de até 6, sugerindo potencial tolerância das plantas ao estresse avaliado (Figura 4).

Por outro lado, 29,7% dos acessos apresentaram notas de injúria superiores a 6, o que indica severos danos fisiológicos e morfológicos,

tornando a recuperação das plantas nessas condições pouco provável. Entre os principais sintomas observados, destacam-se folhas cloróticas e senescentes, morte do ponto de crescimento apical, caules enegrecidos e curvados, além de murcha das plantas, entre outros sinais de comprometimento do desenvolvimento (Figuras 1 e 2). Adicionalmente, 13,5% dos acessos apresentaram notas de injúria superiores a 8, caracterizando níveis extremamente elevados de dano.

A estratificação dos acessos por regiões de coleta permitiu avaliar possíveis relações entre o ambiente de origem dos biótipos e seu desempenho sob condições de inundação. Observou-se que os acessos do Grupo 1 (terras altas) não apresentaram notas inferiores a 4 da escala (Figuras 3 e 4), indicando maior sensibilidade à inundação. Esse resultado pode estar associado ao fato de que populações provenientes de áreas de coxilha (Grupo 1) geralmente se desenvolvem em ambientes com melhor drenagem natural do solo e menor frequência de saturação hídrica. Contudo, a sobrevivência à inundação não foi uniforme dentro dos grupos estabelecidos.

Considerando as avaliações, foram observadas maior suscetibilidade dos biótipos oriundos de terras altas (Grupo 1) e maior resiliência daqueles provenientes de terras baixas (Grupo 3) à inundação (Figura 4). Entre os acessos pertencentes ao Grupo 3, observam-se diferentes níveis de injúria, incluindo nota 9 (nove), indicando que fatores genéticos e fisiológicos específicos podem exercer maior influência na resposta à inundação do que o ambiente de origem isoladamente.

Destaca-se que apenas o Grupo 2 (Sul - terras altas) apresentou tendência relativamente consistente

de tolerância, mantendo notas de injúria visual inferiores a 7 ao longo dos períodos avaliados. Esse comportamento sugere maior capacidade de manutenção da integridade estrutural e funcional das plantas sob condições de saturação hídrica prolongada. A variação observada entre os grupos reforça a interpretação de que a resposta ao estresse hídrico constitui uma característica intrínseca e particular de cada biótipo, não sendo determinada exclusivamente pela região de origem ou pelo tipo de relevo.

Indicação dos resultados

Há impacto significativo da inundação sobre o crescimento de buva, contudo a capacidade de sobrevivência à inundação temporária varia amplamente entre os acessos, em função de características genéticas, fisiológicas e das condições ambientais.

Essa variabilidade intraespecífica reflete processos associados ao manejo, à pressão de seleção e ao fluxo gênico em populações submetidas ao estresse por inundação.

Embora a lâmina de água constitua uma importante ferramenta de manejo no sistema de arroz irrigado, sua eficácia no controle da buva não é imediata, podendo ocorrer sobrevivência de plantas ou recu-

peração parcial após a inundação. Nesse contexto, o monitoramento das áreas após a entrada da água torna-se fundamental para verificar a necessidade de medidas complementares de controle, como a aplicação de herbicidas.

A escala visual de injúria proposta constituiu uma ferramenta prática para produtores, técnicos e pesquisadores acompanharem de forma padronizada a resposta das populações de buva à inundação. Esses achados reforçam a importância do monitoramento contínuo

nas lavouras de arroz irrigado, especialmente diante do risco de adaptação da planta daninha às condições de terras baixas. C C

Simone Puntel, Maria Eduarda Costa Reis de Araújo, Leonardo da Silva Bolson, Pedro Henrique Folharini, Josinei dos Santos Binotto, Arícia Ritter Corrêa, Leandro de Moraes Pinto, Rafaella Boemo Mario, André da Rosa Ulguim, UFSM

Figura 4 - distribuição geográfica dos acessos de buva avaliados quanto à adaptação à inundação. As cores indicam os níveis de injúria visual (Figura 3) e os símbolos representam os grupos de origem dos acessos: Grupo 1 - região Norte, em áreas de terras altas; Grupo 2 - região Sul, em terras altas; e o Grupo 3 - região Sul, em terras baixas

Figura 3 - sintomas observados na parte aérea durante a condução do experimento: planta sem sintomas (A), início de clorose nas folhas (B), clorose intensa nas folhas (C), morte do ponto de crescimento (D), necrose de 50% da haste (E) e tentativa de rebrote da planta, porém com danos elevados (F). As setas vermelhas servem como indicativos dos sintomas mencionados

Super El Niño

Intensidade do evento climático eleva probabilidades e redefine o risco sanitário; estratégias de defesa devem avaliar relação entre efeitos, impactos e capacidade de mitigação

Em cenários caracterizados por eventos intensos de El Niño - frequentemente classificados como “Super El Niño” - observa-se uma elevação significativa na probabilidade de ocorrência de condições climáticas atípicas, in-

cluindo excesso de precipitação em determinadas regiões, irregularidade hídrica em outras, aumento da umidade no dossel e restrições operacionais.

Essas condições não determinam, mas aumentam substancialmente a chance de que sistemas

produtivos agrícolas enfrentem maior pressão sanitária, especialmente em culturas como soja, milho e trigo. O impacto potencial tende a não se limitar ao estresse climático direto, mas sim à interação entre clima, patógenos e capacidade operacional, criando um ambiente propício à ocorrência de epidemias. De acordo com a Organização da Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), eventos de El Niño alteram padrões de precipitação e temperatura em escala global, com efeitos relevantes sobre a produção agrícola e a segurança alimentar. No Brasil, por exemplo, a safra 2023/2024 apresentou redução ex-

Wenderson Araujo

No Cerrado e no Centro-Oeste, o cenário mais provável envolve irregularidade de chuvas, veranicos e temperaturas elevadas

pressiva associada a condições climáticas adversas, ilustrando como tais eventos podem afetar o desempenho produtivo - ainda que com variabilidade regional significativa.

Variabilidade regional

Eventos de El Niño não se manifestam de forma homogênea. Pelo contrário, tendem a ampliar contrastes regionais, o que exige abordagens diferenciadas de manejo.

No Sul do Brasil, há maior probabilidade de ocorrência de chuvas frequentes e volumosas, o que favorece doenças dependentes de molhamento foliar e alta umidade relativa, além de aumentar o risco de limitações operacionais. Nessas condições, a pressão de doenças como ferrugem-asiática, mofo-branco, manchas foliares e giberela tende a se intensificar.

No Cerrado e no Centro-Oeste, o cenário mais provável envolve irregularidade de chuvas, veranicos e temperaturas elevadas, com impacto distinto: menor pressão inicial de doenças dependentes de umidade contínua, porém maior estresse

fisiológico das plantas, desuniformidade de lavouras e instabilidade nas janelas operacionais. Caso haja retomada de chuvas em fases críticas, o sistema pode transitar rapidamente para uma condição de maior vulnerabilidade sanitária.

No Matopiba (fronteira agrícola composta por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), o risco tende a estar associado à variabilidade hídrica, com efeitos sobre estabelecimento e eficiência de controle.

Já no Sudeste, predominam cenários mistos, com comportamento dependente de altitude, relevo e regime local de chuvas. Nessas condições, a pressão de doenças como ferrugem-asiática, mofo-branco, e manchas foliares pode se intensificar de forma mais regionalizada.

Efeitos na soja

Na cultura da soja, o risco sanitário em anos com forte influência de El Niño está associado à combinação de alta frequência de chuvas; fechamento precoce do dossel; restrições operacionais para aplicação;

e abertura de vagem sob condições hídricas intensas.

