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Cultivar Especial 2018

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Editorial

C

Cultivar Grandes Culturas • Ano XIX • Nº 236 Janeiro 2019 • ISSN - 1516-358X Crédito de Capa: Cristiano Ceia

Diretor Newton Peter www.grupocultivar.com cultivar@grupocultivar.com Assinatura anual (11 edições*): R$ 269,90 (*10 edições mensais + 1 edição conjunta em Dez/Jan)

@RevistaCultivar

Índice

hegou o momento de apresentar nossa Edição Especial, com a retrospectiva da cobertura dos principais assuntos técnicos que movimentaram as lavouras brasileiras ao longo de 2018 e as estratégias de manejo para conviver de modo sustentável com pragas, doenças, plantas daninhas, cuidar adequadamente do solo e maximizar os resultados no campo. O ritmo fluiu frenético ao longo de 2018 e os desafios fitossanitários se multiplicaram. A expansão da mosca-da-haste da soja no Brasil colocou em alerta pesquisadores e produtores. O mesmo ocorreu em relação às evidências de hibridização de lagartas do gênero Helicoverpa. A estria bacteriana trouxe mais prejuízos às lavouras de milho e a ferrugem-asiática surgiu mais cedo e agressiva, gerando apreensão entre os sojicultores para a safra 2018/19. Cultivar se manteve atenta a estes e a tantos outros problemas que afetam a agricultura, na busca por contribuir na disseminação do conhecimento técnico, ferramenta poderosa para superar obstáculos à produção. O ano também foi de perdas para a pesquisa brasileira. Entre os que partiram está Dirceu Gassen, que se soma a José Tadashi Yorinori, José Carlos Cruz, Dionízio Link, José Carlos Fachinello, Milton de Sousa Guerra e a diversos outros profissionais cujo trabalho segue vivo, a ajudar a agricultura. Ao longo de 2018 nos esmeramos por facilitar o acesso à informação técnica qualificada e útil para quem produz. A segunda edição do Anuário de Tratores brasileiro, produzido por Cultivar Máquinas com apoio técnico do Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas (Nema) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), trouxe a lista atualizada de 270 modelos comercializados por 20 diferentes marcas, com motorizações de 25cv a 629cv. Investimos em novos layouts para as revistas impressas e reforçamos a oferta de conteúdo digital. Passado o turbulento pleito de 2018, a eleição de novos governantes gera grande expectativa e esperança. Os desafios são múltiplos e é preciso superá-los, com racionalidade e planejamento. Em 2019, o Brasil caminha para colher nova supersafra e, de novo, caberá ao produtor permanecer atento às melhores oportunidades de negócios. Cultivar continuará, como sempre, vigilante e pronta para contribuir com ampla cobertura técnica dos assuntos que movimentarão a agricultura ao longo do próximo ano. Obrigado, caro leitor, por permanecer conosco. Boas festas e excelente 2019!

Grupo Cultivar de Publicações Ltda. CNPJ : 02783227/0001-86 Insc. Est. 093/0309480 Rua Sete de Setembro, 160, sala 702 Pelotas – RS • 96015-300

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Números atrasados: R$ 22,00 Assinatura Internacional: US$ 150,00 Euros 130,00 Nossos Telefones: (53) • Geral 3028.2000 • Comercial: • Assinaturas: 3028.2065 3028.2070 3028.2066 • Redação: 3028.2067 3028.2060

Por falta de espaço não publicamos as referências bibliográficas citadas pelos autores dos artigos que integram esta edição. Os interessados podem solicitá-las à redação pelo e-mail: cultivar@grupocultivar.com Os artigos em Cultivar não representam nenhum consenso. Não esperamos que todos os leitores simpatizem ou concordem com o que encontrarem aqui. Muitos irão, fatalmente, discordar. Mas todos os colaboradores serão mantidos. Eles foram selecionados entre os melhores do país em cada área. Acreditamos que podemos fazer mais pelo entendimento dos assuntos quando expomos diferentes opiniões, para que o leitor julgue. Não aceitamos a responsabilidade por conceitos emitidos nos artigos. Aceitamos, apenas, a responsabilidade por ter dado aos autores a oportunidade de divulgar seus conhecimentos e expressar suas opiniões.

Comportamento da lagarta falsa-medideira

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Clima e manejo da soja

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Resistência genética a percevejos

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Avanço da mosca-da-haste da soja

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Eficiência de fungicidas contra a ferrugem

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Severidade da Rhizoctonia solani

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Aranhas em arroz irrigado

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Hibridização de lagartas Helicoverpa

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Ferrugem alaranjada em cana

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Interação de herbicidas

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Custo de plantas daninhas resistentes

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Tamanho do prejuízo do bicudo

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Lagarta-do-cartucho em milho

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Expediente Fundadores: Milton Sousa Guerra e Newton Peter

REDAÇÃO • Editor Gilvan Dutra Quevedo

• Vendas Sedeli Feijó José Luis Alves

• Redação Rocheli Wachholz Karine Gobbi

CIRCULAÇÃO • Coordenação Simone Lopes

• Design Gráfico e Diagramação Cristiano Ceia

• Assinaturas Natália Rodrigues Clarissa Cardoso

• Revisão Aline Partzsch de Almeida COMERCIAL • Coordenação Charles Ricardo Echer

• Expedição Edson Krause

GRÁFICA: Kunde Indústrias Gráficas Ltda.


Soja

Em movimento

A importância de conhecer o comportamento nas plantas, a flutuação populacional e a distribuição vertical da lagarta falsa-medideira na cultura da soja para definir as melhores estratégias de manejo e o controle destes insetos

A

lagarta falsa-medideira Chrysodeixis includens (Walker) (Lepidoptera: Noctuidae) já foi uma praga secundária em soja. No entanto, a partir da safra 2003/2004 esta espécie se tornou praga-chave na cultura devido aos frequentes surtos populacionais e à grande severidade de danos nas áreas cultivadas. As dificuldades de controle na cultura da soja estão muito relacionadas ao comportamento desse inseto. A falsa-medideira tende a ocupar o dossel inferior das plantas de soja, o que dificulta o seu controle por meio de pulverizações com inseticidas. O monitoramento de pragas constitui a base do manejo integrado de pragas e define a implementação ou não das táticas de controle. O emprego de armadilhas iscadas com feromônio sexual sintético é também considerado um método prático e eficiente para o monitoramento de pragas. A realização de estudos sobre a distribuição vertical de insetos-praga poderá aprimorar o monitoramento e auxiliar no desenvolvimento de táticas de controle. Estas informações podem indicar o melhor momento ou o local para deposição dos inseticidas aplicados em pulverização, a fim de maximizar o controle das pragas. Com esse objetivo foi conduzido um estudo na Embrapa Agropecuária Oeste, durante a safra 2014/2015, com o objetivo de obter informações sobre a flutuação populacional, conhecer as relações entre adultos e imaturos de C. includens na cultura da soja, bem como calcular a distribuição vertical de ovos e de lagartas no dossel foliar da cultura, com o objetivo defornecer subsídios para serem utilizados no manejo integrado dessa praga. Os adultos da lagarta falsa-medideira foram monitorados duranFigura 1 - Flutuação populacional de adultos de Chrysodeixis includens capturados em armadilhas de feromônio sexual, temperaturas médias e precipitação mensal observadas no período de outubro de 2014 a outubro de 2015. Dourados, MS

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te o período de outubro de 2014 a outubro de 2015 na cultura da soja. A captura de mariposas foi realizada com uso de armadilhas do tipo Delta, com pisos adesivos, iscada com o feromônio sexual BioPseudoplusia. Semanalmente, as armadilhas foram inspecionadas para a contagem de mariposas capturadas, quando também eram trocados os pisos adesivos, enquanto os septos do feromônio foram substituídos a cada 21 dias. Ovos e lagartas foram monitorados visualmente sobre as plantas de soja logo após a sua emergência. Nas amostragens de lagartas, utilizou-se o pano de batida, realizando-se de duas a três vezes por semana com cinco batidas de pano próximas de cada armadilha de feromônio. As lagartas capturadas foram classificadas como grandes (≥ 1,5cm) ou pequenas (< 1,5cm). Em cada época de amostragem, duas plantas próximas de cada armadilha eram também arrancadas e levadas ao laboratório de entomologia para a inspeção de ovos nas folhas e hastes. Os dados de captura de adultos nas armadilhas e suas formas imaturas encontradas nas plantas de soja foram submetidos à análise de regressão linear. As lagartas de C. includens foram também amostradas nas plantas de soja durante o florescimento da cultura a partir das 6h, com o objetivo de estudar a distribuição vertical desses insetos durante o dia no dossel foliar da soja. Para isso, dez plantas foram coletadas e seccionadas em três extratos (inferior, mediano e superior), os quais eram ensacados separadamente e levados ao laboratório para contagem de ovos e de lagartas. O mesmo procedimento foi repetido às 8h, 10h, 12h, 14h, 16h, 18h e 20h de cada dia. Para a análise do deslocamento de lagartas entre os extratos das plantas ao longo do Figura 2 - Flutuação populacional de adultos e de formas imaturas de Chysodeixis includens na cultura da soja durante a safra 2014/2015. Dourados, MS


dia, às partes superior, mediana e inferior das plantas, foram considerados os tratamentos a serem avaliados e o número de plantas, as repetições do ensaio conduzido no delineamento inteiramente casualizado.

RESULTADOS OBTIDOS Flutuação populacional e relações entre adultos e imaturos na soja Durante todo o período de monitoramento foram capturadas 1.199 mariposas de C. includens, sendo observada a presença desta espécie em todos os meses do ano. No período de cultivo da soja (outubro/2014 a fevereiro/2015), o número de mariposas capturadas foi notadamente superior, com o maior pico de ocorrência de adultos sendo observado nos meses de janeiro a fevereiro (Figura 1), quando a soja se encontrava no estádio reprodutivo. Em abril foi constatado o segundo pico de mariposas, quando na área estava sendo cultivado milho safrinha. A falsa-medideira é considerada uma praga polífaga, pois se alimenta e se desenvolve em aproximadamente 170 espécies de plantas hospedeiras, pertencentes a 39 famílias. Esta espécie já foi constatada atacando outras plantas como feijão, tomate, fumo, girassol, couve-flor, alface, além de soja, algodão e milho. Todavia, estudos têm demonstrado que C. includens tem maior preferência e adaptação à soja quando comparada a outras culturas. No Brasil, surtos de C. includens ocorrem com frequência no oeste da Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, mas faltam informações sobre a mobilidade desta espécie nas condições tropicais, especialmente durante a entressafra da soja. Os primeiros ovos e lagartas de C. includens foram observados no mês de novembro entre os estádios fenológicos V2 e V3 das plantas de soja, enquanto os picos populacionais de adultos, ovos e de lagartas na soja foram observados durante o mês de janeiro (Figura 2). Esses resultados evidenciam que a explosão populacional dessa praga ocorre quando as plantas de soja, geralmente, entram na fase reprodutiva e com dossel “fechado”. O mês de janeiro apresentou precipitação menor (82mm), quando comparado aos outros meses de cultivo da soja (Figura 1). É de conhecimento que C. includens é favorecida por condições Dirceu Gassen

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Figura 3 - Regressão Linear entre a densidade populacional de ovos e lagartas pequenas (A) e de ovos e lagartas grandes (B) de Chrysodeixis includens amostradas na cultura da soja, na safra 2014/2015. Dourados, MS

de baixa precipitação ou por períodos de seca que antecedem aos surtos dessa praga, como observado nesta pesquisa. As relações entre mariposas capturadas nas armadilhas iscadas com feromônio e as densidades de imaturos amostrados na cultura da soja não foram significativas. No entanto, foi constatada relação linear e significativa entre as densidades de ovos e de lagartas desta praga (Figura 3). Com base nos resultados obtidos, pode-se inferir que a amostragem de ovos nas plantas de soja poderia ser uma boa opção para se estimar a infestação de lagartas na cultura. No entanto, os ovos de C. includens são difíceis de ser monitorados por serem muito pequenos (medem aproximadamente 0,5mm de diâmetro), o que torna esse parâmetro sem aplicabilidade para fins de monitoramento de lagartas na soja, sendo assim mais prático realizar a amostragem das lagartas com o pano de batida. Nas condições em que este trabalho foi realizado, as armadilhas de feromônio foram eficazes na detecção de adultos de C. includens. Essa

informação é importante, pois a presença de adulto na cultura antecede a ocorrência de ovos e de lagartas. No entanto, não foi observada uma relação significativa entre a população de adultos e as densidades de imaturos que tornasse possível estimar a infestação de lagartas ou de ovos nas plantas de soja, empregando-se a densidade populacional de adultos encontrada nas armadilhas de feromônio. Distribuição vertical de ovos e de lagartas na soja As mariposas de C. includens ovipositaram em todos os três extratos (inferior, mediano e superior) das plantas de soja, porém os ovos foram depositados em maior quantidade no extrato inferior, quando comparados aos extratos mediano e superior, que apresentaram taxa de oviposição semelhante (Figura 4). Quando as plantas de soja estão no estádio de pleno florescimento, a cultura fica fechada. Nesta condição, as plantas crescem e se aproximam umas das outras,

fechando o dossel foliar, deixando a parte inferior das plantas mais protegida. As mariposas depositaram, preferencialmente, seus ovos na parte inferior, seguida pela parte mediana das plantas, provavelmente devido à proteção que esse ambiente confere aos seus imaturos, que ficam menos expostos às adversidades climáticas, à desidratação, bem como a inimigos naturais e ao controle químico. Nos estudos de distribuição vertical de lagartas de C. includens foram amostrados 282 insetos, sendo 186 lagartas pequenas e 96 grandes. Independentemente do tamanho das lagartas, se distribuíram no perfil da

Figura 4 - Distribuição vertical de ovos de Chrysodeixis includens no perfil das plantas de soja na safra 2014/2015. Dourados, MS

Barras seguidas de letras diferentes, os valores diferem estatisticamente pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.

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Folha de soja severamente danificada pela lagarta Pseudoplusia includens


Fotos Dirceu Gassen

mais quentes do dia, entre 10h e 16h, a maioria das lagartas migra dos extratos superior e médio para o extrato inferior das plantas. Porém, nos horários do dia de temperaturas mais amenas (6h, 8h, 18h e 20h), as lagartas retornam para o extrato médio e até mesmo o superior das plantas de soja. Nestes horários, o extrato superior apresenta proporcionalmente uma maior porcentagem de lagartas, especialmente as grandes, do que nos outros períodos. Essa informação é de extrema importância especialmente para o manejo de lagartas grandes de C. includens na cultura da soja, uma vez que essas lagartas são mais difíceis de serem controladas que as pequenas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

planta, preferencialmente no terço inferior, seguido do terço mediano à semelhança do observado para o comportamento de oviposição (Figuras 5 e 6). As lagartas têm preferência pela parte inferior das plantas, provavelmente porque neste ambiente estão mais protegidas de inimigos naturais e das adversidades climáticas. Cabe salientar que este comportamento das lagartas dificulta o seu controle através da aplicação de inseticidas, pois elas ficam menos expostas ao contato com os inseticidas quando aplicados na soja, especialmente quando a cultura está na fase reprodutiva em que o topo das plantas está fechado, formando uma barreira à penetração das gotas de pulverização, fato conhecido como efeito guarda-chuva. Nos estudos sobre a distribuição vertical de lagartas de C. includens no perfil das plantas de soja ao longo dia foi constatado que tanto lagartas grandes quanto pequenas migram para diferentes extratos das plantas de acordo com o horário (Figuras 5 e 6). Durante os períodos

Figura 5 - Distribuição vertical de lagartas pequenas de Chrysodeixis includens ao longo do dia no perfil das plantas de soja na safra 2014/2015. Dourados, MS

Com base nos resultados obtidos nesta pesquisa pode-se inferir que adultos de Chrysodeixis includens podem ser encontrados praticamente durante todo o ano na região de Dourados, Mato Grosso do Sul, porém o pico de sua ocorrência se verifica nos meses de janeiro e fevereiro, época de florescimento da soja. Existe uma relação linear significativa e positiva entre a densidade de ovos de C. includens e as densidades de lagartas pequenas e de lagartas grandes nas plantas de soja. As fêmeas de C. includens têm preferência em ovipositar no dossel inferior das plantas de soja. As lagartas pequenas e grandes de C. includens permanecem, geralmente, em maior proporção no dossel inferior das plantas de soja, em relação à parte mediana e à superior. Todavia, ao longo do dia, essas lagartas se deslocam no perfil das plantas de soja, ficando mais expostas nos extratos mediano e superior em horários de temperaturas mais amenas, especialmente para o caso das lagartas grandes. Dessa forma, pode-se inferir que o controle químico de lagartas grandes e pequenas da falsa-medideira deve ser realizado preferencialmente nos primeiros horários do dia ou ao anoitecer, uma vez que nestes períodos as lagartas ficam mais expostas ao contato C com os produtos pulverizados na cultura.