Nessas condições, aumenta a probabilidade de ocorrência de doenças como ferrugem-asiática, septoriose, cercosporiose, mancha-alvo e mofo-branco.

Importante destacar que não se trata de uma inevitabilidade, mas de um cenário em que a eficiência de controle tende a ser mais sensível ao “timing” operacional e às condições ambientais. A redução da eficiência residual de fungicidas e os atrasos nas aplicações passam a ter maior peso no resultado. No caso da eficiência de fungicidas, não se pode desconsiderar os problemas ligados à sua absorção, aliados à taxa metabólica. Em conjunto, podem representar comprometimento do seu efeito residual. Assim, combina-se a favorabilidade climática com a ineficiência do manejo químico. Por esta razão, em condições de El Niño, o dano devido às doenças atinge proporções importantes.

No Cerrado, a dinâmica tende a ser mais dependente da distribuição das chuvas ao longo do ciclo. Situações de estresse seguidas por retorno de umidade podem resultar em transições rápidas para ambientes favoráveis à doença, especialmente em lavouras desuniformes. Em sistemas operacionais intensivos, qualquer atraso de uma semana pode ser importante. Safras com este perfil climático são particularmente perigosas.

Efeitos no milho

Para o milho, a intensificação do risco está relacionada à convergência de umidade, temperatura, pressão de inóculo e empalhamento da espiga.

Doenças foliares e podridões de

Andre Shimohiro

colmo e espiga tendem a apresentar maior probabilidade de ocorrência nessas condições, com possíveis impactos sobre a área fotossintética, o enchimento de grãos e a qualidade final. O acúmulo de micotoxinas é um elemento crucial em situações de El Niño, podendo comprometer significativamente a qualidade dos grãos produzidos.

No sistema soja-milho, especialmente no Cerrado, atrasos na semeadura da soja podem deslocar o milho para janelas menos favoráveis, aumentando a exposição a estresses e doenças no final do ciclo, além de impactar a produtividade final.

Efeitos no trigo

O trigo apresenta alta sensibilidade a condições de umidade e temperatura durante as fases reprodutivas. Em cenários compatíveis com El Niño, há aumento da probabilidade de ocorrência de giberela, especialmente quando há chuva durante o florescimento e enchimento de grãos.

Além da produtividade, a qualidade industrial pode ser significativamente afetada, com risco de contaminação por micotoxinas - fator crítico na comercialização.

Fator crítico

Um dos principais efeitos indiretos de eventos como o Super El Niño está na redução da capacidade operacional.

Chuvas frequentes podem limitar o acesso à lavoura, o “timing” de aplicação, a eficiência de reaplicações, a colheita e o pós-colheita.

Assim, mesmo programas tecnicamente bem estruturados podem ter sua eficácia comprometida. A perda de eficiência operacional passa a ser um dos principais determinantes do resultado.

Estratégias de manejo

Diante desse cenário, o manejo tende a migrar de uma lógica estática para uma abordagem adaptativa e baseada em risco. No Sul, maior foco em antecipação e proteção preventiva. No Cerrado, necessidade de flexibilidade e ajustes dinâmicos. No Matopiba, integração entre risco hídrico e sanitário. No Sudeste, manejo orientado por microclimas. É importante destacar que essas estratégias não são exclusivas de anos de El Niño. Pelo contrário, representam boas práticas que tendem a gerar retorno mesmo em cenários climáticos mais estáveis.

Conclusão da abordagem

Eventos de Super El Niño devem ser interpretados como amplificadores de variabilidade e risco, e não co-

mo garantias de determinado comportamento climático ou sanitário. A adoção de estratégias ajustadas a esse cenário deve ser vista como uma forma de redução de risco e aumento de resiliência do sistema produtivo. Mesmo em situações em que o evento não se manifeste com a intensidade esperada, os ajustes realizados tendem a melhorar a eficiência operacional, aumentar a proteção da lavoura e reduzir vulnerabilidades estruturais.

Em síntese, a lógica deixa de ser reativa e passa a ser probabilística e estratégica, quando decisões são tomadas não pela certeza do evento, mas pela relação entre risco, impacto potencial e capacidade de mitigação. C C

No Sul do Brasil, há maior probabilidade de ocorrência de chuvas frequentes e volumosas, o que favorece doenças dependentes de molhamento foliar e alta umidade relativa, além de aumentar o risco de limitações operacionais

Ricardo Silveiro Balardin, DigiFarmz
Cultivar Grandes Culturas
Daniel Debona

Escolher para proteger

Em sistemas de sucessão soja-algodão, o uso de plantas de cobertura suscetíveis pode elevar rapidamente a densidade populacional de Meloidogyne enterolobii durante a entressafra

As plantas de cobertura têm se expandido nos sistemas agrícolas brasileiros, devido à melhoria da qualidade do solo. Entre os benefícios, destacam-se o aumento da matéria orgânica, a melhoria da estrutura física, a ciclagem de nutrientes e o auxílio no manejo de plantas daninhas e fitopatógenos. Seu uso em sucessão/rotação de culturas contribui para reduzir a dependência exclusiva de insumos químicos e aumentar a sustentabilidade dos sistemas produtivos.

Apesar disso, nematoides fitoparasitas permanecem como importantes limitantes da produtividade. Destacam-se espécies do gênero Meloidogyne (nematoides-das-galhas), amplamente distribuídas e capazes de parasitar diversas culturas,

causando alterações no sistema radicular, prejuízos na absorção de água e nutrientes e perdas produtivas.

Dentre essas espécies, Meloidogyne enterolobii tem ganhado destaque como espécie emergente e altamente agressiva, caracterizada pela elevada virulência e ampla gama de hospedeiros, sendo capaz de infectar e superar resistência de plantas a M. incognita, M. javanica e M. arenaria.

No Brasil, a preocupação intensificou-se a partir de 2019, com relatos em algodoeiros (Gossypium hirsutum L.) em Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso, incluindo infecções em cultivares previamente resistentes, evidenciando “quebra” de resistência.

Estudos conduzidos no Brasil indicam a presença de grupos fisiologi-

camente distintos de M. enterolobii, com comportamento diferenciado frente a plantas hospedeiras, com base em testes com hospedeiros diferenciais. De maneira geral, esses grupos têm sido referidos como “raça 1”, associada à goiabeira e a hortaliças, e “raça 2”, associada a populações provenientes do algodoeiro. Esta última, caracterizada pela elevada capacidade reprodutiva em algodoeiro (Figura 1), tem demonstrado potencial para superar fontes de resistência previamente eficazes. Esse cenário é particularmente preocupante em sistemas intensivos, como a sucessão soja-algodão, nos quais o nematoide pode se multiplicar e persistir ao longo das safras, reduzindo a eficiência de práticas como a rotação de culturas e exigindo ajustes no manejo.

Fotos Jorge Bleno da Silva Verssiani

Nesse contexto, a seleção de plantas de cobertura torna-se estratégica para a redução das populações do nematoide e a melhoria do solo. No entanto, ainda são escassas as informações sobre a reação dessas espécies, especialmente frente a populações agressivas associadas ao algodoeiro (“raça 2”), o que dificulta recomendações em programas de manejo integrado.

Diante disso, o presente estudo teve como objetivo avaliar a reação de diferentes espécies de plantas de cobertura à M. enterolobii, visando identificar materiais resistentes ou maus hospedeiros, a fim de subsidiar a escolha de espécies mais adequadas em sistemas de rotação e sucessão e contribuir para a redução das populações do nematoide no solo.