Daniele Zulin, Universidade Federal da Grande Dourados Crébio José Ávila , Embrapa Agropecuária Oeste Eunice Cláudia Schlick Souza, Instituto Federal de MT

Figura 6 - Distribuição vertical de lagartas grandes de Chrysodeixis includens ao longo do dia no perfil das plantas de soja na safra 2014/2015. Dourados, MS

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Soja

Clima x manejo

A definição de um método que possibilite a distinção entre essas duas fontes de variação da produtividade da cultura da soja é de grande utilidade para os produtores e consultores, pois permite definir as estratégias a serem adotadas para minimizar as perdas e, consequentemente, otimizar a eficiência agrícola

A

energia disponível para a fotossíntese, a temperatura do ar afeta o metabolismo das plantas, que, por sua vez, regula tanto a taxa de fotossíntese quanto a respiração de manutenção, além de controlar, juntamente com o fotoperíodo, a taxa de desenvolvimento da cultura, definindo a

duração das diferentes fases fenológicas e do ciclo. Além disso, a temperatura atua também sobre o balanço hormonal das plantas de soja, com papel fundamental na fase reprodutiva, quando altas temperaturas podem causar abortamento de flores e vagens. A radiação solar, jun-

Fotos Dirceu Gassen

produtividade da soja é o resultado da complexa interação entre o genótipo (cultivar) empregado, as condições meteorológicas e o manejo agrícola nas áreas de produção. Enquanto a radiação solar e o fotoperíodo controlam a quantidade de

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Figura 1 - Produtividades potencial (PP), atingível (PA) e real (PR) e as perdas de produtividade por déficit hídrico (YGdef) e por déficit de manejo (YGman) para os campeões das regiões Sul (S), Sudeste (SE), Centro-Oeste (CO), Norte/ Nordeste (N/NE) nas condições de sequeiro nas safras 2014/15, 2015/16 e 2016/17 e irrigada nas safras 2015/16 e 2016/17. Fonte: Sentelhas, Battisti e Sako (2017)

Os anos de melhores produtividades são aqueles que combinam boa distribuição de chuvas com períodos de elevada radiação solar

tamente com a temperatura, a umidade do ar e a velocidade do vento, é responsável pela demanda hídrica das lavouras de soja, que se não forem atendidas pelas chuvas irão provocar déficits hídricos, altamente prejudiciais à produtividade. O volume e a distribuição das chuvas são fundamentais para garantir bons níveis de produtividade das lavouras. Anos muito secos resultam em baixas produtividades, porém, anos excessivamente nublados e chuvosos também podem levar à redução das produtividades em razão da diminuição da disponibilidade de energia solar para a fotossíntese. Sendo assim, pode-se dizer que os anos de melhores produtividades são aqueles que combinam uma boa distribuição das chuvas ao longo ciclo com períodos suficientemente longos de elevada radiação solar para que as plantas possam fazer uso da água do solo de forma a maximizar o processo da fotossíntese, gerando altas produtividades. No Brasil, o efeito da variabilidade climática sobre a produtividade da soja é bastante evidente, tanto entre as diferentes safras de cultivo como entre as diversas regiões produtoras e até mesmo entre as várias datas de semeadura. Entre as diferentes safras, a variabilidade da produtividade da soja é principalmente condicionada por eventos climáticos como o El Niño Oscilação Sul (Enos), cujas fases quente (El Niño) e fria (La Niña) afetam os regimes térmicos e de chuva de diferentes regiões brasileiras. Assim, enquanto no estado do Mato Grosso há pouca variabilidade da produtividade da soja, no Rio Grande do Sul, mais afetado pelo Enos, tal variabilidade é mais acentuada, o que condiciona um maior risco climático para a cultura da soja. Em situação intermediária se encontra a região do Mapitoba, aonde, apesar dos efeitos prejudiciais do El Niño, as produtividades não chegam a oscilar tanto como na região Sul. Além do efeito do clima na produtividade da soja, o manejo

da cultura apresenta uma grande influência, já que a combinação da cultivar/grupo de maturação, da época de semeadura e das práticas de fertilização do solo e de proteção da cultura (controle de pragas, doenças e daninhas) é fundamental para a definição do nível de produtividade a ser atingindo. Apesar dessa distinção entre os efeitos do clima e do manejo agrícola sobre a produtividade da soja, nem sempre é possível se distinguir facilmente o quanto de perdas de produtividade é causado pelas adversidades climáticas (especialmente o déficit hídrico) e quanto pelas deficiências de manejo. Dessa forma, a definição de um método que possibilite a distinção entre essas duas fontes de variação da produtividade da cultura da soja é de grande utilidade para os produtores e consultores, pois possibilita definir as estratégias a serem adotadas para minimizar as perdas e, consequentemente, otimizar a eficiência agrícola. Uma das formas de se quantificar os impactos do clima e do manejo na produtividade da soja é por meio do uso de técnicas que permitem simular o crescimento e o desenvolvimento da cultura da soja, de modo que se definam as produtividades potencial (máximo a ser alcançado pelo genótipo em dada condição climática, sem falta de água e com manejo ótimo) e atingível (máximo a ser obtido pela cultura em condição de sequeiro com manejo ótimo). Uma vez definidas essas produtividades, respectivamente denominadas de PP e PA, pode-se compará-las às produtividades reais (PR), obtidas pelos produtores, definindo-se, assim, o quanto da quebra de produtividade foi advindo das limitações do clima (especialmente do déficit hídrico), pela diferença entre PP e PA, e o quanto foi causado pelas deficiências de manejo, pela diferença entre PA e PR. A Figura 1 apresenta os dados de produtividade dos campeões do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb) nas três últimas safras (2014-15, 2015-16 e 2016-17), assim como os valores de PP e PA para cada uma das localidades dos vencedores. Observa-se que

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a PP atingiu o valor máximo de 214 sc/ha para o campeão do N/NE na safra 2014/15 (Figura 1), fato associado à maior oferta de radiação solar que ocorreu durante a safra nessa região. Nas demais safras analisadas, os campeões da região N/NE também apresentaram as maiores produtividades potenciais, sempre acima de 180 sc/ha. Por outro lado, o valor mínimo, de 167 sc/ ha ocorreu na safra 2014/15 para o campeão da região S (Figura 1), provavelmente condicionada por dias nublados e com baixa oferta de radiação solar. Apesar dessa grande variação, esses valores demonstram o alto potencial de produtividade da soja disponível nos ambientes de produção do Brasil, o que, no entanto, é difícil de ser obtido em função das limitações impostas pelos períodos de déficit hídrico e pelo manejo subótimo que é realizado no campo. Quando houve a penalização da PP pelo déficit hídrico, obtendo-se a PA, maiores diferenças entre os valores mínimo e máximo foram observadas. A menor PA foi de 99 sc/ha para o campeão da região N/NE na safra 2015/16 (Figura 1), local que teve uma perda de 107 sc/ha devido ao déficit hídrico. Já o maior valor de PA foi de 164 sc/ha para o campeão da região CO na safra 2014/15, onde as perdas por déficit hídrico totalizaram 37 sc/ha (Figura 1). Em média, o déficit hídrico foi responsável pela redução de 44 sc/ha nas áreas dos campeões, incluindo as áreas irrigadas, oscilando entre um mínimo de 14 sc/ha para o campeão da região CO na safra 2016/17 e um máximo de 107 sc/ha para o campeão da região N/NE na safra de 2015/16 (Figura 1). Para a PR foi observada uma variação de 83 sc/ha a 149 sc/ ha. O valor mínimo foi obtido pelo campeão da região N/NE na safra 2015/16, área com maior redução por déficit hídrico, da ordem de 107 sc/ha, e de apenas 16 sc/ha devido ao manejo. Já

Dirceu Gassen

Sentelhas aborda a influência do clima e do manejo na produtividade das lavouras de soja

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o maior valor foi alcançado na safra 2016/17 na área do campeão da região S, onde houve redução de apenas 26 sc/ha devido ao déficit hídrico e de somente 1 sc/ha devido ao déficit de manejo, o que indica a excelente condição hídrica para a lavoura de soja nessa área/safra e a excepcional performance do produtor campeão no manejo da sua cultura. Baixas perdas por manejo também foram observadas nas áreas dos campeões da região S na safra 2014/15 (2 sc/ha), da região N/NE na safra 2014/15 (8 sc/ha), e da região SE na safra 2016/17 (6 sc/ha) (Figura 1). Por outro lado, há casos em que as perdas por manejo superaram as perdas por déficit hídrico, o que indica que há ainda espaço para melhoria das práticas agrícolas e, consequentemente, para incrementar as produtividades. De um modo geral, considerando-se uma média de todas as áreas dos campeões, as maiores perdas de produtividade da soja se deram em função do déficit hídrico, que contabilizou em média 43,4 sc/ha, enquanto as perdas decorrentes do déficit de manejo agrícola foram da ordem de 28 sc/ha. Isso mostra que 61% do total de perdas de produtividade das lavouras se deu em função do déficit hídrico, enquanto 39% em função do déficit de manejo. Os resultados do Cesb evidenciam que atualmente, nas áreas produtoras, há um maior efeito do clima na limitação da produtividade da soja. No entanto, quando se analisa a média da produtividade nacional das últimas três safras da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), da ordem de 51 sc/ha, e se compara esses dados aos valores médios dos campeões do Cesb (115 sc/ha), observa-se claramente que esse efeito é muito maior, o que provavelmente está associado ao limitado volume de solo disponível para o crescimento do sistema radicular, o que faz com que os déficits hídricos sejam mais pronunciados que aqueles que ocorrem nas áreas dos campeões, onde invariavelmente o perfil de solo é mais profundo. Nessa linha, ações que maximizem a produtividade são requeridas, de modo a minimizar os impactos do déficit hídrico na produtividade da soja. Entre essas ações, a escolha de datas de semeadura com menor risco climático, conforme recomendações do zoneamento de risco climático do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a seleção de cultivares melhor adaptadas à região, especialmente com relação à tolerância à seca, e investimentos em ações de manejo do solo (química, física e biológica) para aumentar o perfil de exploração do sistema radicular, de modo a aumentar a água disponível para as plantas, são algumas das quais permitirão aos produtores brasileiros atingirem altas produtiviC dades em curto-médio prazo. Paulo Cesar Sentelhas Grupo de Pesq. em Agrometeorologia Esalq/USP


Soja

Auxílio da genética Como o desenvolvimento de cultivares resistentes pode auxiliar no manejo de percevejos em soja, por ajudar a reduzir os custos com aplicações de inseticidas e proteger a longevidade das poucas moléculas disponíveis para o controle químico

A

cultura da soja na safra 2017/18 ultrapassou os 35 milhões de hectares cultivados no Brasil e precisa manter sua produtividade de grãos, mesmo sob ataque de doenças e insetos-praga. Dentre as principais pragas da soja, os percevejos se destacam pelos danos causados diretamente nas sementes ainda em fase de enchimento até sua maturação, quando inserem seu estilete na semente e secretam enzimas para facilitar sua alimentação. Além dos danos diretos, ocorrem os indiretos, causados por patógenos que colonizam as sementes nos pontos das picadas. Dentre as espécies de percevejos de maior importância para a soja, o percevejo-marrom Euschistus heros tem se destacado nas últimas safras com populações elevadas e pelo potencial de dano para a cultura, além de outras espécies como o percevejo-verde-pequeno Piezodorus guildinii, o percevejo-barriga-verde Dichelops melacanthus e o percevejo-verde, Nezara viridula, que compõem o complexo de insetos sugadores de grãos. Em lavouras severamente atacadas por essas espécies, os danos diretos, dependendo do estádio de desenvolvimento das plantas, podem provocar o abortamento de vagens ou a formação de vagens com sementes menores e malformadas (enrugadas e chochas), reduzindo, consequentemente, a qualidade fisiológica das sementes produzidas (menor germinação e vigor), podendo, inclusive inviabilizar áreas para a produção de sementes. Somando esses danos diretos aos indiretos causados pela presença de patógenos, há ainda o apodrecimento de sementes e vagens, atraso na maturação e aumento na ocorrência de retenção foliar, provocando problemas para a colheita mecânica e reduzindo a produtividade e a qualidade de grãos.

ESTRATÉGIAS DE MANEJO E A RESISTÊNCIA GENÉTICA

Dentre as estratégias de manejo do complexo de percevejos, o controle químico é o método usualmente utilizado pelos agricultores. Na maioria das vezes essa tática de controle é empregada sem o devido diagnóstico dos níveis populacionais desses insetos nas lavouras, anteci-

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Figura 1 - Flutuação populacional de percevejos em cultivares de soja nos municípios de Florínea e Cândido Mota, São Paulo, na safra 2014/15. As setas indicam o momento das aplicações de inseticidas segundo o nível crítico (NC = 4 percevejos / m) para cada cultivar

pando sem necessidade e aumentando o número de aplicações de inseticidas e, consequentemente, os custos de produção. Além disso, o restrito número de moléculas eficientes para o controle de percevejos e a exposição contínua dessas populações aos mesmos inseticidas têm promovido a seleção de indivíduos resistentes principalmente para o percevejo-marrom, reduzindo a eficiência desta ferramenta para o manejo adequado das populações desses insetos. Uma ferramenta extremamente útil para o manejo dos percevejos reside no uso de cultivares resistentes. A resistência genética é o método mais simples e barato para os agricultores, pois reduz os custos de produção, traz benefícios ambientais e interage positivamente com os demais métodos de controle. Infelizmente, o número de cultivares resistentes registradas no Brasil é pequeno e restrito a algumas regiões específicas (cultivares IAC-100, IAC-17, IAC-24 e BRS 391). Por ser uma característica com herança mais complexa (Godoi & Pinheiro, 2009, Gen Mol Biology; Souza & Toledo, 1995, Braz J Genet), o desenvolvimento de cultivares de soja resistentes e comercialmente competitivas tem exigido grande esforço das instituições de pesquisa. Considerando uma taxa anual de crescimento da produtividade de 32,7kg/ha no Brasil ou 1,42% ao ano (Balbinot Júnior et al, 2017, Boletim de P&D/Embrapa Soja) fica fácil perceber o desafio de inserir essa resistência com herança poligênica em cultivares competitivas. Felizmente, apesar dessas dificuldades técnicas, algumas instituições como a Embrapa têm conseguido dar sua contribuição, já com uma cultivar convencional registrada além de linhagens derivadas das diversas plataformas trabalhadas na Embrapa (Convencional, RR e Intacta) com alto potencial produtivo e diferentes níveis de resistência aos percevejos (em fase de registro e validação).

CONTRIBUIÇÕES DA RESISTÊNCIA GENÉTICA

A cultivar BRS 391 é um bom exemplo. Trata-se de material precoce (GM=6.4) com adaptação para o Oeste, o Norte e o Noroeste do Paraná, o Médio Paranapanema e o Sudoeste de São Paulo, e o Sul, o Centro-Sul e o Sudoeste do Mato Grosso do Sul (RECs 201, 202 e 204), com teores médios de 20,7% de óleo e 39,3% de proteína. É resistente às principais doenças da soja (mancha olho-de-rã, cancro da haste, pústula bacteriana e podridão radicular de fitóftora), nematoides de galhas (M. javanica e M. incognita) e percevejos. Ensaios de validação do tipo “lado a lado”, com parcelas de dois hectares de cada material, realizados em três áreas de produtores na safra 2014/15, apresentaram rendimentos entre 5% e 44% superiores aos da cultivar BRS 232, atingindo produtividade de 5.910kg/ha em Florínea, São Paulo (Tabela 1). Nessas localidades, as populações de percevejos foram monitoradas com o pano de batida e o controle químico realizado quando a densidade populacional de percevejos atingiu o nível de quatro percevejos por metro, portanto, o dobro do nível de ação para lavoura comercial. Jovenil José da Silva

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Tabela 1 - Rendimento e qualidade da semente de cultivares de soja suscetíveis e tolerantes ao dano de percevejos em áreas de produtores onde o nível de controle foi de 4 percevejos /m, na safra 2014/15 (Corrêa-Ferreira et al., 2016, XXXV Reunião de Pesquisa de Soja) Local

Andirá, PR Florínea, SP Cândido Mota, SP

Cultivar

BRS 391 BRS 232 BRS 391 BRS 232 BRS 391 BRS 232

No de aplicações1

Rendimento (Kg/ha )2

Vigor

2 2 1 1 2 4

4638 ± 156 a 3222 ± 124 b 5910 ± 53 a 5281 ± 66 b 4485 ± 102 a 4258 ± 113 a

78,9 ± 1,3 a 19,2 ± 1,5 b 86,4 ± 1,3 a 86,7 ± 0,9 a 73,9 ± 0,6 a 73,7 ± 0,8 a

Análise de tetrazólio (%) Viabilidade Sementes Picadas Inviáveis 91,5 ± 0,7 a 65,3± 1,1 b 7,3 ± 0,6 b 58,9 ± 1,2 b 98,3 ± 0,5 a 37,5 ± 1,1a 93,2 ± 0,7 a 20,5 ± 1,5 b 1,0 ± 0,2 b 94,5 ± 0,7 a 36,0 ± 2,7 a 3,4 ± 0,4 a 90,7 ± 0,4 a 69,9 ± 2,6 a 7,5 ± 0,6 a 90,1 ± 0,7 a 63,7 ± 1,6 a 7,3 ± 0,6 a

1 Número de aplicações com inseticidas a partir do nível de controle de 4 percevejos / m no pano-de-batida. 2 Médias seguidas pela mesma letra, dentro de um mesmo local, não diferem estatisticamente entre si pelo teste de Tukey a 5%.

O primeiro impacto direto do uso da genética está na redução do número de aplicações de inseticidas. Em Cândido Mota foram realizadas duas aplicações na BRS 391 contra quatro aplicações na BRS 232 (Tabela 1 e Figura 1). Em Florínea e Andirá foram realizadas uma e duas aplicações, respectivamente, nas duas cultivares (Tabela 1). Entretanto, mesmo com aplicações no nível de quatro percevejos por metro, a BRS 391 apresentou maior rendimento e menor percentual de sementes picadas e inviáveis em relação à BRS 232 (Tabela 1), indicando que a cultivar suscetível precisaria de pelo menos uma aplicação adicional para evitar perdas. O segundo impacto dessa genética superior está na melhoria da qualidade fisiológica das sementes produzidas. A BRS 391 apresentou vigor e viabilidade superior ou igual ao padrão BRS 232 em Andirá e Florínea, respectivamente, proporcionando menor índice de sementes picadas e inviabilizadas pelos percevejos (Tabela 1). Na área de Cândido Mota não houve diferença entre as cultivares pela análise do tetrazólio mesmo com duas aplicações a menos na BRS 391 (Tabela 1 e Figura 1). A partir dessas validações realizadas em áreas comerciais, constata-se que a cultivar BRS 391 tolera o dobro do nível de ação preconizado pelo manejo integrado de pragas, requerendo menor uso de inseticidas.

e Intacta já existem linhagens com padrão de resistência/tolerância aos percevejos superior ou igual ao da cultivar BRS 391. Essas linhagens exibem características agronômicas de ciclo e potencial produtivo para atender outras regiões sojícolas, como as macrorregiões 1 e 3. Em ensaios de competição em rede, as novas linhagens já tiveram seu potencial produtivo comprovado e devem passar por um processo de validação em áreas comerciais para avaliação do impacto sobre o manejo de populações de percevejos. Dentre as convencionais destacam-se as linhagens BRI13-5301 e BR12-10309, a última também resistente à ferrugem. Para o programa RR, os destaques são BRRI13-1533 e BRRI14 1417 e para o Intacta, os genótipos BRB15-232859 e BRB14-210725. Dessa forma, independentemente da plataforma desejada pelo agricultor, pode-se afirmar que não faltarão boas opções de cultivares competitivas, mas com atributo adicional de oferecer aos agricultores uma ferramenta extra para o manejo C de populações de percevejos no Brasil.

Carlos A. Arrabal Arias, Clara B. Hoffmann-Campo, Beatriz S. Corrêa-Ferreira e Ivani de O. Negrão Lopes, Embrapa Soja

PERSPECTIVAS EM CURTO PRAZO

Clara Beatriz Hoffmann Campo

Tanto no programa convencional como nos programas RR

A

B

C

D

Linhagens convencionais BRI13-5301 (A), BR12-10309 (B), RR BRRI13-1533 (C) e BRRI14-1417 (D), em Londrina, PR, safra 2017/18

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Soja

Voltou para ficar Presente oficialmente em todos os estados do Sul do Brasil, além do Paraguai e da Bolívia, a mosca-da-haste da soja acaba de ser detectada também em lavouras do Centro-Oeste brasileiro. Com status de praga mais impactante da safrinha, Melanagromyza sojae ou MDH tem poder de fogo para reduzir a produtividade entre 10% e 15%. Seu controle demanda lançar mão de ferramentas como tratamento de sementes e pulverizações de inseticidas

A

mosca-da-haste da soja Melanagromyza sp. foi encontrada no Rio Grande do Sul nos anos 1980 por Gassen et al (1985) e depois, nos anos 2000, por Link et al (2009), com ocorrências localizadas, eventuais e sem grande importância. Entretanto, recentemente, a Equipe do Laboratório de Manejo Integrado de Pragas (LabMIP) da Universidade Federal de Santa Maria encontrou a MDH da soja em vários municípios da região Noroeste do Rio Grande do Sul e no Oeste de Santa Catarina, na safra 2014/2015. O LabMIP- UFSM confirmou a espécie por técnicas morfológicas e moleculares como Melanagromyza sojae (Diptera- Agromyzidae), que é uma espécie invasiva e de grande importância em países da Ásia. Nessas ocorrências, predominantemente em sojas do tarde ou da safrinha, as infestações não são mais localizadas, apresentam alta densidade de plantas atacadas e um evidente impacto na produção de grãos. Essas ocorrências causaram preocupação aos produtores e técnicos, e pela falta de conhecimentos técnicos/científicos para o seu manejo, tem sido praticadoo controle químico aleatório e sem resultados adequados. Os danos médios da mosca-da-haste da soja foram esti-

mados em 3,8 sacas/ha que equivalem a 13,7%, avaliados em sete experimentos realizados no Rio Grande do Sul, nos quais se observaram incrementos de produtividade da soja obtidos até 35 DAE, proporcionados pela proteção do tratamento de sementes (Curioletti 2017, informação pessoal).