Material e métodos

O experimento foi conduzido em casa de vegetação na Estação Experimental da Staphyt Brasil (Conchal - SP), sob temperatura controlada (25°C - 30°C) e irrigação regular, por 90 dias após a inoculação (DAI). O delineamento foi inteiramente casualizado (DIC), com 19 tratamentos e cinco repetições, cada uma composta por um vaso com uma planta.

Os tratamentos incluíram tomateiro (Solanum lycopersicum, Santa Clara) como padrão de suscetibilidade; 17 espécies de plantas de cobertura: Avena sativa (aveia-branca), Fagopyrum esculentum (trigo-mourisco, IPR 92 Altar), Crotalaria ochroleuca, C. spectabilis, C. juncea, Triticum aestivum (trigo, cultivares TBIO Ponteiro e TBIO Duque), Secale cereale (centeio, BRS Serrano), Arachis hypogaea (amendoim, IAC OL3), Cenchrus americanus (milheto, BRS 1501; anteriormente Pennisetum glaucum), Canavalia ensiformis (feijão-de-porco), Sorghum bicolor (sorgo, genótipos

B1G211 e B233), Mucuna pruriens (mucuna-preta), Megathyrsus maximus (capim-zuri, BRS Zuri; anteriormente Panicum maximum), Crotalaria breviflora e Urochloa ruziziensis (= Brachiaria ruziziensis). Adicionalmente, o algodoeiro (Gossypium hirsutum, BRS 416) foi utilizado como tratamento complementar para verificação da viabilidade do inóculo.

O inóculo foi obtido de plantas de algodoeiro provenientes do norte de Minas Gerais. A população foi previamente caracterizada por eletroforese de isoenzimas como M. enterolobii, adaptada ao algodoeiro e, por isso, denominada neste estudo como “raça 2”. Em seguida, foi multiplicada por três meses em algodoeiro (Gossypium hirsutum, cv. IMA 5801B2RF), em casa de vegetação, assegurando a viabilidade e a capacidade infectiva do nematoide a essa cultura.

As plantas foram cultivadas em vasos de isopor (1 L) contendo mistura de solo e areia (2:1, v/v), previamente esterilizada em autoclave a 121°C por duas horas.

Aos 20 dias após a semeadura, realizou-se a inoculação com suspensão de ovos e juvenis de segundo estádio (J2) de M. enterolobii,

sendo a identidade da espécie novamente confirmada por eletroforese de isoenzimas. Estabeleceu-se uma população inicial (Pi) de 2.500 ovos/J2 por planta. A suspensão foi aplicada em dois orifícios (~2 cm de profundidade) ao redor da zona radicular.

Durante o experimento, estruturas reprodutivas (flores, vagens, frutos e inflorescências) foram removidas manualmente para prolongar o período vegetativo, manter o vigor e evitar senescência precoce, garantindo uniformidade e maior disponibilidade de tecido radicular para avaliação da multiplicação de M. enterolobii.

Aos 90 DAI, as raízes foram retiradas, lavadas em água corrente, secas em papel-toalha e fragmentadas (< 0,5 cm). A extração de ovos e juvenis seguiu o método de Hussey & Barker (1973), modificado por Boneti & Ferraz (1981), com trituração em solução de NaOCl a 1% por 45 s, peneiramento (20, 100 e 500 mesh) e coleta do material retido na peneira de 500 mesh.

A quantificação foi realizada em câmara de Peters, sob microscópio óptico, determinando a população final (Pf) de ovos/J2 por planta.

Figura 1 - à esquerda, galhas causadas por Meloidogyne enterolobii em algodoeiro; à direita, duas fêmeas (0,6 mm - 0,8 mm), branco-peroladas, com corpo globoso a piriforme, visíveis sem auxílio de microscópio (quando expostas)

Com base nesses dados, calculou-se o fator de reprodução (FR = Pf/ Pi), conforme Oostenbrink (1966), considerando Pi = 2.500 ovos/J2 por planta, para avaliar a multiplicação do nematoide nas espécies de plantas de cobertura.

Plantas com FR ≥ 1 foram consideradas suscetíveis, por elevarem a população do nematoide, enquanto aquelas com FR < 1 foram classificadas como resistentes, sendo indicadas para manejo. Os dados foram submetidos à análise estatística, com agrupamento de médias pelo teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade.

Resultados obtidos

Os maiores fatores de reprodução (FR) ocorreram no tomateiro Santa Clara (25,70) e no algodoeiro BRS 416 (6,47), confirmando alta suscetibilidade e viabilidade do inóculo. Valores elevados de FR indicam que o nematoide encontrou condições favoráveis para se multiplicar no sistema radicular da planta hospedeira (Figura 4). Em condições de campo, essa multiplicação pode resultar em aumento significativo da população do patógeno durante o período de entressafra.

Entre as coberturas, C. spectabilis (0,48), capim-zuri BRS Zuri (0,42) e Urochloa ruziziensis (0,36) apresen-

taram FR < 1 (resistentes). C. ochroleuca (0,84) e C. breviflora (0,92) também foram classificadas como resistentes, embora com menor eficiência na redução da população do nematoide.

A maioria das espécies foi suscetível (FR ≥ 1), incluindo aveia-branca (AF1355), trigo-mourisco (IPR 92 Altar), trigo (TBIO Ponteiro e TBIO Duque), centeio (BRS Serrano), milheto (BRS 1501), feijão-de-porco, sorgo (B1G211 e B233) e amendoim (IAC OL3). Destacam-se milheto BRS 1501 (6,83) e centeio BRS Serrano (5,40), com FR semelhantes ou superiores ao algodoeiro. Nessas condições, o uso dessas espécies durante a entressafra pode resultar em aumento expressivo da população do patógeno no solo, devendo ser evitado em áreas infestadas.

Espécies como C. juncea (FR = 1,12) e mucuna-preta (FR = 1,12) apresentaram FR próximo de 1, sendo classificadas como suscetíveis, po-

rém com baixa multiplicação. Apesar disso, seu uso deve ser criterioso, pois essas espécies tendem a manter a população do nematoide próxima ao nível inicial ao final do ciclo da cultura, contribuindo para a persistência do patógeno no solo ao longo do tempo.

A utilização de C. spectabilis, capim-zuri e U. ruziziensis em sistemas de rotação ou consórcio apresenta elevado potencial para a redução da densidade populacional de M. enterolobii. Esse efeito é maximizado quando as plantas apresentam bom estabelecimento, com estande uniforme e elevada densidade radicular, promovendo ampla ocupação do solo. Nessas condições, ocorre maior contato do nematoide com o sistema radicular das plantas, favorecendo a redução da população ao final do ciclo.

Escolhas adequadas

Em sistemas agrícolas intensivos, especialmente aqueles baseados na sucessão soja-algodão, a escolha das plantas de cobertura exerce papel importante no manejo do nematoide. Espécies suscetíveis podem multiplicar intensamente o patógeno durante a entressafra, elevando a população no solo antes da implantação da cultura seguinte e aumentando o risco de perdas produtivas.

Classificação das espécies

Do ponto de vista prático, os resul-

Figura 2 - inoculação de plantas com Meloidogyne enterolobii
Autores falam dos riscos do uso de plantas de cobertura suscetíveis durante a entressafra de soja-algodão
Fotos Jorge Bleno da Silva Verssiani

tados permitem classificar as espécies quanto ao risco de uso em áreas infestadas. Espécies como C. spectabilis, capim zuri e U. ruziziensis podem ser priorizadas, pois apresentam potencial para reduzir a população do nematoide ao longo do ciclo. Por outro lado, milheto BRS 1501, centeio BRS Serrano, trigo (TBIO Ponteiro e TBIO Duque) e feijão-de-porco devem ser evitados nessas áreas, devido à elevada capacidade de multiplicação de M. enterolobii, “raça 2”. Já espécies com FR próximo de 1, como C. juncea e mucuna-preta, devem ser utilizadas com cautela. Apesar da baixa multiplicação do nematoide, essas espécies tendem a manter a população próxima ao nível inicial quando conduzidas até o final do ciclo. Nesses casos, recomenda-se o manejo antecipado da cobertura, visando evitar a manutenção do patógeno no solo e favorecer a redução populacional.

Considerações

finais

Plantas de cobertura influenciam a dinâmica de M. enterolobii na entressafra: espécies suscetíveis (FR ≥ 1) aumentam a população em sistemas como soja e algodão, elevando o risco à cultura seguinte, enquanto

Tabela 1 - FR de Meloidogyne enterolobii em plantas de cobertura aos 90 DAI. Conchal (SP), 2025

TRATAMENTO

Tomate (Santa Clara)

Aveia branca (AF1355)

Trigo-mourisco (IPR 92 Altar)

Crotalaria ochroleuca

Crotalaria spectabilis

Crotalaria juncea

Trigo (TBIO Ponteiro)

Centeio (BRS Serrano)

Amendoim (IAC OL3)

Milheto (BRS 1501)

Feijão-de-porco

Sorgo (B1G211)

Trigo (TBIO Duque)

Sorgo (B233)

Mucuna-preta

Capim zuri (BRS Zuri)

Crotalaria breviflora

Urochloa ruziziensis

Algodoeiro (BRS 416)

Suscetível

Suscetível

Suscetível

Resistente

Resistente

Suscetível

Suscetível

Suscetível

Suscetível

Suscetível

Suscetível

Suscetível

Suscetível

Suscetível

Suscetível

Resistente

Resistente

Resistente

Suscetível

¹ Letras: agrupamento pelo teste de Scott-Knott (5%) para FR. ² Reação a Meloidogyne enterolobii: resistente (FR < 1) e suscetível (FR ≥ 1)

espécies más hospedeiras (FR < 1) reduzem o nematoide. Assim, sua seleção é essencial no manejo integrado, visando menor pressão de inóculo e maior sustentabilidade do sistema produtivo.

Anderson Vieira Modro, Beatriz Martins, Mireli do Carmo Vieira da Silva, Unasp; Daniela Santana Rodrigues Verssiani, Esalq; Jorge Bleno da Silva Verssiani, Staphyt Brasil

Figura 4 - sistemas radiculares de algodoeiro cv. BRS 416 (à esquerda) e tomateiro cv. Santa Clara (à direita), infectados por Meloidogyne enterolobii (“raça 2”), em casa de vegetação

Figura 3 - sistemas radiculares infectados por Meloidogyne enterolobii, “raça 2”
Amendoim ('IAC OL3') Milheto ('BRS 1501') Trigo ('TBIO Duque') Crotalaria ochroleuca Crotalaria spectabilis Feijão-de-porco
Sorgo ('B1G211') Sorgo ('B233') Trigo ('TBIO Ponteiro') Crotalaria juncea Crotalaria breviflora Mucuna-preta

Trinta anos de resistência ao glifosato

Sucesso das culturas transgênicas, desafios e o futuro do manejo de plantas daninhas

Oglifosato é, sem dúvida, um dos herbicidas mais importantes da história da agricultura. Desde sua introdução na década de 1970 e, sobretudo, após a adoção de culturas transgênicas

resistentes a partir de 1996, transformou profundamente o manejo de plantas daninhas no mundo.

Sua popularidade não é por acaso: trata-se de um produto altamente eficiente, de amplo espectro, relativamente barato e fácil de

usar. Essas características fizeram com que se tornasse a principal ferramenta de controle em muitos sistemas agrícolas.

No entanto, esse mesmo ano de 1996 também marcou o primeiro relato de uma planta daninha re-

sistente ao glifosato - uma espécie de azevém (Lolium rigidum) na Austrália -, sinalizando, já naquele momento, os desafios associados ao uso intensivo desse herbicida. O uso repetido ao longo de décadas criou uma forte pressão de seleção, favorecendo a sobrevivência de indivíduos naturalmente mais tolerantes. Com o tempo, isso levou à evolução da resistência.

Atualmente, existem quase 400 casos documentados de resistência ao glifosato no mundo, envolvendo 62 espécies de plantas daninhas, com registros em diversos sistemas agrícolas e regiões. No Brasil, já são mais de 20 casos confirmados, distribuídos em diferentes espécies. Mais do que a quantidade, o que chama atenção é a complexidade crescente e a dispersão desse problema.

Esta análise baseia-se na revisão científica publicada na revista Pest Management Science, intitulada “Thirty years of glyphosate-resistant crops and weeds: Current situation and future prospects”, desenvolvida com a participação de estudantes de graduação e pós-graduação da UFV, bem como de pesquisado-

res de referência na área, como Fernando Adegas (Embrapa), Caio Carbonari (Unesp), Edivaldo Velini (Unesp e presidente da SBCPD), Rafael De Prado (Universidade de Córdoba) e Stephen Duke (Universidade do Mississippi), reunindo diferentes experiências e perspectivas sobre o tema.

Complexidade da resistência

A resistência ao glifosato não ocorre de uma única forma. Diferentemente de outros herbicidas, as plantas daninhas desenvolveram uma grande diversidade de mecanismos para sobreviver ao herbicida. Esses mecanismos incluem alterações no local de ação, redução da absorção, menor translocação dentro da planta, sequestro do herbicida em compartimentos celulares e até sua degradação. Em muitos casos, mais de um desses mecanismos ocorre simultaneamente na mesma planta.

Esse acúmulo de mecanismos, conhecido como “resistência acumulada” ou “creeping resistance”, é especialmente preocupante. Isoladamente, cada mecanismo

tem efeito limitado, mas, quando combinados, atuam de forma sinérgica - ou seja, potencializam-se entre si -, muitas vezes com efeito exponencial, tornando o controle muito mais difícil e, em muitos casos, ineficiente.

Culturas transgênicas

A adoção de culturas transgênicas resistentes ao glifosato foi um marco na agricultura moderna. Lançadas comercialmente em 1996, essas culturas expandiram-se rapidamente, passando de 1,7 milhão de hectares para cerca de 180 milhões em menos de duas décadas, e atualmente ultrapassam 200 milhões de hectares no mundo.

Hoje, 28 países cultivam transgênicos, sendo que mais de 80% da área global está concentrada entre Estados Unidos, Brasil e Argentina. Soja, milho e algodão respondem por mais de 90% dessa área.

Entre os principais países produtores, o Brasil foi um dos últimos a adotar cultivos transgênicos, com início oficial em 2003, a partir da soja. No entanto, sua aceitação foi rápida e expressiva.

Gráfico 1 - área plantada com culturas transgênicas

O glifosato continua sendo uma ferramenta essencial e o herbicida mais utilizado no mundo

A soja transgênica rapidamente alcançou ampla adoção, seguida por milho e algodão, que hoje dominam os sistemas produtivos e foram fundamentais para a expansão agrícola do país. A área cultivada com essas culturas praticamente dobrou nas últimas duas décadas, passando de cerca de 37 milhões para mais de 70 milhões de hectares.

Nesse mesmo período, a produção cresceu de duas a três vezes, acompanhada por ganhos expressivos de produtividade - cerca de 74% no algodão, 61% no milho e 66% na soja.

Mais do que uma ferramenta de controle, o glifosato foi um dos principais motores da agricultura moderna. Sua adoção impulsionou inovação e crescimento econômico, viabilizando sistemas mais eficientes e consolidando o plantio direto. Sustentou cadeias produti-

vas inteiras - envolvendo sementes, insumos, máquinas, logística e pesquisa.