NOVAS OCORRÊNCIAS NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA

Recentemente, com os avanços das pesquisas do LabMIP - UFSM, foi possível verificar que sua ocorrência é muito mais ampla e impactante nos cultivos de soja safrinha, não só na região Noroeste do Rio Grande do Sul, mas também nas regiões Nordeste e Central do estado. No Oeste de Santa Catarina, a sua ocorrência tem sido maior ou observada mais frequentemente em soja safrinha, e em sojas guaxas

Jerson Guedes

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Franciely Irala

plantas isoladas, dentro ou no entorno das lavouras, em estradas ou próximas a locais de trânsito ou descarga de soja (locais de descarga, armazéns etc). O exame dessas plantas deve seguir os mesmos procedimentos recomendados para plantas cultivadas.

IDENTIFICAÇÃO DA MDH DA SOJA

Figura 1 - Pupas de Melanagromyza em soja

ou tigueras. No Oeste do Paraná se observou MDH em sojas mais tardias e em plantas espontâneas. Entretanto, sua ocorrência é muito maior na região sojeira do Cone Sul da América do Sul. Recentemente, também houve a confirmação de M. sojae no Paraguai, onde a equipe do LabMIP - UFSM fez inúmeras pesquisas de comportamento, distribuição, danos e controle da praga. De outro lado, nos últimos meses confirmou-se a ocorrência de MDH da soja também na Bolívia, onde o cultivo de safra mais tardia está estabelecido e favorece a praga. Além destes casos, já registrados oficialmente, na última estação de cultivo ocorreram os primeiros registros da praga na região Centro-Oeste do Brasil.

DETECÇÃO E MONITORAMENTO DO ATAQUE DE MDH

A detecção da MDH da soja pela observação exclusiva dos sintomas externos da planta é bastante difícil, embora as plantas atacadas possam apresentar menor crescimento e folhas de coloração mais clara ou carijós, além de orifícios de saída dos adultos. A forma mais fácil de detectar a praga se dá pela observação das larvas e/ou pupas ou pela presença de galerias na haste principal e ramificações da soja. A amostragem e o monitoramento de lavouras devem ser realizados arrancando plantas de soja e, em seguida, seccionando as plantas com um corte transversal da haste na região do colo e separando a parte aérea das raízes. Com o auxílio de um canivete, a haste principal e as ramificações laterais devem ser abertas longitudinalmente, de baixo para cima, expondo a medula e os tecidos internos da haste, tornando possível verificar a ocorrência de larvas, pupas ou pupários vazios. Nesse momento, é possível realizar a contagem das plantas atacadas, da presença e do comprimento de galerias na haste principal e laterais e dos orifícios de saída. O monitoramento nas fases iniciais de desenvolvimento da cultura é importante para a detecção de ocorrências precoces da praga. Os primeiros sintomas da ocorrência da mosca-da-haste da soja são percebidos mais facilmente a partir dos 20 DAE (Dias Após a Emergência). Em soja guaxa ou tiguera (espontâneas), a amostragem deve ser feita em

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A presença de soja contendo injúrias, larvas, pupas ou eventualmente adultos em galerias medulares em cultivos tardios, de safrinha ou tigueras, é um forte indício de ser MDH. Entretanto, a identificação correta e segura de M. sojae (Diptera - Agromyzidae) pode ser realizada de duas formas: 1) por observação de caracteres morfológicos de larvas e pupas da espécie, e/ou 2) pelo sequenciamento de um pequeno fragmento de seu DNA mitocondrial. Em ambos os casos, o LabMIP- UFSM pode fazer esta confirmação, depois de receber amostras com material conservado em álcool 96% e preferencialmente mantido em freezer.

CONHECIMENTO ATUAL E RESULTADOS DE CONTROLE

As informações da literatura sobre o manejo da MDH com inseticidas químicos são escassas e antigas. Há relatos do uso em pulverização foliar de inseticidas do grupo químico dos organofosforados como monocrotofós, dimetoato, ometoato, clorpirifós e do piretroide cipermetrina. Em aplicação na semeadura, foram utilizados: carbosulfan e os neonicotinoides tiametoxam e imidacloprido. Além disso, no Brasil e no Paraguai, ainda hoje não existem inseticidas registrados para o manejo de M. sojae ou outras espécies de Diptera na soja. Recentemente, entretanto, a equipe do LabMIP – UFSM, em parceria com a Central Nacional de Cooperativas do Paraguai (Unicoop), desenvolveu estudos avaliando a eficiência de inseticidas utilizados no manejo de outras pragas da soja, mas nesse caso para a proteção de plantas de soja ao ataque de M. sojae. Os experimentos foram conduzidos na área experimental da Cooperativa Pindó, em San Cristóbal, Alto Paraná, Paraguai, na safra 2015/16. No experimento 1, foram avaliados 12 inseticidas aplicados na semeadura da cultura, na forma de tratamento de sementes, jato dirigido ou grânulos distribuídos no sulco de semeadura, combinados ou não com pulverizações foliares realizadas aos 18 e 28 Dias Após a Emergência da cultura - DAE. No experimento 2, foram avaliados 16 inseticidas aplicados em pulverização foliar aos dez e 22 DAE (Figura 2). A ocorrência da mosca-da-haste nos ensaios foi intensa e se estabeleceu no início do desenvolvimento da soja, retratando as condições observadas nos cultivos de safrinha do Sul do Brasil e do Paraguai. Os resultados demonstraram que todos os inseticidas aplicados na semeadura, reduziram a incidência da MDH até os 22 DAE. Os inseticidas clorantraniliprole, bifentrina + imidacloprido e imidacloprido foram mais eficientes no controle da praga. Já os inseticidas fipronil, ciantraniliprole e tiametoxam apresentaram o maior


período residual com controle até 28 DAE da soja. A combinação de inseticidas aplicados na semeadura com inseticidas foliares aos 18 e 28 DAE não resultou em redução de plantas atacadas. Isso indica que o tratamento de sementes isolado apresenta efeito residual efetivo capaz de controlar novos fluxos populacionais, antes dos 18 DAE. Também foi constatado que a pulverização foliar de inseticidas, realizada após o estabelecimento da MDH nas plantas de soja, é ineficiente para seu controle, pois provavelmente não são translocados a longas distâncias (pecíolos e hastes da soja), locais onde estão estabelecidas as larvas da MDH. No experimento 2, que avaliou o efeito de pulverizações foliares, realizadas aos dez DAE e 22 DAE, os inseticidas clorpirifós, tiametoxam + lambdacialotrina, tiodicarbe, bifentrina e imidacloprido + beta-ciflutrina proporcionaram redução na incidência de plantas atacadas. A drástica diminuição da eficiência dos inseticidas na avaliação aos 38 DAE em comparação com a avaliação aos 22 DAE indica que o período residual dos inseticidas é inferior a 12 dias, intervalo entre as pulverizações, e proporcionou a reinfestação da MDH.

RECOMENDAÇÕES DE MANEJO DA MDH DA SOJA

Os resultados do LabMIP – UFSM do Brasil e do Paraguai indicam que, para as condições de semeadura de soja tardia e de safrinha, é necessária a adoção de medidas de controle específicas para a mosca-da-haste da soja, considerando seu potencial de danos e o retorno dado pelos tratamentos químicos. A recomendação está pautada no uso dos inseticidas em tratamento de sementes e no sulco (na semeadura), em combinação com pulverizações foliares, pela redução de plantas atacadas por MDH, proporcionada pelo controle químico. As pulverizações foliares deverão iniciar até os dez DAE e repetirem-se em

intervalos inferiores a dez dias, a fim de proteger as plantas durante as cinco primeiras semanas de desenvolvimento, que é o período crítico da ocorrência da MDH e de seus danos na soja. Portanto, a recomendação final do LabMIP – UFSM para o manejo da MDH nos cultivos tardios de soja, período de maior intensidade de ocorrência, é o uso de tratamento de sementes combinado com pulverizações foliares. Luis Eduardo Curioletti, Jerson Vanderlei Carús Guedes, Jonas André Arnemann, Clérison Régis Perini, Lucas de Arruda Cavallin, Lucas Drebes, Willian Bauer Daltrozo, UFSM

Figura 2 - Descrição dos momentos da aplicação e de avaliação dos tratamentos

Figura 3 - Plantas de soja atacadas por M. sojae em resposta à aplicação de Figura 4 - Plantas de soja atacadas por M. sojae em resposta à pulverização inseticidas na semeadura. (Curioletti et al 2018) foliar de inseticidas aos 10 e 22 DAE. (Curioletti et al 2018)

Inseticidas: Punto 600 FS (imidacloprido 48ml i.a./80ml p.c/ha) TS¹; Cruiser (tiametoxam 42ml i.a./120ml p.c/ha) TS; Standak Top (fipronil 20ml i.a./80ml p.c/ha) TS; Dermacor (clorantraniliprole 48ml i.a./80ml p.c/ha) TS; Crop Star (imidacloprido + tiodicarbe 42 + 26ml i.a./320ml p.c/ha) TS; Fortenza (ciantraniliprole 25ml i.a./40ml p.c/ha) TS; Rocks (bifentrina + imidacloprido 21,6 + 26,4ml i.a./160ml p.c/ha) TS; Marshal (carbosulfam 400ml i.a./1000ml p.c/ha) JDS²; Lorsban (clorpirifós 1200ml i.a./2500ml p.c/ha) JDS; Rugby 200 CS (cadusafós 800g i.a./4000g p.c) JDS; Rugby 100 GR (cadusafós 800g i.a./4000g p.c/ha) GS³; Actara (tiametoxam 125g i.a./500g p.c/ha) JDS. 1TS tratamento de sementes; 2JDS jato dirigido no sulco de semeadura; 3GS grânulos no sulco de semeadura.

Inseticidas: Premio (clorantraniliprole 10 g i.a./50ml p.c/ha); Belt (flubendiamida 33,6 g i.a./70ml p.c/ha); Ampligo (clorantraniliprole + lambdacialotrina 7,5 + 3,75 g i.a./75ml p.c/ha); Taura (tiodicarbe 56 g i.a./75ml p.c/ha); Nocaut (metomil 215 g i.a./226 g p.c/ha); Lorsban (clorpirifós 480 g i.a./1000 ml p.c/ha); Eficiente (acefato 750 g i.a./1000 g p.c/ha); Pirate (clorfenapir 240 g i.a./1000 ml p.c/ha); Avatar (indoxacarbe 60 g i.a./400 ml p.c/ ha); Noctur (benzoato de emamectina 10 g i.a./100 g p.c/ha); Talstar (bifentrina 15 g i.a./150 ml p.c/ha); Actara (tiametoxam 52 g i.a./200 g p.c/ha); Hurano (imidacloprido 175 g i.a./290 ml p.c/ha); Engeo Pleno (tiametoxam + lambdacialotrina 32,25 + 12,5 g i.a./250 ml p.c/ha); Connect (imidacloprido + beta-ciflutrina 100 + 12,5 g i.a./1000 ml p.c/ha); Talisman (carbosulfano + bifentrina 90 + 30 g i.a./600 ml p.c/ha).

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C


Soja

Teste de E eficiência O que dizem e de que modo podem contribuir para o manejo da ferrugem-asiática os ensaios em rede realizados com fungicidas na safra 2017/18. Informações não são recomendações de controle e devem ser utilizadas na determinação de programas que priorizem a rotação de produtos com diferentes modos de ação, adequados à época de semeadura

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nsaios em rede para comparação da eficiência de fungicidas para o controle de doenças na cultura da soja vêm sendo realizados desde a safra 2003/04. Para a ferrugem-asiática da soja, uma das doenças mais severas da cultura, onde há uma correlação direta entre o aumento do controle e o crescimento de produtividade, essas informações são de extrema importância no manejo da doença. Elevadas perdas de produtividade aconteceram nas primeiras safras com essa doença, por desconhecimento. No entanto, as informações dos ensaios em rede não se constituem em recomendações de controle, uma vez que nos ensaios são utilizadas aplicações sequenciais dos fungicidas para determinar a eficiência de controle. Aplicações sequenciais favorecem seleção de populações menos sensíveis de fungos. Essas informações


devem ser utilizadas na determinação de programas de controle, priorizando sempre a rotação de fungicidas com diferentes modos de ação e adequando os programas à época de semeadura. Os ensaios em rede são realizados em semeaduras tardias, a maioria a partir de novembro, para evitar o escape da doença. O escape atualmente se constitui na principal estratégia de manejo da ferrugem-asiática da soja. Nos últimos dez anos houve uma mudança no desenvolvimento de cultivares com grande demanda por cultivares de soja precoce, na busca principalmente por tornar possível uma segunda safra com a cultura do milho. Nas cultivares precoces, semeadas logo após o final do vazio sanitário, os sintomas da doença tendem a aparecer somente no final do ciclo e, em algumas situações, nem aparecem. Além da eficiência, os ensaios têm permitido acompanhar as mudanças de sensibilidade do fungo aos diferentes fungicidas. Essas mudanças de sensibilidade são atribuídas à seleção de isolados do fungo menos sensíveis, em consequência do uso intensivo de fungicidas. Os principais modos de ação utilizados no controle da ferrugem-asiática são os fungicidas sítio-específicos inibidores da desmetilação (IDM, triazóis), os inibidores da quinona externa (IQe, estrobilurinas) e os inibidores da succinatodesidrogenase

(ISDH, carboxamidas). Desde 2014/15, fungicidas multissítios como mancozebe, clorotalonil e fungicidas cúpricos têm sido avaliados nos ensaios na rede de forma isolada ou associados a fungicidas sítio-específicos. Na safra 2017/18 foram realizados 39 ensaios com fungicidas sítio-específicos para o controle da ferrugem-asiática, e avaliados 21 fungicidas, sete ainda em fase de registro (T15 a T18 e T20 a T22) e os demais (T2 a T14 e T19) são misturas prontas registradas de fungicidas com diferentes modos de ação (Tabela 1). Nesses ensaios são realizadas aplicações sequenciais dos produtos, que começam aos 45-50 dias após a germinação das plantas e são reaplicados em intervalos de 14 dias. O intervalo entre as aplicações nos ensaios em rede foi reduzido em relação aos anos anteriores. Nos ensaios são realizadas aplicações calendarizadas para diminuir a variação entre os locais e permitir a sumarização conjunta. A calendarização não é uma recomendação de controle e sim uma metodologia adotada que permite juntar os dados para a análise. Na análise estatística dos dados foram eliminados os ensaios onde a primeira aplicação foi realizada com sintomas de ferrugem (três ensaios), ensaios com baixa severidade da doença (cinco ensaios) e outros nove ensaios por razões estatísticas. Hercules Campos

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Hercules Campos

A ferrugem-asiática é uma das doenças mais severas na cultura da soja

Apesar da alta variabilidade observada nos ensaios em decorrência da variabilidade do fungo Phakopsora pachyrhizi nas regiões, diferentemente da safra 2016/17, os resultados não foram separados na análise conjunta, sendo apresentada uma única tabela. De forma semelhante à safra 2016/17, a eficiência dos fungicidas contendo carboxamidas (ISDH) variou em razão da menor sensibilidade do fungo a esse modo de ação, porém, sem apresentar um padrão de distribuição regional. Nessa safra, as misturas de fungicidas contendo protioconazol (IDM) que vinham sendo avaliadas nos outros anos, também apresentaram redução de eficiência em alguns locais, porém sem apresentar padrões regionais que permitissem separação dos ensaios. Dessa forma, a média da análise apresentada na tabela de sumarização envolve todas as variações observadas nos ensaios nas diferentes regiões. Todos os tratamentos apresentaram severidade significativamente inferior à testemunha sem fungicida (T1) (Tabela 1). As menores severidades e maiores porcentagens de controle foram observadas para os tratamentos com impirfluxam + tebuconazol (T17, 80%), benzovindiflupir + ciproconazol + difenoconazol (T18, 77%), picoxistrobina + benzovindiflupir (T10, 73%), piraclostrobina + epoxiconazol + fluxapiroxade (T11, 73%), bixafen + protioconazol + trifloxistrobina (T14, 72%), fluxapiroxade + oxicloreto de cobre (T16, 72%) e mancozebe + picoxistrobina + tebuconazol (T19, 71%), sendo que os fungicidas dos tratamentos 16, 17 e 18 ainda estão em fase de registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). 22

A menor eficiência de controle foi observada para o tratamento com azoxistrobina + ciproconazol (T2, 28%), sendo inferior aos demais tratamentos e superior à testemunha sem fungicida. Os demais fungicidas apresentaram eficiência igual ou superior a 49% de controle. Nas primeiras safras dos ensaios em rede havia diversos fungicidas com eficiência acima de 80%, principalmente triazóis (IDM) e misturas de triazóis e estrobilurinas (IDM + IQe), com duas aplicações e intervalos de 21 dias entre as aplicações. No entanto, atualmente, em razão das populações do fungo menos sensíveis aos dois grupos (IDM e IQe) estarem distribuídas na maioria das regiões, a eficiência desses fungicidas nos ensaios é menor, mesmo com maior número de aplicações e menor intervalo entre as aplicações. Todos os fungicidas registrados devem ser utilizados em programas de manejo, adequando a época de semeadura e incluindo os fungicidas multissítios. Se somente os fungicidas com maior eficiência forem utilizados no controle, a tendência é que favoreçam a pressão de seleção para populações menos sensíveis e, na safra seguinte, podem ter sua eficiência reduzida. As maiores produtividades foram observadas para os tratamentos com impirfluxam + tebuconazol (T17 – 4.158kg/ ha), piraclostrobina + epoxiconazol + fluxapiroxade (T11 – 4.034kg/ha), benzovindiflupir + ciproconazol + difenoconazol (T18 – 3.999kg/ha), picoxistrobina + ben-