Esse avanço ajudou a redesenhar o mapa agrícola brasileiro, impulsionando a expansão e o surgimento de comunidades e até de cidades inteiras no interior do país, muitas delas diretamente dependentes dessa dinâmica produtiva. O impacto vai além do campo: resultou em melhor qualidade de vida, geração de renda e maior oferta de alimentos a preços mais acessíveis, que seriam significativamente mais elevados sem o glifosato e as culturas transgênicas.

Considerando a importância do agronegócio brasileiro, que representa cerca de 6,5% do PIB nas atividades primárias e cerca de 23% quando considerada toda a cadeia, é inevitável questionar quanto dessa contribuição está direta ou

indiretamente associada a sistemas produtivos dependentes do glifosato.

Por outro lado, esse modelo também contribuiu para a simplificação dos sistemas de manejo. A dependência de um único herbicida levou à repetição do uso do glifosato safra após safra, muitas vezes como principal ou única ferramenta de controle, favorecendo a seleção e disseminação de biótipos resistentes.

A realidade brasileira

O Brasil está entre os países com maior pressão de seleção, devido à ampla adoção de culturas resistentes ao glifosato.

Espécies como buva (Conyza spp.), capim-amargoso (Digitaria insularis) e capim-pé-de-galinha (Eleusine indica) tornaram-se emblemáticas. Muitas delas, além da resistência ao glifosato, apresentam resistência a herbicidas de outros mecanismos de ação, o que torna o manejo ainda mais complexo.

A dispersão ocorre rapidamente, por meio de sementes, máquinas agrícolas e movimentação de grãos. Estimativas recentes indicam que mais de 26 milhões de hectares, aproximadamente 55% da área produtora de grãos no Brasil, apresentam infestações com plantas daninhas resistentes ao glifosato.

O capim-amargoso é um dos principais destaques, com cerca de 18,7 milhões de hectares infestados, seguido pela buva (17,5 milhões) e pelo azevém (4,8 milhões). Espécies de carurus (Amaranthus spp.) e o capim-pé-de-galinha também vêm se expandindo rapidamente, alcançando aproximadamente 4,2 milhões e 8,6 milhões de hectares, respectivamente, em menos de uma década após a de-

Foto Ricardo Alcántara-de la Cruz

tecção da resistência ao glifosato. É importante destacar que a soma das áreas infestadas por espécie não corresponde ao total estimado de 26 milhões de hectares, uma vez que diferentes espécies frequentemente ocorrem simultaneamente na mesma área.

O impacto econômico da resistência é significativo. Em 2025, os custos adicionais de manejo da resistência ao glifosato no Brasil ultrapassaram R$ 7,5 bilhões por ano, relacionados ao custo de herbicidas alternativos. Ou seja, essa estimativa não inclui perdas de produtividade nem custos indiretos, como mais aplicações, controle mecânico ou manual e adoção de outras tecnologias transgênicas, além de maior consumo de combustível e mão de obra. Espécies como buva, capim-amargoso e capim-pé-de-galinha concentram grande parte desse impacto.

Aprendizados

e expectativas

Após mais de 50 anos de uso do glifosato - e 30 anos desde a introdução das culturas transgênicas e os primeiros casos de resistência -, a principal lição é clara: não existe solução única no manejo dessas plantas.

O glifosato continua sendo uma ferramenta essencial e o herbicida mais utilizado no mundo. Além disso, seu uso, especialmente em sistemas com culturas transgênicas, trouxe benefícios ambientais importantes, como a redução do revolvimento do solo, o menor consumo de combustível e o menor impacto ambiental em comparação a alternativas.

No entanto, seu uso isolado não é sustentável no longo prazo. A resistência continuará evoluindo sempre que houver alta pres-

são de seleção e baixa diversidade de manejo.

O futuro do controle de plantas daninhas passa pela diversificação: rotação de mecanismos de ação, integração de práticas culturais, controle mecânico e estratégias preventivas.

Mais do que substituir o glifosato, o desafio é utilizá-lo de forma mais estratégica, dentro de sistemas integrados.

Reflexão final

A história do glifosato é um

exemplo de sucesso - e um alerta. Poucos produtos tiveram impacto tão amplo na agricultura, na ciência e na economia. Sua contribuição vai muito além do controle de plantas daninhas.

Mas fica a pergunta: veremos outra molécula tão revolucionária quanto o glifosato - ou já aprendemos que nenhuma solução, por melhor que seja, permanece eficaz sozinha por muito tempo?

Gráfico 2 - área plantada por hectares
Ricardo Alcántara-de la Cruz, UFV C

Qualificação natural

Uso de bioestimulantes no tratamento de sementes de sorgo reflete na modulação da qualidade fisiológica e no crescimento inicial de plântulas

Osorgo consolida-se como um dos cinco cereais mais relevantes do mundo. Sua versatilidade e importância econômica são indiscutíveis, tanto na nutrição humana quanto animal, destacando-se pela resiliência em regiões de clima semiárido.

Na produção de grãos, o sorgo granífero assume um papel estratégico na matriz de insumos para

a indústria de proteína animal. Esse tipo de sorgo entrega um grão com valor energético próximo ao do milho, mas com uma vantagem competitiva, que é a estabilidade de produção em épocas de safrinha ou em regiões com janelas de semeadura mais arriscadas devido a variáveis do clima. O desenvolvimento de híbridos com baixos teores de tanino minimizou antigos entraves nutricionais, garantindo

alta palatabilidade, maior digestibilidade e eficiência na formulação de dietas para aves, suínos e bovinos.

Qualidade fisiológica

O sucesso de qualquer lavoura de sorgo começa na escolha da semente. A qualidade fisiológica sustentada, de maneira geral, pela germinação e pelo vigor é o que

Foto Wenderson Araújo

define a efetividade do estabelecimento inicial das plantas no campo. Sementes de alto desempenho garantem a formação de um estande rápido e uniforme, permitindo que as plantas superem os estádios mais críticos de crescimento e desenvolvimento, como a fase de plântula.

Em contrapartida, lotes de sementes com baixo vigor representam um risco silencioso. Embora possam apresentar taxas de germinação aceitáveis em testes laboratoriais, seu desempenho em campo é frequentemente inferior. Na prática, essas sementes originam plântulas de crescimento e desenvolvimento lentos. Essa fragilidade fisiológica torna a lavoura suscetível a estresses abióticos, como o déficit hídrico e as oscilações térmicas, além de aumentar a vulnerabilidade a fatores bióticos (pragas e doenças). O resultado é uma planta menos responsiva ao manejo fitossanitário e um estande falho.

Nesse contexto, sob a ótica da dinâmica populacional, a redução do vigor se manifesta inicialmente por meio da menor velocidade de emergência. À medida que o lote perde qualidade, observa-se uma desuniformidade acentuada no desenvolvimento das plântulas, culminando, em estágios mais avançados de deterioração, na queda drástica da taxa final de germinação.

Papel dos bioestimulantes

Para mitigar riscos e potencializar o potencial produtivo, o Tratamento de Sementes (TS) evoluiu de uma simples proteção fitossanitária para uma plataforma de inovação. Entre os avanços mais promissores está o uso estratégico de bioestimulantes.

Essas ferramentas, compostas por substâncias ou microrganismos, atuam diretamente na modulação de processos fisiológicos e bioquímicos da planta. Diferentemente dos fertilizantes convencionais, sua ação independe do conteúdo nutricional. Eles estimulam os mecanismos naturais do vegetal, otimizando a absorção de nutrientes e elevando a tolerância a adversidades ambientais.

Formulações baseadas em aminoácidos, extratos de algas e substâncias húmicas têm demonstrado elevada capacidade de impulsionar o crescimento e desenvolvimento inicial das culturas. No caso específico do sorgo, essas aplicações via TS comprovadamente aumentam o comprimento das plântulas e a velocidade de emergência.

Entretanto, a eficiência dessa tecnologia não é linear. A resposta do bioestimulante é frequentemente influenciada pelo vigor do lote de sementes e pela genética da cultivar utilizada. Essa variabilidade reforça a necessidade de estudos técnicos que validem quais combinações entregam o melhor retorno ao produtor.

Um aspecto importante no uso de bioestimulantes via TS é a relação entre a tecnologia e o vigor in-

trínseco do lote. Pesquisas indicam que a magnitude da resposta a esses produtos é, em parte, inversamente proporcional à qualidade fisiológica inicial. Pois, em lotes de alto vigor, em que as reservas e os processos enzimáticos já operam em níveis adequados, o efeito dos bioestimulantes costuma ser menos expressivo ou até não significativo. Por outro lado, os benefícios dos bioestimulantes têm se manifestado na manutenção da estabilidade do estande sob condições de estresse e, especialmente, na recuperação da performance de lotes que apresentam algum grau de declínio fisiológico.

Estudo realizado

Um estudo conduzido no Laboratório de Análises Agronômicas do Centro Universitário Arnaldo Horácio Ferreira (FAAHFLAB), em Luís Eduardo Magalhães (BA), objetivou mensurar como diferentes bioestimulantes modulam a qualidade fisiológica e o desenvolvimento inicial de plântulas de dois híbridos de sorgo granífero. Para isso, as sementes de duas cultivares foram submetidas a tratamentos com três complexos bioestimulantes e uma Testemunha (água

Figura 1 - sementes de duas cultivares de sorgo submetidas a diferentes bioestimulantes

destilada). Os bioestimulantes consistiram em: um fertilizante mineral misto com extratos vegetais, macro e micronutrientes (T1); um regulador de crescimento vegetal composto por cinetina, ácido giberélico e ácido 4-indol-3-ilbutírico (T2); e um fertilizante organomineral à base de extrato de algas marinhas (T3). As doses foram aplicadas seguindo as recomendações técnicas de cada fabricante para a cultura (Figura 1).

As variáveis respostas compreenderam o percentual de germina-

ção e a classificação das plântulas em normais fortes (maiores que 9 cm de comprimento), intermediárias (7 cm a 9 cm) e fracas (5 cm a 7 cm) (Figura 2A).

As análises dos dados revelaram a ausência de interação significativa entre os bioestimulantes e as cultivares, indicando que os fatores atuam de forma independente. Em virtude dessa independência e com foco na aplicabilidade tecnológica, os resultados apresentados a seguir detalham o desempenho isolado dos bioestimulantes, cujas

formulações exerceram influência distinta sobre as variáveis avaliadas.

A porcentagem de germinação não foi sensível o suficiente para detectar diferenças significativas entre os tratamentos, o que demonstra que o teste padrão de germinação, conduzido sob condições controladas e ideais de laboratório, muitas vezes mascara a realidade de campo (Figura 3A).

Isso evidencia que a eficácia dos bioestimulantes está mais atrelada ao vigor, ou seja, à capacidade da semente de enfrentar situações adversas, do que apenas à sua viabilidade, indicando que lotes com germinação estatisticamente semelhante podem reagir de forma diferente ao tratamento bioestimulante.

Ao categorizar as plântulas normais em fortes, intermediárias e fracas, foi possível discriminar o desempenho das sementes (Figuras 3B e 4). Essa abordagem mais detalhada revelou os efeitos moduladores dos tratamentos empregados, mostrando que, embora não tenham alterado o potencial máximo de germinação, os bioestimulantes

Figura 2 - classificação das plântulas em normais fortes, intermediárias e fracas (A) e aferição de uma plântula normal forte de sorgo granífero (B)
Médias seguidas de mesma letra minúscula não diferem entre si pelo teste de Tukey (p≤0,05)
Figura 3 - comparação entre as médias dos bioestimulantes para o percentual de germinação (A) e de plântulas normais fortes (B)

influenciaram a qualidade fisiológica e a uniformidade das plântulas emergidas.

Resultados das comparações

Entre os bioestimulantes testados, o T3 promoveu uma resposta fisiológica superior, resultando em plântulas de sorgo com maior comprimento total em relação aos demais tratamentos. Na prática, isso significa que este produto maximizou a capacidade das sementes em elevar o percentual de plântulas normais fortes, ou seja, maior número de plântulas que atingiram o padrão biométrico de crescimento ideal para o estabelecimento da cultura, como demonstrado na Figura 2B. Trazendo para a realidade do campo, plântulas que atingem esses patamares de comprimento precocemente possuem raízes mais profundas e maior área foliar, fatores que são determinantes para a resiliência contra estresses hídricos e para a uniformidade do estande, consolidando o potencial produtivo desde o crescimento e o desenvolvimento inicial.

Diversas pesquisas apontam que o uso de extratos da alga Ascophyllum nodosum, base da formulação do tratamento designado como T3, estimula a expansão do sistema radicular e reforça a capacidade de adaptação das plantas a adversidades encontradas no campo, impulsionando o vigor.

Em contrapartida, salienta-se que a resposta observada nos demais bioestimulantes sugere mecanismos de atuação distintos. Enquanto formulações à base de extratos de algas tendem a gerar estímulos fisiológicos mais pronunciados, outros produtos podem apresentar um perfil voltado ao equilíbrio nutricional. Nesses casos, a ferramenta atua como um suporte mineral estratégico,

favorecendo a manutenção do vigor em vez de promover ganhos expressivos de crescimento inicial.

Nesse sentido, a escolha do bioestimulante deve ser pautada no objetivo de manejo. Ao optar por ferramentas que elevam o percentual de plântulas fortes, busca-se maximizar o comprimento da parte aérea e do sistema radicular, conferindo à cultura uma vantagem competitiva precoce.

Rafael de Queiroz Costa, Aderson Costa Araujo Neto, Greice Marques Barbosa, UNIFAAHF; Mariane Carvalho Rodrigues de Castro, Leandra Brito de Oliveira, Uninassau de Barreiras (BA)

Cultivar Grandes Culturas
Figura 4 - comparação entre as médias dos bioestimulantes para o percentual de plântulas normais intermediárias (A) e fracas (B)
Médias seguidas de mesma letra minúscula não diferem entre si pelo teste de Tukey (p≤0,05)
Autores falam do uso de bioestimulantes no tratamento de sementes de sorgo

Vantagens e riscos

Apesar dos benefícios operacionais que uma dessecação pré-colheita pode gerar, ainda há receio por parte dos produtores quanto ao seu uso; estudo avalia a questão

Otrigo (Triticum aestivum L.) é a principal cultura de inverno na região Sul do Brasil, sendo essa a região que mais produz grãos do cereal em nível nacional. Além disso, considerando o crescimento da área semeada de soja no país nas últimas décadas, incluindo a região Sul, há situações em que essas duas culturas competem quanto ao tempo de cultivo. Isso ocorre porque o final do ciclo do trigo pode coincidir com o início do ciclo da soja.

Diante desse cenário, a realização da dessecação pré-colheita em lavouras de trigo pode reduzir, em parte, essa competição temporal. De acordo com a literatura, há estu-

dos que indicam que a dessecação pode antecipar em até seis dias a colheita do trigo. Essa antecipação ocorre porque a dessecação consiste na aplicação de um herbicida no final do ciclo da cultura, promovendo a uniformização da maturação dos grãos. Nesse contexto, a dessecação acelera a secagem dos tecidos das plantas, antecipando a colheita.