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zovindiflupir (T10 – 3.990kg/ha), bixafen + protioconazol + trifloxistrobina (T14 – 3.983kg/ha), piraclostrobina + fluxapiroxade (T8 – 3.921kg/ha), azoxistrobina + benzovindiflupir + difenoconazol (T20 – 3.917kg/ha), fluxapiroxade + oxicloreto de cobre (16 – 3.916kg/ha), mancozebe + picoxistrobina + tebuconazol (T19 – 3.908kg/ha), azoxistrobina + benzovindiflupir (T9 – 3.853kg/ha), trifloxistrobina + protioconazol (T5 – 3.814kg/ha), protioconazol + fluindapir (T22 – 3.813kg/ha), tetraconazol + fluindapir (T21 – 3.808kg/ ha), tebuconazol + clorotalonil (T13 – 3.782kg/ha) (Tabela 1). A menor produtividade foi observada para o tratamento testemunha (T1- 2.931kg/ha), que se diferenciou significativamente de todos os tratamentos com fungicidas, com 30% de redução de produtividade em relação ao tratamento 17. A correlação entre as variáveis severidade e produtividade foi de-0,97, o que indica uma estreita relação linear entre o aumento da severidade da doença e a queda na produtividade. O protocolo dos ensaios cooperativos determina aplicações sequenciais para comparação dos fungicidas. No entanto, para o manejo da doença devem ser seguidas as estratégias antirresistência que incluem não utilizar mais do que duas aplicações do mesmo produto em sequência e devem-se utilizar no máximo duas aplicações de produtos contendo ISDH por cultivo. Além dos ensaios com os fungicidas sítio-específicos (IDM, IQe e ISDH), experimentos com fungicidas multissítios vêm sendo realizados pela rede de ensaios para controle da ferrugem-asiática, isolados e em combinações com fungicidas sítio-específicos. Nos ensaios com fungicidas multissítios isolados são realizadas cinco aplicações, com início aos 45-50 dias e repetição com intervalo médio de dez dias entre as aplicações, para conhecer a eficiência individual de cada fungicida. Aplicados de forma isolada, a eficiência variou de 44% a 67% para os diferentes multissítios. Em um segundo ensaio os fungicidas multissítios foram associados ao fungicida trifloxistrobina + ciproconazol 75g i.a. ha + 32g i.a. ha e aplicados a partir dos 45-50 dias após a germinação, em intervalos de 14 dias. A associação de fungicidas multissítios ao


fungicida trifloxistrobina + ciproconazol aumentou o controle de 56% para 77%, na média (variando entre 67% e 82% em função do multissítio), com acréscimo médio de cinco sacos de soja/ha. A dose do fungicida multissítio é importante para obter os resultados observados nos ensaios em rede. Os fungicidas multissítios devem ter o registro no Mapa para a sua utilização em programas de manejo da ferrugem-asiática na soja. Com a redução da eficiência dos fungicidas sítio-específicos observada a cada safra, é cada vez mais importante que todas as estratégias de manejo sejam utilizadas de forma conjunta para atrasar a seleção de resistência às novas moléculas e manter os patamares de produtividade de soja, uma vez que a ferrugem-asiática é uma doença que pode impactar todas as regiões produtoras. O manejo integrado da ferrugem-asiática envolve a eliminação de plantas de soja voluntárias e a ausência de cultivo de soja na entressafra por meio do vazio sanitário; a utilização de cultivares de ciclo precoce semeadas no início da época recomendada; o monitoramento da lavoura desde o início do desenvolvimento da cultura, acompanhando as ocorrências da doença no site ou no aplicativo do Consórcio Antiferrugem (www. consorcioantiferrugem.net); a utilização de fungicidas preventivamente, com base no monitoramento; e a utilização de cultivares com gene(s) de resistência. As cultivares com gene(s) de resistência apresentam lesões com menor quantidade de esporos e não dispensam a utilização de fungicidas. São ferramentas importantes de manejo e podem ajudar a reduzir a pressão de seleção sobre os fungicidas, mas, como apresentam um ou no máximo dois genes de resistência, o fungo pode vencer essa resistência, por seleção natural, de forma semelhante ao que ocorre com os fungicidas. A semeadura no início da época recomendada é uma das principais estratégias para escapar da doença, uma vez que o fungo aumenta sua multiplicação após o período do vazio sanitário. Os resultados apresentados só foram possíveis em razão do trabalho conjunto de diversas instituições de pesquisa e empresas, que integram a C rede de ensaios. 24

Cláudia V. Godoy, Maurício C. Meyer e Ivani de O. N. Lopes, Embrapa Soja Carlos M. Utiamada e Luiz Nobuo Sato, Tagro Hercules D. Campos , UniRV/Campos Pesquisa Agrícola Alfredo R. Dias e Edson P. Borges, Fundação Chapadão Carolina C. Deuner, Universidade de Passo Fundo David S. Jaccoud Filho e Wilson S. Venancio, Universidade Estadual de Ponta Grossa Eder N. Moreira , Fac. Centro Mato-grossense – Facem Edson R. de Andrade Junior, Instituto Mato-Grossense do Algodão Ivan Pedro Araújo Júnior e Fabiano V. Siqueri, Fundação Mato Grosso Fernanda C. Juliatti e Fernando C. Juliatti, JuliAgro/Univ. Federal de Uberlândia Tiago Madalosso e Fernando Favero, Centro de Pesquisa Agrícola Copacol Heraldo R. Feksa

Fundação Agrária de Pesq. Agropecuária José Fernando J. Grigolli, Fundação MS para Pesq. e Dif. de Tecn. Agropec. Cláudia B. Pimenta e José Nunes Junior, Emater-GO e Centro Tecnológico para Pesquisas Agropecuárias Luana M. de R. Belufi Fundação de Pesquisa e Desenv. Tecnol. Rio Verde Luciana C. Carneiro, Univ. Federal de Goiás Luís Henrique Carregal, Agro Carregal Pesquisa e Proteção de Plantas Eireli Marcelo G. Canteri, Universidade Estadual de Londrina Marcelo R. Volf. Dalcin Serviços Agropecuários Marcio Goussain, Assist Consultoria e Experimentação Agron. Ltda Moab D. Dias Universidade Federal do Tocantins Ricardo S. Balardin Mônica Paula Debortoli Instituto Phytus Mônica C. Martins Círculo Verde Assessoria Agronômica e Pesquisa Silvânia H. Furlan Instituto Biológico Valtemir J. Carlin Agrodinâmica

Tabela 1 - Severidade da ferrugem-asiática, porcentagem de controle (C) em relação à testemunha sem fungicida, produtividade e porcentagem de redução de produtividade (RP) em relação ao tratamento com a maior produtividade, para os diferentes tratamentos. Média de 23 ensaios para severidade e 22 ensaios para produtividade, safra 2017/18 Tratamento Dose Ingrediente ativo (i.a.) g i.a. ha-1 1 testemunha 2 azoxistrobina + ciproconazol1 60 + 24 3 picoxistrobina + ciproconazol2 60 + 24 4 trifloxistrobina + ciproconazol3 75 + 32 5 trifloxistrobina + protioconazol3 60 + 70 6 picoxistrobina + tebuconazol4 60 + 100 7 metominostrobina + tebuconazol5 79,75 + 119,63 8 piraclostrobina + fluxapiroxade6 116,55 + 58,45 9 azoxistrobina + benzovindiflupir1 60 + 30 10 picoxistrobina + benzovindiflupir 60 + 30 11 piraclostrobina + epoxiconazol + fluxapiroxade6 65 + 40 + 40 12 mancozebe + azoxistrobina + ciproconazol3 1350 + 90 + 60 13 tebuconazol + clorotalonil7 125 + 1125 14 bixafen+ protioconazol+ trifloxistrobina3 62,5 + 87,5 + 75 15 picoxistrobina + ciproconazol11 90 + 40 16 fluxapiroxade + oxicloreto de cobre8,11 60 + 504 17 Impirfluxam+ tebuconazol9,12 30 + 100 18 benzovindiflupir + ciproconazol + difenoconazol1,11 30 + 45 + 75 19 mancozebe+ picoxistrobina+ tebuconazol4,11 1000 + 66,5 + 83,33 20 azoxistrobina + benzovindiflupir + difenoconazol1,11 63 + 31,5 + 78,75 21 tetraconazol + fluindapir1,12 85,04 + 82,48 22 protioconazol + fluindapir10,12 70 + 70 (https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1094386/1/CT138ferrugemOL1.pdf)

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Severidade (%) 78,1 A 55,9 B 39,5 C 36,2 CD 28,8 EFGH 29,2 DEFG 34,2 CDE 26,0 FGHIJ 27,0 EFGHIJ 20,9 JKL 21,3 IJKL 32,4 CDEF 28,5 EFGHI 21,6 HIJKL 31,0 DEF 21,9 GHIJKL 15,6 L 18,1 KL 22,5 GHIJKL 27,2 EFGHIJ 25,4 FGHIJK 26,0 FGHIJ

C (%) 28 49 54 63 63 56 67 65 73 73 58 64 72 60 72 80 77 71 65 68 67

Produtividade (kg ha-1) 2931 G 3229 FG 3559 EF 3649 CDE 3814 ABCDE 3691 BCDE 3601 EF 3921 ABCDE 3853 ABCDE 3990 ABC 4034 AB 3631 CDE 3782 ABCDE 3983 ABCD 3606 DE 3916 ABCDE 4158 A 3999 ABC 3908 ABCDE 3917 ABCDE 3808 ABCDE 3813 ABCDE


Augusto César Goulart

Doenças

Severidade quantificada

A importância de escala de notas ilustrada, simples e precisa para avaliação de lesões de Rhizoctonia solani em plântulas de algodão, soja e feijão

D

oenças causadas por fungos de solo impactam quase todas as culturas. Entretanto, aquelas que ocorrem na fase inicial de desenvolvimento das plântulas são um dos maiores problemas mundialmente (Goll et al, 2013; Zeun et al, 2013). Quando as condições no campo são favoráveis à sua ocorrência, as perdas no estande e, consequentemente, no rendimento de grãos, podem ser significativas (Rizvi e Yang, 1996). De maneira geral, os danos causados nessa fase de estabelecimento da lavoura estão relacionados à redução da população de plântulas (apodrecendo as sementes antes da germinação - tombamento de pré-emergência- ou causando a morte das plântulas- tombamento de pós-emergência), à ocorrência de mela e também de podridão da haste e das raízes (Dorrance et al, 2003; Goulart, 2007a, 2007b, 2010; Malvick, 2017; Rizvi; Yang, 1996). Baseado em critérios de importância, patogenicidade, ocorrência e danos, dentre os patógenos de solo que atacam as culturas do algodão, feijão e soja no Brasil,

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o fungo Rhizoctonia solani Kuhn, grupo de anastomose (AG)-4 (teleomorfo: Thanatephorus cucumeris (A.B. Frank) Donk), é considerado o mais importante, pela frequência que ocorre, pelo fato de estar presente na maioria dos solos e em diferentes condições de clima e, consequentemente, pelos danos que causa na fase inicial de estabelecimento da lavoura (Goulart, 2005; 2010). Este fungo é o principal agente causal da doença conhecida como tombamento de plântulas, amplamente disseminada no Brasil (Bianchini et al, 1997; Goulart, 2007b, 2016; Sartorato et al, 1987). Este patógeno, habitante natural do solo, provoca o tombamento tanto na pré quanto na pós-emergência, levando à redução da população de plantas. R. solani é um fungo polífago, pois ataca um grande número de espécies vegetais. Os sintomas nas plântulas se caracterizam pelo estrangulamento do colo, bem como pelo aparecimento de lesões circulares

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marrom-avermelhadas, tanto nas raízes quanto no hipocótilo, tornando-se alongadas e deprimidas (Goulart, 2017b; 2016; Zambolim et al, 1997). Essas plântulas geralmente tombam em um período compreendido entre a pré-emergência e dez dias a 15 dias após a emergência (Goulart, 2010; 2016). A planta adulta atacada por R. solani desenvolve apodrecimento seco das raízes, estrangulamento do colo e lesões deprimidas e escuras (marrom-avermelhadas), abaixo e ao nível do solo, resultando em murcha, tombamento ou sobrevivência temporária com emissão de raízes adventícias acima da região afetada (Goulart, 2007b; Harper, 2012). Para se ter uma ideia da importância que esta doença assume, as perdas em produção, devido à sua ocorrência, são significativas. Resultados obtidos nos Estados Unidos por Tachibana (1968), citado por Dorrance et al (2003), demonstraram perdas no rendimento de grãos da soja da ordem de 50% devido ao ataque deste patógeno. Segundo McLean e Gazaway (2000), nos EUA, em 1995, estimou-se uma redução na produtividade do algodoeiro, devido às doenças iniciais, da ordem de 180 mil toneladas, com estimativa de perdas de 2,8% ao ano. No caso do feijoeiro, acarreta perdas no rendimento que variam de 10% a 60%, quando atua formando complexo com outros patógenos de solo, conforme relatos de Zambolim et al (1997). Não foram levantados dados desta natureza no Brasil, considerando as culturas de soja, algodão e feijão. Em experimentos fitossanitários, é comum a classificação de indivíduos amostrados, tais como folhas, ramos,


Figura 1 - Escala de notas para a avaliação da severidade de lesões de Rhizoctonia solani em plântulas de algodão Nota

Descrição da Lesão

0

Plântulas sadias

1

Sintomas

Lesão Tipo 1Intensidade Leve Apenas uma lesão no hipocótilo, coloração marrom-avermelhada, podendo ser circular ou alongada, pequena (menor ou igual a 0,5cm), superficial e sem constrição.

2

Lesão Tipo 2 Intensidade Moderada Lesão alongada, coloração marrom-avermelhada, na raiz (A) ou no hipocótilo (B), medindo entre 0,5cm e 2cm, superficial e sem constrição.

3

Lesão Tipo 3 Intensidade Severa Lesão alongada e extensa (maior que 2cm), coloração marrom-avermelhada, abrangendo o hipocótilo e o sistema radicular, com constrição.

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Figura 2 - Escala de notas para a avaliação da severidade de lesões de Rhizoctonia solani em plântulas de soja Nota

Descrição da lesão

0

Plântulas sadias

1

2

3

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Lesão Tipo 1 - Intensidade Leve Apenas uma lesão no hipocótilo, predominantemente na região do coleto da plântula, coloração marrom-avermelhada, alongada e deprimida, pequena (menor ou igual a 0,5cm)

Lesão Tipo 2 - Intensidade Moderada Lesões alongadas e deprimidas, podendo ser uma ou mais, isoladas ou coalescidas, coloração marrom-avermelhada, presentes no hipocótilo e/ou no sistema radicular, medindo entre 0,5cm e 2cm

Lesão Tipo 3 - Intensidade Severa Lesão alongada e extensa (maior que 2cm), deprimida e com constrição, coloração marrom-avermelhada, abrangendo o hipocótilo e o sistema radicular

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Sintomas


Figura 3 - Escala de notas para a avaliação da severidade de lesões de Rhizoctonia solani em plântulas de feijão Nota

Descrição da lesão

0

Plântulas sadias

1

2

3

Sintomas

Lesão Tipo 1 - Intensidade Leve Apenas uma lesão no hipocótilo, predominantemente na região do coleto da plântula, coloração marrom-avermelhada, alongada e deprimida, pequena (menor ou igual a 0,5cm)

Lesão Tipo 2 - Intensidade Moderada Lesões alongadas e deprimidas, podendo ser uma ou mais, isoladas ou coalescidas, coloração marrom-avermelhada, presentes no hipocótilo e/ou no sistema radicular, medindo entre 0,5cm e 2cm

Lesão Tipo 3 - Intensidade Severa Lesão alongada e extensa (maior que 2cm), deprimida e com constrição, coloração marrom-avermelhada, abrangendo o hipocótilo e o sistema radicular

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frutos, flores, segundo notas de uma escala discreta preestabelecida, correspondentes a faixas de severidade de doença (Czermainski, 1999), sendo que a classificação dessas unidades amostrais em geral ocorre mediante avaliação visual e resulta na contagem de elementos ou incidência por classe. A simples observação da ocorrência de uma determinada doença, sua incidência e até mesmo a quantificação da severidade, utilizando critérios subjetivos (avaliação visual), na maioria das vezes pode induzir ao erro, tornando-se necessária a adoção de critérios objetivos para a sua quantificação (Amorim, 1995; Lenz et al, 2009). Várias estratégias têm sido propostas para a quantificação da severidade de doenças com precisão. Destacam-se as escalas diagramáticas ou escala de notas, que são representações ilustradas de partes da planta, a serem avaliadas, com sintomas em diferentes níveis de severidade (Amorim, 1995; Bergamin Filho e Amorim, 1996). Essas escalas devem apresentar uma sintomatologia padrão, passível de ser comparada com aquelas observadas em condições naturais de infecção ou até mesmo produzidas através de inoculação. Assim, a utilização de escalas diagramáticas corretamente elaboradas pode reduzir a subjetividade das estimativas de severidade, melhorando a acurácia e a precisão da avaliação, constituindo-se na principal ferramenta de avaliação de severidade para muitas doenças. (Aquino et al, 2008; Lenz et al, 2009; Martins et al, 2004). Entretanto, deve-se levar em conta que as escalas diagramáticas devem ser de fácil uso, aplicáveis em diferentes condições, além de apresentarem informações suficientes que representem todos os estádios de desenvolvimento da doença (Bergamin Filho e Amorim, 1996). A utilização de escalas diagramáticas ou escalas de notas, como ferramenta para auxiliar na quantificação da severidade de uma determinada doença, é mais comum quando se trata de doenças foliares. No caso de fungos de solo e mais especificamente tratando-se de R. solani, apenas uma referência foi encontrada sobre o tema, no patossistema feijoeiro x podridão radicular de R. solani (Rodrigues, F. de Á.; Corrêa, G. F.; Korndörfer, G. H.; Santos, M. A. dos; Datnoff, L. E. Efeito do silicato de cálcio e da autoclavagem

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Goulart propõe escala para avaliar a severidade de Rhizoctonia solani

na supressividade e na conducividade de dois solos à Rhizoctonia solani. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 34, n. 8, p. 1367-1371, ago. 1999). Ressalta-se que nessa publicação não foram apresentadas ilustrações das partes das plantas com sintomas em diferentes níveis de severidade, conforme sugerido por Amorim (1995) e Bergamin Filho e Amorim (1996). Para as culturas da soja e do algodão, nenhuma referência sobre o tema foi encontrada. Em experimentos de tratamento de sementes com fungicidas e de comparação de genótipos para resistência ao fungo de solo R. solani, na fase de plântula, o mais comum é a determinação do tombamento de plântulas e, naquelas remanescentes, a simples indicação da presença de lesões do patógeno nas raízes e no hipocótilo dessas plântulas, que nada mais é do que a incidência da doença, dada pela porcentagem de plântulas doentes em uma amostra ou população. A severidade, que é a porcentagem da área ou do volume de tecido coberto pelos sintomas da doença, normalmente não é considerada, pela falta de uma metodologia adequada que permita estimá-la de forma segura. Nesse contexto, ressalta-se que em inúmeros trabalhos realizados, essa escala de notas proposta foi validada, constatando-se a sua aplicabilidade, com os valores obtidos sendo usa-

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dos para calcular o índice de doença (severidade), de acordo com a fórmula estabelecida por McKinney nas plântulas remanescentes, em experimentos de tratamento de sementes com fungicidas. A oferta de imagens reais de diferentes tipos de lesões de R. solani em plântulas de algodão, soja e feijão, em lugar de desenhos, por exemplo, aumenta a precisão da avaliação. As fotos são de uso prático, diferentemente de descrições textuais que podem ter diferentes graus de subjetividade e interpretação. Considerando a inexistência, até então, de metodologia padronizada, ilustrada e de fácil aplicação para a avaliação da severidade de lesões de Rhizoctonia solani em plântulas de algodão, soja e feijão, desenvolveu-se uma escala de notas, simples e precisa, com o objetivo de suprir essa lacuna.