Porém, apesar dos benefícios operacionais que uma dessecação pré-colheita pode gerar, ainda há receio por parte dos produtores quanto ao uso desse manejo, especialmente no que se refere a possíveis quedas de produtividade. Essa preocupação está associada ao fato de que o manejo inadequado da

aplicação de herbicidas em pré-colheita pode, de fato, causar perdas. Geralmente, tais perdas ocorrem quando a aplicação é realizada em estádios inadequados ou com dosagens elevadas.

Diante disso, no presente estudo foram utilizadas diferentes doses de glufosinato de amônio, herbicida empregado na dessecação, com aplicação no estágio 87 (estado de massa dura) da escala de Zadoks, a fim de avaliar seus efeitos sobre a produtividade do trigo.

Metodologia aplicada

O experimento foi conduzido durante a safra de 2023, na cidade de Canguçu (RS). O delineamento ex-

perimental adotado foi o de blocos ao acaso, sendo o fator estudado as doses do herbicida. As doses utilizadas foram 0 ml/ha, 100 ml/ha, 200 ml/ha e 300 ml/ha de glufosinato de amônio (Glufosinate-Ammonium 200g/L SL), com quatro repetições por tratamento.

As doses foram definidas de acordo com a bula do produto, da seguinte forma: 0 ml/ha, testemunha (sem aplicação); 100 ml/ha, dose inferior à recomendada; 200 ml/ha, dose recomendada; e 300 ml/ha, dose superior à recomendada.

O manejo agronômico foi realizado conforme as recomendações para a cultura. As plantas foram colhidas manualmente e, posteriormente, os grãos foram secos até atingirem 13% de umidade. Em seguida, foram realizadas as pesagens para determinação da produtividade de cada tratamento.

Os dados foram submetidos à análise de variância e, quando significativos pelo teste F a 5% de probabilidade, à comparação de médias pelo teste de Scott-Knott (5%) e à análise de regressão.

Resultados

obtidos

A aplicação nas doses de 100 ml/

ha (inferior) e 200 ml/ha (recomendada) não resultou em perdas de produtividade (Figura 1), mantendo-se equivalente ao tratamento controle (sem aplicação). Esses resultados indicam que o uso de glufosinato de amônio na dessecação pré-colheita pode ser realizado com segurança nessas doses, permitindo a antecipação da colheita sem prejuízos na produtividade. Ressalta-se que o herbicida foi aplicado no estágio 87 da escala de Zadoks; portanto, os dados referem-se especificamente a esse momento. Aplicações em estágios diferentes podem apresentar resultados distintos quanto à produtividade.

Por outro lado, a dose de 300 ml/ ha resultou em redução de produtividade de 20,2%, 20,9% e 21,9% em comparação às doses de 0 ml/

ha, 100 ml/ha e 200 ml/ha, respectivamente (Figura 1). Essa redução pode estar associada à interrupção da remobilização final de assimilados do colmo para os grãos. A aplicação foi realizada em Z87, fase de máximo acúmulo de matéria seca; porém, ainda pode ocorrer contribuição de reservas vegetativas nos dias subsequentes. Assim, a aplicação da dose mais elevada promoveu dessecação acelerada dos tecidos, limitando o fluxo final de assimilados e impactando negativamente a produção. Também, em tais circunstâncias, doses elevadas podem intensificar o estresse oxidativo e a degradação celular, reduzindo o peso dos grãos e, consequentemente, a produtividade.

Conclusão das análises

As doses de 100 ml/ha e 200 ml/ ha de glufosinato de amônio aplicadas no estágio Z87 não interferem na produção de grãos de trigo. Por outro lado, a dose de 300 ml/ha causa redução na produtividade, conforme observado neste estudo.

Benhur Schwartz Barbosa, Bianca Schwartz Barbosa, UFPel; Emanuela Garbin Martinazzo Aumonde, Furg; Tiago Zanatta Aumonde, Tiago Pedó, UFPel

Figura 1 - produtividade de grãos de trigo em função de doses de glufosinato de amônio aplicadas em dessecação pré-colheita
A realização da dessecação pré-colheita em lavouras de trigo pode reduzir, em parte, essa competição temporal C C

Bioinsumos, uma forma de mitigar a crise devida à guerra no Oriente Médio

Aguerra entre Israel e EUA contra o Irã está se espalhando pelo Oriente Médio, grande fornecedor de energia e insumos agrícolas para o mundo. Na Agenda da ONU 2030 um dos objetivos de desenvolvimento sustentável é o ODS 2, que dispõe:

“Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”. A guerra em curso aumenta os custos da agricultura; a probabilidade de redução de produção e produtividade e de diminuir a demanda; de baixar as cotações de commodities agrícolas; e de aumentar a fome no mundo. Os agricultores já sentem a elevação do custo dos adubos nitrogenados. A ureia alcançou US$ 700/t em março de 2026, podendo ultrapassar US$ 1.000/t, como ocorreu na pandemia da Covid 19. A elevação nos preços, decorrente do conflito, afeta os mercados globais de fertilizantes com as restrições no estreito de Ormuz impostas pelo Irã e agora também pelos EUA, por onde deveriam trafegar 30% dos fertilizantes transportados para o mundo, além de matérias-primas para sua fabricação. Adicionalmente, aumentaram as cotações do gás natural e da nafta, utilizados na fabricação da ureia.

O diferencial da soja

A soja não necessita de adubo nitrogenado durante seu cultivo. Esse nutriente é predominante-

mente provido pela fixação biológica do nitrogênio (FBN), um processo executado por bactérias do gênero Bradyrhizobium, que formam nódulos nas raízes, fixando e transferindo nitrogênio para as plantas em troca de nutrientes e proteção. De acordo com os estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mesmo para obter altas produtividades, não há necessidade de adubação nitrogenada complementar na soja, razão pela qual não a recomenda, em qualquer condição.

De acordo com os estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mesmo para obter altas produtividades, não há necessidade de adubação nitrogenada complementar na soja, razão pela qual não a recomenda, em qualquer condição

Além de suprir a demanda da leguminosa, a FBN deixa uma parte do nitrogênio fixado para as culturas subsequentes, como o milho que, por sua vez, é dependente de adubação nitrogenada. Depois da colheita, parte desse nitrogênio pode ser incorporada ao solo via restos culturais, beneficiando culturas subsequentes, após a mineralização. Assim, o milho cultivado após a soja requer menos adubo nitrogenado.

As estimativas da Embrapa são de que, na presente safra de soja (2025/2026), quando devem ser colhidos cerca de 180 Mt, a economia dos agricultores pela substituição de adubo nitrogenado pela FBN, considerando-se a ureia a US$ 500/t (vigente em meados de 2025), seja de R$ 156,5 bilhões. Além disso, deixou-se de emitir para a atmosfera mais de 300 milhões de toneladas de CO2 eq., auxiliando na mitigação das mudanças climáticas.

Os benefícios vão além da FBN - embora esse seja o bioinsumo mais consumido. Há outras tecnologias disponíveis para o agricultor, como a coinoculação com Azospirillum , a solubilização de fosfatos e o biocontrole, que diminuem a demanda de insumos e energia fóssil, reduzindo o custo e tornando a agricultura mais sustentável.

Décio Luiz Gazzoni, Marco Antônio Nogueira, Mariangela Hungria, Embrapa Soja

Brasil deve bater recorde de exportações

Faltam

ainda quase oito meses para fechar esta temporada, mas o Brasil já dá sinais de que novamente terá recorde de exportações no agro. Há indicativos de que superará os US$ 170 bilhões que o setor faturou no ano passado, agora com a soja, com o farelo com recorde de vendas, que poderá atingir a marca de 140 milhões de toneladas. Existem expectativas de que somente soja, farelo e óleo tenham um faturamento na exportação próximo dos US$ 60 bilhões este ano.