ESCALA DE NOTAS

Para as três culturas, foram definidas quatro notas (0 a 3), em função dos tipos de lesões observadas nas plântulas. Nas Figuras 1, 2 e 3 encontram-se as descrições e as ilustrações para cada tipo de lesão, sua respectiva nota e a cultura corC respondente. Augusto César Pereira Goulart, Embrapa Agropecuária Oeste


Arroz Daniel Hoerbe

Teias de proteção A importância de preservar as aranhas nas áreas de cultivo de arroz irrigado, inimigas naturais que se alimentam de pragas como ácaros, pulgões e outros artrópodes. Dar preferência a inseticidas seletivos e adotá-los com racionalidade, dentro de um conjunto de estratégias de manejo integrado, é fundamental para preservar o equilíbrio biológico e reduzir os custos de produção

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O

s agroecossistemas sustentáveis objetivam alcançar características semelhantes às de ecossistemas naturais, assegurando a presença de inimigos naturais e outros organismos benéficos ao sistema. As lavouras de arroz irrigado e áreas próximas possuem grande diversidade de inimigos naturais, onde as aranhas desempenham papel importante sobre a regulação de populações de pragas, garantindo a produtividade com menores impactos ao ambiente e redução dos custos de manejo. Essas áreas proporcionam ambientes diversificados e dinâmicos, que abrigam uma diversidade biológi-


Fotos Daniel Hoerbe

ca rica, mantida pela rápida colonização assim como pela rápida reprodução e crescimento dos organismos. O uso indiscriminado de agroquímicos, como forma de controle populacional, contribui para o aumento da proliferação de pragas nas culturas, por eliminar seus inimigos naturais. Nesse contexto, torna-se difícil manter a diversidade biológica e as interações presa-predador em equilíbrio. Como forma de preservação destes artrópodes, recomenda-se o Manejo Integrado de Pragas (MIP), que enfatiza abordagens ecológicas para estabelecer soluções permanentes para o problema das pragas, ao fornecer estrutura para o desenvolvimento de programas de manejo.

IMPORTÂNCIA DAS ARANHAS

Os inimigos naturais têm sido caracterizados como organismos especializados no controle biológico de pragas. Entre os principais artrópodes destacam-se aranhas, libélulas, tesourinhas, joaninhas, dípteros e himenópteros, que alimentam-se de insetos adultos, ovos, pupas, imaturos, ácaros, pulgões e outros artrópodes. São importantes devido à sua constante presença nas áreas, riqueza, diversidade,

abundância relativa e capacidade de reduzir a densidade da população de pragas e os danos, tornando suas interações relativamente estáveis. As aranhas representam um dos principais grupos da fauna de artrópodes dos sistemas agrícolas e, como predadores generalistas, podem alimentar-se de 40% a 50% da biomassa disponível de insetos, outras aranhas e pequenos vertebrados representando um papel importante no controle biológico de espécies causadoras de danos às culturas de importância econômica (Riechert, Lockley, 1984; Tarabaev, Shekin, 1990; Green, 1996; Vangsgaard, 1986). Dentre os diversos grupos de artrópodes, as aranhas se destacam nos agroecossistemas de arroz (Didonet et al, 2001). As famílias de aranhas comumente encontradas em arroz irrigado são Araneidae, Lycosidae, Tetragnathidae, Salticidae, Anyphaenidae e Oxyopidae (Beevi et al, 2005; Rodrigues et al, 2008 e 2013). Ocorrendo dominância de Tetragnatha nitens (46,8%) e Tetragnatha jaculator (14,8%), ambas da família Tetragnathidae, e Alpaida veniliae (34,2%), da família Araneidae, representando as três, 95,8% do total de espécies (Rodrigues et al, 2008 e 2013). Nas lavouras brasileiras a principal espécie

Teias tecidas por aranhas na parte superior das plantas, em área de cultivo de arroz

é a Alfaida veniliae, representando 80% da população no Estado. Um dos aspectos importantes dos aracnídeos, como agentes de controle biológico de insetos fitófagos, é a sua constante presença e a relativa abundância durante todas as fases de desenvolvimento do cultivo orizícola. Onde a população das aranhas aumenta conforme aumenta a oferta de presas, acompanhando o ciclo da cultura, do início da semeadura até o fim da colheita. Algumas espécies podem reduzir a população total de pragas em 22% por dia (Tahir et al, 2009). As aranhas têm hábitos noturnos. Durante o dia ficam abrigadas na parte inferior das plantas próximas ao solo e no final da tarde sobem para tecer as teias, permanecendo até parte da manhã. Nas lavouras de arroz, podem ser encontradas próximas ao solo entre as plantas ou na base das taipas (Sigsgaard et al, 2001; Saavedra et al, 2007).

EFEITO DE PRODUTOS QUÍMICOS

Aranhas desempenham papel importante sobre a regulação de populações de pragas

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O uso indiscriminado de pesticidas tem contribuído para o aumento da proliferação de pragas, pois desestabilizam as interações presa-predador ao eliminar também os inimigos naturais (Perfecto et al, 1997). A maioria dos inseticidas, comumente usados para controlar os insetos-praga nas culturas do arroz, apresenta baixa seletividade sobre as populações de insetos não alvo, como inimigos naturais,


polinizadores (Petroski, Stanley, 2009) e as aranhas (Rodrigues et al, 2013). Essa prática ameaça as densidades de aranhas das culturas agrícolas em todo o mundo, uma vez que são muito sensíveis a perturbações antrópicas, além de afetar o crescimento, a longevidade, a taxa reprodutiva, o comportamento defensivo e a sua mobilidade, reduzindo o seu potencial de biocontrole. Muitas vezes os inseticidas são aplicados sem o monitoramento e o conhecimento da praga-alvo, de forma sequencial ou calendarizada, deixando de lado os níveis de controle preconizados pelos órgãos de pesquisas. O uso inadequado de inseticidas tem contribuído para a baixa eficácia dos produtos, para o aumento nos custos de produção, resistência do produto ao alvo e para o agravamento dos efeitos indesejáveis ao ambiente e à saúde dos agricultores. Para minimizar esses efeitos e possibilitar que as aplicações sejam realizadas no momento correto, é importante, dentro do MIP, realizar o monitoramento contínuo da lavoura, no qual a utilização de pesticidas possa ser integrada a outras medidas de controle para a preservação do ambiente. Além disso, é importante conhecer o histórico de pragas na área, identificar os inimigos naturais, conhecer os estádios de desenvolvimento da planta e dos insetos-pragas, saber os níveis de ação ou de controle das pragas. Essas ações têm por objetivo auxiliar o produtor nas tomadas de decisões, de modo a evitar aplicações de inseticidas desnecessárias, calendarizadas, preventivas e na “carona” com fungicidas e/ou herbicidas, que favorecem o processo de seleção de populações resistentes de insetos aos inseticidas, depressão do controle biológico natural, ressurgência de pragas, aumento da população de pragas secundária, além de aumentar o custo de produção e causar danos ao homem e ao ambiente. No entanto, se a população de insetos atingir o nível de dano econômico, deve-se fazer uso do controle biológico ou do controle químico, com produtos registrados para o controle da praga-alvo na cultura do arroz irrigado. Sempre que for utilizado o controle químico, optar por produtos que apresentem menor toxicidade, menor impacto sobre organismos não-alvo e maior seletividade. Para prevenir o surgimento de resistência de insetos a inseticidas, evitar o uso contínuo de um mesmo princípio ativo

Alpaida veniliae, Oxiopius salticus e Sphecozone ignigena

ou produtos não recomendados para controlar a praga-alvo.

COMO MANEJAR CORRETAMENTE

Ecossistemas naturais indicam que os aracnídeos consomem quantidades significativas de pragas fitófagas (percevejos, cigarrinhas, lagartas, coleópteros, gafanhotos, dípteros), quando os distúrbios, causados pela atividade humana, são mínimos. E em certos agroecossistemas, como os sistemas orgânicos, plantio direto, culturas perenes e policultivos, a utilização de aranhas como controle biológico pode ser mais favorável. Cultivos que envolvem aração e gradagem do solo costumam promover perturbação contínua no habitat das aranhas, o que afetará a abundância e a efetividade destes animais no controle biológico. A diminuição da cobertura vegetal para práticas agrícolas também pode influenciar nos índices de invertebrados no solo, em virtude de alterações nas condições de temperatura e umidade do solo, que influenciam a dinâmica presa-predador (Embrapa, 2007). Quanto mais complexa for uma paisagem agrícola, maior será a riqueza de aranhas no local, visto que ambientes mais heterogêneos podem fornecer uma maior quantidade de micro-habitats para estes invertebrados. Para que sistemas agrícolas possam ser beneficiados pela dispersão de aranhas é necessário que a paisagem ao seu redor seja conservada, o que possibilitará uma maior diversificação de recursos e refúgios. A maior abundância de aranhas em agroecossistemas poderá garantir a predação de pragas que apresentam interesse agrícola (Embrapa, 2007). As áreas próximas aos agroecossistemas mantêm parte da fauna original e

as aranhas apresentam a capacidade para dispersar deste para outros ambientes. Alguns estudos demonstram que as aranhas apresentam maior diversidade nas áreas adjacentes que nas culturas (Oraze et al, 1988; Murata, 1995). Possivelmente, as áreas de entorno da lavoura servem como fonte de colonização para o agroecossistema. Dentro das áreas de arroz irrigado, as plantas hospedeiras secundárias, junto aos canais de irrigação, sobre as ruas e nas bordas da lavoura, podem ser dessecadas e/ou roçadas deixando os insetos-praga expostos no período da hibernação, quando as condições climáticas são desfavoráveis à sua sobrevivência. Porém, não devem ser eliminadas totalmente, para não afetar a presença dos inimigos naturais. Utilizar inseticidas na “carona” da dessecação apresenta baixa eficiência na busca por atingir o inseto-praga alvo durante a hibernação. No entanto, os inseticidas afetam a população de inimigos naturais que, ao serem eliminados, resultam na ressurgência de pragas com maior potencial de migração ou reprodução, com alta intensidade. Para a adoção de um manejo adequado de insetos-praga no arroz irrigado é necessário priorizar a utilização e a conservação dos inimigos naturais, imprescindíveis para estabelecer o equilíbrio biológico e reduzir os custos de produção. Além disso, estudo da biodiversidade associada aos agroecossistemas tem crescido em importância nos campos da ecologia e conservação, porque a manutenção da biodiversidade é essencial para a produtividade ecologicamente sustentável na agricultura. C

Marcia Yamada Jaime Vargas de Oliveira Neiva Knaak Irga

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Pragas Fotos CecĂ­lia Czepak

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Duas em uma

Crescem as evidências da presença de híbridos de Helicoverpa no Brasil. Amostras de lagartas das espécies Helicoverpa armigera e H. zea, coletadas no Mato Grosso e analisadas por pesquisadores do Reino Unido e da Austrália, através de sequenciamento genômico completo, confirmam hibridização. O uso de diferentes táticas de manejo integrado deve ser adotado para que os problemas fitossanitários resultantes desta e de outras pragas agrícolas possam ser resolvidos da melhor maneira possível

O

s insetos pertencentes à família Heliothinae estão entre as pragas agrícolas mais prejudiciais do mundo. Dentre os principais representantes desta família estão Helicoverpa armigera e H. zea, popularmente denominadas lagarta do Velho Mundo do algodoeiro e lagarta da espiga do milho, respectivamente. A comunidade científica mundial classificou H. armigera como uma das pragas de maior impacto agrícola entre os anos de 2012 e 2016. H. armigera é uma praga extremamente polífaga, sendo registrada em mais de 300 hospedeiros, entre os quais estão plantas cultivadas, invasoras e silvestres em diferentes partes do mundo, incluindo culturas como algodão, soja, milho e tomate. Enquanto H. zea possui um número menor de hospedeiros, 123 espécies, dentre essas também estão culturas de grande importância econômica para o Brasil, tais como algodão, milho

e tomate. Sendo assim, pode-se dizer que há uma relação próxima e contínua entre as duas espécies, principalmente em cultivos anuais. Esta situação pode se agravar ainda mais, em sistemas contínuos de cultivo, como, por exemplo, áreas irrigadas, criando assim as conhecidas “pontes verdes”, muito comuns em regiões agrícolas do Cerrado brasileiro. H. armigera e H. zea são espécies morfologicamente semelhantes e análises moleculares comprovaram a similaridade genética entre seus genomas, o que justifica os casos relatados de hibridização entre as duas espécies. Há aproximadamente 1,5 milhão de anos, na linha evolutiva do tempo, H. armigera e H. zea compartilhavam um ancestral comum, o que explica esta proximidade genética. A capacidade de hibridização entre a lagarta do Velho Mundo H. ar-

migera e a do Novo Mundo H. zea, em produzir descendentes férteis, têm sido claramente demonstrada em experimentos de laboratório desde 1965, embora tais cenários tenham se restringido apenas a condições laboratoriais e anteriores à recente chegada de H. armigera no continente sul-americano. Por meio do sequenciamento genômico completo, conforme estudo do renomado Instituto CSIRO na Austrália, foi possível constatar a existência de indivíduos híbridos provenientes de amostras brasileiras. No recente estudo publicado na revista científica internacional Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS) os pesquisadores do Reino Unido e da Austrália analisaram um pequeno número de espécimes do Mato Grosso, originalmente identificados como H. armigera por meio

Helicoverpa zea e Helicoverpa armigera são duas espécies morfologicamente semelhantes

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do DNA mitocondrial, porém, quando realizado o sequenciamento completo do genoma, ficou evidenciado de que essas supostas “H. armigera” na verdade seriam híbridos, com quantidade variável de contribuição genética de H. zea. Além disso, outra amostra identificada como H. zea, a partir do DNA mitocondrial, apresentou uma grande porcentagem de DNA de H. armigera em seu genoma. Portanto, essa introgressão genética pode levar ao surgimento de novos ecótipos (presença de populações geneticamente únicas que são adaptadas ao seu ambiente local) na família Heliothinae. Uma hibridização natural sem precedentes e em larga escala se iniciou com a chegada de H. armigera na América do Sul. Além disso, essa hibridização pode estar ocorrendo há mais tempo do que se imagina, já que a entrada da H. armigera no Brasil pode ter ocorrido muito antes do que se supõe na literatura. Sendo assim, a avaliação precisa das proporções de híbridos dentro de determinados sistemas agrícolas exigirá análise completa do genoma devido à imprevisibilidade do genoma híbrido, pois pode haver uma contribuição desigual de cada uma das espécies parentais de Helicoverpa ao longo de várias gerações. Assim, o método amplamente utilizado de identificação rápida de espécies com base em “genes barcodings’’, de DNA herdado da mãe para diferenciar entre H. armigera e H. Zea, será agora ineficaz, uma vez que este marcador de

DNA não consegue identificar híbridos. Sem contar que com a possível existência desses híbridos a identificação taxonômica não poderá ser utilizada como ferramenta única para a confirmação de qual espécie se está manejando no campo. Uma incógnita a ser desvendada. Diante deste cenário, algumas hipóteses podem ser traçadas, quanto ao futuro das duas espécies mais importantes de Helicoverpa, no Brasil. Estas incluem: • As populações das duas espécies parentais, bem como o híbrido, poderão persistir em equilíbrio populacional; • Os híbridos poderão assumir o status de uma única praga, enquanto o tamanho das populações de ambas as espécies parentais irão diminuir; • Dentro do mesmo ambiente, uma ou ambas as espécies parentais e o híbrido podem coexistir; • Novos ecótipos híbridos podem ser selecionados sob condições ecológicas específicas, levando à fixação de certas características genéticas dentro do híbrido existente. Isso com certeza só o tempo dirá, mas alguns indícios de que as espécies originais estão desaparecendo aos poucos estão sendo constatados. Contudo, ainda são apenas especulações, por isso estes estudos devem ser cada vez mais incentivados e pesquisadores de todas as instituições brasileiras, públicas e privadas, devem se unir para que esses e outros desafios advindos da agricultura possam ser solucionados de forma a

beneficiar a agricultura de todo o País. Ainda não se sabe ao certo o impacto destes híbridos sobre a agricultura brasileira, porém o potencial de danos agrícolas causados por híbridos e ambas as espécies parentais é preocupante, bem como a evolução da resistência aos diferentes inseticidas químicos disponíveis no mercado brasileiro. O que é certo é que a praga precisa ser monitorada e as nossas fronteiras devem ser mantidas sob vigilância contínua, como fazem inúmeros outros países. A biossegurança precisa ser reforçada para minimizar as oportunidades de novas incursões por outras populações oriundas do Velho Mundo e geneticamente distintas, como a literatura recente mostrou que importantes pragas agrícolas como H. armigera e mosca-branca Bemisia tabaci entraram no País em diversas ocasiões e trouxeram genes resistentes a agroquímicos. Além disso, precisamos entender que o Brasil pode se tornar um "exportador" de indivíduos resistentes para outros países, complicando ainda mais os esforços globais para gerenciar o impacto nos sistemas de produção agrícola. O uso das diferentes táticas de manejo integrado de pragas deve ser adotado para que os problemas fitossanitários resultantes desta e de outras pragas agrícolas possam ser resolvidos da melhor maneira possível, sem elevar os custos de produção no País. Vale a pena lembrar que pragas como a H.

Hibridização natural sem precedentes e em larga escala se iniciou com a chegada de Helicoverpa armigera na América do Sul

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Fotos Cecília Czepak

armigera não podem ser controladas confiando apenas em ferramentas químicas, como se observou nos últimos anos em que se seguiram após sua identificação oficial. Uma verdadeira mudança de práticas e hábitos em relação ao que se está adotando no campo para controlar essa praga é urgentemente necessária, e isso deve ser realizado em conjunto com o conhecimento genômico atualizado da praga, independentemente de seu status híbrido. Existem inúmeras ferramentas que podem ser usadas em conjunto para reduzir efetivamente os danos causados por pragas como a Helicoverpa, os quais já foram discutidos exaustivamente nos últimos anos. Embora esses métodos e ferramentas não tenham sido amplamente adotados nos campos, suas eficiências no controle dos híbridos da Helicoverpa também precisarão de avaliação por meio do esforço da pesquisa. Vale lembrar que apenas o investimento em estudos científicos e, consequentemente, conhecimento podem garantir safras mais sustentáveis no futuro. C Cecilia Czepak, Universidade Federal de Goiás Wee Tek Tay, CSIRO Black Mountain Laboratories Clunies Ross Street – Canberra/Australia Humberto O. Guimaraes, Tiago Carvalhais, Matheus Le Senechal e Rafael F. Silvério, Universidade Federal de Goiás

Insetos da família Heliothinae estão entre as pragas agrícolas mais prejudiciais do mundo


Cana

Peste laranja

Rafael Fávero Peixoto Júnior

Doença de grande importância para o setor canavieiro, a ferrugem alaranjada, causada por Puccinia kuehnii, exige especial cuidado no diagnóstico, já que pode ser confundida com outras enfermidades, como a ferrugem marrom. O uso de variedades resistentes é uma das alternativas para o controle, mas sua adoção ainda esbarra em algumas limitações

E

ntre as doenças que podem trazer prejuízos no setor canavieiro em todo o Brasil, destaca-se a ferrugem alaranjada, causada pelo basidiomiceto Puccinia kuehnii (W. Krüger) E. J. Buttler. Até o final da década de 1990, esta doença era considerada como de menor impacto para a cultura de cana-de-açúcar. Porém, em 2000, ocorreu um surto

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de ferrugem alaranjada na Austrália, atingindo a variedade Q124, resultando em perdas de produtividade superiores a 35%. Após esse episódio de alta severidade de ferrugem alaranjada nos campos da Austrália, deixou de ser uma enfermidade secundária e passou a ser uma doença fitossanitária de grande importância para o setor. No Brasil, a ocorrência


acervo do autor

Figura 1 – Estruturas de infecção e reprodução assexuada da ferrugem alaranjada em folha de cana-de-açúcar. Fonte: modificado de DOI 10.3389/fpls.2014.00664

Figura 2 – Variedade ‘IACSP84 2480’ apresentando lesões foliares de ferrugem marrom e alaranjada. (a) P. melanocephala, (b) P. kuehnii

de ferrugem alaranjada foi constatada pela primeira vez em dezembro de 2009, na região de Araraquara, no estado de São Paulo. Atualmente, se disseminou e se estabeleceu nas principais áreas canavieiras do país: São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Goiás e Minas Gerais. Assim como em outras ferrugens, a alaranjada é causada por fungo biotrófico, ou seja, necessita de células do seu hospedeiro vivo durante o ciclo de vida. Essa doença causa uma série de danos em cana-de-açúcar, bem como em outras plantas do gênero Saccharum como: S. arundinaceum, S. nargenga, S. officinarum, S. spontaneum, S. robustum, S. munja, S. edule, S. bengalense e Sclerostachya fusca. Interfere mais frequentemente nas folhas, no crescimento das raízes e na taxa de fotossíntese, gerando um aumento na taxa de respiração e dificuldade de translocação de metabólitos nas folhas infectadas. Em variedades suscetíveis, há redução do tamanho e do diâmetro do colmo, diminuição da quantidade de perfilhos, comprometendo a produção final de açúcar e biomassa.

DESCRIÇÃO E ASPECTOS BIOLÓGICOS

A ferrugem alaranjada é favorecida por condições atmosféricas de alta umidade relativa e temperaturas amenas a quentes. Nessas condições, os urediniósporos, esporos responsáveis pela dispersão do fungo, podem germinar e infectar novas plantas. O curto ciclo de vida do fungo permite o desenvolvimento rápido de epidemias e dentro de cinco semanas a seis semanas, a cultura, de aspecto inicialmente verde, se torna alaranjada/avermelhada devido à formação maciça de pústulas na superfície abaxial das folhas. Inicialmente são formadas manchas alongadas e amareladas, paralelas às nervuras que vão aumentando de tamanho e adquirindo coloração alaranjada, devido à formação de urédias. Com o rompimento das urédias, há a formação de pústulas, sintoma típico das ferrugens. Em variedades muito suscetíveis, as pústulas agrupam-se, formando placas de tecido necrosado. Quando as pústulas coalescem, há uma necrose dos tecidos,

geralmente, nas folhas mais baixas, prejudicando o crescimento e consequentemente, a produção de cana-de-açúcar. Tanto urediniósporos como teliósporos de P. kuehnii foram identificados e descritos em cana-de-açúcar. Porém, urediniósporos são mais comuns e geralmente estão presentes ao longo do período de infecção, enquanto os teliósporos são normalmente encontrados no final do período de infecção quando as lesões estão muito escuras. Basidiósporos também foram encontrados, mas não possuem capacidade de começar uma infecção em cana-de-açúcar. Como o hospedeiro intermediário e o estágio aecial ainda não são conhecidos, supõe-se que o ciclo da doença se interrompa nesse ponto, não ocorrendo reprodução sexual. O desenvolvimento da ferrugem alaranjada depende de uma sequência de eventos que começa com a germinação dos urediniósporos e termina com o estabelecimento do fungo em plantas suscetíveis. O ciclo da doença é marcado pela germinação de um urediniósporo, que desenvolve um tubo germinativo com tamanho variável. Quando o tubo germinativo entra em contato com um estômato, ocorre a formação de apressório. Após a formação do apressório sobre o estômato, é formado um pequeno peg de infecção que entra na folha através da abertura estomática. A penetração direta do fungo na folha, sem a passagem pelo estômato, não tem sido observada. O peg de infecção, após passar pelas células-guarda, forma uma vesícula que pode ocupar toda a cavidade subestomática. A vesícula subestomática, por sua vez, desenvolve de duas a quatro hifas infectivas que colonizam e começam a se desenvolver no mesófilo foliar. A ponta da hifa infectiva se torna septada, originando uma estrutura chamada de célula mãe do haustório, que se posiciona ao lado da parede celular de uma célula do mesófilo. A parede celular da célula é penetrada e ocorre a formação do haustório (estrutura especializada na absorção de nutrientes a partir do citoplasma da célula hospedeira). Um urediniósporo, sob condições favoráveis em contato com uma folha, pode infectar e desenvolver uma pústula em menos de 14

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Figura 3 – Urediniósporos de ferrugem alaranjada e marrom (A, B, C e D) observados ao microscópio óptico (aumento 40x) e lesões foliares de ferrugem alaranjada e marrom observados ao microscópio esterioscópio (aumento 4x) (E e F). (A – B) P. kuehnii; (C) P. melanocephala; (D) Teliósporo de P. melanocephala; (E) Lesão foliar de ferrugem alaranjada; (F) Lesão foliar de ferrugem marrom. Fonte: acervo do autor

característica importante a ser observada é a idade das plantas e distribuição das lesões nas folhas, uma vez que a ferrugem marrom ocorre principalmente em plantas jovens, com idade de dois meses a seis meses, apresentando lesões no terço médio posterior das folhas. Já a ferrugem alaranjada pode ocorrer na planta em qualquer fase do seu desenvolvimento, apresentando lesões em toda a superfície foliar. A ferrugem marrom apresenta pústulas de cor marrom-escuro, estreitas e alongadas, enquanto as pústulas da ferrugem alaranjada são alaranjadas-claro, arredondadas e curtas. Os urediniósporos das duas ferrugens possuem estruturas morfológicas particulares que permitem a identificação das espécies por microscopia. Os urediniósporos de P. melanocephala são elípticos com parede celular uniforme em espessura e são de coloração marrom-escuro. Os urediniósporos de P. kuehnii são normalmente ovoides ou piriformes, e alguns dos esporos têm em sua parte apical um espessamento da parede celular, e a coloração costuma variar de amarelo dourado a alaranjado. Outra característica útil para a diferenciação das doenças é a superfície equinulada (espinhos) dos urediósporos. Na ferrugem marrom, as extremidades das paredes são muito equinuladas e com agrupamento de espinhos. Já as extremidades das paredes de ferrugem alaranjada são parcialmente equinuladas e sem agrupamentos de espinhos. No campo, a ferrugem alaranjada pode ser facilmente confundida com lesões foliares causadas pelo fungo Cercospora longipes. Nesses casos, as amostras devem ser analisadas, utilizando microscopia e/ou técnicas de biologia molecular. A biologia molecular, utilizando a técnica da Reação da Polimerase em Cadeia (PCR) com base na identificação precisa do DNA do patógeno, também pode ser empregada como ferramenta de distinção entre as duas ferrugens de cana-de-açúcar, antes mesmo do desenvolvimento dos sintomas.

VARIABILIDADE GENÉTICA

dias. Os urediniósporos são facilmente dispersos pelos ventos e respingos de chuva, e a grandes distâncias, por meio de toletes contaminados. Os sintomas de ferrugem alaranjada, por vezes, podem ocorrer concomitantemente com os da ferrugem marrom (Puccinia melanocephala) e ambos podem ser confundidos. Por esse motivo, é importante que a sintomatologia seja bem conhecida, assim como a morfologia dos agentes causais. A ferrugem marrom e a ferrugem alaranjada podem ser distinguidas pelo formato das pústulas, a coloração e ornamentação dos esporos, a distribuição das lesões nas folhas e também por marcadores moleculares. No campo, a primeira

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Em 2009, o Centro de Cana do Instituto Agronômico iniciou um trabalho financiado pelo programa Bioen da Fapesp, para identificar possíveis variabilidades genéticas em P. melanocephala que pudessem corroborar a existências de diferentes raças desse patógeno. Esse estudo resultou no desenvolvimento de marcadores moleculares microssatélites e na análise de amostras de diferentes locais afetados pela ferrugem marrom. Com o surgimento da ferrugem alaranjada nessa mesma época, os marcadores microssatélites antes desenvolvidos para ferrugem marrom foram testados também para ferrugem alaranjada. A transferibilidade intraespecífica de marcadores microssatélites é amplamente empregada, pois representa uma alternativa ao desenvolvimento de novos marcadores, evitando assim o alto custo do seu desenvolvimento. Como resultado desse trabalho, tanto para ferrugem marrom quanto para alaranjada, não foi identificada variabilidade genética nas amostras analisadas. Esse fato pode estar relacionado com a ausência de um hospedeiro intermediário no Brasil para as ferrugens da cana-de-açúcar, restringindo a propagação da doença somente por reprodução assexuada, o que limita a va-


Fotos acervo do autor

Figura 5 - Escala diagramática para avaliação da severidade de ferrugem alaranjada, causada pelo fungo P. kuehnii em folhas de cana-de-açúcar (Saccharum spp.). Valores em porcentagem de área foliar lesionada. Fonte: http://dx.doi.org/10.1590/ S1982-56762013000200012

Figura 4 – Mancha parda. (A) Lesões foliares, (B) Conidióforos de conídios de Cercospora longipes observados ao microscópio óptico (20x)

riabilidade genética entre diferentes amostras do patógeno.

CONTROLE

O controle mais eficaz e economicamente viável da ferrugem alaranjada é a utilização de variedades resistentes. Todas as novas variedades, antes de lançadas no mercado para os produtores, deveriam ser submetidas a testes de resistência à ferrugem. No entanto, esse procedimento é trabalhoso, demorado e de custo considerável, sendo que os programas de melhoramento, em geral, realizam a seleção de clones resistentes aproveitando-se da infestação natural em campo. Para a avaliação do grau de resistência da cultivar à ferrugem alaranjada utiliza-se a escala diagramática para avaliação da severidade. A avaliação é realizada na folha +3. São consideradas resistentes à ferrugem alaranjada as variedades com notas entre 1 e 3, intermediárias as com notas entre 4 e 6 e suscetíveis as com nota 7 a 9. A expansão do cultivo de cana-de-açúcar em regiões não tradicionais, com ambientes propensos a secas (regiões Central e Nordeste do Brasil), juntamente com um impor-

tante crescimento da colheita mecânica (com ausência de queimadas), tende a favorecer o aparecimento de novos patógenos e/ou o reaparecimento de doenças há muito C tempo mantidas sob controle. Rafael Fávero Peixoto Júnior e Silvana Creste, IAC


Plantas daninhas

Como interagem De grande potencial infestante e alta capacidade de formar touceiras, o capim-amargoso se torna ainda mais desafiador quando há infestações em conjunto com plantas de folhas largas resistentes/tolerantes ao glifosato. O necessário emprego de mistura ou sequencial de herbicidas para enfrentar essas daninhas demanda muita atenção e cuidado para que não ocorram interações desfavoráveis entre os produtos utilizados

O

capim-amargoso (Digitaria insularis) é uma gramínea perene, entouceirada e que se reproduz por rizomas e sementes. Essa espécie apresenta crescimento inicial lento. No entanto, dos 45 dias aos 105 dias após a emergência o seu crescimento é acelerado, apresentando aumento exponencial de matéria seca. Trata-se de uma planta de grande potencial infes-

tante, devido ao desenvolvimento rápido e agressivo, seu tipo de reprodução e capacidade de formar touceiras. O controle químico em pré-emergência do capim-amargoso apresenta alta eficiência. Contudo, em pós-emergência existem poucos herbicidas registrados para aplicações, dentre os quais os inibidores da EPSPs (glifosato) e os da ACCase (graminicidas) são os que apresentam

capacidade de translocar até os rizomas, característica importante para um controle eficiente. Além das características desfavoráveis de controle desta planta daninha, atualmente ainda há registro de resistência de capim-amargoso ao herbicida glifosato na Argentina, no Paraguai e no Brasil (primeiros relatos no estado do Paraná em 2008). Em 2016 também foi relatado

Camila Ferreira de Pinho

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Fotos Andherson Matuczak

Área de produção de soja safra 2017/2018 na região do oeste do Paraná sob alta infestação de plantas daninhas no momento da colheita da soja Tabela 1 - Interações antagônicas entre herbicidas (revisão de literatura)

o primeiro caso de resistência cruzada do capim-amargoso aos herbicidas fenoxaprope e haloxifope-p-metílico, ambos pertencentes ao mecanismo de ação ACCase. No entanto, a resistência a graminicidas ainda é pontual e, nas áreas onde não ocorre, estes herbicidas são efetivos para o controle do capim-amargoso quando aplicados de forma correta. Portanto, a alternativa química mais eficaz para controle de capim-amargoso resistente ao glifosato é a utilização de herbicidas inibidores da enzima ACCase. O problema se agrava quando há infestações de capim-amargoso em conjunto com plantas de folhas largas resistentes/tolerantes ao glifosato, como a buva, o caruru e a trapoeraba, na mesma área de produção. Estudo realizado pela Embrapa no último ano avaliou que em lavouras de soja com infestações de buva e capim-amargoso resistentes a herbicidas, os custos de produção podem sofrer um aumento médio de até 222%. Por se tratar de gramíneas e folhas largas, o controle químico deve ser específico para cada espécie, necessitando utilizar mistura ou sequencial de herbicidas para controle de ambas as plantas resistentes. No entanto, embora a mistura ou sequencial de herbicidas seja uma prática comum de manejo, diversos cuidados devem ser tomados para que não ocorram interações desfavoráveis entre os produtos utilizados, o que pode interferir negativamente no controle das plantas daninhas.

INTERAÇÕES ENTRE HERBICIDAS

A associação ou mistura de herbicidas baseia-se na utilização simultânea ou sequencial de dois ou mais produtos aplicados sobre a mesma área ou cultura. Atualmente, a mistura em tanque não é uma prática proibida, mas é de responsabilidade dos agricultores e não pode ser prescrita em receita agronômica pelo profissional habilitado. Contudo, a liberação da mistura em tanque está tramitando sob a portaria de número 148 no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o que, se aprovada, permitirá ao profissional recomendar este tipo de atividade.

Interações Antagônicas Espécie Azevém (Lolium spp.)

Capim-amargoso (Digitaria insularis) Capim-arroz (Echinochloa crus-galli)

Capim-colchão (Digitaria sanguinalis) Capim-massambará (Sorghun halepense) Caruru-palmeri (Amaranthus palmeri L.) Corda-de-viola (Ipomoea hederacea) Falsa-erva-de-santa-maria (Chenopodium álbum) Pastinho-de-inverno (Poa annua) Pé-de-galinha(Eleusine indica)

Trigo (Triticum aestivum)

Herbicidas clodinafope e 2,4-D clodinafope + metsulfurom-metílico 2,4-D e diclofope-metílico 2,4-D + haloxifope-p-metílico 2,4-D + cloransulam-metílico fenoxaprope-etílico+imazetapir+imazapique fenoxaprope- etílico+bispiribaque-sódico sulfentrazona + glifosato quizalofope-p-etílico+ 2,4-D 2,4-D + haloxifope-metílico sulfentrazona + glifosato sulfentrazona + glifosato glifosato+glufosinato cloransulam-metílico + herbicidas do grupo ariloxifenoxipropionato glifosato+glufosinato de amônio sulfentrazone + glifosato cletodim + imazapique 2,4-D + quizalofope-p-etilíco ou cletodim

Tabela 2 - Contextualização das interações sinérgicas (revisão de literatura) Interações Sinérgicas Espécie Ambrosia (Ambrosia trifida) Buva (Conyza spp.)

Herbicidas glifosato + 2,4-D clorimurom-etílico + glifosato cloransulam+haloxifope-p-metílico 2,4-D+ haloxifope-p-metílico Capim-amargoso (Digitaria insularis) glifosato+ setoxidim glifosato+ haloxifope-metil glifosato+ fluazifope-p-butil glifosato+ cletodim glifosato+ tepraloxidim Capim-arroz (Echinochloa crus-galli e Echinochloa colona) fenoxaprope-etílico+ etoxissulfurom Caruru-palmeri (Amaranthus palmeri) quizalofope-p-etílico+ 2,4-D Corda-de-viola (Ipomoea grandifolia) glifosato +saflufenacil Corda-de-viola (Ipomoea hederifolia) carfentrazona-etílica+ glifosato carfentrazona-etílica + saflufenacil + glifosato Guanxuma (Sida rhombifolia) glifosato +saflufenacil Juta-da-China (Abutilon theophrasti) glifosato + 2,4-D Poaia-branca (Richardia brasilienses) glifosato +saflufenacil

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A

B

A) Vista frontal das plantas de capim-amargoso aos 35 dias após a aplicação dos herbicidas. Tratamentos da esquerda para direita: Testemunha; 2,4-D e haloxifope-p-metílico com intervalos de 3, 6 e 12 dias entre aplicação, respectivamente; B) Aos 35 dias após a aplicação dos herbicidas. Tratamentos da esquerda para direita: Testemunha; cloransulam e haloxifope-p-metílico com intervalos de 3, 6 e 12 dias entre aplicação, respectivamente; C) Aos 35 dias após a aplicação dos herbicidas. Tratamentos da esquerda para direita: Testemunha; haloxifope-p-metílico e 2,4-D com intervalos de 3, 6 e 12 dias entre aplicação, respectivamente; D) Aos 35 dias após a aplicação dos herbicidas. Tratamentos da esquerda para direita: Testemunha; haloxifope-p-metílico e cloransulam com intervalos de 3, 6 e 12 dias entre aplicação, respectivamente. Seropédica-RJ, 2018

Além do uso de misturas em tanque, a aplicação de herbicidas na modalidade sequencial vem se mostrando uma alternativa interessante para o controle de plantas daninhas. Esta prática amplia a eficiência do controle, além de ser uma oportunidade de eliminar diversos fluxos de emergência, reduzindo a densidade das plantas daninhas. Interações devido a misturas/sequencial de herbicidas podem ocorrer antes, durante ou após a aplicação. Os herbicidas têm capacidade de interagir física ou quimicamente na solução de pulverização (calda) ou biologicamente na planta. Estas interações podem gerar incompatibilidade na calda e/ou efeito sinérgico, aditivo ou antagônico na planta em relação ao efeito de cada herbicida utilizado isoladamente. Antes da aplicação, a interação física está associada aos ingredientes inertes presentes nos produtos comerciais, enquanto a interação química está associada à molécula do herbicida. As incompatibilidades físicas podem ocorrer nas misturas em tanque, mediante a formação de precipitados ou grumos, que podem levar ao entupimento das pontas e dos filtros. Já a incompatibilidade química ocorre quando a mistura em tanque altera a eficiência dos ingredientes ativos misturados, podendo gerar aumento da fitotoxicidade, causando danos à cultura de interesse econômico. Neste sentido, quando as informações sobre a mistura são desconhecidas, recomenda-se uma pré-mistura (teste de jarra) para verificar reações físico-químicas indesejáveis. Caso isso ocorra, devem-se buscar meios para substituir os produtos incompatíveis ou realizar a aplicação de forma isolada. No entanto, vale destacar que incompatibilidades biológicas não são reveladas por estes testes. Após a aplicação, quando o efeito da mistura/sequencial nas plantas daninhas é maior que oefeito esperado para herbicidas utilizados separadamente, a mistura é sinérgica. Quando é menor que o esperado, é antagônica. Já os aditivos ocorrem quando o efeito dos herbicidas em mistura é igual à soma dos seus efeitos quando aplicados separados.