Juntamente com a soja, o setor da carne está forte, com

Houve calmaria nas cotações neste começo de ano. A atenção agora está na safrinha, que está no meio. Em maio e parte de junho será um período importante para a definição da produção e os produtores já apontam que perderam parte do potencial, devido ao clima que prejudicou as lavouras do meio de abril em diante. O potencial da safra estava estimado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 109,1 milhões de toneladas, mas não deve chegar a 105 milhões. Os mais pessimistas acreditam que pode até nem chegar a 100 milhões. Como provavelmente ocorrerá recorde de consumo interno e as exportações continuam aquecidas, o mercado poderá avançar mais à frente.

O Brasil colheu a safra. Agora, o Rio Grande do Sul está fechando a colheita e apresenta perdas grandes na produção local, que não deverá passar de 19 milhões de toneladas. Mesmo assim, a produção brasileira está próxima de 180 milhões de toneladas. O Mato Grosso é o carro-chefe, pois colheu sozinho mais do que a Argentina, que está colhendo 48,5 milhões de toneladas. O país terá recorde de exportações. Continua, porém, com problemas para armazenagem.

Curtas e boas

TRIGO - teve alta forte no mercado internacional, porque a safra plantada neste ano não mostra boa qualidade e abre com potencial menor de produção. A Rússia, maior exportador mundial, assim como outros países importantes, já apontou que controlará as vendas para não ter problemas internos de abastecimento e inflação. O Brasil terá que pagar mais caro pelo trigo importado. Mesmo assim, a safra que, que está em início de plantação, deve ter queda de área, isso em ano que o mercado mostra cotações melhores.

o boi devendo bater recorde, com probabilidade de chegar aos US$ 21 bilhões. O frango também é líder mundial, com US$ 10 bilhões.

A exportação brasileira também se apresenta bem posicionada em café, açúcar, laranja e milho, além do fumo e de outros produtos na linha da fruticultura.

O Brasil se consolida como celeiro do mundo e abre mais espaço para crescimento, apresentando evidências de que a crise que o produtor passa atualmente deverá ser superada já nesta nova safra. Há possibilidade de avançar.

O mercado do feijão cresceu este ano frente ao do ano passado. As exportações de 2025 superaram a marca de 600 mil toneladas. Os estoques ficaram limpos. Agora, com perdas na primeira safra, queda de plantio na segunda e consumidores levando mais feijão e arroz para casa, o feijão está com indicativos firmes, com possibilidade de continuar assim neste segundo semestre.

Arroz

A colheita está fechada, com números próximos dos 11 milhões de toneladas. A oferta está menor do que o consumo esperado. Ocorreu alta em março e abril e deve continuar com ajustes positivos em maio, porque os produtores valorizarão o grão e as exportações seguem fortes, tirando parte das ofertas do mercado interno. Deverá ser um ano bem melhor do que foi 2025, com o consumo crescendo em cima do poder de compra dos consumidores, bastante comprometido neste ano para outros produtos de valor agregado maior. O arroz continua muito barato no Brasil.

EUA - os produtores estão plantando a safra em ritmo acelerado e a soja com recorde de velocidade. Isso poderá refletir na virada do mês para uma área que venha a bater a marca dos 35 milhões de hectares, diante dos menos de 34,5 milhões esperados. O milho poderá descer para os 38 milhões de hectares, em comparação aos 40 milhões plantados no ano passado.

CHINA - foi o grande comprador do agro do Brasil nos primeiros quatro meses do ano. Da soja, levou cerca de 75% do volume exportado. O setor da carne também

está com domínio dos asiáticos, que deverão continuar fortes como compradores.

ARGENTINA - com a colheita avançando, está apresentando uma boa safra. O clima está melhor na fase final. A produção de soja e milho deverá confirmar números maiores do que as projeções, o que indica que o país deverá continuar com boas exportações.

Vlamir Brandalizze Brandalizze Consulting Instagram: @brandalizzeconsulting

Coluna Mercado Agrícola
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Bioinsumos: o perigo da polarização

Os bioinsumos, tanto os que atuam na fertilidade do solo, ciciando nutrientes ou atuando na indução de resistência a fatores bióticos e abióticos, quanto os que combatem pragas e doenças, no controle biológico, vêm aumentando cada vez sua presença nas lavouras brasileiras.

Mas, dentro do quadro de polarização que hoje predomina no mundo todo, em todos os setores da vida humana, há sempre a tendência de cada pessoa se “filiar” em determinados pontos como se fosse o único, ou o exclusivo, tornando tudo não uma escolha racional, mas uma escolha como se fosse a única verdade.

O uso de produtos químicos na agricultura trouxe, com a “revolução verde”, um sensível e significativo aumento na produção e no barateamento dos alimentos no mundo. Mas, com a utilização exclusiva de tais técnicas, logo se chegou ao ponto no qual os acréscimos de fertilizantes químicos passaram a ter uma ação insuficiente para obtenção de novos patamares de produtividade.

Dois novos conceitos começaram a ser aplicados na agricultura: o cuidado com o solo, com a vida do solo, e o uso de produtos menos agressivos no controle de pragas e doenças. Aí despontaram o plantio direto e o uso dos bioinsumos em larga escala, inclusive, ou principalmente, nas culturas mais tecnificadas. As pesquisas se intensificaram nos órgãos oficiais,

nas universidades e nas empresas privadas do setor.

O uso de inoculantes em soja é o caso de maior sucesso, no qual o fertilizante nitrogenado foi totalmente substituído pelos produtos contendo Bradyrhizobium, com todas as suas vantagens econômicas e ambientais. A pesquisa passou a dedicar mais energia na busca de outros microrganismos, surgindo o Azospirillum como a possibilidade de incrementar a produtividade nas gramíneas e na coinoculação da soja.

Em seguida, começaram a ser desenvolvidos produtos contendo diferentes microrganismos, com funções diversas, como proteção contra estresses hídricos mode -

Começaram a ser desenvolvidos produtos contendo diferentes microrganismos, com funções diversas, como proteção contra estresses hídricos moderados e reciclagem de fósforo e outros nutrientes, promotores de crescimento, principalmente do sistema radicular

rados e reciclagem de fósforo e outros nutrientes, promotores de crescimento, principalmente do sistema radicular. No controle biológico, antigos produtos como o B. thuringiensis tiveram um resgate e cada vez mais são usados, bem como diversos fungos, no controle de pragas e doenças.

Entretanto, dentro da visão de que só uma corrente é verdadeira, em alguns setores vê-se a tendência da polarização, como se fosse a torcida para um ou outro time de futebol, quando, se tratando de um assunto técnico, devemos estudar friamente as diversas situações, sabendo que todo produto, seja químico ou biológico, tem seus limites. E na diversidade que temos em nosso país, com enormes diferenças de clima, solo, culturas e níveis de uso de tecnologia, temos que tomar decisões estritamente técnicas: quando devemos usar biológicos, quando se faz necessário recorrer a fertilizantes e defensivos químicos, quando os biológicos são mais recomendados e em quais ocasiões a utilização de ambos é a mais eficaz.

Assim, encarando todo o ferramental tecnológico que hoje temos à disposição, podemos chegar às melhores escolhas para obtermos elevadas produtividades e rendimentos financeiros, utilizando o que seja melhor para o meio ambiente.

Coluna ANPII Bio
Solon C. Araujo, Conselheiro da ANPII Bio

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