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ANTAGONISMO E SINERGISMO

Interações antagônicas entre herbicidas frequentemente causam ineficiência no controle de plantas daninhas. As interações negativas entre herbicidas em mistura/sequencial podem ser atribuídas a alterações na quantidade de um herbicida que atinge seu sítio de ação através de mudanças na absorção, na translocação ou no metabolismo, causadas pela presença do outro herbicida. A interação entre os herbicidas pode vir a afetar sua ligação no local de ação, reduzindo seu efeito. Aproximadamente 80% das interações antagônicas ocorrem em espécies da família Poaceae (gramíneas). Em contrapartida, interações sinérgicas podem auxiliar o manejo de plantas daninhas, aumentando o espectro de controle e reduzindo custos. Na maioria das vezes, o sinergismo ocorre devido à ação dos constituintes da formulação de um herbicida sobre o outro, melhorando sua absorção e/ou translocação. A associação entre herbicidas em mistura ou em sequencial é dependente das doses utilizadas, das espécies vegetais, da época de aplicação, do estádio de desenvolvimento da planta e da compatibilidade bioquímica entre os mecanismos de ação dos herbicidas (Tabelas 1 e 2). Considerando que o capim-amargoso e a buva estão entre as daninhas de maior preocupação nas áreas de produção de grãos do Brasil, o Grupo de Pesquisa Plantas Daninhas e Pesticidas no Ambiente (PDPA/UFRRJ) vem realizando pesquisas que demonstram ter a mistura de graminicidas (ACCase) com latifolicidas (2,4-D ou ALS) efeito antagônico no controle do capim-amargoso e efeito aditivo no combate à buva. Porém, o intervalo entre aplicações pode anular o antagonismo entre herbicidas no controle de capim-amargoso. Nesses casos, a recomendação fica restrita em função do antagonismo para capim-amargoso. Quando o latifolicida (2,4-D ou cloransulam) foi aplicado no mesmo dia que o graminicida (haloxifope-p-metílico), ou quando o latifolicida foi aplicado antes do graminicida, independentemente do intervalo entre aplicações, a interação entre os herbicidas foi an-

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Fotos Camila Ferreira de Pinho

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tagônica e não ocorreu controle eficiente das plantas (controle inferior a 80%). Contudo, a aplicação em sequencial de haloxifope-p-metílico seguida do latifolicida (2,4-D ou cloransulam), com intervalo mínimo de seis dias entre aplicações, apresentou interação aditiva no controle de capim-amargoso, anulando o efeito antagônico observado anteriormente. Em outro ensaio foi observado que em aplicação sequencial de glifosato + haloxifope-p-metílico (primeira e segunda aplicação com 21 dias de intervalo) o controle das plantas de capim-amargoso foi superior a 95%. Entretanto, quando foi adicionado 2,4-D na primeira aplicação, o controle passou a ser de aproximadamente 70%, evidenciando o antagonismo entre os herbicidas. Portanto, em áreas infestadas com plantas de capim-amargoso e plantas de folha larga resistentes/tolerantes ao glifosato, a recomendação é aplicar o graminicida pelo menos seis dias antes do latifolicida. Deve-se preconizar o controle de ambas as plantas em estádio inicial de desenvolvimento, visto a dificuldade de C controle em estádios avançados. Camila Ferreira de Pinho, Ana Claudia Langaro, Jéssica Ferreira Lourenço Leal, Amanda dos Santos Souza, Gabriella Francisco P. Borges de Oliveira, Gabriela de Souza da Silva e Rúbia de Moura Carneiro, UFRRJ

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Avaliação de controle de capim-amargoso com mistura de herbicidas (A) Plantas antes da aplicação; (B) Plantas 14 dias após aplicação (glifosato+haloxifope+2,4-D) com sintomas características de graminicidas; (C) Plantas 21 dias após a aplicação do sequencial – controle aproximado de 70% (1ª aplicação: glifosato+haloxifope+2,4-D; 2ª aplicação: glifosato+haloxifope – 21 dias de intervalo entre as aplicações); (D) Detalhe do rebrote das plantas do tratamento anterior; (E) Plantas 21 dias após a aplicação do sequencial, sem latifolicida na mistura - controle aproximado de 95% (1ª aplicação: glifosato+haloxifope; 2ª aplicação: glifosato+haloxifope – 21 dias de intervalo entre as aplicações)

Recomendações práticas • Utilizar herbicidas pré-emergentes, a fim de reduzir o banco de sementes e a competição inicial do capim-amargoso com a cultura de interesse. • Realizar o controle do capim-amargoso nos estádios iniciais de desenvolvimento, evitando que as plantas formem touceiras. • Quando presentes na mesma área, capim-amargoso e plantas de folha larga resistentes/tolerantes, realizar a aplicação em sequencial de graminicida + latifolicida, com intervalo mínimo de seis dias. • Rotacionar os mecanismos de ação, a fim de evitar a seleção de biótipos de capim-amargoso resistentes a herbicidas. • Manter boa cobertura do solo (incluindo o consórcio) nas áreas de produção, para suprimir a germinação de plantas daninhas.

Camila, Ana Claudia, Jéssica, Amanda, Gabriella, Gabriela e Rúbia abordam a interação de herbicidas www.revistacultivar.com.br • Janeiro 2019

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Plantas Daninhas

Impacto no bolso A impressionante cifra de R$ 9 bilhões é o custo total anual estimado para a resistência de plantas daninhas à aplicação de herbicidas no Brasil. Responsável por aumento dos gastos com controle e perdas de produtividade, este problema tem se agravado e exige cada vez mais obediência aos princípios do manejo integrado

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Divulgação

ma das principais consequências da resistência de plantas daninhas a herbicidas reside no aumento dos custos de controle, o que normalmente não é abordado nas publicações científicas sobre o tema, mas é de grande importância para o setor produtivo. Nos sistemas de produção de grãos do Brasil, especialmente no da cultura da soja, o impacto da resistência de plantas daninhas a herbicidas pode ser dividido em duas fases. A primeira refere-se ao período de 1993 até meados dos anos 2000, caracterizada pela ampla e massiva utilização dos herbicidas inibidores da enzima acetolactato-sintase – ALS. Esses herbicidas possuem, como características positivas, elevada eficiência no controle de plantas daninhas dicotiledôneas, especialmente o picão-preto e o leiteiro (amendoim-bravo). Por outro lado, os inibidores da ALS possuem, como característica negativa, alta probabilidade de seleção de biótipos de plantas daninhas resistentes, cujos primeiros casos foram observados no Rio

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Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, com rápida disseminação para as demais regiões produtores de grãos do país. Nessa época, o custo médio atualizado de controle nas áreas sem problema de resistência era de R$ 62,57, variando entre R$ 46,53 e R$ 78,60 por hectare. Nas áreas com problemas de resistência houve a necessidade de se utilizar herbicidas com mecanismos alternativos, o que elevou o custo médio do controle para R$ 285,98 por hectare (incremento médio de 357%). A situação brasileira de resistência de plantas daninhas a herbicidas na cultura da soja convencional, em meados dos anos 2000, era considerada pelos produtores como insustentável, devido às dificuldades de controle, o alto custo e a baixa eficiência dos mecanismos de ação dos herbicidas disponíveis contra as espécies resistentes. A solução para esse problema ocorreu com a introdução da soja transgênica resistente ao herbicida glifosato, conhecida como soja Roundup Ready ou soja RR. A tecnologia RR oportunizou a utilização do glifosato em pós-emergência


da soja, com controle eficiente das espécies resistentes aos inibidores da ALS. No entanto, o uso intensivo do glifosato acarretou grande pressão de seleção sobre as plantas daninhas, resultando na seleção de sete espécies daninhas resistentes: o azevém (Lolium multiflorum), a buva (Conyza bonariensis, C. canadensis, C. sumatrensis), o capim-amargoso (Digitaria insularis), o caruru-palmeri (Amaranthus palmeri) e o capim pé-de-galinha (Eleusine indica). A resistência ao glifosato é considerada a segunda fase de resistência de plantas daninhas no Brasil. Azevém, buva e capim-amargoso são as três plantas daninhas mais dispersas pelo território nacional. Os principais custos da resistência relacionam-se à necessidade do uso de herbicidas alternativos e às perdas de produtividade causadas pela competição das plantas daninhas resistentes e remanescentes na lavoura. O custo com herbicidas alternativos varia de acordo com a opção adotada pelo produtor, uma vez que, na maioria das vezes, há mais de uma alternativa de produto para uso no manejo das populações de invasoras resistentes. Na ausência de resistência, o custo médio de controle de plantas daninhas na cultura da soja pode ser restrito a uma aplicação de glifosato na dessecação e duas aplicações na pós-emergência, resultando em custo atualizado total de R$ 120,00 por hectare.

Figura 1 - Estimativa do aumento percentual do custo do controle de plantas daninhas (R$ ha-1), em áreas de soja com presença de diferentes populações de plantas daninhas resistentes aos inibidores da EPSPs (glifosato), comparado a áreas sem resistência

Em uma condição de infestação de azevém resistente ao glifosato, existe a necessidade do uso de um herbicida graminicida alternativo associado ao glifosato para controle da infestante. Com isto, o custo tem aumento médio de R$ 57,65 por hectare. Outro cenário normal para o Sul do Brasil é a ocorrência de buva e azevém com resistência múltipla na mesma área. Nesse caso, as opções restringem-se apenas à dessecação com o herbicida 2,4-D para controle da buva e

paraquate para o controle do azevém. Já para aplicação seletiva na cultura, os herbicidas flumioxazin e trifluralina são as principais opções. O custo nessa situação aumenta, em média, R$ 197,55 por hectare. Em áreas infestadas com capim-amargoso resistente ao glifosato, a alternativa de controle passa a ser o uso de graminicidas específicos, principalmente os inibidores

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Divulgação

Alta infestação de buva em área de cultivo de soja

da ACCase, tanto em dessecação como em pós-emergência da cultura, podendo ser intercalados na dessecação com herbicidas de contato, como o paraquate e o amônio-glufosinato. De maneira geral, tem-se realizado entre duas e quatro aplicações de graminicidas, o que aumenta o custo médio de controle em R$ 198,35 por hectare. No cenário de infestação conjunta de capim-amargoso e buva resistentes ao glifosato, o custo de controle pode chegar a R$ 479,50 por hectare, acréscimo de até R$ 359,50 por hectare quando comparado à área sem a presença dessas espécies resistentes. Quando se analisa a variação percentual do custo de controle verifica-se grande aumento dos custos em lavouras com a presença de plantas daninhas resistentes ao glifosato, variando, em média, entre 42% e 48% para as infestações isoladas de buva e azevém, respectivamente, e até 165% na presença de capim-amargoso. Nas situações de maior dificuldade de controle, onde ocorrem os maiores gastos, o custo de controle para essas espécies praticamente triplica em relação ao custo mínimo, sendo 125% maior para a buva, 148% para o azevém e 290% para o capim-amargoso.

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A Embrapa Soja, através do seu grupo de pesquisadores em plantas daninhas, tem realizado periodicamente o monitoramento da resistência de plantas daninhas a herbicidas nos sistemas de produção de grãos no Brasil. Atualmente, esse grupo de pesquisadores estima que existam 20,1 milhões de hectares cultivados com soja infestados com populações resistentes de azevém, buva e capim-amargoso. A presença de azevém resistente está restrita aos estados do Sul do País, com área estimada em 4,2 milhões de hectares, sendo que em 3,4 milhões de hectares o azevém aparece junto com a buva resistente. Nesse cenário, a depender do tratamento considerado, o custo médio adicional de controle no sistema de produção de soja no Brasil é estimado em R$ 813.790.000,00 por ano. No Brasil, a área com presença apenas de buva resistente é estimada em 7,7 milhões de hectares, sendo que a somatória do aumento dos custos de controle nessas áreas resulta em incremento médio anual de R$ 1.312.850.000,00. A estimativa da área total infestada apenas com capim-amargoso resistente ao glifosato atinge 5,5 milhões de hectares,

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onde o incremento médio do custo de controle é estimado em R$ 1.750.925.000,00 ao ano. O pior cenário em relação ao aumento dos custos reside na presença simultânea do capim-amargoso e da buva, cuja área é estimada em 2,7 milhões de hectares e resulta no incremento médio anual do custo de controle, em R$ 1.041.255.000,00. Analisando toda a área de soja infestada com plantas daninhas resistentes no Brasil, os custos de controle em relação às áreas sem problemas de resistência estão entre R$ 3.796.540.000,00 e R$ 6.046.500.000,00, com incremento médio anual de R$ 4.918.820.000,00. Se forem acrescentadas a este custo as perdas médias de 5% da cultura em função da competição com a população resistente remanescente, o custo total anual da resistência no Brasil poderia atingir R$ 9 bilhões. Este quadro pode piorar com o surgimento de novas espécies resistentes, especialmente ao glifosato, ou à disseminação de espécies relatadas recentemente como resistentes ao herbicida (capim-pé-de-galinha e caruru-palmeri). Nesse cenário, é extremamente importante que todos os agentes do setor produtivo se conscientizem da importância de enfrentar o problema da resistência das plantas daninhas aos herbicidas, cujo planejamento deve ser feito com obediência aos princípios do manejo integrado de plantas daninhas (MIPD), que pode ser definido como sendo a seleção e a integração de métodos de controle e o conjunto de critérios para a sua utilização, com resultados favoráveis desde uma perspectiva agronômica, econômica, ecológica e social. Vale ressaltar que, em qualquer sistema de produção agrícola e em qualquer cenário de resistência, o manejo integrado de plantas daninhas deve ser gerenciado por um engenheiro agrônomo responsável C pela atividade.

Fernando S. Adegas, Dionísio L. P. Gazziero, Embrapa Soja Leandro Vargas, Embrapa Trigo Décio Karam, Alexandre Ferreira da Silva, Embrapa Milho e Sorgo Dirceu Agostinetto, Universidade Federal de Pelotas


Algodão

Tamanho do prejuízo Principal praga da cultura do algodoeiro e com alto potencial destrutivo, o bicudo é responsável por perdas superiores a 200 dólares por hectare, o que equivale a quase 10% do custo total de produção. Monitoramento, destruição de restos culturais, eliminação de plantas tigueras e uso de armadilhas na entressafra integram o conjunto de medidas que devem ser adotadas regionalmente contra o inseto

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sucesso da cotonicultura no Cerrado brasileiro não ocorre por acaso e sem percalços. Para garantir sua alta produtividade, que coloca o Brasil como o país mais eficiente na produção de algodão no sistema de sequeiro, o manejo da cultura é oneroso e complexo. Um dos grandes desafios continua sendo o potencial destrutivo da principal praga da cultura, o bicudo. Pelos dados das últimas quatro safras, a infestação média de bicudo nas lavouras do Centro-Oeste chegou a 8% na safra 2014/2015, mas baixou para 4% na safra passada (Figura 1). Na prática, significa dizer que os esforços de controle realizados pelos produtores nos últimos anos têm gerado bons resultados, mas

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o inseto continua presente e causando prejuízos à produção de pluma. Somente o custo do bicudo, devido aos gastos com controle e às perdas ocasionadas, ultrapassa 200 dólares por hectare (Figura 2). Por estes números, considerando um custo médio de produção de algodão da ordem de aproximadamente 2.300 dólares por hectare, calcula-se que o impacto econômico da presença do bicudo nos algodoais brasileiros corresponde a quase 10% do custo de produção da cultura. Pulverizações com inseticidas são a principal ferramenta de controle do inseto, sendo utilizadas entre 18 vezes e 23 vezes por safra (Figura 3) e, mesmo assim, perdas ainda são registradas.


Fotos José Ednilson Miranda

Por que, mesmo com tanto esforço, o bicudo continua sendo tamanho problema? Apesar do grande número de pulverizações realizadas a cada safra, com seu enorme impacto econômico e ambiental, os dados apresentados demonstram a fragilidade do manejo dessa praga. Somente os adultos do inseto podem ser atingidos pelos inseticidas; ovos, larvas e pupas ficam protegidos no interior dos botões florais do algodoeiro. Se o monitoramento falhar, a detecção tardia da praga na lavoura dará tempo suficiente para que as fêmeas ovipositem seus ovos nas estruturas da planta de algodão, antes que o inseticida as controle. Mesmo que o controle químico dos adultos seja efetivo, uma nova geração da praga estará se formando e um novo surto do inseto na lavoura fatidicamente ocorrerá cerca de duas semanas depois.

MONITORAMENTO PARA CONTROLE IMEDIATO

Dispositivo atrai-e-mata é um aliado no manejo integrado do bicudo

Monitorar é preciso. O monitoramento constante e eficiente é uma das chaves para reduzir a pressão populacional do bicudo nas lavouras de algodão, pois permite a detecção da chegada dos adultos em tempo hábil para uma rápida intervenção. Esta tarefa pode ser realizada de duas formas: por amostragens visuais de monitores no campo e através da coleta de bicudos em armadilhas instaladas nas lavouras. Amostragens visuais requerem empenho e dedicação de profissionais treinados e estimulados. Precisam ser adotadas com frequência de no máximo cinco dias de intervalo, durante todo o período de cultivo do algodoeiro. Plantas escolhidas ao acaso, em número mínimo de 50 por talhão de 200 hectares, são vistoriadas à procura de bicudos ou de sinais de danos de ataque. Os dados são registrados em planilhas físicas ou eletrônicas e rapidamente enviados à gerência técnica da fazenda, que toma as decisões necessárias, em tempo hábil, para controlar focos.

CONTROLE COMPORTAMENTAL DO BICUDO

O segundo método, com o uso de armadilhas, se baseia no comportamento do bicudo, sendo por isso denominado controle comportamental. E como funciona? Se para humanos a visão tende a ser o sentido mais importante, para o bicudo – e para todos os outros insetos-, o olfato se destaca como o sentido mais utilizado. É através da percepção de sinais químicos (odores) que os bicudos conseguem localizar as plantas de algodoeiro e também seus pares. As plantas de algodão emitem odores que são captados de longe pelas antenas e outros órgãos sensoriais do inseto, que por sua vez localiza outros indivíduos de sua espécie através de feromônios captados pelo olfato. O conhecimento deste comportamento e de quais são os sinais químicos específicos destas relações permite a utilização de tecnologia denominada controle comportamental. As substâncias químicas usadas na comunicação dos insetos são denominadas de semioquímicos, o que quer dizer “sinais químicos”. Os semioquímicos podem ser divididos em aleloquímicos, usados nas relações interespecíficas (entre espécies diferentes) e feromônios utilizados nas relações intraespecíficas (entre indivíduos da mesma espécie). Em decorrência da importância do bicudo-do-algodoeiro para a cotonicultura, grandes esforços de pesquisa foram direcionados para essa praga ao longo do tempo. Estudado desde a década de 1960, o feromônio do bicudo empregado em armadilhas tem sido eficiente tanto no monitoramento de entressafra para correlação com o nível populacional do inseto na safra, como na detecção do início de sua colonização no plantio, auxiliando na determinação da época adequada de controle. Sabe-se que o bicudo ataca na fase reprodutiva do algodoeiro, perfurando os botões florais para se alimentar ou ovipositar, o que leva à queda de botões florais, flores e maçãs novas. No final do ciclo da cultura, quando não há mais es-

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Figura 1 – Infestação média de bicudo nas lavouras de alguns estados produtores de algodão

Figura 2 – Prejuízo ocasionado pelo ataque e gastos com o controle do bicudo no Brasil

truturas reprodutivas de algodão, o bicudo se desloca para áreas de mata que servirão de refúgio durante a entressafra. Nesses ambientes, os insetos reduzem o metabolismo e alimentam-se esporadicamente de grãos de pólen de diferentes espécies vegetais. É nesse momento que são instaladas as armadilhas com feromônios na bordadura da lavoura colhida (Figura 4). Para a obtenção do índice populacional de bicudo, as armadilhas com feromônios são mantidas por nove semanas ao longo do perímetro da área de algodão, em intervalos entre 150m e 300m entre si, e são inspecionadas semanalmente. A reposição do feromônio é efetuada a cada 14 dias. Como durante o período de entressafra não há plantas de algodão, não haverá competição com semioquímicos emitidos pelas plantas. As capturas darão ideia da intensidade de infestação de bicudos naquele talhão.

De acordo com o nível médio de infestação de bicudos capturados por armadilha, é obtido o “índice de bicudo por armadilha por semana” (BAS), que classifica o talhão de algodão em cores e permite a tomada de decisão (Tabela 1). Desta forma, determina-se o critério de manejo químico no momento mais crítico da lavoura, o início da fase de florescimento.

ATRAI-E-MATA

Outra forma eficiente de se realizar o controle comportamental é através do uso de dispositivos atrai-e-mata (Figura 5). Nas grandes extensões de área cultivada com algodoeiro do Cerrado brasileiro, estes dispositivos são aliados no manejo integrado do bicudo, complementado com as diversas medidas de controle químico e cultural utilizadas no período de safra.

Figura 3 – Número de pulverizações por safra para controle das pragas do algodoeiro no Cerrado brasileiro

Figura 4 - Armadilha com feromônio para atrair o bicudo próxima à lavoura de algodão

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Fotos José Ednilson Miranda

Tabela 1 - Tomada de decisão de controle do bicudo de acordo com o armadilhamento de entressafra Índice de bicudo por armadilha por semana (BAS) 0 0,1 a 1 1,1 a 2 Mais que 2

Cor do talhão Verde Azul Amarelo Vermelho

Decisão1 Não pulverizar Uma pulverização Duas pulverizações Três pulverizações

Figura 5 – Dispositivo atrai-e-mata ao lado de plantas de algodoeiro

Consiste de tubo de papelão amarelado impregnado com inseticida malationa e óleo de algodão. No seu interior é colocado um feromônio do bicudo mais concentrado que o da armadilha, por isso tem vida útil bem maior, de 55 dias a 60 dias. Sua instalação deve ser realizada logo após a destruição dos restos de cultura e o dispositivo permanecerá no campo por dois meses (Figura 6). Em seguida, se instalam as armadilhas. Na lavoura seguinte, pode-se instalar novamente os dispositivos aos 30 dias antes da semeadura. Diferentemente das armadilhas, os dispositivos atrai-e-mata não precisam ser instalados ao longo de toda a bordadura da área cultivada, mas apenas nas faixas onde mais se capturam bicudos, pois aí está a rota de migração dos insetos da lavoura para a mata e vice-versa. Diferentemente da armadilha, que serve para o monitoramento da área, a utilização de dispositivos atrai-e-mata, como o nome já sugere, tem a finalidade de reduzir a população do inseto na área. Seu uso é estratégico e controla os bicudos remanescentes de final de safra, que migrariam para as áreas de refúgio e voltariam na safra seguinte para produzir nova geração. Um ensaio realizado no Mato Grosso demonstrou que o con-

Figura 6 – Dispositivos atrai-e-mata alocados no perímetro da área de algodão

trole cultural (destruição de restos culturais), o controle químico (aplicação de inseticida após a colheita) e o controle comportamental (instalação de dispositivos atrai-e-mata) dão melhor resultado quando combinados (Figura 7). As três medidas usadas em conjunto reduziram mais de 80% da população de bicudos. Assim, muito mais do que a simples adoção do controle químico, o esmero na execução das ações de monitoramento, a destruição de restos culturais, a eliminação de plantas tigueras, o vazio sanitário de pelo menos 60 dias e o armadilhamento de entressafra formam o conjunto de medidas que devem ser adotadas por toda a região produtora de algodão. Finalmente, é importante ressaltar que o manejo do bicudo deve ser coletivo, regionalizado e organizado, com ações conjuntas executadas pelos produtores da região. A consciência coletiva é o ponto fundamental para o sucesso C do combate ao bicudo. José Ednilson Miranda e Sandra Maria Morais Rodrigues, Embrapa Algodão

Figura 7 – Número de bicudos capturados em armadilhas na entressafra. Campo Verde, MT. DRC = destruição de restos culturais; I = aplicação de inseticida após a colheita; A-M = dispositivos atrai-e-mata.

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Milho

Lagartas em alta Simone Martins Mendes

A oferta abundante de comida proporcionada pelo modelo agrícola com safras consecutivas no Brasil dificultou sobremaneira o combate a pragas. É o caso de Spodoptera frugiperda, a popular lagarta-do-cartucho na cultura do milho. O uso equilibrado das estratégias de manejo integrado tem sido a melhor tática para conviver com insetos nos sistemas intensivos de produção

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modelo de agricultura tropical brasileiro tem como diferencial permitir a produção por duas a três safras anuais consecutivas. Mas, se por um lado este tipo de exploração do solo permite maior rendimento por unidade de área; por outro, a sobreposição das safras dificulta o manejo de insetos-praga, sobretudo daqueles de hábito polífago, que são favorecidos pela formação da “ponte verde”, conectando as sucessivas safras primavera/verão/outono e inverno. Um importante grupo dos insetos polífagos pertence à ordem Lepidoptera, com destaque para lagarta-do-cartucho do milho, Spodoptera frugiperda, praga-chave na maioria das regiões do País em função da ampla distribuição geográfica, por ser endêmica nas Américas e estar adaptada a se alimentar o ano todo em culturas de importância agrícola (milho, sorgo, trigo, arroz, feijão, soja, algodão). Inclusive, destaca-se como uma das espécies-praga mais importante nos sistemas intensificados de plantio, tanto nas culturas comerciais como nas de cobertura, como as braquiárias Urochloa decumbens e Urochloa ruziziensis. Mas as lavouras de milho também são danificadas por outros importantes lepidópteros-praga polífagos, como Diatraea saccharalis, Helicoverpa zea, Elasmopalpus lignoselus, além da Helicoverpa armigera, que ocorre em lavouras de milho, sobretudo nas regiões onde predomina o cultivo do algodão.

IMPLICAÇÕES DO HÁBITO POLÍFAGO NO MANEJO

A polifagia é uma característica biológica de algumas espécies fitófagas para garantir sua sobrevivência, seu desempenho biológico e sua prevalência populacional ininterruptamente. Assim, muitos destes insetos conseguem manter-se em baixa densidade em diferentes plantas hospedeiras, até encontrarem um alimento adequado para expressarem todo seu potencial biótico. Spodoptera frugiperda é uma das espécies polífagas mais nocivas para as culturas anuais nas

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regiões tropicais das Américas. As lagartas podem causar perdas que variam de 17% a 38,7% na produção de milho e de sorgo, em função do ambiente, da cultivar e do estádio de desenvolvimento das plantas atacadas. Durante o verão, a soja é uma das culturas mais abundantes no agroecossistema e desempenha papel importante na sobrevivência de populações de S. frugiperda que acabam submetidas a uma monofagia funcional, devido à ausência dos hospedeiros preferidos como o milho e o sorgo, que geralmente são cultivados em sucessão à soja. Além disso, plantas daninhas como milheto, capim-pé-de-galinha e sorgo selvagem também podem manter suas populações na área. Mesmo quando se utilizam práticas conservacionistas e desejáveis aos sistemas de produção, como plantio direto e culturas de cobertura, deve ser considerada a questão da “ponte verde”. As braquiárias (U. decumbens e U. ruziziensis) são muito utilizadas como planta de cobertura por produzir grande quantidade de massa verde. No entanto, favorecem o desenvolvimento de S. frugiperda. Além disso, no sistema de plantio direto, como não há revolvimento do solo, ocorre maior sobrevivência das pupas que passam essa fase no solo. Por outro lado, a crotalária é uma das plantas de cobertura utilizadas em plantio direto que menos favorece a sobrevivência da espécie. Assim, é possível inferir que o plantio de crotalária em regiões onde a pressão de S. frugiperda é muito alta, pode ser uma ferramenta de supressão da população dessa praga. A habilidade de S. frugiperda em

se manter no ambiente com o uso de hospedeiros alternativos tem proporcionado a prevalência de injúrias em plantas recém-emergidas dos hospedeiros preferenciais, por meio da abertura de galeria na região do coleto, causando o sintoma conhecido como coração-morto e a consequente redução do estande em condições de intensificação de cultivo. Nesse caso, uma das estratégias principais para o manejo é a realização da dessecação 20 dias a 30 dias antes do plantio, com o intuito de reduzir ou eliminar a oferta de alimento para o inseto.

USO DE PLANTAS BT NO MANEJO DE LAGARTAS

O milho Bt tem sido utilizado em todas as regiões agrícolas do País, atingindo mais de 80% da área cultivada. Consiste em um milho geneticamente modificado, que expressa proteínas inseticidas, cujos genes foram clonados da bactéria Bacillus thuringiensis. Essas proteínas inseticidas produzidas pela própria planta possuem ação no intestino médio da lagarta, onde se ligam a receptores específicos formando poros que promovem a ruptura da parede intestinal. Nesse processo biológico ocorre a liberação do conteúdo da célula e o inseto paralisa sua alimentação, mesmo antes de sua morte. As proteínas inseticidas ou proteínas Bt, são expressas em todos os tecidos da planta, assim na lavoura todas as lagartas estão expostas às proteínas tóxicas. Dessa forma, como a lagarta é difícil de ser atingida dentro do cartucho do milho via pulverização, com a utilização do milho Bt o alvo é facilmente alcançado, sendo esta uma das vantagens desta tecnologia.

Quadro 1 - Tecnologias Bt disponíveis comercialmente no Brasil para o controle de insetos-praga nas culturas de algodão, milho e soja Bt (Fonte: CTNBio, Janeiro de 2018) Cultura Algodão

Milho

Soja

Proteína Bt Cry 1Ac Cry1Ac/CRY 1F Cry 1Ac/Cry2Ab2 Cry 1Ab/Cry2Ae Cry1Ab/Cry2Ae/Vip3Aa Cry 1 Ab Cry 1 F Cry1A.105/Cry2Ab2 Cry1Ab/Vip3Aa20 Cry1A.105/Cry2Ab2/Cry1F Cry1Ab/Cry1F Cry1A.105/Cry2Ab2/Cry3Bb1 Cry1Ab/Cry1F/Vip3Aa20 Cry1A.105/Cry2Ab2/Cry1F/Vip3Aa Cry1 Ac

Por outro lado, as principais desvantagens são a pressão de seleção e a velocidade com que esses insetos são selecionados para resistência a essas proteínas. Além disso, as mesmas proteínas Bt são expressas nas culturas que se sucedem algodão, soja e milho (Quadro 1). É importante considerar que dentre as tecnologias Bt disponíveis no milho cultivado no Brasil, há sete proteínas, sendo cinco com ação para lepidópteros e duas para coleóptero, larvas de Diabrotica speciosa. Destas cinco proteínas, duas (Cry1F e Cry1Ab), oficialmente, perderam a eficácia devido à quebra da resistência por S. frugiperda, a principal praga-alvo das tecnologias Bt no milho. Também vale lembrar que dados de pesquisa mostram que a presença de mais de uma proteína com sítios de ação diferentes (eventos piramidados), para a praga-alvo, pode retardar a evolução da resistência. Além disso, as proteínas inseticidas expressas em alta dose, com 99% ou mais de eficiência de controle da população de insetos, são importantes para

(Fonte: Dias et al, 2016)

Paulo A. Viana

Figura 1 - Sobrevivência (%) de Spodoptera frugiperda em diferentes plantas de cobertura utilizadas em sistemas de plantio direto, avaliadas em casa de vegetação

Sintoma de coração morto causado pela lagarta de Spodoptera frugiperda

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Figura 2 - Inseticidas registrados junto ao Mapa para o controle de Spodoptera frugiperda, num programa de manejo integrado de pragas em lavouras de milho no Brasil – *extraído http://agrofit.agricultura.gov.br

retardar a evolução da resistência, prolongando a vida útil da tecnologia. Dessa forma, eventos piramidados para o manejo de lagartas com tecnologias Bt são mais efetivos quando comparados às tecnologias com um único evento. Assim, o nível de controle obtido a campo pode ser afetado substancialmente dependendo da região, da população da praga, da tecnologia utilizada (proteínas presentes nas tecnologias), da expressão das proteínas em alta dose e das boas práticas agronômicas adotadas, sobretudo da área de refúgio.

A

B

Figura 3 - Piso da armadilha de feromônio com adultos de lagartas falsa-medideira capturados (A); Armadilha instalada (B)

A NECESSIDADE DA ÁREA DE REFÚGIO

O plantio de áreas de refúgio é um pré-requisito fundamental para o manejo da resistência de insetos às proteínas Bt e que combinado com o efeito da alta dose (mata os insetos heterozigotos) é essencial para prolongar a durabilidade da resistência das plantas de milho e retardar a evolução da resistência dos insetos-alvo a campo. Nesse sentido, as instituições públicas e as empresas detentoras das tecnologias Bt têm feito um enorme esforço em todo o País no sentido de conscientizar os produtores a respeito da aplicação das Boas Práticas Agronômicas em Culturas Bt para o Manejo da Resistência. Com base nisto, por meio da adoção dessas práticas a toda safra espera-se que a tecnologia Bt continue contribuindo para o manejo eficiente das principais pragas-alvo em cada cultura.

O USO DE INSETICIDAS

Somente para o controle de S. frugiperda no milho estão registrados junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) 192 produtos. Desses, tem-se: um feromônio, dois B. thuringiensis, um baculovírus e um parasitoide, um extrato de planta – Azadiractina. Os demais produtos pertencem a 47 princípios ativos comercializados sozinhos ou combinados entre si. Existem várias alternativas para o controle de S. frugiperda em milho. No entanto, essa diversidade de produtos disponíveis não atende à demanda em qualidade e eficácia de controle nas principais regiões produtoras. Um levantamento realizado na região de Patos de Minas, Minas Gerais, em 2017 e no Mato Grosso, em 2018, mostrou que mesmo com essa variedade de produtos, muitos inseticidas sem registro vêm sendo utilizados para o controle de lagartas.

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A principal dificuldade no controle S. frugiperda no milho com inseticidas (químicos ou biológicos) está na janela de aplicação. Como ocorre superposição de gerações, o fluxo de larvas pequenas, médias e grandes se superpõe e a efetividade desses produtos fica extremamente reduzida quando a lagarta se protege dentro do cartucho da planta. Neste caso, as larvas maiores que 1,5cm se alimentam no palmito do milho, parte da planta em franco crescimento e totalmente protegida de agentes externos. Além disso, as fezes, eliminadas pela lagarta, obstruem a entrada da galeria por onde o inseto penetrou, o que dificulta ainda mais o acesso dos agentes de controle. No estado do Mato Grosso, nas lavouras de milho safrinha em 2018, S. frugiperda foi citada pelos produtores como a principal praga da cultura nos levantamentos realizados durante o Circuito Tecnológico Aprosoja/Embrapa. Nesse levantamento também se observou que os produtores têm realizado entre duas e três aplicações de inseticidas químicos mesmo com o plantio do milho Bt, e de três a quatro aplicações em milho não Bt. A eficiência do produto é citada pelos produtores como o fator mais importante na escolha, contudo, em muitos casos, a venda dos insumos aos produtores é fechada antes mesmo do plantio da safra e um calendário de aplicações ofertado. Entretanto, na

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adoção do MIP, tanto o monitoramento adequado como a tecnologia de aplicação dos agentes de controle são práticas ainda pouco dominadas pela maioria dos produtores. A logística para tornar possíveis os tratamentos fitossanitários (herbicida, fungicida, inseticida) tem sido um dos principais gargalos da não observação dos preceitos do Manejo Integrado de Pragas (MIP). Nesse cenário, vale voltar às premissas básicas do MIP, que são o custo e o nível de controle. Aplicações calendarizadas são antieconômicas, pois inviabilizam o controle biológico natural e não consideram o nível de infestação da praga. Além disso, expõem a população das pragas-alvo aos inseticidas e aceleram a seleção precoce de populações resistentesaos produtos, pois mais de 90% das lagartas recém-eclodidas serão eliminadas naturalmente. O uso equilibrado das estratégias de manejo integrado potencializa sua eficácia e aumenta sua vida útil, evitando aplicações crescentes para o controle de lagartas nos sistemas C intensivos de produção. Simone Martins Mendes, Embrapa Milho e Sorgo Rosangela C. Marucci, Universidade Federal de Lavras José Magid Waquil, Universidade Federal de São João Del Rei


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